domingo, 10 de julho de 2016

História(s) que se repete(m)

     No final do filme, o desconcerto... porque há lutas que parecem inglórias.

    Tudo a propósito de "Estado Livre de Jones", película realizada por Gary Ross e protagonizada por Matthew McConaughey (no papel de Newt Knight).
    O contexto da intriga fílmica é o da guerra civil americana (tão larga e cinefilamente retratada nos últimos tempos), ainda que, com as devidas diferenças, não pareça andar muito longe dos dias de hoje. 

Trailer legendado de "Estado Livre de Jones" (2016)

    Newt Knight surge como uma espécie de Zé do Telhado americano, um "cavaleiro" numa luta épica, digna, humana e socialmente dignificante, enquanto agricultor pobre do Mississipi que deserta do exército dos confederados (por uma causa humanizadora e desafiadora de lideranças hipócritas), encabeça um movimento revolucionário apoiado por pequenos proprietários e escravos do sul, culminando na separação do condado de Jones dos restantes territórios confederados. Daí o título.
    As conquistas conseguidas (um amor liberto de condicionalismos sociais, de cores ou raças; uma sociedade de homens plural e interracial, empenhada no trabalho da terra e em recolher desta o que nela é semeado; uma comunidade de iguais, de partilha sem ricos a tornar os outros cada vez mais pobres; um conjunto de leis ou emendas inspiradoras e simples para a sobrevivência humana) refletem uma utopia a todo o tempo em construção e ameaçada, numa espécie de encruzilhada de dilemas, de poderes e de homens interessados em fazer reverter todo um processo / percurso, que teima regressar ao ponto de partida.
   Intercalando momentos da narrativa nuclear (relativos ao período 1862-76) com os do julgamento de um descendente de Knight no estado do Mississippi (referentes a meados do século XX), abordam-se temas tão estruturantes como o das forças bélicas e dos interesses / traições a elas associados, do regime de escravatura e da libertação racial, dos conflitos originais das ideologias de republicanos e democratas, da manipulação de resultados eleitorais em função de lógicas de poder, da impotência humana relativamente ao rumo a dar aos ideais que mais devem orientar e preservar a (sobre)vivência.
     Inspirado numa situação histórica documentada, o enredo é a prova de que se mudam os tempos, mas mantêm-se algumas vontades e algumas questões críticas - apesar de configurações distintas -, num jogo em que "the free" e "the unfree" parecem ser duas faces para uma mesma moeda.

    Nestes tempos pré-eleitorais americanos, com republicanos a deixarem-se representar por um candidato tão grotescamente prepotente, há certamente um desafio democrata a considerar (um pouco ao contrário do que a história rezou para os tempos da guerra civil e da Secessão), sob pena de também se retroceder na visão mais humana a dar ao mundo.