Espera . Procura . Encontros, Desencontros e Reencontros . Passagem com muitas Viagens . Angústias e Alegrias . Saberes e Vivências . Partilhas e Confidências . Amizades sem fim
São doze profissionais a trabalhar comigo ao longo de quinze horas, começando hoje na Escola EB2,3 de Gondomar, a pedido do Centro de Formação de Escolas Júlio Resende.
Quase apetece dizer que vou "morfologizar", à semelhança do ocorrido há cerca de dois anos, na Escola Secundária com EB2,3 Dr. Manuel Laranjeira. No início do ano foi mesmo por Valadares, na Escola Secundária Joaquim Ferreira Alves. Como não há duas sem três, chegou a vez de Gondomar:
Diapositivo de apresentação do curso de formação
Trata-se de um curso de formação que procura contribuir
para a aquisição de saberes atualizados, enformados por princípios
metodológicos e/ou pedagógico-didáticos; o desenvolvimento de conhecimentos e
competências numa rentabilização e/ou problematização do objeto de formação
segundo os programas de ensino e documentos referenciais reguladores das
práticas; a exploração de competências pedagógicas nos professores de
Português, do ensino básico e secundário, de modo a integrar saberes e
reflexões promotores de transposições e aplicações didáticas; a sensibilização
e tomada de conhecimento - implicada, sustentada e fundamentada - de
referenciais de trabalho que assentam em contributos das áreas da Linguística,
da Literatura, da Didática e da Organização e Desenvolvimento Curricular; a
discussão e a consciencialização de áreas ou pontos críticos no domínio
linguístico da Morfologia e na sua interrelação com os programas de ensino, as
metas de aprendizagem e o discurso pedagógico-didático.
Numa área que parece ser fácil, muito há a estudar e a refletir, porque há generalizações e falsas aparências, à espera de uma maior cuidado (no mínimo, um dicionário com informação etimológica e morfológica.
É neste círculo fechado (e mágico) que o espectador se mantém até que a realidade (demasiado real) volta.
Aos primeiros acordes da banda sonora, há como que uma nota de encantamento a conduzir-nos para um universo de que a música é uma das portas entreabertas (diria mesmo que ela evoca a identidade com um filme a ser recordado e relembrado por uma melodia que, mal se faz ouvir, nos transporta para a presença de "uma princesa sem voz" e de um ente com tanto de feérico como de selvagem, mas bem mais sensível no olhar e no toque do que alguns dos humanos representados).
Recuada até aos anos sessenta do século XX e ao contexto da guerra fria, a intriga narrativa convoca o registo do fantástico, no qual uma relação amorosa entre uma empregada de limpeza (de um laboratório militar) e um anfíbio (na luta pela sobrevivência) cresce na base do silêncio, do sorriso, do olhar, do toque. É no seio da água que a aproximação se constrói, alimentando essa outra vida que paira sobre a realidade e se afirma como alternativa sensível, sentida e poética, culminando na citação dos versos "Unable to perceive the shape of you, I find you all around me. Your presence fills my eyes with your love".
Trailer do filme de Guillermo del Toro
Se "The Shape of the Water" (2017), realizado pelo mexicano Guillermo del Toro, é uma forma de (re)encontro com o universo do fantástico, do mágico e do poético na tela cinematográfica - para fugir à vida, por vezes, dura e crua (diria, demasiado real) -, não deixa de espelhar o que esta nossa vida tem de mais preconceituoso e tomado como marginal: a jovem muda, Elisa Esposito, homónima dessa outra personagem do "My Fair Lady"(Sally Hawkins); o ser (Doug Jones) que, na sua diferença física, se mostra mais homem do que alguns outros que nem merecem ser chamados de tal; o vizinho homossexual Giles (Richard Jenkins), pintor sem sucesso e vítima da vaidade, tornado cúmplice na proteção dada por Elisa à criatura fantástica; o casal negro, com a mulher vítima (Octavia Spencer) de um marido desdenhado e inútil. Não menos marginal é o monstruoso e sádico agente policial Strickland (Michael Shannon), ainda que representativo de uma das forças sociais marcadas por um poder tirano e impiedoso que vemos derrotado às mãos de uma figura estranha e monstruosa com a qual o espectador se identifica pela justiça e pela sensibilidade por ela trazidos à história - afinal, duas condições essenciais de sobrevivência na vida. Aos primeiros dá-se o sentido virtuoso dos que buscam a felicidade, o prazer, a beleza interior e o valor dos justos; ao último, o que há de mais maléfico, para não dizer abjeto.
Na perspetiva de um narrador que se identifica com a personagem Giles, o universo de fantasia e magia constrói-se na afirmação do amor; na apologia das minorias ou dos desajustados da sociedade, no direito que têm de fazer o seu caminho; na valorização do espetáculo da dança e do cinema musical; na afirmação de que há "guerras frias" bem contemporâneas que não permitem a felicidade ou que sublinham a ideia de que qualquer monstro é mais justo e sensível diante de uma vida composta por perversões.
Um exemplo de como uma muda e uma criatura-monstro se tornam heróis por aquilo que conseguem conquistar: sentir, amar, viver fora de uma realidade escura, à vista de todos, sem princípios ou valores sociais que dignifiquem o ser humano. Um filme belo sem deixar de ser um belo filme.
Do pouco tempo que houve para respirar em dois dias de merecido descanso (que devia ser sem trabalho), ficou um breve momento em que o colorido do fim de dia se mesclou com a depressão de que amanhã se regressa à azáfama (na qual já me deixo ir mais na onda do que no controlo do tanto que há para fazer):
Quadro natural, num fim de domingo junto ao mar... a trabalhar (Foto VO)
O escuro anunciado da noite está para o pensamento depressivo de que segunda-feira está já aí; as restantes cores estão para o dia de sol que findou, porque não há bem (por mais relativo que seja) que sempre dure.
Espero que o resto do provérbio se cumpra: nem mal (também relativo que seja) que não se acabe (resta focar na sexta à noite que está para chegar).
Trabalhados alguns fragmentos, fica a sensação de um Bernardo Soares que ecoa o ortónimo, bem como os heterónimos, num registo prosaico feito da poesia e do pensamento plasmados em alguns versos familiares aos olhos dos leitores pessoanos.
Na proximidade com o criador, Bernardo Soares é um semi-heterónimo (no seio de outros dois) que muito contribuiu para a dimensão reflexiva da obra completa do criador poético; um prosador que observa e transfigura a cidade, os ambientes, o quotidiano à semelhança de Cesário; que trabalha e reflete sobre a língua (pois gosta de "palavrar"); que explora o sonho como libertação do sono da vida (ou da "salada coletiva da vida").
É na dualidade de um Pessoa-Soares ou de um Fernando-Bernardo que o ser-sombra se compõe, como se pode depreender do documentário seguinte (a abordar um livro, que é simultaneamente vida, de desassossego):
Documentário com montagem a partir da série televisiva "Grandes Livros" (RTP-1)
Mais do que um Vicente Guedes (aristocrata falido que ganha a vida como empregado de escritório) ou o Barão de Teive (com morte anunciada, e que decide escrever antes de se matar), Bernardo Soares é o pensador moderno na reflexão sobre o abismo da alma humana, reportando uma vivência de angústia, numa sociedade feita de desalento e numa época tão crítica quanto criativa. Nesta, a alma do escritor é "uma orquestra oculta", sem saber "que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores"; só se conhece como sinfonia e vê a infância como saudade da emoção desse momento de "grande certeza sinfónica".
Quem construiu o programa de 12º ano da disciplina de Português, de facto, ou gosta muito de Pessoa ou contribui definitivamente para alguma saturação: ele é ortónimo - nas construções poéticas curtas e na obra Mensagem -, mais heterónimos; junta-se o semi-heterónimo Bernardo Soares e, para fechar, volta-se, com Saramago, a um universo pessoano com O Ano da Morte do Ricardo Reis. Faltou algum doseamento, num indisfarçável propósito de ver em Pessoa toda uma literatura, porque ele é todo um conjunto de poetas em verso, contista e prosador exímio, dramaturgo de uma peça ou cena com faces / máscaras / caracterizações "em gente".
A riqueza e diversidade do poeta modernista são enormes, por certo. Falta saber se a adesão à multifacetada obra se consegue com a insistência na leitura de tanto verso, pensamento e (re)construído, criativo universo. Por mais que a multiplicidade se verifique, não deixa de comparecer a unidade: a de um criador que ecoa nas suas criações ou a da convergência de sensibilidades várias e aglutinad(or)as no escrito. É um Pessoa que se exprime, por fingimento artístico, através de várias pessoas e estéticas ou estilos diversos, numa representação feita em um só palco, mas com a fragmentação do ser própria do artista que se confronta com múltiplas verdades.
Um Fernando Pessoa(s) acompanha os nossos dias, até não sei quando, à espera de uma linha de fronteira que se esbata no jogo do real ficcionado ou da ficção que tem muito de real concentrado num romance.
Do bom exemplo que os profissionais devem dar quando se confrontam com soluções indesejáveis (pois, as das bandas esquerdas / direitas dos manuais que alguns dizem ser uma mais-valia):
Q: Ao ler um fragmento do Livro do desassossego, de Bernardo Soares, faz-se a progressão das expressões "nas costas do homem" para "nas costas do meu adiantado" (do homem que está adiante). Num exercício do manual, pede-se o mecanismo de coesão exemplificado e a solução dada é "coesão lexical por substituição (sinonímia)". Fiquei com dúvida, pois acho que se trata de um exemplo de correferência não anafórica.
R. Trata-se, de facto, de correferência não anafórica. Nem se trata de uma questão lexical apenas, pois não é um caso de substituição sinonímica entre termos / vocábulos, com equivalência comprovável em termos de dicionário (não se pode concluir, obviamente, que 'adiantado' seja sinónimo de 'homem').
Está em jogo a construção de uma cadeia referencial assente na progressão da expressão "(costas d)o homem" para "(costas d)o meu adiantado", com a perífrase 'o meu adiantado' a associar-se a 'o homem'. Tal associação é configurada por grupos nominais que não têm implicação obrigatória / necessária entre si: nem todo o adiantado tem de ser (o) homem, nem o homem tem que estar adiantado. Se o está no texto / fragmento (são termos correferentes), é por conhecimento textual equiparável a conhecimento de mundo / enciclopédico resultante do que se lê. É na pragmática da relação leitor-texto e na realidade extralinguística dos enunciados lidos que a relação das expressões sai construída.
Em suma, desfaça-se a dúvida e esqueça-se a solução.
Tal como o título da obra de Bernardo Soares o indica, as soluções dos manuais fazem destes, por vezes, um "livro de desassossego".
Quando se anuncia a novidade de um documento que enformará a vida da escola,...
... é bom que o documento traga algo de novo (de novidade) e não algo de novo (outra vez).
Tudo a propósito de uma conferência a que assisti hoje e da divulgação do "Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória" (através do Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho), encarado como referência para as escolas e para a sua organização (bem como de todo o sistema educativo), visando a convergência e a articulação das decisões curriculares com as práticas docentes e as aprendizagens do futuro (próximo).
Quando a anunciada mudança se compagina com um conjunto de valores e princípios - os do humanismo, da responsabilização, da liberdade e da autonomia, das áreas de competências e de integração de projetos -, poder-se-á perguntar onde reside a novidade. De Dewey aos fundamentos da pedagogia moderna explicitados por Carl Rogers, pode dizer-se que o novo já tem praticamente um século. Muita formação docente (inicial, contínua e continuada) se apoiou nessa abordagem / equação tão propagada, no mínimo (senão antes), desde os anos oitenta do século passado.
Que a gestão / organização das escolas deve ser outra para se compatibilizar com esses princípios, não há dúvida - dos espaços, tempos e recursos materiais à perspetivação dos profissionais que nelas trabalham. Mudanças substantivas, não episódicas ou conjunturais, são requeridas na forma como as escolas públicas e os sistemas escolares são concebidos e no modo como são geridos, na consciência de como o público (jovem e adulto, ou com espírito sempre jovem) que os frequenta irá ter uma palavra a dizer no que deles quer, em termos de integração, partilha, utilização de recursos, colaboração e, nomeadamente, distribuição de poderes. Também isto não é novo, pelo menos na literatura especializada sobre a administração escolar e as estruturas de gestão / participação da vida escolar.
Talvez passar das palavras aos atos seja o passo que muitos veem como gigante, para os pés ainda sentirem o chão ou para que os voos não se façam desasados. Não pode é entender-se tais posturas de reserva como a recusa do novo (que já não o é) nem justificar-se alguma desconfiança como sinónima da apologia de práticas rotineiras ou do passado, tomadas como gerais, assentes na mera reprodução acrítica, em tecnicismos prolixos ou em disposições não participativas ou não interativas. Como se todos os docentes não fizessem mais do que isto. Muitos dos constrangimentos para a mudança passam por condições que, frequentemente, nem externa nem internamente, são garantidas para que ela aconteça além da letra ou da orientação discursiva. Nem sempre o espírito do texto se compatibiliza com os investimentos (de vária ordem, não só financeiros) que se impõem. Desfasamentos entre as orientações para a ação e a ação propriamente dita sempre os houve e sempre haverá, não sendo um documento ou decreto que os fará desaparecer. Daí que o futuro não se construa apenas pelo que se dá a ler ou a saber.
A disponibilidade e a motivação para a sua concretização passarão, por certo, pela articulação entre palavras e atos, focando uma maior integração e coerência (vertical e horizontal) dos documentos curriculares, programáticos e organizacionais, nomeadamente na estruturação das aprendizagens a desenvolver ao longo da escolaridade. Daí também a necessária promoção de uma gestão mais articulada e integradora, nomeadamente flexível no que à concretização do currículo diz respeito (contrariando, definitivamente, essa ideia que alguns ainda têm de que todos a fazer o mesmo, ao mesmo tempo e, se possível do mesmo modo faz ensinar / aprender melhor). Neste sentido, a atuação política e a das organizações escolares / educativas serão fulcrais para a orientação e concretização da ação docente, atualmente limitada pelos currícula, pelos programas e metas definidos, pela forma como os espaços e tempos são geridos pelas escolas, pela distribuição de serviço docente e pelo modo de constituir turmas. Não menos importantes são as formas de liderança nas escolas (mais ou menos centralizadoras), a formação docente (tanto a inicial como a contínua) e a construção de equipas educativas mais focadas na colaboração, partilha e conjugação para a construção e consecução de projetos.
Das implicações apontadas e das orientações preconizadas se faz a mudança pretendida, talvez nova na ação; não tanto nos pressupostos teóricos do texto ou documento em divulgação. Impõe-se a sensibilização para a primeira, com os sinais necessários da ação política e da gestão das escolas, de forma a fazer perceber que ela seja possível, para que não se caia exatamente na posição oposta: a de que a mudança não é (foi) possível nem necessária. Cair-se-ia numa quase reprodução de um discurso que se vai ouvindo e que parece legitimar o que não faz (muito) sentido para lá das palavras:
Excerto do programa televisivo "Melhor do que falecer" (episódio 10), na TVI (2014)
(Bom seria que o cómico deste sketch fosse um sintoma do ridículo do que é dito; por vezes, creio que se torna mais do que isso, pelo que se ouve de apologia, por vezes, do passado e de um sentido de liberdade em que alguém se [re]vê como não tendo "serventia para ela").
Com um bom comunicador e um espírito interessante (não obstante algumas generalizações dispensáveis e redutoras), pode dizer-se que o momento da conferência inicial sobre "Biblioteca Escolar / Perfil do aluno do século XXI" permitiu esquecer alguns cansaços acumulados, embora a perspetiva do futuro preconizado não deixe de se revelar, por ora, incerta e nebulosa. A ver vamos se não será canseira a redundar em novo cansaço.
Dezanove formandos estão a trabalhar comigo, a partir de hoje e num total de quinze horas de formação. Desta feita na Escola Secundária Dr. Joaquim Ferreira Alves (Valadares), a pedido do Centro de Formação Aurélio Paz dos Reis.
Vou "morfologizar", pela segunda vez, com o programa formativo proposto há dois anos na Escola Secundária com EB2,3 Dr. Manuel Laranjeira:
Diapositivo de apresentação do curso de formação
Um curso de formação que visa a aquisição de saberes atualizados, segundo princípios metodológicos e/ou pedagógico-didáticos; o desenvolvimento de conhecimentos e competências numa rentabilização e/ou problematização do objeto de formação segundo os programas de ensino e documentos referenciais reguladores das práticas; a exploração de competências pedagógicas nos professores de Português, do ensino básico e secundário, de modo a integrar saberes e reflexões promotores de transposições e aplicações didáticas; a sensibilização e tomada de conhecimento - implicada, sustentada e fundamentada - de referenciais de trabalho que assentam em contributos das áreas da Linguística, da Literatura, da Didática e da Organização e Desenvolvimento Curricular; a discussão e a consciencialização de áreas ou pontos críticos no domínio linguístico da Morfologia e na sua interrelação com os programas de ensino, as metas de aprendizagem e o discurso pedagógico-didático.
Mais uma oportunidade de partilhar experiências, saberes, desenvolvendo o espírito crítico que se impõe face a materiais, discursos e práticas muito rotinizadas e reguladas por publicações com muito que se lhe diga.
Ocorre-me pensar mais em lágrimas de crocodilo do que nas de verdadeiro sofrimento.
Não se trata de pensar no réptil a pressionar o céu da boca quando ingere alimento e comprime as glândulas lacrimais (chorando de prazer quando devora a vítima), mas de chorar fingidamente. E, no que toca a dor, esta é a de ver tanto erro no meio de uma daquelas mensagens de sentimentalismo balofo que circulam pelas redes sociais:
Imagem recolhida de posts que circulam pelo Facebook
O acento gráfico agudo (´) é o mais comummente utilizado na língua portuguesa; o grave (`) surge apenas nas situações de contração ou de vogal em contexto de crase (a+a > à; a+aquele > àquele; a+aquela > àquela; a+aquilo > àquilo). Portanto, DÓI ver o acento errado nalgumas palavras; a ausência do certo noutras (LÁGRIMA) e o uso excessivo do erro em CAIR (sem cento, claro). É que nem de indecisão se trata; é pura ignorância de como escrever bem (e, pelos vistos, tão familiar e tão generalizado aos nossos olhos de leitores e consumidores).
Diga-se que é de chorar de tristeza tanta ignorância (isto se não for para chorar de riso com o ridículo), por mais que o pensamento lido faça sentido. Contudo, a seriedade da mensagem banaliza-se perante a escrita lamentável que a traduz. Nem dá para levar a sério!
Não se trata da história dos três porquinhos para a hora de deitar...
É antes uma narrativa para acordar e lembrar “A Hora Mais Negra”, com um Porquinho só, como familiar e afetivamente a esposa o tratava. É também assim que Winston Churchill surge aos olhos e ouvidos do espectador cinéfilo, tudo porque um filme dirigido por Joe Wright tanto mostra a personalidade deste líder histórico do século XX como expõe as fragilidades desse homem forte, porque imperfeito, e poderoso, porque soube ser só.
Trailer do filme "A Hora Mais Negra", de Joe Wright (2017)
É com estes atributos – força, imperfeição, poder, solidão – que o primeiro-ministro inglês de Jorge VI nos é dado a conhecer no contexto da II Guerra Mundial, enfrentando um Hitler e um Mussolini, mais todos aqueles que, no seu país (Reino Unido), o viam como indesejado, irrefletido e tempestuosamente irascível. Além disto, tinha apenas para oferecer sangue, trabalho, lágrimas e suor (o que, seguramente, muitos não queriam), quando um caminho mais fácil (por aparente e enganador que fosse) era percebido como menos penoso.
Na interpretação de Gary Oldman (recentemente galar-doado com um Globo de Ouro pelo papel desempenhado), a personagem Churchill é secundada por Lily James (a secretária Elizabeth Layton) e Kristin Scott Thomas (no papel da esposa Clementine – Clemmie -, que aceita a figura pública que o marido sempre quis ser), também relevantes na solidificação dos pilares e dos princípios de um homem que se torna uma referência do século XX. Nomeadamente, foi-o para a História enquanto figura de liderança que adotou princípios, defendeu convicções válidas e se revelou grande na ação, estando ao lado e do lado das mudanças que afasta(ra)m o despotismo, o poder autocrático, a tirania e tudo o que desvia a Humanidade de um caminho integrador, inclusivo e tolerante. Em suma, um exemplo para alguns dos que contemporaneamente se encontram no poder.
Há imperfeições que são menores face à grandiosidade dos valores e princípios por que se luta. Neste sentido, a frase “Quando a juventude nos falha que a sabedoria nos valha” acompanha bem uma personagem que se revela sábia, mesmo quando o medo se impõe ou quando poucos apoios tem para o que há a fazer. Assim se cumpriram os tempos; assim se revê um homem que mudou, porque só os que não mudam é que não fazem nem trazem mudanças.
Este é um filme largamente argumentativo (até pelos exemplos retóricos de Cícero e Horácio que inspiravam Churchill); persuasivo na construção de identidades e de condução de mentalidades.
Um filme educativo, a explorar e com lições de vida merecedoras de discussão - na consciência de que há movimentos de força conjuntos, impositivos, que nem sempre fazem sentido perante o que mais deve dignificar o Homem; na constatação de que um homem pode fazer a diferença por aquilo em que acredita e que, mais cedo ou mais tarde, sai legitimado.
Em registo um tanto anacrónico, fez-se a aproximação à Crónica de D. João I.
Em termos de contexto epocal, falar da crise de 1383-85 e da batalha de Aljubarrota é ponto essencial quando se aborda uma das crónicas de Fernão Lopes: a Crónica de D. João I. Esta obra quatrocentista propõe uma versão legitimadora da ascensão do Mestre de Avis ao trono (após a morte do rei D. Fernando), numa visão parcial dos factos e das personalidades (entre a heroicização de um bastardo e a diabolização de uma rainha-regente, mais de um amante estrangeiro, os quais estão mais para uma facção indesejada: a que apoia a causa castelhana, bem como a perda da independência nacional).
"Conta-me História" trata desta questão / época de uma forma ora cómica ora demonstrativa do que foi um período histórico crítico de Portugal:
Excerto do programa televisivo da RTP1: "Conta-me História"
Num diálogo entre Luís Filipe Borges e Fernando Casqueira, em pouco mais de meia hora, fica a saber-se o que marcou o final do século XIV na História de Portugal, objeto da narrativa lopiana. Entre intrigas palacianas, que mais parecem uma "telenovela venezuelana", jogos e estratagemas assentes em interesses nem sempre claros, fica uma construção voltada para a causa portuguesa e a manutenção da independência nacional.
A obra em apreço é quatrocentista (século XV) e os factos narrados são trecentistas (século XIV). A visão histórica é a de um cronista que, por mais que afirme a verdade da História, não deixa de a marcar por uma parcialidade que, literariamente, está bem assinalada com a modalidade apreciativa / avaliativa tão evidente em expressões como "era maravilhosa cousa de se ver" (para além de outras, que marcam a presença do narrador no discurso, com os seus comentários e juízos de valor acerca do que é narrado).
Um exemplo que procura trazer o passado a uns olhos e ouvidos do presente, para que dele façam memória futura.
Começado o novo ano, convém saber distinguir os verbos dos nomes.
Entre classes de palavras não devia haver confusão; menos ainda quando a morfologia se articula com elas para marcar a distinção. Ainda, assim, esta nem sempre acontece da melhor forma, como o provam o uso (popular) mais o cartoon seguinte:
Eis senão quando... a perca chega ao funeral.
O uso, num registo mais popular, do termo "perca" para forma nominal associada ao verbo 'perder' é contrariar o princípio morfológico de derivação do verbo (deverbal) em nome (perder > perda) com manutenção da base derivante (o radical 'perd').
Em termos de norma, é o termo 'perda' que se reconhece como nome resultante de um processo morfológico de derivação não-afixal (isto é, processo de formação que permite a passagem de uma forma verbal a nome, sem acrescento de afixos - apenas com a substituição da vogal temática 'e', em perder, pelo índice temático 'a', em perda).
Fique-se, portanto, no registo do Português padrão, com a 'perca' para designação de peixe (nome) ou para conjugação verbal de 'perder' no presente do conjuntivo, inclusivamente com o valor suplementar deste último em frases de tipo imperativo. Mais do que isto, por agora, é cómico certo.
Feita a passagem (seja ela lá qual tenha sido), há que seguir em frente.
Por outros termos, diz o poeta Fernando Pessoa o mesmo, na forma mais cert(eir)a e natural que todos devemos (re)conhecer:
Ano Novo
Ficção de que começa alguma coisa! Nada começa: tudo continua. Na fluída e incerta essência misteriosa Da vida, flui em sombra a água nua. Curvas do rio escondem só o movimento. O mesmo rio flui onde se vê. Começar só começa em pensamento. in Poesia 1918-1930, Assírio & Alvim,
ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
A metáfora do rio, enquanto curso do tempo e da vida, é um 'topoi' literário. Em sete versos, materializa-se a expressão poética cantada e contada em número de forte espiritualidade e simbolismo (enquanto totalidade do Universo em constante transformação, associado à pesquisa, introspeção; ao ocultismo, ao pensamento profundo), na aproximação do Homem com Deus.
Continuemos, então, o rio, indo ao encontro desse mar, lá nos confins desse encontro com o que está para depois da vida.
Avisa-se o leitor de que a imagem seguinte pode afetar algumas pessoas mais suscetíveis e/ou causar alguma incredulidade:
Imagem colhida a partir de http://geradormemes.com/meme/drk6hr
Partilho uma forma original, embora pouco convencional, de formular os votos de umas boas entradas e de um bom ano. É o que dá brincar com a metonímia e a homofonia.
A bem do riso, do cómico e da boa disposição que o novo ano possa trazer. Bom 2018!
Pelo que tenha de bom e pelo que faça lembrar do que não é / tem.
Repete-se um tempo que, entre a exceção e os excessos, pouco tem tido do muito que devia mais ser. Daí ser época a conjugar encantamento, magia e luz com tristeza, desilusão e perda. Assim persiste e resiste uma festividade que, no brilho, no regalo e no conforto, muito tem do lúrido real da pobreza, da solidão e do abandono. Entre o canto e o desencanto, o deus menino tudo isto espelha, tanto no nascimento como na morte.
Um presépio em Espinho, com os espinhos da vida (Composição fotográfica VO)
Esteve sempre nas mãos do Homem a hipótese de tudo ser diferente. Assim se manterá para futuro tal condição. Bom seria que neste Natal nascessem sinais da esperança, para que, cada vez mais, a luz permanentemente encandeasse o que de pior o mundo tem.
Ainda assim, como dizem a música de Assis Valente (desde 1933) e a voz de Bethânia (desde 2008, com o CD "Natal Bem Brasileiro") em toada do Brasil, "Anoiteceu".
Vídeo com a versão, cantada por Maria Bethânia, de "Boas Festas"
BOAS FESTAS
Anoiteceu, o Sino Gemeu
A Gente Ficou Feliz a Rezar
Papai Noel, Vê Se Você Tem
A Felicidade Pra Você Me Dar
Eu Pensei Que Todo Mundo
Fosse Filho De Papai Noel
Bem Assim Felicidade Eu Pensei
Que Fosse Uma Brincadeira De Papel
Já Faz Tempo Que Pedi
Mas o Meu Papai Noel Não Vem
Com Certeza Já Morreu Ou Então
Felicidade É Brinquedo Que Não Tem.
Com música, até parece que "Papai Noel" ainda vem (não da Lapónia, mas das terras de Vera Cruz).
Depois de tanto procurar, encontra-se o que não se quer e o que não podia ser melhor.
Procurando Caeiro, circulam pelas redes sociais e no mundo virtual materiais que tanto têm de bom como de péssimo. Já nem falo da ridícula questão de se assumir que Caeiro é um pastor ou camponês, quando se deve tomá-lo como bucólico e pensador, por mais que este, por princípio, procure recusar o pensamento abstrato (por isso, a todo o momento concretizado).
Pior ainda é dizer-se (e fazer-se ouvir) que recusa a metáfora. Se estivesse numa realização cinematográfica, diria "Corta!", para lembrar que "O rebanho é os meus pensamentos" (in poema IX de "O Guardador de Rebanhos"), afinal, o que o torna um guardador de rebanhos (diga-se, pensador) ou alguém que tem a alma como a de um pastor (também eu, por vezes, tenho a alma como a de um santo, ainda que, realmente, esteja mais para pecador ou para diabo - isto de ser como ou ter como não é o mesmo que ser ou ter, por certo).
No fundo, mais metáfora não existe do que aquela que faz de Caeiro o mestre, o pensador, o centro da criação pessoana que, quando surge, é encarado como o resultado de um "dia triunfal" (segundo carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro).
Mais: afirmar que Caeiro não recorre ao adjetivo é não o ler, em toda uma produção literária que sublinha que "O que é preciso é ser-se natural e calmo" ou que "o poente é belo e é bela a noite" (inpoema XXI de "O Guardador de Rebanhos"); que "Sou diferente" (in "Dizes-me: tu és mais alguma cousa" de "Poemas Inconjuntos"); que "fecho os olhos quentes" e que "Sei a verdade e sou feliz" (in poema IX de "O Guardador de Rebanhos"); que "Aquela senhora tem um piano / Que é agradável..." (in poema XI de "O Guardador de Rebanhos") - alguns versos apenas do heterónimo para contraditar o que nunca deveria ser dito / ouvido. Assim se revê a verdade de tanto material educativo, validado por tanto saber superior que a todo o momento cai. E bastava tão somente falar em "O Pastor amoroso" para duvidar da grande verdade! Quase apetece fazer uma tese com uma tipologia dos adjetivos a que Caeiro recorre, para sustentar, ainda mais, o que já aqui se assume nos sublinhados.
E, assim, cresce o pecador e o criminoso que há em mim: cortando o inútil e combinando o válido com o que é bem feito, chega-se a algo que pode ser visto e ouvido para conhecer melhor. Um material novo, a partir do já feito e que, a bem da verdade literária, tinha de ser expurgado do que não interessa para ninguém.
Como o objetivo não é obter lucro nem comercializar, fica um material para futuro (acompanhado de uma ficha de trabalho / um teste a propósito), sempre que Caeiro for para ensinar:
Composição de materiais relativos ao estudo de Caeiro, o Mestre pessoano
Imagens, pinturas, vídeos, versos, declamação (muito interessante de Pedro Lamares) - uma multiplicidade de suportes para fazer ver e ouvir o Mestre, que tanto adjetiva como metaforiza nessa intermediação que a língua (faz) representa(r) com o pensamento e com a realidade, por mais ou menos literário (ou poético) que seja.
E tudo isto é Caeiro na suposta simplicidade que o caracteriza, num tempo-natureza a todo o instante novo por mais cíclico e repetitivo que possa revelar-se.
A propósito de uma minissérie no canal público de televisão.
Estátua de Martinho Lutero frente à
Igreja de Nossa Senhora (Frauenkirche), Dresden
Foto-VO
Quando o rogo feito a Deus não é escutado (nem que seja por causa de um jogo de bola) ou quando os homens da igreja, a troco de indulgências, concedem o perdão, a fé surge necessariamente instrumentalizada. Resta a um homem caminhar no sentido da reforma da igreja, questionando-a e afastando-a das fraudes e dos logros criados. Foi o que Martinho Lutero fez.
A Reforma de Lutero, minissérie em dois episódios hoje transmitida pela RTP1, é uma produção alemã da UFA Fiction - ZDF a ilustrar bem o que há 500 anos (1517) fez um sacerdote agostiniano revolucionário com as suas 95 teses acerca das indulgências: conseguiu que a poderosa Igreja Católica fosse abalada pelo movimento protestante do início do século XVI.
Do título original 'Reformation' e com a realização de Uwe Janson, a estreia televisiva denuncia como a máxima 'Quando o dinheiro cai na caixa, a alma voa para o Céu' se tornou na maior das contribuições dos fiéis para uma instituição que se afastava em muito do espírito cristão que a funda(menta)ra. A fé e a crença de um homem marcaram a diferença, na oposição aos dogmas da igreja a que pertencia; em favor da verdade, da piedade e da misericórdia para todos (nomeadamente na língua que dominavam e não no latim que desconheciam). Afinal de contas, ler permite construir o conhecimento que só alguns controlavam - logo, nada como traduzir as fontes para a língua que todos entendam.
Trailer promocional da série, transmitida pela RTP1
Martinho Lutero (interpretado por Maximilian Brückner) é o professor de Teologia que, na Universidade de Wittenberg e no início do século XVI, assina escritos contra a venda de indulgências, consciencializando os crentes de que nenhum homem deve pagar ou comprar a sua liberdade. Numa primeira conferência de Teologia em alemão, permitiu o acesso direto e generalizado à palavra de Deus, ultrapassando-se o espaço reservado apenas a quem sabia latim. Conquistada a população, enfurecido o Arcebispo, Lutero recebeu uma bula papal que o obrigava a retratar-se com as suas teses, sob pena de excomunhão.
O jogo agora era outro; a bola estava do lado do poder institucional e de um homem - o Papa - que, para Lutero, valia tanto como um porqueiro. Deus continuava a não parecer ouvir o rogo do seu 'pastor'. Daqui à destruição da bula e à afirmação de que "há uma Igreja falsa e uma Igreja real", Lutero faz o caminho, perante o Arcebispo, o Imperador e os príncipes alemães, que o levará a reafirmar as suas teses, a traduzir a Bíblia e a implantar uma nova igreja no seu país.
Para a semana há mais (o segundo episódio), para conhecer melhor um dos religiosos mais influentes na reforma da igreja católica na Europa.
Já que o estudam, bem que os alunos podem receber a referência sobre esse criador de poetas: há 82 anos morreu aquele que agora estudam. Não foram, por certo, para eles estas palavras; porém, a quadra revela-se algo premonitória:
Morto, hei-de estar ao teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P'ra ver um bem em morrer.
in Quadras, Lisboa, ed. Assírio Alvim, 2002, pág. 11
Interpretemo-la como expressão do prazer do autor a ladear o leitor, nessa vontade de aproximação que nem só de morte se faz, para bem de muitos.
No Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, o morto está ao lado da sua criação, quando Pessoa visita Reis (o criador de "mãos dadas" com a figura criada), depois de a morte do primeiro, nos termos romanescos, ter sido razão forte para o heterónimo "atravessar o Atlântico depois de dezasseis anos de ausência" (op. cit. 1984, 6ª ed., pág. 325).
Neste jogo de aproximações, compõe-se o desafio à morte: porque lido e falado, Pessoa vive(u).
Convenhamos que a relação da poesia com a música é mais do que evidente...
... e um nome pode ser a ponte para mais um exemplo dessa evidência: Alexander Search. Podia ser Fernando Pessoa, sim, enquanto um dos seus heterónimos; é-o, de facto, na rádio, não numa simples declamação poética do texto, mas numa cantiga baseada no poema heteronímico.
Trata-se do projeto musical de uma nova banda de rock eletrónico, con-cebida por Júlio Resende e onde figu-ram Salvador Sobral (hoje mais conheci-do enquanto vence-dor do último festi-val da Eurovisão), como o vocalista Benjamin Cymbra, para além de Augustus Search (composição, piano e teclados), Marvel K. (guitarra), Sgt. William Byng (eletrónica) e Mr. Tagus (bateria).
Inspirado na poesia pessoana escrita em inglês aquando da permanência do poeta na África do Sul (Durban) nos tempos de adolescência, Alexander Search do século XXI canta o que Alexandre Search dos inícios do século XX escreveu.
Ainda em tempos de sol, à espera da chuva que teima em não vir (a lembrar Caeiro e os versos "Nem tudo é dias de sol / E a chuva, quando falta muito, pede-se" - in Poema XXI de "O Guardador de Rebanhos"), chegam aos nossos ouvidos as palavras duplamente (re)criadas por Search (sem ter de procurar muito pela escrita):
Vídeo de apresentação de "A Day of Sun", de um Alexander Search mais contemporâneo
A DAY OF SUN
I love the things that children love
Yet with a comprehension deep
That lifts my pining soul above
Those in which life as yet doth sleep.
All things that simple are and bright,
Unnoticed unto keen‑worn wit,
With a child's natural delight
That makes me proudly weep at it.
[I love the sun with personal glee,
The air as if I could embrace
Its wideness with my soul and be
A drunkard by expense of gaze.]
I love the heavens with a joy
That makes me wonder at my soul,
It is a pleasure nought can cloy,
A thrilling I cannot control.
So stretched out here let me lie
Before the sun that soaks me up,
And let me gloriously die
Drinking too deep of living's cup;
Be swallowed of the sun and spread
Over the infinite expanse,
Dissolved, like a drop of dew dead
Lost in a super‑normal trance;
[Lost in impersonal consciousness
And mingling in all life become
A selfless part of Force and Stress
And have a universal home;]
And in a strange way undefined
Lose in the one and living Whole
The limit that I call my mind,
The bounded thing I call my soul.
17-03-1908
in Poesia Inglesa, Fernando Pessoa
(organização e tradução de
Luísa Freire, prefácio de Teresa Rita Lopes)
Lisboa, Livros Horizonte, 1995, p. 172
Segundo a biografia criada pelo grupo musical, o novo
Alexander Search é um(a) (P/)pessoa coletiva com muito da mensagem que o autor
de Orpheu propõe nos seus textos:
"Alexander Search é uma banda de língua inglesa
que cresceu na África do Sul, mas que está radicada na Europa, mais
concretamente Portugal, “paraíso à beira mar plantado” como dizia o seu maior
poeta, Fernando Pessoa. A sua música mistura influências da indie-pop, música
electrónica e rock. As letras foram escritas maioritariamente por Alexander
Search, membro da banda que morreu tragicamente ainda jovem, mas que granjeia o
respeito e admiração dos seus pares como “the greatest conquerer of the beauty
of words”, o maior conquistador da beleza das palavras.
Augustus Search é o compositor de serviço da
banda, toca piano e sintetizadores e faz a direcção musical. Benjamin Cymbra é
um cantor extraordinário e traz na sua voz a garra rock n’roll do passado e as
angústias e esperanças do presente. O futuro “é a possibilidade de tudo”, dizia
também Pessoa.
Sgt. William Byng comanda a vertente computacional e
electrónica. Marvel K. tem uma guitarrada cortante e espacial. E Mr. Tagus,
ex-baterista de jazz, ainda tem na música e ‘groove’ de África uma das suas
maiores riquezas.
Alexander Search é uma banda que gosta de ousar,
impaciente, à procura, sempre à procura, da quintessência. Nunca o conseguiu.
Este é o disco de mais uma tentativa falhada."
Nos homónimos, há uma convergência de som e grafia a que Música e Literatura não são estranhas face ao escritor e projeto musical representados no cruzamento interartístico aqui divulgado.
E nesta (re)criação artística estará uma boa forma de lembrar o criador que amanhã será recordado no seu fim terreno.