quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Um futuro de grande ovação!

     Ora vamos lá ensaiar o ano letivo 2015-2016.

     Novo programa de Português no secundário: 
PALMAS!
     Novos manuais de Português no secundário: 
PALMAS!
     Novo programa de Português no básico (Despacho nº 2109 /2015, de 23 de fevereiro): 
PALMAS!
     Velhos manuais de Português no básico (de um programa que só o era na diferença com as metas, que passaram a ser mais do que o programa... ou vice-versa ou talvez coisa nenhuma):
PALMAS!

    Um mundo feito de novidades (com algumas velharias) e de festa.

     E agora que o Programa de Português do Ensino Básico está revogado (só sobreviveu seis anos), de momento não há programa. Ainda bem que os professores sabem cumprir o seu papel, sem documentos de gabinete, alguns dos quais tão inexequíveis que só por grande exercício de imaginação é que ainda alguém trabalha com / para eles, sem os alunos à frente
Fantástico! (Ou de como dizem os meus alunos, junto de outros mais: "Uma salva de palmas!" E todos batem as palmas das mãos uma só vez.)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Piadas homofónicas

     Pena que alguns não percebam que a piada também pode resultar de um jogo linguístico.

    Mostraram-me hoje uma imagem que circula pelo Facebook, na qual aparece um diálogo com "um erro". 
    Quando pedi a explicação, até fiquei satisfeito pelo facto de terem detetado como 'conserto' (no sentido de correção, arranjo, remendo, reparação) se escreve com 's' ou como esse verbo tinha um 'e' de som diferente (aberto) do nome 'concerto' (fechado). Tive pena, porém, que não fossem um pouco mais longe:


    À falta de melhor, conduzi os denunciadores desta "prevaricação" linguística para uma consulta no Google e pedi-lhes que pesquisassem sobre o autor indicado: Zack Magiezi. "Deve ser italiano", diziam uns. "Não! Zack é inglês", corrigiam (?) outros. Descobriram que era brasileiro, nascido em São Paulo, e autor de uma página de Facebook (Estranheirismo), além de poemas e criações literárias. Com os dados da autoria e da escrita, instalou-se a dúvida: "E um autor dá erros?" Lá acrescentei que até pode(ria) dar, mas a verdade do conhecimento dominado estava no parêntesis final.
     Surgiu, então, o comentário: "Pronto! É uma piada inteligente!"

     Acrescentei: "Uma verdadeira piada homofónica". Descobriram, então, que devem ler o texto até ao fim, inclusive os parêntesis (que não são tão secundários ou pouco essenciais quanto alguns os querem fazer ser), para distinguir os jogos com base na homofonia do desconhecimento / erro linguístico. Ficaram, por fim, de me trazer um erro de língua a valer.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Notas, chumbos e o mais que estará para vir

     A nova ou notícia de hoje é a recomendação do Conselho Nacional da Educação sobre os chumbos a evitar.


    Segundo David Justino, antigo Ministro da Educação e atual presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a avaliação baseada nas notas dos exames assume "um efeito de influência" na avaliação dos alunos ao longo do ano, dado que "é necessário evitar". Até aqui, tudo pacífico. Para quem vê as práticas como a exclusiva preparação para os exames é bom que se leia estas palavras; para quem não saiba que as escolas são induzidas, por variadas formas, a comportar-se dessa forma, estas são sementes lançadas a terreno estéril.
     Junto com isto, volta a velha discussão entre as diferenças da avaliação contínua e da avaliação sumativa externa, questão mais do que conhecida, mas a todo o tempo retomada (quando não distorcida). E depois, de novo, as tabelas, as estatísticas, os gráficos e as comparações, numa espécie de agenda subliminar que pelos meses de fevereiro a abril volta à crista de uma onda revista lá pelas marés de setembro-novembro. A par disto, ressoam pelos corredores das escolas discursos (entre outros ruidos que em nada favorecem o clima e o ambiente de estudo e trabalho) a sublinhar o interesse de, cada vez mais, haver quem tudo faça para que as leituras de duas modalidades avaliativas coincidam: são os testes feitos à moda dos exames (muitos dos quais aplicados em 90 minutos, quando seriam de prever 120+30); são as médias de exame discutidas e misturadas com as médias de ano e/ou de períodos; são as práticas reduzidas ao que "interessa para exame" (se sai ou não sai, para não falar nas apostas feitas quanto às certezas do que este venha a contemplar). Tanto esbracejar em areia movediça e tanta discussão para colocar muito e diferenciado assunto num só saco! (Uma estratégia para nada ser feito foi sempre a de fazer divergir a discussão para múltiplos pontos, de modo a que nenhum seja tratado, pela consciência da pequenez humana face à grandeza e à grandiosidade dos problemas).
    Atrofiados por questões de gabinete(s), lá vão os professores (eu) trabalhando o melhor que podem (posso) no meio de tanta poeira e vento lançados à / na escola, numa consciência crescente de que estão (estou) cada vez mais sozinhos (só, mesmo) face a autoridades máximas, organismos centrais que parecem deleitar-se com convicções por vezes tão infundadas na realidade escolar comum concreta quanto assentes em modelos teóricos que tão pouco têm de generalizáveis. Aos que aqui descobriram o filão de ouro respondem outros países - considerados modelo para algumas coisas, outras não - que, tendo já passado pela experiência, já só nela veem o ouro dos tolos, composto de embaraços e impedimentos quer ao estímulo quer ao sucesso.  
    E os alunos lá estão, longe de tudo isto e tão mais do que isto; muito para além dos números e das percentagens, com tanto do que ainda vão dando ou querendo (felicidade, talvez, a minha por ainda os ver assim e ter muitos que assim são, por ainda verem algum sentido naquilo que fazem e naquilo que lhes é dado a fazer); à espera de ter indicações precisas do que fazer; com as interrogações  e as reações e papéis típicos dos adolescentes que os professores (eu) também foram (fui); numa postura entre a convergência e o desafio (quando não é de desautorização, à semelhança do que acontece com outros poderes que o deixaram de ser, por terem perdido os meios de o ser) à autoridade que têm à frente.
     Leio nos escaparates, nas primeiras páginas, nos títulos, nas citações (admito que descontextualizadas) que a «'Cultura da nota' desvaloriza processos que promovem aprendizagem». Nem sei que pense: a frase tanto dá para a má nota - que rotula, que estigmatiza, que inviabiliza a possibilidade ou a motivação para participar noutra oportunidade - como para a melhor de todas elas - nem sempre a refletir o rigor e a exigência (ou o mérito e a excelência) tantas vezes aflorada - porque literalmente feita apenas de "flores" superficiais e não apoiada ou alicerçada na "terra" - em situações, formações, alternativas, certificações apressadas, discursos de sucesso educativo (como se este fosse apenas um, particularmente o da aprovação e o do diploma conseguidos de qualquer modo). Depois o fim dos "chumbos", das "retenções", das "reprovações", das "não aprovações" são designações que também podem significar a banalização, a indiferenciação, a falta de necessidade e de brio para se ultrapassar falhas, dificuldades, disfunções, desafios que nem só o tempo ajuda a resolver. Um autêntico "laissez faire laissez passer", educando para uma vida em que só ilusoriamente não há constrangimentos, entraves, dificuldades, adversidades - muitos deles a motivar um real e reconhecido esforço, a superação, sem que tenha de chegar necessariamente à transcendência.
       Tempos de caricatura, tão próximos da realidade:


     A novidade não é nenhuma - é uma nova velhíssima e grotesca. A preocupação é mesmo a do dinheiro, a do custo que representa a retenção (numa versão mais material e culpabilizadora) ou a do investimento que uma formação alternativa possa representar (noutra versão, politicamente mais correta). A pessoa, o aluno - na sua individualidade, singularidade - é uma outra perspetiva. Só que esta fica nas mãos do docente que terá outros tantos para encarar, numa heterogeneidade e diversidade (quando não de inconsistente inclusão) muito além de qualquer percentagem que alguém quererá atingir na massa anónima mais internacional(izada) possível.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Hoje deu-me para as lendas

    É o que faz deparar com uma pintura que retrata uma delas.

Imagem no Santuário da Nossa Senhora da Nazaré (foto VO)
    Refiro-me a uma tela setecentista, assinada por Luís de Almeida, que se encontra no San- tuário do Sítio ou na mais conhecida Igreja da Nossa Senhora da Nazaré. A imagem repre- senta a Lenda da Nazaré, narrativa que lembra um episódio de caça protagonizado por D. Fuas Roupinho (Fernão Gonçalves Chuchirrão), com- panheiro de armas e de lutas nos tempos de D. Afonso Henriques. 
    Conta-se que ao amanhecer de 14 de setembro de 1182, o então alcaide do castelo de Porto de Mós caçava junto ao litoral, na proxi- midade das suas propriedades. Ao avistar um veado, começou a persegui-lo. Um denso nevoeiro que se levantara do mar impediu-o de ver como era conduzido para o cimo de uma falésia. Aí, junto a um precipício, reconheceu uma gruta onde era venerada uma imagem de Nossa Senhora com o Menino. Em aflitiva prece, rogou à Santa que lhe valesse. Milagrosamente, o cavalo estacou, firmando as patas traseiras numa rocha suspensa sobre o vazio - o Bico do Milagre. Salvos o cavaleiro e a sua montada, de uma morte certa numa queda de mais de cem metros, foram chamados pedreiros para erguerem uma pequena capela sobre a gruta, como registo de memória do milagre - a Capela da Memória.
     Diz-se ainda que durante os preparativos da construção, entre as pedras lá existentes, foi encontrado um cofre em marfim com algumas relíquias e um pergaminho. Neste se identificavam as relíquias como pertencentes a S. Brás e S. Bartolomeu e se relatava a história da pequena escultura policromada, esculpida em madeira, que no local muita gente venerava: a Virgem Maria, sentada, a amamentar o Menino Jesus, também ele sentado na perna esquerda da mãe. Enquanto a imagem venerada desde os primeiros tempos do Cristianismo em Nazaré, na Galileia (terra natal de Maria), o pergaminho conta também que ela terá chegado a Mérida pelas mãos de um monge grego e, no contexto das lutas entre Muçulmanos e Cristãos, o rei D. Rodrigo tê-la-á trazido para a região do litoral atlântico aquando de uma das suas derrotas.

    E com esta história me fico, não pela popularidade da devoção nem pelos mistérios do pergaminho, mas pela memória de uma pausa de carnaval que me levou até Nazaré (não da Galileia, mas deste cantinho ocidental à beira-mar plantado).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Tudo a dobrar

    A questão decorre de uma dúvida levantada por uma posição extremada na escrita de uma palavra pouco comum, mas já com algum uso.

     Este é um dos casos que o uso vai já impondo alterações. Provas de que a língua está viva.

    Q: A palavra 'duplex' leva acento no 'u'? Disseram-me que essa é a forma correta de escrever a palavra.

      R: Na verdade, sempre encarei a escrita "duplex" como correta. Instalada a dúvida, pesquisei em alguns dicionários e acabei por chegar à conclusão de que ambas as formas, acentuada e não acentuada, são aceitáveis. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, regista as duas formas (dúplex e duplex), o mesmo acontecendo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Igual situação pode ser ainda encontrada no Vocabulário Ortográfico do Português (ILTEC).
    Uma nota, contudo, deve ser tida em consideração: o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa não deixa de registar que 'duplex' é a forma mais usada, mas não a preferida por outros dicionários. Estes seguem a versão acentuada, numa fidelidade à origem etimológica do termo latino (duplex, ĭcis), com o significado de "duplo, dobro, dobrado" e com a sílaba [du] mais longa / intensa do que [plĭ].
      Estamos, portanto, perante mais um caso de alguma deriva na língua portuguesa, à semelhança do que já acontece com outras palavras que apresentam oscilação de pronúncia (Oceania / Oceânia, pudico / púdico, tulipa / túlipa) e entradas dicionarizadas com ambas as formas.
      Para a tendência do uso 'duplex' não será certamente estranha a vulgarização / frequência em função da forma reintroduzida e emprestada do inglês, também grafada sem acento:


     Ora, a tendência da pronúncia estará para assumir a palavra mais como aguda do que grave; daí o 'duplex'. Quem quiser ser mais etimológico que vá pelo 'plex' e pela respetiva fonética - no mínimo incomum pela sonoridade de palavra grave. Em qualquer dos casos (o do uso, o da etimologia), haverá sempre razão para a constatação da língua viva, em constante evolução.
    

sábado, 7 de fevereiro de 2015

E, agora, de baixo...

     Na sequência de apontamento anterior, mais uma dúvida com muito latim à mistura.

     Depois do 'semi-', vem o 'sub-', bem distinto do anterior.

     Q: E submarino? Já quase afundei...

   R: Quem se mete com submarinos a isso se arrisca, mas não creio ser o caso. A palavra 'submarino' é formada a partir de 'sub+marino'. A segmentação deve ser feita considerando o prefixo 'sub-' (recursiva e recorrentemente utilizado noutras palavras do português, inclusivamente com as variantes alomórficas su-, sus-, sob-, so-) e a palavra base 'marino', já entrada no português a partir da forma latina 'marinus'. 
     Trata-se, portanto, de um exemplo de derivação por prefixação.

    Mais um caso, portanto, em que interessa trabalhar a recursividade do prefixo latino (na aceção, por exemplo, de posição abaixo ou inferior - ex.: subaquático, subarrendar, subdiretor, subsolo, subjazer, substrato, subliminar, subconsciente, subaproveitar, subtítulo -; de falta / insuficiência - ex.: subalimentado, subdesenvolvido - ou não explícito - ex.: subentender) para a formação de palavras no português.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

De volta ao quase ou à metade...

            A questão hoje foi completa, ainda que seja acerca da metade ou daquilo que é 'quase'.

       Q: Como se classificam as palavras que contenham "semi", derivadas por prefixação ou compostas?

      R: No capítulo dos radicais eruditos, houve sempre alguma instabilidade quanto à classificação das palavras portuguesas que os utilizam como uma das suas componentes de formação. Por um lado, a questão da consciência geral dos falantes muitas vezes não se põe (por não ser de conhecimento imediatamente acessível); por outro, há exemplos de radicais desse tipo que, entretanto, acusaram uma deriva semântica própria de realidades / valores significativos distintos do significado geral (é o caso clássico de 'auto', com o valor grego de 'próprio', 'por si mesmo / próprio' - como em 'autoavaliação' - e o sentido mais atual de 'relativo a veículo movido por si mesmo' - como em 'autoestrada').
     Quanto a 'semi', Celso Cunha e Lindley Cintra (na Nova Gramática do Português Contemporâneo) colocam-no numa lista que designam de 'pseudoprefixos', precisamente por ser um caso de radical culto latino que entrou em deriva semântica. Outros linguistas, como José Herculano de Carvalho (na Teoria da Linguagem), falam de 'prefixóides', isto é, significantes análogos aos prefixos, apesar de não caberem inteiramente nessa categoria. André Martinet propôs para situações destas (nomeadamente as que evidenciam termos como 'aero, agro, arqui, astro, bio, cine. demo, eletro, fono, foto, geo, hetero, hidro, inter, macro, maxi, micro, mini, mono, moto, multi, pluri, poli, proto, pseudo, radio, retro, tele, termo') o conceito de recomposição - designação para um processo que não se identifica nem com a composição nem com a derivação sistemáticas.
          Pelo facto de este último linguista recorrer ao termo 'recomposição (sublinhado meu), mantenho o contexto das palavras compostas como o mais ajustado a uma possível classificação de 'semifrio', 'semicolcheia', 'semibreve', 'semifusa', 'semifinal', semiprofissional', 'semirreta', 'semivogal', 'semicerrado', 'semiestruturada'. Na mesma linha encontra-se a informação do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, ao apontar a entrada 'semi' como elemento de composição.

           A instabilidade, a deriva ou a dificuldade de classificação patentes nestes casos não são mais do que evidências da falta de sistematicidade ou do grau (mais ou menos elevado) de irregularidade em mecanismos complexos e/ou com um alto grau de especificidade no domínio da formação de palavras - muitos dos quais a ultrapassar o domínio morfológico (como é o caso da lexicalização e o das palavras lexicalizadas). Trata-se, portanto, de uma questão que ultrapassa claramente o público-alvo dos ensinos básico e secundário e que deve dar lugar, na didática da gramática. a um trabalho mais orientado para a consulta de termos eruditos e sua produtividade na antecipação / construção de significados em palavras concretas (em detrimento de preocupações classificatórias).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Quem se lembra de tal à hora de jantar?

     Eis que me chega novo pedido de comentário, formulado por uma colega atenta a estes "trocadilhos" gráficos divulgados pelo Facebook.

     Numa imagem que circula pelo facebook, partilha-se, com o famoso "kkkkkkkk" (a representar o riso gutural dos "danadinhos para a brincadeira"), o aviso:
    Que se me oferece dizer? Que a criatividade linguística dos utilizadores (menos conscientes e/ou mais intuitivos ou, ainda, os mais divertidos e criativos, a julgar pelo 'assinado eu') é fantástica, mesmo que ela decorra de situações de erro. 
    Na verdade, muita da criatividade da língua surge neste último contexto. O dado é historicamente comprovável, até pela própria evolução do latim vulgar, atestada num registo como o "Appendix Probi" (terceiro de um conjunto de cinco apêndices, da autoria do gramático Probo, a dar conta de fenómenos de evolução glosados na perspetiva da sua gramaticalidade / agramaticalidade relativamente ao latim falado nos séculos III a IV). Hoje, em português e para olhos que não estejam a ver bem, sempre há uns óculos para compor a situação; e se ambos os termos sublinhados existem na nossa língua, é porque alguém deixou de, no latim, dizer o gramatical oculus e passou a utilizar o agramatical oc'lus (glosa 111, a revelar a síncope da vogal pós-tónica, indesejada para Probo) para se referir aos olhos. Assim, por via popular, nos chegam os olhos (< oc'lus); por via erudita, os óculos (< oculus). O mesmo sucedeu com auris non oricla (se hoje dizemos 'orelha' estamos mais para a forma dita agramatical do que para a base correta).
       O erro na imagem dada a ver/ler pode ser impeditivo do que se queira transmitir; porém, a leitura em voz alta repõe, na mente do leitor, a mensagem: "Fui almoçar".
    De novo, há a possibilidade de alguma interferência de um registo sonoro do português não europeu (mais familiar, por exemplo, ao da variedade do Brasil), que pode conduzir o falante a tentar registar, por escrito, o que lhe parece ser aquilo que familiarmente lhe é dado a ouvir. A par disto, considera-se ainda a inconsciência lexical (que vê duas palavras - 'ao mossar' - onde só existe uma - 'almoçar') e ortográfica (indiferenciação na grafia 'ss' / 'ç'). Alguma história da língua e a noção de alguns fenómenos de evolução fonética (contando com a deteção de dissimilação, síncope, palatalização) também ajudariam à correção pretendida.
      A par de tanta inconsciência, mais acrescento: quanto mais rápida for a produção oral da palavra 'almoçar' mais próxima fica a sílaba [al] do que aparece grafado na imagem como 'ao' (o que pode induzir o falante menos instruído à escrita de um ditongo foneticamente representado como [aw]).
    Instalada a comédia linguística, interessa dizer que ela só faz sentido por não se encontrar vulgarizado nenhum nome com a forma 'mossar'. Assim fosse, perder-se-ia toda a piada. Como só se reconhece 'mossar' como verbo (torcer o linho), 'fui ao mossar' é sintagma tomado como agramatical e, daí, sí na virtualidade cómica poder ser o que não é ou ler-se o que lá não está.

     À imagem de um apontamento anterior, a comunicação pode fazer-se, por mais que o ponto de partida pareça ruído. Por ora mais não digo (ou melhor, escrevo), porque é hora de jantar.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Pensando na montanha...

     Tudo vale, quando não se quer fazer o que tem de ser feito.     

     Porque tenho uma montanha de testes para corrigir, esqueço-os e fico-me pela montanha.
     A música também assim motiva a escolha:


     MOUNTAIN

You say that we're apart
And you can’t reach me
Yeah you can’t reach me
You got a broken heart
Don’t let them see it
Don’t let them see it

You built a wall bigger than your dreams
Feeling so small, covered in your fears
Baby, open the door
Let me come closer
I’ll dry your tears

When the lights go out
I’ll still be here
When the world falls down
Just listen clear

If only you knew that your words can
They can move a mountain
You’re changing my world when you’re smiling
I can’t live without it
And I won’t leave you hanging, hanging, oh no
I won't leave you hanging, hanging, oh no
I won't leave you hanging, hanging, oh no
'Cause you are the air that I breath

Agir:
Step into the dark
So you can see me
So you can see me
We’re a work of art
That I couldn’t finish
I couldn’t finish
I built a wall bigger than my pride
And how I wish you were here by my side
But I closed the door
Still I want you closer
With nothing to hide

When the lights go out
Search for me, search for me
And I’ll clear your doubts

If only you knew that your words can
They can move a mountain
You’re changing my world when you’re smiling
I can’t live without it
And I won’t leave you hanging, hanging, oh no
I won't leave you hanging, hanging, oh no
I won't leave you hanging, hanging, oh no
'Cause you are the air that I breath
Yeah you are the air that I breath
Yeah you are the air that I breath
Yeah you are the air that I breath
   
     Ao contrário do que cantam Carolina Deslandes e Agir, "I feel myself hanging, hanging, oh no !"

    Nem com música (com toada internacional que seja) isto vai lá! A montanha (de testes) é muito alta! E, ao contrário da letra, as palavras que leio não movem montanhas. Pena sinto que assim seja, quando, apesar de tudo, esta profissão ainda é "the air that I breath".

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

É preciso ter espírito

   Há quem ache que se chega a essa dimensão graças a uns complementos (bebíveis) muito discutíveis.

     A designação está aí, não porque essas bebidas tenham, nos seus líquidos, entidades sobrenaturais capazes de incentivar os bebedores a revelarem a sua dimensão mais invisível, mas porque contêm álcool etílico (obtido pelo processo de destilação).
     Ora, falar no "espírito" do vinho (para designar o álcool etílico) ou de outras bebidas alcoólicas é questão pacífica, quando bem escrita e com o devido acento. Contudo, adjetivar a partir do "espírito" tem mais do que se lhe diga e, por certo, com eventual perda de qualidade quando o resultado é o seguinte:

"Vinhos mal acompanhados" é o que se impõe dizer. (FOTO VO)

      Esrito (nome) não se confunde com o adjetivo (espirituosas), nem a natureza esdrúxula da intensidade silábica da primeira palavra se revê na característica grave da segunda (conforme se prova no sublinhado a marcar as sílabas salientes em cada termo).

     Com escrita mais correta, talvez houvesse mais esrito, mais graça espirituosa. Siga-se a seta pelos vinhos, porque pelas outras não há qualidade que lhes valha.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aluga-se quando há lugar...

     Pedem-me comentário a uma foto...

   Perante o que me é dado a ver, acabo a ler em voz alta, para a sonoridade da língua me ajudar a resolver o enigma gráfico:

(Foto partilhada por uma colega da área da matemática que me pede comentário. Assim seja!)

    Decifrado o texto, há criatividade suficiente na língua para se poder ultrapassar o desconhecimento e as limitações revelados quanto à convenção escrita. Na base de tudo fica a oralidade, a procurar pontes entre os sons e o reconhecimento de alguma reprodução destes naquilo que são registos escritos que os possam traduzir. Quando não se sabe, fazem-se aproximações "criativas" (lembro-me de uma aluna que leu tão atentamente 'Os Maias', de Eça de Queirós, que chegou ao ponto de escrever o nome do pai de Afonso como 'Queitano').
     Não obstante a tentativa (criativa, mas fracassada) demonstrada na foto, é preciso ainda adicionar outra problemática: a da interferência de alguma variação linguística no registo feito. O português de sonoridade vocálica aberta está mais para variedades não europeias da língua (como a do Brasil ou de África) do que para o que é dado a ouvir em Portugal. Aquele "Ha luga-se", inexistente na escrita, é uma aproximação ao que se ouve algum falante africano (ou mesmo falante nativo de uma língua estrangeira) produzir. 
    Resta juntar, a este dado, outros ingredientes como um défice de escolarização; uma inconsciência fonético-fonológica, lexical e ortográfica. Alguma história da língua também ajudava à correção pretendida, mas isso significaria ativar competências que, por mais importantes que também sejam para a justificação da escrita comum e socialmente reconhecida na correção, corresponderiam a um grau de desenvolvimento maior.

     ... e acabo a reconhecer a grande vontade / necessidade de comunicar com muita inconsciência à mistura.

domingo, 25 de janeiro de 2015

De novo, com os olhos e ouvidos nas origens.

    Hoje gostava de estar em Atenas a gritar SYRIZA.

     Espero que amanhã, num tempo mais alargado do que o dia, o grito ecoe para cada medida ou decisão feitas da honestidade e do dever cumprido para o prometido. Basta de sufoco, a bem de alguma esperança. Por maior que tenha sido o erro do passado, para que haja presente com sentido há que abrir a caixa de Pandora.
     Assim se construirá verdade, confiança, referência, ao contrário de muitos que continuamente desdisseram o que os levou ao poder. 
    Assim se alimentará tempo novo, com uma outra forma de fazer as coisas, mais atenta ao Homem e menos ao capitalismo sufocante e castrador em que as instituições de crédito financeiro se tornaram.
    Curioso (ou talvez nem tanto) que tudo esteja a acontecer na Grécia, nesse berço do pensamento democrático original. Se foram muitos os erros anteriores, se ainda há quem não cumpra o que é necessário para o bem comum grego (e, por consequência, europeu), tudo tem que ser feito para responsabilizar os que prevaricam; mas também há que criar vontades, novas vozes, novas caras e dinâmicas de futuro, apostadas na mudança (não no 'statu quo' ou no 'dejá vu').
    Em tempo de novo protagonismo, de um pioneirismo que se quer exemplar para a Europa - continente que muito lhe deve o nome -, gera-se uma causa de dimensão nacional com sentidos e efeitos muito para além da fronteira grega; revê-se o próprio continente, aquele que da Grécia recebeu toda uma civilização (a qual esteve na origem de tudo), segundo rezam a História e os mitos.
"O rapto da Europa", de Peter Paul Rubens (1628-9)
   Nesses tempos dos primórdios, dos deuses da anti- guidade clássica, uma princesa fení- cia se impôs pela beleza, chamando a atenção e as paixões do poderoso deus grego: Zeus. Disso não gostou Hera, a ciumenta mulher do deus principal da mitologia grega. Daí este ter-se transformado num touro, para se apro- ximar da princesa, que, maravilhada, coroou o animal com uma grinalda de flores e acabou por saltar para o seu dorso. Ao senti-la nas suas costas, o taurino e supremo morador do Olimpo desatou a correr em direção ao mar, só parando quando chegou a uma pequena ilha: Creta. Aí, à sombra de um plátano, revelou-se na sua verdadeira forma. Acabaram ambos por dar vida a três crianças: Minos (futuro rei de Creta e um dos juízes do inferno, que ouvia as confissões dos mortos), Radamanto (rei das Cíclades, conhecido pela sabedoria e justiça) e Sarpedão (príncipe da Lícia).
      Hoje, em tempos de crescentes individualismos, fala-se na necessidade de um espírito gregário, de uma natureza associativa (pretendida e nem sempre alcançada) para ultrapassar problemas e crises comuns, numa inspiração apoiada no modelo das ágoras e das ligas que instituíam a união de esforços. Os tempos são efetivamente outros, à espera mais de Radamantos do que de grupos que não pugnam pela felicidade comum.
       Talvez aqui a Grécia ainda tenha uma palavra a dizer. Eu gostava que fosse SYRIZA, pelo que esta coligação possa representar de exemplo para uma saída humanizada e feliz para a austeridade; para a afirmação de uma nacionalidade mais interessada no seu povo do que nas prioridades especulativas de grupos mais focados nas próprias bolsas (e nos respetivos bolsos), em detrimento do bem social comum.

    Num país que tanto deu à Europa (cultural e linguisticamente), talvez ainda esteja a ser preparada (mais) uma lição. Que assim seja, a bem dos homens que nela moram e para que os mesmos, ou outros ainda, saibam que há uma forma diferente de fazer as coisas (sem ter de se cair em igualitarismos duvidosos nem em controlos ameaçadores, perversos e desumanos).

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Volta Descartes, que estás perdoado!

     Não propriamente pela filosofia, mas pela morfologia.

     A questão prende-se com a formação da palavra "cartesiano".

     Q: Como é que se forma a palavra "cartesiano"? Só derivação? Não há primeiro truncação?

     R: Admitindo a existência do sufixo 'iano' com alguma regularidade no português, o facto é que a base derivante que resta (Cartes) é algo estranha. Está aqui, portanto, uma razão para admitir, desde logo, a possibilidade de a palavra já ter entrado na língua portuguesa por intermédio de uma outra língua (eventualmente, o francês, com 'cartesien'), tendo-se procedido ao seu aportuguesamento.
   Pela consulta de um dicionário com informação etimológica, além do conhecimento que vulgarmente associa o adjetivo cartesiano a tudo o que tem Descartes como autor ou origem, lá aparece a entrada etimológica do termo no século XVII, a partir do francês e numa recuperação latina do radical 'Cartes' (de Cartesius, nome latino - numa vertente neoclássica e academicista - para Descartes).
       Portanto, a formação da palavra ocorre verdadeiramente no francês (cartes+ien). Em português, processa-se a adaptação do empréstimo. Na base deste raciocínio, tem cabimento falar num exemplo de processo irregular de formação de palavras, não pela truncação (dado o radical latino que preexiste), mas precisamente pelo processo de transferência ocorrido de uma língua (francês) para outra (português) já há alguns séculos.

        Esta moda neoclássica de recuperar a etimologia latina tem muito que se lhe diga, de novo convocando o interesse de uma plataforma entre a formação de palavras, a história da língua e a etimologia. Quanto ao empréstimo, é tão antigo que nem dele há já consciência no presente.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Vamos lá ao 'por isso'.

       A questão do contexto é fundamental; a do texto também.

       Na base de tudo, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen.

       Q: Vítor, aqui vai mais uma dúvida: no poema de Sophia, "A forma justa", o 'Por isso' que abre a última estrofe que valor lógico apresenta?

     R: Olá. A classificação do conector 'por isso' é muito variável e discutida na comunidade dos estudiosos da língua. A habitual inserção entre os conectores 'conclusivos', segundo a gramática tradicional e no contexto da análise frásica e interfrásica, não exclui dois cenários: um, o de os conectores linguísticos admitirem a expressão de vários valores juntivos (o caso da conjunção 'e' é clássico, quando admite a expressão de valores adversativos, consecutivos, temporais, além da sua natureza aditiva); outro, o de os conectores articularem sequências com distribuição ou ordenação informacional variável (daí a articulação geral da causa-consequência dar lugar a conectores distintos, conforme a ordem seja Causa > Conector > Consequência ou seja inversa) e com extensão muito além da frase complexa.
  Assim, numa perspetiva de construção textual, como a implicada no poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, há a considerar o facto de toda uma primeira estrofe funcionar como um antece- dente textual (mar- cado por uma lógica dominantemente condicional) para um consequente introduzido pelo conector 'por isso'. Na sequência desta progressão textual, há um raciocínio argumentativo que se dá a ler ao longo de treze versos e se conclui com um dístico (estrofe final) a introduzir o efeito ou a consequência lógica de um saber ("Sei") feito de mundos alternativos (daí o condicional contrafactual, lido em "seria possível", "poderiam ser", "proporia" ou mesmo no imperfeito do conjuntivo "atraiçoasse", "fosse").
  "Por isso", neste caso, é um conector de natureza pragmático-discursiva, relacionado com raciocínios de progressão do tipo causalidade ou condicionalidade (pressuposta ou antecedente) > consequência. Introduz, portanto, uma consequência (textual). É um conector consecutivo.

      Uma forma particular de consecutividade pode ser encontrada na conclusão conforme às regras da lógica, quando se utilizam os conectores 'por isso', 'por / em consequência' e 'consequentemente'. Com eles, o enunciador indica ao enunciatário que este deve considerar uma dada sequência como lógica e completa segundo um ponto de vista argumentativo. Nesta base também se entende a classificação de construções 'consecutivas conclusivas', na linha da proposta feita por Joaquim Fonseca (seguindo A. Zanone) aquando do estudo "Pragmática e Sintaxe-Semântica das Consecutivas" (1994).

domingo, 11 de janeiro de 2015

Fruto económico, com novas qualidades... até no nome.

      As novidades deste(s) tempo(s)!

    Ouvi há poucos dias alguém falar de umas bolachas que tinham "uvas pássaras" (devem ter sido uvas tão debicadas pelas ditas cujas que até lhes ganharam o nome). Pouco tempo depois, falou-se de outra comida mais substancial: os "rijões" (diga-se, pedaços de carne de porco que deviam ser tão duros, tão duros que não chegava dizer "rijos").
     Hoje, dá-se a ler novo produto, económico para não provocar nervosismo:

   
     O efeito deve ser de tal forma relaxante que se recomenda como sedativo, a julgar pelo nome atribuído: as clementinas que dão calma passam a ser as "calmantinas".
     Não bastava haver "ovelhas ranhosas" (deixaram de ser 'ronhosas' - por ter 'ronha' - e passaram a ter 'ranho' - salvo seja!) que até a fruta ganha novas qualidades! 

      O que faz uma oralidade tão pouco instruída ou cuidada? Evolui para uma escrita que fica à vista de todos. Calma, muita calma! Coma calmantina que é melhor do que tangerina!

sábado, 10 de janeiro de 2015

Fanatismo, desunião e violência

      Três dias depois, o pesadelo começa a receber a resposta que devia ter sempre existido.

     O atentado - terrorista no ato, se não o for na dimensão ideológico-político-religiosa (a ver vamos quem o reclamará) - ao jornal Charlie Hebdo é traumático pelas vítimas provocadas; lamentável e perturbador pelos princípios que o possam ter motivado; ofensivo e crítico pelo desrespeito dos ideais atacados, tão marcantes para a história e cultura francesas como para o ocidente europeu (e não só). Os proclamados defensores dos valores de cidadania, de inclusão e integração, aceitação e multiculturalidade, liberdade, igualdade e fraternidade sentiram-se violentados, vitimizados.

Estátua do ardina, na cidade do Porto,
junto à Praça da Liberdade.

      O "Je suis Charlie" surge em todo o local e com qualquer pessoa de bem, numa identidade emotiva e virtuosa não só com a liberdade de expressão mas também com os valores mais universais do ser humano. Falta saber quanto tempo durará esta marca, para não falar de todos os dirigentes políticos que vão embandeirar-se com tal identificação, mesmo sendo capazes de originar outras formas de terrorismo. Valha o facto de se deixarem também consciencializar pelo que possa representar este triste e trágico momento. Era bom que a causa fosse mais persistente, consistente, abrangente. 
   Para amanhã anuncia-se um grande movimento solidário em Paris. Lá estarão os governantes, os partidários dos valores que nos unem, encabeçando uma iniciativa que devia alargar-se ao combate de toda e qualquer forma de terrorismo, nomeadamente a que mais se faz sentir quase todos os dias, afetando a dignidade humana (por decisões excessivas, mais do que contestadas, nos planos político, económico e social).

      Não é livre quem é fanático; não é igual aquele que, na diferença e diversidade, não busca o que nos faça ou possa unir; não é fraterno quem responde a lápis, canetas, palavras e ilustrações humorísticas com armas letais, atos violentos e mortes injustas. Onde estais vós, liberdade, igualdade e fraternidade?

         

sábado, 3 de janeiro de 2015

Um filme com pouca história

     Por mais que ela não seja pequena nem pouco conhecida.

    Talvez por isso não se espere muito de novo, familiarizados que estamos à história do segundo livro do Velho Testamento (Bíblia): o "Êxodo". Aí se narra como os judeus abandonaram a escravidão, a que estavam votados pelos egípcios, e, liderados por Moisés, partiram rumo à Terra Prometida (Canãa).
   Nem sempre a fidelidade ao texto bíblico acontece (o episódio do cajado não acontece, por exemplo, ora no rio ora no mar), mas também não tinha de ser assim; e se Ramsés não foi propriamente o faraó-irmão, diga-se que estas "infidelidades" histórico-bíblicas não comprometem uma versão que tinha condições para brilhar. O certo é que não se trata do melhor produto em termos cinéfilos, não obstante o nome de o realizador Ridley Scott até o prometer (lembrando a grande produção de 'O Gladiador', há cerca de catorze anos) ou de as imagens do trailer também o sugerirem:


    Depois, na sala de cinema, assiste-se à intriga; o tempo passa, mas a sensação não é de arrebatamento, de grande feito épico ou de emoção intensa no confronto herói-vilão. Vê-se, mas não há vontade de repetir o visionamento. Custa-me a acreditar que o faça quando vier para o pequeno ecrã da televisão (curiosamente, já repeti o desenho animado "Príncipe do Egito" e não me cansa ouvir a música que o abrilhanta).
      A lógica das ações das personagens e os efeitos criados para os ambientes representados fazem algum sentido; a construção da imagem e das motivações que Moisés (Christian Baile) vai revelando como chefe de um exército, como homem que busca a sua identidade e o reconhecimento do que o seu povo vê nele, como líder de um grupo de resistentes revela-se pertinente. Tudo se compõe de uma forma que, de tão natural e plausivelmente real aos olhos ou ao entendimento contemporâneos, se perde a dimensão mítica, bíblica da história. Reveem-se teorias sociais, económicas e científicas que não são estranhas ao século XXI; aproximam-se os episódios bíblicos de uma naturalidade mais justificada pelas razões do Homem do que pela intervenção divina, não poupando sacerdotisas nem os desígnios castigadores de um Deus. A própria figura deste último - associada a uma criança prepotente, birrenta, perversa até - acaba por ajudar a humanizar Moisés, tornando-o menos escolhido ou "eleito"; menos crente e, ainda assim, mais líder de uma revolução que nem sempre é capaz de controlar.
      No confronto com o faraó (Joel Edgerton), Moisés mantém, apesar das diferenças, uma rivalidade mitigada que só as águas do Mar Vermelho irão definitivamente separar, fazendo apagar o par de espadas que os uniu e a fraternidade construída e assumida numa vivência conjunta com o poder palaciano - o mesmo que os viu "meninos que cresceram juntos".
       O tempo mais a posição de um (o deus faraó) e de outro (um rei, um líder de um povo que rumou à Terra Prometida) acabariam por mostrar a dificuldade em contrariar a disjunção e o inconciliável existentes desde o início.

      Pouca história, portanto, pelo que esta versão oferece. Esperava mais, para fazer esquecer o velhinho Cecil B. DeMille e "Os Dez Mandamentos" que, em 1956, resultaram numa imagem de marca e num clássico do cinema (tanto na intriga como na banda sonora).

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Cor, flor, vigor...

    ... e talvez pudesse ainda acrescentar amor, sabor, terror.

   É certo que a representação sonora dos termos é tão combinada quanto a rima que eles possam criar.
   Outras aproximações podem ser feitas, como a paronímia, que junta o pecador ao pescador ou mesmo ao pegador ou pregador. É nesta última relação que um outro caso pode resultar em exemplo: o de uma publicidade que espanta qualquer leitor, só de imaginar quem terá sido o autor ou o objetivo para tal anúncio compor:


    Não fosse a foto, diria que era brincadeira. Não o sendo, que fazer?
   Pego num papel e uns versinhos surgem. Nada de fantástico ou de grande valor; só uma reação a uma imagem com desacerto tão motivador: 


VIOLE(N)TA

É violenta a violeta? Não!
Nasal… só em ‘planta’;
na cor e na flor, razão
não tem quem anda
a escrever mal. É tão
inusitada a incorreção
que a mente manda,
com cuidado e atenção,
esquecer a força, se tanta
é a violência, a agressão!

Flor e cor rimam com vigor,
mas com pancada não!

    Fica a inspiração suscitada pelo erro: o de se acrescentar uma letra à flor, aproximando-a de qualquer forma de dor ou opressor.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Cumpre-se a tradição da quadra

     Nos últimos anos tem sido assim: com a saga do Hobbit.

     O Hobbit: a batalha dos cinco exércitos é a última (não só por ser a mais recente mas também por ser efetivamente a derradeira) aventura de Bilbo Baggins, na recuperação e reconquista do poder dos anões (anunciadas no primeiro filme). É o culminar épico da obra-prima O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.
    Numa espécie de epílogo a  Desolação de Smaug, o início do terceiro filme desta saga dá conta da destruição de Laketown e de como o dragão cuspidor de fogo é atingido por uma seta apontada por Bard (Luke Evans). No Reino Sob a Montanha (Erebor), a tentação do poder e a sedução pelo ouro chegam. Thorin Oakenshield (Richard Armitage), tal como o avô Thror, fraqueja: isola-se, cede ao que é entendido como a maldição do dragão, uma doença do espírito que mais não é do que o veneno da ambição desmedida, da obsessão pelo conquistado (tomado como fim em si mesmo). Ainda assim, quando os valores da amizade e da liderança, o reino, a honra estão para ser perdidos, o rei dos anões acorda e faz-se guiar pela razão, dando continuidade e sentido a tudo o que fizera nos dois filmes anteriores. Juntamente com os anões (os de Erebor e os da Montanha de Ferro), os elfos (de Mirkwood) e os homens (de Esgaroth), enfrenta as forças das trevas, particularmente a monstruosa figura do orc Azog (de Dol Guldur) - vilão coadjuvado por Bolg (de Gundabad).

Trailer legendado do filme

     Na luta contra o mal, o sacrifício torna-se palavra de ordem. O bem, por mais que impere, não permanece igual ao ponto de partida. No seu percurso de vitória, muito se aprende (como o verdadeiro valor da casa e da honra), mas também muito se perde. Tinha de ser assim, para que um novo herói (Aragon) pudesse surgir em O Senhor dos Anéis.
     Na banda sonora, uma música se destaca, em jeito de despedida: 'The last goodbye', de Billy Boyd.


I saw the light fade from the sky
On the wind I heard a sigh
As the snowflakes cover my fallen brothers
I will say this last goodbye

Night is now falling
So ends this day
The road is now calling
And I must away
Over hill and under trees
Through lands where never light has shone
By silver streams that run down to the Sea

Under clouds, beneath the stars
Over snow one winter’s morn
I turned at last to paths that lead home
And though where the road then takes me
I cannot tell
We came all this way
But now comes the day
To bid you farewell
Many places I have been
Many sorrows I have seen
But I don’t regret
Nor will I forget
All who took that road with me

Night is now falling
So ends this day
The road is now calling
And I must away
Over hill and under tree
Through lands where never light has shined
By silver streams that run down to the Sea

To these memories I will hold
With your blessing I will go
To turn at last to paths that lead home
And though where the road then takes me
I cannot tell
We came all this way
But now comes the day
To bid you farewell

I bid you all a very fond farewell.

    Entre perdas e ganhos, Bilbo regressa a Bag End. Quanto ao espectador, retoma também ao ponto de partida da obra de Tolkien - o da trilogia de 'O Senhor dos Anéis'. A vontade é a de seguir a história e rever A Irmandade do Anel.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

N, A, T, A, L

   Letra a letra se compõe a escrita da palavra.

     Cinco sons, duas sílabas, uma só palavra.
     Do muito ao essencial; do plural à comunhão, à união. O uno.
   Na procura do caminho a fazer, não interessa contar as várias pedras calcorreadas; só o sentido a atingir.


        A fantasia que ilumina o dia não apaga o conjunto de estrelas que, à noite, vela.
        Depois do escuro manto, uma outra e nova luz brilha.
        Quer-se a paz. 
        Nem sempre o mundo a dá. 
        O Homem procura-a e não raras vezes a desfaz.

      Que este seja o momento para nascer a esperança. Que seja esta a noite anunciadora de um novo tempo: o dia no qual se dê à luz a felicidade ansiada. O dia de Natal.