quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Confusões... nada históricas (na língua, pelo menos)!

     Quando se procura abordar questões de História da Língua, na sua evolução fonética, dá nisto.

     Particularmente, tudo acontece porque frequentemente se confunde o domínio fonético (som) com o da grafia (escrita) e há a tendência para reproduzir erros.

   Q: A propósito dos fenómenos fonológicos de adição, a palavra 'home' é um bom exemplo para dar conta de uma paragoge do 'm' (home > homem)? Obrigado.

      R: Naturalmente, não é um bom exemplo, porque nem caso de adição (ou de inserção) se trata.
        Tomando como ponto de partida 'home' (que na forma arcaica da língua também teve a variante 'ome'), o que sucede na evolução 'home > homem' não é um caso de acrescentamento sonoro, mas a consideração de um traço de nasalidade na sequência vocálica final. Quando muito trata-se de um processo de nasalização - alteração de uma vogal / sequência vocálica final (coda silábica), a ponto de ganhar o traço nasal [~].
       Nesta medida, o 'm' é um simples grafema (letra) para registar, em termos de convenção ortográfica, a nasalidade presente no que poderia ser a representação fonética da palavra: [ˈɔmɑ̃j]

       E depois disto interessa-me dizer que da forma arcaica 'ome' para 'home(m)' também não houve nenhuma prótese (até porque o grafema 'h' não traduz nenhuma dimensão sonora como, por exemplo, no inglês, marcado pela aspiração).

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Bartolomeu de Gusmão... talvez sim, talvez não.

       Dizem que hoje foi o dia na provável data de morte do "Padre Voador", em 1724.

      Talvez sim. Segundo Memorial do Convento (1982) não é isso certo, chegando a apontar-se o dia dezanove. Também não é indubitável a causa da morte. Verdade é que Bartolomeu Lourenço de Gusmão morreu em Toledo, aos 38 anos, conforme o anuncia o músico Scarlatti ao casal Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas:

Baltasar, Blimunda e Bartolomeu (pela Éter-Produção Cultural)
      "Domenico Scarlatti pedira licença ao rei para ir ver as obras do convento. Recebeu-o o visconde em sua casa, não porque fosse excessivo o seu gosto pela música, mas, sendo o italiano mestre da capela real e professor da infanta D. Maria Bárbara, figurava, por assim dizer, uma emanação corpórea do paço. (...)
     Saiu o músico a visitar o convento e viu Blimunda, disfarçou um o outro disfarçou, que em Mafra não haveria morador que não estranhasse, e estranhando não fizesse logo seus juízos muito duvidosos, ver a mulher do Sete-Sóis conversando de igual com o músico que está em casa do visconde, que terá ele vindo cá fazer, ora veio ver as obras do convento, para quê se não é pedreiro nem arquitecto, para organista ainda o órgão nos falta, isso a razão há-de ser outra, Vim-te dizer, e a Baltasar, que o padre Bartolomeu de Gusmão morreu em Toledo, que é em Espanha, para onde tinha fugido, dizem que louco, e como não se falava de ti nem de Baltasar, resolvi vir a Mafra saber se estavam vivos. Blimunda juntou as mãos, não como se rezasse, mas como quem estrangula os próprios dedos, Morreu, Foi essa a notícia que chegou a Lisboa, Na noite em que a máquina caiu na serra, o padre Bartolomeu Lourenço fugiu de nós e nunca mais voltou, E a máquina, Lá continua, que faremos com ela, Defendam-na, cuidem-na, pode ser que um dia volte a voar Quando foi que morreu o padre Bartolomeu Lourenço, Diz-se que foi no dia dezanove de Novembro, por sinal que nessa data houve em Lisboa uma grande tempestade, se o padre Bartolomeu de Gusmão fosse santo seria um sinal do céu, Que é ser santo, senhor Escarlate, Que é ser santo, Blimunda.

    Santo ou não, foi sacerdote secular e cientista português. Nascido no Brasil, é reconhecido como o inventor do primeiro aeróstato operacio-nal (“passarola” – mais conhecida na versão atual como balão de ar quente). O invento, comenta-do na Europa e apresentado em es-tampas fantasiosas como uma barca na forma de pássaro, foi polémico. Das tentativas mal sucedidas com pequenos balões ao grande aparelho que voou sem tripulação, há registos e testemunhos a atestar o acontecimento- tão inovador para a época como causador de intrigas, a ponto de Bartolomeu de Gusmão ter sido vítima da Inquisição, acusado de simpatizar com cristãos-novos. 
    De novo, entre o dizer e o ser há uma distância aqui e ali contrariada. Ora porque abraçou o judaísmo ora porque, à hora da morte, se confessou e recebeu a comunhão católica, este padre nasce e tem os restos mortais no Brasil (desde 2004, encontra-se na Catedral Metropolitana de São Paulo).

    Louco, talvez; mas, como diria Pessoa, o que é o ser humano sem a loucura sadia que o faz evoluir? Mantém-se na vida como cadáver adiado que procria. E isto Bartolomeu Lourenço de Gusmão por certo não foi.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

17-11-1717

     Com dois algarismos apenas (o um e o sete) se compõe uma data tão "magnânima"!

     Não fosse este o cognome do rei D. João V (a par de outros tantos que o povo lhe atribuiu) e a data não seria tão grandiosa, magnificente ou excelsa.
    Há 300 anos não estaríamos, por certo, muito longe do que José Saramago dá a ler em Memorial do Convento (1982), na divisão XII a que vulgarmente se dá a designação de capítulo:

Do autor e da obra
      "... entretanto começou a constar-se em Mafra, e foi confirmado pelo vigário no sermão, que vinha el-rei a inaugurar a obra da raiz dos caboucos para cima, colocando com as suas reais mãos a primeira pedra. Primeiro se anunciou que seria aos tantos de Outubro, mas não houve tempo para cavar os alicerces até à sua conveniente fundura, apesar de serem seiscentos os homens, apesar dos muitos tiros de pólvora que a todas as horas do dia vão atroando os ares, será então em Novembro, meados dele, depois não pode ser, que já seria como de Inverno, andar aí el-rei enterrado na lama até às ligas das pernas. Venha pois sua majestade para que se comecem os dias gloriosos da vila de Mafra, para que os seus moradores levantem as mãos ao céu, eles que com os seus perecíveis olhos vão ver a quanto alcança a grandeza de um rei, monarca sublime, graças a quem podemos gozar estas antecâmaras do paraíso enquanto às celestiais moradas não acedermos, tarde seja, que mais apetece estar vivo que morto (...).
      (...) Benzeu-se a cruz no primeiro dia, enorme pau com cinco metros de altura, que daria para um gigante, Adamastor ou outro, ou para o tamanho natural de Deus, e diante dela se prosternaram todos os presentes, e maximamente el-rei, derramando muito devotas lágrimas, e quando a adoração da cruz acabou, quatro sacerdotes levantaram-na em peso, cada qual seu extremo, e a arvoraram sobre uma pedra, adrede preparada, mas esta não a cortou Álvaro Diogo, com um buraco onde se lhe encaixou o pé, que, mesmo sendo a cruz divino emblema, não se aguenta se não ficar entalada, é o contrário dos homens, que mesmo sem pernas conseguem ficar direitos, a questão é quererem-no. Tocava airoso o órgão, sopravam os músicos, entoavam as vozes dos cantores, e, cá fora, o povo que não coubera ou estava sujo de mais para entrar, o povo que viera da vila e dos arredores, não admitido no sacro interior, contentava-se com os ecos das antífonas e das salmodias, e assim se acabou o primeiro dia. 
      Ai o dia seguinte, (...) ai o dia seguinte, retorne-se a exclamação, dezassete de novembro deste ano da graça de mil setecentos e dezassete, aí se multiplicaram as pompas e as cerimónias no terreiro, logo às sete da manhã, frio de rachar, se achavam reunidos os párocos de todas as freguesias em redor, com os seus clérigos e muito povo, é forte presunção que tenha vindo desta ocasião o dizer, para uso dos séculos e das gazetas. Chegou el-rei pelas oito horas e meia, já tomado o chocolate matinal, serviu-o por suas próprias mãos o visconde, e então se formou a procissão, à frente sessenta e quatro religiosos arrábidos, depois o clero da terra, a cruz patriarcal, seis homens de opas roxas, os músicos, capelães de sobrepelizes, grande cópia de clérigos vários, um espaço livre a preparar o que aí vinha, e eram os cónegos de pluviais de tela branca e outras bordadas, adiante de cada um deles os seus criados nobres, empós, sustentando-lhes as caudas, os caudatórios, e atrás o patriarca com preciosos paramentos e mitra do maior custo, adornada de pedras do Brasil, depois el-rei com a sua corte, juiz e vereadores da terra, corregedor da comarca, e grande número de gente, passante três mil, se não se enganou quem a contou, e tudo isto por causa de uma simples pedra, juntou-se aqui um poder de mundo, clarins e timbales atroando os ares superiores e inferiores, e a tropa de cavalaria e infantaria, mais a guarda alemã, e outra vez o povo, muito povo, tanto povo, nunca a vila de Mafra vira tal ajuntamento, porém, não cabendo todos na igreja, entram os grandes, e dos pequenos só os que cabem e tiveram artes de insinuar-se, antes fizeram os soldados as aclamações da ordenança, era isto ainda pela manhã, serenara de vez o vento forte e o que corria era apenas uma viraçãozinha do mar que fazia fraldejar as bandeiras e as saias das mulheres, ventinho fresco como próprio da estação, mas os corações ardiam de pura fé, exultavam as almas, e se, de extenuadas, já algumas vontades queriam retirar-se dos corpos, vinha Blimunda e não se perdiam nem subiam às estrelas. 
      Foi a pedra principal benzida, a seguir a pedra segunda e a urna de jaspe, que todas três iriam ser enterradas nos alicerces, e depois foi tudo levado em procissão, de andor, dentro da urna os dinheiros do tempo, ouro, prata e cobre, umas medalhas, ouro, prata e cobre, e o pergaminho onde se lavrara o voto, deu a procissão uma volta inteira para mostrar-se ao povo que ajoelhava à passagem, e, tendo constantemente motivos para ajoelhar-se, ora a cruz, ora o patriarca, ora el-rei, ora os frades, ora os cónegos, já nem se levantava, bem poderemos escrever que estava muito povo de joelhos. Enfim se encaminharam el-rei, o patriarca e alguns acólitos para o sítio onde se havia de colocar a pedra e as pedras, descendo por uma espaçosa escada de madeira que tinha trinta degraus, porventura em memória dos trinta dinheiros, e de largura mais de dois metros. Levava o patriarca a pedra principal, ajudado pelos cónegos, e outros destes a pedra segundeira e a urna de jaspe, atrás el-rei e o geral da Sagrada Ordem de S. Bernardo, como esmoler-mor, e que, por o ser, levava o dinheiro. 
       Assim desceu el-rei trinta degraus para o interior da terra, parece uma despedida do mundo, seria uma descida aos infernos se não estivesse tão bem defendido por bênçãos, escapulários e orações, e se aluíssem estas altas paredes que formam o cabouco, ora não tema vossa majestade, repare como as escorámos com a boa madeira do Brasil por maior fortaleza, aqui está um banco coberto de veludo carmesim, é uma cor que usamos muito em cerimónias de estilo e de estado, com o andar dos tempos vê-la-emos em sanefas de teatro, e sobre o banco está um balde de prata cheio de água benta, e também duas vassourinhas de urze verde com os cabos guarnecidos de cordão de seda e prata, e eu, mestre-da-obra, verto um cocho de cal, e vossa majestade, com esta colher de pedreiro de prata, perdão, senhor, de prata de pedreiro, se pedreiros a têm, estende a cal, mas antes a espargiu com a vassourinha molhada na água benta, e agora, ajudem-me aqui, podemos assentar a pedra, porém, sejam as mãos de vossa majestade as últimas a tocar-lhe, pronto, um toque mais para toda a gente ver, pode vossa majestade subir, cuidado não caia, que o resto do convento nós o construiremos, e agora podem ser postas as outras pedras, cada uma em sua cabeceira desta, e tragam os fidalgos mais doze, número de boa fortuna desde os apóstolos, e conchas de cal dentro de cestos de prata, assim ficará mais aconchegada a pedra principal, e o visconde da terra quer fazer como vê aos serventes de pedreiro, leva o cocho à cabeça, assim mostrando maior devoção, já que não foi a tempo de ajudar o Cristo a levar a cruz, despeja a cal que o haverá de comer, não seria mau o efeito de estilo, porém esta cal não está viva, meu senhor, mas apagada, Como as vontades, dirá Blimunda.
      Ao outro dia, depois de el-rei partir para a corte, deitou-se abaixo a igreja sem ajuda do vento, apenas cho-via água que Deus a dava, puseram-se a um lado as tábuas e os mastros para necessidades me-nos reais, andai-mes, por exemplo, ou tarimbas, ou beliches, ou mesa de comer, ou rastos de tamancos, e os panos, tafetás ou damascos, as velas dos navios, cada um tornou ao seu natural, as pratas para o tesouro, os fidalgos para a fidalguice, o órgão para outras solfas, e os cantores, os soldados a luzir semelhantes paradas, só ficaram os arrábidos de olho alerta, e sobre a pedra cavada, cinco metros de pau crucificado, a cruz." 

     A ironia pode ser a de qualquer trabalhador da época, forçado que foi a cumprir os devaneios e as promessas reais; pode ser a de qualquer espírito crítico (de então ou de agora) que vê, nesta megalómana vontade joanina, um exemplo dos poderosos, sempre acima dos que herculeamente têm de trabalhar, pondo mãos à obra mas não ficando na história oficial dos acontecimentos (por mais que sejam os que carregam a cruz e sofrem das cruzes).

   O Palácio-Convento de Mafra, colosso do barroco português setecentista, é promessa arrancada ao rei (para os frades arrábidos): se a rainha concebesse um filho, que tardava a chegar, acolher-se-iam treze frades arrábidos num mosteiro que, no final da construção, acabou por albergar mais de trezentos e também abraçou um palácio real. Iniciado a 17 de novembro de 1717, o monumento só teria a sua sagração no ano de 1730 (no aniversário oficial do rei, claro está! Quem pode pode!).

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Tudo ao contrário!

     Começo a ficar ligeiramente farto de ler (ou ver escrito) ou ainda de ouvir o que alguns não querem dizer... mas assim o fazem repetidamente!

     É certo que quem fala /escreve tem uma intenção comunicativa. Pena é que, às vezes (para não dizer frequentemente), digam ou escrevam o contrário do que pretendam.
      Assim o provo com o excerto de uma carta:


      É, no mínimo, estranho (se não for incoerente) tanto agradecimento para quem vai 'de encontro a' um trabalho. Se ainda fosse 'ao encontro de', tudo seria mais explicável. Por norma, só um espírito muito cristão, benemérito ou altruísta é que se mostraria grato àqueles que com ele esbarram.
      Já foi aqui apontado que 'ir DE encontro A' (esbarrar, ir contra) é o contrário de 'ir AO encontro DE' (aproximar, apoiar, estar de acordo com). 

      É verdade: a troca de preposições / contrações dá em significado completamente antónimo. E não é preciso ser perito para chegar a tal conclusão; basta consultar um bom dicionário.

domingo, 15 de novembro de 2015

Imagine...

     Já que falei na canção no apontamento anterior...

    ... aqui fica não o original, mas uma versão de um espetáculo acústico dos Coldplay no Teatro Belasco (Los Angeles), num tributo a Paris e às vítimas do massacre de sexta-feira passada (dia treze, de horror, não de simples azar).

"Imagine", de John Lennon, num tributo dos Coldplay

   Esta, sim, seria a canção a cantar por e para todos os que sofrem num mundo feito de injustiças, desigualdades e afronta à própria dignidade humana. Melhor do que qualquer hino nacional, por certo (porque mais universal).

     Que a universalidade e a harmonia musicais apazigúem o que alguns homens quiseram destruir.

sábado, 14 de novembro de 2015

Afinal, sempre foi dia de azar... (bem pior do que isso!)

      Refiro-me ao dia de ontem - uma sexta-feira treze (de terror) que deu num sábado catorze (com dor).

    Vitimada pelo terrorismo, Paris acordou com a dor de uma noite sofridamente vivida e atrozmente marcada com mais de uma centena de mortos, na sequência de vários ataques a tiro e de bombistas-suicidas. O dia de azar deu em noite de terror. Entre reféns, feridos e mortos, o estado de emergência impôs-se no país que deu a conhecer ao mundo os valores da Liberdade - Igualdade - Fraternidade e que (re)descobriu o terror perpetrado pelo Estado Islâmico com sete ataques violentos em diferentes zonas da capital francesa.
     Discutem-se os motivos desta barbárie, pergunta-se em nome de quê toda esta tragédia, canta-se o hino francês (mais a parecer um grito de guerra já anunciado), marcha-se em homenagem aos que pagaram com a vida inocente (eternos desconhecidos, subitamente lembrados como mártires dos grandes valores e das grandes causas políticas), ouvem-se os discursos solidários dos que se dizem condoído (ainda que apenas pelo politicamente correto). Tanto assunto, tanta conversa para tão pouca ação!
    Aponta-se a diferença religiosa como a causa da catástrofe, esquecendo que qualquer crença, contrariamente a alguns homens (de tão diferentes credos), coloca o bem da vida acima de tudo:

     
      Comenta-se com facilidade aquilo que não é sentido nem vivido, salientando o medo que gera mais medo, numa irracionalidade em que só falar e nada fazer parecem ser as soluções para tudo (manter como está, para o bem de alguns poucos):


      Procura-se o que ninguém parece saber onde encontrar ou como lá chegar:

  
     E no meio de tudo isto sempre o Homem, dominando: o seu poder, a sua visão, os seus interesses e um sentido de vida que soa (cada vez) mais a destruição do que a realização.

      Por isso, no momento, só me apetece lembrar John Lennon e Imagine, no desejo de que o mundo "will live as one" - de novo a música como alternativa ao mundo infernal que vivemos (pena que seja só imaginação!)

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Não uma, mas um FACE com História

      Pode ser uma sexta-feira treze, mas hoje houve mais realeza (com a presença de "Sua Alteza" o rei D. Carlos) e excelência do que azar.

    Pelas 10:30, foram assinalados os 120 Anos da Concessão do Alvará Régio à Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª, no edifício onde atualmente se situa o Fórum de Arte e Cultura de Espinho (FACE) - Museu Municipal de Espinho. Aí se encontra uma exposição permanente com evidências da visão progressista e da importância nacional e internacional da antiga fábrica de conservas espinhense, que recebeu um prestigioso alvará nos finais do século XIX (1895). Passados cinco anos do vergonhoso Ultimato britânico imposto a Portugal (inviabilizando o 'Mapa Cor-de-rosa'), Espinho, um lugar da freguesia da Anta à época, dava mostras de um sinal de desenvolvimento do país, da industrialização, do progresso e da aposta na excelência, sob a divisa "Melhorando sempre" e a ponto de os produtos produzidos e exportados desta "Real Fábrica de Conservas Alimentícias" passarem a estar à mesa do rei.
     A efeméride foi ainda abrilhantada por dois eventos:
   . uma dramatização com História, levada a cabo por um par de atores do Teatro Popular de Espinho - "Entrevista a El-Rei D. Carlos":

 
Excerto da dramatização levada a cabo no FACE

  . o lançamento do Jornal "Real Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª", numa edição impressa à escrita da época.

Primeira página do jornal, reproduzindo o Alvará Real
      Do balanço final da atividade, que contou com a presença de alunos e professores da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira, fica o registo do que eram a jorna (salário do trabalho diário) e o jornaleiro (o trabalhador que recebia a jorna); as condições do trabalho numa fábrica (entre o final do século XIX-início do XX, conforme um painel fotográfico revelador dos que se vestiam na especialidade laboral exercida ou dos que indiferenciada-mente aguardavam pelas necessidades do trabalho diário); o sentido estratégico da visão assumida pelos proprietários (que organizaram a fábrica por secções - conserva de sardinha, de frutas, de legumes, de caça, de doces, entre outros produtos, para além da produção das embalagens e da estampagem publicitária); o exemplo, o testemunho e a reflexão de que, mesmo em tempos críticos, o engenho, a audácia e a parceria constituem fatores primordiais para o desenvolvimento, o sucesso e o prestígio conquistados pelo trabalho.
    Uma ótima iniciativa na oportunidade e na mensagem, não esquecendo a companhia.

      Entre regeneradores e progressistas (tão alternada e ciclicamente revistos na governação do país na segunda metade do século XIX); entre crises nacionais e oportunidades económicas; entre trabalhadores especializados e outros que esperavam a sorte do dia, ficam aqui alguns apontamentos da(s) História(s) que o tempo repete.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A propósito de 'de paz'...

      Até podia ser por causa das guerras destes tempos, mas os motivos são outros.

      Chega mensagem e a resposta vai logo a seguir:

    Q: Na oração 'César promoveu uma época de paz', como classificarias sintaticamente 'de paz'?

      R: Trata-se de um modificador restritivo do nome. 
       A sequência 'uma época de paz' constitui o complemento direto da frase, apresentando este último um grupo nominal cujo núcleo ('época') é assumido por um nome que não seleciona complementos. Nesta medida, e independentemente de 'de paz' ter ou não de ser configurado na oração, é esse nome nuclear que determina a seleção ou não de argumentos acompanhantes, não sendo, portanto, ele um dos casos a considerar.


    Daí, internamente, o complemento direto apresentar um modificador que introduz propriedades adicionais na denotaçao de 'uma época', mas não um complemento implicado na estrutura argumental de 'época'.

      Diz o ditado, 'A César o que é de César'. A frase é sobre ele, mas a dúvida e a resposta, não. E disto não se faça mais guerra (porque 'de paz' é aquilo de que se precisa cada vez mais).

domingo, 1 de novembro de 2015

Ai, Pessoa! Como nos desafias!

      Começa bem o mês que, no seu final, tem Pessoa bem marcado.

     Nada como principiar com o poeta da Geração de Orpheu. Na sequência do trabalho com um poema, impôs-se a dúvida:

      Q:  Pode tentar classificar-me a oração "Que eu fosse outro" em "Tivesse Quem criou / O mundo desejado / Que eu fosse outro que sou,”Dei um nó.

      R: Os versos pessoanos transcritos (in "Guia-me só a razão") fazem parte de uma composição poética pautada pela constatação ora da consciencialização dos limites e do exercício da racionalidade ora da afirmação do plano da transcendência.


       É na segunda quadra que eles podem ser lidos, numa construção sintática densamente complexa cheia de hipérbatos, de anástrofes e de elipses, Nesta sequência, interessa, pois, reconstruir a ordem típica das palavras e explicitar a lógica discursiva associada ao pensamento transmitido. Ter-se-ia, então, na ordem padronizada, a frase 'Quem criou o mundo ter-me-ia criado outro, (se) tivesse desejado que eu fosse outro (diferente do) que sou'. 
       "Que eu fosse outro", na reconstrução feita, corresponde a uma oração subordinada substantiva completiva (a funcionar como complemento direto, introduzido pela conjunção completiva ou integrante 'que'), relativamente ao verbo 'desejar' configurado no pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo ("tivesse... / ... desejado").

      No meio de tanta subordinação sucessiva (para a subordinante 'ter-me-ia criado outro'), há todo um processamento retórico e lógico-discursivo a complexificar a classificação de uma pequena palavra ("que") colocada no meio de um mar de complicações. Espero ter ajudado a desatar o nó.

sábado, 31 de outubro de 2015

Halloween is back!

     É em inglês que se anuncia o apontamento, ou não fosse a festividade dominantemente das culturas de língua inglesa.

Ryan Conners, com Cesar Perez Mgal 
(Dark and fantastic arts)
   "Trick or treat!", "Chill the blood", "Best witches", "Just say Boooo" ou "To put a spell on you" são algumas das expressões que se ouvem no dia (ou melhor, na noite), para além do cruzamento com abóboras alaranjadas de bocas dentadas, mortos-vivos de olhos esbugalhados e faces pálidas escorridas de sangue, bruxas de chapéu alto e pontiagudo, seres decepados ou remendados, coxos e de negro vestido.
    Entre o diabólico e o fantasmagórico, assim se cumpre a festividade outrora sem relação com bruxas. Tratava-se de uma tradição do calendário celta irlandês: o festival de Samhain, a marcar o fim do verão e a dar culto aos mortos e à deusa YuuByeol (símbolo antigo da perfeição celta). Para os celtas, o lugar dos mortos era um lugar de respeito, honra, felicidade e perfeição, sem fome nem dor. Esta festa era presidida pelos sacerdotes druidas, intermediários entre os vivos e os antepassados mortos - uma aproximação, portanto, ao dia que hodiernamente principia novembro (o de Todos os Santos).
    Na tradução para o inglês, a noite que antecedia a homenagem a Todos os Santos era designada All Hallow’s Eve, passando diacronicamente pelas formas evolutivas All Hallowed Eve e "All Hallow Een". Daí a palavra contemporânea "Halloween".
     Atualmente, em Portugal, mais para o concelho de Vinhais (em Cidões), ainda se celebra a prática celta da Cabra e do Canhoto ("Quem da cabra comer e no canhoto se aquecer um ano de sorte vai ter" - diga-se, o novo ano celta, que começava pouco após a festividade), com um druida a preparar a poção (uma aguardente) e a população a queimar um bode num largo tronco velho de árvore (destruir o mal, representado pelo animal). 
Cartaz alusivo à comemoração nacional
da "Cabra e do Canhoto"

   Quem disto (do que é nacional) sabe? Poucos. Já do Halloween quase ninguém escapa. Globalizações!

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Estou no Paraíso! (Quem diria...)

     Não, não se trata deste mundo! É mesmo virtual.

    Com tanta azáfama e com um acentuado mal-estar decorrente de contínuo cansaço, é bom saber que ainda há quem nos liberte do inferno do dia-a-dia. É o que acontece quando nos colocam no "Paraíso", e com os votos de boas vindas.
    Vem isto a propósito de um apontamento num blogue que cita a Carruagem 23, acerca da formação de palavras:

Excerto do apontamento no blogue Bem-Vindo ao Paraíso
(https://isauraafonseca.wordpress.com/2015/10/24/formacao-de-palavras/#comments)

      Mais uma rede de relações virtuais. Também com algumas virtudes.

      Ou não estejamos nós no Paraíso.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

"Primeiro estranha-se..."

     Lembrando o publicitário, para não esquecer o poeta.

Poster gráfico de Fábio Castro com o slogan pessoano
e a caricatura do poeta feita por Almada Negreiros
    Fernando Pessoa, trabalhador da agência publicitária 'Hora' pelo ano de 1927, produziu um slogan para a empresa Coca-Cola, que pretendia introduzir a famigerada bebida em Portugal. 
   “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” foi objeto de censura, uma vez que ou induzia ao consumo de um produto com elementos de coca (estupefaciente) ou, então, resultava numa publicidade enganosa (isto no caso de o primeiro argumento não ser válido). Assim o justificou o diretor de Saúde de Lisboa de então (Dr. Ricardo Jorge).
   Mais por razões políticas do que sanitárias, a Coca-Cola acabaria por não entrar em Portugal, não tendo a frase publicitária pessoana saído do papel. Foi só cerca de cinquenta anos mais tarde que a baixa lisboeta assistiu à venda do produto numa garrafa de vidro de 0,2 litros, por mais que o mercado português tivesse bastante conhecimento da bebida - ora por já ser vendida em Espanha desde a década de 50 ora por já ser familiar nas então colónias portuguesas de Moçambique e Angola (por via da influência comercial da África do Sul).

     Deste modo, o inicial xarope concebido por John S. Pemberton se cruza com Pessoa - a ponte é a publicidade, que muitos contributos recebeu de vários escritores.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Uma questão de cápsulas... nem sempre pequenas

      De tão comum que é o termo, a história (da língua) dá-lhe uma outra visão.

      Alguém coloca uma dúvida que diz ser existencial. Seja! A bem da existência (duvido, logo existo).

     Q: Dúvida existencial: podemos considerar cápsula como um exemplo de extensão semântica, uma vez que o seu significado se expandiu em relação ao étimo latino?

Sistematização in CARDOSO, Ana et al. (2011: 25) - Com Textos 11, Porto, Asa
  R: Enquanto processo irregular de formação de palavras tratado no âmbito da lexicologia, entende-se por extensão semân-tica a aquisição de um novo significado por parte de uma palavra ou expressão, face a realidades e contextos novos que criam necessidades de designação, referência (e que conduzem ao recurso de termos já existentes na língua).
      Se considerarmos o sentido etimológico de 'cápsula' (termo proveniente do latim, capsula, com o significado de 'pequena caixa'), houve já extensão semântica quando se passou a designar desse modo o formato do glóbulo gelatinoso ingerível que encerra um medicamento (para um domínio mais específico); o invólucro metálico que cobre a parte cimeira do gargalo de uma garrafa (para um objeto chamado de tampa, carica - ou chapinha, para os brasileiros -, que nada se parece com caixa); a parte principal tripulada de uma aeronave (que, por mais caixa que pareça, para ser tripulada, deve ser algo bem maior do que 'pequena').
      Ainda há pouco tempo (cerca de três anos) foi noticiada a iniciativa de afundar memórias do Porto em alto mar, para serem desvendadas em 2112. Assim se depositaram livros, fotos, joias, brinquedos, poemas, garrafas de vinho, utilitários dos nossos dias e de outros já passados, dentes, cabelos e outras coisas mais no que se chamou uma cápsula do tempo. Também esta era enorme e lá está no reino de Neptuno à espera do próximo século.

      Não falei ainda das cápsulas de detergente da louça ou da roupa (que dão muito jeito), nem das de café (que tanto aprecio). Muito menos dos vasos arredondados dos laboratórios de química. É tanta a extensão semântica quanto o plasma (matéria física moldável) ser também líquido onde se encontram os glóbulos do sangue e da linfa ou um ecrã de aparelho televisivo "fino".

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Não é ordinário... é extra

     De novo a formação de palavras, com um caso extraordinário.

     O pedido surgiu pela manhã, em mensagem de telemóvel:

     Q: "Extraordinário. Formação de palavras? Por favor."

    E a resposta seguiu, na consciência de que é preciso considerar e preparar bem os exemplos, conforme já foi apontado neste blogue.
Reprodução de uma página do 
Dicionário Houaïss de Língua Portuguesa
      R: A palavra 'extraordinário' aparece na língua portuguesa pelo século XV, vinda já formada do latim, conforme o prova uma consulta de um dicionário etimológico ou com informação morfológica e etimológica. O Houaïss é um exemplo. Lá está a indicação de que a palavra vem de 'extraordinarĭus'. Trata-se, portanto, de uma palavra base que registou apenas alguns processos de evolução fonética, à semelhança de outros casos (como 'impossibilidade', por exemplo).
   Naturalmente que a consciência sincrónica dos falantes permitirá segmentar a palavra em duas partes (extra + ordinário); todavia, só os contributos especializados da etimologia e da história da língua permitirão ver 'extra' como um prefixo de origem latina (tal como Lindley Cintra e Celso Cunha o apontam na sua Nova Gramática do Português Contemporâneo [Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 87]) e entender que foi no idioma do Lácio que houve derivação por prefixação. No português, não foi assim.

       Mais um caso em que nem tudo o que parece é. Mais um caso em que não seria desejável trabalhar exemplo tão crítico, quando há outros bem mais pacíficos na sua regularidade morfológica. Mais um caso que não deveria surgir num manual escolar (e certificado)!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Grande centro... na periferia da correção da língua.

     Digamos que no aproveitar não está o ganho.

   Partilho o registo de uma amiga no Facebook, bem revelador da falta de qualidade de escrita de alguém que parece aconselhar um centro de estudo e de explicações.
     Eis a imagem publicitária e repare-se bem na palavra que o antecede:


     Espero que não tenha sido ninguém do "Arquivo" a escrever tal coisa.
    Se, por acaso, é uma questão de aproveitar, não há proveito possível na grafia proposta (que devia dar lugar a 'aproveite', dirigido que está a um 'você' e não a um 'tu'); se for de aprovar, pelos vistos há já quem já trate o cliente por 'tu' e faça aprovações fora da instituição devida.

     Espero que não seja um caso para concluir que este "Arquivo" já devia ser um 'arquivo morto'.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Que me dizes...? Eu digo-te...

    A pergunta é de outrem; a resposta é minha. Um caso de interação sobre formação de palavras.

    A interação começa assim:

  Q: Que me dizes de 'apadrinhamento' e 'apodre-cimento' serem exemplos de derivação por parassíntese?

    Impõe-se a resposta, com o mesmo tuteamento de partida:

     R: Eu digo-te que não são bons exemplos, pois claro, a par de outros já aqui abordados. Fosse a resposta 'apadrinhar' e 'apodrecer' e nada teria a dizer, por se tratarem de verbos formados a partir de nome (no caso, 'padrinho') ou de adjetivo (no caso, 'podre'). Estes, sim, são os casos prototípicos da parassíntese.
  "Apadrinhamento" e "apodrecimento" são casos de derivação (sucessiva e) por sufixação. O problema é sempre o de não se ver que a base 'apadrinhar', já de si complexa, é a derivante para 'apadrinhamento' (com o acrescento do sufixo [mento]), o mesmo sucedendo com 'apodrecer' > 'apodrecimento'. Assim o ditam os elementos morfológicos sublinhados, sufixos acrescentados a uma base já por si derivada.

      Concluo a interação com a convicção de que, nas palavras, a formação destas não deixa de ser uma complicação, também por causa da má exemplificação de alguns manuais escolares (que se dizem certificados - falta saber em quê! por quem? -, para um público mais comum, comprador... enfim!).

domingo, 11 de outubro de 2015

Tenho falado delas...

      ... das redundâncias que nem sempre evitamos.

     É certo que algumas são mais redundantes do que outras (o "subir para cima" ou o "descer para baixo" são exemplos clássicos do designado pleonasmo), e há casos cujo contexto até motiva bem o uso delas.
     Numa listagem que circula pelo Facebook, podem ser encontradas algumas delas:



      Falar ou escrever sobre o tempo passado  ("há X tempo") não necessita, efetivamente, do termo "atrás" - pois o tempo pretérito está mesmo localizado para trás e não para a frente da coordenada temporal do falante. Contudo, todos percebemos que há olhos que também sorriem (no brilho que transmitem, enquanto outros se mantêm baços). Daí que o "sorriso nos lábios" não seja tão sincero ou completo como quando os olhos o deixam ler (ou não sejam eles a janela da alma). Além disso, perante detalhes ou pormenores demasiado gerais ou genéricos até pode ser considerada a existência de outros de grau mais específico e/ou minucioso. E, na qualidade ou quantidade dos envolvidos, até pode haver consenso mais geral do que unânime ou mesmo um convívio junto, para distinguir dos encontros chamados convívios que se ficam pela formalidade ou obrigatoriedade e nem sempre se pautam pela união ou identidade desejadas.
     Enfim... a redundância é propriedade comunicativa natural nalgumas línguas e, no caso do Português, para lá de uma dimensão gramatical redundante que muitas vezes se impõe (por questões de coesão sintática, por exemplo), há realizações intencional e pragmaticamente marcadas / motivadas na constituição ou construção de expressões que já se tomam como fixas (pelo significado associado). Isto para não mencionar efeitos literários decorrentes do seu uso.

     Ser redundante nem sempre é vicioso ou excessivo. Pode ser um diferencial qualitativo de reconhecido mérito.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Toca a andar. Não para!!!!!!

       Pergunta-me um aluno por que motivo "para" deixou de ter acento.

       Não! Não é o "para" preposição ou conjunção (que nunca teve acento gráfico).
   É o verbo "parar" mesmo, na sua forma conjugada do presente do indicativo (terceira pessoa do singular) ou na do imperativo (segunda pessoa do singular). Para não se confundir com as configurações anteriores, antes tinha acento gráfico; com o Acordo Ortográfico (AO), deixa de o ter. Diz-se que, pelo contexto, serão feitas as devidas distinções. Mesmo assim, em termos de processamento de leitura, não será uma questão tão pacífica - conforme já o indiquei em apontamento anterior -, por concorrer com outras palavras graficamente afins.
   Uma razão na base do desaparecimento do acento está associada ao facto de "para" ser uma palavra grave. Tipicamente, tais palavras não são graficamente acentuadas na língua portuguesa, pois partilham com ela a propriedade fónica de base (a tonicidade grave).
     E, se mais não houvesse, uma razão maior (?!) assiste a toda a mudança: a decisão política para um normativo que alguém disse ser importante para a projeção internacional da língua, para a economia de meios e para a estabilização do relevo que o idioma tem já no mundo.

     Entre o ser e o dizer, a distância é grande. Assim, mais vale ficar pelo motivo linguístico mais consistente (porque as razões políticas são, no mínimo, mais do que dúbias).
        

domingo, 4 de outubro de 2015

Sem cor..., mas sem ser nêspera

      A propósito de uma pequena narrativa de Mário-Henrique Leiria, com tanto de atualidade e num dia que se quer sem nêsperas (ou magnórios, num registo mais nortenho).

      Hoje é dia de grande decisão para os próximos tempos (que se anunciam algo conturbados).
     Bom seria que todos contribuíssem para o melhor do país, saindo da comodidade que os faz ficar em casa, protegidos do mau tempo que hoje se vai fazendo sentir. A abstenção é "um partido" cuja participação favorece a percentagem de um vencedor que, eventualmente, não interessa ver governar.
      Não vá o diabo tecê-las e ainda aparece uma Velha...

A NÊSPERA

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

                                Mário-Henrique Leiria,
                               in Novos Contos do Gin (1974)

       Porque não quero a Velha (do tempo mal passado), não vou fazer de nêspera: nem fico deitado nem calado, "a esperar o que acontece". Para ficar de consciência tranquila, vou votar, na convicção de que não o farei em quem me roubou nos últimos anos nem em quem, antes, (também) tinha deixado o país na pior das condições (legitimando que os que se seguiram aplicassem uma austeridade cega, com vantagens mais do que duvidosas para o comum dos cidadãos). Posso andar sem cor política, porque as certezas que tinha neste campo tornaram-se desilusões. Voto sem ilusão e sem cor, mas com o inconformismo que o olhar matreiro e a voz de Mário Viegas trouxeram à escrita do texto de um outro Mário.

      Depois de tanta sondagem e tanto discurso inconsistente ao longo dos últimos tempos, era bom que o final deste dia desse em árvore de fruto feita de verdadeira alternativa e com a cor da esperança (tão arredada da maioria dos que trabalham séria, honrada e responsavelmente neste país, contando os parcos euros que não chegam para as contas do mês, enquanto outros se lambuzam com os milhões que não deviam ter nas mãos).

sábado, 26 de setembro de 2015

Não me peçam...

    Até podia citar o poema de Saramago "Não me peçam razões, que não as tenho"; e, na verdade, não as tenho mesmo.

    A razão do pedido 'Não me peçam...' é forte, por haver razões que a própria razão desconhece. Muito longe da qualidade linguística desejável, deparo com um cartaz arrasador, na cor e no erro:


   É de louvar o agradecimento, mas não me peçam para ser compreenSivo, quando não é compreenSível não saber escrever 'compreenSão'. Bastaria pensar nas palavras destacadas, e noutras da mesma família (compreenSibilidade, compreenSiva, compreenSivamente), que o erro ficaria resolvido. Um só 'S' faz a virtude, a correção. O que está a mais resulta em excesso (este, sim, com duplo grafema).

     Há momentos em que sou definitivamente dominado pela incompreenSão.