quinta-feira, 1 de agosto de 2013

À la française, pois então, com muito de "portugais".

    Em dia de estreia do filme em Portugal, houve bacalhau (não com todos) para todos os que o quiseram trazer.

     A imagem de um Portugal composto por Fátima, futebol e fado impõe-se mais pelos dois últimos termos do que pelo primeiro. Não se pode dizer que seja a dramática visão de um país salazarista e salazarento, mas possivelmente a que foi motivada e construída a partir da realidade da emigração desses tempos (que parecem não estar tão distantes quanto isso). Ainda assim, entre a louça de Viana e o retrato de Amália, lá figura no quarto do casal Maria e José Ribeiro a foto dos três pastorinhos, "comme il faut".
     Eh voilá! Visto por mais de um milhão e meio de pessoas só em França, "A Gaiola Dourada" (La Cage Dorée, no original) é uma comédia realizada por Rúben Alves, filho de emigrantes portugueses, que dedica a película aos próprios pais. Nela se retrata um casal português de trabalhadores empenhados, já há mais de trinta anos em Paris e com um sentido de reconhecimento e de entrega àqueles com quem vive no dia-a-dia; àqueles que estão na iminência de deixar, para poder assumir a inesperada herança de uma casa na zona do Douro vinhateiro (afinal, a ânsia do emigrante que vê o regresso como objetivo final, na expressão que este adquire da casa e da terra próprias).

     Making of do Filme "La Cage Dorée" (2013), de Rúben Alves.

      O nome Maria para porteira de um prédio burguês chique, altamente especializada na limpeza de vidros; o mestre de obras José, que chega responsável de construção de um centro comercial pela qualidade do trabalho, além da delicadeza no tratamento de bonsais; o chamamento esganiçado e familiar do "Pedro Henrique"; a filha independente que tem uma relação com o herdeiro Caillaux (o patrão de José); o filho que é o comum adolescente, na crença de que tudo controla a seu proveito; os fumos da sardinhada e a cervejola com que se rega as buganvílias no pátio do condomínio fechado são alguns dos ingredientes que, a par da voz da Linda de Suza, do fado comovente e da música de Rodrigo Leão, se combinam numa história que ainda contempla a frivolidade, o ridículo e o desajustamento de todos os que querem dar a imagem do que não são ou dos que parecem não querer assumir o que verdadeiramente querem.
     Desta forma surge o riso, em vários momentos da película: no confronto de registos e de idiomas próprios de um bilinguismo criticamente assumido; na interação de duas famílias bem distintas (a dos trabalhadores portugueses e a da burguesia francesa, principalmente identificada com a dos Caillaux); no jogo de costumes e de interesses que faz, por vezes, perder o que há de mais genuíno para se entrar no domínio do postiço e da encenação;  nos estereótipos culturais, desmontados numa clara sátira ao que ambos os lados têm de caricato e exageradamente real (seja no português, que pretende demonstrar o requinte que se acha capaz de imitar, seja no francês, que julga tudo saber sobre Portugal, como se de Espanha se tratasse).

      Com a representação assumida por atores portugueses e franceses, Rita Blanco, Joaquim de Almeida e Maria Vieira têm bons parceiros em Robert Giraud, Chantal Lauby, Barbara Cabrita, Lannick Gautry - o retrato do convívio de comunidades que procuram ultrapassar barreiras sócio-culturais e linguísticas, buscando as raízes e o sentido daquilo "que é bom" (e que, por certo, não tem só a ver com o Douro, com o vinho e com bacalhau) no ser humano. Saídos da "Gaiola Dourada" da civilização, um pouco queirosianamente (à laia de A Cidade e as Serras) são a serra, o Douro e o verde vinhateiro que firmam o tom de alegria final. C'est tout!