domingo, 29 de abril de 2012

"De que sofre esta cidade?"

     Esta cidade, Tebas (velha cidade de Cadmo) ou outra, maior ou mais pequena, remota ou atual, deveria sempre ter esta pergunta, para a busca da resposta.

     A tarde foi passada no auditório da Academia Contemporânea do Espetáculo (ACE) - Teatro do Bolhão, em boa companhia e com grande representação.
    Num anfiteatro (qual encosta de degraus não de terra nem de pedra, mas de cadeiras - quase poltronas - voltadas para um palco), frente a um palco dominado pela essencialidade minimalista de um cenário e por um grupo de ótimos atores (a que não faltou um coro, enquanto personagem múltipla, cujo canto ritmado servia de comentário à ação dramatizada), assisti a Édipo, de Sófocles. Com encenação de Kuniaki Ida, o elenco contava com as participações de António Capelo (Édipo), João Paulo Costa (Tirésias, Jocasta e Servo), João Cardoso (Creonte e Mensageiro), além de Pedro Lamares (Corifeu) e um coletivo de jovens artistas.


    Nas primeiras décadas do século XXI reencontrei-me com alguns sinais do último quartel do século V a.C. Foi o caso da representação assente em três atores masculinos (o protagonista, o deuteragonista e o tritagonista);  da figura do Corifeu liderando o coro; do tom e do conteúdo trágicos do texto; da conciliação dos opostos (um homem que se sente livre, mas que só o é enquanto percorre um caminho fatalmente determinado; a modernidade de adereços conjugada com a clássica máscara em Jocasta mais a sugestão de trajes e o calçado de sola espessa dos sacerdotes que prestavam culto a Dionísio; o conhecimento e a consciência portadores da desonra fatal, das maldições que fazem sucumbir o Homem). Junta-se-lhes o sentido didático e emocional da peça (com confrontos explicitamente demonstrados e publicamente partilhados, suscitando, perlocutoriamente, o terror e a piedade), a força do destino que aprisiona o Homem àquilo de que o próprio possa tentar fugir ou contrariar - tudo ingredientes típicos para um género marcado como a maior expressão literária da antiguidade, conforme o evidenciavam as práticas teatrais dionisíacas (as mais conhecidas), com representações diárias de três tragédias, fechadas com a apresentação de uma comédia.
      Sófocles foi grande figura nestes eventos tão religiosos quanto cívicos. Édipo foi um dos seus textos, do ciclo tebano (acerca da fundação da casa real de Tebas, por Cadmo), retratando a tragédia de caracteres, composta pela pretensa individualidade espelhada na vida social da pólis.
     Desde o início da obra, a questão da atualidade impõe-se, pelo diálogo mantido entre o Corifeu e Édipo. É a crise, o drama da cidade revelados:


«Visto que desejas continuar no trono, 
bem melhor será que reines sobre homens
do que numa terra deserta. 
De que vale uma cidade, de que serve um navio, 
se no seu interior 
não existe uma só criatura humana?»

     O percurso cénico do despojamento de Édipo - da túnica do poder ao pé descalço de uma figura voluntariamente cega e desamparada - é o caminho de um decifrador de enigmas que tudo quer saber e se agarra à vontade de não fugir à verdade; o do conhecimento ou da consciência que se revela ignorância, na interpretação errada de sinais e na fuga que não dá lugar ao afastamento ou à distância do indesejável - antes à proximidade e à concretização trágica das profecias dos oráculos. 
      Entre a cegueira do Homem e a insegurança da condição humana revê-se um dos mitos gregos de maior relevo.

     Assim se traça a complexa procura e revelação da identidade de um herói lendário grego (que matou o pai e procriou com a mãe), mais ajustado ao que de anti-herói tem (pelo entrecruzamento da fragilidade humana no sacrifício supremo do autoconhecimento, com a marca do fatalismo, da crueldade e da determinação do destino).

sábado, 28 de abril de 2012

Derivação (e não só) na formação (de palavras)

      Ao passar pelo histórico do blogue, dei conta de respostas que ficaram por endereçar. As minhas desculpas. Talvez já não venham a tempo, mas fica o registo devido, pela pertinência revelada nas questões que as motivaram e nos comentários produzidos. Aqui vai uma delas.

    Q: Professor, a respeito da análise da palavra "deslocalizar", suscitaram-me algumas dúvidas. É o caso de palavras como 'desvalorização', 'empobrecimento' e 'irreconhecível'. Aquela é formada por prefixação e sufixação ou apenas por sufixação, já que é sabida a análise sobre encadeamento de formações diferenciadas a partir de valor, valorizar, desvalorizar, desvalorização? Essa é formada por parassíntese ou por sufixação (pobre-empobrecer-empobrecimento)? E a última é formada por prefixação ou por parassíntese (conhecer-reconhecer-???)? Obrigado!

   R: Com o agradecimento pelo desafio colocado, retomo a ideia da sequência ou do encadea- mento, como diz, de etapas de formação diferenciadas.
     Assim, o nome deverbal 'deslocalização' obtém-se a partir da base 'deslocalizar', pelo que esta última é uma palavra derivada por sufixação. Naturalmente, é reconhecível o prefixo 'des-' nesse nome, mas atendendo à base 'localizar' é que se pode falar numa palavra derivada por prefixação ('deslocalizar'), numa fase anterior à que permitirá formar 'deslocalização'. O mesmo raciocínio deve ser aplicado à palavra 'desvalorização', derivada por sufixação ([[[valor > valorizar] valorizar > desvalorizar] desvalorizar > desvalorização]) .
    Quanto a 'empobrecimento', o termo tem por base 'empobrecer' (a qual foi, anteriormente, obtida por parassíntese, a partir de 'pobre'). Ora, o nome deverbal resulta da derivação por sufixação, novamente.
     Por fim, o adjetivo 'irreconhecível' resulta da base 'reconhecível'. Portanto, há derivação por prefixação.

     A consulta de um dicionário, como já indiquei anteriormente, permitirá sempre a verificação do termo base que antecede a forma derivada. O mesmo sucede com a informação etimológica que permitirá entender que a palavra 'reconhecer', a partir do étimo 'recognoscĕre', tem mais de evolução fonética na introdução do termo em Português do que de morfologia.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Eis... por onde andas?

      Em tempos de alteração na nomenclatura gramatical, vêm os casos que não surgem nos exemplos.

     Q: Agora que os advérbios aparecem divididos entre os de frase, os de predicado e os conectivos, onde fica o 'eis'?

      R: A natureza designativa, apresentativa ou mostrativa deste advérbio faz com que ele seja encarado no âmbito  dos elementos linguísticos que "mostram" verbalmente as condições ou informações contextuais em que um discurso é produzido. Assume-se, portanto, como elemento detentor de uma função deítica, obtida pela relação com as circunstâncias de enunciação.
    Neste sentido, o advérbio apresenta propriedades orientadas para a enunciação que releva, destaca um elemento enunciado ("Eis o homem!"), bem como o momento (temporal) de revelação, designação e construção da própria referência enunciativa.
      Contrariamente aos advérbios de localização temporal que modificam o predicado (e, portanto, admitem as estruturas da negação e da interrogação), o caso de 'eis' compagina-se com as propriedades dos advérbios de frase, sublinhando a intencionalidade, a dimensão modalizada de um enunciado caracterizado por marcas orientadas para o falante, para a avaliação que este processa em termos de saliência, de realce, de topicalização (como se evidencia com a construção frásica equiparada a uma estrutura clivada: "Eis a questão que surge!" > É a questão que surge). 
           Vejo, assim, razões para situar 'eis' entre os advérbios de frase, na medida em que se toma como fruto da intervenção do falante / enunciador sobre o conteúdo proposicional produzido, pelo modo como diz  (dicere) e pelo que quer dizer (uelle dicere).

       A natureza excecional deste advérbio surge tratada em O Advérbio em Português Europeu, de João Costa (2008: 16). A sua inclusão no campo dos advérbios de designação (cf. Gramática da Língua Portuguesa, de Mário Vilela, 1999: 242), enquanto subcategoria acrescida às classificações tidas como tradicionais, era já um dado a considerar nessa excecionalidade.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Monumento cinzento

     Em dia feriado...

     Diz o poeta que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena'... mesmo quando esta já foi maior.

ACINZENTADA DEMOCRACIA

Do cravo em pedra,
foi-se a rubra cor.
Sem sangue na terra,
secou o vigor.

Da revolução,
a memória fica,
lembrando a canção...,
o povo que grita...,

a arma a dar flor...
Renovado o tempo,
nascida a manhã,
no sopro do vento,


a sã liberdade
esvai-se na idade.

Em dia cinzento,
vejo um monumento:
voam as gaivotas
só no pensamento.

No duro betão,
há ondas de mar
plantadas no chão,
subidas ao ar.

Com fénix em cinzas,
Esperança, vinhas...
Foto em tempos de sol, de luz...
(Monumento  ao 25 de  abril, Espinho)

    Na agenda, no dia do calendário, em tempo de pressão e depressão, teriam de multiplicar-se os sinais de confiança e esperança... 

   ... para o bem da democracia.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sonho, vontade, vida...

    Na véspera da revolução e nos tempos anteriores a ela, muitas eram as mensagens voltadas para a ação - a vontade da realização, da afirmação de abril.

    A manhã e o dia viriam, depois de muitas lutas, de muitos sofrimentos e de se fazer sublinhar que "o sonho comanda a vida".


    Nestas palavras de António Gedeão (pseudónimo do professor de Física Rómulo de Carvalho) ecoava a vontade da mudança. Se a pedra filosofal (Lapis Philosophorum) era um dos principais objetivos dos alquimistas humanos medievais (em geral na Idade Média), muito se devia ao facto de se pretender, através dela, transmutar qualquer metal inferior em ouro ou mesmo seres do reino animal sem sacrífico de qualquer natureza. Outros viam nela o elixir da vida eterna, para lá de interpretações que a libertavam do físico e a posicionavam no plano espiritual. Era o plano do desejado, da forte vontade de concretização de um ideal.
    No poema, refere-se a Passarola Voadora, a lembrar Memorial do Convento, de Saramago - esse espaço alternativo onde ciência, trabalho, amor puro, visão e harmonia se conjugaram numa sociedade (a dos três Bs: Baltasar, Blimunda e Bartolomeu) construída a partir de um sonho, da vontade de constituir uma dimensão livre das desigualdades sociais, do ocultismo, da profanação dos valores humanistas, da farsa do poder, da perseguição dos que pudessem ter um entendimento distinto do oficialmente estabelecido. 
    É certo que o sonho comanda a vida, tal como a falta dele, do desejo, da vontade antecipa a morte. Faz, como o diz Blimunda, parecer morto aquele que na vida está.
    Abril veio. Terá ficado?

    Palavras sábias de quem tem uma perspetiva, uma visão, uns olhos que veem para além do comum mortal (e que tem tudo de verdade, por mais que elas surjam na dimensão do ficcional). Talvez a morte não esteja nem antes nem no fim da vida. Está na própria vida e no que nela e dela se perde. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma hora para a vida

     Tudo vemos, nada temos, nada somos... e assim cumprimos os ciclos.

     A principiar, um peregrino lança o espectador na condição de um ser, de uma criatura cuja existência cumpre uma demanda feita de valores, de imagens e de linguagens.
     Desde a Páscoa de 1518 cumpre-se, em palco, essa demanda: a que Gil Vicente depositou no seu Auto da Alma, enquanto reflexão moral sobre a vida e o Homem. O passado alimentou-a, o presente quinhentista e as consequências dos Descobrimentos reconfiguraram-na, o futuro torná-la-ia evidente e eternamente intemporal.
     No dilema entre dar-se aos prazeres do(s) tempo(s) e do(s) espaço(s) ou cumprir um percurso de despojamento, a Alma vê-se numa circularidade, na revisitação de um percurso que se faz de vivências e de memória(s). Nele, há sempre lugar para a tentação e a sedução demoníacas, que atacam o corpo (se não a alma). Num contínuo "fitness", numa corrida esforçada que não deixa de revelar a fragilidade da Alma, esta última tem de se confrontar com a vaidade, a materialidade, os sinais de poder, de ter e de haver, resumidos no que de mais pesado, desprezível e volátil o mundo apresenta.

Montagem fílmica 
(excertos de "Burnay and You - Exclusive Moments" e representação da peça).

     A salvação (possível, ainda que constantemente ameaçada por forças satânicas persistentes) atinge-se pelo exigente caminho do Bem, fundado em "manjares" ofertados pela Igreja, por anjos protetores e por ensinamentos dos Santos Doutores. Assim se alimenta e sobrevive a Alma na vida, numa cosmovisão tão quinhentista quanto hodierna, face às metamorfoses do Bem (que ainda o há, mesmo fora da "Santa Madre Igreja") e do Mal (tão dissimulado e tantas vezes aparentando-se com o que há de bem e de bom).
     O percurso é o da vida, não o da pós-morte que tornou o teatro vicentino mais reconhecido (caso da Trilogia das Barcas); daí ser mais identificável com a condição da existência humana, feita de recuos e avanços, de opções, de aparentes felicidades e fortes arrependimentos, de retratações e recuperações a que não faltam sacrifícios.

     Alma: título para uma rapsódia de textos poéticos (vicentinos e outros mais contemporâneos) feita à base do Auto da Alma, de Gil Vicente, e dos ecos que esta faz refletir num Teixeira de Pascoaes e num Vitorino Nemésio, que (também) a "escritam" nos seus textos. Uma moralidade a não perder, segundo a dramaturgia de Nuno Carinhas e Pedro Sobrado, no Teatro Nacional de São João (até ao próximo dia 28).

sábado, 21 de abril de 2012

Questões do outro lado do oceano (X)

     Mais um apontamento e uma questão vindos do lado de lá do Atlântico.

     De apontamento em apontamento, já cá estão dez provas de que há quem queira falar sobre a nossa língua, mesmo nas coisas mais problemáticas que esta possa apresentar.

    Q: Classifique os quês: "Eu não sei que ela faz aqui. Eu não sei que pessoa é essa. Eu sei que ela faz aqui. Eu sei que pessoa é essa. Eu sei que ela não vem."


    R: Começo por agradecer o desafio (que não é pequeno).
     Constato a variedade da língua em realizações sintáticas que me atrevo a aportuguesar segundo a variedade europeia.
         Obtenho os enunciados seguintes:
         
         i) Eu não sei o que ela faz aqui.
        ii) Eu não sei que pessoa é essa. (> Eu não sei que tipo de pessoa é essa  OU Eu não sei quem é essa pessoa.)
         iii) Eu sei o que ela faz aqui.
        iv) Eu sei que pessoa é essa. (> Eu sei que tipo de pessoa é essa OU Eu sei quem é essa pessoa)
         v) Eu sei que ela não vem.

         E, agora, tanto para fazer.
     Primeiro de tudo, interessará constatar a integração de todos os 'que' no que se designa tradicionalmente por subordinadas substantivas (sejam subordinadas completivas sejam subordinadas relativas sem antecedente); de seguida, classifico cada uma das ocorrências do termo em estudo, atentando  no seguinte:
.  em i), tal como em iii) na forma ou polaridade negativa, 'que' surge antecedido de um 'o', numa estrutura subordinada que algumas gramáticas apelidam de 'relativas semi-livres'; trata-se, portanto, de um 'que' pronome relativo;
.  em ii), duas abordagens são possíveis para o que se toma como subordinadas substantivas associadas a interrogativas indiretas (isto é, não as interrogativas indiretas totais - introduzidas pela conjunção 'se' -, mas as parciais - as que requerem a focalização de um dado informativo pressuposto na questão direta parcial): face ao determinante interrogativo pressuposto em 'Que (tipo de) pessoa é essa?', a subordinada completiva apresentada é introduzida por um termo pertencente a essa mesma classe de palavras; no caso da transformação proposta em 'Eu não sei quem é essa pessoa' e da questão pressuposta ('Quem é essa pessoa?'), estaremos perante uma subordinada introduzida pelo pronome interrogativo 'quem';
 em iii), encontra-se o que já foi exposto em i), só que num enunciado de polaridade negativa; 
.  em iv), encontra-se o mesmo 'que' assinalado em iii), numa frase matriz de polaridade positiva (contrariamente à negativa proposta em ii);
. em v), 'que' é utilizado como conjunção integrante ou completiva (introduzindo a subordinada 'ela não vem', de natureza declarativa ou enunciativa quanto ao tipo de frase).

       Em suma, para os cinco enunciados, há três utilizações distintas de 'que': pronome relativo (em i e iii); determinante interrogativo (em ii e iv); conjunção completiva ou integrante (em v).

     Se, de comum, os 'que' têm a natureza articulatória, conectiva ao nível da composição frásica, em muito se distinguem em termos de classificação quanto à classe de palavras. Exemplo de mais um termo camaleónico na gramática da língua portuguesa.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Numa teia...

       No seio dos problemas...

     É numa aranhiça teia que me vejo, tal como a da letra desta canção, feita música de um grupo que conjuga o que de bom se vai fazendo contemporaneamente.


                           TROUBLE

Oh no, I see,
A spider web, it's tangled up with me,
And I lost my head,
The thought of all the stupid things I've said.


Oh no what's this?
A spider web, and I'm caught in the middle,
So I turned to run,
The thought of all the stupid things I've done,
And I... I never meant to cause you trouble,
And I... I never meant to do you wrong,
And I... well if I ever caused you trouble,
Oh! No, I never meant to do you harm.


Oh no I see,
A spider web and it's me in the middle,
So I twist and turn,
Here am I in my little bubble,
Singing out, oh I never meant to cause you trouble...

Oh, I never meant to do you wrong,
Oh, well if I ever caused you trouble,
Oh no, I never meant to do you harm.


They spun a web for me,
They spun a web for me,
They spun a web for me.

    Da verdade da letra ao ritmo melancólico da melodia... tal como na vida, à espera que a aranha cumpra o seu papel.

    And if there isn't any kind of trouble, in a month, I'll be where I'll be able to watch and to listen to this sound or any other about to come.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"I have a dream"

     É mais citação do que pensamento próprio (daí a intencionalidade das aspas, para que se dê a César o que é de César - ainda que, neste caso, o nome seja mais 'real' do que 'imperial').






      Há quarenta e quatro anos morria quem proferiu tais palavras: Martin Luther King - nome de um líder negro assassinado em 1968, aos trinta e nove anos, na sequência da sua luta pacífica pela declaração de inconstitucionali-dade da segregação racial dos negros.
     Talvez já ninguém se lembre de histórias como as de uma mulher negra que se recusara a ceder o seu assento no autocarro a um branco e, por isso, foi presa por violar a lei da segregação racial. Hoje, parece enredo de cinema; mas, vivido nos anos cinquenta na América, foi um dos motivos para uma guerra de princípio: a da igualdade do Homem, independentemente da cor, da raça, das crenças.
    O sonho de um dia ver brancos e negros juntos teve um grande passo na sua concretização quando, em 1964, foi aprovada a lei que poria fim à segregação racial. O condicional deveria ser mais pretérito perfeito, não fosse alguma dessa realidade ter sobrevivido até ao presente (branco, negro, amarelo, tanto faz... o sonho, por vezes, revela-se mera miragem).
    O galardoado com o Prémio Nobel da Paz, atribuído em 1964, veio a ser morto por um atirador branco, segundo acusação oficial apontada a James Earl Ray (condenado a 99 anos de prisão). 

      Um exemplo para a Humanidade roubado à vida por um outro homem que não compreendeu que, assim o dizia Luther King, "Temos de aprender a viver todos como irmãos ou morreremos todos como loucos."

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sete (mágico) em tempo de morte

     Da magia do sete já muito se disse, mas, no que toca a este apontamento, na morte se fundou.

    Há sete anos, Karol Józef Wojtyła passou a existir exclusivamente na memória, dos cristãos e não só. Dir-se-ia mesmo de todos os crentes que assistiram aos seus quase 27 anos de papado, sob o nome de João Paulo II.
  Criticado pela sua oposição (ortodoxa) relativamente a temas como os do celibato dos padres, da procriação e da ordenação de mulheres e/ou de homens casados; pela construção interpretativa do terceiro segredo de Fátima, na qual se implicou como vítima; pela sua influência em áreas de intervenção dominantemente política, o sucessor do curto papado de João Paulo I não deixou de marcar positivamente a sua liderança religiosa pela imagem dada de aproximação a diferentes credos (judaísmo, igreja ortodoxa, igreja anglicana, islamismo), de afirmação no alívio e na superação do sofrimento humano, de pedido de perdão face aos silêncios que a sua Igreja assumiu em certos períodos da História.
    Proclamado Beato em 1 de Maio de 2011 (pelo Papa Bento XVI), este chefe da Igreja Católica Apostólica Romana inspirou-se nos jovens e na virtude da esperança por eles representado, de modo a tomar alguma irreverência como forma de a(tua)ção dirigida e preocupada com o outro. 
    De atitude, rosto e gesto afáveis, este foi o papa que atravessou o século XX para o XXI, movido por uma vocação e uma missão universal voltadas para a aproximação à santidade. Assim o evidenciou nos processos de canonização e beatificação dos muitos que souberam acompanhar o Homem no percurso de vida sofrida, libertando-o de dor maior. O exemplo de Madre Teresa de Calcutá foi seguramente o mais mediatizado, dadas a sua contemporaneidade com o pontificado e a aproximação espiritual com João Paulo II.
     Aquando da visita à catacumba ou "cemitério dos Papas", na Basílica de S. Pedro (Vaticano), tive a oportunidade de encontrar uma sepultura simples (o que não significa menos dispendiosa, por certo) entre os artificiosos, artísticos e ostensivos jazigos dos pontífices antecedentes: uma laje lisa, limpa e discreta, apenas comparável à do Papa Paulo VI (1963-78). Houve quem interpretasse, de forma despojada e adequada, o percurso de um padre, tornado bispo, nomeado cardeal, aclamado Papa, considerado "Venerável" e proclamado Beato. Como qualquer outro congénere, viveu muito do seu tempo no seio de um dos maiores tesouros culturais da Humanidade, capaz de matar a fome a meio mundo, quanto mais o de África. Não fez o que o Papa das 'Sandálias do Pescador' pretendia (e que eu tanto gostava que tivesse acontecido, mesmo em filme já antigo); porém, ao contrário de muitos deles, fez-se próximo, afetuoso e capaz de abrir ao mundo o sentido do que é ser cristão e católico.

    Uma lembrança em dia que a televisão exibiu, na RTP1, uma minissérie intitulada 'O Papa de Todos' - é esta a imagem que vou tendo deste papa (o mesmo não se dirá de muitos outros), cuja mensagem é sinteticamente reproduzida no pensamento de que "Não há nada mais sagrado ou precioso do que uma vida".


sábado, 31 de março de 2012

Pensamento tão atual(izado)

    Há momentos em que a saturação se impõe. As decisões surgem na racionalidade do que, durante anos, não se viu cumprido e segundo valores que não interessam.

   E assim se percebem as palavras do poeta, perante discursos da importância que as pessoas têm, exclusivamente para argumentos e conclusões que só a uma das partes interessam.


   É tempo de dizer basta, de deixar que outros correspondam ao que querem ver feito, para gáudio de quem gosta de viver e trabalhar com ilusões; não com o que é estruturante. Não é o meu caso, para quem nem tudo vale.

    Ficam a liberdade, o descompromisso com o que se não quer e o que nunca se quis (por não representar já o que se acredita ser possível: ser profissional que não precisa de ter nas mãos o que lhe queiram acriticamente dar, com o pretenso título de facilitar trabalho).

quarta-feira, 28 de março de 2012

Dor de Pensar (porque pensar é estar doente dos olhos)

       O tópico é pessoano, partilhado com Caeiro, feito de ser e de querer

     Num poeta que intelectualiza o sentimento ("Eu simplesmente sinto / com a imaginação" - in 'Isto' ou "O que em mim sente 'stá pensando" - in 'Ela canta pobre ceifeira"), o plano do pensamento e da reflexão assume-se como pesado (in "Há um ano que não 'screvo'), condição para uma vida mal vivida (in "Chove. Que fiz eu da vida?") ou fonte para o choro e desalento (in "Não sei, ama, onde era").
    Pessoa ortónimo debate-se frequentemente com as dicotomias do sentir / pensar e da consciência / inconsciência, buscando um ponto de equilíbrio sem sucesso. Daí, em 'Ela canta, pobre ceifeira', desejar ser a ceifeira que canta inconscientemente (“Ter a tua alegre inconsciência”) e possuir simultaneamente “a consciência disso!”. Todavia, a constatação de que a ciência "Pesa tanto e a vida é tão breve!" mais não é do que a consciencialização desse "rigor / Que o raciocínio dá a tudo". Perante o estado de infelicidade (porque há pensamento, porque há racionalização em excesso), entende-se o poema 'Gato que brincas na rua', aquele no qual se reforça a ideia da felicidade típica de Caeiro: a do princípio da recusa do pensamento (“És feliz porque és assim”). Em contiguidade, a composição 'Leve, breve, suave' manifesta o desalento do ortónimo, a sua frustração quando o “eu” consciente intervém (“Escuto, e passou... / Parece que foi só porque escutei / Que parou.”). A frustração resulta de uma incapacidade de se atingir a plenitude, a essência, a inconsciência, o abstrato - tudo o que a consciência da existência impossibilita. 
     Assim se justifica a dor de pensar, a angústia existencial. Resta “um mar de sargaço” (in 'Tudo o que faço ou medito'); o múltiplo e o diverso que perdeu a sua unidade; a distância face ao ser que aspira ao infinito, no que este último tem de maior verdade e idealização. 

    Ver a existência como enleio, limitação, sombra de uma luz a que se aspira talvez seja trocar o real pela fantasia, o certo (a consciência) pelo incerto (inconsciência). Bem pior é viver o real na ilusão e na fantasia.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Anda Comigo Ver Os Aviões

   Do grupo de amigos ao toque e ao piscar de olhos de Rui Veloso, Os Azeitonas impuseram-se pela melodia e pela interpretação.

   Pressente-se uma combinatória melodiosa de vários contributos musicais do século XX (entre ba-ladas, slows e outros roman-tismos típicos das gerações de 70-90) numa composição que faz parte do álbum "Salão América" (2011).
   O grupo é nortenho, representa uma pedrada no charco da divulgação musical e já nos tem habituado a alguns êxitos que, felizmente, mais na rádio do que na televisão, têm circulado pelos media, bem como pelas redes sociais. 
    Marlon (o Pintarolas), Nena, Salsa e Miguel Aj (Araújo) são as caras destes "azeitonas" (nada azeiteiros) que se dizem "fiéis depositários do nacional cançonetismo".
   Estamos nessa:


Anda Comigo Ver Os Aviões

Anda comigo ver os aviões levantar voo
A rasgar as nuvens
Rasgar o céu

Anda comigo ao porto de Leixões ver os navios
A levantar ferro
Rasgar o mar

Um dia eu ganho a lotaria
Ou faço uma magia
E que eu morra aqui
Mulher, tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti
Nem que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti

Anda comigo ver os automóveis à avenida
A rasgar nas curvas
A queimar pneus

Um dia vamos ver os foguetões levantar voo
A rasgar as nuvens
A rasgar o céu...

Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
E que eu morra que aqui
Mulher, tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à lua
Nem que eu roube a lua,
Só para ti

Um dia eu vou jogar à bola
Ou vendo esta viola
Nem que eu morra aqui
Mulher, tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti

    Divulgada pela internet, em lançamento pontual, esta canção marca (em suporte virtual, digital), por certo, o grupo portuense no caminho da popularidade e da afirmação como um exemplo de culto na música portuguesa.

    Anda comigo ouvir os azeitonas a tocar / A rasgar a música / A rasgar o som...


quinta-feira, 22 de março de 2012

Discursos...

    Porque as dúvidas se impõem, quando as definições não são claras.

    Assim mo foi apresentado. Desta forma respondo: com discurso, bem direto.

    Q: Não consigo perceber muito bem a diferença do discurso indirecto-livre e a do discurso directo livre. As definições que encontro parecem muito pouco claras. Será uma questão de moda por causa da escrita dos Saramagos e dos Lobos Antunes? 

   R: Diria por causa desses autores e de outros que pretendam refletir na escrita matizes que a própria oralidade promove, seja para os casos de narrativa oral seja para registos mais elaborados que procurem desenvolver relações e confluências discursivas ou mesmo efeitos de compresença de vozes narrativas distintas (polifonia).
    É certo que tem sido mais habitual e tradicional a abordagem de três formas de relato do discurso: o direto, o indireto e o indireto-livre. No entanto, não só os relatos orais exploram bem o que é uma junção / aproximação / ambiguidade entre o discurso direto de quem relata e de quem é citado como ainda a narrativa literária - marcada pela dimensão reflexiva, de comentário e interação com o narratário - repesca essa estratégia tendencialmente oral para o escrito.
    Os autores citados são um bom exemplo disso, tanto no plano dos romances como no género da crónica.
   Por exemplo, no caso de Saramago e do Memorial do Convento, é possível detetar essa variedade discursiva, essa polifonia de vozes num romance que, num só coro, deixa ouvir a natureza dialogal (interativa, poligerada) e dialógica (convocando para um só enunciado reflexos, ecos, sinais de uma voz plural) da linguagem e da comunicação.
     Perante um narrador que 
       a) assume declaradamente a variedade de perspetivas, de pontos de vista, de focalizações sobre situações, lugares, personagens e o próprio tempo (ora com um pé no século XVIII ora com outro no século XX); 
       b) se implica na narrativa e reflete sobre a própria narração e/ou o ato de escrita; 
      c) cita de forma múltipla e diversificada os pensamentos e as palavras das personagens que constrói, parece ver, quer atingir / transformar (pela crítica) ou com as quais vai solidarizar-se (pela empatia criada); 
        d) se compromete com uma versão crítica, não oficial da História na história que inventa;
       e) simula frequentemente uma espécie de interação com o próprio narratário (explicitamente presente no discurso narrativo),
     adiantam-se já muitas razões para variação e riqueza vocálicas. O discurso narrativo, em termos de composição, permite gravar vários comportamentos verbais dos falantes (com os diferentes registos e/ou traços específicos), geridos intencionalmente pelo narrador. 
      Neste sentido, cabe aqui falar das principais formas de representação e/ou reprodução dos discursos (no discurso narrativo), todas elas a poderem ser revistas no romance considerado:

(Clicar na imagem para reprodução completa das modalidades de discurso: direto, indireto, indireto-livre, direto-livre)


     Riquezas, complexidades que sublinham a singularidade na expressão romanesca, narrativa de vários escritores (de que José Saramago e António Lobo Antunes são exemplo), além da estratégia diversificada e matizada dos relatos orais dos falantes (por exemplo, com ironia, com apartes, com encaixes de comentários, com a desconstrução do discurso e da linguagem, com a coloquialidade e a aproximação ao narratário, entre outros).

quinta-feira, 15 de março de 2012

Escrita estranha...

    Com o novo Acordo Ortográfico, as estranhezas impõem-se. Tem sido sempre assim.

     Q: Como é que agora escrevo assímptota?


    R: A estranheza pode surgir, mas a nova grafia limita-se a isso mesmo: nova grafia. Daí aplicarem-se as convenções ortográficas já conhecidas (e mantidas) a par das que sejam introduzidas pelo novo documento. 
      Se este último indica que as consoantes não lidas (mudas) desaparecem da escrita, não há razão para manter a já familiar regra da escrita de 'm' para o som vocálico nasal que as antecede. Como só se escreve 'm' antes de 'p' ou 'b', passe a 'n' a letra que assinala a nasalidade. Assim ficam as "assíntotas".

     É tão estranha a 'assíntota' como o "Egito" (a par do 'egípcio'), a 'receção', a 'aceção', a 'exceção', o 'excecional', a 'contraceção', o 'espetáculo', as 'atas' e os 'atores'. E quando alguém se quiser 'retratar' de uma posição ou de um dito que não pense que é uma questão de fazer uma foto para o retrato.

quarta-feira, 14 de março de 2012

In Skené... com heroína em cena

      As palavras têm o significado que se lhes dá: por vezes, os mesmíssimos termos têm significados tão diferentes.

      Este, em parte, foi o balanço de uma representação a que as minhas turmas de 12º ano assistiram hoje no Auditório Municipal de Gondomar: Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, numa adaptação levada a cabo pelo In Skené - Grupo de Teatro de Amadores de Gondomar.
    Numa abordagem económica de todo o primeiro ato, a aposta centra-se na fidelidade ao texto do segundo ato, aquele em que a esfera familiar, o protagonismo feminino e o grito de revolta e de esperança se constroem.
     Matilde de Melo é a heroína, numa extensão da figura libertadora que o Marechal Gomes Freire de Andrade representa até à hora da morte, às ordens absolutistas e despóticas dos três reis do Rossio (Miguel Forjaz, Principal Sousa e General Beresford). É a voz liderante, a dar continuidade às expectativas depositadas na mudança - é o luar no reinado da noite.
    No jogo de poderes configurado na obra, a singularidade e a dimensão expressiva do título revelam-se tão essenciais quanto este poder ser interpretado de diferentes formas. As palavras são as mesmas, a expressividade associada ao ato é comum, mas a intencionalidade última e o alcance dos significados são diversos:


       Felizmente Há Luar! - um só título para muitas falas explícitas ou subentendidas. Entre os dois últimos casos sistematizados (à direita), as aproximações são inevitáveis, numa identidade entre o que o autor pretendia e o que a personagem dizia para o seu tempo; ou mesmo entre o que o dramaturgo desejava para o seu tempo (anos sessenta do século XX) a partir dos atos e das palavras da sua heroína (das primeiras décadas do século XIX).
     Esta última, representada desta feita por Joana Sousa, é portadora de uma força que nos instiga à mudança, numa atitude épica e ética face ao tempo e ao mundo. Esgotante, todo o protagonismo da personagem sobrevive no corpo, na voz, nos gestos da jovem atriz.
      A propósito do evento, fica aqui o registo de uma pequena reportagem televisiva produzida por Catarina Silva (para a Regiões TV) acerca desta época de representações:


     Trabalhos, heranças que a Escola Secundária de Gondomar (ESG) vai reconhecendo nas mãos de antigos alunos, expostos aos olhos e ouvidos de estudantes do presente, ambos a marcar a crença de que pode haver futuro.

domingo, 4 de março de 2012

Tratar da saúde

     Não resisto a "roubar" esta preciosidade a um 'post', no Facebook, da colega Elisabete Ferreira.

     Ora vamos lá tratar da saúde a quem precisa:


   Remédio para muita doença. Medicamentos que recomendo, para utilização continuada. Faltam, contudo, os 'quantifiers' (quantificadores) e alguns 'determiners' (determinantes), pois só figura o subtipo dos artigos.
     Registo ainda que, para certas maleitas, são aconselháveis (pela complexidade implicada) uns 'pack' com a designação de 'phrase', numa combinação de alguns destes componentes básicos.

     Numa farmácia, perdão, gramática perto de si. Também comercializado em "livrarácias", estabelecimentos neológicos, especializados em amálgamas.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Argumentos para todos os gostos...

    Dúvidas que o tempo pode vir a resolver...

     A propósito de uma questão que me foi lançada em correio eletrónico e que, pelos vistos, não ficou resolvida. Cá vai mais um contributo.

     Q: Boa tarde. Gostaria de saber a função sintáctica de 'mal' nas frases 'Reagi mal' e 'Senti-me mal'. Numa acção de formação disseram-me que se tratava de um predicativo do sujeito por semelhança com a frase 'Estar mal'. Concorda com esta abordagem?

      R: Grato pela questão e pela explicitação das condições associadas à dúvida.
         Não sei quem defendeu esta posição nem em que fundamentos se apoiou. Por mim, naturalmente não concordo com o que lhe foi dito a propósito das duas frases iniciais.
     A analogia estabelecida falha, no meu ponto de vista, por aproximar verbos que apresentam comportamento lógico e sintático-semântico completamente distinto. A natureza copulativa do verbo 'estar' justifica a sequência de um predicativo do sujeito, o mesmo não acontecendo com os verbos 'reagir' e 'sentir'.
        É inevitável a consideração de uma plataforma entre sintaxe e semântica, conforme é proposto pela noção de 'estrutura argumental' dos verbos. A partir dela constroem-se os argumentos selecionados, ou seja, os elementos que mantêm relação dependencial com o significado desses verbos.
         Primeiro de tudo, 'reagir' e 'sentir' não são verbos copulativos, mas transitivos. São exemplos pertencentes à tipologia dos verbos comportamentais ou de natureza percetiva, quanto ao estado de coisas ou às áreas temáticas representados nos respetivos predicados. Integram-se, portanto, nos processos e não nos estados (como o verbo 'estar'). Depois, eles apresentam, em termos lógicos, os argumentos seguintes:
         a) REAGIR > Alguém(1) REAGIR a alguma coisa (2) de algum modo / de alguma maneira (3)
         b) SENTIR > Alguém (1) SENTIR alguma coisa (2) / Alguém (1) sentir(-se) de algum modo (2)
        Assim, 'mal', no predicado configurado com o verbo 'reagir', corresponde a um complemento oblíquo; o mesmo acontece com o verbo 'sentir'.
       A argumentação aduzida por quem lhe respondeu com a classificação 'predicativo do sujeito' é tão falível quanto em 'porto-me mal', 'comporto-me mal', 'agir mal', 'apresentar-se mal', 'entrar mal', 'prever mal' tal função sintática não estar presente, apesar de possíveis analogias com 'estar mal'.

       Leia-se Fillmore ("The Case for case", 1968, ou "Some problems for case grammar", 1971) e a resposta a dar em ações de formação seria certamente diferente da que foi produzida. Gramática de Valências, de Winfried Busse e Mário Vilela, é um outro contributo indispensável... digo eu.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Zeca Afonso... vivo na lembrança

    Por altura dos 25 anos da sua morte, fica o registo de uma música, de uma voz, de um tempo que se impõe relembrar.

    Os tempos não andam fáceis. 
    A descrença é evidente; o desalento impõe-se; os sinais de revolta,... latentes.
  E, assim, as palavras de Zeca Afonso e o seu sentido de intervenção se revelam inspiradores, atuais, reinventados com o significado vivo do que são as lembranças de um tempo de larga e crescente preocupação, insatisfação, injustiça, perseguição, condicionamento e vontade de mudança.


Vieram cedo
Mortos de cansaço
Adeus amigos
Não voltamos cá
O mar é tão grande
E o mundo é tão largo
Maria Bonita
Onde vamos morar

Na barcarola
Canta a Marujada
- O mar que eu vi
Não é como o de lá
E a roda do leme
E a proa molhada
Maria Bonita
Onde vamos parar

Nem uma nuvem
Sobre a maré cheia
O sete-estrelo
Sabe bem onde ir
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos cair

À beira de àgua
Me criei um dia
- Remos e velas
Lá deixei a arder 
Ao sol e ao vento
Na areia da praia
Maria Bonita
Onde vamos viver

Ganho a camisa
Tenho uma fortuna
Em terra alheia
Sei onde ficar
Eu sou como o vento
Que foi e não veio
Maria Bonita
Onde vamos morar

Sino de bronze
Lá na minha aldeia
Toca por mim
Que estou para abalar
E a fala da velha
Da velha matreira
Maria Bonita
Onde vamos penar

Vinham de longe
Todos o sabiam
Não se importavam
Quem os vinha ver
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos morrer

     De tudo isto se compõe o presente, num ritmo cíclico de eterno retorno ao que não se quer (ver) repetido.

    Num incómodo 23 de fevereiro de 1987, uma voz passou a habitar a memória dos que a recuperam neste momento em que há notas (tão dissonantes) para uma nova "Canção do Desterro".

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Entre o que partiu e o que ficou

    Partiu o melhor de mim...

   Quando há cerca de dois anos, a propósito da comemoração do Dia Europeu das Línguas, conduzia a pesquisa de uma turma para o tema da Hungria, estava longe de pensar que este país se iria cruzar com a minha vida.
    Entre alguns atlas, enciclopédias e roteiros, a leitura, a escrita, o conhecimento da língua cruzaram-se com a produção de um cartaz alusivo ao país magiar, aos costumes e a dados linguísticos e culturais que se avivam no presente.
     No planalto dos Cárpatos, na Europa Central, a Hungria tem de Portugal quase os mesmos dez milhões de habitantes. Da língua fino-úgrica pouco há a lembrar a herança latino-românica, ainda que ambas partilhem um mesmo continente europeu. A capital - Budapeste - é a pérola atravessada pelo Danúbio, com as porções "buda" (mais ocidental) e "peste" (o "forno" ou "fogão" da parte oriental, em geral plana e cujo centro histórico apresenta o parlamento húngaro, a praça dos Heróis e a avenida Andrássy).

     
   País do goulash ('comida de vaqueiros' preparada tradicionalmente pelos pastores húngaros, com carne de vaca cozida, cebolas, banha de porco, pimento-paprica, cominhos, sal e água), a Hungria faz parte da União Europeia desde 2004, mas ainda mantém o florim húngaro como moeda nacional.
    Entre a música de Liszt e Bela Bartók, a ilusão de Houdini, as fotos de Robert Kappa, a representação draculiana de Béla Lugosi, a cinematografia de Miklós Jancsó, o jogo futebolístico de Puskás e a escrita de Imre Kertész, há ainda um rio que me separa de um coração europeu também português.

    ... ficou o que há muito não interessa.