quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Nem paraíso nem exemplo para nada

     Entre os ecos recriados do passado e os sinais prenunciadores de um futuro tão próximo, Elysium é filme que incomoda qualquer ser humano que reveja o presente na ficção.

      O título fílmico evoca o espaço mitológico do Elísio, identificado com o paraíso. Assim revisto na tela, uma diferença substancial emerge: se na mitologia grega era lugar do mundo dos mortos, na película cinematográfica configura-se como estação espacial estelígera construída para os vivos "sobreviventes" destinados a uma vida utopicamente composta de seres bem sucedidos, estrategicamente empenhados na preservação seletiva de privilégios associados ao bem-estar, à saúde, ao requinte, à organização faustosa de um mundo tecnologicamente evoluído e desejado por todos (inclusive pelos muitos que pouca possibilidade têm de a ele aceder).
     O ano 2154, no qual se localiza a história, retrata a Terra como se de Tártaro se tratasse: superpovoada, feita do caos ruinoso típico das imagens do terceiro mundo, tão distante do paraíso quanto ela se apresentar controlada por andróides que subjugam humanos, tomando-os como meras peças controladas e condenadas à prisão do trabalho (es)forçado.


     É neste contraste que agem personagens representadas por Matt Damon (Max Da Costa, um operário que sofre um acidente de trabalho, com elevados índices de radiação, e que tudo faz para sobreviver à morte a que está votado, a não ser que, no período de cinco dias, chegue a Elysium e usufrua de máquinas restituidoras da cura para qualquer doença), Jodie Foster (Delacourt Rhodes, Secretária de Estado da Segurança de Elysium que ambiciona a presidência do lugar e que promove forçosamente leis de anti-imigração, por forma a manter o modo de vida dos cidadãos eleitos), Alice Braga (Freya, amiga de infância de Max, médica, que partilha o sonho de ir para Elysium e que, graças ao companheiro de orfanato, acaba por beneficiar das "virtudes elísias": com uma filha condenada à morte, por leucemia, vê-a sobreviver, quando Max tudo faz para a salvar do trágico destino) e Sharlto Copley (agente Kruger, um humano comprometido com os interesses de Delacourt e que acaba por se confrontar tanto com Max, evitando que este faculte a condição de cidadão de Elysium a todos os habitantes da Terra, como com Delacourt, a ponto de a matar e de procurar presidir ao "paraíso"). 
       No conflito entre as forças do bem (Max e Freya) e as do mal (Delacourt, Kruger), Max traz a nota de esperança e da igualdade conseguida para todos os habitantes da Terra. Como a irmã do orfanato o predissera, ele estava destinado a fazer algo especial: concretizou o sonho de ir a Elysium com Freya, libertou a filha desta última de uma morte inevitável e os humanos da condenação "tártara". Em troca, perdeu a vida.

      Sem ser filme que apazigue em tempo de férias, vale pela mensagem final. A ação, ao longo de quase todo o filme, inquieta o espectador, retratando figuras controladoras que se reveem no nosso dia-a-dia político (pleno de descrédito, de interesse e compromisso egoísta, de inação face à qualidade de vida dos cidadãos); comportamentos irascíveis, inverosímeis e que desacreditam a busca do bem comum; a apologia de uma força apocalíptica, ainda que libertadora e heroica, sacrificadora do bom da fita.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Completo DesAcordo

      Em tempos (ainda) de discussão do Acordo Ortográfico (AO), cumpre-se serviço público televisivo em completo desacordo.

       Na rubrica "Bom Português" do programa "Bom Dia Portugal" (RTP1), lançou-se hoje uma questão relacionada com a formação do plural de um nome composto. Até aqui nada a apontar (numa área com alguma instabilidade), não fosse o facto de se radicar o exemplo à divulgação do Acordo Ortográfico. A pergunta emitida na "lição" chegou mesmo a ser introduzida com o seguinte discurso: "Com o Acordo Ortográfico, o plural da palavra 'leão-marinho' é 'leões-marinhos' ou 'leão-marinho'?" Não bastasse a oralidade, a própria imagem do escrito acaba por o confirmar:


    Pronunciaram-se os transeuntes, uns, pela primeira, outros, pela segunda hipótese. No final, foi estabilizada a resposta com o 's' acrescido nos dois termos da palavra formada por composição (à semelhança do que acontece com a generalidade dos compostos constituídos por um nome mais um adjetivo).
    Ora, não sendo a primeira vez que esta mesma questão é formulada, torna-se bastante crítica a inconsistência repetidamente produzida. Falar do plural das palavras não é um assunto para relacionar com a ortografia, em sentido lato, e muito menos com o AO. Se o foco tivesse a ver com a escrita propriamente dita do vocábulo (com / sem hífen, por exemplo), faria algum sentido a introdução criada; não tendo, o "bom português" devia manter-se na resolução de um aspeto frágil apenas associado à morfologia (no capítulo da flexão em número).

    Lamentável, pois, a desinformação criada, para não dizer mesmo o serviço público mal prestado, confundindo-se um tema de natureza linguístico-gramatical com uma área estritamente do domínio convencional da escrita. Se o tópico do AO já é de si polémico, trazê-lo à praça por questões que não lhe dizem respeito mais agudiza a situação (quando, supostamente, o objetivo é o oposto).

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Nem com vegetais isto vai lá!

     Depois da questão do acento gráfico de ontem, vem um caso crítico para um diacrítico.

    Quem quiser fugir à bolonhesa, não tem grande sorte na qualidade gráfica dos alimentos propostos por um bar-restaurante da nossa praça. Mesmo com os vegetais, a situação é crítica.


     Percebo melhor a dificuldade causada pela troca dos grafemas 'ç' e 's' do que propriamente o erro em causa, pois neste há apenas a considerar que o som [s] pode ser representado, na escrita, entre outras formas, por 'c' ou 'ç'; escolher uma destas últimas significa ter em mente as vogais que as seguem: 


     Para se ler [s], tanto o 'e' como o 'i' não querem 'c' cedilhado; só o 'a', 'o', 'u'. 
    A título de síntese, segue-se um caso semelhante (mais uma ementa!) e um registo ex(em)pli(fi)cativo :


       Para saber mais, nada como ir às gramáticas e ler o que nelas se encontra acerca desta questão ortográfica, que o autor da ementa precisava de ter sabido:


     Antes de escrever 'c' ou 'ç', cuidado com a vogal que vai aparecer - pode parecer cantilena, mas ajuda no cuidado a ter.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Acento indeciso

    Já várias vezes me pronunciei relativamente à acentuação gráfica e a esse erro, mais do que batido, do acento agudo quando deve ser grave.

    Ter, num mesmo documento, indecisão quanto ao acento a usar é motivo para perguntar se não será fraqueza nos olhos:


    Dúvidas tivesse, lá ia eu acabar por escolher lasanha (cujo modo de confeção se encontra bem grafado). O esparguete tinha mau aspeto, só pela forma como estava escrito no menu, na carta, na lista ou na ementa (À, sublinho, À moda que preferirem).
    O esparguete é confecionado A uma certa maneira: A (maneira) bolonhesa. Daí a contração a pedir acento grave (tal como na lasanha).
      Leia-se 'acento indeciso' como hipálage do verdadeiro indeciso: aquele que o escreveu de modo incerto.

     E, assim, o acento acabou por me dar fome. Vai um Esparguete À Bolonhesa?

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Aqui, neste lugar e nesta hora

      Assim se lê no busto-homenagem ao poeta, no eiro de São Martinho da Anta.

      Para honrar o dia e o mês do aniversário do poeta, diria 'Hoje, neste dia e neste mês'.
      Melhor do que ninguém, o próprio falou dessa hora em que cada um de nós bebeu "o ar do mundo aos gritos"; a hora que também foi a sua e que se prolongou na do nascimento da filha Clara Rocha. Assim nasceram os versos:


      Adolfo Correia da Rocha nasceu para dar origem a Miguel Torga: torga, pela planta transmontana conhecida como urze campestre, da cor de vinho e com as raízes resistentes, saídas das rochas; Miguel, por ser nome ibérico e inspirado em dois grandes escritores peninsulares (Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno).

       Há 106 anos, o homem; depois, o escritor, o poeta, o dramaturgo, o contista, o ensaísta, o eterno candidato ao Nobel da Literatura que, em todas as circunstâncias, dizia trocar a mulher por um verso e não poder abandonar Portugal (mesmo em razão de força maior) por ter de levar consigo "o Marão, o Douro, o Mondego, a luz de Coimbra, a biblioteca e as vogais da língua".

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A morte natural na livre doçura criativa

    Que melhores palavras para homenagear um dos escritores mais produtivos da contemporaneidade com tanta intemporalidade?

     A imagem do sorriso e do ar afável de Urbano Tavares Rodrigues suaviza a notícia triste da sua morte. O autor de A Hora da Incerteza (1995) deixa-nos no momento em que se anuncia a chegada de Nenhuma Vida, romance para lançar pela celebração dos seus noventa anos (ainda este ano, segundo a Publicações Dom Quixote).
    Nele, em jeito de prefácio, há já um tom de despedida iluminada, no modo panteísta e socialmente comprometido com que viveu.:

  "Daqui me vou despedindo, pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo um maravilhado adeus à água fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres. Um cravo vermelho e a bandeira do meu Partido hão-de acompanhar-me e tudo será luz".

     Num percurso literário feito de influências existencialistas (com notas de náusea e servidão), marcado por luta política e pela consciência na intervenção social (seja na oposição à ditadura de salazar seja na afirmação de convicções pela defesa de valores humanistas, dignificadores do Homem em Sociedade), assumido pelos tons de intimismo e doçura perante o amor e a morte, viveu o Homem que cedo descobriu o desejo de justiça social.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Frescuras... desnecessárias

    Por mais que seja apreciador de café...

   Em tempo de férias e de calor, vem a publicidade lembrar que os oásis existem por maior que seja o deserto.
    Também a frescura chega. E mesmo para os que, como eu, não morrem por gelados, não deixa de haver café propício ao calor dos dias.
    Na tentação do produto, pena é que a publicidade apresente o mau exemplo: um acento gráfico que não devia existir.
  Erro comum este o de se colocar acento nas palavras terminadas com o sufixo "zinho". Tendo este último duas sílabas e estando o acento fónico na penúltima, naturalmente a palavra com ele derivada tornar-se-á grave. Logo, diz a regra habitual e geral do Português, não há necessidade de acentuar graficamente a palavra.
     Uma empresa como a "Olá" devia primar pela qualidade dos produtos que anuncia, não vá um apreciador de café coincidir com um professor de Português e denunciar a má publicidade concebida.

    ... não há frescuras destas que quebrem o gelo. Apetece dizer que é café zero na língua.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O poder do espírito humano sobre qualquer tipo de crise

     Concluída a leitura do novo livro de Dan Brown (Inferno), destaco quatro pensamentos.

     Para não me centrar naqueles que produzi de cada vez que (me) revia (n)os percursos de Robert Langdon e Sienna Brooks por Florença ou Veneza, recupero os que a obra dá a ler, a propósito da intriga criada e da aventura tão maniqueísta quanto mirabolante (e doentia) que o leitor recebe.
     Começando pelo fim:

     Epílogo: 
     Em tempos de crise, não há maior inferno que o da inação.
     (Bem contemporâneo, oportuno e de uma atualidade assustadora)

     Cap. 79: 
     A braços com o desespero, os seres humanos tornam-se animais.
     (Tantos políticos precisavam de saber isto, quando falam de austeridade!)

    Cap. 79: 
   É fisicamente impossível para a mente humana não pensar em nada. A alma anseia por emoções e continuará a procurar combustível para alimentar essas emoções, sejam boas ou más.
      (Tantos a escolher o combustível errado...)

    Cap. 50: 
  É o conflito entre Apolo e Dioniso um dilema famoso na mitologia. É a velha batalha entre a mente e o coração, que raramente querem a mesma coisa.
    (E no meio deles vive o Homem, sobrevivendo qual pequeno deus, aos tropeções, na descoberta do caminho que o possa engrandecer)

     Se a narrativa começa num registo autodiegético singular para a escrita de Dan Brown, a mente ímpar do protagonista que morre na abertura do romance é o espaço que o leitor terá / deverá descobrir, nos referentes que dá e no alinhamento lógico que os cento e seis capítulos reconstituem, num engendramento manipulador.
    Nas doenças que atravessa(ra)m o tempo e o(s) espaço(s); na ilusão e no delírio criados para, estrategicamente, se mascarar o jogo de perseguidores e perseguidos, a ponto de se apagar o que não se quer deixar ver; nos códigos e símbolos que a todo o momento se reveem e se ajustam à questão crítica apresentada a qualquer ser humano atento e reflexivo, em busca de soluções e dando a cara pela resolução dos problemas que o assaltam, Inferno é uma apresentação dantesca (literalmente associada a Dante e à sua Comédia) não só dos poderes a que o Homem está sujeito como também da manipulação que sofre quando menos espera e/ou quando o seu espírito (ou o de quem o governa) se arreda dos desafios colocados em evidência.
     De resto, entre perseguições, mistérios, enigmas e falsas pistas, há sempre uma espécie de Bond e de 007 erudito a operar, na companhia de uma bela jovem (mesmo que a beleza feminina aqui se revele bem mais espiritual do que física), com uma pitada de cultura a temperar as fugas milagrosas que sempre acontecem aos heróis. 

      Do princípio ao fim, Florença (qual personagem vicentina, na alegoria próxima ao mal revisitado na doença) e Dante (o autor dos versos que dão a chave, a aproximação previsível ao final feliz - o do desejado Paraíso, depois do Inferno e do Purgatório - e cuja máscara mortuária é reposta no Palazzo Vecchio como símbolo do retorno à normalidade).

domingo, 4 de agosto de 2013

Arrumações com poesia

      Na arrumação de papéis que se acumularam ao longo do ano letivo, cruzei-me com um poema.

     Ora pelo resultado do pó depositado ora pela sugestão do tema evocado, os versos que partilho libertam-se do lixo (a que foi votado o papel, que, por alguma razão de muita importância outrora, mas hoje tão relativizada, foi guardado até ao dia de hoje).

      A COMICHÃO DO POEMA

Assentado me estou
numa estrutura
de pura literatura.
Minha avó me aconselha:
escrever sem que torça a orelha
comer sem que estoire a barriguinha;
melhor é tentear do que fazer poemas de cernelha
pegados à moda antiga.
Melhor de facto avó do que sonetos
pegados com saliva
são estes tersos versos de formiga:

   uma palavra preta
   com cem patas
   apoquenta o poeta
   que a procura de gatas.

   Pica-lhe o traseiro
   entra-lhe nas unhas
   faz-lhe o mal primeiro
   do que a caramunha.

   A palavra insecto
   corre-lhe nas pernas
   ameaça o reto
   e as partes internas.

   O poeta cata
   fala mais barato
   chamando-lhe ingrata
   descalça um sapato
   e ei-lo que mata
   o poema-chato.

                                       José Carlos Ary dos Santos
                                       in insofrimento in sofrimento, 1969

     Porque há poemas que causam tal sensação - por mais conceituados que os poetas sejam -, vou para a banheira libertar-me do sujo e do escuro do pó e, quem sabe, de algumas palavras pretas, que me possam lembrar ou levar a alguma chatice (essa condição tão abjeta quanto a do inseto sugador e parasita que a provoca), para não dizer a algum aborrecimento.

    A poesia também tem destas coisas tão banais quanto os efeitos do sentir e do(s) sentido(s).

sábado, 3 de agosto de 2013

Falta de toque

    Fica o aviso: o toque podia ser mais agradável à língua.

  Já houve oportunidade de referir que as rainhas nem sempre têm coroa (metaforicamente falando). O mesmo sucede com as campainhas: podem ter botão, pêndulo ou outro dispositivo que provoque som, mas o toque não é garantido. Nem seguro.
   Eis o que motiva esta reflexão, duas fotos em dois locais distintos com a mesma questão crítica:

Pormenor de uma foto tirada num local religioso na cidade de Gondomar

Pormenor de uma foto tirada numa loja da cidade do Porto

      Conforme o já explicado, a etimologia explica que nem sempre 'ai' seja ditongo (junção de uma vogal com uma semivogal, numa só sílaba); pode ser hiato (encontro de duas vogais pertencentes a sílabas diferentes). É o caso de 'campainha', palavra portuguesa que decorre da queda intervocálica de [n] do termo latino campanīna-).

    Assim sendo, não há acento em 'campainha', nem em 'rainha' ou 'juiz' por razões de história da língua.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Áurea em momento áureo

     Um concerto ao vivo, na Avenida 8 (Espinho), com momento áureo.

     Foi assim na noite de hoje: a voz de Áurea para os espinhenses, num espetáculo de rua para todos os que a quisessem ouvir.
    Foram cerca de duas horas com muitos dos êxitos a serem cantados em palco montado em plena alameda junto ao Casino local.


      BUSY (for me)

I tried to call you
But you didn't answer the phone
I tried to pick you up
But you didn't come along
I tried to talk to you
But you didn't even answer me
I tried to reach you
But you're so high up above

Oh baby,

I try every day
I cry every night
For a second of your time
But you're so busy for me
You don't care for my plea
So I cry.Cry.Cry, cry... 

Oh... 
I tried to tease you
But you didn't even care
I tried to love you
But your heart closed its doors

Oh baby

I try every day
I cry every night
For a second of your time
But you're so busy for me
You don't care for my plea
So I cry, cry, cry, cry... 

So you didn't come along
You didn't answer
You didn't care
You closed your heart for me

Oh... 
(I tried to call you... Pick up the phone)

You're so busy...

     Quem assistia dançava e cantava ao jeito que Deus lhe deu - uns melhores, outros piores -, mas sempre acompanhados pela sonoridade e qualidade de uma voz que não precisava de arranjos técnicos para afinar:


       Okay alright

There's a long and open road
laying on my way now
I don't need to stop and think about it
'cause my heart will guide me through

you don't need to promise me the moon
just sit with me and watch the moonlight
then every little star will sing this song
and if you feel good, come on
just sing along

I'm okay, I'm alright
I got good feelings on my mind
I'm okay, I'm alright 
with you (bis)

Love is like a tiny little sparrow
you can't hold it on a cage no no you can't
it flies free through the morning breeze
only guided by a wild warm heart

'cause you don't need to promise me the whole sky
just sit with me and watch the sunrise
set yourself free and breathe deep inside
and while you do that, come on
and just sing along

come on now

I'm okay, I'm alright
I got good feelings on my mind
I'm okay, I'm alright 
with you (bis)

     Noite áurea para uma Áurea que deixou os espectadores a pedir mais, mesmo depois dejá se ter despedido e ter regressado ao palco. É que o 'encore', pelos vistos, não dá para três vezes. Só duas.

    Uma noite para se poder dizer "I'm OK, I'm alright (with you)'.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

À la française, pois então, com muito de "portugais".

    Em dia de estreia do filme em Portugal, houve bacalhau (não com todos) para todos os que o quiseram trazer.

     A imagem de um Portugal composto por Fátima, futebol e fado impõe-se mais pelos dois últimos termos do que pelo primeiro. Não se pode dizer que seja a dramática visão de um país salazarista e salazarento, mas possivelmente a que foi motivada e construída a partir da realidade da emigração desses tempos (que parecem não estar tão distantes quanto isso). Ainda assim, entre a louça de Viana e o retrato de Amália, lá figura no quarto do casal Maria e José Ribeiro a foto dos três pastorinhos, "comme il faut".
     Eh voilá! Visto por mais de um milhão e meio de pessoas só em França, "A Gaiola Dourada" (La Cage Dorée, no original) é uma comédia realizada por Rúben Alves, filho de emigrantes portugueses, que dedica a película aos próprios pais. Nela se retrata um casal português de trabalhadores empenhados, já há mais de trinta anos em Paris e com um sentido de reconhecimento e de entrega àqueles com quem vive no dia-a-dia; àqueles que estão na iminência de deixar, para poder assumir a inesperada herança de uma casa na zona do Douro vinhateiro (afinal, a ânsia do emigrante que vê o regresso como objetivo final, na expressão que este adquire da casa e da terra próprias).

     Making of do filme "La Cage Dorée" (2013), de Rúben Alves.

      O nome Maria para porteira de um prédio burguês chique, altamente especializada na limpeza de vidros; o mestre de obras José, que chega responsável de construção de um centro comercial pela qualidade do trabalho, além da delicadeza no tratamento de bonsais; o chamamento esganiçado e familiar do "Pedro Henrique"; a filha independente que tem uma relação com o herdeiro Caillaux (o patrão de José); o filho que é o comum adolescente, na crença de que tudo controla a seu proveito; os fumos da sardinhada e a cervejola com que se rega as buganvílias no pátio do condomínio fechado são alguns dos ingredientes que, a par da voz da Linda de Suza, do fado comovente e da música de Rodrigo Leão, se combinam numa história que ainda contempla a frivolidade, o ridículo e o desajustamento de todos os que querem dar a imagem do que não são ou dos que parecem não querer assumir o que verdadeiramente querem.
     Desta forma surge o riso, em vários momentos da película: no confronto de registos e de idiomas próprios de um bilinguismo criticamente assumido; na interação de duas famílias bem distintas (a dos trabalhadores portugueses e a da burguesia francesa, principalmente identificada com a dos Caillaux); no jogo de costumes e de interesses que faz, por vezes, perder o que há de mais genuíno para se entrar no domínio do postiço e da encenação;  nos estereótipos culturais, desmontados numa clara sátira ao que ambos os lados têm de caricato e exageradamente real (seja no português, que pretende demonstrar o requinte que se acha capaz de imitar, seja no francês, que julga tudo saber sobre Portugal, como se de Espanha se tratasse).

      Com a representação assumida por atores portugueses e franceses, Rita Blanco, Joaquim de Almeida e Maria Vieira têm bons parceiros em Robert Giraud, Chantal Lauby, Barbara Cabrita, Lannick Gautry - o retrato do convívio de comunidades que procuram ultrapassar barreiras sócio-culturais e linguísticas, buscando as raízes e o sentido daquilo "que é bom" (e que, por certo, não tem só a ver com o Douro, com o vinho e com bacalhau) no ser humano. Saídos da "Gaiola Dourada" da civilização, um pouco queirosianamente (à laia de A Cidade e as Serras) são a serra, o Douro e o verde vinhateiro que firmam o tom de alegria final. C'est tout!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Exames: o que estará para vir...

     Depois da correção da segunda fase, e comparando com a primeira, não prevejo alterações substanciais nos resultados de exame de 12º ano.

     Não posso dizer que tenha atribuído resultados substancialmente diferentes. De novo, a média ficou-se pela negativa nas cerca de quarenta provas que me foram destinadas.
     A melhor classificação esteve acima dos resultados atingidos na primeira fase, mas o contrário também foi verdade: resultado inferior para a pior nota.
     No enunciado constava, no grupo I-A, um excerto do canto VII de Os Lusíadas (numa das invocações que o poeta formula ao longo da epopeia). Trata-se de um conteúdo recorrentemente selecionado nas provas de exame dos últimos anos letivos. Não obstante tal frequência, há muita relatividade a considerar na familiarização com a obra e o escritor implicados: primeiro, porque do 9º ano (quando os alunos abordaram, com alguma sistematicidade, a epopeia camoniana) até ao 12º há um hiato temporal coincidente com a ausência programática do épico quinhentista, apenas retomado no final do secundário e numa perspetiva (a do plano do poeta) distinta da anterior e dominantemente focalizada (a dos plano da viagem, da mitologia e da História de Portugal); segundo, por a cosmovisão e as linhas contextuais de produção da obra serem fraca ou dificilmente reconhecidas pela contemporaneidade de vivências dos alunos; terceiro, por o léxico do excerto / da obra não ser convenientemente descodificado, para mal das linhas interpretativas solicitadas para o discurso lido (basta pensar na dificuldade que grande parte das respostas revelava no entendimento da "fúria" camoniana, tão distante da força e da intensidade da criação poética).
     A representatividade distintiva das orientações programáticas, em termos das obras de leitura integral, é assegurada no grupo I-B, convocando-se uma produção escrita compositiva restrita / limitada para a abordagem de uma das personagens de Felizmente Há Luar! - dado que, por ora, apontaria como melhor conseguido do que na prova da primeira fase (com cem pontos do exame centrados na heteronímia pessoana).
     Os restantes grupos - II (leitura e conhecimento explícito) e III (composição escrita extensa) - estão na linha do expectável, do habitualmente avaliado em exames.
    O balanço geral negativo justifica-se pelo exposto a propósito do grupo I-A, a par do que possa ser apontado como a ditadura do transcrito, do superficial e do literal, a ponto de quem resolve a prova não evidenciar inferências a partir do que é lido. Estando aqui parte do problema (a título concetual), não menos relevante é a deficiente produção escrita, com penalização sistemática nos aspetos formais (estruturação discursiva, correção gramatical). A maior parte das cotações atribuídas é conseguida por uma componente de conteúdo que quase nunca atinge a totalidade prevista e que é, por sua vez, acompanhada do (quase) vazio da forma de expressão.
     Persistem, nesta última e de modo acentuado, fragilidades ao nível:
a) da excessiva extensão / composição da frase (imensas linhas para um só período, ampliado ao ponto de se conectar tópicos sucessivos com um recorrente 'e' e/ou a familiar vírgula);
b) da indiferenciação de estruturas de coordenação e de subordinação e, neste último caso, do irreconhecimento do que seja subordinante face ao que é subordinado (muitas vezes com a ausência do primeiro);
c) da ausência de pontuação forte (para segmentar sequências completas de sentido);
d) da inequívoca má utilização de vírgula (presente nos casos em que nunca deverá acontecer);
e) da utilização repetitiva de palavras, numa evidente falta de léxico sinonímico ou de falha no recurso de processos anafóricos (sejam gramaticais sejam lexicais);
f) da falta de concordância (no número e no género), tanto em casos comuns como em cenários de construção problemática;
g) da inconsciência ortográfica associada à utilização distintiva da acentuação ou às questões de homofonia;
h) da indeterminação na utilização de maiúsculas / minúsculas.
     Em síntese, o ato de escrever aparece numa aproximação / identificação completa com o de falar, numa oralidade mal produzida / constituída, na base do discurso familiarmente comum e irrefletido; na fala produzida aquando da construção fluida e fluente do pensamento, transposta para o papel sem receber o tratamento refletido e reflexivo ou a formalização requerida a um modo mediado, sujeito a distanciamento e a recontextualização.

    Fica, assim, o registo do balanço de uma experiência (a da correção de exames) por certo à espera de dias melhores e de melhores resultados.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Carruagem no Ciberdúvidas

    A partir de ontem, a Carruagem 23 figura no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

    A propósito da classificação sintática de verbos, mais particularmente do verbo 'tornar', esta "carruagem" aparece citada como fonte de consulta para esclarecimento (cf. http://ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=32036).


    A referência feita cruza-se com o apontamento intitulado "Estruturas transitivas predicativas", de acordo com um arrazoado da responsabilidade dos consultores Carlos Rocha e Rúben Correia, datado com o dia de ontem.

    A publicitação deste blogue é uma forma de reconhecer o trabalho feito, pelo que se impõe o agradecimento público aos consultores / citadores.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Revisitação poética no seio da natureza

    Depois de muitos anos, regressei ao Jardim Botânico do Porto, onde há natureza e poesia suficientes para receber qualquer visitante.

   À entrada da Casa Andresen, um palacete que foi propriedade de Joana e João Andresen (avós de Sophia de Mello Breyner Andresen e Ruben A.), a receção é feita, à direita, pelo busto de Ruben A.
   Conjugando a sensibilização ambiental com a fruição estética de um jardim que evoca os traços do século XIX, a conhecida Quinta do Campo Alegre viu o jardim transformar-se nas instalações do Jardim Botânico  Gonçalo Sampaio (cujo busto figura logo ao centro da entrada) pelas mãos do professor Américo Pires de Lima.
    No Jardim dos Jotas (assim designado pela figuração das duas letras na geometria dos arbustos, em homenagem aos avós de Sophia), lá se encontra o busto da poeta. A postura de convicção, o rosto esguio, a saliência arqueada nas sobrancelhas evocam-me a firmeza dos versos "Não se perdeu nenhuma coisa em mim":

Montagem: fotografia do busto e o poema citado (VO)
 
     Uma estrofe para afirmar o que foi e o que se mantém, o verso e o reverso, a unidade que sublinha a singularidade da escritora.

    Pena que na beleza do espaço e da flora haja o ruído contínuo, lembrando outros versos de Sophia: "Passam os carros e fazem tremer a casa" (in Obra Poética I).

domingo, 28 de julho de 2013

O primeiro dos últimos

      Apetecia-me ser o rei Juan Carlos de Espanha e dizer "Por qué no te callas?"

      Palavras... para quê?
    Na utilização do modo conjuntivo do verbo 'ter' a coisa até saiu bem, em termos de acentuação fónica; contudo, no caso do verbo 'ser' (que, por acaso, é morfologicamente da mesmíssima flexão verbal face ao verbo anterior - ou seja, de vogal temática 'e' ou da segunda conjugação) a crise instalou-se:


       Com um incendiário destes na língua não há bombeiro que possa combater o fogo. É uma lástima!
      Com os "altos" dignitários da nação a comportarem-se desta forma (e já não foi nem uma nem duas), não há política da língua que resista nem falante que creia no que é dito (atendendo a quem o diz).

      Sem crédito (e a vários níveis), para nossa completa infelicidade linguística (para não falar de outras).

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Versões que o tempo aprimora

       Quando o tempo faz rejuvenescer...

       Há quem suspire pela fonte da juventude, ansiando pelo regresso a momentos que não voltam.
       Há quem faça do velho, ou antigo, novo (restaurando).
      Na música, há versões que fazem ganhar o que nem sempre o original tem. No caso de "You make me feel brand new" talvez o "soul" seja o mesmo, num ritmo de balada inconfundível para letra em registo de carta (escrita entre as pontes da amizade e do amor). Há, todavia, em duas das suas versões notas de uma harmonia vocálica e instrumental bem distintas.
     A mais antiga é versão dos "The Stylistics", grupo norte-americano dos anos setenta, lançando um sucesso mais concretamente com a data de 1974:



      Décadas mais tarde, mais precisamente em 2003, chega a versão dos "Simply Red", na voz de Mick Hucknall:


     YOU MAKE ME FEEL BRAND NEW

My love,
I'll never find the words, my love
To tell you how I feel, my love
Mere words could not explain
Precious love,
You held my life within your hands
Created everything I am
Taught me how to live again

Only you
Came when I needed a friend
Believed in me through thick and thin
This song is for you
Filled with gratitude and love

God bless you
You make me feel brand new
For God blessed me with you
You make me feel brand new
I sing this song 'cause you
Make me feel brand new

My love,
Whenever I was insecure
You built me up and made me sure
You gave my pride back to me
Precious friend
With you I'll always have a friend
You're someone who I can depend
To walk a path that sometimes ends

Without you
Life has no meaning or rhyme
Like notes to a song out of time
How can I repay
You for having faith in me


     Duas versões para dois tempos num só sentimento que ganha com a fluidez do próprio tempo.

     Entre o rejuvenescimento e o agradecimento, há alma bastante para harmonizar no curso de uma vida feita de muitos e variados caminhos.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Igualdades injustas

     Na sequência da formação ontem iniciada, muitas foram as reflexões surgidas, a propósito de avaliação.

      Uma delas - decorrente da orientação para a diferenciação e para uma criteriação aberta à afirmação de individualidades, à multiplicidade de inteligências e às diferentes formas de se atingir um fim / propósito / objetivo - tocava o ponto da justiça da avaliação e de como os avaliados veriam a correlação justiça-igualdade.
      Pergunto-me, claro, se há igualdade ao pedir-se a dois alunos que, no basquetebol, encestem à primeira, tanto o que tem cerca de dois metros como aquele outro que nem chega a metro e meio de altura. Terão certamente ambos direito à oportunidade de praticar o jogo; pode até acontecer que o mais baixo venha a cumprir melhor e/ou mais cedo o objetivo, mas não deixará o primeiro de ter maior probabilidade de sucesso sem tanto esforço.
  A questão da justiça e da igualdade de oportunidades pode ser tão aparentemente contraditória quanto a igualdade não poder significar tratar todos de igual forma: perante o objetivo de dar a ver o que esteja para lá de um muro, uma pessoa mais alta pode já ver ou estar próxima de o fazer, o mesmo podendo não acontecer a alguém bem mais baixo, a não ser que lhe sejam dadas condições distintas das que sejam eventualmente facultadas a quem não precisa de tanto. Igualdade não pode significar indiferença e igualitarismo, sob pena de se criar o sentido de injustiça.
      No campo da educação e da avaliação, impõe-se refletir sobre a questão, a ponto de ser preferível falar de equidade (segundo Stacy Adams, que, nos anos sessenta e na lógica das teorias motivacionais no trabalho, enfatizava a percepção pessoal sobre a razoabilidade ou justiça relativa na relação laboral com a organização e defendia que a motivação depende do equilíbrio entre o que a pessoa oferece à organização e o que recebe). Perspetiva-se, assim, a problemática da comparabilidade entre desempenhos e benefícios e a oportunidade de libertar o princípio da igualdade de uma lógica elitista e reprodutora de desigualdades sociais.

     Em organizações que lidam com o fator da heterogeneidade compositiva, como é o caso das organizações educativas (e em diversos níveis), a equidade faz compaginar, numa lógica da educação para todos, igualdade, diversidade /diferenciação e orientação para a autonomia. Cabe aqui o relevo a atribuir a práticas de avaliação formativa alternativa, focadas nas aprendizagens - não a mesma educação para todos (desiguais), mas uma igualdade de oportunidades ajustada à diferenciação inclusiva.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Avaliação: sentidos, oportunidades e práticas

     A convite de uma colega e de uma instituição de ensino privado, a avaliação foi motivo e objeto para um encontro de formação profissional.

     Durante duas manhãs, num total de seis horas, o tema para uma formação de professores (de vários grupos disciplinares) vai orientar-se para questões de avaliação. Começando hoje e terminando amanhã, cerca de vinte docentes do Colégio Dom Dinis (Porto) irão trabalhar comigo numa temática focada ora em desempenhos associados à recolha de informações necessárias à tomada de decisões ora numa das dimensões fulcrais do processo educativo (nos seus mais diversos níveis de análise).
      Com o título "Avaliação: sentidos, oportunidades e práticas", tratar-se-á de  refletir sobre o papel da avaliação enquanto fase fundamental do desenvolvimento curricular; exigência social relacionada com desempenhos institucionais, docentes e discentes; construção de pontos de referência; abordagem sistémica e processual; forma de estruturar o ensino-aprendizagem (ao nível mínimo, essencial e de mestria); práticas e testagens focadas na norma / em critérios; domínio reflexivo dominantemente formativo e alternativo, no que às práticas docentes mais exigentes, diversificadas, interativas e atentas à diferenciação diz respeito.
       Nesta formação, parte-se com a perspetivação dos seguintes objetivos:


        Visa-se a abordagem dos seguintes conteúdos:


    E, para começo de trabalho, nada como partir das representações docentes relativamente ao que é entendido por avaliação, num jogo de papéis mais abrangente e situando a reflexão em termos de avaliadores e avaliados - o que permitirá sempre partir de questões como "Quem avalia?", "O que é avaliado?" e "Quem é avaliado?"
    Depois, será bom antever o que se quer ver tratado neste encontro formativo - entre as palavras / expressões que se associa ou se nega, não se deixa de refletir sobre o(s) sentido(s) que a avaliação tem para cada profissional.
  Independentemente dos que aqui forem encontrados, outros haverá, por certo, segundo os níveis de análise associados às organizações educativas; a rede de conceitos dos esquemas, das estratégias e dos expedientes; a lógica das orientações para a ação e a das a(tua)ções propriamente ditas. Destas últimas e da contextualização específica e contingencial que as marca, há espaço suficiente para o que a modalidade de avaliação formativa alternativa admite - globalmente, na conceção do que seja uma avaliação para ou focada na aprendizagem; especificamente, na abordagem avaliativa orientada para dinâmicas e formações não regulares e/ou implicadas na diferenciação.

     Mais do que encarar o tema como domínio problemático ou crítico, é o sentido de instrumento para o desenvolvimento pessoal, interpessoal e organizacional que se procurará relevar nesta formação, preocupada em dar resposta a um desafio: toma a avaliação como oportunidade de regulação, monitorização do ensino e da aprendizagem em práticas pedagógicas de natureza interativa e a todo o tempo adaptadas ou adaptáveis.
      

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Porque estamos a viver num inferno

      Anunciada como a história dos nove círculos, sete pecados e um segredo, o novo romance da Dan Brown já está nas minhas mãos.

    Rendi-me à compra daquele que é já considerado o mais recente sucesso de vendas das livrarias: Inferno, de Dan Brown.
   Escrevendo o nome do autor, pareço estar entre a primeira sílaba e a caminho para o nome de DANte Alighlieri, o poeta que melhor descreveu o retrato de um inferno tão aterrador quanto faminto de paraíso. Assim progride A Divina Comédia, com pouco de cómico, mas anunciando um final feliz; ou, segundo alguns autores, com muito de língua vernácula e dirigida à população geral (por contraste com a formalidade a representar a alta literatura, o cânone clássico exemplificado nas tragédias).
    Depois de O Código Da Vinci, Anjos e Demónios e O Símbolo Perdido, reencontro-me com Robert Langdon numa narrativa plena de mistério, intriga, referências histórico-culturais, codificações e simbologias que vão entretecendo o imaginário leitor e apresentando a cidade dos Médici: Florença.
     E assim me revejo, também, nos lugares visitados, pela lembrança evocando referências locais, artísticas, patrimoniais e monumentais dessa "Firenze" toscana, berço do Renascimento italiano projetado para a Europa trecentista, quatrocentista e quinhentista.
     Diria que estou no paraíso , no entanto, é o inferno que se impõe numa rede de congeminações; de jogos de poder; de retratos de doenças e pandemias; de maniqueísmos que (no confronto do bem e do mal) têm o efeito sensibilizador para grandes questões da Humanidade, mais a previsibilidade de, tal como n' A Divina Comédia, terminar num "happy end".

      Na descoberta do livro e em processo de leitura, sigo os trilhos infernais e romanescos, não muito distantes da vida real em que todos nos encontramos (porque feitos de vida e de sobrevivência, sempre na esperança de tempos melhores, mais justos e mais pacíficos, para que não se revele o que de mais aterrorizador, animalesco e dantesco possa existir na Humanidade).