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segunda-feira, 12 de abril de 2021

Uma farsa vicentina muito atual

     Numa intemporalidade que se impõe, com mais semelhanças do que coincidências.

    Hoje fala-se da emancipação da mulher, de jogos de interesse, de violência doméstica, de máscaras sociais - um tempo contemporâneo que não deixa de viver as heranças de outros séculos, e que Gil Vicente também experienciou no seu.
      
Representação do texto dramático quinhentista vicentino pela Spotlight Produções 
(encenação de João Ascenso)

   Persiste a deceção, quando se opta por ideais, ilusões que, a todo o tempo, caem. Descobrem-se os pretensiosos. Denunciam-se os desajustados, os ingénuos e os inocentes que não veem o mal que está à frente. Fazem-se também aprendizagens, mas o que de mais criticável existe (não se olhar a meios para atingir os fins) não deixa de alimentar a farsa que o comportamento social e humano ainda tem.
     Lida ou visionada a representação da obra, cedo se descobre quem representa o quê, para não referir outras linhas temáticas tão comuns no dramaturgo quinhentista: a crítica ao clero, o casamento como negócio, os subalternos oprimidos, o confronto do profano e do sagrado, o preconceito para com os judeus.
     Além do "Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube", a prova de que as aparências enganam faz sentido para quem se deixa viver nelas, nos ideais ou nas ilusões com que se engana; ou, então, para quem mascara uma vivência que só um "cego" não consegue ver. De tudo isto é feita a Farsa de Inês Pereira (1523), um texto a chegar aos 500 anos com um sentido bem presente.

      Assim se revê a obra vicentina tão atual que chega a parecer que nada mudou na metade de um milénio.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Viagens no Mundo de Deus... ou da Vida

     Podia ser nome de agência de viagens; é antes (e também) percurso de vida para um guia em busca do caminho.

    Por mais desconcertante, desencantado, desesperado e desiludido, é percurso a fazer: seja o do período da II Grande Guerra (textualmente representado) seja o de um outro qualquer momento (mais real) pintado das cores da crise e da descrença a dar lugar a tonalidades de sobrevivência. Ainda assim,é percurso com tons de vida, por maior que seja a adaptação conformada ao possível. 
     Esta é "A Noite da Iguana", do norte-americano Tennessee Williams (1911-1983), peça estreada na Broadway em 1961 e inspirada num conto escrito em 1946 com o mesmo título. Numa encenação de Jorge Silva Melo e numa coprodução de Artistas Unidos, está em palco no Teatro São João até ao próximo dia 26.
    Ao levantar do pano, Lawrence Shannon (Nuno Lo-pes) é apresentado ao especta-dor como um ex-reverendo, não despadrado, mas afastado da igreja por escândalos diversos - nomeadamente a entrega a relações sexuais com jovens adolescentes ou a produção de sermões que mostram a imagem herege de um Deus ocidental como um "delinquente senil". Institucionalizado por desequilíbrios nervosos, Shannon consegue um emprego como guia turístico de uma agência de viagens de segunda categoria e acompanha um grupo de senhoras evangélicas até a um hotel barato e boémio da Costa Verde, no oeste do México. Aí, junto de Maxine Faulk (que vive a liberdade obtida com a morte do marido Fred e que sensual e sedutoramente procura a companhia de Shannon), experiencia uma existência feita de conflitos morais, profissionais, pessoais, num confronto febril com os seus impulsos e anseios, as suas limitações e o que uma assombração (a sua mesma sombra) lhe dá a ver. As suas fraquezas e a sua natureza obscura são espelho da condição humana, dos silêncios e das ausências com que o Homem depara. Mais ainda quando busca transcender-se (metaforicamente sugerido na subida de uma colina), depois de se ter deixado ir abaixo (ao cair, de novo, na tentação da bebida; na tormentosa crise de fé; nas relações com uma jovem turista).
     No meio do desconcerto e da luta espiritual do protagonista, do trajeto de uma pintora solteirona de meia-idade e do respetivo avô (que procura compor o seu último poema), das pretensões da gerente do hotel (interpretada por Maria João Luís) não deixa de haver um grupo de turistas (alemães) alheio à perda da fé, à depressão e à crise existencial - tal como na vida de qualquer ser humano que, no desespero, não deixa de se ver rodeado de eternos otimistas ou patetas alegres, cegos ao que está para lá dos próprios umbigos. O registo da animação e da festa atravessa, por várias vezes, o palco, numa noite em que há tempestades, paraísos perdidos e buscas de portos de abrigo. Estes últimos são ainda possíveis, nomeadamente para a solteirona e estoica Hannah Jelkes (Joana Bárcia), ao construir pontes de comunicação com Shannon; para Maxine, ao atingir o seu propósito, no final, de ficar com o homem que libidinosamente desejava; para o velho Nonno (Américo Silva), ao concluir o seu poema final; para a iguana, ao regressar ao seu ambiente natural, depois de a libertarem da corda atada ao pescoço.

HANNAH: Fui ver a iguana.
SHANNON: Foi? E o que achou dela
HANNAH: Devíamos soltá-la.
SHANNON: Há iguanas que arrancam as pontas das caudas à dentada quando estão atadas pela cauda.
HANNAH: Esta está atada pelo pescoço. Não pode arrancar a cabeça à dentada para escapar da corda.

Tennessee Williams, in A Noite da Iguana

     Liberta a iguana, reencaminhado Shannon para um banho de mar com Maxine, concluída a poesia da vida que não descambou em simples verso, atinge-se um sossego (por momentâneo que seja) a soar a um "happy end" muito relativo.
      Só as palmas do público, de pé, deram a ouvir uma reação muito positiva ao espetáculo, para tanta febre e tanto tumulto representados n(est)a vida.

     Diz Tennessee Williams que esta é uma peça sobre “como viver para lá do desespero e ainda assim viver”; é a expressão de desejo da libertação - tal como a da iguana que, uma vez amarrada na parte baixa do hotel, foi solta por Shannon -, para que a vida ainda possa acontecer. Num tempo em que algumas liberdades e valores democráticos estão a sair comprometidos por extremismos, sinais de prepotência e arrogância, de políticas afastadas das pessoas, há pessoas que aspiram à libertação de iguanas (também seres de Deus); humanos que ainda lutam e desejam sobreviver em (alguma) felicidade, por mais conscientes que muitas utopias já tenham caído.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Há 51 anos...

      A noite ficava mais escura e o luar precisava de mais luz.

   Anunciado anteontem que o aeroporto de Lisboa passaria a chamar-se Aeroporto Humberto Delgado, as vozes e opiniões dissonantes não deixaram de se ouvir. Como em tudo na vida, não se pode agradar a gregos e a troianos, mesmo quando os argumentos da História estão aí para fazer lembrar o relevo da figura, tanto no campo da aviação (enquanto fundador da TAP e diretor-geral da Aeronáutica Civil, além de ter impulsionado a aviação comercial nacional) como no da política nacional (ao resistir e enfrentar um regime que acabou por lhe tirar a vida). 
    Como candidato oposicionista, ficou conhecido pela frase "Obviamente demito-o!", proferida quando o questionaram sobre o que faria com Salazar, caso ele vencesse as eleições presidenciais. Tal não veio a acontecer, ainda que as fraudes detetadas em todo o processo tivessem legitimado mais a sua luta do que a vitória de um regime ditatorial associado à figura do Presidente da República Américo Tomás.
     O 'General Sem Medo' foi afastado definitivamente das funções oficiais - à semelhança de muitos outros - e foi objeto da atenção persistentemente persecutória da polícia política, até conseguir exílio no Brasil. Pensando ir ao encontro de opositores ao regime do Estado Novo, Humberto Delgado veio a deslocar-se até à fronteira espanhola em Los Almerines, perto de Olivença, onde, em 13 de Fevereiro de 1965, foi assassinado por um grupo de agentes da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE). A sua secretária, Arajaryr Campos, teve o mesmo destino fatídico, sendo os corpos de ambos encontrados perto de Villanueva del Fresno, cerca de 30 km a sul do local do crime.
        Morta a esperança, só quase vinte anos depois se pôde gritar a liberdade.
     Essa mesma morte pode ser antevista nas palavras que Manuel (um dos populares de Felizmente Há Luar!) profere na abertura do ato II do texto de Sttau Monteiro:

Excerto de Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro (1961)
(clicar para ver o texto maior)

    A prisão e a morte anunciada do General Gomes Freire de Andrade são o motivo para a desesperança. Metaforicamente está prenunciado o destino de um outro General: não o dos inícios do século XIX representado no tempo da história, mas o de um outro que, em pleno século XX (o tempo da produção escrita dramática), era a esperança da libertação de um regime ditatorial - daí a perseguição que viria a culminar na morte (política e humana).
      As semelhanças da obra com a vida não são mera coincidência; antes um reflexo da técnica de distanciamento, de visão crítica preconizada por Brecht, e adotada por Sttau Monteiro, para acordar as mentes interessadas no progresso histórico:

Paralelismos temporais (tempo representado vs tempo da escrita) sugeridos
na leitura do texto de Sttau Monteiro

       Na rede de aproximações estabelecida, Felizmente Há Luar! assume-se como texto-metáfora ou um texto entre dois tempos: o da intriga representada (início do século XIX) e o da produção escrita (regime ditatorial de Salazar).

       Um jogo de tempos, uma mensagem a desvelar para que a opressão, o despotismo e a tirania não se repitam na vida humana, a bem da liberdade que se quer conquistada. A História e a Literatura podem ajudar nessa construção.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O luar... da mudança.

      ... para denunciar ou para libertar?

       Pergunta semelhante é colocada na página da companhia de teatro 'Actus': "O luar põe em cena a morte de um homem. Criminoso ou herói?" A resposta encontra-se no texto: tudo depende da perspetiva, claro. Quem está no poder vê crime; quem sofre o abuso desse poder aspira à libertação.
      Assim se deu a ler Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, na representação levada a cabo hoje na Academia de Música de Espinho, pelo grupo 'Actus', numa encenação de Tomé Vieira para o projeto 'Teatro para Escolas'.
       Um palco vazio, cheio de peças de roupa espalhadas pelo chão e correntes suspensas no teto, dava-se a ver ao público que foi enchendo a sala.
      Os (desesperançados) indigentes, os três reis absolutos e despóticos do Rossio, o interesseiro Vicente (a circular, a rodear os espectadores sentados, na sala, como se estivesse a espiar algum sinal a denunciar), as forças da opressão,  a evocação de Gomes Freire de Andrade, a revoltada Matilde de Melo surgem aos sentidos físicos de um público expectante, que assiste a uma encenação ainda (e sempre) com a atualidade típica dos grandes textos, devolvendo ao Homem a pergunta do que ele quer ser no seu tempo. Repete-se a história, com outros contornos, sempre à espera de um grito libertador.

Montagem com fotos da encenação de Felizmente Há Luar!, pelo grupo 'Actus'

        Não posso dizer que tenha sido a melhor das representações (até porque já vi melhor), mas não deixou de ser um momento capaz de desencadear um sincero aplauso e a vontade de cumprir a mudança.

        São tantas as formas de opressão deste tempo democrático que há já quem fale na ditadura da democracia. Entre os resistentes, quem vestirá a saia verde que, na noite dos tempos, o luar iluminará?

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O regresso a casa

       Não, não fui viajar. Só uma ida ao teatro (que permite, por certo, outro tipo de viagens).

    Desta feita, a peça foi baseada num texto do britânico Harold Pinter, Nobel da Literatura em 2005 apresentado pela academia como dramaturgo cujas peças tanto resvalam no choque de conversas absurdas do quotidiano como invadem a opressão da interioridade ou dos espaços fechados.
    De meados da década de sessenta do século passado, The Homecoming (1964, publicado no ano seguinte) é o título original para uma representação baseada na tradução de Pedro Marques - 'O regresso a casa' - e na encenação de Jorge Silva Melo.
    Nela há o poder do número (cinco homens em palco para uma mulher); há o poder da palavra (ora rude no tratamento, ora rude e feroz no registo, ora insinuante e insidiosa no que sugere); há o poder da interação e do diálogo (por vezes evasivo, por vezes irritante, insistente, tenso e que desarma quem a eles assiste, pela questionação e pela [des]associação de sentidos; pelos implícitos, subentendidos e malentendidos que fluem nos discursos); há o poder de uma mulher só (que vai dominando o espaço por que se movimenta; as personagens que a vão revendo diferentemente, que a procuram controlar, até se verem sorridente e desafiadoramente manipuladas, observadas).
     Harold Pinter, em 1958, escrevia que não há distinções fortes entre o que é real e o que não o é, nem sequer entre o que é verdadeiro e o que é falso; as coisas não são necessariamente ou verdadeiras ou falsas: podem ser tanto verdadeiras como falsas. Há poderes feitos do vazio; há forças de controlo que se impõem com silêncio, com olhares, com interesses e conquistas nada efusivos.

Fotografia de Jorge Gonçalves: representação de 'O regresso a casa' (com João Perry [Max] e Maria João Pinho [Ruth])

    No fim, mais do que o núcleo familiar (marcado por um sentido de exploração, deformações e desvirtuamentos trazidos para o presente) é o interesse individual que se destaca: o de uma mulher que escapa a um casamento vazio (encarado como deserto);  que pretere um marido e um académico algo estéril e inconsequente; que prefere viver no seio de uma arena de interesses, qual aranha tecendo demoradamente a teia, envolvendo as futuras vítimas, até se posicionar centralmente no espaço que assume como seu.
       A cena final - a da mulher sentada na cadeira do patriarca - é o sinal do precipício, do abismo em que o masculino se coloca: dominado, quando se julgava dominador; no fim, quando ainda se julgava com a possibilidade de tudo (re)iniciar. É também a confirmação do poder feminino enquanto símbolo de um estatuto social e sexual em detrimento de uma parceira sexual afetiva (imagem praticamente apagada em toda a peça).

      Reflexão sobre o poder, as questões de género e a natureza incontrolável de algumas forças que marcam e condicionam o ser humano, O regresso a casa é a ação e o jogo do gato e do rato, o confronto entre desejo sexual e domínio territorial; ou, ainda, o regresso a um espaço de memórias, da memória feita de experiências mal resolvidas que, moldando o ser humano, o podem fazer aspirar a uma condição completamente diferente daquela a que o quiseram votar.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Só dramático!

      Entre o dramático e o trágico, fico-me pelo primeiro (atendendo mais à forma do que à essência)

       Vem esta opção pela questão que me foi lançada.
Fotograma de Quem és tu? (2001), de João Botelho
    Q: Colega, estou a lecionar 'Frei Luís de Sousa' (Garrett) e no início do ato II deparei com uma fala de Telmo a referir-se a Manuel de Sousa Coutinho nos seguintes termos: "A minha vida, que ele queira, é sua." Como classificaria este 'que'? Obrigado.

      R: Caro colega, temo não lhe poder dar uma resposta fechada, única à questão. Trata-se de um caso muito curioso de utilização de 'que', por certo, atendendo a diferentes focos ou níveis de análise.
       Numa primeira abordagem e segundo a perspetiva das Classes de Palavras, nada me impediria de considerar que há aqui um caso de pronome relativo, pela funcionalidade de retoma (anafórica) de 'a minha vida' (A minha vida, [ele queira a minha vida], é sua) na subordinada encaixada entre vírgulas.
    Não deixam ainda assim de concorrer, para essa construção parentética ou de comentário, valores discursivo-pragmáticos capazes de fazer ver lógicas condicionais ou mesmo temporais numa construção articulada / conectada por esse mesmo 'que'. Bastará para tanto pensar na permutabilidade deste termo por "caso" (A minha vida, caso ele queira, é sua) ou pela expressão "assim que / mal" (A minha vida, assim que / mal ele queira, é sua).
   Nesta linha de raciocínio, diria que, tanto pelo género textual como pela complexidade do mecanismo em análise, há sinais de um drama que não resultará em tragédia por - como diria Manuel de Sousa Coutinho - saber que o meu erro (se erro for) não foi crime. O pronome relativo tem a funcionalidade de conectivo que, à semelhança de outros articuladores, ganha matizes distintos segundo o discurso e a contextualização da sua realização; os outros conectores apontados têm a virtualidade de ser ativados no âmbito do plano significativo do texto / discurso considerado, numa lógica ajustada à intencionalidade de quem fala.

    Há conflitos, dilemas, ambivalências que não deixam ao homem senão a condição de ser linguisticamente romântico. Interessará sempre é que o Homem se coloque ao serviço do raciocínio e da explicitação deste nas classificações que faz.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Uma noite com "Ah, os dias felizes"

      A noite foi de Beckett, para um texto desconcertante e uma representação dominantemente monologada por Emília Silvestre.

     Na reflexão feita sobre a vida e a condição humana, dois atos dão a ver uma mulher presa a uma pedra, com tanto de verticalidade na aspiração e elevação dos anseios como de horizontalidade sugestiva na laje sepulcral. No fluir do discurso, há um balanço de vida feito das lembranças que a memória ainda consegue reconstruir. Repetem-se alguns gestos - os possíveis, já que alguns vão sendo perdidos com a passagem do tempo. Espera-se (não por Godot, mas pela morte), na progressiva prisão que a monumental rocha vai moldando ao corpo, até que só há cabeça, pensamento e discurso; até que os olhos fecham e nada mais se ouve dizer.
      A isto assiste o espectador até que, no vaivém do diz ele-diz ela (um par de vultos evocados do passado), se sente invadido, observado por Winnie - como se a realidade estivesse com ela e o teatro passasse a ser vivido na plateia e nos varandins. À maneira de Beckett, representa-se a vida rotineira e banal pelo que esta tem de universal. A universalidade humana, afinal, reflete essa mesma vida sedenta de comunicar com o outro; de sentir a presença de alguém; de ver e de ser visto; de procurar ler o que não se consegue ver; de agarrar e organizar repetidamente aquilo que vai acabar por ficar invisível, mas que se vai 'saber', ainda assim, que estará sempre lá. É este, tem sido assim (como antigamente), o percurso que a Humanidade inscreve na sua vida, com a composição de sons ora alegres ora chorosos, ora pacíficos ora convulsos; com a nota de solidão (apesar das comunhões construídas); com a dimensão individual nos dilemas e receios (não obstante os laços afetivos que se mantenham, sejam estes presenciais sejam eles limitados à recordação). E no meio de tudo, há sempre o som estridente do despertador, compassando o tempo; marcando o acordar para a vida e para a construção dos atos.
     A profundidade humana surge equiparada às entranhas da terra, ligada a ela. Ambas são concretas, compostas, numa sedimentação que resiste até à ameaça do incerto, do desconhecido e do incompreensível, tornado fragmentário, nas camadas que as compõem.
     Pelo poder das palavras e do discurso produzido por Winnie, aqui e além acompanhado por Willie, ganha-se consciência da reflexão produzida: a do ser que vive na língua que usa, que o faz comunicar com os outros e consigo próprio (ocupando o tempo e o espaço que o circundam). A morte chega quando, mais enterrada na pedra, Winnie vai quebrando esse fio de pensamento e de expressão até ao momento em que não produz qualquer som para representar ou para (se) ouvir.
      "Ah, os dias felizes", numa fidelidade maior à tradução francesa de Happy Days (Oh les beaux jours), é o título para a convergência no gosto de um passado (como antigamente ou à moda antiga) e no sentido de vida voltado para um canto (mesmo que seja o lendário canto do cisne).
       A dissolução do ser faz-se, assim, na ansiada harmonia do inefável.

    "E no entanto ela move-se" é a máxima galileiana para se referir ao movimento da Terra que outros queriam negar; pode também valer para significar a progressão da vida, por mais que esta seja vivida nessa ideia de que a fração do segundo seguinte é igual à do anterior (o mestre Caeiro já nos ensinou que não, atento que estava à eterna novidade do mundo em cada instante).

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Clara, Clarita, Clarinha… sem clareza nem claridade

Mais uma peça de teatro com tudo o que existe na vida.

A típica história de um amor mal resolvido, conduzido para a vingança por uma mulher (a menina de tranças ruivas, saída da sua terra natal a chorar e grávida, e regressada como Clara Zachanassian - qual Zacharias, Onassis e Gulbenkian feminina -, velha tão grotesca, desconjuntada e cheia de próteses quanto fetichista e adepta de uma vivência amalgamada de meretriz, de besta e capitalista), evolui para a abordagem sociopolítica de uma terra falida (Güllen), a qual irá ser resgatada e refinanciada pela sua “boa filha”, a troco de esta última poder reaver a justiça que só a satisfaz no desejo de vingança e na prepotência que representa. Este é um eixo dramático numa peça de Friedrich Dürrenmatt, autor suíço do século XX ligado ao teatro épico, a esse género de cariz dramatúrgico destinado à reflexão alegórica que, no caso, é a da condição da crise dos tempos, dos lugares e das pessoas.
Assim se vê a terra a partir do teatro. Neste se ensaia a consciência crítica que as linguagens performativas e artísticas propiciam a quem nelas se representa e/ou com elas contacta. Se a intervenção no real pode não ser imediata, a questão de cidadania constrói-se pela visualização de uma trágica comédia, na qual Güllen é terra que sucumbe à pressão da(s) necessidade(s) – no fundo, toda e qualquer terra que passa pela condição de crise; terra que “se aluga” e cujo “futuro radioso” é o da roupagem de uma urbanização sem qualquer urbanidade ou humanidade. 
Na esteira de Brecht, o distancia-mento e a recontex-tualização reveem-se; no alinhamento de Beckett, há tons de absurdo e gro-tesco; na contem-poraneidade e atua-lidade do texto, há a sensação desconcer-tante de o espectador se rever no palco, como se tudo o que estivesse a ser representado fosse a história real. O final é destrutivo: afirma a vulnerabilidade da condição humana em contextos de privação, capaz das maiores atrocidades, e a sublinhar a descrença nas qualidades humanas; confirma o destino trágico do Homem, numa entrega à imoralidade, à corrupção e à subversão dos valores sociais que irradiam de jogos de interesse(s), de retórica, de palmas e de poder; de esquemas demagógicos construídos por quem pretende preservar o seu estatuto e o seu poder. A tetrarquia P – do professor (Luís Lucas), do político (Cândido Ferreira), do padre (Jorge Falé) e do polícia (Tonan Quito) – compõe-se desses tipos sociais que se alimentam de um poder coletivo corrosivo, manipulador, degradante, capaz de treinar mentes vãs em corpos menos sãos para fins pouco dignificantes. Inclusive Koby e Loby, gémeos colocados ao serviço da Velha Senhora, se assemelham a uns sátiros transformados em simples dupla de servos demoníacos: um a dizer mata, outro a dizer esfola; um a rir, outro a ecoar tudo o que o primeiro faz; ambos a celebrarem o que nasce na maior das falsidades e ilusões (há duplas tão representativas daquilo que acontece frente aos nossos olhos que até dá para rir - quando devia ser chorar -, por serem tanto vistas em cena como lembradas no palco da vida).
Uma velha senhora que diz “Quem não pode pagar tem de aguentar se quiser entrar na dança” ou quem protesta energicamente a ponto de denunciar como ninguém aciona o sinal de alarme neste país, mesmo em caso de alarme, são, no mínimo, ressonâncias ou coincidências a mais para uma atualidade e para um Portugal em progressivo definhamento, para não dizer falecimento. Resta-lhe, como a ‘Alfred ill’ (Horácio Manuel), ser conduzido num caixão para ficar num mausoléu em Capri, a olhar para o azul profundo do Mediterrâneo? Será esse o prémio de se ser bom aluno?

Um texto datado de 1956, uma peça encenada por Nuno Cardoso e coproduzida por Ao Cabo Teatro, Companhia Maior, Centro Cultural Vila Flor e o São Luiz Teatro Municipal que os nossos atuais políticos bem podiam ver, para assistirem ao triste espetáculo que nos dão a ver. Vantagem da Velha Senhora (Maria João Luís), que conseguiu, por três vezes, os aplausos que dirigentes da nossa pátria moribunda não conseguem arrancar a quem é por eles governado.

sábado, 12 de janeiro de 2013

A gente passa, o tempo fica... na vida

     Esta foi uma das frases sublinhadas num espectáculo com muitos ensinamentos.

     Hoje o Teatro Nacional de São João esgotou, para a última representação de "Sombras (a nossa tristeza é uma imensa alegria)" - musical teatral de que já ouvira falar (e muito bem) aquando da sua primeira temporada no Porto, em novembro de 2010. Deslocado para Lisboa, regressou à Invicta (ou Inbicta, para respeitar o registo nortenho) em 2013, para três noites que - a julgar pela última - foram surpreendentes.
     Criação de Ricardo Pais com direção musical de Mário Laginha, um conjunto de artes performativas, de sons e de imagens oferece palavras e textos de três séculos da nossa cultura: o quinhentista (com a Castro, de António Ferreira), o oitocentista (com Frei Luís de Sousa, de Garrett) e o contemporâneo (com Figurantes, de Jacinto Lucas Pires). No entremeio, ouvem-se a "Carta da Corcunda para o Serralheiro" (de Pessoa), "Ai, Margarida" (de Álvaro de Campos), "Nós, Portugueses, somos castos", "Pântano" e "Nocturno" (de Pedro Homem de Mello) entre outros textos e poetas cantados por José Manuel Barreto e Raquel Tavares. É o género musical do fado que atravessa toda a representação, como se Portugal também quase e só vivesse o fado dos mitos trágicos ou dos temas portadores da (com)paixão sofrida, impositiva, partilhada.


    A nota dissonante é trazida por um par de personagens que, numa alternativa à mitologia e ao imaginário carregados da tradição, desconstrói o fatídico e trágico em festivo e cómico. Do sofrimento à vitalidade, estes compères (apresentadores de rádio, televisão e espetáculo) revelam-se uns 'figurantes' a protagonizar a desconstrução capaz de mudar o grito de vergonha de uma Madalena de Vilhena (na sequência de um Romeiro que se associa a D. João de Portugal) na  entusiasmada ânsia de um "É ele!", mitigando o drama; a intensa e pesarosa paixão na animada e carnavalesca fantochada, só permitida pelo distanciamento; a solenidade e teatralidade da cultura séria na banalidade de um "Oh", acompanhado de um braço erguido e atirado por cima da cabeça, para trás das costas. Tudo na sequência da oferta de um ramo de gerúndios brancos a uma mulher.
    Desta forma, a realidade assume-se infinitamente maior do que o sonho, pelo que dela e na vida se queira fazer, existindo. Podem o "barco ao sabor das ondas perdidas", as "Árvores de oiro (que) andam, de rastos, partidas todas ao meio" aspirar a alguma luz - até porque as sombras, para o serem, têm de se alimentar de alguma (por pouca que seja) luminosidade.

      Ó luar da meia noite, 
     alumia cá p'ra baixo, 
     que eu perdi o meu amor 
     e às escuras não o acho.

     Revisitado o passado, afirma-se a possibilidade de um futuro que, não apagando o primeiro, abre sempre a hipótese de conciliar a tradição com os sinais de modernidade.

     Ficam as palavras, os textos, um palco pleno de significado para a vida que Ricardo Pais quis dedicar ao Paulo Eduardo Carvalho, meu companheiro (e também da Emília Silvestre), no curso de Português-Inglês  na  FLUP, lá por meados da década de oitenta. Passou tão cedo, o Paulo... não ficou neste tempo que por cá anda.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Acordai... e... a cor dai

       Em tempos cinzentos escuros, de tanta crise, é preciso cor.

      Se nos anos sessenta do século XX havia a expectativa e nada mudava; se hoje se espera e pouco ou nada se alcança, o tempo repete-se.
     Também nos anos sessenta, Luís de Stau Monteiro, no seu Felizmente Há Luar!, punha na voz dos populares a frustração face às mudanças que não aconteciam. E na ânsia ou no temor da liberdade, lá figuram os interesses relacionados com a música: 


Sequência de slides sobre Felizmente Há Luar! - Entre o tempo representado e o(s) tempo(s) transposto(s) 
produção de Vítor Oliveira

     E ainda nos anos sessenta Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira conjugaram a música e a poesia, para um "Acordai" que é um dos mais belos exemplares das cantigas de intervenção da história nacional.

Exibição do Coro de São Domingos

       ACORDAI

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
     
       Era tempo... melhor... É tempo de não só nos livrarmos de quem nos (des)governa mas também nos recordarmos de quem nos colocou neste desgoverno - duas faces para uma mesma moeda ou, então, muitas caras que não nos têm dado nenhuma moeda em troca. Só no-la tiram.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Com a maior das doenças

   No Teatro Nacional de S. João há um hipocondríaco em cena, provocando a gargalhada necessária a alguma crise destes tempos.

   Para todos os que se sentam na posição de espectador, a gargalhada é frequente nesta comédia de Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido por Molière (séc. XVII). Num texto traduzido por Alexandra Moreira da Silva e numa encenação de Rogério de Carvalho, 'O Doente Imaginário' coloca o público perante a última produção dramática do escritor francês, numa representação em que o egocentrismo obsessivo e patético de Argão (Jorge Pinto) deixa ver na comédia o registo trágico do que é ter medo da morte, fazendo da medicina uma religião; da atenção e do cuidado, a tirania na sobrevivência.


   Há uma estatística risível em todo este raciocínio, evidenciando a doença de todos aqueles que querem reduzir a vida a um número, a um medicamento para evitar o mal pior, a uma estratégia preventiva para o inevitável.
    Só Tonieta (Emília Silvestre) com o seu "Pulmão!" parece trazer a reposição da ordem, mesmo quando esse "pulmão" se inspira nalguma desonestidade, numa máscara ou mentira com objetivos salutares, tentando oxigenar ou curar o patrão da sua fixação em doenças, boticários e médicos. Com a cumplicidade do irmão de Argão, a criada convence o amo a fingir-se de morto, para que se possa descobrir quem realmente gosta dele. Assim, prova-se que Belina, a segunda esposa de Argão, está apenas interessada no dinheiro do marido, enquanto a filha Angélica mostra que realmente o ama. Na "ressureição" do suposto morto, Angélica conquista a liberdade, para se casar com quem quer escolher (não um Diaforético, mas Beraldo).
   Entre Flatêncios, Diaforéticos e Purgários; remédios, deslocações à privada e lavagens, também este mundo se vê dominado por múltiplas doenças, nomeadamente as da repetição, do egoísmo, do utilitarismo, dos interesses próprios, dos pretensos e acumulados problemas que se transformam na pior das problemáticas (impossibilitadora das vivências de felicidade a que qualquer ser humano tem direito).


     São estas imagens de um ensaio que deu lugar a animada representação, com os ingredientes necessários a uma boa comédia: um texto com muita "inclinação", uma criada com grande "Pulmão!", um Beraldo espertalhão, mais um Diaforético, filho, que lembra como "Água mole em pedra dura tanto dá que lá tirou a licenciatura". Uma diversão.

    Uma comédia, um protesto da inteligência contra as maleitas do corpo e da alma - um texto em que o riso não deve fazer esquecer a racionalidade, a reflexão acerca dos limites da vida.

domingo, 29 de abril de 2012

"De que sofre esta cidade?"

     Esta cidade, Tebas (velha cidade de Cadmo) ou outra, maior ou mais pequena, remota ou atual, deveria sempre ter esta pergunta, para a busca da resposta.

     A tarde foi passada no auditório da Academia Contemporânea do Espetáculo (ACE) - Teatro do Bolhão, em boa companhia e com grande representação.
    Num anfiteatro (qual encosta de degraus não de terra nem de pedra, mas de cadeiras - quase poltronas - voltadas para um palco), frente a um palco dominado pela essencialidade minimalista de um cenário e por um grupo de ótimos atores (a que não faltou um coro, enquanto personagem múltipla, cujo canto ritmado servia de comentário à ação dramatizada), assisti a Édipo, de Sófocles. Com encenação de Kuniaki Ida, o elenco contava com as participações de António Capelo (Édipo), João Paulo Costa (Tirésias, Jocasta e Servo), João Cardoso (Creonte e Mensageiro), além de Pedro Lamares (Corifeu) e um coletivo de jovens artistas.


    Nas primeiras décadas do século XXI reencontrei-me com alguns sinais do último quartel do século V a.C. Foi o caso da representação assente em três atores masculinos (o protagonista, o deuteragonista e o tritagonista);  da figura do Corifeu liderando o coro; do tom e do conteúdo trágicos do texto; da conciliação dos opostos (um homem que se sente livre, mas que só o é enquanto percorre um caminho fatalmente determinado; a modernidade de adereços conjugada com a clássica máscara em Jocasta mais a sugestão de trajes e o calçado de sola espessa dos sacerdotes que prestavam culto a Dionísio; o conhecimento e a consciência portadores da desonra fatal, das maldições que fazem sucumbir o Homem). Junta-se-lhes o sentido didático e emocional da peça (com confrontos explicitamente demonstrados e publicamente partilhados, suscitando, perlocutoriamente, o terror e a piedade), a força do destino que aprisiona o Homem àquilo de que o próprio possa tentar fugir ou contrariar - tudo ingredientes típicos para um género marcado como a maior expressão literária da antiguidade, conforme o evidenciavam as práticas teatrais dionisíacas (as mais conhecidas), com representações diárias de três tragédias, fechadas com a apresentação de uma comédia.
      Sófocles foi grande figura nestes eventos tão religiosos quanto cívicos. Édipo foi um dos seus textos, do ciclo tebano (acerca da fundação da casa real de Tebas, por Cadmo), retratando a tragédia de caracteres, composta pela pretensa individualidade espelhada na vida social da pólis.
     Desde o início da obra, a questão da atualidade impõe-se, pelo diálogo mantido entre o Corifeu e Édipo. É a crise, o drama da cidade revelados:


«Visto que desejas continuar no trono, 
bem melhor será que reines sobre homens
do que numa terra deserta. 
De que vale uma cidade, de que serve um navio, 
se no seu interior 
não existe uma só criatura humana?»

     O percurso cénico do despojamento de Édipo - da túnica do poder ao pé descalço de uma figura voluntariamente cega e desamparada - é o caminho de um decifrador de enigmas que tudo quer saber e se agarra à vontade de não fugir à verdade; o do conhecimento ou da consciência que se revela ignorância, na interpretação errada de sinais e na fuga que não dá lugar ao afastamento ou à distância do indesejável - antes à proximidade e à concretização trágica das profecias dos oráculos. 
      Entre a cegueira do Homem e a insegurança da condição humana revê-se um dos mitos gregos de maior relevo.

     Assim se traça a complexa procura e revelação da identidade de um herói lendário grego (que matou o pai e procriou com a mãe), mais ajustado ao que de anti-herói tem (pelo entrecruzamento da fragilidade humana no sacrifício supremo do autoconhecimento, com a marca do fatalismo, da crueldade e da determinação do destino).

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma hora para a vida

     Tudo vemos, nada temos, nada somos... e assim cumprimos os ciclos.

     A principiar, um peregrino lança o espectador na condição de um ser, de uma criatura cuja existência cumpre uma demanda feita de valores, de imagens e de linguagens.
     Desde a Páscoa de 1518 cumpre-se, em palco, essa demanda: a que Gil Vicente depositou no seu Auto da Alma, enquanto reflexão moral sobre a vida e o Homem. O passado alimentou-a, o presente quinhentista e as consequências dos Descobrimentos reconfiguraram-na, o futuro torná-la-ia evidente e eternamente intemporal.
     No dilema entre dar-se aos prazeres do(s) tempo(s) e do(s) espaço(s) ou cumprir um percurso de despojamento, a Alma vê-se numa circularidade, na revisitação de um percurso que se faz de vivências e de memória(s). Nele, há sempre lugar para a tentação e a sedução demoníacas, que atacam o corpo (se não a alma). Num contínuo "fitness", numa corrida esforçada que não deixa de revelar a fragilidade da Alma, esta última tem de se confrontar com a vaidade, a materialidade, os sinais de poder, de ter e de haver, resumidos no que de mais pesado, desprezível e volátil o mundo apresenta.

Montagem fílmica 
(excertos de "Burnay and You - Exclusive Moments" e representação da peça).

     A salvação (possível, ainda que constantemente ameaçada por forças satânicas persistentes) atinge-se pelo exigente caminho do Bem, fundado em "manjares" ofertados pela Igreja, por anjos protetores e por ensinamentos dos Santos Doutores. Assim se alimenta e sobrevive a Alma na vida, numa cosmovisão tão quinhentista quanto hodierna, face às metamorfoses do Bem (que ainda o há, mesmo fora da "Santa Madre Igreja") e do Mal (tão dissimulado e tantas vezes aparentando-se com o que há de bem e de bom).
     O percurso é o da vida, não o da pós-morte que tornou o teatro vicentino mais reconhecido (caso da Trilogia das Barcas); daí ser mais identificável com a condição da existência humana, feita de recuos e avanços, de opções, de aparentes felicidades e fortes arrependimentos, de retratações e recuperações a que não faltam sacrifícios.

     Alma: título para uma rapsódia de textos poéticos (vicentinos e outros mais contemporâneos) feita à base do Auto da Alma, de Gil Vicente, e dos ecos que esta faz refletir num Teixeira de Pascoaes e num Vitorino Nemésio, que (também) a "escritam" nos seus textos. Uma moralidade a não perder, segundo a dramaturgia de Nuno Carinhas e Pedro Sobrado, no Teatro Nacional de São João (até ao próximo dia 28).

quarta-feira, 14 de março de 2012

In Skené... com heroína em cena

      As palavras têm o significado que se lhes dá: por vezes, os mesmíssimos termos têm significados tão diferentes.

      Este, em parte, foi o balanço de uma representação a que as minhas turmas de 12º ano assistiram hoje no Auditório Municipal de Gondomar: Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, numa adaptação levada a cabo pelo In Skené - Grupo de Teatro de Amadores de Gondomar.
    Numa abordagem económica de todo o primeiro ato, a aposta centra-se na fidelidade ao texto do segundo ato, aquele em que a esfera familiar, o protagonismo feminino e o grito de revolta e de esperança se constroem.
     Matilde de Melo é a heroína, numa extensão da figura libertadora que o Marechal Gomes Freire de Andrade representa até à hora da morte, às ordens absolutistas e despóticas dos três reis do Rossio (Miguel Forjaz, Principal Sousa e General Beresford). É a voz liderante, a dar continuidade às expectativas depositadas na mudança - é o luar no reinado da noite.
    No jogo de poderes configurado na obra, a singularidade e a dimensão expressiva do título revelam-se tão essenciais quanto este poder ser interpretado de diferentes formas. As palavras são as mesmas, a expressividade associada ao ato é comum, mas a intencionalidade última e o alcance dos significados são diversos:


       Felizmente Há Luar! - um só título para muitas falas explícitas ou subentendidas. Entre os dois últimos casos sistematizados (à direita), as aproximações são inevitáveis, numa identidade entre o que o autor pretendia e o que a personagem dizia para o seu tempo; ou mesmo entre o que o dramaturgo desejava para o seu tempo (anos sessenta do século XX) a partir dos atos e das palavras da sua heroína (das primeiras décadas do século XIX).
     Esta última, representada desta feita por Joana Sousa, é portadora de uma força que nos instiga à mudança, numa atitude épica e ética face ao tempo e ao mundo. Esgotante, todo o protagonismo da personagem sobrevive no corpo, na voz, nos gestos da jovem atriz.
      A propósito do evento, fica aqui o registo de uma pequena reportagem televisiva produzida por Catarina Silva (para a Regiões TV) acerca desta época de representações:


     Trabalhos, heranças que a Escola Secundária de Gondomar (ESG) vai reconhecendo nas mãos de antigos alunos, expostos aos olhos e ouvidos de estudantes do presente, ambos a marcar a crença de que pode haver futuro.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

'Auto da Barca do Inferno' encenado por António Feio

      Uma manhã no Teatro do Campo Alegre, com um texto vicentino de grande actualidade.

     Numa adaptação de Patrícia Castanheira e com a produção de Cultural Kids, Gil Vicente regressa, em palco, a um público que bem o conhece: alunos de 9º ano que lêem o Auto da Barca do Inferno (1517).
Imagem alusiva à corte vicentina
     Um texto de passado é tornado bem presente, captando-se a atenção dos jovens pelo recurso às novas tecnologias. Com elas se funde a representação, numa exploração da noção de perspectiva, de captação de diferentes planos - inclusive o dos bastidores, dados a conhecer numa espécie de visita virtual guiada por um diálogo ficcionado entre o dramaturgo e o filho, Luís Vicente.
   Dos conceitos associados à abordagem do texto dramá-tico, do percurso biobibliográfico vicentino, dos adereços, dos ensaios, dos actores e das actrizes, tudo se fala numa espécie de introdução à peça.
   Depois, o texto em acção: do quadro inicial do Diabo e do companheiro ao final com os Quatro Cavaleiros, sucedem-se as várias personagens julgadas após a morte. Fidalgo, Onzeneiro, Joane, Sapateiro... todos desfilam num balanço de vida a castigar (muitos) ou a premiar (poucos, e alguns de forma politicamente correcta).
      Interessante é o enquadramento que antecede o julgamento no juízo final: a passagem da vida para morte. Aos olhos do espectador uma simples movimentação de estrados, jogos de música e de luz permitem visionar a transição entre o que motivou a morte e o julgamento que se impõe na presença ora do diabo (alegoria do mal) ora do anjo (alegoria do bem).


Imagem alusiva à vida terrena do Onzeneiro
(colhendo a onzena)
  
Imagem alusiva à morte do Onzeneiro  
  Uns simples estrados, dispostos diferentemente para cada quadro, permitem ainda a sugestão do cais, a separação entre o plano da vida terrena (inferior) e o da vida após a morte. Sem barcas, está lá o rio (símbolo da passagem) e os espaços laterais cénicos destinados a cada um dos avaliadores.
    O cómico existe (no cumprimento dessa máxima vicentina do 'ridendo castigat mores'), sem que se caia no excesso, no ridículo, no inusitado.



      O aproveitamento pedagógico-didáctico da representação é evidente, sem que se coloque em desprimor o texto de autor e o espírito moralizador que a ele preside.

     Um momento bem passado, pela qualidade de representação e da encenação de António Feio (que vem ao nosso encontro num registo vídeo que testemunha a sua vontade de, ainda, 'mudar uma cena'). Um óptimo exemplo de equilíbrio entre a (re)criação artística e a fidelidade ao espírito intemporal da obra. Mesmo quando se assume que Gil Vicente é o 'pai do teatro português' (asserção questionável, tendo em conta as realizações teatrais que o antecederam), o mal torna-se menor, dada a qualidade literária que este autor quinhentista conseguiu impor aos textos produzidos para uma corte que não deixava de ser alvo de algumas das suas críticas.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma gaivota voou... sobre um lago.

    Numa encenação de Nuno Cardoso, 'A Gaivota' (de Anton Tchékhov) passou pelo Teatro Nacional de São João (como se prova pelas fotografias de João Tuna).

    Num palco molhado, simbologia de reflexo e de fluidez, a agitação das águas retoma sempre o ponto de inércia, pela lacustre limitação e estagna-ção impostas pelo chão dos homens (qual escritor que busca "novas for-mas" e constata a rotina e o conformismo trazidos pelo tempo).
   No jogo dos contrastes que se comple(men)tam, a vida impõe-se na ténue fronteira entre o que é ilusão, ficção; desilusão, realidade. E no palco da vida surge aquilo a que todos assistem: desencontros de amor, antinomias do velho e do novo, do que flui e do que permanece, do campo e da cidade, da crise e do sonho, do 'eu' e do 'outro' que connosco anda (feito do posto, do posicionamento assumido tal qual cadeira que se arrasta para que nos possamos apoiar, sentar, acomodar).
    Da arte da escrita e do teatro, fica a imagem da vocação: a da entrega ao acto, na consciência de como há que vencer as dificuldades, os fracassos para que se possa obter a força interior que cada um assume da forma que melhor pode ou quer. Onde uns vêem a fama e celebridade desejadas, outros apenas encontram o trabalho que têm (e para o qual precisam de uma inspiração); onde uns buscam o que de insólito, novo e diferente há na arte, outros reconhecem o que esta tem de já consagrado; onde uns cumprem o papel que representam (com maior ou menor crença ou fé), outros questionam-se.
    E a gaivota voa, a gaivota crocita.
   O homem pode matá-la, pode matar-se.
   A ave pode morrer, mas a mulher que a encarna ainda foge, por mais que o passado a marque. Falta saber se o lago será suficientemente grande para o voo que quer dar.

    Tchékhov, como te entendo neste desassossego! Desde há um século, (re)escreve-se e (re)formula-se a nota de decadentismo, de angústia, de simbolismo, de um existencialismo antecipado. No jogo de desigualdades, no qual uns descem à dor, à perda e ao sofrimento (que abatem o ser humano), outros preferem a ilusão, deixando-se ficar por memórias de um passado que, não se querendo revisto, se impõe num presente apresentado como longe de qualquer mal. E a vida surge qual palco, qual cenário composto à medida dos anseios nele depositados.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Antígona: reflexão sobre o(s) poder(es) para salvar a vida

     Um espectáculo... (no duplo sentido).

    Numa encenação de Nuno Carinhas e com o texto de Sófocles traduzido por Marta Várzeas, expõe-se ao público uma estrutura cénica de anfiteatro, sugestivamente fundacional da tradição grega; o visionamento de um cerimonial performativo de natureza cívica; a força de uma representação que se faz dos conflitos de critérios, do entendimento e do significado a dar a certas palavras; da abordagem trágica não tanto de situações (como em Ésquilo), mas, mais, de caracteres.
     A força de um dever apoiado no sentimento e no laço familiar debate-se com as ordenações estabelecidas por um poder que, por mais que seja inicialmente legitimado e reconhecido, escapa ao entendimento moral. É o que sucede quando não se admite soluções e apenas se dá ordens (tal como Creonte); e assim se chega a ameaçar o Cosmos, lançando-se o mundo no caos.
    A atitude de oposição da jovem Antígona, figura que o leitor / espectador mais guarda na memória (não obstante a reduzida presença no texto / na representação), culmina num diálogo intemporal, feito da legitimação da lei dos deuses em detrimento da lei humana. Torna-se admissível a questão de quem escreve as leis não escritas dos deuses. Nesta linha de reflexão, cresce o confronto de dois poderes, ao qual se junta outro: é posto em causa um acto humano de Creonte, enquanto porta-voz das razões de Estado, para se impor aquele assente numa plataforma moral, familiar - eticamente sustentado a ponto de ferir de morte alguns sinais de um mundo despótico.


    No final, chegada a “anagnorisis” (reconhecimento), a força do tempo impera: é tarde. A “hamartia” (erro trágico) faz com que Antígona, num bailado de dor que a conduz a uma caverna escavada na rocha, acabe por pôr termo à vida. Também Hémon (o noivo de Antígona, o filho de Creonte) teve na espada com que se trespassou o acto sofrido do amante que - apesar de saber usar da palavra, do discurso apoiado num raciocínio aprovado - deixou na palavra dita toda a força que não alimentou o feito desejado ou a solução creditada.
    Da quase ausência de Antígona (no texto ou no palco) se faz a presença forte de uma consciência liberta, mas ameaçada na condição e na existência; do tempo representado, já passado, se revê o presente com muitos poderes que, no jogo da pólis e do ethos, se degladiam.
    “Não há ventura sem desdita” é máxima que Sófocles parece querer situar ao nível das forças do destino. Ao ouvir que “Há mortos de que os vivos são responsáveis”, impõe-se a acção do Homem, a origem de algum do sentido trágico e desventuroso traçado pelo próprio; mas também a fonte para poder salvar a vida.

       Pela mensagem do texto dramático, pela qualidade arrebatadora da representação e encenação, pela(s) companhia(s) do momento, esta foi uma noite que deu em muita luz.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Ficam-me as sombras... das verdadeiras imagens

      Parece Platão e a teoria do conhecimento, inspirada no Mito da Caverna.

     Leves reminiscências do que não vi - o resultado da observação das primeiras fotos desse espectáculo que o InSkené-gTag levou a cabo no passado sábado, no Auditório Municipal de Gondomar.


        Cada vez fica mais a sensação de ter lamentavelmente perdido algo imperdível.



       A sombra de um Pessoa... de um Nininho escrevendo à sua Ofélia, num pequeno passo da representação de "Tudo em Pessoa(s) - Com sentido (ou consentido)":


    "Meu amorzinho, meu Bebé querido:
    São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apesar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Há três noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horríveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estúpida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o sono. É que, sem ter febre, eu tinha delírio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. (…) Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.
   Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu
Fernando"

Carta de Fernando Pessoa a Ofélia, pelo Dia dos Namorados (19/02/1920)

       Restam-me as sombras... já que não posso nem pude ter acesso às imagens originais do dia da representação. Talvez quando for filósofo... ou poeta.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Do acto ao facto

     Apresentação pública de uma nova associação recreativa e cultural em Gondomar - ou de como um acto de juventude se faz facto cultural.

      Dia in Skené, ou melhor, noite in Skené. E eu in kreváti.

      Muitos assistirão ao 'Tudo em Pessoa(s)';
      eu fico-me pela imaginação.

      O gosto de um palco vivido e contracenado no público não foi para mim.

      Espero que o seja para os que me apoiaram na loucura
      de partilhar uma recriação pessoana
      feita de muitos versos,
      feita de múltiplas vozes,
      feita de ensaiados gestos,
      feita de ousada representação.

      Tudo começará com o escuro...
      com uma melodia...

Uma melodia de Bela Bartók acompanha a imaginada representação de um texto 
(inspiradamente pessoano e ofeliano) para amadores (porque amam a arte).
      
      com uma voz transcendente... entre muitas outras presentes...
      ... e os sentidos possíveis.

      Assim foi pensado o reencontro do público com Ofélia e Pessoa.
     Entre o lamento de não estar onde não posso e a convicção de que muitos darão vida a um sonho, fica o desejo de que este nascimento seja mais um sinal da esperança ambicionada.