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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

São Martinho, com castanhas, sem vinho

       Não foi no dia (a 11 / 11), mas é como se fosse.

     Um dia depois, as castanhas de São Martinho chegaram-me generosamente à mão, em saquinho funcional e motivadamente decorado, bem como ao paladar, entre o faminto e o sedento.
      Nem dei conta do santo. Foi-me anunciado, é certo, mas, na azáfama do dia, ele não me valeu, com o seu manto de aconchego e conforto. Ainda assim, há quem não se esqueça de mim e me traga o "mimo" da tradição, lembrando o magusto.
       Fico-me pelo comer.

Um saquinho de castanhas que valeu pelo santo esquecido, na voragem do dia 
(Fotografia VO)

       Do vinho, nem vê-lo! É como o verão: nos dias outoniços de chuva e da depressão Cláudia recentemente chegada a Portugal, lá se vai o provérbio que ditava "Verão de São Martinho são três dias e mais um bocadinho." 

      Sim, ditava. Neste ano, nem um bocadinho, quanto mais três dias! Grato pelas castanhas que alimentaram a alma e, por momentos, fizeram esquecer as agruras do dia. (Com agradecimento à SF).

domingo, 17 de abril de 2022

Um grande ovo de Páscoa cracoviano

       Sucedem-se as Páscoas, ano após ano, e os ovos.

      Entre as várias explicações para o ovo e para o coelhinho da Páscoa (que não "foi com o Pai Natal, no comboio ao circo"), a multiplicidade dá para todos os gostos - os mais religiosos, tradicionais, simbólicos, culturais, regionais e até os mais fantasiosos.
       Encontrei uns bem artísticos em Cracóvia, no conhecido Mercado de Páscoa, realizado anualmente na praça central da Cidade Velha, Rynek Główny (praça principal de Kraków). Em cerca de dez dias, as festividades da Semana Santa concretizam-se na exposição de ovos gigantes decorados e na confeção das tradicionais "palms" artesanais de flores e plantas secas, para serem abençoadas no Domingo de Ramos - informações colhidas e vividas em memórias de viagens bem passadas. O colorido da praça é festivo. Os ovos, dispostos em vários pontos da praça, são atração visual assegurada, numa composição e num enfeite de versatilidade cromática notáveis.

Um ovo cracoviano à altura de um ser humano (Foto VO)

      A presença do ovo, desde a Antiguidade persa, traz consigo a perceção do símbolo do renascimento. De regiões como a Ucrânia (muito antes da chegada do cristianismo) ou a China, vem a leitura do alimento e da origem da vida - e, por extensão, da criação do mundo - até à comemoração do fim do inverno. Daí o entendimento do "Páscoa" como "passagem".
       Dos ovos de galinha (cozidos) pintados à mão (que persistem) aos de chocolate (mais recentes e comerciais), muitos séculos aprimoraram o que pôde ter sido a celebração de uma passagem mais familiar e doméstica até se chegar aos requintes da doçaria e pastelaria francesas, sem esquecer que Eduardo I de Inglaterra banhava ovos em ouro para presentear os seus súbditos favoritos - uma espécie de inspiração para o que Peter Carl Fabergé viria a produzir com os valiosíssimos Ovos Fabergé.
      Numa perspetiva mais literária, sustentada no que o escrito e um trabalho humanista permite ver, dir-se-ia que a origem panteísta dos credos é aquela que se funda e remete para um passado quando podiam ser vistos, nos campos, em época primaveril, muitos coelhos e lebres. Um mito popular referenciado pelo alemão Georg Franck von Franckenau, no século XVII (cerca de 1670), na obra Disputatione Ordinaria Disquirens de Ovis Paschalibus, ganha dimensão criativa e literária ao ser traduzido, na escrita, pela figura de uma Lebre de Páscoa, a trazer prendas para os mais novos que melhor se comportaram. Da Alemanha para o Reino Unido e daqui para os Estados Unidos, dissemina-se um universo entendível à libertação das agruras do inverno, à passagem e aos ritos primaveris, numa acomodação ética e moral conjugada com a ressurreição da natureza. A isto mesmo o cristianismo se havia já ajustado, numa visão libertadora e configuradora de outras passagens (histórico-filosóficas, éticas e religiosas).

       E com mais esta curiosidade, passemos a um novo ciclo: o da primavera que chegou e prepara a vinda do verão. Pelo menos, com a mudança da hora, os dias parecem mais alegres e luminosos (ou luminosos e alegres). Por ora, uma boa Páscoa para todos.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Mais um dia... para os tricaidecafóbicos ou de outras fobias afins.

          Nova sexta-feira 13, ora pois então.


   Reza a tradição que é dia de azar, conforme já se explicou em apontamentos anteriores. Vários factos, mais ou menos supersticiosos, mais ou menos históricos assim o entendem.
      No Tarot, a carta do arcano maior número treze, é verdade, representa a Morte. Contudo, entendida esta última como fim de um ciclo não significa, definitivamente, o fim de tudo. Simboliza não a perda da vida, mas uma transformação de relevo, uma fase de desprendimento a dar lugar ao renascimento. Como uma forma de libertação (de desapego ao que possa representar a crise, o negativo), é uma "morte" ansiada.
     A imagem de um esqueleto a manejar a foice sobre um campo de pessoas, por mais assustadora que pareça, traz consigo a leitura da passagem, do transitório para uma nova etapa. Em hora de mudança, é tempo de superação.
     Associar isto tudo a uma sexta-feira é razão para, pelo menos, suspirar pela mudança: a do fim de semana que se anuncia. Nem pela parascavedecatriafobia nem pela frigatriscaidecafobia.

    Não sou, de facto, tricaidecafóbico. Sou pela leitura da mudança. Venha ela! Afinal, prefiro uma sexta-feira 13 a qualquer segunda-feira de outro número que seja.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Estarei tricaidecafóbico ou parascavedecatriafóbico?!

     Não sei! Mas lá que me estão a pôr a jeito não duvido!


     Perante a novida-de de que vou pagar mais Imposto de Rendimentos Sobre Pessoas Singulares (IRS) - como se já pagasse pouco -, o dia de hoje começa em beleza! Pudera! É sexta-feira 13.
     Em apontamen-tos anteriores, tive já oportunidade de me referir a este dia e a esta doença asso-ciada ao número treze. E, sendo sexta-feira, a fobia é maior (parascavedecatriafobia ou frigatriscaidecafobia) . Tão aziago é o dia que se confirma a tradição, desta feita com o governo a anunciar a atualização das tabelas de IRS - diga-se que atualizar significa, na prática, pagar mais. É sempre bom saber isto, particularmente quando há anos o salário não é atualizado.
     Felizes e contentes, cá vamos nós, no início de mais um ano, à espera de novidades... novidades, sublinho... porque ser roubado nos rendimentos do trabalho não é nova nenhuma há algum tempo já.

   O dia tornou-se pesado, portanto! Uma bruxa ou um gato preto davam jeito. E não sou supersticioso. Tomara se fosse!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Da noite para o dia de... Reis

      Hoje trabalhei e amanhã devia ser feriado. Tenho dito (ou melhor, escrito).

     Sou do tempo em que o início do segundo período letivo só acontecia depois desta celebração. Creio que não perdi muito com isso; hoje, acho que ganharia uns dias de descanso que a pausa letiva de Natal não deu. Ao menos, o dia de manhã - era uma boa forma de começar os feriados no novo ano.
    Na tradição católica cristã e segundo o Evangelho de S. Mateus (2: 1), Cristo recebeu a visita dos magos do oriente logo após o seu nascimento. Ora, a noite de 5 para 6 de janeiro homenageia este evento, num costume que data do século VIII. Belchior, Gaspar e Baltazar (sacerdotes para uns, magos para outros, sábios para alguns, reis para muitos mais) são três. Há quem diga que tenham sido mais; todavia, a bem dos três presentes oferecidos a Cristo (ouro, incenso e mirra), ficou tudo reduzido a uma tríade, nomeadamente os magos - que o Venerável Beda (monge inglês do século VIII) regista como sendo, respetivamente, um velho de setenta anos, um moço de vinte e um mouro de quarenta.
      Em Espanha, a troca de prendas natalícias acontece nesta noite. Em Portugal, anteciparam-se as ofertas para a noite de 24 de dezembro. Resta, agora, comer o bolo-rei (hoje já sem brinde nem fava - na família, quem encontrasse esta última devia trazer o bolo de Reis do ano seguinte) e ouvir "as janeiras" ou as "reisadas" (cantar de reis), de grupos que cantam músicas populares e tradicionais de porta em porta, algumas das quais com poemas singelos alusivos:

Dia de Reis

Vieram os três Reis Magos
Das suas terras distantes
Guiados por uma estrela,
Cujos raios cintilantes
Os levaram ao Deus Menino
Que, a sorrir de bondade,
Recebeu os seus presentes
E os acolheu com amizade.



Os Três Reis Magos

Já os três reis são chegados
À lapinha de Belém
A adorar o Deus Menino
Nos braços da Virgem Mãe.

Os três reis do Oriente
Vieram com grande cuidado
Visitar o Deus Menino
Por uma estrela guiados.

A linda estrela os guiou
Até à sua cabaninha
Onde estava o Deus Menino
Deitadinho na palhinha.

Venho dar as Boas Festas
As Boas Festas d' Alegria
Que vos manda o Rei da Glória
Filho da Virgem Maria.


     Nalgumas localidades do interior português (Vale de Salgueiro, em Mirandela), há tradições que se cruzam, nomeadamente a católica cristã com a celta. Daí o registo de algumas práticas hoje encaradas como singulares:

Registo da RTP1 sobre a tradição dos Reis em Vale de Salgueiro

     Há quem chame a esta festividade "Epifania". Eu só queria que a revelação fosse a de que amanhã é feriado! Essa seria a manifestação suprema!