domingo, 30 de agosto de 2009

Amigos, amigos... nas palavras, nos actos e nos textos

      Inauguração de um novo espaço: os textos (de) amigos.


Porque foram escritos;


Porque foram dedicados,
                       endereçados,
                       partilhados;
Porque se inspiram
em momentos evocados,
                        experienciados,
                        sentidos;
Porque comungam
com os olhos que os quiserem ler,
                             neles se quiserem rever.

     Assim, quando os nervos estiverem à flor da pele, sempre haverá outras flores (bem regadas e podadas... sem ervas daninhas) para dar cor, cheiro, fruto... beleza à vida.

sábado, 8 de agosto de 2009

... Longe como o mar está no céu

       A vida faz-se de reencontros...

   São pessoas, são leituras, são sentimentos, são músicas... muitas vezes feitos com problemas de expressão.



   PROBLEMAS DE EXPRESSÃO

só para dizer que te amo
nem sempre encontro o melhor termo
nem sempre escolho o melhor modo

devia ser como no cinema
a língua inglesa fica sempre bem
e nunca atraiçoa ninguém

o teu mundo está tão perto do meu
e o que digo está tão longe
como o mar está do céu

só para dizer que te amo
não sei porquê este embaraço
que mais parece que só te estimo

e há até um momento em que digo o que não quero
e o que sinto por ti são coisas confusas
e até parece que estou a mentir
as palavras custam a sair
não digo o que estou a sentir
digo o contrário do que estou a sentir

o teu mundo está tão perto do meu
e o que digo está tão longe
como o mar está do céu

e é tão difícil
dizer amor
é bem melhor dizê-lo a cantar

por isso esta noite fiz esta canção
para resolver o meu problema de expressão
p'ra ficar mais perto
bem mais de perto
ficar mais perto

bem mais de perto

    A solução estará na música, nessa harmonia de sons que apazigua o ser? Assim o sugeriu Shakespeare quando, no discurso da loucura do seu Richard II, lembrou que aquela pode aquietar e dignificar; trazer a serenidade, o equilíbrio ("it have holp madmen to their wits").

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Gaivota: que perfeito coração!

    Do voo da gaivota à narrativa de uma aventura feita emoção.

   Diz-se das gaivotas, segundo uma tradição ameríndia, que são as proprietárias da luz dos dias, um dom que guardavam numa caixa. Não fossem os corvos, que a quebraram, e não partilharíamos esse complemento de vida.


    Do texto que Alexandre O'Neill produziu, que Amália cantou e no qual o projecto 'Amália Hoje' se baseou, versou e encantou, ficam os versos do poeta, a recordação da fadista e a inovação conseguida por uma nova geração de músicos, na voz de Sónia Tavares:

        GAIVOTA 

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
morreria no meu peito
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.


   Melodia que toca a sonoridade universal, num hino às palavras e à voz: passado redescoberto para um presente com futuro.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Novos tempos...

Quando se respira o ar do mar, fica o...


DOCE EMBALO DO CANSAÇO

Ao compasso vivo da marejada,
largo as pegadas que a maré apaga.
Tomado um algáceo ar, renovada
é a alma ao aspirar ser vaga.

A par do areal que faz meu curso,
há um largo mar que um bote navega.
Abobadado Céu, na mente incurso,
escorre na cor que a ondulação encerra.

Neste solo baptizado por ondas,
embalado pela água celeste,
vejo-me camponês fazendo mondas
à Vida, apurada por sal que ateste

a fresca sombra que do sol acoite,
a luzente estrela que engane a noite.

Espinho
VO

... desejo de ser alga, vaga; de alcançar horizontes.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Do poder das imagens que a poesia tem

    É sempre bom saber que alguém vai entrando na "Carruagem 23": em estações ou apeadeiros, embarques, paragens, paradas,... não interessa... desde que participem na viagem e permitam muitas outras passagens. E a partilha, a que fico sempre grato.

     É neste espírito que transcrevo o teor de um mail que recupera a minha passada edição. Diz a Gabriela e bem: "A propósito do teu último post na Carruagem 23 lembrei-me deste vídeo, uma delícia!"
     Aqui está ele (o vídeo) ou ela (a delícia):


      Que dizer da "Poesia do Encontro", a não ser que a reflexão fabulosa de um Rubem Alves (relembrando Pessoa, Platão, Emily Dickinson) toca os poderes que a poesia tem: imagem, música, palavra(s), fantasia.     Encontros.
         Um encontro com Cecília Meireles:

Rei do mar

Muitas Velas. Muitos Remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.
Vimos as Plêiades.
Vemos agora a Estrela Polar.
Muitas velas. Muitos remos.
Curta Vida. Longo Mar.

Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.
Se alguém ouvir, temos pena:
só cantamos para o mar...

Nem tormenta nem tormento
nos poderia parar.
(Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...)
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.

Cecília Meireles (1901-1964)

     Lugar ainda para a voz... e o olhar.
    Daí a citação e a sugestão de Dickinson: "Poética é a palavra que faz amor com o corpo. É uma palavra que vira corpo".

domingo, 12 de julho de 2009

Poesia feita canção ou canção em jeito de poesia

      Entre símbolos... 

      ... os da passagem (que é vento, que é sopro, que é tempo) e a temática da maturação no amor ("o vento sopra doido", "o que foi do / Corpo alado / nas asas do turbilhão", "Só meras brisas / Raras"), mais os da própria vida.


O SOPRO DO CORAÇÃO

Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então
(Porque não)
Porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor mero gozo
Sorvedouro caprichoso
No sopro do coração
No sopro do coração

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão

Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras

Corto em dois limão
Chego o ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho
No sangue do coração
Pulsar em vão
É bem dele
É bem isso
E apesar disso eriça a pele

O sopro do coração
O sopro do coração
Sérgio Godinho
(letra para a canção interpretada pelos Clã,
CD-álbum Lustro, de 2000)

      Se o coração é vida e paixão, na poesia há tempo, razão, força e serenidade sempre com emoção e (re)criação..

      Ficam sempre as sensações, os sentidos do prazer vivido... a cultivar a imaginação.

sábado, 4 de julho de 2009

Quando a rainha deixa de ter "coroa"

     A necessidade de, na língua, coroar rainhas (com o que elas não podem ter) tem muito que se lhe diga...

    Não é incomum a presença de acento gráfico em palavras que não o têm. Entre as mais frequentes, encontram-se as ocorrências gráficas de 'juiz', 'campainha' e a 'rainha'. 
     Para todas, algum conhecimento da História da Língua bastaria para se dar conta de que, nos presentes casos, a grafia '-ui-' e '-ai-' é exemplo de sequências de vogais que não constituem ditongo. São exemplos de hiato, decorrente da queda intervocálica de [d], [n] e [g], respectivamente (judĭce-, campanīna-, regina).
    Casos de língua implicados na aprendizagem da gramática em articulação com a escrita (e a leitura), novamente com os media a não darem bom exemplo.

    Que suba Lance Armstrong, e que dê novas provas do seu heroísmo; mas que as dúvidas de alguns jornalistas não sejam muitas acerca da escrita da língua (apesar de na leitura oralizada sempre poder haver orientação intuitiva e até falaciosa). Qualquer dia, porque há quem diga que podemos escrever conforme falamos e porque lemos com acento - fónico - no 'i', ainda criam novo caso para o acordo ortográfico!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Desafio linguístico: isto é predicativo?

     Não sendo questão nova, mantêm-se dúvidas (algumas com as quais me identifico), à espera de que se faça / construa alguma luz e certo de que esta tem de decorrer de estudo; também de pesquisa, de ensaio, de confronto, ... de tempo. Além disto, a vida também ensina que não há resposta para tudo... e cá vamos construindo estratégias de aproximação e de sobrevivência.


     Q: Que me dizes dos destacados? São predicativos do sujeito ou predicações?

i) O João está em Paris. / O médico está aqui.
ii) O João, muito doente, está em Paris.
iii) Esta tinta é para pintar a casa.
iv) A festa foi ontem.

    R: Algumas notas para algo que se tem vindo a tornar complicado:
(1) no plano semântico e da lógica proposicional, fala-se de 'predicações quando se atribui uma propriedade a uma entidade ou se estabelece uma relação entre entidades - nos exemplos dados, há predicações [estar em Paris], [estar aqui], [ser/estar muito doente], [ser para pintar a casa], [ser ontem] associadas a diferentes entidades;
(2) segundo, há que distinguir a terminologia do nível semântico-proposicional da de um outro que se prende com questões de natureza estritamente sintáctica (como as funções sintácticas, nomeadamente o predicativo do sujeito);
(3) terceiro,a questão da predicação, no domínio da lógica e da semântica, contempla segmentos proposicionais traduzíveis em funções sintácticas diversas;
(4) quarto, a predicação implicitada no segmento encaixado em ii - muito doente - é sintacticamente um modificador apositivo, explicativo ou não restritivo;
(5) quinto, a questão do predicativo do sujeito, no plano sintáctico, admite várias configurações: grupo adjectival (O João é inteligente), grupo nominal (O João é um crânio), grupo adverbial (O João está bem), grupo preposicional (O João está em êxtase);
(6) sexto, um caso que não é muito canónico é o que diz respeito a, por exemplo, 'O João está na escola' - 'na escola' é assumido por reputados estudiosos da sintaxe como um exemplo de predicativo do sujeito, argumentando-se com o critério sintáctico seguinte: um mesmo comportamento sintáctico determina a existência de uma mesma função, aferida por testes sintácticos comprovativos.
     Ora, assim sendo, na linha do que se lê em (6), teríamos:
a) O João continua doente.
b) O João continua no hospital.
c) Teste sintáctico da coordenação: O João continua doente e no hospital.
    Tudo muito bem: questão sintáctica, com testes sintácticos. Todavia, não tenho deixado de discutir muito este caso, ainda que reconheça que o teste sintáctico da coordenação seja sensível à classificação de predicativo do sujeito para os segmentos destacados.
     Eu não generalizaria este exercício a todas as ocorrências. Convoco, para estas últimas, a necessidade de uma interface entre a sintaxe e a semântica, particularmente no que diz respeito aos papéis temáticos assumidos pelos sujeitos / complementos / predicativos (à boa maneira integrativa da gramática de valências). Isto porque creio que o teste sintáctico não resulta tão eficaz em frases como 'A Maria está estudiosa e na praia' ou "A escola está ali e azul". Assinalaria estas coordenações, no mínimo, com uma interrogação, para marcar alguma estranheza (se não for mesmo pela agramaticalidade).
     Diria, por fim, que, à semelhança do verbo 'continuar' que nem sempre é copulativo (por exemplo, 'continuar um trabalho'), pode ser testada a hipótese de 'estar' e 'ser' admitirem realizações que se afastam da sua classificação prototípica. Nessa linha colocaria a realização 'ser para' proposta em iii), com o sentido de 'servir'.
       Didacticamente, considero assim relevante que, neste caso, se seleccione bem os exemplos a trabalhar, evitando cenários que se revelem demasiado complicados, porque não pacíficos ou implicando estratégias de manipulação / testagem ainda não acessíveis à consciência linguística ou ao processamento cognitivo dos alunos.

       Mais um exemplo para assumir a progressão da abordagem da gramática em função do critério de processamento cognitivo e dos mecanismos linguísticos implicados; não porque a tradição o determina. Como alguém já o disse "tradition is not what it used to be".

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ponte de gente

       Das pontes muito se diz: há que fazer pontes, que muitas vezes estamos como o tolo no meio da ponte, que se vai ter uma ponte, que Setembro ou seca as fontes ou leva as pontes...

Há uma ponte, rumando ao desejo,
Feita de pontas geradas da terra;
Lança-se ao céu; mas, em pleno festejo,
Entrega-se à margem (nela se cerra).

Saída do chão, pede ao vento a mão
(traidor, por ela passa; causa dor);
do solo recebe dupla acessão
(convite à tenacidade do amor).

Imitando o sol, nascente e poente
(num vaivém que, por tempos, desampara),
Dele afastada, humilde, se sente:
fora da terra, o vento encontrara;
ansiara o céu; porém, assim que amara,
faz-se terrestre em entrega cadente.

É ponte fiel: liga-se ao que vira
no começo de tudo; ao que sentira,
regressa, num futuro que espira.

Uma ponte com duas margens sente…
Nelas se faz gente contra a torrente.
Espinho
VO

... Porque Espinho tem muito mar e é local para muitas pontes.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Desafio linguístico e a diferença dos artistas

    Na leitura da página que fecha o último número da revista Visão, Ricardo Araújo Pereira foi destacando algumas notas que me fizeram sorrir. A abaixo apresentada chamou-me a atenção pelo que foi lido e pelo que foi lembrado / associado.

Assim se lia:

     Entre o que é (artista) e o que não é, este pequeno excerto propõe a aplicação e uma breve explicação de um conceito - polissemia - que me fez lembrar um outro: o da homonímia. Por vezes, aparecem confundidos entre si (ou mesmo com outros conceitos gramaticais), quanto mais não seja porque, ao nível da superfície, a consciência sincrónica da distinção pouco mais além vai da aproximação que o significado lexical oferece no caso da polissemia (explorando zonas ou campos de significado comuns, aproximados, assentes numa só entrada de dicionário), mas que a homonímia não tem.
      Um dos critérios fundamentais para o contraste polissemia / homonímia é o que diz respeito à etimologia: enquanto na primeira a entrada etimológica é uma só ('ser cabeça de cartaz', 'doer a cabeça', 'ser a cabeça do grupo', 'estar à cabeça' são expressões que recorrem a uma palavra comum com zonas de significado muito próximas - apontando para um campo semântico construído na base de uma palavra cujo étimo é para qualquer dos casos 'capitĭa-'), o mesmo não acontece com a segunda ('começar a música com o dó' e 'ter dó de muita gente' apontam para contextos de significado muito distanciados, comprovados ainda pela distinção etimológica de duas palavras: do italiano 'do', no primeiro caso, e do latim 'dolu-', no segundo); outros critérios frequentemente aduzidos para a diferenciação são bem mais falíveis.
       Ora, pela complexidade que a homonímia acarreta na sua explicação (no que à consciência, e sublinho, consciência linguística diz respeito), no processamento a que todos os professores se devem sujeitar (e muito mais os próprios alunos) pelo recurso a instrumentos e critérios distintivos, não me parece ajustada a prática comum de assumir este fenómeno como conteúdo de ensino-aprendizagem, por exemplo, a abordar logo no primeiro Ciclo - como, aliás, o acaba por fazer o novo programa homologado de Língua Portuguesa (Ensino Básico). Diria, assim, que, neste capítulo, se compromete alguma da progressão gramatical assente na dimensão do processamento de mecanismos linguísticos; com o programa anterior, ao assumir-se o tratamento da homonímia no terceiro ciclo, revelava-se uma consciência mais clara (e de possível, maior e melhor explicitação) de que as relações entre grafia e fonia são mais evidentes, nos primeiros anos de escolaridade, no plano da homofonia, homografia e paronímia (para não falar da pertinência maior do contraste destas relações com os comportamentos de escrita / leitura).
       Como saberão os alunos, de forma consciente, que o cabo de um talher ou um cabo de mar, por mais que se associem a um significado de extremidade, são exemplos homónimos (confrontem-se os étimos 'capŭlu-' / 'capu-') sem a ajuda de um bom dicionário? E à 'pena da galinha' associarão, polissemicamente, a 'pena da escrita' que hoje não utilizam, porque têm esferográficas? Entenderão que 'valer a pena' corresponde a uma realização polissémica da 'pena' que sentem ao ver um amigo partir (ambas provenientes de 'poena-')? E que esta última pena é homónima daquela que vêem na galinha (proveniente da forma latina 'penna-')?

       Espero que tenha dado para ver o que é e o que não é (polissemia / homonímia). Portanto, mais um caso para se preparar e/ou trabalhar com o dicionário ao lado (a acreditar num trabalho da gramática mais laboratorial, oficinal e menos na transmissão professor > aluno), evitando generalizações que o senso comum e a vontade de tudo fazer (com rapidez) tendem a oferecer, e algum estudo acaba por não conceder.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Tempo, música, companhia e poesia

   Uma amiga manda-me, todos os fins de semana, um postal poético, musicado; outras vezes pintado. Desta feita, convidou-me a recuar ao passado...

    Lembrei-me de uma música (esta minha costela anglófona!) que, de tão simples e harmoniosa, se tornou hino de amor (dizem que de um rei para uma mulher tornada rainha, até que a graça real a descoroou e decapitou).

      
     De Henrique VIII e Ana Bolena... teve o rei o coração ao pé da boca (to have his heart on his sleeve).
     Alguns anos mais tarde, Shakespeare faria da música tópico poético:

És música e a música ouves triste?
Doçura atrai doçura e alegria:
porque amas o que o teu prazer resiste,
ou tens prazer só na melancolia?
Se a concórdia dos sons bem afinados,
por casados, ofende o teu ouvido,
são-te branda censura, em ti calcados,
porque de ti deviam ter nascido.
Vê que uma corda a outra casa bem
e ambas se fazem mútuo ordenamento,
como marido e filho e feliz mãe
que, todos num, cantam de encantamento:
       É canção sem palavras, vária e em
       uníssono: "só não serás ninguém".

trad. de Vasco Graça Moura, in Os Sonetos de Shakespeare (Versão integral)
Lisboa, Bertrand, 2002, pág. 27


Music to hear, why hear'st thou music sadly?
Sweets with sweets war not, joy delights in joy;
Why lov'st thou that which thou receiv'st not gladly,
Or else receiv'st with pleasure thine annoy?
If the true concord of well-tuned sounds
By unions married, do offend thine ear,
They do but sweetly chide thee, who confounds
In singleness the parts that thou shouldst bear:
Mark how one string, sweet husband to another,
Strikes each in each by mutual ordering,
Resembling sire, and child, and happy mother,
Who all in one, one pleasing note do sing:
       Whose speechless song being many, seeming one,
       Sings this to thee: 'Thou single wilt prove none.'

William Shakespeare
    
     Combinação artística e estética: letra e música, com o amor em pano de fundo.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Do Alimento do Homem

   Da velha tradição índia...

   Pensamentos simples de homens que sabiam ver o essencial da natureza humana:

    Seleccionemos o alimento, o do corpo e o do espírito, para que sejamos maiores num Mundo melhor.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Dalí e Pessoa

      Relembrando Pessoa, pela diversidade que persiste na unidade; ou pela unidade que se fragmenta em múltiplas sensibilidades.

      Pelo que se é a cada instante; pela necessidade que se tem de contactar com a Natureza circundante; pela conformação e adequação às circunstâncias da vida; pela ânsia, pela força e pela energia experimentadas; pelas (des)ilusões que nos atingem... eis as pessoas que somos e que Fernando Pessoa nos revela, na consciência moderna do Homem e da sua relação com o Tempo e o Espaço do século XX.

Não sei quantas almas tenho
Figura com gavetas, Salvador Dalí (estudo)
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é.

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo,
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

                                                               Fernando Pessoa,
                                                               in Novas Poesias Inéditas,
                                                               Lisboa, Ed. Ática, 1973

       E, perante isto, ainda há quem defenda que o que não cabe no ortónimo figura nos heterónimos; ou que o "restante" destes "faz de si"!
      Nem com aspas consigo entender bem esta pretensa 'normalização' de um Pessoa, que não deixou de ser o responsável primeiro pela teoria do fingimento. Onde ficam os ecos dos primeiros neste último ou, ainda, os do final naqueles que dele resultaram? A unidade na diversidade é conceito teórico há muito já abordado, sem linhas de fronteira no território da Arte.
      O ser que somos - dependendo do dia, do momento, da situação e das pessoas com quem interagimos - é tão divisível quanto os segundos, os minutos e as horas do tempo, em contínuo fluir.
       
     Falem, ou melhor, escrevam os alunos de 12º ano, que sobre isso tiveram de tecer sumariamente algumas considerações em pleno exame. Nem sei que diga!

Sintaxe... oblíqua... de novo

      Vem mesmo a propósito dos complementos oblíquos e de como estes andam tão mal tratados na escrita (e na leitura) - exemplo da abordagem da gramática pela entrada de sentido, entretanto com condições de enveredar pela entrada de âmbito oficinal.

      Um bom trabalho de análise de erros aparece motivadamente enquadrado com a verificação de erros do tipo proposto num pequeno segmento textual que se sucede ao título dado:


in revista de periodicidade semanal, correspondente à semana de 22 a 28/06/09

      A sequência relativa que expande o período final é um bom exemplo de má selecção da preposição que acompanha o verbo 'participar'. Considerando a estrutura argumental do núcleo verbal da subordinada relativa (X participar em Y), dir-se-ia que o predicado correspondente ('participaram no evento') inclui um complemento oblíquo ('no evento') que, a ser recuperado por uma relativa antecedida de preposição, teria de ser configurado da seguinte forma: Mais de duas mil pessoas assistiram ao evento, no qual participaram vários craques da Selecção das quinas.

     Mais uma prova ou razão para defender que a expansão frásica por meio de subordinadas relativas não pode ser didacticamente tratada num só ano ou ciclo de escolaridade, dadas as dificuldades de processamento que estas acarretam (como os casos das relativas antecedidas por preposição e com funções sintácticas que evidenciam alguma complexidade). Assim retomo a comunicação já referida em notas anteriores e o que nela pode ser lido sobre a progressão na sintaxe.

sábado, 20 de junho de 2009

Sintaxe... de novo... da mais oblíqua!

     Coloquemos os pontos nos is e os acentos devidos quando de 'oblíquo' se trata... cruzando com posts já aqui apresentados.

     Q: Afinal, o que é um complemento oblíquo? Uma colega diz-me que é o que se passa em casos típicos como os da frase "Eu estou na escola", com o 'na escola' a desempenhar essa função. É verdade?


    R: A designação de complemento oblíquo corresponde à função sintáctica que, na primeira versão da TLEBS, se identificava com os complementos preposicionais e os complementos adverbiais, o que não tem a ver com o exemplo dado, seguramente (pois 'na escola', no contexto de precedência de um verbo copulativo, desempenha a função de predicativo do sujeito).
       A designação de 'complemento oblíquo', não sendo muito familiar no campo da didáctica da gramática, é a que se relaciona com características ou universais linguísticos sintácticos: os verbos requerem argumentos para saturar o seu significado, sendo que uns se fazem acompanhar de complementos directos (os transitivos directos, isto é os que seleccionam complementos no caso acusativo), de complementos indirectos (os transitivos indirectos que admitem complementos configurados no caso dativo, substituíveis na terceira pessoa por 'lhe/lhes'), de complementos oblíquos (os transitivos indirectos que admitem complementos que não cabem em nenhum dos casos anteriormente considerados). Trata-se, portanto, de uma designação que articula as funções sintácticas com indicadores de caso.
       A título de exemplo, são complementos oblíquos os segmentos em itálico propostos nas frases seguintes:
     i) Nas férias passadas, fui a Barcelona. (> aí / lá; a esse sítio/local)
     ii) O meu irmão adaptou-se à nova turma. (> a isso)
     iii) Eu moro aqui, junto ao Estádio das Antas. (> neste sítio / local)
     iv) Não gosto de esperar. (> disso)
     v) Vou colocar os livros na pasta. (> aí / lá, nesse sítio)
      Todos eles são segmentos seleccionados pelo verbo principal (ir, adaptar-se, gostar, colocar), configurados sob a forma de grupo preposicional (a Barcelona, à nova turma, de esperar, na pasta) ou grupo adverbial (aqui).
     Em termos didácticos, considero que, para se trabalhar complementos oblíquos, há que seguir os seguintes passos, progressivamente equacionados na abordagem sintáctica de frases:
       a) diferenciar complementos (elementos seleccionados pelo núcleo verbal da frase) de modificadores (elementos não requeridos pelo núcleo verbal da frase);
       b) distinguir tipos de complementos considerados no predicado da frase - directos, indirectos, oblíquos (pela aplicação de testes de identificação: interrogação e pronominalização, por exemplo);
     c) progredir na abordagem de complementos oblíquos (por exemplo, abordando inicialmente os que digam respeito a informação de localização temporal / espacial, num contraste típico entre o que sejam complementos oblíquos seleccionados pelo núcleo verbal e modificadores; depois, tratando os complementos que revelem outro tipo de informação, segundo o tipo semântico de verbos utilizado).
      Assim, primeiro, é importante distinguir "Eu moro no Porto" (complemento oblíquo) de "Eu comprei uma casa no Porto" (modificador de valor locativo); depois, nada como abordar os complementos oblíquos pela sua própria especificidade, face a outros complementos, e com os valores semânticos distintos relativamente aos atrás considerados.
    Parto, portanto, da possibilidade de a gramática poder ser ensinada segundo duas perspectivas: pela entrada de sentido (mais associada e articulada com as competências de leitura e escrita); pela entrada da reflexão da língua, numa perspectiva mais oficinal. Se os complementos oblíquos são importantes, para o primeiro caso, em contextos de regulação da escrita (com a preocupação na selecção adequada das preposições que acompanham determinados verbos – ex.: preferir X a Y; cuidar de Y, ir a Y, ir para Y, vir de Y, …), para o segundo, o trabalho centra-se mais na natureza distintiva destes complementos relativamente a outros já abordados (os directos e os indirectos, no primeiro e segundo ciclos; o oblíquo concluir-se-ia no terceiro).
     Focalizando casos de complementação e sua distinção relativamente aos modificadores, é possível trabalhar oficinalmente o contraste da seguinte forma:

        1. Atentar nas seguintes frases:
            a) Os amigos meteram um papel numa garrafa.
            b) Os miúdos puseram um papel numa garrafa.
            c) Os meninos viram um papel numa garrafa.
            d) Eles observaram um papel numa garrafa.
            e) Eles leram um papel numa garrafa.
        1.1. Indicar as frases nas quais se pode retirar “numa garrafa”, mantendo-se as frases correctas. (R: c, d, e)
        1.2. Identificar as frases nas quais a expressão “numa garrafa” é pedida pelo verbo pertencente ao predicado. (R: a, b)
   2. Os complementos de um predicado são exigidos pelo verbo principal; os modificadores não são obrigatórios.
        2.1. Referir as frases que apresentam “numa garrafa” como modificador. (R: c, d, e)

    Focalizando a distinção de complementos, poder-se-á estruturar um questionário da seguinte forma, para as mesmas frases:

  1. Os predicados com elementos destacados a verde começam com um verbo que pede um ou mais complementos.
     1.1. Identificar os verbos que precisam de dois complementos. (R: meter [X em Y], pôr [X em Y])
     1.2. Indicar os verbos que só necessitam de um complemento. (R: ver [X], observar [X], ler [X])
     1.3. Referir o complemento que pode ser substituído pelo pronome pessoal ‘(n)o’. (R: um papel)
     1.4. Reescrever cada uma das frases começando-as por “um papel”. (R: Um papel foi metido pelos amigos numa garrafa,… [transformação passiva, enquanto mecanismo de identificação do complemento directo da frase activa, o qual se transforma em sujeito na frase passiva])
  2. Considerar a expressão “numa garrafa” em todas as frases.
     2.1. Assinalar as frases nas quais a expressão funciona como complemento. (R: 1a e 1b)
    2.2. Verificar a possibilidade de “numa garrafa” poder ser substituída pelos pronomes ‘a’ ou ‘lhe’. (R: Impossibilidade nos dois casos)
 3. O complemento directo de uma frase pode ser substituído, na terceira pessoa, pelos pronomes ‘o(s)/a(s)’, ‘lo(s) / la(s)’ ou ‘no(s) / na(s)’; o complemento indirecto, por ‘lhe(s)’.
    3.1.Relacionar a conclusão anterior com a expressão ‘numa garrafa’. (R: não é complemento directo nem indirecto, em nenhuma das frases) .

    Poder-se-á, então, concluir, depois de tanto trabalho indutivo (metodologia que prefiro, no que à abordagem da gramática oficinal diz respeito), que este complemento tem uma designação motivadamente distintiva (complemento oblíquo).

    Mais um exemplo de como uma abordagem oficinal e a consideração de um critério de progressão poderão minimizar alguma estranheza que os alunos, munidos dos instrumentos e testes de identificação adequados, acabam por reconhecer a funcionalidade.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Pensamentos partilhados por um bom livro

     Ler um livro quando se está no local da intriga é duplamente motivador. Há quase um ano foi assim.

     O encontro de Daniel Sempere com uma obra de Julián Carax (A Sombra do Vento), no Cemitério dos Livros Esquecidos, é um exemplo de paixão pelos livros; o fascínio pela escrita revê-se numa caneta que, de tão desejada e estimada, só pode ser merecida por quem vive um mesmo tipo de amor. São estas as chaves, estes os sinais de leitura para o desvendar de uma intriga feita de mistérios, encontros e desencontros, perseguições, regressos, descobertas.

    "Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desfiavam-se os primeiros dias do Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derramava sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido.

   - Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel - advertiu o meu pai. - Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
   - Nem sequer à mamã? - inquiri eu, a meia-voz.
  O meu pai suspirou, amparado naquele sorriso triste que o perseguia como uma sombra pela vida.
  - Claro que sim - respondeu, cabisbaixo. - Para ela não temos segredos. A ela podes contar tudo."


    Assim se inicia o romance, a mostrar que "poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo - não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos -, vamos regressar"; ou, ainda e na voz de Julián, que "Os livros são espelhos: só se vê neles o que a pessoa tem dentro".
    Fecha o romance como começou: num ciclo de vida que se repete e se marca por leves diferenças, por mais intensas que tenham sido as etapas que o compõem.

   Assim foram acompanhadas as férias por Barcelona, cidade tão misteriosamente conhecida por Carlos Ruiz Zafón, escritor catalão; representada numa intriga que, traçada pelo imaginário do romance gótico, remonta à primeira metade do século XX. Perante o entusiasmo vivido, há escritores que vale a pena reencontrar: venha O Jogo do Anjo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Lá vem dúvida linguística

    Ora vamos lá ver o que há a dizer...

    Q: O advérbio 'lá' é um exemplo de deíctico de espaço ou de pessoa?

    R: Apetecia-me dizer "Sei !", para mostrar que, neste caso, se explora nocionalmente um sinal de afastamento face à esfera de conhecimentos do 'eu' que fala, para configurar uma partícula de negação; relembrei "Esta velha angústia" de Álvaro de Campos e os versos "Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer! / Por exemplo, por aquele manipanso / Que havia em casa, nessa, trazido de África.", nos quais comparece um 'lá' deicticamente contrastivo face ao 'cá' - numa referencialidade que permite diferenciar o espaço lembrado ("... em casa, lá nessa...") daquele que se encontra implicitado e associado à produção escrita (o 'cá', 'este' ou 'esta'); distinguir o tempo da memória ('lá', na "minha infância perdida") daquele que surge vivenciado no período de produção e de "mal-estar a fazer-me pregas na alma".
      Espacial ou temporal, os textos o dirão; pessoal, por certo o será, dado o sentido vectorial dos contrastes 'lá' ou 'essa' / 'cá' ou 'esta' (mais distante / mais próximo da voz que se assume como 'eu' do discurso.
      A nível da deixis, a Professora Fernanda Irene Fonseca, no artigo "Deixis e Pragmática Linguística" (in Introdução à Linguística Geral e Portuguesa, da Editorial Caminho), refere bem como a deixis pessoal é "essa forma básica" de localização, pois esta (de ordem mais temporal ou espacial) é sempre feita "relativamente à posição ocupada pelos falantes. O espaço em que se realiza a mostração, mesmo no caso mais concreto da deixis espacial, não pré-existe ao acto de enunciação, é determinado por ele". Seja como for, é o contexto e o texto em análise que orientam para uma tipificação mais precisa dos deícticos
    Além disto, nunca esquecer a funcionalidade anafórica do termo 'lá' (numa retoma de antecedentes discursivos: "Na cidade, não respirava a pulmão cheio; no campo , o ar invade-me todo o peito. Lá era a contenção; cá é a conquista").

      Ia lá eu saber que tão pequena palavra desse tanto que falar... ou escrever.

domingo, 14 de junho de 2009

Erros clássicos: um caso dos 'media' (para não dizer de um 'medium')

      Na base do que os próprios media nos oferecem, e sempre correndo o risco de ver quebrados os meus telhados de vidro, lá vai um bom exemplo do mau trato da língua.

     Num texto que fala de crise... a da língua está mais do que instalada, difundida e sem fim à vista, mesmo que o texto aponte para o tema-título "Retiros espirituais":


in Jornal de Notícias, 14 de Junho de 2009, pág. 61

       A menos que o leitor esteja num estado depressivo tal em que já não folheia para ler (só desfolha, pela simples vontade de destruir), diria que o exemplo não é novo. É clássico. Por várias vezes me referi a ele junto dos meus alunos (sim, porque, diziam eles, também desfolhavam livros, o manual... e eu, ironicamente, lá os acusava de destruidores implacáveis de bens publicados em suporte papel).
       Para lá da questão da selecção lexical e da distinção significativa (no confronto do par desfolhar / folhear), este sempre é um bom caso para se trabalhar a morfologia: chamar a atenção para a formação da própria palavra 'desfolhar'.
      À base 'folhar' (dicionarizada com o sentido de 'fazer criar folhas', 'cobrir de folhas' ou 'dar a forma de folha') é acrescentado um prefixo 'des-' que, geralmente, é considerado de negação (a par de 'in-' ou 'a-'); todavia, no caso concreto, associa-se mais ao significado de separação, orientação contrária ou complementar para um processo ou acção (na mesma lógica de ligar > desligar, instalar > desinstalar, fazer > desfazer, mascarar > desmascarar, abotoar > desabotoar, carregar > descarregar) e não tanto à negação prevista entre harmonia /desarmonia, confiança / desconfiança, cortesia / descortesia, proporcional / desproporcional, propositado / despropositado, acordo / desacordo, igual / desigual.
      Um outro significado pode ainda associar-se a 'des-': reforço ou aumento de intensidade. É o que se pode encontrar em formas como 'desinquieto', 'desinfeliz' ou ainda o popular 'deslarga-me'.
      Pelo trabalho de consulta dicionário, pode ser feita a construção de diferentes grupos com palavras (previamente fornecidas ou a pesquisar) que apontem para esta diferença de sentidos transmitida pelo mesmo prefixo:
(i) ser o contrário ou complementar a;
(ii) ser a negação de;
(iii) ser muito.

      Um caso de gramática a propósito de leitura. Valha o facto de sempre se aprender com os erros (os dos outros e os nossos também).

sábado, 13 de junho de 2009

Da fama dos elefantes

     Entre tantos animais na terra, fico-me pelo elefante...

     Não o Dumbo, de orelhas inusitadas, que é o herói da criançada; não Ganeixa, cuja cabeça elefantina é marca de divindade hindu; não os de Alexandre, o Grande, nem os de Aníbal, o cartaginês, que ficaram famosos pelas batalhas travadas; não os brancos, aos quais a história e o saber popular rezam como sendo singulares e dispendiosos.
      Fico-me por um elefante que só um escritor soube (re)ver, que faz a viagem por todos desejada: a viagem do espaço, do tempo, do uso, do poder, da realidade, da imaginação. Uma viagem que traz mudanças, que faz a diferença (na consciência de que, na linha da epígrafe, "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam"). E esse pode sempre ser o lugar da língua e da linguagem.


       Nas palavras do próprio autor, adivinha-se um livro cuja "viagem do elefante" se parece com a viagem, os percursos da própria língua, ao longo dos tempos e dos homens que a usam, bem como do acto de criação narrativa. É um gozo, uma brincadeira, em dezoito capítulos, com a própria língua, cada vez mais revista como convenção a violar e, quem sabe, como acto poético a (re)criar: "... não falta por aí quem diga que as fadas que presidiram ao meu nascimento não me fadaram para o exercício das letras, Nem tudo são letras no mundo, meu senhor, ir visitar o elefante salomão neste dia é, como talvez se venha a dizer no futuro, um acto poético, Que é um acto poético, perguntou o rei, Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu,..." (I - págs. 18-19).
      Cruzando com outras experiências de leitura do mesmo autor, regista-se: "No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade" (XVI - pág. 227). Assim se revê Memorial do Convento ou mesmo O Evangelho Segundo Jesus Cristo - romances que desafiam a perspectiva do(s) conhecimento(s) de mundo ou a versão oficial da História.

     Isto tudo para quem tenha memória de elefante ou para que ninguém esqueça, como diz o narrador, que "quem conta um conto não passa sem lhe acrescentar um ponto, e às vezes uma vírgula" (XIV - pág. 197).

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dúvidas e questões linguísticas

    Pragmática e linguística textual: área a (re)descobrir no ensino?

    Q: Num diálogo da obra O Leitor, de Bernhard Schlink, lê-se o seguinte:


" - Também aprendes alemão?
- O que é que queres dizer com isso?
- Só aprendes línguas estrangeiras, ou tens ainda alguma coisa a aprender na tua própria língua?
- Lemos textos."


    O pronome "isso" é um anafórico de quê? Alemão?

    R: Os anafóricos não são apenas elementos que retomam antecedentes sob a configuração de palavra ou grupo de palavras. No caso em concreto, ao falar-se de retoma, tem que se focalizar todo um acto de fala anterior a ser encarado como segmento antecedente; isto é, o acto de fala directivo apresentado no primeiro turno de fala (marcado por uma interrogação total) é recuperado pelo demonstrativo "isso" (o quê? > o facto de me perguntares se também aprendo alemão).
    Assim, em termos de análise do discurso produzido, o interlocutor que assume a voz no segundo turno de fala reenvia, anaforicamente, para o do primeiro, indagando-o quanto à intencionalidade ou ao sentido da interrogação total.

    A especificidade dos textos bem como o recurso a mecanismos que, a todo o momento, se pautam por lógicas que só a(s) leitura(s) dos textos admite(m) são fontes para o exercício de análise do discurso, quer oral quer escrito.