quarta-feira, 18 de março de 2009

Poesia, Som e Voz(es) em Pessoa(s)

    Entre o terreno do sensível e as alturas do inteligível, entre o sentido da pluralidade colectiva e a singular unicidade, constrói-se a diversidade na unidade.

      Imaginário(s), espaço(s), voz(es) e Pessoa(s).

Interpretação do poema pessoano "Do vale à montanha" por Mariza (Cavaleiro monge)

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.

24-10-1932
Fernando Pessoa, in Poesias de Fernando Pessoa
Edições Ática

      A elevação, a ascensão que se faz do sopé, do vale à montanha; a figuração do múltiplo da montanha na unidade do monte; a visão do coletivo no singular são percursos que Pessoa poetizou. Caminhou no sentido de uma espiritualidade de que o cavaleiro monge é símbolo; percorreu caminhos que não existem (senão na imaginação por ele sentida), que têm um sentido e o seu contrário. Dir-se-ia tratar-se de um percurso iniciático, no qual os obstáculos são provas para a superação e a transcendência necessárias à condição absoluta de felicidade.
    E, assim, cavaleiro e cavalo de sombra (que de real nada tem) "caminham" aliados, secretos, libertos, sozinhos, em mim. Esta a progressão das estrofes, sublinhando-se a dimensão de uma inconsciência que o eu-poético quer em si (enquanto sinónimo de idealização e de plenitude que mais parecem fruto de um "sentir com a imaginação"), até como forma de apagar o enleio da consciência, da realidade.
    Este é um poema com as linhas mestras da teoria de um fingimento artístico (sinónimo de criação), onde cabem o único e o múltiplo, a unidade e a diversidade, a realidade e a espiritualidade, a consciência e a inconsciência pessoanos.

     A conjugação perfeita da poesia, da voz, do espaço, da imagem - para um imaginário da espiritualidade.

terça-feira, 17 de março de 2009

Linguística na BD

       Dois exemplos da Mafaldinha...

      ... para mostrar como os Complementos do Adjectivo são funcionais... até na BD.

      Primeiro
      Segundo

      Agora, até estou interessado... (não digo em quê!);
      fico até ansioso... (também não digo por quê!).

      Tal como alguns verbos, também há adjectivos que se fazem acompanhar das preposições que introduzem a complementação destes últimos (ansiar por > ansioso por; interessar-se por / em > interessado por / em).

segunda-feira, 16 de março de 2009

Novo desafio linguístico (... mais complementar)

     Esta é uma questão complementar à da relação 'complemento determinativo-modificador' que foi objecto de tratamento no dia 14. A conversa é como as cerejas (quando se começa a comer...).
    
    Q: E com o atributo, já se pode dizer que é sempre substituído por modificador (restritivo)?


  R: Também não há linearidade na transposição das terminologias (a da Nomenclatura Gramatical Portuguesa e a do Dicionário Terminológico). Aliás, considerando a resposta dada anteontem sobre a relação não linear entre ‘complemento determinativo – modificador’, retomo um exemplo (o 3) para concluir o seguinte: 
    1 – a frase ‘A decisão do presidente foi contestada por todos os partidos políticos’ pode ser transformada da seguinte forma: ‘A decisão presidencial foi contestada por todos os partidos políticos’;
   2- a substituição da sequência ‘de+N’ pelo adjectivo ‘presidencial’, além de poder ser tomada como sinónima, corresponde à manutenção da função sintáctica independentemente das configurações sintagmáticas serem ‘de+N’ ou ‘Adj’ (‘presidencial’ funciona como complemento do nome, pelas mesmas razões enunciadas na resposta já mencionada [‘decisão’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do agente da decisão]).
    Aparece, assim, um exemplo de como o adjectivo (a funcionar como atributo, na nomenclatura tradicional) assume a função sintáctica de complemento do nome.
  Nesta mesma linha de argumentação, os adjectivos abaixo considerados podem funcionar como complementos do nome ‘eleição’, ‘aquecimento’, ‘proposta’ (todos nomes derivados de verbo transitivo ou com realização transitiva):
     a) “eleição presidencial(‘presidencial’ tomado como tema: alguém elegeu o presidente);
     b) “aquecimento solar(‘solar’ é a fonte / origem: o sol aquece qualquer coisa);
     c) “proposta estudantil(‘estudantil’ é o agente: os estudantes fizeram uma proposta).

     O mesmo já não sucede, por exemplo, com as sequências seguintes:

       d) “paisagem fabulosa
     e) “crise económica
     f) “comida deliciosa
     g) “vinho branco
     h) “imposto municipal

    Os nomes que antecedem os adjectivos não são derivados de verbos transitivos nem pertencem ao grupo daqueles que apresentam uma estrutura argumental que requer complementação (confronte, de novo, a resposta de anteontem); os adjectivos restringem a referência desse nome (por razões de qualificação, de classificação ou relação). Antigos atributos que funcionam como modificadores (restritivos).

   De novo impõe-se o trabalho da sintaxe numa interface com a semântica e até a morfologia - exemplo de uma gramática de corpo inteiro, para que a língua não resulte mutilada.

domingo, 15 de março de 2009

Novo desafio linguístico: ser ou não ser modificador

     Voltamos à sintaxe e de como não se pode transpor directamente etiquetas gramaticais antigas para a nova (já com bastantes anos, afinal) terminologia.

    Q: Posso concluir que os antigos ‘complementos determinativos’ dão lugar a modificadores na nova terminologia gramatical?

     R: Não há uma transposição directa entre as duas designações. Admitindo que, nas frases seguintes (1-5), o itálico correspondia a um complemento determinativo segundo a Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1947, a terminologia contemplada no Dicionário Terminológico (2008) aponta para designações distintas, as quais figuram entre parêntesis (1’-5’):

1) O pai do João comprou um carro novo.
(1’: ' do João' é complemento do nome [‘pai’ - nome de parentesco])
2) Para sobremesa, pedi bolo de chocolate.
(2’: 'de chocolate' é modificador restritivo)
3) A decisão do presidente foi contestada por todos os partidos políticos.
(3’: 'do presidente' é complemento do nome [‘decisão’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do agente da decisão])
4) A viagem de comboio foi uma experiência agradável.
(4’: 'de comboio' é modificador restritivo)
5) O professor de Português a) pediu muita atenção na construção do texto b).
(5a’: 'de Português' é modificador restritivo; 5b’: 'do texto' é complemento do nome [‘construção’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do tema da construção])

     Na verdade, a configuração ‘de+N’ interna ao Grupo Nominal destacado corresponde a comportamentos sintácticos distintos: num caso, ‘de+N’ é um complemento requerido pelo núcleo nominal (‘pai’, em 1; ‘decisão’, em 3; ‘construção’, em 5b); noutro caso, trata-se de um modificador, pois o núcleo nominal (‘bolo’, em 2; ‘viagem’, em 4; ‘professor’, em 5a) não pede, na sua estrutura argumental, nenhuma forma de complementação .
     Tipicamente, os nomes que pedem complementos (podendo estes últimos estar ou não realizados nas frases, à semelhança do que acontece com os complementos dos verbos) são os seguintes:
- nomes formados a partir de verbos transitivos (se o verbo transitivo de base tem uma estrutura argumental que requer complementos, o nome que deriva desse verbo admite a mesma propriedade, solicitando o agente, tema, possuidor associado ao nome – caso de ‘decisão’ <Alguém DECIDIR Algo>, por exemplo);
- nomes de parentesco (caso de ‘pai’, ‘filho’, ‘irmão’,...);
- nomes icónicos ou pictóricos (caso de 'fotografia', 'imagem', 'retrato', 'pintura',...);
- nomes associados a modalidades epistémicas (caso de 'hipótese', 'ideia', 'dúvida', 'certeza') ou deônticas ('obrigação', 'necessidade', 'dever', 'permissão');
- nomes relacionados com adjectivos simétricos (caso de 'diferença' / 'semelhança' [formados a partir de 'diferente / semelhante']);
- nomes com sentido colectivo parafraseáveis com o verbo ‘ter’ (caso de 'vizinhança' [formado a partir da sequência parafrásica 'X tem vizinhos']).
      Nenhum destes casos é o de 'bolo', 'viagem' ou ' professor', razão pela qual estes últimos estão seguidos de um modificador que lhes restringe a referência (modificador restritivo).

     A este propósito, confronte-se a Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Maria Helena Mira Mateus (2003: 330-344 e 376-383).

sábado, 14 de março de 2009

Poesia, o Mar e Tu

        Perguntava-me uma amiga o que seria da vida sem beleza. 

        Partilhou uma música: o mar e tu.



        Ao som da melodia e das vozes de Andrea Bocelli mais Dulce Pontes, recuperei as imagens do mar, da viagem, do céu...
        Surgiram, então, uns versos.

       O MAR E EU

A mim chegas por insistente conquista.

De mim te afastas sem qualquer temor;
A mim regressas por natureza… teimosia;
Sem mim ficas, por um salmourado amor.

Vejo-te orla dispersa, nesse limite branco
De um azul estendido até ao horizonte,
Ao céu pedindo humildemente a cor.

Banhas meus pés, lembrando-me pecador.
Rendo-me aos caprichos do húmido areal.

Por te ver, fecho os olhos e sorvo teu rumor.
Sem te ouvir, inspiro, recordo esse volátil sal,
Pescado numa lágrima solta, em sofreguidão.

Na pena fico, cheirando-te, vendo-te, ouvindo-te
Sem que haja concha ou búzio na minha mão.

VO
Espinho
Março 2009
    É esta a vida. Quanto à beleza...

Mais um desafio linguístico... com uma pitada de literatura

       A questão de um amigo e companheiro de "lutas" e de "causas". Só por isto se entende tamanha adjectivação (e antecipada!) à resposta.

    Q: Já há dias que ando para vir aqui comentar esta questão, e faço-o hoje porque ontem, numa aula com alunos de 8º ano, apareciam num texto - informativo/histórico - expressões como estas: «a situação descrita», ou «tudo isto provocou», entre outras idênticas e que remetiam sempre para a esquerda do texto. Não usei qualquer metalinguagem, simplesmente explorámos o texto para ver a que se referiam estas e outras expressões. E é bom que os professores de Português tenham consciência de que muitos alunos têm dificuldades de compreensão de leitura a este nível. Mas com treino a situação muda e no final da aula já se moviam no interior do texto com assinalável mestria. A minha pergunta é a seguinte: estas expressões não podem ser classificadas como 'deixis textual'? Creio ter visto isto em algum lado. Agradeço ao Vítor a resposta, sempre sábia, e deixo aqui o voto no sentido de que este blogue possa tornar-se num ponto de encontro de quem se interessa por didáctica da nossa língua.
      Tenho outras questões sobre didactização dos deícticos, mas ficam para outra altura...
Vilas-Boas

     R: A designação “deixis textual” é uma subespecificação do conceito de deixis, sendo esta última comummente considerada ao nível da indiciação da produção do discurso bem como das condições contextuais que pautam essa produção (o ‘eu’/’tu’ implicados na produção, além do tempo e espaço a estes associados).
      Por analogia a este último entendimento, vários autores referem-se, por sua vez, a “deixis textual” quando encaram o texto como entidade na qual se constroem também coordenadas de localização, sem que haja a necessidade de radicar o discurso lido a marcas de um contexto situacional exterior ao texto.
       Charaudeau e Maingueneau (no Dictionnaire d’Analyse du Discours, 2002:160) tratam os deícticos textuais como os que se referem a espaços e momentos do texto, configurados em marcas do tipo “no capítulo anterior”, “acima / abaixo / atrás mencionado” - um pouco na linha dos organizadores textuais; ou seja, tendo como localizador não o tempo / espaço da enunciação, mas o(s) do texto em que aparecem as palavras / expressões deícticas. A partir daqui constrói-se um outro entendimento: o dos “deícticos textuais” que, constituindo-se como pontos de referência alternativos ao da enunciação, permitem por si mesmos calcular as indicações de tempo / espaço em função dessa referência alternativa mediada e construída textualmente, numa espécie de encenação ou representação da enunciação.
      Por exemplo, no início do Memorial do Convento, de José Saramago, a expressão “esta noite” permite representar uma situação deíctica a que se liga um narrador que, aparentemente, se coloca na época de D. João V, a dos factos narrados (sabe-se, porém, a excepcionalidade deste narrador, com uma capacidade de se movimentar em vários tempos, interseccionando os da narrativa, da narração representada e da própria produção autoral); essa mesma situação é recuperada, logo a seguir, com “até hoje”. Não obstante o jogo anafórico que esta expressão temporal possa assumir, enquanto retoma da expressão anterior, prevalece a natureza deíctica. A ideia de ambas as expressões está para a localização segundo as coordenadas temporais de uma situação de enunciação representada, com um narrador a pretender, no capítulo inicial, marcar explicitamente a sua presença num tempo e num discurso de mundividência barroca, afinal os da localização do que é narrado.
      É mais neste sentido, pelo que tenho lido e discutido, que entendo a “deixis textual”: aquela que evidencia marcadores que apontam para a mediação do próprio texto, numa simulação, representação de condições de produção análogas às ocorrentes em discursos radicados a um contexto situacional mais imediato.
      Os exemplos mencionados, até pelo género discursivo considerado (informativo / histórico), parecem-me estar mais para a consideração do que vulgarmente se designa por "anafóricos" (aos quais Karl Bühler, nos anos trinta do século passado, se referia também como exemplos de 'deixis textual').

      Sem sapiência; só com a amizade e a partilha de saberes e experiências que já têm longa data. Já lá vão quase duas décadas: numa sala da ESG, a ouvir-te falar de Simbolismo, até que lá veio o trabalhinho... pois é assim que se aprende contigo. E, para variar, lá fui eu dar a voz na leitura de um poema.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Poesia, Som e Pessoa(s)

      Pessoa a abrir, num projeto Atlântico,... sinais para uma dimensão nova do "Império".

      Relembrei uma aula, feita de múltiplas vozes, poesia, som e Pessoa.

Dulce Pontes na interpretação musicada do poema "O Infante" (Fernando Pessoa)

               O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a Terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa ([1934] 2004), in Mensagem
(Mar Português), 4ª ed., Lisboa, Assírio & Alvim

      Num poema de evidente progressão na leitura de um império decaído (o material, o sensível, o consciente), é interessante ver como uma voz portuguesa, em terras do Brasil, consegue fazer cumprir um novo sentido de Portugal, o de que "nos deu sinal". Daí o refrão identificar-se com a segunda estrofe: a que apresenta a imagem da conquista e da evolução (orla branca > ilha > continente > fim do mundo > terra inteira).
         O regresso à segunda estrofe de Pessoa é como que uma resposta a "Senhor, falta cumprir-se Portugal!". Do sentido expressivo direto ao apelo (diretivo) indireto, compõe-se a vontade de um fazer ('Faça-se cumprir') para um império inteligível, essencial, espiritual, cultural - sem tempo, sem espaço, imaterial, mas sobrevivente pelo que faz unir os povos (a língua e a cultura).
          E chamou-se a isto, a esta troca de artistas entre Portugal e Brasil, "Projecto Atlântico" - o oceano, o mar baptismal do "Quinto Império".

     Entre euforias e disforias, há um toque de alma que algumas vozes fazem elevar até esse inteligível a que Pessoa aspirou e do qual "nos deu sinal".

domingo, 8 de março de 2009

Mais dúvidas-desafios linguísticos

     Chega a vez da Pragmática e da Linguística textual (porque mais vale tarde do que nunca).

   Q: Os deícticos estão sempre relacionados com o tempo e o espaço do 'eu'. Por exemplo, um advérbio de lugar como 'aqui' tem a ver com o contexto. É disso que se trata, de ler em contexto?

    R: Trata-se de ler em contexto e não só. Também de construir discurso em contexto e de situar esse discurso num contexto específico de produção, evidenciando as características / condições / coordenadas (pessoais, temporais e espaciais) com ela relacionadas.
      Os deícticos são marcas demonstrativas da produção de um discurso, apontando para a existência de elementos relacionados com esse mesmo contexto de produção (intervenientes, tempo e lugar); estes aparecem configurados no discurso, no sentido de mostrar, evidenciar tudo o que diga respeito à produção deste último, considerando-o como produto de um acto enunciativo ou um acto de fala de um ‘eu’, orientado para um ‘tu’, num determinado ‘aqui’ e ‘agora’. Assim, os deícticos são sinais que mostram aquele que produz o discurso (o ‘eu’), aquele a quem ele é dirigido (o ‘tu’), o espaço a que se refere esse contexto de produção (o ‘aqui’ vs o ‘lá’) bem como o tempo (o ‘agora’ vs o ‘então’).
      Por exemplo, em “Aqui faz-se tudo o que se quer”, o advérbio ‘aqui’ marca uma referência espacial deíctica de produção de um discurso, associada a um ‘eu’ enunciador que não aparece explicitado, mas subentendido pelo ‘aqui’; em “Ontem houve teste”, ‘Ontem’ marca uma referência temporal deíctica de anterioridade relativamente a um ‘agora’ ou um ‘hoje’ associado à enunciação (da responsabilidade de um ‘eu’). Logo, nem todas as condições deícticas de produção de discurso precisam de estar explicitadas; podem ser construídas a partir de marcas de referência concorrentes configuradas no discurso.
       Será, assim, desejável trabalhar os deícticos, numa primeira fase, com textos caracterizados pela interacção ‘eu-tu’, pela interlocução e pela dependência directa e imediata face a um contexto de comunicação directa (diálogos, cartas, diários, textos dramáticos, textos publicitários), como forma de passar claramente a ideia de que os primeiros se referenciam em função de uma realidade extralinguística de produção discursiva reflectida no próprio discurso. Há muitas marcas a considerar neste campo: pronomes pessoais, determinantes e pronomes demonstrativos, possessivos, advérbios de lugar e tempo, tempos verbais, lexemas como ‘vir/ir’, ‘chegar/partir’ (pela orientação face à proximidade ou afastamento do ‘eu’/’tu’), ‘eis’ (advérbio mostrativo), entre outras.
       É preciso ter algum cuidado no que à distinção de deíctico e anafórico diz respeito, até porque, nalguns casos, as marcas parecem ser as mesmas e nalguns textos até se sobrepõem. Por norma, enquanto os deícticos são marcas que remetem para as condições de produção do discurso (ditas extralinguísticas, exofóricas: o contexto situacional, temporal e pessoal relacionado com a produção do discurso), os anafóricos remetem para o contexto presente no interior do próprio texto / discurso (dito intralinguístico, endofórico), explorando situações de retoma textual.
       Um exemplo desta proximidade dos deícticos / anafóricos é o seguinte: no poema “Isto” de Pessoa, este demonstrativo assume-se como deíctico (apresenta, desde logo, uma marca de referência associada à produção de um discurso previsivelmente relacionado com um ‘eu’ - o sujeito poético); num texto narrativo é possível ver o ‘isto’ como um anafórico quando, por exemplo, se possa ler o seguinte: “A rainha chorava a morte do seu rei, num pesar que a consumia e a impedia também de viver. Isto entristecia cada vez mais os súbditos do reino”; para complicar a questão, o “Isto” de Pessoa, enquanto título que é, entende-se também como elemento catafórico (pela disposição gráfica no texto, é um segmento que abre, antecipa a referência / o eixo temático que vai ser explicitado na composição poética).

      Se o Homem é complexo (e, por vezes, complicado), se nem tudo na vida é preto ou branco (há cinzentos e para várias tonalidades), por que motivo há-de a língua ser o contrário?

sábado, 7 de março de 2009

Outra dúvida-desafio linguístico (iii)

      Nova preocupação em classificar verbos de acordo com critérios sintácticos.

      Q: Como classificar o verbo 'andar' nas frases
      1 - Eles andam tristes.
      2 - Eles andam depressa.
      Em 1, o verbo é predicativo (copulativo), certo?
      Em 2, o verbo é intransitivo, certo?


    R: O verbo ‘andar’, em ambas as frases, pode apresentar comportamentos sintáctico-semânticos distintos.
     Se o interpretar como verbo de movimento nos dois cenários, aparecem realizações intransitivas do verbo ‘andar’, que se encontra modificado por ‘tristes’ (um adjectivo com valor de advérbio, sinónimo de ‘andam tristemente’) ou por ‘depressa’ (um advérbio).
      Há, porém, a possibilidade de se interpretar a primeira frase como tendo uma ocorrência de ‘andar’ não como verbo de movimento, mas como realização muito próxima de um verbo copulativo, tomando-se ‘andar’ na acepção de caracterizar alguém / algo com a qualidade, o estado, a condição de X (andam tristes = estão tristes). Neste último caso, “tristes” funciona como predicativo do sujeito.
   Só uma contextualização mais precisa em função da realização do enunciado, da intencionalidade comunicativa visada ou da configuração co-textual permitirá entender qual das interpretações se associa a 1.

     Uma boa razão para se trabalhar a gramática em contexto.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Poesia, Som e Fado

      Há poesia que não é para ler...


      É som para escutar...
      Música para embalar
      E vida para compreender.


       Sentidos.
      Estas as palavras e a música de Custódio Castelo e Jorge Fernando, numa voz tão singular quanto o que é cantado.

Adeus ó minha gente
Vou fazer-me à dura estrada
Minh'alma ardentemente
Quer erguer-se e está prostrada;
Longe está meu horizonte
Uma luz resta-me ao longe
Qual fogueira em alto monte

Adeus ó minha gente

A quem vejo arrependidos
As mãos que me negaram

Já mas deram como amigos;
Mas dentro de mim arde

Um sossego abrasador
Do Alentejo em fim de tarde

Adeus ó minha gente

Venham ver-me à despedida
Nasci no lado errado

No lado errado da vida;
Partindo fico ausente

Nem memória vou guardar
Ai adeus ó minha gente


    As ausências, os desencontros da e na vida sempre foram expressão para um 'fatum' que só os portugueses conseguem interpretar musicalmente - daí a poesia, o som e o fado, para não falar da vida.
  

quinta-feira, 5 de março de 2009

Outra dúvida-desafio linguístico (ii)

        Ora, agora, vamos à Morfologia (literalmente o estudo das formas).

       Parece que alguém precisa de entrar nas "urgências". Felizmente, não é caso hospitalar.

       Q: Neste momento, precisávamos de ajuda urgente relativamente ao processo de formação de palavras.
        1.desalinhar-des+alinh+a+r
        2. desgrenhada-des+grenh+a+da
        3. envelhecido-en+velh+e+cido
       4. inundação-inund+a+ção
       É PARASSINTETISMO?

       2. desalinhar,desgrenhada,envelhecido e inundação é parassintetismo ou infixação acompanhada              de sufixação?


      3. impossibilidade é uma palavra derivada só por prefixação?


      R: Começo por referir que o processo de parassíntese aparece contemplado nos estudos morfológicos como um mecanismo de formação de palavras caracterizado pelo seguinte: acrescento de prefixo e sufixo simultâneos a uma base. Trata-se, no fundo, da junção de um só operador morfológico formalmente descontínuo (operador = prefixo + sufixo). Ocorre, genérica e praticamente, na formação de verbos a partir de nomes ou adjectivos e configura-se numa base (X) acompanhada de prefixos e sufixos simultâneos:

ES X EAR (ex.: ESverdEAR)
ES X EJAR (ex.: ESbracEJAR)
A X ECER (ex.: ApodrECER)
A X AR (ex.: ApadrinhAR)
EN X ECER (ex.: ENdoidECER)
ES X ECER (ex.: ESclarECER)
EN X AR (ex.: ENgordAR)
A X IZAR (ex.: AterrorIZAR)
EN X IZAR (ex.: ENcolerIZAR)

      Nenhum dos exemplos dados existe exclusivamente na forma prefixada ou sufixada; é na simultaneidade de aplicação dos afixos que a nova palavra surge. Daí a parassíntese.
      Assim, dos exemplos questionados, o ‘envelhecido’ é representativo deste processo, num percurso inicial de formação: a partir do radical ‘velh-‘ forma-se o verbo ENVELHECER; entretanto, da base ‘envelhecer’ forma-se, por sufixação sucessiva, ‘envelhecido’.
     Em ‘desalinhar’, está envolvida, num primeiro nível, a parassíntese: a partir do radical ‘linh-‘, forma-se a palavra ALINHAR; num segundo nível, a partir da palavra-base ‘alinhar’ (derivante) constrói-se, por prefixação, a derivada ‘DESalinhar’.
     O exemplo ‘desgrenhada’ (des+grenh+a+da) admite já por si a forma sufixada (grenhADO > cabelo grenhado) formada a partir da palavra-base derivante (grenha); depois, ocorre a prefixação (DES-) numa base que já é por si sufixada (com a sucessividade de afixos no final: [-a] + [-do]).
     Para ‘inundação’, a nossa consciência sincrónica admitiria que, à lógica de muitos verbos que derivam em nome com o sufixo '-ção', a considerássemos palavra derivada do verbo ‘inundar’ (com o radical ‘inund-', ao qual se acrescentaria a vogal temática do verbo da primeira conjugação ‘inundA’ e, por fim, o sufixo ‘-ÇÃO’, com o significado de resultado ou acção de V – inundA+ÇÃO). Todavia, a consulta de um dicionário etimológico propõe como entrada do termo, na língua portuguesa, a forma latina 'inundatiōne-'. Mais do que questão morfológica, a explicação do termo assenta mais em processos de alteração (evolução) fonética da própria palavra base.
     Relativamente a ‘impossibilidade’, há vários processos de análise a considerar. Sem qualquer outro tipo de indicação, e numa perspectiva sincrónica da língua, dir-se-ia também que seria formada a partir de ‘possível’. Um primeiro problema surgiria com a questão ortográfica e alguma divergência entre 'possível' e 'possibilidade' (lat: possibĭle). Por análise diacrónica, a obter pela consulta de um dicionário etimológico, reconhecer-se-ia o facto de que está estabelecida a entrada da palavra latina ‘possibilitāte-’, bem como ‘impossibilitāte-’. Tal significa que não há lugar para a consideração de formação de palavra propriamente dita, sendo estas últimas assumidas como palavras-base desde logo, assim introduzidas no Português por via do Latim e com os naturais processos de evolução fonética (como é o caso da sonorização da oclusiva [t] em contexto intervocálico).
      De qualquer forma, na demonstração de processos e na perspectiva sincrónica já referida, a descrição dos processos de formação terá sempre a ver com uma palavra-base (a derivante) facultada aos alunos: se for pedido que se descreva o processo implicado na passagem de ‘possibilidade’ para ‘impossibilidade’, certamente que estes responderão tratar-se de derivação por prefixação e não se verá nisso mal maior, pela produtividade associada ao prefixo de negação.

     Por tudo isto é que, ao abordar nas aulas a questão da formação de palavras, sinto que é melhor seleccionar bem os exemplos e andar sempre com um bom dicionário à mão / ao lado. Há muitas aparências que iludem.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Outra dúvida-desafio linguístico (i)

       Novamente a sintaxe... preocupações de uma tradição que privilegiou a Morfologia e a Sintaxe.

      Q: Como se classificam os verbos em:
      1 - Ele chegou triste a casa.
      2 - Ele chegou de férias cansado.

    R: Suponho que a classificação pretendida se centre no critério da realização sintáctica. O verbo' chegar' admite múltiplas realizações. Enquanto verbo de movimento, a estrutura argumental propõe que 'alguém / algo CHEGA a um sítio ou ponto / de algum sítio ou ponto'. Em qualquer dos cenários propostos, o argumento que se posiciona no local de complemento é oblíquo (formado por grupo preposicional - 'a casa' / 'de férias' -, não pronominalizável por '-lhe'). Trata-se, portanto, de um verbo transitivo indirecto.

     Há, contudo, realizações deste mesmo verbo que são de natureza intransitiva. Não é o caso das frases dadas.

terça-feira, 3 de março de 2009

É doce morrer no mar

    Uma música, um poema, uma aula. 

   Entre a descoberta do poema e da música, ficou o cruzamento de crenças, culturas e saberes que nos aproximam.

Morrer No Mar
Iemanjá, mãe de quase todos os orixás
É doce morrer no mar
nas ondas verdes do mar

A noite que ele não veio foi
foi de tristeza para mim
saveiro voltou sozinho
triste noite foi para mim

É doce morrer no mar
nas ondas verdes do mar

Saveiro partiu de noite e foi
madrugada não voltou
o marinheiro bonito
sereia do mar levou

Nas ondas verdes do mar meu bem
ele se foi afogar
fez sua cama de noivo
no colo de Iemanjá

É doce morrer no mar
nas ondas verdes do mar

CAYMMI, Dorival (s.d.) – “É doce morrer no mar”
(incluído no CD Café Atlântico, 1999, de Cesária Évora).

      
      Entre as vozes do Brasil (Marisa Monte) e Cabo Verde (Cesária Évora), há sempre lugar para o Português.

      Retoma-se um momento feliz num trabalho de seminário para estágio, com a planificação de uma aula sobre o texto poético e as variedades linguísticas e culturais do Português (do Brasil).


segunda-feira, 2 de março de 2009

Encontro ASA (28/02/2009)

   Lê-se, na versão digital do Público (http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1367116 - última consulta em 01.03.2009, pelas 22:46)


Carlos Reis
Novos programas de língua portuguesa vão adaptar-se às tecnologias

28.02.2009 - 14h44 Lusa

Miguel Madeira (arquivo)

     O coordenador da equipa responsável pela concepção dos Novos Programas de Língua Portuguesa, Carlos Reis, considerou hoje no Porto que as alterações metodológicas, didácticas, científicas, sociais e técnicas dos últimos anos motivam "reajustamentos" nos programas e, nalguns casos, "alterações substanciais".
     A revalorização dos textos literários, enquanto "repositórios de uma cultura, de uma memória cultural e de um legado estético" e as alterações na linguagem introduzidas pelas tecnologias de informação e comunicação são dois aspectos tidos em conta nos novos programas. Carlos Reis falava no "Encontro Pedagógico" organizado pelas edições ASA para discutir os "novos programas e desafios da Língua Portuguesa".
     "Há 20 anos, as tecnologias de informação e comunicação, os textos electrónicos e o trabalho em rede praticamente não existiam. Estes programas têm isso em conta, sendo certo que todas essas ferramentas e linguagens interferiram e interferem no modo como se fala e como se escreve e a escola tem de estar atenta a isso", sublinhou.
    Segundo Carlos Reis, a escola "estar atenta" não significa "reprimir, ignorar ou proibir", mas sim "saber trabalhar com isso de forma criteriosa, ou seja, julgando, avaliando e hierarquizando as coisas". Carlos Reis presidiu ao encontro organizado pela ASA que teve como objectivo contribuir para um maior esclarecimento sobre os novos programas e sobre os possíveis modelos da sua abordagem, bem como facultar informação prática relevante sobre o Dicionário Terminológico, contemplado nesses programas.
     O ano lectivo 2010/2011 é apontado como um ano de mudança no que respeita às práticas pedagógicas inerentes à Língua Portuguesa, no seguimento da concepção de Novos Programas para a disciplina. O programa do encontro incluiu apresentações e debates subordinados aos temas "Novos Programas de Língua Portuguesa (2.º e 3.º Ciclos)", "Manuais de Língua Portuguesa e os Novos Programas", "História de uma Aula e dos Percursos a que um Texto Levou", "Do Saber a Gramática ao Saber-fazer na Língua" e "Progressão(ões) no Ensino da Gramática".
     A elevada adesão ao encontro, cerca de 500 pessoas, levou, entretanto, a organização a promover duas novas sessões: no Porto, no dia 28 de Março, no Hotel Mélia, de Gaia; em Lisboa, ainda com data e local a definir.

    O meu pequeno contributo fica registado pelo título da comunicação que fechou o encontro dinamizado, na Fundação Cupertino de Miranda, pela Asa Editores: "Progressão(ões) no Ensino da Gramática". A aposta foi da Isabel Castiajo (uma amiga que se cruzou comigo na Escola Secundária de Gondomar). Da comunicação fica aqui uma síntese.

domingo, 1 de março de 2009

Começo de tudo

     Foi neste dia que dei os primeiros passos...

     A vontade era já alguma. Hoje foi o dia.
     O pensamento corria,
     a acção não se cumpria.
     Desde aí se faz o começo.
     Imperou a lembrança, um passado que se quer presente.

     Sinais de futuro...?

     Hoje foi a hora da partida, da viagem...
     a que se fazia na carruagem 23,
     a que faz de cada dia uma etapa no itinerário a traçar,
     a que levará este rio a caprichosos mares com horizontes por desvelar.

    Lembro, então, uns versos de Herberto Helder:

"...
Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
..."
(in "Em silêncio descobri essa cidade no mapa", 

CRUZ, Gastão (2004: 355) - Quinze Poetas Portugueses do Século XX

Lisboa, Assírio & Alvim)


       Veio depois a canção... a música... sempre a música, que apazigua alguns momentos críticos e celebra os mais festivos.


       Não sei o que isto vai ser. Cada passo fará a caminhada no carreiro que surgir.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Pensamento clássico

     Nas minhas incursões por João de Barros (Gramática da Língua Portuguesa, de 1540… sim… no século XVI!!!), muito se aprende.
       
      E, assim, encontrei um pensamento tão bem traduzido em palavras… É um clássico, no sentido cronológico e cultural do termo.


     Com conhecimentos de mundo deste tipo, há gramáticos que fazem a diferença, tanto na língua como na realidade de que com ela falam.

      Que diria João de Barros se vivesse nestes nossos tempos?
     (Qualquer semelhança com a actualidade não é mera, pura ou simples ficção).


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

2º Encontro de Linguística de Gondomar

     Mais uma iniciativa da Oficina da Língua e do Departamento de Línguas Românicas, da Escola Secundária de Gondomar. 
   
    A convite da Dolores Garrido, da Glória Poças e da Idalina Ferreira, preparei uma comunicação alusiva ao tema das histórias e da arte de as (re)contar: Com versões narrativas.
  No auditório da Biblioteca Municipal de Gondomar, numa sala cheia de professores e de alunos, participei numa mesa de comunicações, onde estiveram presentes mais duas amigas - a Ana Catarino e a Isaura Afonseca - para dar conta dos muitos sentidos da linguagem que nos une e sempre "À volta das histórias".
      Falou-se do Conde de D. Pedro, de Alexandre Herculano, de Fernanda Frazão, das (não) fronteiras na linguagem de Miguel Torga e de todos os escritores que fazem viver a língua aos nossos olhos e aos nossos ouvidos.

    Voltei a lembrar a minha "Dama Pé-de-Cabra", que há já cerca de catorze anos tinha ficado por uma prateleira do escritório.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Poema a alguém...

     Há um ano, uma aluna escrevia-me um poema e, num relatório de aula, para evitar a repetição de 'professor', chamava-me mestre da Língua Portuguesa. Eu ria-me, e ela olhava para mim como se não tivesse sido dito nada de cómico.

Orfeu Perdendo Eurídice para o Hades,
de G. Kratzenstein (1793-1860)
Pintura sobre tela
DA OBRA FEITA PESSOA

Pudesse eu ser o que em mim vês
e sentir-me-ia feliz por, neste mundo,
trazer à luz o que Orfeu não conseguiu salvar...

A Eurídice e à poesia dá
esse sentido imaculado e profundo,
essas palavras feitas de cor e alma,
esses sons de céu e mar.

Então, um lume sem fogo
dará voz ao verso, foz ao rio, nós ao ego...
reencontrado e reconhecido
por haver sempre um

TU.
(À VS)
Espinho, 15 de Fevereiro de 2008
VO

      Ser professor, às vezes, tem destas coisas: verem-nos e dizerem-nos o que nós não achamos ser.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Para outros reencontros com Pessoa(s)

Os momentos de despedida são sempre tristes, por mais que saibamos que surjam sempre hipóteses de reencontro(s).

Há referências que se vão perdendo. Vou olhando para o lado e começo a sentir que as caras já não são as mesmas; que não está quem queria que estivesse; que vão estando, alguns poucos, dos que nos vão dando alento; que aparecem outros a desafiar novas relações.

Enfim, o ciclo da vida que se regenera: entre os amigos que vão (por momentos -

-) e os que ficam.

Também acho que vale a pena. A minha alma, também pequena - grata ao exemplo que alguns me deram e alguns outros felizmente continuam a dar -, engrandece com cada sorriso, com cada palavra, com cada gesto, com cada desafio que cada aluno representa.

Vale a escola pelos alunos que tem e, ainda mais, por cada um daqueles que se vai cruzando na minha vida. Por eles, vou ganhando a força que outros fazem que vá sendo cada vez menor.

Nem tudo vale a pena, mas cada aluno faz com que a minha alma não seja tão pequena.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Outra dúvida-desafio linguístico

     Mais sintaxe...

    Q: Num conto da Sophia, há uma frase assim: " As cortinas enchiam-se de brisa". "De brisa" é um Grupo Preposicional com que função sintáctica?

   R: Partindo da centralidade do verbo 'encher' na frase, este requer uma estrutura argumental do tipo 'X encher Y de Z'.
   Na frase dada, o 'se' corresponde à marca factitiva de um argumento (do tipo 'o vento') que figuraria numa construção transitiva directa e indirecta de base ('O vento enchia as cortinas de vento'), entretanto reduzida, com a supressão do sujeito sintáctico 'O vento', numa construção transitiva apenas indirecta (> As cortinas enchiam-se de brisa'). Assume-se, então, um 'se inerente' como marca dessa redução de transitividade.
   O 'de brisa' é um grupo preposicional com a função sintáctica de complemento oblíquo (anaforizável por 'disso'; questionável por 'De que se enchiam as cortinas?').

    Entre os constituintes sintácticos e as funções por estes exercidos, é ao nível da sintaxe que a questão se coloca (para não dizer mesmo que, com a classe de palavras, se volta ao mesmo).

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Dúvida-desafio linguístico (outro): modificadores

     De novo a sintaxe... e cada uma mais difícil!

    Q: Nas funções sintácticas, não é fácil perceber a diferença entre as que modificam toda a frase (por exemplo, as condicionais) e as que modificam apenas o predicado (por exemplo, as causais). Além disso, não se encontra em lado nenhum a função sintáctica das consecutivas nem das comparativas. Parece que estas últimas não podem ser consideradas modificadores, mas sim complementos; mas de que tipo?

     R: A distinção entre modificadores da frase e modificadores do predicado (ou do grupo verbal) pode ser verificada através dos seguintes testes:
   . os primeiros não admitem o teste de interrogação (com estrutura clivada do tipo 'é que') nem o da negação, pela própria natureza disjuntiva do advérbio ou da expressão adverbial (exteriores ao predicado):
Ex.: Felizmente, tive boa nota no teste.
(a) *Foi felizmente que tive boa nota?
(b) *Não felizmente tive boa nota no teste.
   . os segundos admitem-nos, pela própria natureza adjunta do advérbio / da expressão adverbial (integram o predicado):
Ex.: Comprei um carro novo, no ano passado / No ano passado, comprei um carro novo.
(a) Foi no ano passado que comprei um carro novo?
(b) Não no ano passado mas na semana passada, comprei um carro novo.
     . os primeiros andam mais relacionados com questões de modalidade (posicionamento do sujeito locutor relativamente ao enunciado / ao conteúdo proferido) enquanto os segundo associam-se tipicamente às circunstâncias em que o predicado ocorre (de tempo, modo, lugar).

     Alguns casos podem ser portadores de ambiguidade, mas há diferenças evidentes: na frase "Ele morreu naturalmente", o modificador do grupo verbal respeita os testes anteriores; já em "Naturalmente, ele morreu", o modificador é frásico (e obedece à lógica dos testes inicialmente expostos), revelador da atitude do locutor face ao enunciado proferido.
     Por estas mesmas razões, consideram-se as subordinadas adverbiais condicionais modificadores da frase (disjuntos, exteriores ao predicado), enquanto as causais assumem um comportamento mais semelhante aos modificadores do grupo verbal (adjuntos, internos ao predicado):

Ex. Sub. Adv. Condicional: 'Se tiveres bom resultado, dou-te uma prenda'
a) * É se tiveres bom resultado que te dou uma prenda?
b) * Não se tiveres bom resultado, dou-te uma prenda.

Ex. Sub. Adv. Causal: 'Não tiveste bom resultado porque não estudaste o suficiente'
c) É porque não estudaste o suficiente que não tiveste bom resultado?
d) Não tiveste bom resultado não porque não estudaste o suficiente, mas porque não interpretaste bem as questões.

      Quanto às comparativas e consecutivas, a dependência face à subordinante (até pela própria falta de mobilidade) é uma evidência que requer a consideração da construção sintáctica dessas subordinadas como estando mais próximas de formas de complementação. Estas devem ser entendidas enquanto fenómeno de complementação interna.. Tal como um grupo nominal admite modificadores ou complementos internos (modificador / complemento do nome) também as subordinadas comparativas/consecutivas acabam por apresentar uma forma de complementação interna aos grupos adjectivais / adverbiais (conforme os casos) por elas configuradas. São uma forma de expansão seleccionada pelo adjectivo / advérbio (enquanto núcleo que surge complementado por um grupo frásico explícita ou elipticamente contemplado).

Ex.: Ela é tão simpática que não há ninguém que não a estime. (Subordinada consecutiva)
Ex.: Ela é mais / menos simpática do que muita gente que eu conheço.
    Ela é tão simpática como muita gente que eu conheço. (Subordinadas comparativas)

     Não é por acaso que estes dois tipos de construção se integram no que se designa por construções subordinadas de graduação (admitindo que os adjectivos e os advérbios são as classes que especificamente admitem a variação em grau).

      Por aqui se vê ainda algumas das limitações do que se foi aprendendo com a gramática tradicional: não podem pertencer a uma mesma categoria sintáctica mecanismos com características tão diferenciadas (relembre-se que, na gramática tradicional, as comparativas e as consecutivas estão integradas nas subordinadas adverbiais, tal como as condicionais, as temporais e outras mais).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Dúvidas-desafios linguísticos

     Muitas têm sido as questões que me são colocadas a nível da gramática: alunos, colegas, amigos... São desafios a que vou tentando dar resposta; aproximações, em função do que vou lendo, encontrando, reflectindo; procuras que podem sempre dar lugar a caminhos errados (nada como voltar para trás) ou becos sem saída... Os leitores (se os houver) assim o dirão.

   Q: Como classificar sintacticamente (em todas as suas possibilidades) a frase ‘Mandei-o fazer o TPC’?

   R: Trata-se de uma questão algo complexa, implicando o trabalho com noções de subordinação, transitividade verbal e causatividade.
     ‘Mandei-o fazer o TPC’ corresponderá a uma sequência não pronominalizada do tipo ‘Mandei o aluno fazer o TPC’. Isto significa que, da sequência subordinante ‘(Eu) Mandei’, se parte para uma subordinada não finita infinitiva: ‘o aluno fazer o TPC’. No fundo, há uma oração ou frase superior (subordinante), com sujeito subentendido [eu] e um predicado [mandei X]; este último, com o núcleo verbal [mandei] e o complemento directo X [correspondente a uma sequência frásica dependente: o aluno fazer o TPC]. Este não deixa de ser também ele constituído por um sujeito [o aluno] e um predicado que integra outro complemento directo [fazer o teste].
     Esquematicamente, dir-se-ia que:

Sequência superior (subordinante)
Sujeito (subentendido): Eu
Predicado: Mandei-o fazer o TPC
Complemento directo: ‘o fazer o TPC’ (cuja realização não pronominalizada seria ‘o aluno fazer o TPC’)

Sequência dependente (subordinada)
Sujeito: o aluno
Predicado: fazer o TPC
Complemento directo: o TPC

     A partir daqui, a construção pronominalizada é explicada da seguinte forma: as sequências superiores marcadas por verbos causativos (como mandar, deixar, fazer) seguidos de uma completiva com sujeito lexicalmente marcado (neste caso, 'o aluno') obrigam este último, ao assumir a forma de pronome clítico, a ligar-se ao verbo da sequência subordinante e não da dependente ou subordinada. Trata-se da chamada ‘subida de clítico’ (uma das construções de elevação estudadas no Português). Está aqui também parte da lógica causativa: SUJ causador (eu) + V causativo (mandei) + CD obj/acontecimento (o aluno fazer o TPC). Desta forma, é admissível a construção pronominal com ‘o’, configurando-se o sujeito da subordinada como parte do CD da subordinante.
     Por outro lado, o verbo ‘mandar’ vê, pela subida do pronome clítico, a sua transitividade revista, numa redistribuição dos papéis semântico-sintácticos dos seus argumentos e numa reordenação dos complementos requeridos.
     É um bom exemplo do que Tesnière, na perspectiva de uma gramática de valências, considera ser a “diátese causativa”.

    Há exemplos que eu, seguramente, deixaria para serem trabalhados ao nível do ensino superior ou da formação docente. Há casos bem mais simples e/ou regulares, sistemáticos para trabalhar com os alunos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Votos de Boas Festas

       Assim foram os votos para familiares, alunos e amigos.

      Tempo de luz, de aromas e sabores, de uma mesa feita de presenças e ausências. De família, de lar e de luar.









Postal Doméstico - I
(Dezembro, 2008)
VO

     Que o nosso coração seja a estrela-guia
     Para a luz de um sorriso
     A aquecer a noite e a iluminar o dia
     De um Natal com Deus-Menino vivo


      Boas festas, para todos.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Eis como me sinto... com a pausa lectiva!

     Ao final de um período lectivo, mais do que cansado, mas liberto das aulas...

   ... apetece-me gritar, à moda dos Muse, "Feeling good", com o que de mais ruidoso e roqueiro possa ser a versão musical dessa canção pela primeira vez cantada em 1964 (por Cy Grant, no Reino Unido, e, um ano depois, por Gilbert Price, na Broadway, nos Estados Unidos):


FEELING GOOD

Birds flying high you know how I feel
Sun in the sky you know how I feel
Reeds drifting on by you know how I feel
Its a new dawn it's a new day its a new life for me
And I'm feeling good

Fish in the sea you know how I feel
River running free you know how I feel
Blossom in the trees you know how I feel
It's a new dawn its a new day it's a new life for me
And I'm feeling good

Dragonflies all out in the sun
You know what I mean, don't you know
Butterflies are all having fun
You know what I mean
Sleep in peace
When the day is done
And this old world is new world and a bold world for me

Stars when you shine you know how I feel
Scent of the pine you know how I feel
Yeah, freedom is my life
And you know how I feel
Its a new dawn its a new day its a new life for me
And I'm feeling good

    Ainda que mais conhecida pela versão da cantora americana Nina Simone (que regravou a composição em 1965, para o álbum I Put a Spell on You), a dos Muse tem a sonoridade do rock alternativo inglês proposto no álbum Origin of Symmetry (2001). Mais batido, mais irreverente e com mais impacto. 

     Não é de época natalícia, mas a sensação de libertação é a que associo a esta canção.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O mais lindo poema de Natal

      No final do primeiro período lectivo, com os alunos de 12º ano a descobrirem o poema de Natal mais bonito que o professor quis partilhar: o do nascimento de Jesus Cristo (mais humano, menos transcendental) num meio-dia de um fim de primavera.

      Li-lhes o poema VIII de "O Guardador de Rebanhos", de Alberto Caeiro, anunciando-o como o poema natalício mais bonito que havia encontrado.
     Ouviram-no, na totalidade, entre o silêncio do respeito poético e o riso que os aproximaram de tão bela criança, tão marcada pela mensagem de vida.
      Ficam aqui alguns desses versos, na voz de Maria Bethânia:


      Outros ficam em falta, a motivar o reencontro com o texto:

"...
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca."


      É verdade: ainda se riram, no princípio (pelo inusitado, pela traquinice, pela ousadia, pela dessacralização); no final, deram conta do(s) verso(s) que mais os cativou (cativaram), justificando a selecção feita. Há palavras, ideias atractivas aos homens.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Caso de um Portefólio de Escrita

     Considerado o cenário de construção de um portefólio, orientei-o para a escrita. Mais do que muito e impraticável, prefiro pouco e com algumas evidências de evolução.

        Segue-se o exemplo de alguns passos que considero importantes:

1. Começar por delinear um roteiro de acção (com as condições de implementação da acção, uma descrição sumária da actividade), familiarizando os alunos com um modelo de escrita bem como uma sinalética de correcção, para posterior trabalho de reescrita e revisão);

2. Exemplificar um caso de evolução, nas suas múltiplas fases (a inicial, a intermédia e a final);

3. Implementar modalidades de avaliação, e classificação (atentas à processualidade implicada na escrita).

       Dá trabalho, é verdade; mas, como o acompanhamento é individual e com um(a) aluno(a) por cada aula, sempre é melhor do que corrigir vinte e muitos exemplares de uma só vez (no caso de uma só turma!). Além disso, a evolução (a julgar pelo exemplo facultado) tem evidências claras. E de ano para ano, então, a diferença é ainda mais visível.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Uma despedida feita de reencontros...


      Tempos que se anunciam futuros, nem sempre conforme se quer.

      Há decisões que são difíceis de tomar, mas sempre suportáveis quando no caminho a fazer há amigos.


Aos meus amigos do 10º 1 (hoje 11º1)
e
À Maria José Peixoto




Se apenas seguisse o meu coração,
agarrava-me ao sim; saiu-me um não.
Da razão, tivesse a luz… e a paz
que o vitorioso consigo traz…

Decidi. E vencido e magoado,
fiz dessa razão bandeira sem vento;
búzio surdo ao mar; vigia apagado.
Tanto pensar para tanto lamento?

A vida separa… mitiga a dor…
brilha de novo o sol… aquece a cor.
E os afectos revêem-se tão perto,

e eu sei que na decisão acerto
quando, entre tanto humano calor,
se aproximam amigos de valor.

Gondomar, 15 de Setembro 2008

       Tempo de seguir em frente.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

1º Encontro de Linguística de Gondomar

     Um encontro de Linguística... e uma Festa da Língua! E que festa!

     O Clube da Oficina da Língua da Escola Secundária de Gondomar, sob a iniciativa da Dolores Garrido, da Glória Poças e da Idalina Ferreira e com a colaboração do Departamento de Línguas Românicas, decidiu levar a cabo (e em boa hora) a organização do 1º Encontro de Linguística de Gondomar.
      Muitas escolas do concelho participaram na iniciativa. Um bom momento para se dar conta do que se vai fazendo por estas terras em prol da nossa língua e no convívio crescente dela com outras que já se fazem ouvir no espaço escolar.
      O convite para apresentar uma comunicação honrou-me. Fica aqui o registo do meu contributo.
      Transmitir as palavras que Mário Cláudio fez chegar ao encontro foi uma responsabilidade e um prazer acrescido: emprestar uma humilde voz ao pensamento elaborado e conceituado de um grande escritor (que também cita outros grandes como ele).


Momento da leitura do texto de Mário Cláudio, 
na companhia do Dr. Joaquim Barbosa, 
um dos oradores do encontro.



Fraternidade


   Só quem diariamente convive com a Língua Portuguesa, perscrutando-lhe os segredos, deduzindo-lhe os impulsos, e agradecendo-lhe as pequenas lucilações do génio, ou as penumbras subtis da alma, alcançará realizar de que humaníssima verdade se tece todo um património imaterial. Corpo vigoroso, mas vulnerável, o português que falamos e escrevemos declina a nossa própria condição, de seres que procuram quanto lhes couber na herança de uma eternidade. Se não bastar isto ao amor que lhe dedicarmos, e que mais se nutre do sentimento partilhado do que da repetida lição, que conte ao menos o afecto com que soubermos viver esse “juvenil ressoar de abelhas”, essa “graça súbita e felina”, ou essa “modulação de vagas sucessivas e altas”, que Eugénio de Andrade ouviu nos versos de Luís de Camões.
                                                                                        Mário Cláudio

     Por várias razões, foram dois dias marcantes na companhia de pessoas amigas, muitos conhecidos e outros que se deram a conhecer pelo que são e pelo que fazem. Fez-me lembrar velhos tempos, o gostinho de iniciativas que fazem aproximar pessoas, profissionais. Criar laços.