sábado, 21 de dezembro de 2019

O Irlandês - ou um mafioso nos Estados Unidos da América

    Um pouco na linha de O Padrinho (de Francis Ford Coppola, 1972, 1974, 1990), O Irlandês (Martin Scorsese, 2019) revela-se um retrato de personagem perfilado como mais humano.

    Refiro-me, naturalmente, a Frank Sheeran (Robert De Niro), mais particularmente ao percurso dele no final do filme, se não me ativer ao ponto de arranque da película, que dá lugar a um flashback (por vezes entrecortado por pequenos apontamentos dessa fase final de vida) daquele que se tornou num mercenário sindicalista nos anos sessenta do século passado.
      Numa teia de relações entre a mafia italiana e a ação dos irlandeses no contexto histórico americano do século XX, a personagem passa de simples camionista / transportador de carnes a sindicalista de carreira no mundo do crime organizado - ou, como metaforicamente o assume, como aquele que "pintava paredes e tratava da carpintaria", numa forma disfarçada de dizer que matava e fazia explodir, respetivamente, quem e o que era sinalizado como perigoso para o líder da família Bufalino, isto é, Russel Bufalino (Joe Pesci).
        No perfil de um veterano sobrevivente da Segunda Guerra Mundial e de um homem que quis proteger a família construída, não houve limites para os meios que o levassem a atingir este objetivo: tornou-se num assassino que, na fidelidade para com os Bufalino, acabou por matar um amigo de longa data, Jimmy Hoffa (Al Pacino), líder do sindicato dos camionistas (tão corrupto quanto qualquer outro mafioso da intriga).

Trailer do filme Netflix (2019), realizado por Martin Scorsese

     Enquanto filme do crime organizado na América e num enquadramento histórico associado à ascensão e morte do presidente Kennedy, a intriga inspira-se numa obra de Charles Brandt, datada de 2004 e com o título I heard you paint houses, apoiada no registo biográfico verídico das personagens representadas.
      A perspetiva narrativa do filme identifica-se com a do protagonista que, entre a melancólica revisão do passado e a expectativa de uma morte que vai preparando, termina os seus últimos dias a recuperar o que parece irrecuperável e irremediável: o respeito das filhas que acabaram por o abandonar à velhice isolada e à progressiva limitação de ações / movimentos.
       Uma porta entreaberta fecha o filme. Seja pelo anúncio da morte que está para chegar seja pela ansiada entrada das filhas ao hospital, o que poderia sinalizar um perdão desejado por Frank para os seus atos condenáveis, ditados por um livre arbítrio indesculpável.

      Representações excelentes de Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, um trio de atores que contribui para um retrato de personagens e uma ambiência epocal tão cúmplices com os propósitos criminosos na luta de poder(es) quanto ilustrativos de diálogos entre o enigmático e o sigiloso tornados cómicos. Um filme Netflix a não perder.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Há cantos e cantos...

      ... e alguns nada têm a ver com melodias.

     Representar 'canto' como nominalização decorrente do verbo cantar - numa exemplificação do que é uma derivação  não-afixal  - não é passível de confusão com a noção de 'canto' como ângulo de duas paredes que convergem no espaço. À musicalidade implicada do primeiro não se associa a 'quina' ou 'esquina' que alguns veem (mas não ouvem) no segundo.
    E quando a distinção é bem notória, eis que há quem explore aproximações, comicamente configuradas pela homonímia do termo:

Interpretação dos homónimos - com e sem direito a música

    Homónimos são os 'cantos', pela origem diversa dos vocábulos: o com relações musicais proveniente do étimo latino 'cantus'; o de natureza mais geométrica, de 'canthus'. Por mínima que seja a diferença original ou etimológica, esta representa ou motiva dupla entrada no dicionário. Uma mesma escrita (homografia) para um mesmo som (homofonia), mas com significados bem diversos.

      Eu, que prefiro ficar no meu canto, estou mais para o sentido geométrico do que para o musical (para bem de quem tenha tímpanos sensíveis).

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Prenda de Natal muito necessária

     Conjugando duas imagens que têm tudo a ver uma com a outra.

     Primeiro, aquela consabida prova de que as legendas ou notas de rodapé televisivo continuam a ser do melhor (salvo seja!):

Legenda do melhor: mudem o nome dos 'Açores' para 'Açoris' 

      Isto de não saber que o sufixo é '-iano(a)(s)' para o topónimo em causa deve ser um problema decorrente dos próprios 'Açores'- se, para acertar, é preciso mudar o nome, vamos lá aos *'Açoris' (de modo a poder escrever-se 'açorianos' convenientemente).
      Depois a constatação de que a escrita anda pelas ruas da amargura no Facebook:

A prenda devida para muitas circunstâncias da escrita que surge aos nossos olhos

      Não é só nos perfis! (Nem apenas no Facebook, claro está!)

    Enfim, o inegável. Pai Natal, quero o meu dicionário em formato ou suporte eletrónico, se faz favor! (Sim, também preciso. De tão exposto que estou ao erro, começo já a ter demasiadas dúvidas sobre como escrever).

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Encontro (mais cedo) com o Pai Natal

      Aquele momento em que te pedem para fazer troca de prendas na aula.

    Dizem que é a magia do tempo, a forma de sedimentar laços... talvez um modo de construir memórias para lá destes dias. Surge, então, aquele instante no qual se dá expressão ao nascimento de algo mais importante do que as caixas, os laços, os papéis coloridos que envolvem um objeto mais ou menos igual a muitos outros vendidos ou comprados numa loja qualquer:

Encontro com o Pai Natal - I (Foto VO)

Encontro com o Pai Natal - II (Foto VO)
Com agradecimento à IC, IS, BR e LR

     Chegou-me às mãos e aos olhos, em múltiplos sorrisos, um postal num envelope dourado, com uma mensagem que só nós entendemos. Foi uma belíssima prenda de natal! Daquelas que são nossas, que têm a marca de vivências cúmplices, que se fazem com aulas e fora delas.

      Com o agradecimento especial àquelas a quem "martelo" todos os dias (bem..., na verdade, só alguns) para que me deem o que têm de melhor. E não é que o deram!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Uma questão de tempo (do visível e também do invisível)

      A propósito do programa televisivo 'Prós e Contras' (RTP-1) e da reflexão sobre o tempo.

    Talvez, melhor dizendo, dos tempos. Afinal, foram abordados muitos, numa perspetivação tão multifocada quanto representativa de como estar ou ver a vida.
      Reconheço que tenho assistido a vários programas televisivos cuja temática e discussão têm sido perdas de tempo - a sensação que me fica é a de que muito se discute nos "Prós e Contras" e, no fim, de nada vale, porque tudo rola da mesma forma, como se nada tivesse adiantado tanta argumentação. O de hoje, por ser mais reflexivo e equacionador da própria perceção do que é o tempo, não se me revelou tão improdutivo; pelo contrário, tomei-o como mais informativo, mais enriquecedor nessa versatilidade percetiva do que o 'tempo' é. Alguns momentos foram mesmo intensos na discussão, nomeadamente o da relação do tempo com a educação:

Excerto do programa 'Prós e Contras' (RTP1)

      O momento em que se discute que é preciso tempo na educação e que alguém parece não o querer dar - até como forma de manipular as mentalidades - surgiu-me como a oportunidade de sublinhar que ensinar a pensar, encarar a educação como um processo são conceções desafiadoras para os nossos tempos. E quando José Gil refere que o Estado não tem tempo e não dá tempo a quem dele precisa (do tempo, porque do Estado e do governo a discussão será muito outra), muito fica explicado de algum do desgaste e do insucesso educativo nos últimos tempos.
    O tempo que não se dá, o tempo que se retira, o tempo que se satura, o tempo que se ocupa inutilmente e, pior do que tudo, o tempo da ingratidão (quando, na relação educativa, devia ser bem o contrário). Uma ingratidão que acontece a vários níveis nessa relação entre o topo e os que dele dependem.
   O professor David Rodrigues mencionou a gratidão como "a grande provedora do tempo", fundamental na relação de alteridade (para com o outro) que a educação é. Ousaria acrescentar uma outra: a presença. Saber que alguém se mostra e está presente, atento e focado na melhoria do outro e da relação com ele.

      Quando em vez de gratidão e presença se dá lugar a ingratidão e ausência, não há ministério que seja bem sucedido. Ainda assim, muito do trabalho da escola será feito quase numa lógica de missão, de ação (re)construída, qual fénix renascida, a partir do clima de desencanto e desilusão. Porque há que lembrar que alguém vai sobreviver a políticas de ingratidão e de ausência.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Mais um dia... para os tricaidecafóbicos ou de outras fobias afins.

          Nova sexta-feira 13, ora pois então.


   Reza a tradição que é dia de azar, conforme já se explicou em apontamentos anteriores. Vários factos, mais ou menos supersticiosos, mais ou menos históricos assim o entendem.
      No Tarot, a carta do arcano maior número treze, é verdade, representa a Morte. Contudo, entendida esta última como fim de um ciclo não significa, definitivamente, o fim de tudo. Simboliza não a perda da vida, mas uma transformação de relevo, uma fase de desprendimento a dar lugar ao renascimento. Como uma forma de libertação (de desapego ao que possa representar a crise, o negativo), é uma "morte" ansiada.
     A imagem de um esqueleto a manejar a foice sobre um campo de pessoas, por mais assustadora que pareça, traz consigo a leitura da passagem, do transitório para uma nova etapa. Em hora de mudança, é tempo de superação.
     Associar isto tudo a uma sexta-feira é razão para, pelo menos, suspirar pela mudança: a do fim de semana que se anuncia. Nem pela parascavedecatriafobia nem pela frigatriscaidecafobia.

    Não sou, de facto, tricaidecafóbico. Sou pela leitura da mudança. Venha ela! Afinal, prefiro uma sexta-feira 13 a qualquer segunda-feira de outro número que seja.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

No dia seguinte...

      Depois do momento ontem vivido na conferência-concerto multimédia "O Violino de Auschwitz", folheei O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984).

    Perante um tempo com o qual não se identifica ideologicamente, o narrador do romance saramaguiano relembra a estátua de Camões e como esta não tem um, mas os dois "olhos cegos", fechados perante uma realidade histórica que não merece contemplação - nem a portuguesa nem a europeia:

       Se estas são mágoas de uma pessoa, a Portugal, como um todo, não faltam alegrias. Agora se festejaram duas datas, a primeira que foi do aparecimento do professor António de Oliveira Salazar na vida pública, há oito anos, parece que ainda foi ontem, como o tempo passa, para salvar o seu e o nosso país do abismo, para o restaurar, para lhe impor uma nova doutrina, fé, entusiasmo e confiança no futuro, são palavras do periódico, e a outra data que também diz respeito ao mesmo senhor professor, sucesso de mais íntima alegria, sua e nossa, que foi ter completado, logo no dia a seguir, quarenta e sete anos de idade, nasceu no ano em que Hitler veio ao mundo e com pouca diferença de dias, vejam lá o que são coincidências, dois importantes homens públicos. E vamos ter a Festa Nacional do Trabalho, com um desfile de milhares de trabalhadores em Barcelos, todos de braço estendido, à romana, ficou-lhes o gesto dos tempos em que Braga se chamava Bracara Augusta, e um cento de carros ornamentados mostrando cenas da labuta campestre, ele as vindimas, ele a pisa, ele a sacha, ele a escamisada, ele a debulha, e a olaria a fazer galos e apitos, a bordadeira com os bilros, o pescador com a rede e o remo, o moleiro com o burro e o saco da farinha, a fiandeira com o fuso e a roca, com esta faz dez carros e ainda hão-de portugueses, um deles, ainda assim, ilustrou a notícia com uma fotografia da praça, onde se viam, espalhados, alguns corpos, e uma carroça que ali parecia incongruente, não se chegava a saber se era carroça de levar ou de trazer, se nela tinham sido transportados os touros ou os minotauros. O resto soube-o Ricardo Reis por Lídia, que o soubera pelo irmão, que o soubera não se sabe por quem, talvez um recado que veio do futuro, quando enfim todas as coisas puderem saber-se. Lídia já não chora, diz, Foram mortos dois mil, e tem os olhos secos, mas os lábios tremem-lhe, as maçãs do rosto são labaredas. (...)
      Os dias seguintes são pródigos em notícias, como se o comício do Campo Pequeno tivesse feito redobrar o movimento do mundo, em geral damos o nome de acontecimentos históricos a estes episódios. Um grupo de financeiros norte-americanos comunicou ao general Franco estar pronto a conceder os fundos necessários à revolução nacionalista espanhola, isto há-de ter sido ideia e influência de John D. Rockefeller, nem tudo seria conveniente esconder-lhe, deu o New York Times a informação do levantamento militar em Espanha com todas as cautelas para não ferir o coração debilitado da ancião, mas há coisas que não podem ser evitadas, sob pena de males maiores. Para os lados da Floresta Negra, os bispos alemães anunciaram que a igreja católica e o Reich iriam combater ombro com ombro contra o inimigo comum, e Mussolini, para não ficar atrás de tão belicosas demonstrações, deu aviso ao mundo de que poderá mobilizar em pouco tempo oito milhões de homens, muitos deles ainda quentes da vitória sobre esse outro inimigo da civilização ocidental, a Etiópia. Mas, regressando ao ninho nosso paterno, já não é só sucederem-se as listas de voluntários para a Mocidade, contam-se também por milhares os inscritos na Legião Portuguesa, que este nome terá, e o subsecretário das Corporações lavrou um despacho em que louva, nos termos mais expressivos, as direcções dos sindicatos nacionais pela patriótica iniciativa do comício, crisol onde se acadinharam os corações nacionalistas, agora nada poderá travar o passo do Estado Novo.
(segmento XIV do romance)

      Na ironia de que se compõe o discurso narrativo, há todo um contexto que se revê no ano da morte do heterónimo pessoano (1936), enquanto pano de fundo para o "ovo da serpente", gerador de uma política agressiva, de um autoritarismo que se difunde no continente europeu, lançado numa espécie de labririnto ou teia composta pela guerra civil espanhola, pela ocupação de territórios pela Alemanha nazi, pelo fim da guerra da Itália contra a Etiópia e pela constituição de milícias fascistas em Portugal (com Salazar e a Legião Portuguesa).

       Ecos de um tempo em que, ao contrário do que Ricardo Reis afirma numa das suas odes, "Sábio [não] é o que se contenta com o espetáculo do mundo!"

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O Violino de Auschwitz

      Não é o conhecido título do livro de M. Àngles Anglada (romancista catalã), mas uma atividade escolar (e educativa) que fez relembrar um passado trágico.

 Uma conferência-concerto multimédia, promovida pelo grupo disciplinar de História da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira (ESML - Espinho), contou com a presença / dinamização do violinista / relator / investigador Maurizio Padovan. No Dia Internacional dos Direitos Humanos, este homem-espetáculo lembrou, a toda uma plateia de alunos e professores, um tempo que não pode ser esquecido. 
      Como contador de histórias e da História, comunicador eficiente e cativante, executante de peças musicais da época do holocausto, o professor Maurizio compôs a sua apresentação de uma forma tão impressionante e entusiasmante que a concentração do público era tão notória quanto respeitosa para a memória de todos aqueles que foram vítimas de outras concentrações - bem mais terríficas e fatais (as dos campos de genocídio nazi).
       Numa amplitude diversa de registos (do mais sério ao mais irónico e cómico; do mais grave ao mais anedótico), a História fez-se ouvir no que de mais grotesco, hediondo tem para a Humanidade, mesmo que mascarada, disfarçada de ilusões, na forma mais propagandística que os regimes fascistas também puderam construir. 
      Se a moda das meias de vidro (lançada a 27 de outubro em 1938, na Feira Mundial de Nova Iorque) abrilhantou, com grande sucesso, a beleza feminina, a Segunda Guerra Mundial não deixou de ver no nylon o material adequado para o fabrico bélico de pára-quedas, pneus, tendas, cordas, fatos impermeáveis. Quase fez com que, praticamente, desaparecesse a produção de meias. A fronteira do belo e do grotesco é tornada ténue. Se a música é arte de sons, melodias, harmonias e ritmo no e para o(s) tempo(s), é também prática cultural humana matizada de efeitos e sentidos inusitados - que o digam o 'tango da morte' ou a 'música da mentira'. São memória de um drama humano em várias línguas (alemão, checo, hebraico, iídiche, polaco, romeno), tantas quantas a tortura e o sofrimento fizeram ouvir. 

Demonstração-vídeo de "Violino de Auschwitz" (conferência-concerto na ESML)

      Se ouvir música / cantar fazia enfrentar e relativizar a sensação de fome e dor; se trazia notas de uma esperança a todo o tempo ameaçada, também com ela se anunciava a morte e se disfarçava o futuro irrevogavelmente fatídico na forca, nas valas ou nas câmaras de gás. Na condição de prisioneiros condenados à morte pela raça, ideologia e/ou religião, inúmeros judeus, ciganos, "diferentes" cavaram fundo, nas suas almas e na busca de inspiração, para criar e interpretar pautas de absurdo e de abismo, frequentemente culminadas em crematórios ou valas de morte.
     Aristides de Sousa Mendes não deixou de ser lembrado - um português nos "Justos entre as Nações" e nessa luta que foi a de salvar judeus e outras potenciais vítimas às mãos nazis. Um herói que terminou os seus dias em desgraça, depois da desobediência em consciência.
     Disto e doutras curiosidades se fez acompanhar o violino, instrumento cuja construção no concelho de Espinho data de 1924 com o artista Domingos Capela, jovem marceneiro, natural da freguesia de Anta. Arte e dedicação levaram-no a ser conhecido mundialmente. O filho Joaquim Capela tem mantido o interesse e o mérito / reconhecimento internacional, colocando Espinho no centro de uma tradição geracional e familiar voltada para o mundo. 

      Um violino que trouxe música para homenagear vozes que o Holocausto silenciou; que também convocou memórias pessoais de uma viagem que marcou; que deu as notas necessárias à evocação de um dia que, desde 1948 (quando a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos do Homem), se mantém atual. Um agradecimento ao grupo de História da ESML, que tornou esta manhã mais luminosa e celebrada.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Há meio ano

       Passaram seis meses (claro está)!

       O tempo era outro (estávamos no verão, com a brisa de um final de tarde) e o espaço também (no país vizinho, lá para os lados da Catalunha). Era uma vivência de música ao vivo, com um nome sonante do panorama atual. Um pequeno excerto do espetáculo colorido, assistido, é o que se apresenta:

Ed Sheeran ao vivo - Barcelona

       Hoje, em tempo de trabalho intenso, dá para ter vontade de reviver o concerto (já que, por cá, o desconserto vai sendo grande). Ou de reviver o filme que me deu a conhecer um britânico de voz inconfundível.

      ... e ficam os registos de algumas lembranças que valem a pena (mesmo que tenha havido instantes fora do circuito musical para esquecer).

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Um questão de sujeito(s)

     Não se pode dizer que seja novidade! Versão para outro(s) sujeito(s).

     Já se abordou uma questão similar em apontamento anterior: a do sujeito sintático de uma oração que, indevidamente, deu lugar a resposta que, no contexto do apontamento, só fazia sentido na orientação crítica pela política do momento (se é que não é a de todo o sempre).
      Desta feita, a versão da interação é outra:

Cartoon espelhando uma interação infeliz

    A felicidade de um sujeito é questão deveras polifacetada, a julgar pelas respostas dos alunos. Talvez a questão docente não tenha sido a melhor, na interação criada. Nada como explicitar o que se pretende, para que o discurso pedagógico resulte mais ajustado aos objetivos pretendidos. Se de sujeito sintático se trata, é bom que se questione acerca do mesmo, para não saírem outros, indesejados (nem o poético, nem o lírico, nem o discursivo, nem os que os alunos sugerem, na riqueza de "conhecimentos de mundo" que têm).
      Assim preferia, na boca da professora, a questão "Qual é o sujeito sintático da frase?" A variedade de respostas ficava bem mais inoportuna e inadequada (questões básicas de interação que um cartoon põe a nu, se não forem mesmo representativas de situações reais a evitar).
     Cá por mim, para além da questionação a corrigir, também não me ficava pelo sujeito clássico na sintaxe. No caso do nível secundário, por exemplo, apostava nos que surgem invertidos, para que não fique a ideia de que o sujeito sintático é sempre aquele segmento que abre uma frase ou oração (Diz-se que não há questões perfeitas / É interessante que o sujeito esteja no final da frase / À questão da professora responderam os alunos - só para me ficar por alguns casos críticos da localização sintática do sujeito).

       Por aqui me fico, para não ter que dizer que lá se foram os predicados - não os da frase, mas os dos alunos, cujas virtudes ficaram muito a desejar, um pouco também por causa do que a professora perguntou.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Veio o sol...

    ... e o pôr-do-sol fez-se mais colorido.

    Talvez pareça um paul, mas não é pantonoso. Talvez se assemelhe a matéria orgânica, mas não passam de paus a marcar a passagem de um passadiço, ladeado por arbustos e vegetação resistentes ao tempo e à aragem marinha que humidifica a pele.

Passadiço entre a Granja e São Félix da Marinha (Foto - VO)

     As cores são as de um fim de tarde, princípio de noite, matizados de tons quentes, apesar do frio sentido.
     Aproxima-se o inverno, o mar faz-se ouvir, mas persiste um horizonte iluminado que atrai o olhar e aquece a alma, farta dos dias de chuva que teimaram em regar a terra e o oceano nos últimos dias.

    Cumpre-se o caminho, de romagem à natureza, para esquecer o trabalho que também teima em não se dar por esquecido.

domingo, 1 de dezembro de 2019

A tradição já não é o que era! Pois a História também não!

     A História (sim, escrevo com maiúscula, para não associar a disciplina a uma historieta qualquer) reescreve-se (mal) na televisão.

       Tenho vários motivos para relembrar o 1 de dezembro - dos mais pessoais aos mais culturais. Uns tornaram a data feriado nacional; outros nem por isso, por mais importantes que para mim sejam. Já ouvi dizer muita coisa: que é feriado por ser o dia mundial da SIDA (preferível do combate à SIDA), por termos conquistado a independência (reconquistado ou restaurado, seria melhor), por causa do terramoto (com um mês de atraso). E, no meio de tudo isto, até feriado deixou de ser, por uns tempos - por mais que tenha sido dia para as nossas vidas.
       Hoje fiquei mais esclarecido quanto à imbecilidade informativa que reina na república:

Foto colhida a partir do ecrã televisivo - hoje na emissão da SICNotícias (Foto  VO)

    Palavras para quê? Cantam os altos dignitários da nação o hino (da República); regista algum incompetente da informação a assumida ignorância (da História). E assim segue um país, que não valoriza a sua Cultura e História (no âmbito da Educação).
     Tendo o ensino da língua, entre várias componentes / dimensões, a da Cultura e da História de um povo, também aquela sofre e reflete a aposta / o apagamento que destas se faz. A evidência de como tudo anda baço, negro (ou mesmo "negro boçal", como diria Padre António Vieira) está aos olhos de todos (mesmo daqueles que irão descobrir, por que razão celebraram, cantaram o [de]feito).
     Feriado a um fim de semana é coisa, por certo, escusada. Pior se revela quando se demonstra a agnosia dos tempos, particularmente dando-se a ler algo que não dignifica nenhum tipo de canal televisivo (público ou privado). Ainda vão dizer que temos república há mais de quatro séculos! 

     Batam palmas, façam festa, ponham a melhor fatiota e esperem pela "Greta" (que vai salvar o mundo com a sua cara de má e o seu "How dare you!"). Triste, tudo muito triste! Estamos a precisar de um novo restaurador para o que há muito se tem vindo a perder.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Recursos...

      ... expressivos, anote-se.

      A questão é pertinente, merecendo apontamento nesta "carruagem".

       Q: Bom dia, caro Vítor.
       Só um pequeno esclarecimento sobre esta questão: "E como anoitecia cedo, havia outro remédio senão ir agora a mata - cavalos a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar." Considerando a instrução "Identifica um recurso expressivo presente na expressão 'com o coração a refilar', considero metáfora, mas posso também considerar personificação? Abraço. Grato

     R: É assumida como natural, no campo literário, a relação de várias figuras de estilo, em termos do pensamento traduzido, às duas figuras-mãe: a metáfora e a metonímia. Dificilmente se falha quando uma destas é convocada.
      No caso em concreto, e uma vez que se trata apenas de uma instrução de identificação, deverão ser aceites ambas as respostas (metáfora e personificação). Na verdade, se a metáfora se encontra associada ao termo "coração", por motivos do sentimento e da emoção (coração como metáfora de sentimento), a personificação está focada na intencionalidade relacionada como o termo "refilar". O coração a refilar é a ideia de um sentimento personificado, com características humanas e o sentido da intencionalidade - com a intenção de contrariar, criticar, reagir.
       Fosse a questão outra, com os alunos a terem de explicitar a expressividade da figura de estilo, haveria a possibilidade de condicionar a resposta em função da justificação a dar.


      Não raras vezes nos deparamos com segmentos textuais, nos quais confluem vários recursos expressivos e/ou estilísticos. Sempre que tal acontece, a abertura a vários cenários de resposta é atitude a assumir, desde que os argumentos aduzidos na resposta sejam compatíveis com o recurso / a figura selecionada. Daí que, mais do que a identificação, seja desejável a explicitação da expressividade ou dos efeitos obtidos com o uso de tal recurso na mensagem.

       Claro que 'recursos expressivos' é uma designação mais abrangente para processos bem além das figuras de estilo; porém, no que a estas últimas diz respeito, personificação e metáfora andam bem alinhadas no exemplo transcrito.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Como se dúvidas houvesse

      As imagens são muito significativas da irracionalidade reinante nestes dias

      O que víamos há tempos em território americano chegou à Europa,... a Portugal,... a Matosinhos - corre o povo em cardume, direitinho ao anzol (que não vê), pensando no retalho de pano lindo que, vaidosamente, vai poder mostrar a todos:

Black Friday em Matosinhos (à moda de USA)

     Ainda há dias falava, nas aulas, sobre o Black Friday (que mais deve ser Black Days, já que nem de Friday nem de um só dia se trata), tudo a propósito de Vieira e do Sermão de Santo António. As semelhanças com a atualidade são inevitáveis, não fossem os peixes (seduzidos por um retalho de pano) metáfora dos homens (que se iludem com as falsas promoções).


     Outra coisa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima em muitos de vós, é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando, até que, assim suspenso no ar, ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida?!
     Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e porquê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isca na ponta desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis, ou vermelho, que chama de Cristo e de Santiago; e os homens por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois disso que sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros.
     Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos, nem esta ambição de hábitos.
     Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignorantemente. Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhe passou a era e não têm gasto e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça, ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano.
     Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro está que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar a vida por dois retalhos de pano, quem tem obrigação de se vestir, vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de escamas prateadas e douradas, vestidos que nunca se rompem, nem gastam com o tempo, nem se variam ou podem variar com as modas; não é maior ignorância e maior cegueira deixarde-vos enganar ou deixarde-vos tomar pelo beiço com duas tirinhas de pano?
     Vede o vosso Santo António, que pouco o pôde enganar o mundo com essas vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cónego regrante; e depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda. Com aquela corda e com aquele pano, pescou ele muitos, e só estes se não enganaram e foram sisudos.

Declamação e representação (adaptada) do sermão vieirino
por Marcelo Lafontana

       A atualidade e contemporaneidade da reflexão, com as devidas adaptações, impõem-se. Não se tratando de canibalismo puro, pouco falta. Talvez uma antropofagia social. Só porque há mais uns tostões, matam-se nas filas e nas multidões.

      O que foi escrito para o século XVII é visionário para os nossos tempos. Apetece dizer com Vieira que, ao Homem, parece ter sido dada a razão sem o uso; há animais que parecem ter mais o uso sem a razão. "Não é isto verdade? Ainda mal!"

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Relações... de risco homofónico

     Algumas podem resultar em ralações.

    Tudo depende do que um diz e o outro representa. No caso da homofonia, a situação pode ser crítica:

Um diálogo de risco homofónico

      Se o diálogo fosse escrito, não haveria tanta variedade de representação. As relações têm desta coisas, ainda mais quando, na língua, elas são mantidas entre a grafia (escrita) e a fonia (som, oralidade). Bem distinta na escrita e no significado, a homofonia pode acarretar expectativas bem diferenciadas no (n)amor(o).

      Para a próxima, é melhor pedir a resposta por escrito. Tudo por causa de piadas homofónicas.

domingo, 24 de novembro de 2019

Pontapés e futebol

         Só se fala do homem pelo grande feito futebolístico.

        Depois de conquistar a taça final dos Libertadores - principal campeonato de futebol da América do Sul, frente à equipa argentina do River Plate -, bem como o campeonato brasileirão, o Flamengo treinado por Jorge Jesus é equipa celebrada; Jesus, treinador endeusado.
      Na carreira ascendente ainda em terras lusas, a qualidade do treino não correspondeu à dos discursos. De tão comentado que foi pelo que dizia (mais propriamente pelos erros de fala cometidos), Jorge Jesus chegou a afirmar "Não sou Eça de Queirós" (como se alguma vez o tivesse de ser, para evitar tanto pontapé na correção da língua). Pelo que proferiu hoje, talvez devesse acrescentar que (também) não é Pedro Nunes ou, na forma alatinada, Petrus Nonius.
        É verdade que chegou ao Brasil, viu e venceu, qual Júlio César, mas não terá sido, seguramente, com cálculos matemáticos (muito menos os associados às medições do nónio):

Jorge Jesus, matematicamente falando

       Afirma-se como o catedrático do futebol. Na língua e na matemática está a precisar de aulas de apoio. Dezassete em dezasseis?! Dezassete mais dez (perdendo ou ganhando, tanto dá) resulta em dezasseis?!... E, portanto,... cerca de treze segundos de Matemática pura e... não percebi!

       Com exemplos destes, sublinham-se as múltiplas inteligências - nem todos temos as mesmas nem estão elas desenvolvidas da mesma forma. Jorge Jesus é grande no treino e na gestão desportiva, mas na língua e no cálculo..., portanto,... estou sem palavras!

sábado, 23 de novembro de 2019

Rimas incomuns

      Neste mês frio e chuvoso.

      Um dia de sol, dois ou três de chuva... assim têm sido os últimos tempos.
      Hoje, as cores do fim de tarde chamaram a atenção:

Tarde carregada junto à praia (Foto VO)

      E da imagem se compôs o texto - curto, antes que a chuva chegasse.

      Cores de um fim de tarde que
      se viu ameaçado pela chuva de
      um novembro invernoso, quando
      de outono ainda é, por enquanto.

      Nuvens sombrearam o dia sem
      o vigor do sol - escondido - nem
      o azul espelhado do alto céu no
      agitado, revolto mar. Acinzam-no!

      Imponente e ruidoso marulhar em
      subido e espumado leito, também!

      Só para que se saiba que nem só de léxico se compõe a rima.

      Que venham melhores dias e maior inspiração. O parco sol que nos visitou veio e foi; deixou o frio e a noite entrou.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Descubra a(s) diferença(s)

       Há frases que não merecem estar mal escritas.

       Foi o que pensei assim que encontrei esta:

Frase com defeito na escrita

       Para figurar nesta "carruagem", teve de sofrer um pequeno grande reparo:

Frase no seu melhor (de sentido e de escrita)

       Se há sítio onde não se pode colocar vírgula é entre o sujeito da frase ("Os melhores apertos da vida") e o respetivo predicado ("são os abraços").

      Numa frase com tanto sentido, pede-se o melhor registo escrito.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Cozinhar com alma

        No dia em que a fome é saciada com alma.

        Isto é o que cumpre dizer-se, depois de se ler...

Uma lousa muito recomendável, pela alma que tem
(A partir da foto de Sandra Andrade Reis)

      A placa anunciadora do repasto é um regalo para a comédia. À falta de melhor, acho que uma "almelete" caía bem! Deve ser uma amálgama, juntando as palavras alma e omolete.
     (A julgar pela última ementa aqui apontada, esta vem confirmar que a revolução ortográfica chegou à cozinha).

         A refeição promete. Falta saber se o estômago não se ressente.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ler o que não está escrito

     Volto ao Joker, mas, desta feita, nada a dizer do locutor ou da produção do programa.

     A questão é mesmo com o concorrente. Ao ler o que estava escrito na questão da ronda bónus, fê-lo erradamente. Leu conforme habitualmente se fala... mal.

Imagem da emissão de hoje do 'Joker', na RTP1 (Foto VO)

     Lá está o acento gráfico (agudo) na escrita da palavra; lá se identifica (e bem) a palavra como esdrúxula (ou proparoxítona). Ou seja, deve ler-se a palavra com incidência na sílaba destacada: diÓSpiro. Não como o concorrente a disse: diósPIro. É verdade que o comum dos falantes assim o faz (erradamente); até eu o fazia, por vezes, quando ia à feira e comprava nos agricultores da terra ou nas vendedoras de fruta. Se não o fizesse, ainda corria o risco de me dizerem "Olha, olha... o professor que não sabe falar". Eu até acho que sei, mas, se falasse como devia ser, ainda me atiravam com um diÓSpiro à cara.
    Há dias, cruzando-me com um ex-aluno na rua, dizia-me ele que ainda se lembra da aula em que aprendeu, no 12º ano, a dizer diÓSpiro. Se tiver visto o programa televisivo, também terá reparado como a escrita (cara) não bateu com a leitura (careta).

     Talvez seja uma questão de deriva da língua, da mudança que está em curso. Enquanto isso, vou à cozinha buscar e comer um diÓSpiro. Em pleno outono... o tempo dele.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"Do Porto / muito mais vivo que morto"

        No dia em que morre, celebra-se a música, a poesia, as artes.

      A herança de José Mário Branco é a do testemunho da qualidade musical e a da defesa dos valores democráticos e da liberdade. O compromisso com a música e a ideologia política é o exemplo de um homem para as gerações futuras, o de alguém que esteve preso por se ter engajado com um ideal de cultura e de política livres, contra um tempo de ditaduras e fascismos reinantes.
      Com o seu contributo e o de muitos outros companheiros de luta (Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho, entre outros), numa clandestinidade que ansiava pela mudança, lutou contra um regime, recorrendo às palavras do poeta Camões e a um refrão feito de (outras) "voltas" trocadas.

Filme com imagens de José Mário Branco (com poema camoniano)

       1942-2019, um percurso de 77 anos com essa amante que foi a música, que lhe deu muitas cantigas, algumas das quais encaradas como "uma arma contra a burguesia", um "alerta, às armas" ou a procura de "um mundo à justa medida".

       "Qual é a tua, ó meu?" Foste para longe, "P'ra muito longe / Onde nos vamos encontrar (/Com o que temos p'ra nos dar)". RIP.

domingo, 17 de novembro de 2019

Revolta na cozinha

      Se não for na cozinha, é na ementa.

    A troca de algumas pérolas do Português mal escrito é já uma prática constante entre alguns colegas de trabalho, sabedores de que aprecio esta nossa alternativa de escrita, meio popular meio desconcertante.
      A que me fizeram chegar recentemente é um primor de desortografia:

Apetece escrever "Uma imenta muito bariada"
(com agradecimento à TJ, por me ter feito chegar a foto)

   A revolta da escrita na cozinha ou na culinária?! Só escapa a pescada frita, mas sem o acompanhamento. Já o título se revelou um parto difícil; depois, nem com anestesia epidural isto lá vai: as tripas ficam com acento agudo (quando havia de ser grave); a moda fica quase em desuso, no atropelo da escrita do 'd', que resulta em grafema estranho; o arroz, coitado, virou palavra inexistente; as ervilhas, nem se fala (além de muito fonéticas no 'i' inicial, ficam com 'b', talvez porque sejam do 'nuorte, carago'!); a sardinha, para ser 'açada', deve sofrer de albinismo (segundo o dicionário e a eventual formação do adjetivo a partir de 'aça').

      A ementa na mica deixa-nos a micar bem. A escolha é difícil. Se a qualidade for na proporção da correção escrita, resta a pescada frita (só com salada)!

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Grave acentuar algumas graves

        É comum o erro de acentuação em palavras da mesma família.

       Não deixa de ser indesejável, quando poucas regras estáveis e elementares são ignoradas.Uma das mais básicas é a de não acentuar palavras graves terminadas em 'a' /'e' / 'o' seguidas ou não de 's'. Se 'autárquica' tem acento (por ser esdrúxula), o mesmo não sucede com 'autarquia' (grave); pelas mesmas razões, 'rápido' tem acentuação gráfica, mas 'rapidamente' já não: 'último' (adjetivo) não se pode confundir com 'ultimo' (forma verbal). São múltiplos estes casos da língua, muitos deles já comentados "nesta carruagem".
     Problema sério, diria, quase a justificar terapia (sem acento, por ser grave) ou abordagem terapêutica (com acento, por ser esdrúxula).

A Porquinha Terapeuta - (com agradecimento à IAA)

        Já no que ao 'terapeuta' diz respeito, volta-se a ter palavra grave, terminada em 'a', seguida ou não de 's'. Daí não ter acento gráfico.
       São tantos os locais que nos expõem ao erro que já chegamos ao ponto de frequentemente o gravar na memória, ou mesmo de grafar o impensável.
        Nos meios de comunicação social deveríamos ter o melhor dos exemplos. Lamentavelmente, não é o caso.

         Por regra, não se acentuam as palavras graves (terminadas em 'a/e/o'), exceto casos outros que escapem à dita regra. 'Terapeuta' não é exceção, por mais excecional que seja a porquinha no tratamento de quem tem medo de viajar de avião.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Troca de palavras

       Bem que se justificava uma troca de palavras com o Sr. Palmeirim!

      Até aprecio o desempenho, o espírito cómico do homem nos programas televisivos que apresenta. Já no que toca aos reparos de seriedade que constrói, nem sempre a coisa cumpre o registo da correção. É demasiado brincalhão e a troca de palavras (não no sentido de conversação, mas de permuta, substituição) acontece de modo errado. 
     Hoje, no programa Joker (RTP1), a seriedade não condisse com a verdade dos factos linguísticos (pode mesmo dizer-se que, quanto a isto, não há novidade face aos apontamentos aqui produzidos sobre o concurso).
      Perante as hipóteses de escolha, a concorrente não é feliz (inclusivamente convocando para o jogo o Acordo Ortográfico, que nada tem a ver com a opção devida). Dizer que "Quezília" é a palavra mal grafada não tem sentido. A explicação do locutor, orientada para a opção correta, não é, porém, a melhor, ao associar 'obcecado' à palavra 'obsessão', chegando mesmo a proferir que «o substantivo obsessão leva o 's', mas quando passamos a 'obcecado' é verdade... [é com 'c']». Deus meu! Qual a relação?!
     Não é por colocar os olhinhos bem arregalados que o dito se torna facto (isto para não falar mesmo daquela classificação gramatical de 'substantivo', já um tanto desajustada em termos terminológicos).
    Obsessão (nome) corresponde ao adjetivo 'obsessivo' (não obcecado), senhor Palmeirim. Obcecado (adjetivo) está para o nome 'obcecação', não 'obsessão'. São famílias de palavras distintas e, nessa medida, justifica-se que a escrita com 's' se verifique em obsessão, obsessionar, obsessivo, obsessivamente; já o 'c' surge em obcecado, obcecador, obcecação, obcecadamente, obcecante, obcecantemente.
     Sem entrar pelo critério morfológico, este contraste de palavras obsessivo / obcecado justifica-se pela etimologia latina: o primeiro advém de 'obsessio, -onis'; o segundo de 'obcaecatus' (relacionado com 'cego', do latim 'caecus, -um'). História da língua, portanto.

       Pois é, senhor Palmeirim! Não tem que saber latim; porém, não aproxime o que, ortográfica e morfologicamente, não tem razão de ser.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Modalidades

     O tempo escasseia, mas lá vai a resposta.

     Um pedido que não podia ficar sem resposta.

     Q: Bem que preciso da tua opinião. Achas que "Fomos autorizados a ver o espólio de Pessoa" é um bom exemplo para a modalidade deôntica (com sentido de permissão)? Tenho sérias dúvidas , mas é o que aparece numa sistematização do manual. Partilha lá comigo essa sapiência! Obrigada.

      R: A sapiência anda fraca e cansada, mas vamos lá a isso. 
    Tens sérias dúvidas e, no caso, tenho a certeza (mais uma modalidade - a epistémica, para qualquer das condições).
    Devo referir que a modalidade deôntica (por alguns linguistas denominada de intersujeitos) é aquela que está presente em enunciados que demonstram a relação do locutor com o seu interlocutor, com o primeiro a expressar sobre o tu / vós uma orientação, um conselho, um pedido, uma questão, uma ordem. Conforme a força e o poder representados, pode dizer-se que o valor modal se situa, neste tipo, entre a permissão e a obrigação.
      Ora, o exemplo proposto dá conta de um locutor que não age sobre o destinatário (nada lhe pede, pergunta ou permite; nada o obriga a fazer; nada o autoriza a nada). Assim sendo, não se trata de modalidade deôntica, por certo. O enunciado traduz uma situação que o eu / nós partilha ou dá a conhecer. Esta intencionalidade de quem fala / escreve não se confunde com o propósito de agir ou requerer algo do destinatário.
       Sem nada que mais o caracterize, vejo o exemplo como a expressão do locutor ou num registo de lamento (que pode ser associado à modalidade apreciativa, se acompanhada por uma entoação devida) ou numa partilha de informação / conhecimento (portanto, modalidade epistémica do certo).

      Em suma, não é um bom exemplo para ilustrar o tipo de modalidade sistematizado no manual nem para os alunos conseguirem classificar (dada a ausência de indicadores que permitam identificar a intenção de comunicação).

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Pelo centenário do nascimento

        À que foi à Grécia pela Granja,...
        
        À poeta que fez aliança com o mar, a praia, a rocha, o azul do céu e chegou ao tempo primordial e civilizacional da Antiguidade, fazendo rimar essa época com o espaço da justiça, com o canto poético em harmonia e refletida emoção, num feixe de luzes e numa paleta de claridades para a Humanidade.
      À arquiteta da palavra, do verso e da prosa que combinou a água e a luz com rochas, conchas, areais e maresias; a que fez da praia e do bosque um só palco para a escrita, qual anfiteatro com letras e sons em notas de paraíso e divindade à espera de serem desveladas.

"Mar Sonoro" de Sophia de Mello Breyner Andresen (Foto e filme VO)

     Sophia de Mello Breyner Andresen, aquela que, cem anos depois de ter nascido, continua prometida às ondas brancas e às florestas verdes, tendo na poesia a sua expressão maior de liberdade. Foi nela e por ela que atravessou "o deserto do mundo", viveu "em pleno vento", lutou "contra o abutre e a cobra" e cantou o amanhecer de abril. 
        Ansiou pelo tempo justo, de verdade e liberdade.

       ...não houve Cnossos, Delfos ou Creta que lhe dessem o berço, já que à vida veio por terras de Luso.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Esquecer o tempo... entre o tudo e o nada.

     É para amanhã, é para hoje, é para ontem...

     A urgência de tudo, porque tudo é importante e tudo é tudo!!!

     Eu, no meio de tudo, não sou nada.
     Começo a sentir que não dou para tudo.
     É tudo muito e eu sou pouco. Sinto-me nada!
     Talvez pretenda tudo, mas estou a achar que mais vale não querer nada.
     Paro com tudo, não faço nada. Fico a olhar o céu, as nuvens...
     Do sol, nada. Tudo molhado pela chuva.
     Até que ele aparece e, do nada, tudo fica diferente.


Paisagens marinhas com um toque de nuvem e sol (Fotos VO)

     As nuvens passaram, a dourada estrela deixa-se ver e torna-se tudo no momento.
     Em tudo o céu, o mar e o dia ficam melhores. Não é preciso mais nada.
     Se me disserem que isto não é nada, agora, eu grito que é tudo.
     Este deixar-se ficar no nada é bom. É tudo!
 
     Tudo começa a ser tão imenso para mim...
   
     Este pedacinho de nada foi tudo o que consegui nas últimas horas.
     De um lado para o outro, com tudo por fazer,
     Nada ou quase nada consigo resolver.
      Amanhã vou arrepender-me por não ter, por momentos, feito nada.
     Tudo me vai cair em cima.
     Nada posso já fazer, por causa do tudo que quis v(iv)er.

Sol escondido na nuvem, a brincar com o céu e o mar (Foto VO)

     Contudo, este momento de nada é bálsamo para tudo.
     Espero agora tudo cumprir para que nada fique por concluir.
     Talvez não tenha tempo para nada, mas foi um instante de tudo e nada.

     Tudo podia ser diferente!
     De nada adianta lamentar.

     Nada para já; tudo para depois...
   
     Por agora é tudo. Volto ao que hoje já devia estar pronto ontem. Por ora, nada!

domingo, 3 de novembro de 2019

Será que a Amélie vem aí?

        Dizem que a tempestade está para chegar a Portugal.

     Podia ter sido uma promessa, para afastar a anunciada intempérie; foi apenas um passeio para afastar as más energias, o cansaço e alguns sintomas doentios que persistem. E, agora, dizem que está a vir depressão! Coisa escusada! São ventos e chuvas que chegam para derrubar qualquer homem. Era bom que se dissipassem.
       A força da natureza está à vista: depois do sol tímido de um sábado e domingo, muda a cor do céu, a névoa surge, o vento esfria e o mar alteia. De longe, o branco das ondas ameaça pintar as paredes de uma capela, erguida sobre um rochedo, de costas voltadas para as fortes ondas. Em Miramar, a capela barroca do Senhor da Pedra não mira o mar; mira a terra. Impõe-se mais do que Pedro: é pedra sobre rocha, local de culto e peregrinação que, segundo um dos painéis de entrada, está erguido num espaço que terá remotamente recebido cultos pagãos de povos pré-cristãos. Persiste essa natureza natural e panteísta, pela envolvência do mar, da terra e do céu.

Capela do Senhor da Pedra, em Miramar (freguesia de Gulpilhares) - Foto VO

      Construída nos finais do século XVII (1686), a igreja é Património Mundial da UNESCO desde 1996. A sua forma hexagonal e a balaustrada exterior circundante, frequentemente rodeadas pela subida das marés, contribuem para um imaginário singular: o de um escolho santificado. A força da crença cruza-se com alguma sobrenaturalidade. Segundo os antigos, uma imagem de Cristo terá sido trazida pelo oceano: “Que num belo dia pousou sobre aquela pedra onde, mais tarde, veio a ser erguida a capela” (lê-se num outro painel, numa espécie de justificação do nome: “Senhor da Pedra”). No registo da lenda, quando os locais se preparavam para construir uma ermida ao Senhor da Pedra num terreiro conhecido por arraial, frequentemente era vista uma luz sobre os rochedos. A cada noite a luz misteriosa brilhava, pelo que os habitantes começaram a acreditar num sinal enviado do Céu. Assim, o ponto luminoso à beira-mar passou a ser o local de construção da capela. 
      O fantástico e o sobrenatural são ainda sulcados pelo espiritual e pelo religioso: na rocha, por atrás da capela, está incrustada uma marca semelhante a uma pegada de boi, que os habitantes da terra dizem ser de um animal bento (o boi que aquecia Jesus na manjedoura) que, também, por ali havia passado.

     As marcas nos penedos são uma constante nas lendas de cariz religioso. Natureza e fé são motivos para dar cor às religiões. A Amélie tem nome que (além de título para filme) dá para depressões.