quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Perdendo a paciência!

   Está um homem a tentar esquecer o trabalho e há quem o lembre sistematicamente!

   Tudo começa com o visionamento da quarta temporada de Vikings (2013) - série criada por Michael Hirst -, demasiado boa para ter legendas como a que se segue:

Captura de imagem do episódio 5 da quarta temporada da série irlando-canandense.

      É que não há paciência! Tão bom, tão bom, tão bom..., mas tinha de escapar à correção da língua. Escapou e da pior forma!
     É clássica a homofonia do nome 'voz' com o pronome 'vós'; porém, daí à confusão e ao erro ainda vai uma distância significativa - até ao momento em que os meus olhos leem o que não deviam, por a equipa de legendagem, tradução e revisão (AsapSubs) ter no seu seio alguém que não domina regras ortográficas ou de distintividade lexical.

     Intrigas políticas, psicológicas, para além de barbaridades à língua, na quarta temporada de Vikings (especificamente no episódio cinco, na tradução das palavras do filho do grande líder Ragnar - Björn Ironside -, quando fala com o chefe Harald Fairhair). O rapaz não merecia tamanha vergonha!

sábado, 10 de setembro de 2016

Memória na cidade e na obra

       A morte de um artista. E a expressão não é irónica. É factual.

   Hoje fala-se da morte do escultor José Rodrigues. Para muitos desconhecido. No Porto, é reconhecido, entre outras obras, pelo 'Cubo da Ribeira' (da década de 70 do século passado); pela estátua ao General Humberto Delgado, na Praça Carlos Alberto (2008); pela lápide de homenagem ao Duque da Ribeira (1995); pela pantera negra junto ao estádio do Bessa, do Boavista Futebol Clube (2000-2001) e pelo 'Monumento ao Empresário' (dos anos 90), que se vê ao subir ou descer a Avenida da Boavista;

Montagem com imagens de algumas das obras do artista na cidade invicta

        De origem africana (nascido em Luanda, no ano de 1936), este artista plástico português foi membro do chamado grupo "Quatro vintes", numa referência direta seja à classificação obtida nos estudos artísticos da Escola Superior de Belas-Artes do Porto seja a uma marca de tabaco designada como "Três Vintes". Foi na capital nortenha que concluiu o curso de Escultura, mas a sua arte ganhou expressão em diferentes áreas (como a cenografia em companhias dramáticas portuenses e não só; a ilustração de livros; a cerâmica e a medalhística) e em múltiplas iniciativas culturais e educativas (por exemplo, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore no Porto, em 1963, e um dos promotores da Bienal de Vila Nova de Cerveira).

     Pelo seu empenho socialmente interventivo, pela qualidade da obra que deixou, pelo sentido oficinal e coletivo que atribuiu à sua arte antes de atingir os oitenta anos, o "mestre Zé" viajou para esse mundo sem espaço nem tempo, dedicado e feito de memórias.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Findou!

     Do verbo 'findar' (e não do nome 'fim'), porque há recursividade e etapas sucessivas na formação de palavras.

  Terminou um ciclo de 15 horas de formação - ou, como alguém disse, de super, hiper, mega-formação (veja-se a sucessão de dois prefixos na deri-vação por prefixação - 'super' e 'hiper' - acrescentada a uma palavra composta, com um radical erudito - 'megafor-mação').
     Foram vários os tópicos de aborda-gem, centrados na morfologia e na procura de uma referência de trabalho comum. Entre o que se entende presentemente por este domínio da linguística numa perspetiva sincrónica, a noção dos constituintes morfológicos, as questões de morfologia flexional e derivacional, a formação de palavras (não só nas suas regularidades como também nos outros processos ditos assistemáticos e, ainda assim, produtivos), não deixou de estar presente o objetivo da reflexão das práticas, do discurso pedagógico-didático e dos focos críticos a ativar (de modo fundamentado) quando se lida com discursos e/ou materiais que muitas vezes não auxiliam na sistematização de dados (por mais que, às vezes, assim se pretenda). Houve ainda tempo para exemplificar estratégias, exercícios orientados para o que se considera bons exemplos ou uma mais-valia neste tipo de trabalho, visando a interestruturação do saber, o conhecimento explícito e o uso de uma metalinguagem própria - à semelhança de muitas outras disciplinas.
     Quando se trabalha com um grupo interessado e que contribui com achegas pertinentes, tudo fica mais fácil para a compreensão e conhecimento de todos. Além disso, não se pode deixar de registar os sorrisos visíveis na cara dos que começavam a aplicar as estratégias e a verificar (em exercícios práticos) como tudo ganhava mais sentido, depois dos fundamentos teóricos propostos. Mesmo reconhecendo a necessidade de tempo para trabalhar o pouco que foi mencionado (sim, porque quinze horas não são um programa de morfologia que ainda teria muito para dizer), o facto é que qualquer transposição didática que aconteça / se construa requer o que este intervalo de tempo permitiu, nomeadamente, a perspetivação crítica que deve enformar opções ao nível da gestão / planificação dos programas; da seleção de estratégias e de materiais; da planificação a construir; da adoção de discursos mais consentâneos com aprendizagens mais estruturadas e estruturantes, a partir de um ensino (assente num conhecimento) mais fundamentado. Estas serão sempre as implicações pedagógicas mais coerentes com a prática docente.
     O tempo trará, por certo, mais confiança, mais formas e partilhas de experiências, para não dizer novos desafios a tudo o que foi discutido / abordado. Assim se fará a (re)construção do conhecimento, na base de referenciais que regulam as práticas docentes.
      Fica a satisfação da reação positiva revelada, não obstante a sobrecarga e as condições de trabalho no final de um ano letivo, sempre entre o desejo das férias que nunca mais chegam e a constatação do muito que ainda há a fazer até lá.

    Depois disto tudo, e ao contrário do que certo treinador de futebol dizia (numa consciência morfológica muito discutível sobre quem 'treina a dor'), só espero que não tenha, como formador, contribuído para formar a dor de quem tenha tido expectativas outras, distintas do que foi proposto. 
  

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um universal que não chega a ser

    É como na vida: há quem tudo queira e nada pode.

    Agora até nas compras nada é seguro (como se alguma vez tivesse sido), a julgar pela publicidade seguinte e os quantificadores nela utilizados:

Registo colhido dos apontamentos que circulam no Facebook

        Se qualquer peça tem o valor indicado, é incoerente dizer 'exceto algumas' (para as que o não tenham). 
    Perante o quantificador universal 'qualquer' à esquerda (remetendo para a ideia de totalidade de um conjunto, como em 'toda e qualquer peça') não há exceção a considerar. Por isso, na indicação à direita, o quantificador existencial no grupo nominal 'algumas peças' assere a existência da entidade designada ('peças'), mas contradiz a universalidade anterior.

     Eu nem entrava na loja. Ou é (todas) ou não é (só algumas). Vá lá perceber-se isto! Ao menos serve para trabalhar a (in)coerência dos discursos, assente em classes de palavras. 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Partilhas...

     Na sequência da sessão de formação de hoje, uma colega fez-me chegar um vídeo (que agradeço, pelo momento e pela boa disposição criada).

    Claro que estas coisas, por mais cómicas que sejam, podem tornar-se sérias - nomeadamente quando são tão publicitadas e divulgadas, a ponto de serem imitadas por muitos falantes.
     Vejamos: um empresário quer cantar uma música gospel, gravar um disco e sai uma frase muito 'sui generis'. Ei-la:

Vídeo recolhido do Youtube - com agradecimento, pela lembrança, à DB.

     O atropelo fonético é mais do que audível e a consciência morfológica é muito reduzida, se não for comprometida. Não é, por certo, nenhuma realização normalizada ou padronizada; mas, a verdade, é que estas produções singulares não deixam de introduzir fatores de instabilidade que podem traduzir-se em fenómenos evolutivos. Espero que daqui a uns séculos não se esteja a dizer / escrever 'árveres', 'árbiris' ou 'árberes', nem 'nozis' em qualquer das variedades do português, de tão popular que a produção se tornou.
      Veio isto a propósito de quê? Da perda da consciência morfo(fono)lógica de alguns termos, como 'dióspiro' (que já ninguém praticamente diz de modo correto, nem assim escreve), bem como de fenómenos morfológicos típicos de algumas regiões ou variedades do português que muitos desconhecem. Não sendo realizações-padrão hoje (tal como o gerúndio flexionado - que problematiza a classificação de forma verbal não finita), quem sabe o que estas poderão vir a ser nos próximos séculos. À maneira de Probo, quero registar 'árvores' não ''árbis'; 'nós' não 'nozis'.

      Discussões que surgem de dúvidas, questões, esclarecimentos que vão surgindo nas horas que se vão dedicando à formação - sobre morfologia (mas com 'cãibras' na língua, 'fuga' da palavra ou  quando 'tá enrolando tudo'). Calma! Devagarinho!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Pandemos!

     Assim começou a sessão de formação de hoje: Pandemos!

    Sem o significado, o grupo não sabia o que dizer. Ainda houve quem avançasse com a ideia de "pândega" - a necessidade de diversão, festa é muita nestes tempos em que, cada vez mais, nos mandam trabalhar. Dei-lhes o texto,... o contexto e, mesmo assim, a questão não se tornou fácil. 
   A necessidade do significado, por vezes, é ditatorial; ainda assim, os experimentalismos de Jorge de Sena desafiam-na, a ponto de termos a oportunidade de trabalhar a consciência morfológica dos falantes - até porque esta surge, por norma, quando se desconhece uma palavra; se pretende formar uma nova; se processa um trabalho de análise crítica e corretiva (a ponto de constituir uma tipologia de erros morfológicos).
     Lido o poema seniano (e agora digam que a palavra não existe!), lá fomos à construção do que estava em falta, pela "janela" da morfologia.
   Ter encontrado formas como "baissai", "refucarai" e "contumai" (primeiro terceto), ou, ainda "lambidonai" (segundo terceto), por mais desconhecidas que também sejam, convocou a funcionalidade do convite, da sugestão dirigida a uma segunda pessoa. Não se soube muito bem para quê, é certo, mas lá que várias coisas eram propostas não havia dúvida. O "Pandemos" era só mais uma, desta feita para uma primeira pessoa (do plural). E, assim, todos entramos na estratégia da descodificação do termo.
      A consciência morfológica foi ativada, no reconhecimento de formas verbais flexionadas, a ponto de se chegar ao verbo 'pandar' (com o radical 'pand-', a vogal temática '-a-' e o afixo de infinitivo '-r'). Em 'pandemos', era visível a flexão do conjuntivo, no afixo '-e-', e a da amálgama pessoa-número, em '-mos' (ainda que com o valor típico das frases de tipo imperativo ou dos atos de fala diretivos).

     Outras janelas, por certo, seriam precisas para se atingir a projeção máxima do significado e do sentido. Todavia, desta feita, "pandemos" valeu pelo que nos fez pensar, recorrendo ao processo de segmentação e análise morfológica.
      

terça-feira, 12 de julho de 2016

Morfologizemos...

       Pode não estar no dicionário, mas é verbo potencial tornado atual.

     Na verdade, conheço um grupo que já está a 'morfologizar' comigo, na sequência de uma ação de formação que está a ser dinamizada no Centro de Formação Aurélio da Paz dos Reis, mais propriamente na sede do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (Espinho).
     Quinze horas para abordar vários aspetos da Morfologia na sua articulação com o ensino da gramática, a prática e o discurso pedagógicos, mais a reflexão sobre áreas críticas na abordagem de um domínio que, não sendo novo, tem muitas novidades (desde os estudos que enformaram a construção da Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário - TLEBS - ou o Dicionário Terminológico - DT).
       Eis o programa:

(Clicar na imagem para a ver ampliada)

       Hoje foi o primeiro dia - não do resto das nossas vidas (espero!) - para a partilha e um trabalho que marca necessariamente a identidade profissional de docentes empenhados na (re)construção do seu saber para saber fazer / ensinar na área específica do seu exercício profissional.

    Reciclar, formar, aprender, partilhar, discutir, trabalhar... muito verbo implicado em 'morfologizar'.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

"Já avisei a família que só vou dia 11 para Portugal"

      A frase podia ter vários sentidos, mas há quem já a considere profética.

     Assim falava o treinador de futebol da seleção de Portugal, Fernando Santos, que, pouco tempo depois de chegar a França para o Campeonato Europeu de Futebol, podia simplesmente referir-se ao facto de, independentemente do resultado da equipa portuguesa, ficar em Paris para assistir ao jogo final. Hoje, com Portugal como campeão europeu, diz-se que o enunciado foi profético.
     A verdade é que, no final de uma sequência de empates iniciada frente à Áustria (15 de Junho), não se antevia aquela que se se diz ter sido uma convicção premonitória do treinador / selecionador para o Euro2016. O facto é este: com ou sem sorte, com ou sem acaso, a certeza das coisas é a de hoje se celebrar o regresso dos campeões europeus de futebol ao país, com o primeiro dos títulos de topo internacional da seleção nacional (há quem popularmente diga "com o caneco", em vez da taça). Recebidos como heróis, com cânticos do hino ou da "minha alegre casinha" (na versão dos Xutos & Pontapés), jogadores e equipa técnica são saudados com o maior dos orgulhos e condecorados com o título de "comendador".
    O fim de semana foi pródigo em sucessos desportivos: José Ramalho venceu a prova de K1 em Pontevedra (Espanha) sábado passado; Sara Moreira sagrou-se campeã da Europa na meia-maratona das provas de atletismo de Amesterdão, o mesmo acontecendo com Patrícia Mamona no triplo salto; Portugal vence coletivamente a prova da Taça da Europa feminina em aletismo. Nem por sombras foram projetados como os futebolistas - evidência daquele que se diz ser o "desporto rei".
    Por todos, há quem diga que se cumpriu Portugal, evocando a alterando "O Infante" de Mensagem (Fernando Pessoa):

"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. 
Quem te sagrou criou-te português. 
Do mar e nós em ti nos deu sinal. 
Cumpriu-se o mar e o Império se REFEZ
Senhor, CUMPRIU-SE Portugal!"

    Pelo evento futebolístico, relembro as palavras camonianas que fecham a dedicatória de Os Lusíadas

"Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses." 

                                          
(canto X, estância 152)


      Proféticas ou não, as palavras ditas cumpriram-se neste dia, que também valeu pelo momento vivido ontem. Desde então, os Galos ficaram com um valente galo, já que o nosso galo de Barcelos deu um ar da sua graça. Aos restantes vencedores nacionais, saiba-se que não foram menores para o orgulho nacional.

domingo, 10 de julho de 2016

História(s) que se repete(m)

     No final do filme, o desconcerto... porque há lutas que parecem inglórias.

    Tudo a propósito de "Estado Livre de Jones", película realizada por Gary Ross e protagonizada por Matthew McConaughey (no papel de Newt Knight).
    O contexto da intriga fílmica é o da guerra civil americana (tão larga e cinefilamente retratada nos últimos tempos), ainda que, com as devidas diferenças, não pareça andar muito longe dos dias de hoje. 

Trailer legendado de "Estado Livre de Jones" (2016)

    Newt Knight surge como uma espécie de Zé do Telhado americano, um "cavaleiro" numa luta épica, digna, humana e socialmente dignificante, enquanto agricultor pobre do Mississipi que deserta do exército dos confederados (por uma causa humanizadora e desafiadora de lideranças hipócritas), encabeça um movimento revolucionário apoiado por pequenos proprietários e escravos do sul, culminando na separação do condado de Jones dos restantes territórios confederados. Daí o título.
    As conquistas conseguidas (um amor liberto de condicionalismos sociais, de cores ou raças; uma sociedade de homens plural e interracial, empenhada no trabalho da terra e em recolher desta o que nela é semeado; uma comunidade de iguais, de partilha sem ricos a tornar os outros cada vez mais pobres; um conjunto de leis ou emendas inspiradoras e simples para a sobrevivência humana) refletem uma utopia a todo o tempo em construção e ameaçada, numa espécie de encruzilhada de dilemas, de poderes e de homens interessados em fazer reverter todo um processo / percurso, que teima regressar ao ponto de partida.
   Intercalando momentos da narrativa nuclear (relativos ao período 1862-76) com os do julgamento de um descendente de Knight no estado do Mississippi (referentes a meados do século XX), abordam-se temas tão estruturantes como o das forças bélicas e dos interesses / traições a elas associados, do regime de escravatura e da libertação racial, dos conflitos originais das ideologias de republicanos e democratas, da manipulação de resultados eleitorais em função de lógicas de poder, da impotência humana relativamente ao rumo a dar aos ideais que mais devem orientar e preservar a (sobre)vivência.
     Inspirado numa situação histórica documentada, o enredo é a prova de que se mudam os tempos, mas mantêm-se algumas vontades e algumas questões críticas - apesar de configurações distintas -, num jogo em que "the free" e "the unfree" parecem ser duas faces para uma mesma moeda.

    Nestes tempos pré-eleitorais americanos, com republicanos a deixarem-se representar por um candidato tão grotescamente prepotente, há certamente um desafio democrata a considerar (um pouco ao contrário do que a história rezou para os tempos da guerra civil e da Secessão), sob pena de também se retroceder na visão mais humana a dar ao mundo.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Oh, pá! (veja-se bem o que está antes do 'pá')

  Logo após a vitória, aparece publicidade por tudo quanto é sítio (nomeadamente o Facebook).

    São tantos os casos de registo encomiástico e apelativo que leio erradamente escritos que a cada leitura só me apetece dizer (mesmo que apenas no pensamento!) "Irra!" ou "Bolas!" (já que de bola foi o jogo).
      Basta ver o amarelinho que acrescentei a todos os 'post'.
      Aí vai o primeiro:

A Rádio Comercial e o apontamento no Facebook
(Falta de vírgula - I)

       Segue-se o segundo:

   A página da Seleção Futebol no Facebook  (in https://www.facebook.com/selecaoptfutebol/)
(Falta de vírgula - II)

     E cá vai mais um (porque dizem que "Não há duas sem três"), porque no meio do registo amarelito  cimeiro um outro amarelo tem de aparecer:

O Semanário Sol e o apontamento no Facebook 
(Falta de vírgula - III)

         Não fosse o bastante, lá vem o quarto:

A página da aiamatilde no Facebook  (in https://www.facebook.com/aiaimatilde/photos/)
(Falta de vírgula - IV)

     Custa muito colocar a vírgula do vocativo?!
   É dos poucos casos é que esta é mais do que obrigatória na escrita e, ainda, assim, tantos se esquecem dela.

   Bem digo eu: chamou, virgulou!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit - uma amálgama tornada salgalhada política

    É mesmo 'exit', ainda que seja mais para a Inglaterra (England) e Gales (Wales) do que para o Reino Unido (com a Escócia e a Irlanda do Norte a demarcarem-se).

    O dia acorda com a notícia de que o Reino Unido (mais desmantelado do que unido) se decidiu pelo sim, pela saída da União Europeia, com cerca de 52% dos votos. É a maioria, de facto, para um ainda grande registo de 'nãos' (48%). Mais do que convicção, lê-se desunião.
Cartoon de Ben Garrison, no The Telegraph
     Os representantes das instituições eu-ropeias mostram-se dececionados, pesa-rosos, angustiados com um resultado que parece ser en-tendido mais como traição do que lição. Por mais que a insularidade e o "mais vale só" bri-tânicos sejam dados a considerar no re-sultado deste refe-rendo, é verdade que não é menor o "orgulhosamente nós" com que a "Great Britain" sempre se deu a ver na sua posição eurocética, dividindo para reinar, nessa atitude de realeza muito ligada ainda à herança de uma época imperial (se não anterior) revisitada num modo de estar "snobish" e tipicamente "british". Se os mais moderados ainda buscaram compromissos ou ainda viram nas diferenças uma hipótese de reconstrução daquilo que mais os unia (David Cameron assim o parece ter tentado), o espaço dos extremistas, dos mais radicais e nacionalistas acabou por se impor, vincando o que os separa, pelo desgaste de não se verem significativamente unidos ou representados nos princípios de uma estrutura / instituição que não tem dado respostas às debilidades surgidas a afetar muitos países (a bem de um mercado que não traz ninguém feliz, feito de desemprego, de impostos, de austeridade sem recuperação); que tem desrespeitado orientações e políticas nacionais, sobrepondo as estas últimas uma ideologia e um conjunto de interesses que trucidam a sobrevivência dos mais desfavorecidos e de todos aqueles que se mostram crescente e socialmente desesperançados.
    A par de tudo isto, e não menos relevante, estão os discursos, as tomadas de decisão e a visão centralizadora de uma União Europeia que tem vindo a produzir publicamente mais dissensos do que consensos, em nada ajudando no caminho a fazer a vinte e oito - a partir de hoje vinte sete. Entre burocratas e tecnocratas mais preocupados com o universo financeiro do que com a dimensão humana (culturalmente rica, diversa e solidariamente comprometida), a realidade hoje vivida não deixa de ser uma reação e uma posição expectáveis, para não dizer ameaçadoramente alastráveis.
    Entre os muitos cenários que se antecipam (desvalorização da libra, desintegração do Reino Unido, independência da Escócia, integração da Irlanda do Norte na república do 'Eire', entre outros), fosse esta a oportunidade de a Europa se rever na sua união, no seu projeto, no foco a dar à dimensão humanista e humanizadora dos princípios que presidiram à sua constituição. A não ser assim, uma ideia e um projeto europeu caem definitivamente.

      Se "o que não nos mata nos torna mais fortes" é o pensamento orientador do presidente do conselho europeu, Donald Tusk, só espero que a força e a determinação europeias não criem situações análogas à hoje vivida. A Europa, acima de tudo, faz-se com as pessoas que querem ver respeitada a sua identidade cultural, social, de soberania nacional, numa representação que não se veja invadida por jogos e interesses e iniquidades só a privilegiar ou a desculpabilizar os "maiores" - e entre estes há sempre um ou outro que gosta de se mostrar "superior" e que até pode desafiar qualquer "suprema" instituição (quanto mais não seja por ser uma das maiores economias europeias e/ou do mundo).

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Um poema para a "Noite de S. João"

     Na passagem da noite para o dia, a festa anuncia-se. É "Noite de S. João".

    Festa para alguns, uma noite igual às restantes para outros, um encontro com os versos do poeta para mim.
     Caeiro assim viu a festividade hoje celebrada:

      Noite de S. João

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos

Cópia de festa junina, quadro do artista plástico Assis Costa
    Há noite de S. João para lá da minha varanda, unindo pessoas de classes muito diferenciadas. Do lado de cá, há umas sardinhas que fazem lembrar uma noite diferente, porque não como sardinhas em todas elas. Não salto a fogueira, não levo com os martelinhos nem o alho-porro, não afago o manjerico para cheirar a palma da mão. Vejo a noite iluminada, um ou outro balão afogueado no ar e o barulho das pessoas excitadas com a festa, para lá da minha varanda.

    Amanhã é dia de S. João. Feriado no distrito do Porto. Antes assim.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Lá vem a época estival

      Falo do verão, ora pois então.

     Começa hoje o estio (não o estilo nem a primavera). Tempo de verão ("summertime"), para um dia soalheiro e quente conforme à estação. Pena que não esteja em férias, não!
    Deixo, então, aqui uma canção: em melodia e com alegria fica mais suportável saber que há exames à espera de correção. Com Diana Krall, o verão fica "So Nice", em estilo jazz!

Do álbum "Quiet Nights" (2009), "So Nice" - uma versão do "Samba de Verão"

     "SO NICE"

Someone to hold me tight
That would be very nice
Someone to love me right
That would be very nice
Someone to understand each little dream in me
Someone to take my hand and be a team with me
So nice life would be so nice
If some day I find
Someone who would take my hand and samba through life with me

Someone to cling to me stay with me right or wrong
Someone to sing to me some little samba song
Someone to take my heart and give his heart to me
Someone who's ready to give love a start with me
Oh yes that would be so nice, nice
Should it be you and me
I could see it would be nice


      E depois disto, nada como o brasileiríssimo tema de Marcos Valle (1964), no registo de bossa nova e na voz de Caetano Veloso. É o "Samba de Verão" em português.

Caetano Veloso, em registo de bossa nova para "Samba de Verão"

     SAMBA DE VERÃO

Você viu só que amor
Nunca vi coisa assim
E passou, nem parou
Mas olhou só pra mim
Se voltar, vou atrás
Vou pedir, vou falar
Vou dizer que o amor
Foi feitinho p'ra dar

Olha, é como o verão
Quente o coração
Salta de repente para ver
A menina que vem

Ela vem, sempre tem
Esse mar no olhar
E vai ver, tem de ser
Nunca tem quem amar
Hoje sim, diz que sim
Já cansei de esperar
Não parei nem dormi
Só pensando em lhe dar

Peço, mas você não vem, bem!
Deixo então, olho o céu, falo só, mas você vem

      Regresso ao trabalho que me espera (com ou sem verão, longe do entusiasmo e fartinho de ver tanta incorreção).

terça-feira, 14 de junho de 2016

Véspera de exame

     Amanhã é o dia para o exame de Português de 12º ano.

    Hoje foi o dia para receber uma fotografia de uma aluna, a registar o evento que marcou o fim de semana cá na cidade, mais a mensagem "Pessoa a marcar presença no encontro de estátuas vivas, em Espinho."


























Apontamento fotográfico do evento espinhense "Estátuas Vivas" (foto: Eunice Aguiar)


      Evocando a obra épico-lírica Mensagem, na parte de 'O Encoberto' (subparte 'Os Avisos', com o primeiro de todos - O Bandarra), a estátua viva veio mais do que a propósito, num tempo em que se mostra um pequeno passo para a enorme caminhada do estudo a cumprir para o exame. Entre mensagens recebidas e respostas facultadas a algumas dúvidas que foram sendo colocadas por quem estudou, resta formular o desejo de que tudo corra pelo melhor (nessa mistura de sorte, leitura atenta, encontro feliz e trabalho consistente).

     De tudo isto se faz um exame. Eu acredito mais no trabalho ("Trabalho, trabalho e mais trabalho!"), mas não nego que as outras condicionantes também cumprem o seu papel. Por isso, boa sorte a todos! E muito obrigado à Eunice, pela lembrança.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Isto do norte e do sul tem que se lhe diga.

    Não, não é a questão entre nortenhos e sulistas. É formação de palavras.

    De facto, a formação de palavras não é matéria fácil, ao contrário do que muitos julgam pensar. E eu continuo a dizer que é preciso bem selecionar (os exemplos) para o assunto (melhor) tratar.
    Tudo isto por causa da questão acabadinha de chegar (isto está a ficar com muita rima):

     Q: Gostava de saber a tua opinião sobre a formação da palavra 'norte-americano'. É um caso de composição ou de derivação? A mim, parece-me um composto morfossintático, mas faz sentido que seja uma palavra derivada, também. Diz-me qualquer coisa, por favor. Obrigada.

       R: A dúvida é pertinente e o caso / exemplo não é dos mais fáceis. Por isso, vamos por partes.
      Primeiro, é evidente a consciência de 'norte-americano' como um exemplo de composição, pela constituição do termo (composto) por duas bases ou palavras ('norte' + 'americano'). Contudo, não deixa de estar associado a este composto um processo derivacional típico da construção de adjetivos relacionais (no caso, os gentílicos ou pátrios).
     A questão mais crítica, ainda assim, é a classificação quanto ao processo da composição. 'Norte-americano' - tal como 'sul-americano', 'norte / sul-africano', 'norte / sul-coreano' ou afins - evidencia um caso de composição morfológica. Tal explica-se por se estar perante um radical composto ([norte-americ-]) formado a partir de uma configuração básica que não é diretamente uma expressão sintática ('*Norte América'), mas. sim, indiretamente uma reconstrução (por reordenação) da sequência 'América do Norte'. O mesmo sucede com [sul-afric-] (< não *Sul África, mas África do Sul) ou [norte-core-] (< não *Norte Coreia, mas Coreia do Norte), todos a integrar também sufixos derivacionais.
   Portanto, atendendo aos adjetivos relacionais 'norte-americano', 'sul-africano' ou 'norte-coreano', estes são obtidos por um processo de derivação sufixada adicionado a um composto morfológico (com radical composto) relacionado com um composto sintático reconfigurado ('América do Norte', 'África do sul' ou 'Coreia do Norte'), e deste último independente em termos formais. Resulta daqui a classificação do composto morfológico, conforme o propõe Alina Villalva no seu estudo Estruturas Morfológicas - Unidades e Hierarquias nas palavras do Português (cap. 6 - Estruturas de Composição, pp. 345-389).

       Caso para dizer que se está perante um exemplo sintomático de relação entre composição e afixação, numa complexificação e ampliação das palavras (e sua recursividade na formação), numa integração de processos a que a língua não é seguramente estranha.

domingo, 12 de junho de 2016

Uma questão de SujeitoS

      Quem estuda tem dúvidas; logo, toca a dissipá-las em momento oportuno.

      Pelos vistos, há quem ainda leve o estudo a sério. Como não se pode defraudar tal virtude, aí vai uma resposta para qualquer um que a siga.

      Q: No provérbio "Quem tudo quer tudo perde", qual é o sujeito sintático? 'Quem' ou 'Quem tudo quer'? Obrigada.

       R: São os dois, dependendo do nível sintático de análise em que se encontre.
      Em termos de frase-matriz, superordenada, para o predicado 'tudo perde' há um sujeito sintático oracional, na forma de oração subordinada substantiva relativa (sem antecedente) - daí o sujeito ser 'Quem tudo quer'.
       No interior desta oração subordinada (que funciona como sujeito da frase matriz), há também um sujeito e um predicado internos: o primeiro, ´Quem'; o segundo 'tudo quer'.

Níveis de análise sintática (frase-matriz / oração subordinada)

     Portanto, dois sujeitos: um superior, para toda a frase, a cumprir a configuração da estrutura argumental do verbo 'perder' (ALGUÉM perde ALGUMA COISA > Quem tudo quer perde tudo); outro interno à oração subordinada, associada à estrutura argumental do verbo 'querer' (ALGUÉM quer ALGUMA COISA > Quem quer tudo).

       Daí a importância das instruções. Se for para identificar o sujeito da frase, indique-se "Quem tudo quer"; se for para identificar o sujeito da subordinada, responda-se 'Quem'. Pode ainda acontecer que se peça a identificação da função sintática da oração subordinada na frase (responda-se 'sujeito') ou a do pronome relativo na subordinada (também 'sujeito'). Espero que tenha sido esclarecedor.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Dia de Portugal

    Um feriado para um país, um poeta, uma comunidade...

    E bem que se pode multiplicar isto tudo, com um expoente onde caibam muitos outros países que falam a mesma língua, com vários poetas a (re)criá-la e muitos falantes a potenciá-la.
    Dedicado o feriado a Camões (pela suposta data da sua morte, em 1580), hoje vamos para lá deste grande poeta, ao encontro de um outro que, escrevendo sobre o país, também cultivou a língua portuguesa no que ela tem de mais poético. Podia ser Pessoa, mas também não vou ficar por aí.
     Falo de Miguel Torga e de "Portugal":

          PORTUGAL 

Avivo no teu rosto o rosto que me deste, 
E torno mais real o rosto que te dou. 
Mostro aos olhos que não te desfigura 
Quem te desfigurou. 
Criatura da tua criatura, 
Serás sempre o que sou. 

E eu sou a liberdade dum perfil 
Desenhado no mar. 
Ondulo e permaneço. 
Cavo, remo, imagino, 
E descubro na bruma o meu destino 
Que de antemão conheço: 

Teimoso aventureiro da ilusão, 
Surdo às razões do tempo e da fortuna, 
Achar sem nunca achar o que procuro, 
Exilado 
Na gávea do futuro, 
Mais alta ainda do que no passado. 

Miguel Torga, in Diário X

     Um poema sobre o país (que dele tem o título) e sobre o que é ser português, nomeadamente no que às ideias do sujeito poético diz respeito. Afinal, a fronteira entre Portugal e Ser Português é tão ténue e inconstante quanto a linha que separa as águas do rio a desaguarem no mar.
    Portugal tem o rosto de todos os que nele vivem ou com ele querem viver, para lá dos seus limites fronteiriços. Portugal é terra, é projeto atlântico, mar intercontinental e imaginário - dir-se-ia, com Pessoa, que há muita inconsciência, ilusão, utopia (a ponto de nele caber um 'Quinto Império').
       Ao longo de três estrofes (no mesmo número das sílabas para designar o país), traçam-se linhas temáticas significativas: a identidade do 'eu' com o 'tu', numa representação de interação do sujeito poético com a pátria (personificada), na sua intemporalidade; a identidade do 'eu' com os rostos que compõem a dimensão pátria, cultural e também universal desse país voltado para o mundo, na sua língua e na relação com as referências e a matriz de uma cultura europeia; o posicionamento do 'eu' face a «as razões do tempo e da fortuna», sem controlo e sem limites; o entendimento do 'eu' sobre o futuro (essa gávea "Mais alta ainda do que no passado" - um verso a fazer ecoar Pessoa e a visão de uma utopia, da felicidade típica do mito do Quinto Império (que Pre. António Vieira idealizou; um futuro típico da inconsciência libertadora face ao mundo consciente, real e demasiado comum). 
      Portugal voltado para o futuro, objeto de procura constante, busca infindável - daí o verso "Achar sem nunca achar o que procuro".

      Assim se cumpre mais um feriado: num país feito de gente(s) que o aviva(m), que o toma(m) na singularidade que enriquece o mundo, ao longo de séculos e gerações e segundo um destino, um fado feito da diáspora conseguida e do que ainda está para vir. Um presente que confirma o passado e anseia por um futuro promissor (quanto mais não seja para se poder libertar da dor).

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Lembrança(s)...

     Seja um exercício mental seja um ato ou gesto de dádiva.

     É, por certo, um registo de memória, por dois anos que foram de trabalho, de cumplicidades e de momentos também de convívio que o tempo não apagará. Dizem alguns que foi período de transformação: dos medos provocados nos primeiros dias às experiências comuns dentro e fora da escola; às leituras que foram sendo desveladas; às partilhas de saber, que foram libertando o sentir; às alegrias e ousadias que fizeram dos tampos das secretárias o palco (de evocação cinéfila) para o reconhecimento, para o agradecimento mútuo pelo bem que soubemos fazer (par)a todos.
      É, ainda, depois de um ano afastados, a prova de que algures, no imaginário conjunto, há lugar para as proximidades que a afetividade faz perdurar. O que foi ensinado ficou seguramente matizado pela compreensão e pelo colorido dos sorrisos, muitas vezes surgidos no meio do cansaço, do sono e da vontade de buscar o sol (que as palavras, as frases, os longos parágrafos e as páginas dos livros nem sempre deixavam brilhar). O que se aprendeu, o tempo dirá para que servirá.
   É o sinal repetido da generosidade que sempre existiu, porque também alguém a soube alimentar, para que se tornasse marcante nas pessoas que estes jovens têm sido.
    É a oferta desinteressada de um grupo de alunos que, entusiasticamente, recebeu um professor e o fez sentir brilhante, numa noite e num espaço que o fizeram sentir-se em casa (como se nunca a tivesse deixado).

      Ao 12º 8, meu no 10º e no 11º anos. Mais uma turma especial para o meu currículo dos afetos. Muito obrigado pela companhia, pelos abraços e pela(s) lembrança(s) - também coloridos com o azul das "letras", tão próprio às humanidades, às línguas e literaturas.
     

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Uma questão de intenções...

    Depois de um feriado à quinta, a sexta-feira é uma tentação... de más intenções.

    Talvez, por isso, seja bom contrariar as vontades e ficar no plano das boas intenções.

    Q: Olá, Vítor! Mais uma dúvida: como se classifica, quanto ao processo de formação, a palavra 'bem-intencionado'? Obrigada.

   R: A partir da palavra "intencionado" forma-se bem / mal-intencionado, pelo acrescento de um advérbio. A uma palavra (intencionado) junta-se outra (bem). Trata-se, portanto, de um exemplo de composição, quanto ao processo de formação de palavras.

(Clicar na imagem para ampliar)

  Considerando o subprocesso de formação, "bem-intencionado" é um composto morfossintático. conforme se evidencia pela sequencialização compatível com a propriedade de combinação, ordenação e flexão dos constituintes sintáticos (verificável numa sequência frásica do tipo 'Eles mostram-se bem intencionados quanto aos projetos do grupo' / 'Elas estáão bem intencionadas relativamente ao novo emprego').

      Bem ou mal, a verdade é que tinha tenção de fazer uma "ponte"; mas "outro valor mais alto" se levantou.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Valor (não restritivo) dos adjetivos

      A questão, hoje, tem contornos diversificados, atendendo à ordenação das palavras em causa.

      Tudo começa com a pergunta formulada, com tanto de certo como de errado (a fazer lembrar um apontamento anterior).

   Q: Olá, Vítor. Diz-me só uma coisa: o valor não restritivo do adjetivo é como nas subordinadas adjetivas não restritivas, com vírgulas, certo?

      R: Em parte sim, em parte não.
       A associação faz sentido no caso dos adjetivos posicionados à direita do nome - a posição típica no português (contrariamente, por exemplo, ao inglês, que vê o adjetivo à esquerda do nome). Quando colocados entre vírgulas, apresentam valor não restritivo (como nos sublinhados de 1a-c), apontando para uma propriedade que não contribui para a construção específica ou particular de uma dada referência nominal:

          1. a) O lixo, inesgotável, deve ter um tratamento seletivo.
              b) O Homem, racional, por vezes age animalescamente.
              c) Não gosto desse livro, aborrecidíssimo.

         Além destes casos, devem ser entendidos como adjetivos de valor não restritivo aqueles que, não estando separados por vírgula, se posicionam à esquerda do nome (antecipação do adjetivo). Trata-se de uma posição marcada no português (contrariamente à habitual ou tipicamente usada na sintaxe do português - a da posposição face ao nome), para dar conta de sentidos mais conotados, mais modalizados ou de matiz mais qualitativo / subjetivo.
           Compare-se o valor restritivo de 2a e 3a com o uso não restritivo de 2b e 3b:

           2a) A biblioteca antiga está a precisar de obras. 
                                                 ('antiga' no sentido de velha, antiquada - uma biblioteca que é antiga)
           2b) A antiga biblioteca deixou saudades aos que a frequentavam.
                    ('antiga' no sentido de inexistente)

                   3a) Ele ajudou o homem pobre.
                                                  ('pobre' no sentido de humilde, necessitado - um homem que é pobre)
          3b) Ele ajudou o pobre homem.
                                     (´pobre' no sentido de coitado, infeliz, independentemente de até poder ser rico)

         Em 2b e 3b há, portanto, sentidos derivados em jogo (por efeitos conotativos e/ou modalizados) como, aliás, se pode verificar no azulejo à direita, na segunda ocorrência de 'rica'. Ao sentido denotativo de 'mãe rica', numa realização restritiva, contrapõe-se o modalizado (afetivamente marcado) de 'rica mãe', numa ocorrência não restritiva e numa anteposição que explora dimensões significativas múltiplas (nomeadamente, as mais expressivas, irónicas ou qualitativamente orientadas).
    Sem vírgulas, estas realizações são também não restritivas, uma vez que não restringem, particularizam a referência nominal; antes a modalizam, salientam qualitativamente uma propriedade na subjetividade da avaliação, avaliação ou depreciação.

         Entre uma questão difícil (objetiva, restritiva e denotativamente encarada) e uma difícil questão (subjetiva, não restritiva e conotativamente marcada), fico-me por esta resposta, sem adjetivação, para não complicar mais a situação.