quarta-feira, 15 de julho de 2015

"E a ideia até foi minha"...

    A frase é tão batida, nos últimos dias, que chegou a minha vez de a citar.

   A razão para o fazer não é boa (como, aliás, nenhuma pode ser quando alguém tanto precisa de se assumir como autor de soluções milagrosas, no mínimo, discutíveis), por decorrer da leitura de uma notícia relacionada com a aplicação de critérios pelos professores corretores dos exames de Português de 12º ano.
    Confrontei-me com a informação graças ao seguinte registo noticioso digital:

in http://www.noticiasaominuto.com/pais/421513/exames-de-portugues-tiveram-diferentes-criterios-de-correcao
(consultado no corrente dia, pelas 21:30)

    Depois de o ler, pensei no seguinte: se a qualidade da informação noticiada estiver na proporção da qualidade da correção escrita, tenho muito a duvidar acerca do que está escrito. Senão, vejamos:


    i) quem escreve deve saber encadear o texto de autor com discursos citados, de modo a não comprometer uma regra fundamental do português: não separar nunca por uma só vírgula o complemento do seu elemento predicador subordinante (neste caso, o adjetivo 'garantida');
      ii) um sujeito composto ("a existência de critérios diferentes para corrigir respostas idênticas e a falta de formação para aplicar os critérios de classificação do IAVE") deve dar lugar a um verbo conjugado no plural (não 'levou', mas 'levaram').

   Fico-me por aqui, para não tratar de outras questões (por exemplo, ambiguidades sintáticas, paragrafação dúbia). Os exemplos anteriormente indicados são suficientes para a responsabilidade editorial sair lesada (seja por quem escreveu seja por quem validou o que foi publicitado); a qualidade informativa acabar, no mínimo, relativizada.
   Abordar questões de correção do português num texto mal escrito é informação caída em descrédito.
    Por ora, mais não escrevo, embora sublinhe que a existência de professores interessados em desenvolver um trabalho profissionalmente responsável, oportuno e atempadamente realizado motiva a construção de equipas, parcerias que, colaborativamente, constituem os chamados "amigos / profissionais críticos" enquanto realidade mais próxima, atenta e imediatamente disponível do que a virtualidade digital, distanciada, sem cara e sempre mediada.

    Retomando a notícia, pergunto-me se os responsáveis editoriais dos mass media não deveriam encarar com mais seriedade e profissionalidade o uso da língua, rodeando-se de pessoas (mais) competentes na validação dos registos que public(it)am.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Integrar na novidade

   Não é a tomada da Bastilha; quando muito é comida, com sardinha, febrinha e outras coisas tenrinhas e docinhas.

    Esta é data importante para a História Universal: dia da Tomada da Bastilha (evento nuclear da Revolução Francesa, em 1789). Apesar de a fortaleza medieval, na altura prisão, ter só sete prisioneiros, a sua queda é perspetivada como um dos símbolos maiores da revolução e um ícone da República Francesa.
    Hoje, a título pessoal, também aconteceu uma revolução. Não sei se há mudança e regime, mas creio ser grande mudança para um futuro que só o tempo dirá se valeu a pena. Não tenho a alma pequena, mas admito que estou a destempo de alterações significativas na minha vida. Ainda assim, esta aconteceu, com a mudança do meu local de efetivo no trabalho de docência. Para integrar ou enturmar, fui à sardinhada da minha nova escola, a convite da diretora e do meu departamento / grupo disciplinar.
   Novos colegas, nova diretora, novo espaço... Tanta coisa nova ao mesmo tempo. Olho para a frente, tal como sugeria o patrono que dá nome ao estabelecimento. Nem para cima nem para baixo.

Uma oferta do jantar de despedida, com a cor do céu e do mar, a minha sombra
e as palavras de Manuel Laranjeira

     Este é registo de futuro, vindo de um passado tão recente.
    É verdade que fico mais perto do mar, mas sinto-me sombra à espera da luz, qual prisioneiro da caverna a julgar que vejo a realidade. Será esta cópia de algo mais para chegar?

     Não sei! Sempre numa indefinição que só o futuro desvelará. Resta-me olhar em frente.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sou grego - όχι

     Tempos de resistência, de coragem, de história.

    Quando muitos tentam encontrar justificação para a resposta grega ao referendo, talvez fosse de lembrar o que o passado recente trouxe à Grécia, para não esquecer também que a suposta solidariedade das instituições europeias mais não é do que uma camuflada prepotência sempre que se obriga o solidarizado a agir conforme a ideologia dos dominantes e o sentido neoliberal da(s) economia(s) reinante(s).


    Entre o mal e o mal menor (porque do melhor parece nem ser possível falar), chegou a lição do povo grego: agir em vez de discutir o que decidir; construir consensos em vez de impor diretrizes cegas e surdas, alheias ao poder de milhões que se pronunciaram categoricamente por um 'não' face à ausência de condições para sobreviver com determinação; encontrar soluções (mesmo que difíceis) em vez de se criar mais problemas (ou mais austeridade sem sinais de recuperação ou da viabilidade desta).
    Foi esta a resposta democrática, no sentido helénico e/ou etimológico de 'democracia' - governo (kratos) do povo (demo). Se a democracia pode ser exercida de forma direta (os cidadãos tomam as decisões de poder), indireta (as decisões são tomadas por representantes eleitos em nome dos que os elegeram, na impossibilidade da democracia direta) ou semidireta (chamando os cidadãos a pronunciarem-se sobre questões nas quais os representantes sentem necessidade de maior legitimidade na representação), teve-se no referendo um instrumento para este último sentido de noção e expressão democráticas. Falou / decidiu o povo para os representantes eleitos se sentirem mais apoiados na sua a(tua)ção; devem a Europa e o FMI considerar outras formas de lidar com a situação crítica da Grécia - isto se não quiser adotar a posição típica dos sistemas monárquicos ou oligárquicos (onde o poder está, respetivamente, centrado nas mãos de uma única pessoa, o monarca, ou de um grupo de indivíduos influentes). 
    Ainda que, em Atenas, a democracia se tenha consolidado como uma forma de organização política das cidades-estado gregas (as 'polis') bem longe do sentido literal do termo (havia um reduzidíssimo número de participantes elegíveis da coisa pública - os cidadãos -, onde não cabiam os escravos, as mulheres, as crianças, além dos estrangeiros), atualmente as vozes representadas são em muito maior número. 
  Maior democracia, maior legitimidade na expressão e na luta pela dignidade de um povo, de um país, de uma tradição cultural fundacional da própria Europa.
    Um exemplo a considerar por outros países que também foram porto nas navegações de Ulisses.

    Hélia Correia, vencedora do prémio Camões 2015, numa sessão pública intitulada “A crise europeia à luz da Grécia” (realizada no dia 2 de julho, no Fórum Lisboa), assumiu (como filelena) que a dignidade demonstrada ultimamente pelo povo grego nos faz ainda sentir herdeiros do passado; daí todos querermos ser gregos - no que foram há cerca de dois mil e quinhentos anos e no que são hoje, nomeadamente nesse grito de luta contra o incerto, mas onde cabe a hipótese matizada pela força certa do "morremos, mas morremos de pé".

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Pior a emenda do que o soneto...

     A expressão é típica para as correções mal sucedidas - como a que se dá a conhecer.

    Depois de se ter afirmado que se começou mal o mês, parece que se persiste no sentido do erro. Tudo a propósito de um futuro pronominal mal conjugado, o qual deu lugar a uma sintaxe deficiente na revisão entretanto produzida na página da TSF Rádio Notícias:


Reprodução parcial da imagem na página
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=4654449

     Assim fica reproduzida a página citada (na forma que ainda se dá a ler no presente dia, pelas vinte e duas horas), com o meu sublinhado a dar conta de uma frase bastante complexa onde um 'que' deveria atrair o pronome (que não foi atraído, talvez, pela expansão frásica sucessiva). A construção correta é "O ministro da Economia informou hoje a Procuradoria-Geral da República que foi avisado de que um indivíduo (...) se terá aproximado do consórcio vencedor...". Tanto encaixe na construção de todo o período (com quatro linhas) acabou por redundar em erro, fazendo esquecer uma propriedade típica do 'que'; do 'não' e de alguns advérbios mais: antecipar ou antepor o pronome face ao verbo.

      Por estas e por outras é que eu digo aos meus alunos para não construírem frases extensas (com mais do que duas / três linhas no máximo), sob pena de incorrerem em erros desnecessários. Nem toda a gente é Padre António Vieira, que usava frases com mais de sete / oito linhas brilhantemente compostas.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Começamos mal o mês, numa quarta-feira aziaga para a língua

    Na literatura, Garrett considerava sexta-feira dia aziago...

    Na rádio / imprensa virtual, pode bem ser quarta-feira.
   Tudo porque, na TSF Online, um colega meu leu o que não devia (ou não queria... e bem), tendo-me conduzido de imediato o registo devidamente identificado até na hora de visualização (em http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=4654449, às 11h58m):


     O comentário que possa fazer não é novo, mas é de relembrar o que já foi aqui uma vez escrito o seguinte: a conjugação do futuro e do condicional, na língua portuguesa, resulta de um claro caso histórico-linguístico de composição, quando no período final do império romano se recorria a uma perifrástica constituída pela forma verbal de um infinitivo mais as terminações, respetivamente, do presente e do imperfeito do verbo latino habere. Uma marca que hoje persiste dessa antiga composição é precisamente a colocação de pronomes em mesóclise (isto é, no meio da forma verbal, entre a forma infinitiva do verbo e a sua terminação). Dir-se-á ou escrever-se-á (ei-lo em ação), portanto, com o pronome no meio da forma verbal, enquanto caso antigo de sintaxe transformado em morfologia - 'falar' no futuro é o resultado de falar + (h)ei, (h)ás, (h)á, (h)emos, (h)eis, (h)ão; no condicional, falar + (hav)ia, (hav)ias,(hav)ia, (hav)íamos, (hav)íeis, (hav)iam. Assim se explica, também, a comum terminação do futuro na terceira pessoa do plural (em 'ão'); a acentuação aguda do 'á', 'ás' frequente e erradamente confundida com casos de contração.

   Reproduzo a imagem do registo feito na minha página de Facebook, pois, como antevia e avisava o meu colega, a situação pode acabar por posteriormente ser objeto de correção. Antes assim!

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Festas de um pecador pescador

     Chegou o tempo das festas de S. Pedro.

    Ainda que celebrado por muitas outras localidades, em Espinho há uma capela de onde parte toda a animação para um dos três santos mais populares (Sto. António, S. João e S. Pedro). Não fosse esta uma zona com forte tradição piscatória, todos os anos neste dia, a povoação festeja o seu santo Padroeiro e Patrono com uma procissão que percorre as principais ruas locais.

O S. Pedro cá da malta
Está embrulhado num véu
É o pai dos pescadores
Que traz as chaves do céu.

   Ainda que de nome original Simão, no Evangelho Segundo São João, Cristo chama-o Kepha, que em aramaico significa "pedra", "rocha". Daí para o latim 'Petrus' foi um passo, com o mesmo significado.
    Edificada a igreja cristã sobre essa "pedra", Pedro foi o primeiro bispo de Roma; portanto, o primeiro dos Papas. Contudo, antes de se tornar num dos doze discípulos, Simão era pescador em Cafarnaum. Junto com o irmão, o também apóstolo André, era "empresários" da pesca e tinham sua própria frota de barcos, em sociedade com Tiago, João e o pai destes, Zebedeu. 
    Segundo S. Lucas (V:1-11), Pedro conheceu Jesus quando este lhe pediu uma das suas barcas, para pregar a uma multidão que o queria ouvir. No final, grato pela concessão, Jesus orientou o que viria ser seu discípulo e apóstolo para que fosse pescar com as redes em águas mais profundas. Contra as expectativas, a pescaria foi bem sucedida. Então Pedro prostrou-se humildemente diante do Messias e disse-lhe para que se afastasse dele, dado ser um pecador. Jesus preferiu vê-lo como "pescador de homens" para a fé cristã.

    Assim se justifica que muitas regiões piscatórias tenham este santo como padroeíro, pelos motivos bíblicos que o associam à pesca e ao mar.

domingo, 28 de junho de 2015

Novidades gramaticais (emergentes)

     Nada como ler alguns registos de alunos para encontrar algumas novidades.

   Depois de tanto se ouvir, ler e falar sobre orações gramaticais, chega a novidade escrita: nem coordenadas, nem subordinadas, nem subordinantes. Alguém classifica uma oração como insubordinada!


    Não sei se é mais um contributo teórico relevante (o tempo o dirá, talvez no contexto de uma gramática emergente, conforme Paul Hopper - aí pelos finais dos anos oitenta1 - a concebeu na sua natureza assistemática, periférica e flexível, a propósito da contingencialidade e da construção interativa das realizações discursivo-textuais), mas não posso deixar de ver tal classificação como um sinal de inconsciência e inconsistência discentes. Diria mesmo que se trata de uma marca de rebeldia e de aprendizagem (muito) radical!

NOTA: 1) in Emergent Grammar, Berkeley Linguistic Society, 13, 1987, pp. 139-153

      Fico a pensar que, se não fosse a criatividade linguística - que esbate fronteiras / limites / regras e admite realizações aparentemente impensáveis -, a gramática não resistia a ter orações destas, como forma de pôr fim à dependência (subordinação) ou à coordenação - a bem da liberdade (linguística, em geral, ou gramatical, em particular).

sábado, 27 de junho de 2015

Vontade, pena, desejos e gratidão

     Uma mesa grande de gente muito boa. 

     Depois de saber que fiquei colocado na minha primeira prioridade de concurso, sinto-me dividido entre a vontade de sair e a pena de não poder levar comigo quem fica.
     É um ciclo que se fecha com cerca de vinte anos, para abrir um outro que não sei se será tão feliz quanto o primeiro, mas que está na linha dos meus desejos. Deste, fica-me a satisfação de ter cumprido um papel que julgo positivo, pela presença de alunos e profissionais que me ajudaram a crescer no exercício das minhas funções e nos afetos que nos ligaram.
     Há quem defenda que a construção da nossa identidade se faz pela perceção que os outros têm de nós e do que fazemos. Devo ter feito alguma coisa de bom. Acho que também somos o que outros nos impelem a fazer, e nisso tive bons exemplos para seguir (porque foram tão iguais a mim) e para ensinar (por me deixarem fazer aquilo de que mais gosto).


     Disse-me uma colega: "A quem muda Deus ajuda". Nunca quis tanto que um provérbio se concretizasse.

     Assim o espero - para fazer a mudança e para continuar a fazer tão bem quanto o poema que me foi dedicado. Por ora, resta-me agradecer a presença, as palavras, os gestos, os versos, as T-shirts, um chapéu de letras, uma flor... e o convívio, a consideração, o encontro, os abraços, o sabor de um momento que ontem me soube muito bem.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Acordar com o erro

     Não se pode dizer que seja sinal de bom augúrio.

     Mais uma vez, o 'Bom Dia Portugal' apresenta um rodapé indesejável. A propósito de uma questão de saúde pública que pode ganhar contornos críticos neste período balnear, escreve-se o seguinte (e, pior, dá-se a ler a milhões):


     Isto de confundir 'conselho' com 'concelho' é caso tão clássico quanto ser exemplo constantemente evocado para evidenciar o que são palavras homófonas (tal como cozer / coser), quando se trabalha relações a nível da escrita e do som. Por ser tão comum, dir-se-ia que é inusitado vê-lo confundido nos meios de comunicação social. Não o é, pelos vistos. Se 'conselho' está para ensinamento, entidade superior (veja-se o S - até parece que estou a falar para alunos!), 'concelho' está para câmara ou município (veja-se o C). Conhecimentos etimológicos mostrariam como em latim já era assim (consilium / concilium, respetivamente).
      Sabida esta distinção básica, outros saberes decorrem dela, nomeadamente que 'conselho' permite formar o verbo 'aconselhar' mais as devidas formas conjugadas; e que, deste, por prefixação, deriva 'desaconselhar' e, posteriormente, 'desaconselhado(s)/a(s)'.

     Num canal televisivo (e não é o único) que está preocupado com o "Bom Português" e que hoje pretendia saber se deve dizer-se 'ao par' ou 'a par', é lamentável que não esteja a par de questões ortográficas tão essenciais como as que permitam aconselhar, bem e por testemunho, a ler e a escrever.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Em dia de São João...

     Não cumpre muito a tradição esta figura de S. João, com cordeiro e livro na mão.
Foto da escultura de São João, 
exposta no Museu Nacional Machado de Castro, 
em Coimbra (VO)
   Para lembrar o dia, é reconhecido o facto de este se relacionar com a celebração católica do nascimento do profeta João Baptista (para não mencionar as festas pagãs do solstício de junho, realizadas na noite mais longa do ano). O cruzamento religioso e pagão faz-se na figura bíblica que, no rio Jordão, batizou gentios e judeus e também Cristo, apresentado como o Messias e o "cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". 
    A representação comum de João com um cajado e vestes de pastor cumpre o requisito biográfico do homem que, após a morte do pai, teve a mãe (Isabel, prima de Maria) a seu cargo e viveu, por opção, como asceta. Invulgar é a que se dá ver numa escultura que encontrei há dias, aquando da visita ao Museu Nacional Machado de Castro (Coimbra): São João com um carneiro e um livro na mão.
  Como profeta que foi e filho do sacerdote Zacarias, terá João Baptista contactado mais diretamente com o saber do seu tempo (metaforizado no livro) - ora ministrado pelo pai e pela mãe ora transmitido pelos mestres da educação dos nazireus, ou seja, dos seguidores da Torá hebraica - livro, instrução, lei seguida pelos fiéis à tradição judaica, também designado como Lei de Moisés.

    Fica, assim e neste dia sanjoanino, uma aproximação à leitura da escultura. Quanto à festa, talvez ela já reflita as feições do que Fernão Lopes, no século XIV, deixou escrito em crónica como uma grande festa vivida pelas gentes do Porto (para não dizer que até a moirama, segundo uma cantiga da época, se rendeu à festa do santo católico, numa expressão clara da união sem qualquer tipo de preconceito).

domingo, 14 de junho de 2015

Produto novo?

     Tenho sérias dúvidas quanto ao novo produto.

     Primeiro, porque já é sobejamente conhecido, não obstante o empréstimo (proveniente do italiano lasagna) já entrado na grafia da nossa língua.
     Segundo, porque o produto tem defeito, a julgar pela publicidade que lhe está associada:


    É tão comum e antigo o erro que já não há paciência para lembrar que, entre outras, a técnica da negativa pode contribuir para a sua eliminação da escrita: 'provas-te' > não te provas (o pronome 'te' muda de posição, pelo que na afirmativa ele deve ser grafado separado do verbo por um hífen); 'provaste' > não provaste (os sons finais lidos em 'te' fazem parte da terminação verbal associada à conjugação na segunda pessoa do singular, com a configuração 'ste', sem qualquer alteração na posição pela aplicação da negativa - razão pela qual não pode haver separação da terminação face à respetiva forma verbal).
    Como a publicidade ultimamente tem usado e abusado de tal incorreção, grassa por aí um mal geral que não tem igual: partilhar o que não se deve, isto é, o péssimo uso da língua (porque errado).

      As lasanhas podem ser novas, mas o erro é velho. E, assim sendo, não compro as lasanhas do Continente. "Já provaste?" Não, nem quero. Em lugar do Continente, prefiro a ilha.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O captain, my captain...

     Palavras de alunos: ficção ou realidade?

    Inicialmente, a expressão começa por fazer parte da metáfora construída por Walt Whitman para, num dos seus poemas ("O Captain! My captain!", 1865), se referir à morte do presidente Abraham Lincoln, no contexto da Guerra Civil americana (essa 'trip', viagem por que os EUA tiveram de passar na sua história):

Poema whitmaniano tão inspirador quanto desconcertante na (des)ilusão.

    Este mesmo poema é citado no filme Clube dos Poetas Mortos (1989), realizado por Peter Weir, particularmente quando o professor de inglês John Keating (interpretado por Robin Williams) diz aos seus alunos que estes o podem tratar por "O Captain! My Captain!", sempre que se sentirem ousadamente inspirados. Se assim o disse no início da relação, assim o recebeu no final: demitido por desafiar os princípios da prestigiada academia onde lecionava, Keating vê os seus alunos revelarem o apoio e a admiração que sentem, ao subirem para os tampos das respetivas carteiras e ao declamarem / dedicarem a expressão whitmaniana a quem os ensinou a aproveitar o dia e a sugar o "tutano da vida" (carpe diem).
    Se qualquer semelhança entre a ficção e a realidade for uma mera coincidência, a verdade é que hoje vivi estas palavras literárias / fílmicas como reais. Ao fim de dois anos e na última aula (oficial) de Literatura Portuguesa, nos minutos derradeiros de um discurso meu interrompido sobre A Sibila (de Agustina Bessa-Luís), vejo uma aluna subir para a carteira dirigindo-me os famosos versos; e logo todos os restantes elementos da turma a repetirem o ato, numa recriação do episódio cinematográfico:

Cena final do filme Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir (1989)

      Entre a incredulidade e a emoção, o sorriso da cena reconhecida e a contenção que se impunha (para não chorar no momento da despedida), estrategicamente comecei por representar o papel, reagir qual Mr. Nolan, o diretor da Academia Welton, com o incisivo "Sit down"; ainda cheguei ao "You hear me, sit down", dada aquela assumida desobediência estudantil; porém, não pude assumir o "This is my final warning! How dare you!". Sensibilizado, só pude responder de uma forma: subir para o tampo da minha secretária e, colocando-me ao nível da turma, agradecer por todos me terem deixado viver momentos e experiências felizes de leitura, de comentário, de análise e de reflexão. 
    Fomos cúmplices no trabalho, no espírito e nas relações que se construíram. Consiga eu levar comigo essa cumplicidade e reconstruí-la numa outra escola.

      Ficção e realidade. Se alguém, no corredor, tivesse olhado pelo vidro da porta e visse o que se passava na sala de aula, pensaria que não era possível estar a ver bem! E foi tanta a realidade!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Só corpo...

      Ao passar os olhos pelo escaparate das revistas, no supermercado, tive de tirar fotografia.

      O verdadeiro caso de que nem sempre um corpo são se faz acompanhar de mente sã ficou à vista, numa revista que devia fazer revisão daquilo que dá a ler. Dedicada ao treino do corpo, falha na escrita:

Fotografia do escaparate da imprensa: tanto treino para capa tão fraquinha!

      Músculo é palavra esdrúxula e, como tal, a acentuação gráfica faz-se na antepenúltima sílaba (não na penúltima, que, por norma da regularidade gramatical, não é acentuada, dada a tendência grave da língua portuguesa).

      Estou em crer que um programazito de fitness gramatical resolveria o problema, a bem da Saúde do Homem (Men'sHealth).

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Alma(s) tão pequena(s)

        Os últimos tempos têm sido tão maus que estou a precisar de um pastel.

    Cá vai, então, a variação poética pessoana (inspirada no "Mar Português" do autor da Mensagem ou mais precisamente nos versos "Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena"), orientada para registo publicitário do tão necessitado pastel:

Fotografia a um porta-guardanapos muito "poético" ou pessoano.

     Mesmo com a fome a não ser grande e depois de me ter cruzado com almas tão pequenas, tudo vale a pena para combater sinais deste mundo (por vezes tão familiares), como a hipocrisia, a acidez e tomadas de decisão que estarão sempre na orientação contrária ao pretensamente desejado (se é que alguma vez o foi). Decididamente há quem goste de destruir, em vez de construir, nesta vida.
    Felizmente, há outros exemplos, talvez não tão próximos (ou talvez mais ainda), mas bem melhores: procuram manter os laços, oferecem / dedicam músicas, fazem sentir que precisam de mais alguém e muito se esforçam para que os tempos ainda sejam de convívio salutar; sorrisos sérios, credíveis e afáveis. Em suma, almas grandes que lembram o que deve ser valorizado e que merecem mais ser ouvidas do que as outras... as pequenas.
   Nada como estes bons exemplos ou a ficção literária / poética - ou ainda a publicidade nela inspirada - para fazer esquecer as incomodidades criadas para e numa realidade cada vez mais intolerável.

    Toca a comer o pastel, para compensar o(s) tempo(s) perdido(s); para não pensar no(s) que estará(ão) ainda para mais se perder.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Em tempo de calor...

    Dia da criança, dia de abertura da época balnear. Dia também para se brincar com a língua.

   Inspirada em expressões idiomáticas entendidas à letra, Mariana Crisóstomo criou ilustrações para expressões portuguesas, na linha do que podem ser registos cómicos (explorando o sentido literal que a expressão, por certo, hoje não tem).
    A ilustradora e designer gráfica partiu, por exemplo, da expressão "tirar o cavalinho da chuva" e, assim, compôs a imagem seguinte:

"Tirar o cavalinho da chuva" in http://observador.pt/topico/junkhead/

    Talvez na sua origem, em tempos em que o cavalo era o meio de transporte mais comum, houvesse alguma significação próxima do dito literal: o animal era abrigado nos momentos de paragem ou de descanso mais prolongado; contrariamente, uma permanência breve era sintomática quando o equídeo era amarrado à porta de casa; ainda assim, quando passava mais tempo do que o previsto, o anfitrião acabava por aconselhar que o cavalo fosse 'tirado da chuva' (para não sofrer consequências com a demora e/ou o mau tempo).
     Atualmente, a expressão refere-se a uma situação em que há a necessidade de desistir de uma ideia ou vontade (qualquer que ela seja), dissuadindo-se de qualquer pretensão que vá no sentido contrário.

     Fica o apontamento - entre o significado literal e o sentido atribuído pelo uso -, na crença de que o conhecimento deste último coloca o primeiro no registo de um cómico que se atualiza no grafismo da designer que se dá a conhecer como "junkhead".

domingo, 24 de maio de 2015

Assim o disse o poeta...

    Antes que me acusem de ser malcriado, registo que as palavras são do poeta.

    Há sábias palavras em tudo isto, nomeadamente quando um ator as cita no momento em que recebe um galardão para o distinguir como o melhor entre os seus pares. Refiro-me a Diogo Infante, que hoje, num canal televisivo, foi agraciado com o reconhecimento público - e merecido -, na Gala dos Globos de Ouro da SIC (às vezes, no meio de tanta fantasia, alguma coisa sai certa), pela sua representação da "Ode Marítima".
   Em tempos de cansaço e desgaste (recordo Campos e "sobretudo cansaço"), ainda há força para reagir da forma linguisticamente mais rude que a vida também tem:

Foto com montagem de alguns versos de Álvaro de Campos

    Versos da "Ode Marítima", para o mar que esta vida é - por vezes, agreste, desumana e feita de tudo o que acaba por a negar (uma verdadeira selvajaria).

    Por isso, pode afirmar-se que a poesia chega a ser mais sincera do que aquilo que a vida nos (não) dá. E o teatro (ou a quinta arte, a da representação) não lhe fica atrás.

sábado, 23 de maio de 2015

Sem comentários (quando todos eles deviam ser mais do que justificáveis)!

      Mais uma prova da qualidade dos serviços centrais de educação.

     Quando a todo o tempo se critica aqueles que falam mal e, consequentemente, o refletem da pior forma na escrita, eis que o péssimo exemplo vem de cima: num questionário  do Observatório de Trajetos de Estudantes do Ensino Secundário (OTES), elaborado pela Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC).

Foto adaptada a partir da divulgada por Jorge Sintra a 22 de maio
(in https://www.facebook.com/photo.php?fbid=862202800531569&set=a.622798887805296.1073741825.100002255728468&type=1&theater)

      Um documento destinado a ser aplicado a todos os alunos que completam o 12° ano, segundo o que foi dado a conhecer na plataforma online desde o início do corrente mês.
      Exposição ao erro: confundir a conjugação verbal da segunda pessoa do plural (vós frequentastes) com a do singular (tu frequentaste), no pretérito perfeito, é falha comum que muitos professores de Português contrariam, mas que os serviços educativos não deixam de promover (pela própria ausência de controlo e/ou validação dos escritos que torna públicos).

      É difícil remar contra uma maré que, não sendo exemplar, se impõe e faz dos que a contrariam uma "rāra avis" - tão rara que chega quase a ser desautorizada ou, no mínimo, relativizada por quem a deveria forçosamente legitimar. E não se pode dizer que seja um exemplo sem história, tanto para docentes (com direito a reincidência inglória) como para discentes (no caso deste apontamento).

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Há cento e sete anos...

      Ainda há dois dias vi esta cara (que não me é estranha).

    Aquando da visita ao Palácio de Mafra com alunos do 12º ano, pude (re)ver o retrato do nosso último rei: D. Manuel II, o Desventuroso. No cognome e no reinado, em tudo foi diferente daquele outro que a História tomou como o Magnânimo e um dos mais generosos monarcas. E se este último foi o que mandou erigir o convento de Mafra, o primeiro acabou por aqui viver uma das últimas noites do seu reinado.
    D. Manuel II (Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Grabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha) foi o segundo filho do rei D. Carlos e de D. Amélia de Orleães. Nascido em Lisboa, em 15 de Novembro de 1889, foi aclamado rei ao sexto dia do mês de maio, corria o ano de 1908, sete dias após o regicídio que vitimara o pai e o irmão (o príncipe Luís Filipe).
   Pouco mais de dois anos resistiu a monarquia, apesar da popularidade que D. Manuel ainda conseguiu granjear, pela simpatia natural que tinha e/ou pela tragédia por que a família real havia passado.
    Exilou-se em Inglaterra (Fulwell House / Manor, Twickenham, nos arredores de Londres), ainda hoje com marcas da presença real portuguesa (o rei, a rainha-mãe D. Amélia e a esposa D. Augusta Vitória):

Minidocumentário sobre o último rei português.

   Sem sucessão, o rei sem trono morreu em Inglaterra, tendo as suas exéquias ocorrido em Westminster Abbey. O corpo regressaria a Portugal, com o governo de Salazar a autorizar a sepultura em Lisboa, no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de São Vicente de Fora. Não tendo sido duque de Bragança (por não ser o filho primogénito), lá se encontra como o último representante da casa real nacional.

    Com a Implantação da República (5 de outubro de 1910), o último rei português saiu do Palácio das Necessidades, foi para Mafra e daí para a Ericeira, onde acabou por embarcar para o exílio. Aí tornou-se um bibliófilo assumido na organização dos livros portugueses mais tradicionais (nomeadamente, os exemplares dos livros nacionais mais antigos do século XVI).

terça-feira, 5 de maio de 2015

Uma letra de canção muito útil

    Na sequência da comemoração do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura, há dois dias, fica para memória futura a canção da Rádio Comercial.

   Numa versão da cantiga dos D.A.M.A ("Às vezes") e com a colaboração de Vasco Palmeirim, chegou aos ouvintes "Às Vezes (Escuto e Observo Erros de Português)" - uma ideia criativa para lembrar que não se deve maltratar o Português. Assim se ouviu uma letra útil em registo paródico naquele que foi o dia promovido pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) para a celebração do idioma que a une e a justifica:

Um segmento do que se pode ver / ouvir em https://youtu.be/65Eysv1vR4Q

     E porque a rir se dizem grandes verdades, fica uma combinação interessante do "top" dos erros que grassam por aí na escrita e na fala do idioma de Camões. Muitos são os exemplos comuns às chamadas de atenção formuladas nas aulas de Português.
    Outros casos poderiam ter sido considerados. Por exemplo, o verbo 'METER' em tudo quanto é sítio, sem que tal seja possível. Lembro-me também, por exemplo, de ainda há poucos dias ter alertado, por mais de uma vez e para grande espanto de alguns alunos, que a expressão "ter A VER com" nada tem a ver com o verbo HAVER. Normalmente, a primeira aparece mal grafada, até por os falantes tenderem a produzir mal a respetiva realização sonora (abrindo o som [a], o que não deveria acontecer).

     Seja esta letra de canção decorada como muitas outras e haverá a esperança de que alguns destes erros não sejam mais cometidos.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Está grave, mas é agudo (I)

     Uma questão grave: confundir o grave com o agudo.

   Dizem as regras de acentuação gráfica que se coloca acento agudo nas palavras oxítonas (ou agudas) terminadas em a(s), e(s), em ou ens, o(s). Eis senão quando encontro a palavra 'café' (logo esta) tão mal grafada:


     Com isto só me apetece dizer que é, no mínimo, suspeita a qualidade do produto. E, da "máquina", mesmo na forma reduzida, suspeito que haja qualquer coisa a menos.

     Jogando com o habitual slogan publicitário ("Worten sempre!"), faz sentido dizer: não "worten" a cometer o erro.