quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Pior cego é o que não quer ver...

     Um dos potenciais nomeados para o Óscar deste ano - baseado numa história tão verídica quanto a que os nossos olhos não desejam ver.


     Para quem espera ver um filme sobre a escravatura na América e a luta abolicionista, alguma coisa por certo encontra - quanto mais não seja uma ambiência temporal, espacial já consabidas; o confronto entre negros e brancos; o conflito dos homens do sul com homens do norte; mansões e plantações; negros bem-sucedidos, pela ação levada a cabo junto dos brancos, para referir só alguns tópoi cinéfilos.
    Desde a apresentação de "12 Anos Escravo" (realizado por Steve McQueen) nos circuitos cinematográficos, fiquei entusiasmado com um filme que perspetivava ao contrário a habitual luta / fuga de um escravo: não a da conquista da alforria e a consequente condição de homem livre, mas a da perda desta última e a agonizante adaptação às limitações extremas dos explorados; a violenta transformação por que um ser humano passa para, ao longo de mais de uma década, sobreviver numa progressiva desconstrução e numa forte, crescente ameaça ao que pudessem ser quaisquer sinais de esperança e libertação.
     A história situada nos Estados Unidos da América, no ano de 1841, é só o ponto de partida para apresentar a personagem Solomon Northup (interpretado pelo ator Chiwetel Ejiofor) - um negro livre nova iorquino, com mulher e filhos, que tudo perde ao deixar-se seduzir pelo lucro e pela fama e aceitar o convite de dois estranhos para uma digressão. Uma só noite de bebidas transforma a paradisíaca felicidade num pesadelo atroz: o promissor violinista Solomon dá lugar ao escravo Platt, tomado como um fugitivo da Georgia e transportado para uma plantação de algodão no Louisiana.


      Nos limites da sobrevivência, nesse limiar da vida que uma iminente forca poderá fazer escorregar para a morte, no tratamento do ser humano exclusivamente pelo peso e pelo valor do que produz, nas cenas intermináveis de espancamento e tortura psicológica é tanto o desejo de libertação da personagem como o da projeção revoltada e revoltosa do espectador, a não suportar a ausência de qualquer valor, de qualquer reconhecimento de honra ou dignidade na existência de quem se vê incontrolada e inesperadamente privado do que foi (e não deixou, de alguma forma, de ser), do que acredita e quer (e tende a perder).
      Inspirado em factos verídicos - apoiados nas memórias do próprio Solomon Northup -, há uma vivência desconcertante, intensamente dramática, capaz de fazer ver (na ambiência oitocentista americana e no rapto de um negro que tudo perde) escravaturas contemporâneas - nomeadamente de crianças e mulheres nas malhas do sexo; de homens, nesse flagelo de trabalhos duros, pesados para que muitas vezes são levados / atraídos, sem qualquer proteção -, redes de tráficos de órgãos e de seres humanos, perdas irreparáveis na honra e na dignidade humanas a troco de valores que trazem (pretensa) felicidade apenas aos que vivem da humilhação exercida sobre o seu semelhante, tratando-o como mera propriedade.

      Um bom filme, por certo, para um final feliz (de oportuna libertação), que não deixa de representar um forte murro no estômago para quem transponha o retrato fílmico de uma sociedade esclavagista americana do século XIX para um tempo mais atual, com uma sociedade feita de outras escravaturas e quedas / perdas na vida real.

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