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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Mais obras do 'artista'

      Passear pela praia dá nisto.

     Há sempre uma pedra na caminhada pelo areal, algumas revelando formas interessantes e atraindo as mãos que as transportam até casa.
     Depois, com um pouco de brilho, cor e aplicações de outras artes, produz-se um adorno a evocar lembranças, trazendo para dentro da casa um pedaço de céu e de mar, mais o sol que hoje eclipsou.

Uma "barcarola ou marinha" numa das estantes com muito estudo da literatura portuguesa (foto VO)

      Mais uma obra do 'artista' para a coleção decorativa da casa.

      Haja vontade, porque matéria prima não falta, a par de alguma criatividade.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

E, agora, fico-me por Valter Hugo Mãe

       A próxima leitura surge por um gesto de gratidão.

     Vários motivos podiam estar na base desta escolha: a presença do autor numa dinâmica da escola, à qual lamentavelmente tive de faltar; uma lista de três obras do mesmo, na estante, à espera de vez; o reconhecimento que o escritor tem vindo a merecer nacional e internacionalmente. 
    Um outro, maior, sobressai: a oferta feita num momento especial da vida, à hora de uma despedida sem partida. Sem necessidade de justificação, mas "just because". Ficaram as palavras gravadas na memória desse momento: "Só porque... findou o mandato, não significa que deixe o lugar que conquistou nos nossos corações! Obrigada por tudo, pelo respeito, carinho e amizade que sempre nos dedicou."
      Estão comigo. Na vida, no exercício profissional, na leitura e no afeto.
     Entre o muito que lhes devo, nestes tempos em que "estamos todos tão ocupados de nada" (como o afirma o cineasta Miguel Gonçalves Mendes no prefácio), motivo a leitura pela aproximação a um título que, dizem, lhes fez lembrar a minha pessoa. 
     Serei homem imprudentemente poético? Veremos o que a obra me trará.
     Na epígrafe, lê-se "Chieko descobriu as violetas que floresciam no velho tronco do carvalho. «Floriram também este ano.» Com estas palavras foi ao encontro da doce Primavera" (Yasunari Kawabata, Kyoto). Sei que estamos no verão. Do outono ao inverno, há caminho a cumprir. Se a primavera vai ser doce, por ora desconheço. O tempo, o da leitura ou outro, confirmará ou infirmará a doçura da estação. O caminho faço-o na consciência do que sempre recebi: empenho, compromisso, disponibilidade, colaboração, dedicação. Entre sufocos e sorrisos, estivemos juntos.
       Nesta hora, deixo a voz para as primeiras palavras, frases da primeira parte do romance ("A origem do sol"), com a apresentação de "Itaro, o artesão":

Uma oferta para leitura partilhada, com voz (Montagem VO)

      Há algo de visionário na mensagem lida / partilhada, ainda que o perigo da cegueira seja evidente. Prova de que um (o visionarismo) não é impedido pela outra (a cegueira), ou que esta se sobreponha àquele.

    Começamos bem, na leitura; continuamos juntos, no agrupamento e nos serviços que nos unem. Muito obrigado a todos(as), por bons anos (quatro para uns, três para outros, dois, um ou nem isso para alguns) partilhados, mais tudo aquilo que possa vir a ser.
      

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Antes dos 70

     Na preparação do meio século de carreira.

     A voz dos Trovante, a voz de um percurso a solo pode continuar a cada vez que se cantar com o ritmo e a cadência musical familiar das canções que, coletivamente, se reconhecem. A marca deixada no cancioneiro da música portuguesa acompanha lutas grandes e pequenas, dentro e fora de portas.
    O dia nasce com a notícia da morte de Luís Represas, na discrição do que foi uma doença prolongada a pôr fim ao espetáculo ao vivo. Persistirá na memória dos que veem e ouvem as suas composições, letras e canto, mesmo estando agora "Fora de mão" (álbum de 2003):

Da voz que nos deixa à música que nos faz ouvir há décadas

    Sem querer trair a autoria inspiradora, diria que "As ruas da minha cidade abriram" não os olhos, mas os ouvidos, para se ficar a saber o que não se queria: partiu "sem deixar destino ou direção."

DA PRÓXIMA VEZ

As ruas da minha cidade 
abriram os olhos de encanto para te ver passar
As pedras calaram os passos 
e as casas abriram janelas só para te ouvir cantar
Porque há muito muito tempo não vinhas ao teu lugar
Ninguém sabia ao certo onde te procurar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Quisemos saber como estavas, 
se a vida tinha tomado bem conta de ti
Ou se a vida teve medo 
e eras tu que a levava refugiada em ti
Cada verão que passava sentíamos-te chegar
Como era possível que o sol se atrevesse a brilhar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Deves trazer tantas histórias, 
tantas que algumas ficaram caídas por aí
Outras, eu tenho a certeza, 
o teu fogo na alma queimou, deixaram de existir
Só queremos saber se és a mesma que vimos partir
Não existe mundo lá fora que te possa destruir
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

     Lembro-o por terras de Espinho, num palco junto ao casino, em concerto de verão, há mais de quinze anos. Soam muitas cantigas de sucesso, nas melodias e pelos propósitos da composição (por todos nós, por Cuba ou por Timor).

     "Se houver próxima vez não esqueças / leva contigo recordação...". Um dia, a festa será algures no universo. RIP.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Um prémio nacional!

      Assim foi várias vezes repetido. Com orgulho.

    No passado dia dezasseis de março, enquanto diretor do AEML, tive a oportunidade de endereçar palavras de agradecimento na sessão solene realizada perante a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários de Lisboa, no âmbito da Semana de Formação Financeira. Anunciava-se aí a atribuição do Prémio Nacional de Ensino Secundário ao Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), na 14.ª edição do "Concurso Todos Contam". Não estive presente fisicamente, mas de modo remoto; à distância de um clique.
   Hoje, cessadas as funções de então, mas em compresença mais real e autêntica (no tempo e no espaço), sublinho e reitero o reconhecimento e o agradecimento devidos, pelo envolvimento no projeto "Desafios de Literacia Financeira - joga e aprende", avaliado como o melhor projeto nacional de ensino secundário. Um orgulho feito de dinâmicas de professores, de alunos, de encarregados de educação, galvanizados para uma educação de excelência, focada numa prioridade do projeto educativo do AEML, da educação para a cidadania, da formação de muitos jovens (desde o pré-escolar ao 12º ano) e, inclusivamente, de alguns professores.
      Destaco o trabalho de coordenação do Departamento de Ciências Sociais e Humanas, particularmente do grupo disciplinar de Economia e Contabilidade, que chamou a si e ao AEML múltiplas iniciativas envolvendo docentes, discentes e encarregados de educação; agentes locais, regionais, nacionais - todos contribuindo para o que hoje se materializa no reconhecimento público do que foi levado a cabo nesta escola pública, solidária, inclusiva, multiculturalmente diversa, apostada no trabalho de competências múltiplas e de formações diversas.

A hora de receber o cheque do prémio "Todos Contam", na presença de muitos, mas não todos. (Foto GIC)

         Se, inspirados pelo patrono Manuel Laranjeira, é de reconhecer a importância de "abarcar num mesmo olhar o céu e a terra", acrescentaria, em localidade piscatória, a energia do mar. Com esta, entrou-se na onda do tecnológico, do digital e da inteligência artificial; aproveitámos as marés de oportunidades, onde a educação financeira também foi levada a bom porto; aproveitaram-se ventos favoráveis à aprendizagem que nos une enquanto cidadãos ativos e participativos (nos orçamentos, na cidadania, na dinâmica de atividades e projetos). Na integração e articulação construídas (com língua, pensamento matemático, domínio das expressões, literacia financeira), cumpriu-se um projeto digno de consagração, cujo mérito muito enaltece o compromisso com a promoção de competências essenciais junto de jovens. Tem sido este o barco em que navegamos.
        Segundo o Administrador da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, o Dr. Diogo Alarcão, o AEML tem razões para se congratular e orgulhar: recebeu um prémio nacional, por um projeto construído no seu seio. Por isso foi reconhecido, galardoado, incentivado a prosseguir um trabalho que já havia merecido uma menção honrosa, em ano anterior, e que, este ano, evoluiu para a distinção: a melhor escola nacional no concurso "Todos Contam".

Celebração da entrega de um prémio nacional: 14ª edição do concurso "Todos Contam". (Foto GIC)

     Concretizou-se um programa de acolhimento para a receção do prémio. E na presença de todos (representante regional do Banco de Portugal, representantes da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, Presidente da Câmara Municipal de Espinho, Presidente da Junta de Anta, Diretor cessante, Diretora e Presidente do Conselho Geral do AEML, Coordenadora do Departamento de Ciências Sociais e Humanas), os docentes do grupo de Economia e Contabilidade, bem como alunos do agrupamento demonstraram o envolvimento e entusiasmo que caracteriza(ra)m os vencedores.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dar voz às mulheres

       Hoje e sempre, mesmo com uma voz masculina a abrir. 

    Um final de tarde, pelas 17:30, foi tempo de participar na palestra "Dar Voz às Mulheres", no Auditório Maria Ricardo. Em espaço com nome de mulher, foram recebidas seis ex-alunas e/ou professoras do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), numa oportunidade para recordar a passagem delas pela escola e para falar do percurso profissional que assumiram / têm assumido até hoje. Assim culminou o projeto de Cidadania da turma do 11ºF/F1 (Artes e Humanidades), intitulado "Mulheres que transformam o Mundo: Arte, Voz e Cidadania". No mural da cantina, uma exposição sublinhava o contributo feminino para o mundo; no caso português, havia lugar para as figuras singulares de Maria de Lurdes Pintassilgo (até hoje, a única mulher a desempenhar o cargo de primeiro-ministro), de Paula Rego e de Joana Vasconcelos (artistas contemporâneas de renome internacional).
     Convidaram-me para abrir o evento na qualidade de ex-diretor do agrupamento - uma presença masculina que não deixou de agradecer o convite, a iniciativa, um projeto que protagoniza mulheres nas áreas em que se destaca(ra)m: Carolina Marques (ex-aluna e deputada), Margarida Quaresma (professora aposentada e voluntária), Margarida Fonseca (jornalismo), Maria Resende (ex-aluna e jurista da APAV / Assembleia da República), Patrícia Carvalho (ex-aluna e enfermeira) e Ana Pais Oliveira (ex-aluna e artista / professora de dança).
      No âmbito das comemorações dos "50 anos: do Liceu ao Agrupamento", o evento não deixou de ser tributo aos conceitos de democracia, de cidadania e de república (femininas na língua, com a última a ser simbolicamente representada pela alegoria da Marianne portuguesa); cruzou-se com temas de referência como os dos Direitos Humanos e da Igualdade de Género; da Democracia e Participação Política das Mulheres; do Desenvolvimento Sustentável e Empoderamento Feminino; da Literacia Financeira e do Empreendedorismo Feminino; do Pluralismo e da Diversidade Cultural.
      A atualidade da sessão foi notória e notável, com a questão do género a manter-se premente enquanto tópico de discussão num mundo ainda pautado pelo domínio / poder masculino. Mesmo assim, a afirmação do foco feminino não deixou de ser uma constante, remontando aos tempos da antiguidade. O tema é transversal na cultura e na literatura - assim se pense na poetisa Safo de Lesbos (c.630-570 a. C.), na helénica Corina (quinto século a. C.), na ascensão de Cleópatra, nas figuras das proféticas sibilas, na romana Sulpícia (primeiro século a.C.), na mártir cristã Perpétua (c.182-203 d. C.); assim se leiam cantigas de amigo, obras de Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge ou se representem personagens ficticiamente inspiradoras como Matilde de Melo, Blimunda ou Lídia (clássica e moderna).
     É um facto que, no seio dos grandes feitos e heroísmos masculinos, grandes homens tiveram sempre o apoio e o amparo de não menores figuras femininas: num tempo como o reinado quinhentista de D. Manuel (o Venturoso), teve de existir uma infanta D. Maria na afirmação e expansão da cultura nacional; o século XVIII vincou o papel da poetisa e pedagoga Marquesa de Alorna, ainda com muito por divulgar e reconhecer na sua obra; a democracia e a liberdade do século XX muito devem ao pensamento ousado e feminino / feminista das três Marias (Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno), com as suas Novas Cartas Portuguesas, de 1972.
      E na geografia nortenha que nos radica, entre o Minho e o Douro, não é de esquecer o sentido da raiz, da origem, de um matriarcado que se firma nos valores fundacionais, da terra, da resistência e da tradição - simbologia de um género que sublima a mítica Geia ou Gaia.

As convidadas no Auditório Maria Ricardo do AEML, numa lição de testemunhos, vivências e conselhos 
(Foto VO)

      A par de tudo isto, três jovens estudantes conduziram uma palestra que (entre o registo da entrevista, a curiosidade juvenil perante vidas experientes, a partilha de conselhos) resultou numa oportunidade feliz de aprendizagens, de expressão de emoções, de uma lição e afirmação expectante numa mundividência outra para gerações futuras. Só para me manter no feminino.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Presença distanciada, muito comprometida

      Há que explorar as possibilidades que a tecnologia permite.

     É a presença sem estar no espaço; é o agora sem o aqui, com tempo(s), instante(s) em paralelo. Foi desta forma que, posso afirmar, estive com o Sr. Ministro da Educação Ciência e Cultura; com o Sr. Diretor do Banco de Portugal e com as altas individualidades da Conselho Nacional de Supervisão Financeira. Impossibilidades de exercício de funções e limitações na distância geográfica não podem comprometer a participação e a representação do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) num momento de orgulho singular: a atribuição do primeiro prémio nacional do ensino secundário na 14.ª edição do Concurso "Todos Contam".
     A sessão solene de anúncio dos vencedores desta edição do concurso ocorreu pelas 14h00, na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, em Lisboa, e o convite feito tanto pela Comissão de Coordenação do Plano Nacional de Formação Financeira como pelo Departamento de Ciências Sociais e Humanas do AEML tinham de dar lugar a resposta positiva.

Evidência da presença distanciada, com orgulho no AEML (Foto cedida pela CMVM)

    Num discurso de reconhecimento a quem mais diretamente levou a cabo o projeto vencedor (grupo docente de Economia e Contabilidade), a par de todos os que deram o seu contributo implicado e empenhado (e foram muitos), fica a nota audiovisual do dito:

A prova do dito: do prémio atribuído e do discurso pronunciado (excerto do vídeo público da CMVM)

     "Desafio de Literacia Financeira - joga e aprende" é o exemplo do envolvimento de muitos e de variadas competências. Articular e integrar é possível, numa conjugação de propósitos afins, levados a cabo em várias iniciativas dinamizadas no âmbito da educação e da escola públicas, implicando professores e alunos desde o pré-escolar ao ensino secundário, nas múltiplas inteligências e competências que confluíram nas áreas linguísticas, matemáticas e das expressões.

    Um momento feliz para o agrupamento e para quem faz dele entidade de referência nacional. A gratidão é o valor de ordem e a representação do AEML é um dever a cumprir, como sinal natural do orgulho e do agradecimento por (me) colocarem (com) Laranjeira, enquanto marca institucional, na senda da excelência educativa.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Dia ou noite... de reis e de rainhas..., com príncipes e princesas

     Há quem diga que devia ser feriado; pelo vivido hoje, não.

     Até porque, se o fosse, não teria, por princípio, acontecido o que registo.
     Não foi a noite de reis. 
   Foi a noite do dia de reis, com muitas rainhas e outros tantos muito especiais - o primeiro dia de entrega dos diplomas no Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), para os 4º, 5º e 6º anos, na Escola Básica Integrada Sá Couto (EBISC). 116 alunos(as) a receberem o aplauso e o diploma pelo sucesso de qualidade conseguido (excelência académica, mérito desportivo e reconhecimento de valores) em três das escolas do AEML. 

Um dos diplomas atribuídos (Excelência Académica), a par de outros.

       Outros dias e outros anos de escolaridade virão com o decorrer da semana; mas tudo começou com grande emoção.
     Falhou a intensidade da música, mas a dança ensaiada sem qualquer barreira, a tímida melodia, o gesto e o ritmo demonstrados, a mensagem do "Gosto de ti" (de André Sardet) e uns jovens encadeirados a dançar com quem não aparenta tais limitações foram ingredientes para um momento comovente, magnífico, a fazer acreditar que o mundo pode ser tão melhor! Todos unidos por uma t-shirt branca com um coração rubro se mostraram conquistadores de um público que assistia no respeito do silêncio, da diferença, na consciência de que estavam juntos por e para uma causa maior, independentemente das fragilidades existentes.
       As palmas pelos diplomas atribuídos não apagaram um silêncio construído em união e com coração.
     Não ouvi chamar nenhum Belchior, nem Gaspar, nem Baltazar, mas havia muitos nomes de pequenos reis e rainhas que, no ano letivo 2024-2025, trouxeram, do ouro, o brilho do orgulho sentido; da mirra, o aroma da humanidade; do incenso, o exemplo do esforço e da transcendência de todos os que procuram superar-se no estudo, no desporto, nos valores que a escola pública assume na formação integral e integrada de futuros cidadãos (respeitáveis, trabalhadores, colaborativos, inclusivos, solidários). Já o são e prometem continuar a ser.
       Hoje, no dia da adoração de reis (e por que motivo não acrescentar rainhas?), a todos os presentes, importou destacar a estrela da gratidão: aos(às) alunos(as) reconhecidos(as)  pelo mérito / sucesso de qualidade no desempenho das aprendizagens feitas; aos(às) professores(as) envolvidos(as) no acompanhamento dessas aprendizagens, representados(as) pelos(as) Diretores(as) de Turma presentes, alguns(mas) vindos(as) de outras escolas, após um dia de trabalho(s); aos assistentes técnicos e operacionais, tantas vezes a dar a mão e o coração nos corredores, no recreio e nos espaços que nem sempre são letivos. Gratidão também aos (às) Encarregados(as) de Educação e familiares das crianças e jovens que, entre esforços e cansaços, têm sabido ir além do esfumar dos dias, lembrando que a verdadeira fama requer esforço; que o sucesso só aparece antes de trabalho no dicionário; que o alimento serve não só o corpo mas também o espírito, engrandecendo todos os que sabem olhar para a esquerda, a direita, para a frente e para trás, encontrando o outro, aquele que caminha junto, em grito de apoio, de solidariedade, de inclusão (sem egoísmos e com foco no bem comum).
       Manuel Laranjeira, patrono do agrupamento, enquanto escritor, afirmava, numa carta ao amigo Luiz Pinto Ribeiro (05.03.1904), que não aspirava a "homem célebre"; que "escrevia para satisfazer uma necessidade pessoal que é dizer aos outros o que pensa da vida e dos homens" (in Cartas, Lisboa, Relógio d'Água, [1943] 1990, p.26).
    Penso da vida e dos homens... que o orgulho (bom) assenta na realização, no reconhecimento e na felicidade pessoais em prol do bem comum; que a ambição (boa) se funda no que possa fazer-se para o bem da comunidade; que o percurso a cumprir, independentemente das pedras no caminho, se quer na continuidade do bem que se viva e das aprendizagens que se querem conquistadas na vida para a felicidade todos.

      Por todos os momentos e por um especial, logo o inicial, este foi um verdadeiro dia de reis e rainhas. Com a gratidão devida a quem organizou, participou e permitiu viver um instante que fez a diferença do dia no AEML.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Animar... a leitura

       Fui convidado a ler, numa turma de 10º ano, um texto sobre o natal... tempo de nascer...

    A proposta da Biblioteca AEML consistia num breve momento de leitura em todas as turmas, enquanto dinâmica enquadrada na feira do livro, mais a abordagem temática do natal e do nascer. 
     Ao final de uma primeira experiência, veio a segunda e, porque não há duas sem três, lá chegou mais uma.
      Inscreveram-se as turmas que quiseram receber o(a) leitor(a). Eis que lhes surge o diretor... para ler.
     Levei comigo o livro (Quinze Poetas Portugueses do Século XX, com seleção e prefácio de Gastão Cruz), apresentei o autor (Jorge de Sena), pedi que me dissessem se o poema trazido tinha alguma coisa a ver com o natal, o nascer; mas, acima de tudo, quis que partilhassem comigo a leitura a fazer. 
     Ensaiado um esquema de animação (escrita a palavra "BRILHA" no quadro; lida em voz alta e em coro, marcando a força, a vontade e a luminosidade que importa ter neste mundo; combinado o momento em que a diriam), foi só oralizar o texto:

"Uma Pequenina Luz", de Jorge de Sena, in Fidelidade (1958), com voz e vídeo de VO

     No final, depois de partilharmos a voz na leitura, pronunciaram-se sobre a (in)adequação da escolha; refletiram sobre o que "nasceu" no momento viv(enc)i(a)do; explicaram aproximações e afastamentos de opiniões; concluíram que, no ato de ler, é possível a união, o gosto da emoção, o (re)nascimento do que vale na vida.
       Tiveram cinco minutos (talvez dez) de, espero, luz com a poesia.

   Também eu vivi a luz, o calor, o gosto de estar na sala de aula, com todos eles. Esqueci dores, agruras, urgências, sufocos e senti que todos merecemos experienciar momentos destes mais vezes. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

São Martinho, com castanhas, sem vinho

       Não foi no dia (a 11 / 11), mas é como se fosse.

     Um dia depois, as castanhas de São Martinho chegaram-me generosamente à mão, em saquinho funcional e motivadamente decorado, bem como ao paladar, entre o faminto e o sedento.
      Nem dei conta do santo. Foi-me anunciado, é certo, mas, na azáfama do dia, ele não me valeu, com o seu manto de aconchego e conforto. Ainda assim, há quem não se esqueça de mim e me traga o "mimo" da tradição, lembrando o magusto.
       Fico-me pelo comer.

Um saquinho de castanhas que valeu pelo santo esquecido, na voragem do dia 
(Fotografia VO)

       Do vinho, nem vê-lo! É como o verão: nos dias outoniços de chuva e da depressão Cláudia recentemente chegada a Portugal, lá se vai o provérbio que ditava "Verão de São Martinho são três dias e mais um bocadinho." 

      Sim, ditava. Neste ano, nem um bocadinho, quanto mais três dias! Grato pelas castanhas que alimentaram a alma e, por momentos, fizeram esquecer as agruras do dia. (Com agradecimento à SF).

terça-feira, 4 de novembro de 2025

50 anos com Laranjeira(s)

       Primeiro dia de aulas, meio século depois.

      Quando neste dia abriram as portas do edificado construído para o então designado Liceu Nacional de Espinho, houve certamente um entusiasmo que, hoje, foi traduzido em festa e num conjunto de iniciativas que tanto serviram para lembrança como para afirmação de um presente com futuro.

A pedra oficial, porque gravada com o ofício anunciador da abertura da escola onde seria alocado
 o Liceu Nacional de Espinho em 1975 (ofício assinado pela professora Maria do Céu Beato Oliveira Dias de Sousa, 
presidente do Conselho Diretivo Provisório - Foto VO)

       O anúncio à comunidade fez-se à entrada, não fosse o facto de (ainda) se desconhecer o tema de um plano de atividades que viu a celebração do meio século da revolução de abril (em 2024-25) transformar-se nos "50 anos: do Liceu ao Agrupamento" (em 2025-26).

50 anos depois: no mesmo lugar, mas com uma escola requalificada (Foto GIC)

     Entre as várias formas de festejo (na escola-sede do agrupamento, bem como nas restantes três unidades orgânicas), regista-se a plantação de laranjeiras nos espaços escolares, nomeadamente na Escola Básica Integrada Sá Couto (EBISC): dez árvores à espera da flor e do fruto, convocando o jogo antonomásico que o sobrenome do atual patrono (Manuel Laranjeira) possa evocar.

Plantação de laranjeiras na EBISC, unidade do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira 
(montagem fotográfica VO)

     Seja este mais um sinal da identidade e pertença do agrupamento, assim homens e mulheres queiram e a natureza permita. 
       Fique em verso o que a inspiração deu:

Lembrando o lema do blogue: "Faz da palavra a flor, do ato o fruto 
e saciarás os que aspiram a mais do que este mundo oferece: realidade em demasia e luz de fantasia"

       Cumpre-se o tempo com sinais de lembranças, de homenagem que muitos (re)vivem já no caminho a fazer para o século.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Na senda do digital

      A convite da Direção Geral de Educação (DGE), a minha participação aconteceu à distância de um clique.

    O propósito era o de, num workshop online intitulado “Cenários de aprendizagem com recurso às tecnologias e aos manuais digitais”, entre as 17h30 e as 20h30, fazer uma alocução na rubrica “À conversa com…”, partilhando a experiência do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) na implementação e utilização dos manuais digitais. Em cerca de 20-30 minutos, fiz incidir o discurso sobre alguns eixos de reflexão, nomeadamente: a importância dos manuais digitais no apoio à aprendizagem dos alunos; as razões que motivaram a adesão do AEML à iniciativa e os benefícios identificados; a estratégia de implementação e a articulação com o Projeto Educativo; a forma como os objetivos definidos têm vindo a ser concretizados; as perspetivas futuras no âmbito da utilização dos manuais digitais.
      A ação promovida resultou numa formação de curta duração (ACD), orientada para a promoção e integração do uso das tecnologias digitais enquanto ferramentas ao serviço de uma educação de qualidade, designadamente no que respeita à utilização pedagógica dos manuais digitais, valorizando os recursos disponíveis e partilhando práticas potenciadoras do envolvimento dos alunos nas aprendizagens. Apresentando exemplos e estratégias de utilização dos manuais digitais e de outras ferramentas tecnológicas nas práticas de ensino, em diferentes contextos e áreas disciplinares, em articulação com outros recursos, a representação do AEML procurou, desde logo, sublinhar a importância do digital tanto em contexto de sala de aula como fora dela e dos tempos letivos. Não na substituição de nada nem de ninguém; antes, no propósito de integrar e de se assumir como uma outra oportunidade de trabalho, explorando um fator motivacional (pela abrangência de sentidos ativados; pelo envolvimento e imersão num mundo de dispositivos oportuno, diverso e plural; pela convocação de efeitos de "realia" e autenticidade de conhecimentos partilhados; pela estratégia de gamificação que possa implicar); a acessibilidade a fontes diversas de informação, que importa trabalhar / tratar lógica e criticamente, segundo as competências e as aprendizagens essenciais definidas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO); as possibilidades de proximidade / ajustamento de condições de ensino-aprendizagem (por efeitos de personalização, diferenciação e inclusão, no recurso a serviços, aplicativos e adequação de ritmos / tempos). Em suma, encarando o digital como um meio para um fim maior.
Plataforma Aprender-AEML
     Vários motivos têm presidido à adesão, pode dizer-se, deste projeto de ação, que foi tornando cada vez mais o AEML como escola / agrupamento digital: a já longa oferta formativa dos cursos profissionalizantes, no âmbito dos cursos multimédia e audiovisual, bem como dos cursos regulares do ensino básico e secundário, com a disciplina de oferta de escola Média XXI (a par de Tecnologias de Informação e Comunicação - TIC - e de Aplicações Informáticas); a adoção do projeto-piloto dos Manuais Digitais desde os anos letivos 23-24 (implicando as turmas de 5º a 9º anos); a integração do Laboratório de Educação Digital (nos módulos científico-tecnológicos e de comunicação / difusão audiovisual); a transposição e o alargamento dos propósitos do Plano de Transição Digital e do PADDE (Plano de Ação para o Desenvolvimento Digital da Escola, aprovado com a resolução do Conselho de Ministros nº 30/2020) para os de Coordenação de Educação Digital no agrupamento; a construção de uma plataforma de aprendizagem (Aprender AEML), com elaboração, inventariação e aplicação de recursos diversos numa lógica de estudo autónomo. 
     Um projeto educativo que prioriza como um dos seus eixos tanto a escola cultural (onde cabe a cultura difundida digitalmente) como os ambientes (ecológico, relacional, profissionais, comunicativos e de aprendizagem, tecnológicos e digitais), não pode desconsiderar uma área fulcral para as aprendizagens, para a crescente e progressiva integração social e para o domínio de competências de literacia(s) múltipla(s) e de exercício futura e profissionalmente eficiente / eficaz.
     A par dos benefícios associados à implementação destas dinâmicas, não deixou de ser considerada a possibilidade de integrar equipas de trabalho que auxiliaram na partilha, no trabalho e na consultoria de procedimentos (como, entre outros, o Centro de Coordenação TIC e o Centro de Formação Aurélio Paz dos Reis), tudo contribuindo para uma convergência integradora no domínio de competências e inteligências múltiplas; para a construção de maiores níveis de confiança na operacionalização racional de ferramentas e modos de trabalho; para a diversificação de instrumentos / recursos e progressiva consciencialização no uso.
         
Laboratório de Educação Digital (LED) em ação, na escola sede

      A visão estratégia integradora de diversos campos na linha de ação adotada foi sendo alicerçada de acordo com, desde logo, o apetrechamento tecnológico necessário; a consideração da disposição física de espaços (salas de aula, laboratórios); a planificação de aulas e iniciativas orientadas para a aplicação dos recursos / dispositivos. Não menos importante tem sido a dimensão da formação docente, levada a cabo com ações de curta duração, nas quais também participei como formador; com a dinamização das "Jornadas'24 de Inovação e Educação", para as escolas do concelho e zonas geográficas envolventes; com planos de formação desenhados em conjunto com o Centro de Formação e a embaixadora digital; com o acompanhamento dos Centros de Coordenação TIC e as equipas / os núcleos localizados de trabalho instituídos, para partilha de boas práticas / dificuldades / estratégias de resposta; com parcerias editoriais. De considerar ainda a implementação da Academia Digital dos Pais e Encarregados de Educação, como forma de ativar processos de sensibilização, acompanhamento e formação continuada para um público que não deixa de ser central na educação dos jovens.
       
Projeto-piloto dos Manuais Digitais na Escola Básica Integrada Sá Couto (EBISC) e na escola sede

       Nos desafios e nas atualizações constantes a promover, o foco foi sendo definido e orientado para essa moeda de dupla face que é o ensino-aprendizagem, evitando o endeusamento / encantamento pelo imediatismo da máquina e dos suportes tecnológicos; preferindo a articulação com o modelo híbrido de aprendizagens, mais completo e complementarmente sustentado. Neste sentido, procedeu-se a um acompanhamento periódico junto das equipas educativas dos anos de escolaridade envolvidos; a balanços em sede de Conselho Pedagógico e outras estruturas de gestão intermédia (conselhos de grupo disciplinar, de diretores de turma), recorrendo a mecanismos avaliativos promotores de feedback de processos e de resultados, os quais permit(ir)am a reflexão e a transformação das aprendizagens segundo quatro Cs orientadores: competência, comunicação, colaboração, (reflexão) crítica.
       Com o reconhecimento de recuos e avanços, o caminho continua a ser feito com a colaboração de muitos, as resistências de alguns, a consciencialização progressiva da inevitabilidade dos recursos em jogo (não necessariamente para diversão). O uso consistente e consciente das TIC - com ou sem manuais digitais, com aplicações crescentes e diversas, na escola ou na vida - requer uma visão de ensino e de aprendizagem assentes em avaliação sucessiva, na qual os critérios de adequação se impõem, com uma planificação estratégica dos recursos a utilizar, dos objetivos a atingir, da informação a tratar (nas lógicas e nas competências a ativar, no exercício crítico a fomentar, no respeito das fontes a considerar), da avaliação a promover (mais formativa ou mais sumativa, sem deixar de explorar intermodalidades) para monitorização das aprendizagens. Nisto, na nuclearidade de intervenção educativa, não há muita diferença de a(tua)ção; quando muito, esta existe conforme a maior ou a menor abertura à adoção de recursos / suportes, à exploração de oportunidades, ao trabalho a planificar e a cumprir.

     Transmitida a mensagem, expressos os agradecimentos e o reconhecimento da "sua excelente partilha" (citação do dito e do escrito), foi sublinhado o contributo significativo para o sucesso do evento. Mais do que a disponibilidade e o entusiasmo pessoais, ficou a consciência do que foi desenvolvido no agrupamento; da representação que intencionalmente quis marcar em favor de todos aqueles que muito me inspiraram no que disse, a partir do que empenhadamente fizeram / fazem construíram / constroem. A todos estes, muito em particular, fica a gratidão maior, em nome do agrupamento e, permitam-me, em nome pessoal.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Mostra-me os teus Lusíadas - momento de (re)encontro(s)

      Um evento feito de duas palavras.

    Na verdade, houve muitas mais, mas o Sr. Comissário Nacional para a Comemoração dos 500 anos do nascimento de Camões marcou o seu discurso por duas: "Parabéns" e "Obrigado".
      O agradecimento começou quando, na abertura do evento, reparei na presença de várias gerações no Auditório Maria Ricardo - crianças pequenas, jovens, pais, educadoras, professores, avós -, todos em torno de uma atividade promovida pela Coordenação da Biblioteca do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), em articulação com o Departamento de Línguas e o grupo disciplinar de Português: "Mostra-me os teus Lusíadas" (perdoada, claro, a deturpação do título, a bem de uma oralidade mais fluida, natural, tornada escrita).
    Na senda das atividades  promovidas a propósito do ano quingentésimo do nascimento do épico português, o AEML fecha um ciclo, com a recolha de edições da epopeia quinhentista Os Lusíadas e o propósito de encontrar a mais antiga. Entre vários formatos e edições de diversas datas, não se chegou à original (de 1572); conseguiu-se recuar até ao ano 1870, com uma edição de bolso, não maior do que a palma da mão, surpreendentemente composta de finas e pequenas páginas onde cabiam 1102 estâncias (para 8816 versos) distribuídas por dez cantos. Caso para dizer que "Mostra-me os teus Lusíadas" quase precisava do complemento lupa para a devida leitura.

Bem andei com os meus Os Lusíadas à mostra, com muitas notas minhas (como aluno e professor), 
mas era apenas uma edição do século passado (1978). Havia vários exemplares datados do século XIX!

      O Auditório Maria Ricardo (inicialmente) e a Biblioteca da escola-sede do agrupamento (aquando da divulgação de prémios, generosamente patrocinados pela Porto Editora e pelo Grupo Solverde) foram os locais de (re)encontro, onde se acolheu uma exposição de livros e se recebeu o grupo de convidados e participantes, numa oportunidade para lembrar diferentes gerações de que, para lá dos planos da História de Portugal, da viagem marítima até à Índia e dos episódios mitológicos, há mais um (o quarto) com versos épicos camonianos a sublinhar a universalidade, intemporalidade e a contemporaneidade do pensamento do autor. 

     Biblioteca da EBSML, local da entrega de prémios e da exposição de edições de Os Lusíadas.

    Daí relembrar-se a reflexão final do Canto I, tão ajustada aos tempos modernos e à humilde constatação da fragilidade da condição humana perante a grandiosidade das forças que a dominam:

105 (...)
Oh! Grandes e gravíssimos perigos,
Oh! Caminho de vida nunca certo,
Que, aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!

106 
No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

     Daí evocar-se o Canto VII, naquele momento em que Paulo da Gama se prepara para explicar ao Catual o significado dos símbolos da bandeira nacional nas naus: surge o pedido de auxílio do poeta às ninfas (mais uma invocação, para que se cumpra grandioso relato), imediatamente seguido de um lamento por quem tem obra feita e não se vê reconhecido pelo que faz (seja pelo esforço desproporcionado para se fazer notar seja pelas invejas movidas contra quem trabalha):

78 
 (...)                           ... Mas, ó cego,
Eu, que cometo, insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário,
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

     No seio do sentido eufórico e grandioso da epopeia, não deixam de se ler notas críticas, disfóricas de uma época em extensão contínua, quase profética para a atual. No mar da vida, os ventos contrários surgem tão inesperados quanto certos, restando à humanidade remar "em fraco batel" contra marés adversas e provar a sua tenacidade, para a sobrevivência; para a luta por uma sociedade mais humanizad(or)a, justa, menos tomada por jogos de interesse, manipulações, maniqueísmos ou invejas.
     De tudo isto e muito mais trata Camões na sua epopeia, tão diversa, inspirada e experimentada (com "saber de experiência feito").
    Pelo exposto, o AEML mereceu os parabéns: pelas iniciativas levadas a cabo; pelos produtos conseguidos (mais icónicos, mais escritos, mais manuais, mais digitais, mais simbólicos); por ter feito da celebração ação, divulgando e reconhecendo obra; por saber que ainda muito há a partilhar do poeta universal português. Razões, portanto, para mais evocações e comemorações, com as lições intemporais colhidas dos textos, numa leitura atenta, focada num tempo que se (re)visita e, nalguns casos, parece manter-se pela pertinência e atualidade das questões, dos tópicos e dos problemas vividos, transeculares.
  Agradeceu-se, também, a presença amiga e já familiar do Sr. Comissário Nacional, o Professor José Augusto Cardoso Bernardes, ao dar maior dignidade - com o seu estímulo, a sua acessibilidade, douta simplicidade e afabilidade no saber e no trato - a um momento de reconhecimento do que se faz bem e em honra de quem deu a ler e a ouvir grandiosa epopeia ao mundo. 
   Gratidão ainda por se ter contado com a música e o canto de membros do Bando do Surunyo (com a voz encantadora de uma ex-aluna e a companhia harmoniosa, simpática e colaborante de uma instrumentista), que mais abrilhantaram a tarde deste dia, numa ambiência memorável, festiva, musical, poética - pelas palavras camonianas, pelas sonoridades criadas, pela animação vivenciada, pela presença de muitos e pelos gestos que engrandecem o ser humano (a partir do exemplo dos grandes, clássicos ou contemporâneos).

    Caminhe-se rumo ao seiscentésimo ano, evocando e reencontrando, a cada dia, mês, ano, a grandiosidade de quem simboliza a língua, a identidade nacional e o sentido universal de mensagem(ns) humanas e humanistas.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Pedro Lamares na Laranjeira

       Chegou o momento de o rever: um ex-aluno da escola.

      O reencontro aconteceu graças à iniciativa do grupo disciplinar de Português, que preparou, junto com a Coordenadora da Biblioteca do Agrupamento e o Departamento de Línguas, uma sessão para o programa que constituiu a celebração da Semana da Língua Portuguesa (onde se inclui o dia 5 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa).

Reencontros num "Passei por aqui" que honra o AEML (com Pedro Lamares)

     Um ex-aluno da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira deu-se a conhecer aos que hoje frequentam o agrupamento, numa interação que se pautou pela abordagem de vários tópicos: a formação, as opções académicas e profissionais, o posicionamento político, o gosto pela poesia, a apresentação de programas televisivos, entre outros.
        Nascido em Portimão, Pedro Lamares cedo mudou para a Granja, tendo estudado em Espinho. Cruzou-se com as artes plásticas, a escola de jazz do Porto (1996/97), o curso de preparação para licenciatura em música sacra, até que chegou ao teatro (com formações em vários pontos do mundo). Conta, no seu currículo, a participação no Filme do Desassossego, de João Botelho (2010), onde assumiu o papel de Fernando Pessoa. Em 2015, é convidado para apresentar o programa televisivo Literatura Agora (RTP2), onde "diz" (e não declama) poesia.

Interação de Pedro Lamares com o público que assistiu ao (re)encontro

    Foram praticamente duas horas de uma conversa próxima, à qual assistiram alunos e professores, brindados com a simpatia de quem partilhou o gosto pela leitura (nesse encontro feliz do leitor com os textos, pela janela do sentido e não pelos formalismos de análise tecnicista), a natureza expressiva do discurso teatral e das experiências de leitura poética (mais ou menos marcadas por escolas e por diferentes modos de oralizar os textos), o elogio da aposta nos cursos das literaturas e humanidades. No princípio de tudo, uma visão e uma posição face ao mundo, focadas no exercício de uma cidadania comprometida com os valores que dignificam a pessoa. Em suma, uma lição para muitos, na qual a experiência de vida se cruza com o sentido (inter)artístico e político das causas comuns.
     Não terminou o encontro sem que fosse dada a conhecer uma poetisa a descobrir: Filipa Leal (jornalista, escritora portuense). Lido o poema "Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis", ecoaram os rituais desse 'topus' literário da partida, seus motivos (imigração) e efeitos (autocontrolo), junto das que muito a sentem.
     
Espaço de cidade, espaço de mundo para o ser humano do século XXI 
(poema de Filipa Leal dito por Pedro Lamares)

       Realidade tão atual em texto tão contemporâneo: "É tanto o que se pede a um ser humano no século XXI!" 

        Manual de despedida para mulheres sensíveis 

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito, 
não chorar para não enfraquecer o emigrante, 
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo, 
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas 
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala 
que não pode levar mais de vinte quilos 
(quanto pesará o coração dele? e o meu?), 
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento, 
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia 
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre, 
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda 
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui), 
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe, 
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas 
e mesmo assim não chorar, nunca chorar, 
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar, 
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes, 
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar, 
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente, 
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas, 
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas 
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem, 
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico, 
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez, 
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado, 
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal. 

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um. 
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro. 
Mas que não chore. 
                                                  
                                                   in Vem à Quinta-feira (2016: 48)

        E, no fim de tudo, despediu-se com o sorriso e a empatia que o caracterizam. Sem chorar.

    Mais uma figura de relevo nacional passou pelo agrupamento (ontem e hoje) e deixou o seu testemunho a quem o acompanhou.

sábado, 5 de abril de 2025

Partilha do não desejado

      Há textos que não deviam ser escritos.

     Este é um deles. Eu, pelo menos, gostaria de não o ter feito, se tal significasse que não havia motivo para tal.
      Teve que ser lido:

O texto que ninguém quer escrever nem ler - https://carruagem23.blogspot.com/2025/04/partilha-do-nao-desejado.html 
(Foto VO)

     É sempre um momento de aperto no coração, de embargo na voz e que, na memória do vivido, traz a consciência de um tempo que prossegue sem a presença desejada, mas com o sinal do que o professor David Rodrigues define como "a grande provedora do tempo": a gratidão devida.
      É esta a vida (na qual subsiste a morte).

     Assim foi na Igreja Matriz de Espinho. À MCM. RIP. 

sábado, 22 de março de 2025

Onze anos depois

     Regresso a Cabanas de Viriato e ao palacete, hoje museu, de Aristides Sousa Mendes.

   Já muito escrevi acerca de uma das personalidades mais relevantes da História de Portugal do século XX, internacionalmente reconhecida como um "Justo entre as Nações", mas que ainda muitos teimam ver apagada, na permanência de uma condição que a jornalista Diana Andringa apelidou de "O Cônsul Injustiçado".
   Volto ao tema, pela visita hoje levada a cabo à casa que vi já bem degradada e, presentemente, se dá a ver restaurada, acolhendo o Museu Aristides de Sousa Mendes. Não fossem os sinais interiores (denunciadores da injustiça, da perseguição, da miséria para que foi conduzido), dir-se-ia que, pelo exterior, um libertador do sofrimento e da desgraça está mais do que enaltecido. Não será nunca o caso.
    Guiados por um familiar seu, foram cerca de quarenta participantes a partilhar uma oportunidade de aproximação / identificação com uma causa que devia ser a de todos os homens: generosidade e grandeza de alma ao serviço do salvamento de povos ostracizados, conduzidos, por uns loucos despóticos do tempo, para um fim indigno.

Contrastes que o tempo produziu (montagem fotos VO)

   Muito trabalho foi já desenvolvido para um conhecimento mais efetivo do que representou, no seu tempo, este diplomata português, cujo desejo acabou por ser o de "ficar do lado de Deus contra os homens, em vez de ficar com os homens contra Deus". Num espírito de desobediência consciente, enfrentou e desafiou ordens expressas do ditador António de Oliveira Salazar (contrariando a famigerada Circular 14) e, durante três dias e três noites, concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal, para refugiados de várias nacionalidades interessados em fugir de França e de outros países europeus (invadida pelo regime nazi). 
  Pagou caro por isso, e tal é comprovado de várias formas - uma delas, talvez a mais leve, por ter entregado um sobretudo (recentemente readquirido pela fundação para o museu) como forma de pagamento de uma despesa feita para poder alimentar a família.

Uma das salas do museu (primeiro andar) homenageando o Cônsul de Bordéus

   Num mundo que vivia e se digladiava com fortes armas, dizimando seres, Aristides Sousa Mendes empunhou um carimbo, para salvar milhares.

   Perante o vivido no museu e o restauro evidenciado no palacete, falta o passo de divulgação, de requalificação e de revalorização nacional merecidas de um dos seus maiores no período da Segunda Guerra Mundial; alguém que se interrogou sobre a vivência de um tempo tomado de desumanidade e loucura: "que mundo é este em que é preciso ser louco para fazer o que é certo?" Lembrá-lo será sempre pouco para o bem que fez.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Surpresa boa

      Na semana dos afetos e da empatia (Ubuntu).

     Um assistente abeira-se de mim e pede autorização para que uma jovem venha ao meu encontro e possa entregar-me uma prenda. Entre o desconcerto, a surpresa, o insólito, digo sim, apesar da sensação de estranheza instalada.
     O encontro acontece, a explicação surge: a semana dos afetos, da empatia (Ubuntu) no agrupamento. Cumpre-se a oferta: um texto manual e uma manualidade feita na base de um poema que nos liga.
      Apenas consegui ficar preso à palavra da gratidão, ao abraço que substantivou o apreço e o afeto do momento e do gesto.

Dois textos... com Camões à mistura (montagem de fotos VO)
     
   Quando alguém inesperadamente se lembra de nós fica aquele sentimento indefinido que nos faz perguntar "O que é que eu fiz?", "Que gesto tive?", "Que palavra disse?", "Que olhar correu sem que visse o que foi criado?"
     Na roda viva do dia-a-dia, arrastado que sou por uma torrente que me vai desgastando / tirando sono, saúde e tranquilidade; que me faz por vezes mostrar aquilo de que não gosto, há vida e momentos de felicidade que (ainda e) até fazem acreditar que devo andar a fazer qualquer coisa que mereça o que de bom recebo.

    Resta a gratidão, pelo conforto, pelo afeto e pela consideração de quem (ainda) me faz seguir em frente. O 10 de junho fica na memória por um outro sinal. Muito obrigado, LS e quem nos fez aproximar.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Mensagem do patrono

      A semana da excelência académica e do mérito desportivo.

   O agrupamento começou hoje a viver o reconhecimento público dos que, no ano letivo anterior, revelaram sucesso(s) no percurso e no desempenho escolar, com mente sã em corpo são (totalidade e valores clássicos; por isso, também perenes).
   Em tempos de endeusamento da Inteligência Artificial, é a oportunidade de destacar a Inteligência Humana, que, na devida escala, se revela determinante para a formação integral humana, a avaliação e o sentido críticos, o aprimoramento no tratamento da informação, a opção e a tomada de decisão consistentes e fundamentadas, bem distintas de imediatismos, facilitismos e verdades populistas, frequentemente coladas à ilusão e à falsidade.
     Há cento e vinte anos, o patrono afirmava:

Laranjeira nas sessões de entrega de diplomas de Excelência Académica e Mérito Desportivo 

      Espírito e coração: intelecto e emoção - uma outra totalidade que, na complementaridade dos termos, não deixa de incluir, considerar o diverso, atentar no afeto, num "sinto, logo existo" (que António Damásio reformulou, face a um "Penso, logo existo" cartesiano).
     No regresso ao coração, à emoção, ao afeto, ao reconhecimento, cruza-se o ser com a gratidão. E muitos há a agradecer, na prova de que o caminho se faz caminhando e não sozinho. Premiados os alunos, assim se (re)vejam os Encarregados de Educação, os Professores, os Assistentes - uma comunidade empenhada em sucesso(s), alguns dos quais de qualidade.
       Em plena semana dos afetos, e no espírito Ubuntu que inspira saberes e gestos, cruze-se o momento com o que também dignifica a existência: saber, sentir, elogiar, aplaudir, agradecer.

     Assim (também) se revive o pensamento do patrono, mais de um século depois do que (nos) deixou escrito.