quarta-feira, 30 de março de 2016

Uma música para uma série

      Depois do apontamento para a série, vai o da música.

     A anunciar Versailles está o genérico baseado na composição "Outro" da banda eletrónica francesa M83, a mesma que participou na banda sonora de filmes como Interstellar e Cloud Atlas.
    Do duplo álbum Hurry Up. We're Dreaming (2011) saiu esta melodia, projetada e divulgada na série televisiva:

Montagem de imagens com o genérico da série Versailles

    Uma pequena letra acompanha a música, como se a voz ouvida fosse a do próprio Luís XIV:

        OUTRO
I'm the king of my own land 
Facing tempests of dust, 
I'll fight until the end. 
Creatures of my dreams raise up and dance with me 
Now and forever, I'm your king !

     Com letra e música, nesta quarta-feira, mais um episódio de Versailles marca o dia. Repito: série fantástica. A não perder.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Versailles

    Começou hoje uma série que promete! E na RTP1!!!

   Falo de Versailles, série anunciada como tendo chocado o público britânico, quando assistiu à representação televisiva do que foi a vida de Luís XIV, o rei-sol francês. 

Trailer oficial da série (primeira temporada) intitulada Versailles

    Numa produção franco-canadiana levada a cabo pelo Canal+, aquele que se designou como "L'État c' est moi" surge aos olhos do telespectador num cenário histórico grandioso, com um guarda-roupa majestoso e com uma perspicácia fora do comum. Estratega, manipulador, de olhar sordidamente penetrante e figura imponente, este monarca seiscentista foi o responsável (contra tudo e contra todos os que o queriam manter em Paris) por aquele que hoje ainda é considerado o palácio mais deslumbrante do mundo: o palácio de Versailles. Razão de esgotamento para inúmeros orçamentos extravagantes, tornou-se o modelo inspirador e o anseio de muitas figuras da realeza europeia - que o diga o nosso D. João V, quando decidiu construir o Palácio de Mafra e o radicou à sua magnânima pessoa real -, tanto por razões arquitetónicas como pela simbologia de um poder encarado como absoluto pelos "representantes de Deus na terra".
    Entre figuras históricas e fictícias, mais um fundo histórico marcado por criatividade e algumas infidelidades à História, as personagens da série acabam por manter relação mais ou menos direta com a corte de Luís XVI, num mundo em que glória e violência estão de mãos dadas para sustento do poder de um monarca (representado por George Blagden), a vida algo dissoluta do irmão mais velho (Alexander Vlahos) e as intrigas palacianas de todos os que deles dependem.
    Nas ousadias de quem tudo quer, pode e manda (para o bem e para o mal), há cenas intensas; personagens e representações fortes; uma intriga que "agarra" o espectador e se impõe como motivação forte para permanecer frente à televisão às quartas-feiras à noite, assistindo à primeira temporada (dez episódios) produzida por Simon Mirren e David Wolstencroft.

    Num reinado com mais de 72 anos (dos maiores, se não for o maior da Europa ocidental), há seguramente fonte inspiradora para muitas temporadas, assim a qualidade do primeiro episódio se mantenha. Boa aposta da RTP, para contrariar tanta telenovela e "reality show" que nem ao Diabo lembra.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Pérolas ministeriais...

      Não são novidade, por certo, vindas... de quem ou de onde?

     Há para todos os gostos: das mais presidenciais às mais ministeriais, para não falar de outras proferidas em comissões de inquérito, junto de deputados.
     Começo a acreditar que não interessa de quem vêm. Talvez o problema esteja mesmo no local, que acolhe quem menos está preparado na língua (às vezes, noutras coisas mais, a julgar pela forma como lá chegaram e pelo que não tiveram de provar, só por pertencerem a uns grupos políticos que os içam por razões dúbias).
      Se o senhor ministro põe a mão na cabeça, eu ponho as duas mãos à cabeça com tanta irregularidade  e incorreção nas formas verbais:

Excerto do programa televisivo da Assembleia da República

     Bem lá diz o povo que "Não há duas sem três": depois do 'intervieram' que não saiu (quando assim devia ser), duas vezes se ouviu o presente do conjuntivo do verbo 'ter' na pior forma (E não era eco, não)! Ambas foram convictamente ditas pela mesma boca que o disparou. MAL! MUITO MAL!
    Já não basta haver quem diga "tenhamos" como palavra esdrúxula (acentuando fonicamente a sílaba [te], quando deveria fazer tal com [nha]) e, agora, vem esta nova versão da conjugação (em modo ministerial, sublinhe-se). 

      Desde quando? De quem? De onde? Nunca! Ninguém! Nenhures! Negação plena no uso correto da língua. Quem não dá bom exemplo deixa muitos em tormento (não é provérbio, mas bem que o poderia ser). E mais não digo!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Fuga à vida ou vida à morte?

      104 anos depois, mantém-se a questão.

    Nome de referência local e nacional, Manuel Laranjeira é hoje lembrado pela morte que escolheu ao final de quase 35 anos de vida.
   Nascido no concelho de Vila da Feira (Mozelos) e oriundo de uma família pobre, Manuel Laranjeira teve um percurso de vida a tentar contrariar algum determinismo sociológico. Mais de três décadas de vida singraram-no à condição de médico, de intelectual ligado à escrita, à intervenção artística, social e política de então. Era o tempo entre a Geração de 70 (à data de nascimento) e os anos 20 do século seguinte, num Portugal saído da I Guerra Mundial (marcado pela crise constante em que vinha a sobreviver).
    Numa convergência de fatores (desde motivos mais contextuais a razões de carácter mais pessoal), não contrariou um pessimismo tão crítico para o país como fatal para uma visão da vida conjugada num misticismo e numa perspetivação estética, feitos de valores que tanto marcam o seu tempo como estão aquém e além dele.
  Disso mesmo trata a letra do "Fado Rezende (Ao morrer os olhos dizem)", recentemente identificada como produção de Manuel (Fernandes) Laranjeira. Investigações de Anjos de Carvalho, realizadas na década de 90 do século XX no âmbito do fado de Coimbra, e a publicação das quadras no livro Comigo. Versos dum Solitário (1912) atestam-no.
    Às palavras do escritor espinhense juntou-se a música do compositor Alexandre Rezende:

Vídeo de um espetáculo no Café de Santa Cruz (Coimbra)

 Ao morrer, os olhos dizem:
- «Pára, Morte, e espera aí!
Vida não vás tão depressa
Que eu inda te não vivi...»

E a Vida passa e a Morte
É que responde em vez dela:
- «Mas que culpa tem a vida
De que não saibam vivê-la?

    Um fado (ao estilo e registo da academia de Coimbra) para uma letra cujo autor ficou por largos anos incógnito. Quase como se fosse o fatum a negar-lhe a existência da obra, e talvez da vida. Ainda assim,  esta última acabou por ser determinada pelo próprio ser que, de alguma forma, traçou, por antecipação, o seu fim.

     Quem pode avaliar se alguém soube ou não viver a vida? Miguel de Unamuno, no prefácio das Cartas de Manuel Laranjeira, considerou que, ao seu amigo (que via mais como um "sentidor" do que pensador), "Matou-o a vida" e que, "ao matar-se, deu vida à morte!"

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Sem Eco (ou para / até sempre Eco)

     O final do dia trouxe o fim de uma vida, que deixou muita obra.

    Umberto Eco - reconhecido escritor, semiólogo, filósofo, ensaísta - é nome notável para uma obra multifacetada no âmbito das ciências sociais e humanas.
    O meu encontro com alguma da sua obra começou pelos tempos da faculdade, citado que era, como estudioso de referência, ora pelo seu pensamento literário ora pela contribuição dada no domínio da Semiótica (também chamada de Semiologia).
     A morte do autor de O Nome da Rosa abalou não só a Itália como o mundo das Humanidades, que vê 84 anos interrompidos ainda em pleno labor intelectual, conforme o provam as palavras do seu editor (ao anunciar um livro inédito intitulado Papé Satan Alleppe, para maio, no qual se aborda a identidade do Papa Francisco, personalidade admirada por Eco).
  Num espírito sistematicamente desconcertante, muitos foram os pensamentos (críticos) que partilhou com os seus leitores. Em Número Zero (2015), na crítica ao mau jornalismo, à mentira e à manipulação da história, apontou para um universo convulso, em tudo tão coincidente com o dos nossos dias; numa entrevista recente, refletindo sobre o papel das novas tecnologias na difusão de informação, assumiu que as redes sociais proporcionam a uma "legião de imbecis" o direito à palavra, numa escala bem mais preocupante do que a de tempos mais recuados, quando, num "bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade", outros já também imbecis acabavam por ser silenciados. Hoje, o poder da palavra desses é tão ou mais acessível e projetado do que o de grandes intelectuais, nomeadamente os prémios Nobel.
    Na leitura que fazia do seu papel, enquanto intelectual, Eco reconhecia ter formas de protestar, ainda que não tivesse o poder de mudar o mundo. Cultivava, assim, o que chamava de "política da empatia", por forma a criar a rede daqueles cujas estratégias de sobrevivência e defesa da virtude não andariam longe do que deu a ler:

Romance editado em 1994
- Vede, caro Roberto, o senhor de Salazar não diz que o sensato deve simular. Sugere-vos, se bem entendi, que deve aprender a dissimular. Simula-se o que não se é, dissimula-se o que se é. Se vos gabardes do que não fizestes, sois um simulador. Mas se evitardes, sem fazê-lo notar, mostrar em pleno o que fizestes, então dissimulais. É virtude acima de todas as virtudes dissimular a virtude. O senhor de Salazar está a ensinar-vos um modo prudente de ser virtuoso, ou de ser virtuoso de acordo com a prudência. Desde que o primeiro homem abriu os olhos e soube que estava nu, procurou cobrir-se até à vista do seu Fazedor: assim a diligência no esconder quase nasceu com o próprio mundo. Dissimular é estender um véu composto de trevas honestas, do qual não se forma o falso mas sim dá algum repouso ao verdadeiro. 
    A rosa parece bela porque à primeira vista dissimula ser coisa tão caduca, e embora da beleza mortal costume dizer-se que não parece coisa terrena, ela não é mais do que um cadáver dissimulado pelo favor da idade. Nesta vida nem sempre se deve ser de coração aberto, e as verdades que mais nos importam dizem-se sempre até meio. A dissimulação não é uma fraude. É uma indústria de não mostrar as coisas como são. E é indústria difícil: para nela ser excelente é preciso que os outros não reconheçam a nossa excelência. Se alguém ficasse célebre pela sua capacidade de camuflar-se, como os actores, todos saberiam que ele não é o que finge ser. Mas dos excelentes dissimuladores, que existiram e existem, não se tem notícia alguma. 
     - E notai - acrescentou o senhor de Salazar -, que convidando a dissimular não vos convidamos a permanecer mudo como um parvo. Pelo contrário. Deveis aprender a fazer com a palavra arguta o que não podeis fazer com a palavra aberta; a mover-vos num mundo que privilegia a aparência, com todos os desembaraços da eloquência, a ser tecelão de palavras de seda. Se as flechas perfuram o corpo, as palavras podem trespassar a alma. 

     Poder de palavra já clássico: o de movere (a par de docere e delectare).
     E nisto não deixa de estar o pensamento que Eco tão bem traduziu:


     Moral ou lição de vida? A virtude de dissimular a virtude, ou a virtude de quem partilha um saber que nem sempre se revela fácil de cumprir, por mais que até seja simples de compreender. Basta estar atento à vida (também ela feita de morte, ou não formulássemos frequentemente o lamento desta com um simples "É a vida!").

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

You, me and us... for it.

     Cerca de um mês depois da apresentação televisiva, mais uma música destinada ao sucesso, numa voz nacional.

   Uma estrela para querer ouvir, por certo, tanto pela interpretação como pelo facto de ser, efetivamente, uma "The voice", em Portugal.

Apresentação da canção no programa "The Voice - Portugal"
(RTP 1 - 10 de janeiro)

       I DIDN'T MEAN IT

You say the words I wanna hear
But they're as empty as the air
Just like you mean it
But you didn't mean it
At all

As I go walking through this night
Telling myself I will survive
I wish I could mean it
But you didn't mean it
At all

We can tell so far how endless is
And you can be someone that you can be
It's a gentle lie
But it will leave me crying through the night
But that's how it is, sometimes
But that's how it is, sometimes

Didn't think love should be like this
You and I both know what this is
You wanted to mean it, 
But you didn't mean it
At all

     Por mais que o amor, às vezes, não seja o que se quer, venha a música dizê-lo para que todos o saibam (para não se apresentar como mentira ou dor).

      Foi o que quis dizer ("I mean it!" and I meant it).

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Modalidade(s) de 'poder'

      Entre as várias multifuncionalidades que 'poder' tem, para lá da que decorre de uma capacidade / habilitação para algo, vem também a que se impõe pela crença e pelo desejo.

      Tudo a propósito de uma dúvida que me chega pela manhã (é nesta que se começa o dia):

     Q: Que modalidade e valor pensas estar presente neste segmento: "Não pode ser, não pode ser. Deus não podia consentir em tal" (Maria, em Frei Luís de Sousa). Obrigada.

       R: Comecemos por situar o "tal" - o tema / assunto de que se fala.

    "E pensar que havia de morrer às mãos de mouros, no meio de um deserto, que numa hora se havia de apagar toda a ousadia refletida que está naqueles olhos rasgados, no apertar daquela boca! Não pode ser, não pode ser. Deus não podia consentir em tal."

Telmo (João Villaret) e  Maria (Maria Dulce) 
no filme "Frei Luís de Sousa" (1950) 

       Na interlocução de Maria com Telmo (cena I do ato II), o enunciado proposto é revelador de uma crença do falante (Maria) face a um acontecimento. 
      Convocando uma crença religiosa assumida, a filha de Madalena e Manuel de Sousa Coutinho não acredita num facto que, naturalmente, não deseja e que, em função do contexto e da época representados na ação (príncípios do século XVII, conforme se lê na didascália inicial do primeiro ato), alimentou a esperança sebastianista do tempo: a da morte do jovem rei (condição necessária para que o seu regresso pudesse efetivar-se).
    Focando o segmento sublinhado, este reflete uma construção com o verbo modal 'poder' a transmitir a negação de uma possibilidade, matizada por uma subjetividade assente numa crença ("Não pode ser. Não pode ser") que acaba por ser projetada para um futuro (a ler-se na forma 'podia' do enunciado seguinte: "Deus não podia consentir em tal").
     Esta forma ‘podia’ atende a características específicas, à semelhança do que acontece em inglês com o contraste 'can / could'. Segundo Tim Stowell1, estes modais apresentam-se frequentemente neutralizados na sua interpretação presente/passado, em determinados contextos sintático-semânticos. Não obstante a forma do pretérito imperfeito, 'podia' ('could') não tem necessariamente interpretação de passado - o que pode ser exemplificado com o final da réplica de Maria. A negação, a recusa que subjaz a 'não podia' aponta para várias implicaturas: não querer que D. Sebastião tenha morrido; a morte de D. Sebastião é uma tragédia; Deus não permite que tal tragédia possa acontecer. Resulta, assim, uma enunciação a refletir uma posição pautada pela incerteza velada face à factualidade (a morte de D. Sebastião) e por um perigo iminente face à crença (a de que Deus possa agir de alguma forma contra o rei). 
     Em suma, exprime-se a não factualidade (desejada) da situação e uma crença (sujeita aos limites de qualquer fé), implicando uma força argumentativa próxima da expressão do desejo do falante.
     Consideradas as condições pragmáticas na produção do discurso e uma vez analisada a realização de 'poder' neste segmento textual, evidencia-se uma réplica que está para o ato da recusa, da rejeição, encarado pela personagem Maria, no plano da modalidade epistémica marcada pelo valor do impossível, mais matizado pelo fator das crenças e dos desejos do que pelo da realidade ou factualidade das certezas - um 'poder' que, não o sendo, é a possibilidade negada ou a impossibilidade subjetivamente equacionada.
    É neste enquadramento que a linguista americana Angelika Kratzer2 refere o conceito de modalidade "bulética" (numa tradução livre e literalmente aportuguesada, a partir de ‘bouletic’), para transmitir, enquanto subtipo da modalidade epistémica, o que é possível ou necessário no âmbito dos desejos ou das expectativas do falante.
NOTAS: 
1) STOWELL, Tim (2004:621-636) - "Tense and modals" 
in GUÉRON, Jacqueline e LECARME, Jacqueline (eds.) - The syntax of time, Cambridge, MIT Press

2) KRATZER, Angelika (1981: 38-74) - "The notional category of modality",
in EIKMEYER, H-J.e RIESER, H. (eds) - Word, worlds, and contexts: new approaches to word semantics, 
Berlin, W. de Gruyter

      A (im)possibilidade das crenças sempre moldou o saber e o conhecer - pelo menos, enquanto assim se desejou.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Há 51 anos...

      A noite ficava mais escura e o luar precisava de mais luz.

   Anunciado anteontem que o aeroporto de Lisboa passaria a chamar-se Aeroporto Humberto Delgado, as vozes e opiniões dissonantes não deixaram de se ouvir. Como em tudo na vida, não se pode agradar a gregos e a troianos, mesmo quando os argumentos da História estão aí para fazer lembrar o relevo da figura, tanto no campo da aviação (enquanto fundador da TAP e diretor-geral da Aeronáutica Civil, além de ter impulsionado a aviação comercial nacional) como no da política nacional (ao resistir e enfrentar um regime que acabou por lhe tirar a vida). 
    Como candidato oposicionista, ficou conhecido pela frase "Obviamente demito-o!", proferida quando o questionaram sobre o que faria com Salazar, caso ele vencesse as eleições presidenciais. Tal não veio a acontecer, ainda que as fraudes detetadas em todo o processo tivessem legitimado mais a sua luta do que a vitória de um regime ditatorial associado à figura do Presidente da República Américo Tomás.
     O 'General Sem Medo' foi afastado definitivamente das funções oficiais - à semelhança de muitos outros - e foi objeto da atenção persistentemente persecutória da polícia política, até conseguir exílio no Brasil. Pensando ir ao encontro de opositores ao regime do Estado Novo, Humberto Delgado veio a deslocar-se até à fronteira espanhola em Los Almerines, perto de Olivença, onde, em 13 de Fevereiro de 1965, foi assassinado por um grupo de agentes da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE). A sua secretária, Arajaryr Campos, teve o mesmo destino fatídico, sendo os corpos de ambos encontrados perto de Villanueva del Fresno, cerca de 30 km a sul do local do crime.
        Morta a esperança, só quase vinte anos depois se pôde gritar a liberdade.
     Essa mesma morte pode ser antevista nas palavras que Manuel (um dos populares de Felizmente Há Luar!) profere na abertura do ato II do texto de Sttau Monteiro:

Excerto de Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro (1961)
(clicar para ver o texto maior)

    A prisão e a morte anunciada do General Gomes Freire de Andrade são o motivo para a desesperança. Metaforicamente está prenunciado o destino de um outro General: não o dos inícios do século XIX representado no tempo da história, mas o de um outro que, em pleno século XX (o tempo da produção escrita dramática), era a esperança da libertação de um regime ditatorial - daí a perseguição que viria a culminar na morte (política e humana).
      As semelhanças da obra com a vida não são mera coincidência; antes um reflexo da técnica de distanciamento, de visão crítica preconizada por Brecht, e adotada por Sttau Monteiro, para acordar as mentes interessadas no progresso histórico:

Paralelismos temporais (tempo representado vs tempo da escrita) sugeridos
na leitura do texto de Sttau Monteiro

       Na rede de aproximações estabelecida, Felizmente Há Luar! assume-se como texto-metáfora ou um texto entre dois tempos: o da intriga representada (início do século XIX) e o da produção escrita (regime ditatorial de Salazar).

       Um jogo de tempos, uma mensagem a desvelar para que a opressão, o despotismo e a tirania não se repitam na vida humana, a bem da liberdade que se quer conquistada. A História e a Literatura podem ajudar nessa construção.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

E a chuva continua...

    Tem sido assim; parece que assim vai ser.

    Os últimos dias têm dado em chuva. Porque persiste, no chapinhar dos caminhos, entre a corrida que dela nos põe em fuga ou na face molhada que lhe dá a cara, resta descobrir a beleza deste tempo. Para quem pense que tal não existe, já o poeta o constatou em dois simples versos:

Montagem de imagens e do dístico caeiriano - VO

    Porque é natural, é belo; porque existe, é. Até pode haver quem não goste de um dia destes (eu tenho dias...!); há quem só queira calor e sol (sou mais deste tempo!). 

Caricatura de Viegas, em 'Pessoa Forever"

    Mas, se a chuva banha a natureza, só pode ser bela. Lava-a, equilibra-a e prepara-a para continuar a ser como é.
   Só tu, Caeiro, para - qual mestre - nos ensinares que o tempo é presente, por isso vale e nos acompanha a cada instante. Somos com ele e ele está connosco. Mesmo com chuva!

      Lá fora chove e cá dentro o tempo corre.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Uma questão de 'dar' (e sua finalidade)

      Cá chega uma questão de muita índole... gramatical... pela qual vou dar a cara (ainda que de 'dar' haja muito a falar).

     E para não se ficar no diz que disse, cá vai o escrito (que alguns eruditos - como Santo Agostinho - dizem ser mais perene).

    Q: Como classificas a oração subordinada da frase "Dei-lhe ordem que se sentasse"? Eu diria "Ordenei-lhe que se sentasse" e, por isso, parece-me substantiva completiva, mas dizem-me que é subordinada adverbial final...

    R: A transformação operada ("Ordenei-lhe" < "Dei-lhe ordem") faz algum sentido, sendo bem representativa e resultante de uma realização de 'dar' próxima de um verbo funcional - ou seja, sem o estatuto de verbo principal -, encarado como termo gramatical seguido de uma nominalização - no caso 'ordem' (obtida a partir de "ordenei").
      Ainda assim, neste caso, a análise sintática a fazer é a da frase que serve de ponto de partida, com o núcleo verbal (dar) a selecionar um complemento direto nominal ("ordem") e um indireto pronominal ("lhe"), os quais já se encontram inscritos no quadro sintático proposto. 
     "Que se sentasse" é, efetivamente, uma oração subordinada substantiva completiva, a funcionar como complemento direto, na realização com o verbo 'ordenar'. Todavia, na frase com o verbo 'dar', a mesma oração subordinada surge a seguir aos complementos selecionados, com um comportamento típico de adjunto adverbial (enquanto modificador), numa construção elíptica a exprimir o valor lógico da intenção, da finalidade ou do propósito. Daí tratar-se de uma subordinada adverbial final (> Dei-lhe ordem para que se sentasse / para se sentar / a fim de que se sentasse), até pelos complementos já inscritos na oração subordinante.

     Dou por concluído o esclarecimento (com mais uma realização de 'dar', desta feita similar a uma construção transitiva-predicativa), na expectativa de que a clareza tenha luz suficiente para dissipar a dúvida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"Ridendo castigat mores"

    Máxima vicentina acompanhada de tabefe, lambada, estalo ou bofetada valente (de luva branca não é, até por ser azul). Em tempos talvez tenha funcionado. Hoje, tenho dúvidas.

    Pelo menos para aqueles que aprenderam de vez a corrigir o erro, é possível que um valente tabefe tenha sido um santo remédio. Para os que não deixaram de o cometer, foi pedagogia falível. Ainda assim, sorrio com a imagem:


    Por cómico que seja, a vontade às vezes é muita - passar das palavras aos atos. Não sei se é razão para heroísmos, mas, por certo, é motivo de desgaste, de cansaço, de consciência de que não adianta falar sempre no mesmo e às vezes a uma mesma pessoa. Daí ter de se criar a versão contrária do "Água mole em pedra dura tanto dá até que fura".
   Não fura nem furará, quando tantos ignoram e/ou relativizam a questão. Pena que estes não saibam que a ignorância e/ou relativização neste domínio é apre(e)ndida e aplicada, depois, a muitas outras situações que também não serão levadas a sério (por mais que as queiramos ou venhamos a ver como tal).
    Será que a vítima aprendeu como se escreve 'bateste' (TU bateSTE)? Para que não se pense que é apenas uma questão de hífen, bom seria considerar que a gramática daria uma ajudazita importante, caso a morfologia fosse sistematicamente trabalhada (tal como em 'estudaste > TU estudaSTE', 'cresceste > TU cresceSTE', 'sorriste > TU sorriSTE'). Dar-se-ia conta da terminação verbal na segunda pessoa gramatical, e não de uma construção sintática associada à pronominalização (com 'te').
     Uma questão de domínios gramaticais com relações evidentes na leitura e na escrita - o que não significa, portanto, deixar de trabalhar morfologia e sintaxe. Se o bom desempenho daqueles domínios programáticos depende destes domínios linguísticos é neles que interessa apostar (quanto mais não seja para não ver anúncios tão mal escritos).

     Agora veja-se o peso que a gramática tem nos programas de ensino do Português, nomeadamente no Ensino Secundário! Só falta ouvir dizer que a questão crítica evidenciada é para alunos do ensino básico. Alguém está a precisar de uma valentíssima bofetada, para ver se acorda para o mundo e para a realidade. Belo pensamento para começar fevereiro!

domingo, 31 de janeiro de 2016

Não diria melhor...

     Ao final do primeiro mês do ano,...

    Tem sido tanta a loucura dos últimos dias que parece só haver um conselho a dar - pois não se vislumbra outra saída:


     Se isto é convite que se faça!
    Crescer na loucura vai dar em insanidade completa, não tenho dúvidas. Porém, como o fruto dos tempos tem seguidores que levam tudo para a frente e empurram todos para o ritmo correntoso dos dias, a palavra de ordem é nova: juntam-se partes de 'enlouqueça' com 'cresça', numa assimilação de sons tónicos / sílabas comuns, e assim se chega a uma amálgama - o que sempre dará para exemplificar um processo irregular de formação de palavras.
       Depois venham dizer-me que é preciso tratar da saúde!

   ... e ainda a procissão vai no adro (ainda bem que há algumas estrelas na escuridão do 'enloucrescimento') ou "na praça" (como diria o narrador do Memorial do Convento).
     

sábado, 30 de janeiro de 2016

Homofonias: ou (são) fases ou (não) fazes

     Depois do pensamento sério dos últimos dias, outros tempos e registos se anunciam.

     A homofonia dá para estas coisas.
     E, no jogo das palavras, a imagem seguinte lembra (que):


    Isto de se escrever diferente palavras diferentes a soar da mesma forma pode tornar-se uma situação crítica, desconcertante até. Esperemos que não o seja em demasia!

      De qualquer forma, isto de escrever com 's' ou com 'z' já não é novidade. Quanto a ler, nem tudo resulta em facilidade (tudo depende se a leitura é decifração sonora ou compreensão leitora).

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O luar... da mudança.

      ... para denunciar ou para libertar?

       Pergunta semelhante é colocada na página da companhia de teatro 'Actus': "O luar põe em cena a morte de um homem. Criminoso ou herói?" A resposta encontra-se no texto: tudo depende da perspetiva, claro. Quem está no poder vê crime; quem sofre o abuso desse poder aspira à libertação.
      Assim se deu a ler Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, na representação levada a cabo hoje na Academia de Música de Espinho, pelo grupo 'Actus', numa encenação de Tomé Vieira para o projeto 'Teatro para Escolas'.
       Um palco vazio, cheio de peças de roupa espalhadas pelo chão e correntes suspensas no teto, dava-se a ver ao público que foi enchendo a sala.
      Os (desesperançados) indigentes, os três reis absolutos e despóticos do Rossio, o interesseiro Vicente (a circular, a rodear os espectadores sentados, na sala, como se estivesse a espiar algum sinal a denunciar), as forças da opressão,  a evocação de Gomes Freire de Andrade, a revoltada Matilde de Melo surgem aos sentidos físicos de um público expectante, que assiste a uma encenação ainda (e sempre) com a atualidade típica dos grandes textos, devolvendo ao Homem a pergunta do que ele quer ser no seu tempo. Repete-se a história, com outros contornos, sempre à espera de um grito libertador.

Montagem com fotos da encenação de Felizmente Há Luar!, pelo grupo 'Actus'

        Não posso dizer que tenha sido a melhor das representações (até porque já vi melhor), mas não deixou de ser um momento capaz de desencadear um sincero aplauso e a vontade de cumprir a mudança.

        São tantas as formas de opressão deste tempo democrático que há já quem fale na ditadura da democracia. Entre os resistentes, quem vestirá a saia verde que, na noite dos tempos, o luar iluminará?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Chegado ao centenário.

     Na data de nascimento, para uma vida que deixou qualidade de escrita e pensamento.

    Talvez o de hoje não seja o melhor ou o mais positivo. Ainda assim, é certeiro e muito coincidente com o que vivo nos últimos tempos:


    É difícil não sentir o transcrito, particularmente quando se vê que, nestes tempos, ainda há quem goste de comprar e fazer guerras que não fazem bem a ninguém - não aos próprios e muito menos àqueles com quem mais diretamente vivem e dos quais se esquecem de que, de uma forma ou outra, dependem.
     E perde-se tanto tempo com coisas inúteis, inconsistentes, mascaradas de solução para não se sabe bem o quê (talvez para iludir, fazer de conta, mostrar serviço ou se acreditar que levar ao limite é prova de esforço e qualidade).

      De novo, um escritor a dar a lição que o(s) leitor(es) queira(m) aprender para a vida (para que o desgaste não seja tão desgastante). Há cem anos nasceu quem a pensou.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Enquadrar a questão...

    A dúvida precisa de ser enquadrada.

   Tudo a ver com 'quadro(s)', claro está.

  Q: A propósito do estudo das relações entre palavras, em concreto a homonímia, posso exemplificar com a palavra 'quadro'?

     R: A consulta de um dicionário apresenta uma resposta negativa a esta questão. As várias aceções listadas para o termo dependem de uma só entrada etimológica. A palavra está relacionada com a origem latina 'quadrum', independentemente dos diferentes significados associados.
       Por esta razão, trata-se de um bom exemplo de polissemia e não de homonímia, na medida em que esta última se traduz na convergência gráfica para significados marcadamente distintos, decorrentes de étimos latinos dissemelhantes. Daí os homónimos serem apresentados com entradas diferentes no dicionário, representativas de origens etimológicas distintas.


      Desde a forma de quadrilátero à obra de arte; desde os elementos de uma empresa (quadro de efetivos) ao conjunto de botões que compõe um painel de funcionamento de um sistema (quadro elétrico); desde a visão ou perceção de um grupo ou estado de coisas (quadro dantesco) à subdivisão de um texto dramático (quadro cénico); desde a estrutura de um velocípede (quadro de bicicleta) à exposição gráfica de um conjunto de dados (quadro sinótico); desde o conjunto de sintomas de um paciente (quadro clínico) ao funcionário qualificado (um alto quadro), é o campo semântico da palavra 'quadro' que está em questão, numa conjugação de traços ou zonas de significado aproximado / comum.

      Neste sentido, 'quadro' é uma palavra fortemente polissémica, sustentada num só étimo latino. Deixe-se a homonímia para casos como rio (< 'rivum', curso de água) / rio (< 'rideo', forma verbal de 'rir'); livro (< 'liber', obra publicada) / (< 'libero', forma do verbo 'livrar'); dó (< italiano 'do', nota musical) / dó (< latim 'dolus', para dor, luto), só para mencionar alguns entre muitos pares de palavras com origens bem diferenciadas.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Coisas sérias a brincar

     A começar o ano, uma mensagem televisiva para pequenos e graúdos (ou, respetivamente, mais e menos jovens).

Poster de divulgação do filme Os Croods
    É na base deste pensamento que mais um ciclo de doze meses se abre - um presente virado para futuro, sem esquecer uma nota de passado bem remoto. Vem este último a propósito de um conjunto de personagens de um filme animado: falo de Os Croods - homens das cavernas - que o canal de televisão SIC decidiu apresentar aos espectadores no início de 2016.
    Difundida há cerca de três anos, pela primeira vez, esta comédia cinematográfica chega à televisão com uma família pré-histórica, no momento em que vivencia a destruição do seu habitat. O espaço de proteção face a todos os perigos, identificado com os limites de uma caverna, conjuga-se com a regra do patriarca superprotetor Grug ("Tudo o que é novo é mau"), um contador de histórias voltadas para uma só moralidade: nunca descobrir o que é novo ou diferente. 
     Todavia, a curiosidade da jovem e forte filha Eep fará toda a diferença, inclusivamente quando conhece Guy, um rapaz astuto acompanhado de uma preguiça (mas nada preguiçoso ou acomodado) que lhe dá a conhecer a novidade (o fogo) e lhe diz que o mundo está a acabar.
      Ciente de que, a todo o momento, Eep necessitará de ajuda, Guy dá-lhe o sinal de chamamento (para que a possa ajudar sempre que necessário). Surge, assim, a oportunidade do amanhã, do futuro e a esperança de (re)encontro com a luz (em vez da limitação à destruição e escuridão).

Trailer do filme animado 'Os Croods' (2013)

    Será este adolescente sobrevivente, cheio de novas ideias, que apresentará à família Croods - desde Sandy, a bebé feroz de Grug e Ugga à sempre-viva avó, sogra de Grug - grandes desafios e contínuas adaptações a novos espaços, representados por fantásticos e coloridos cenários naturais. A descoberta de um mundo novo, com criaturas fantásticas, alterará a vida de todos, a vários níveis, nomeadamente nas relações e nos afetos.
     O filme tem uma boa mensagem, um esquema de intriga algo repetitivo (entre a destruição e o avanço para um novo cenário, ou oportunidade de vida) e um pai pré-histórico com um registo de língua muito apurado, correto e silabado para um homem das cavernas. A cor atrai, a fantasia constrói-se e as mudanças associadas ao percurso das personagens são uma possibilidade (sempre) credível para quem quer seguir caminho, andar em frente, independentemente dos males que possam ocorrer.

     Um desenho animado apostado na procura da luz e do amanhã - uma boa mensagem para começar o ano.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Tretas do 'Bom Português'

     Quando se fala do que não se sabe dá nisto!

    Uma coisa é a brincadeira ou a comédia, num registo em que quase tudo vale (mesmo que nem sempre se aceite):

Excerto do trailer "O Leão da Estrela" (remake de 2015)

Imagem do "Bom Português" (programa difundido hoje na RTP1, às 07:23)
   Outra bem dife-rente é a situação objetivada na informação e no ensino de alguma coisa. Caso para dizer que, assim, é preciso ter "cuidado com a língua" (só para citar um título de um outro programa televisivo preocupado com o uso correto da mesma). Isto de a repórter / entrevistadora ir perguntando aos transeuntes se 'antissocial' é uma ou são duas palavras nem ao diabo lembra. E já nem falo de o hífen (sinal gráfico) ser designado como "um traço". Pior ainda é quando, por indução de quem lhes faz a pergunta, quase todos os entrevistados repetem "duas palavras" (veja-se os dois dedinhos da interlocutora, na imagem, a evidenciar o dito). Lamentável, em toda a ordem!
     Se o cómico do excerto fílmico resulta pelo facto de todos saberem que 'im' não é uma palavra (por mais que a personagem a apresente como tal), é triste que alguém ligado a um programa orientado (pretensamente) para o "bom português" esteja a pensar (e a dizer) que 'anti' é uma palavra. Por mais variáveis que sejam os critérios para a definição desta última, não é aceitável o desconhecimento de que 'anti' é um afixo, constituinte morfológico tipicamente usado no processo de derivação e colocado à esquerda de uma base derivante. Não se trata de uma palavra composta, definitivamente.
     Antissocial é, efetivamente, uma palavra complexa derivada de uma base ('social') à qual se adicionou o prefixo ('anti').

    É impressionante (uma palavra complexa derivada por sufixação, registe-se, já agora) como a televisão contradiz tanto professor de Português. Logo, não é serviço público de bom exemplo para ninguém. E não se pode dizer que seja a primeira vez!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Leão (que não o é) da Estrela (que era Branca)

    Depois de O Pátio das Cantigas, chegou O Leão da Estrela, com a Canção de Lisboa já anunciada.

   Por mais que se ouça no filme que tudo o que é inusitado se parece com um filme de 1947, o remake de Leonel Vieira pouco tem a ver com o original, tal como já havia acontecido com O Pátio das Cantigas (1942).
    A comédia de enganos portuguesa, a preto e branco, de Arthur Duarte, ressurge quase setenta anos depois, não com António Silva - Anastácio, administrativo adepto do Sporting a preparar-se para um 3 a 1 contra o Porto (que se fica por 2-1) no estádio do Lima, mas, desta feita, a cores, com Miguel Guilherme - Anastácio funcionário das finanças, adepto dos Leões de Alcochete a sofrer a derrota por 2-1 contra o Inferno Futebol Club num estádio alentejano.


Um dos trailers de 'O Leão da Estrela' - Novos Clássicos (2015)

    Na deslocação para assistir ao jogo (num estádio "lindo" de um pequeno clube local), Anastácio leva a sua família para terras alentejanas, ficando esta alojada na casa de uma família rica (ironicamente, Barata) cujo filho (André Nunes) é "amigo" de Facebook de Jujú (Sara Matos). Realidades para um tempo novo, moderno, afastado da década de quarenta do século passado e das tradicionais rivalidades (clubísticas e de sotaque) entre Lisboa-Porto.
    O fim interrompido do filme atual (sabe-se lá como correrá a vinda dos Barata a Alcochete, para dar o aval ao casamento do filho com Branca, que foi Estrela) é uma revisão da sugestão de pedido de casamento não pronunciado do comandante aos pais de Jujú no final do clássico português (dado que não comparece na versão atual, para além de os papagaios de outrora terem sido substituídos por um peixinho laranja, que acaba por morrer). Filipinho permanece motivo de riso em ambas as películas. A comédia instala-se nalgumas (poucas) cenas, nalgum (previsível) nonsense e nalguns (repetidos) tiques de personagens, nomeadamente os de registos de língua cruzados com pronúncias muito marcadas, seja a dos alentejanos seja a do novo-riquismo afetado (de que a forma de tratamento "você" é mero exemplo).

Pormenor do cartaz 'Novos Clássicos' (com réplicas do filme)

      É verdade que é comédia (embora, para mim, os bloopers finais tenham resultado melhor do que o sorrisos surgidos ao longo do filme); usa-se e abusa-se dos enganos, tal como no original (desta feita mais deslocados para a influência do par Anastácio - Jujú), mas não posso dizer que o resultado seja extraordinário, mesmo por comparação com o resultado da adaptação de O Pátio das Cantigas. Valham as interpretações de Miguel Guilherme (Anastácio), José Raposo (Barata), o mecânico Miguel e a "criada" Rosa (Aldo Lima e Dânia Neto), mais Alexandra Lencastre e Manuela Couto (Srª. Barata e Carlota) num contraste tão concertado (e sem concerto) que se constrói no seio de tanto logro a saltar à vista (e ao ouvido) do espectador entre as máscaras (re)criadas.

   Conclusão: como diria Anastácio, "isto das mentiras é uma coisa lixada. Um gajo perde-se nisto"! Venha o terceiro (que, pelos vistos, antigamente, foi o primeiro de todos).

sábado, 26 de dezembro de 2015

No coração do mar

    Título de filme atual baseado numa obra que retrata um facto inspirador para um épico da literatura oitocentista norte-americana.

   Aquela obra que Nathaniel Hawthorne considerou ser um exemplo moderno da epopeia homérica aplicada à literatura norte-americana nasceu a partir do sucedido e relatado neste filme.
    Não se trata propriamente de uma adaptação cinematográfica de Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891), mas, antes, das condições de produção desse romance pelo escritor norte-americano. Daí este aparecer, na intriga da película, como personagem, pesquisando os motivos que viriam associar-se à construção desse mito literário identificado com uma baleia branca (ou albina) - verdadeira metáfora do poder animal e natural contra o interesse humano da altura (aproveitar-se da gordura animal para um sinal da modernidade do mundo de então: a iluminação a óleo das cidades e o comércio associado à caça baleeira). 
   O filme adapta a obra homónima de Nathaniel Philbrick (publicada no ano 2000), que narra a verdadeira história dramática vivenciada pela tripulação do navio Essex, em 1820 - facto que também resultou na realidade inspiradora do romance Moby Dick (1851).

Trailer do filme (2015)

      Sob a realização de Ron Howard (o mesmo de “O Código Da Vinci”), assiste-se a uma história na perspetiva do velho Thomas Nickerson (Brandan Gleeson), traumatizado com o que vivera como jovem navegador (Tom Holland) do baleeiro Essex. Em analepse, é ele que dá a conhecer a Melville (Ben Whishaw) o vivido e por longos anos silenciado, por os acontecimentos se pautarem pelo que há de mais terrífico, trágico e simultaneamente heroico. Quer o escritor quer o espectador ficam a saber como sucedeu o naufrágio do Essex, a par do confronto da fúria animal em alto mar com o interesse dos homens; do conflito aceso entre o capitão George Pollard Jr. (Benjamin Walker) e o imediato Owen Chase (Chris Hemsworth), que aspira a ser comandante de um baleeiro; da questionação que os sobreviventes revelam acerca de tudo aquilo em que acreditavam (desde a dignidade e honra pessoais ao verdadeiro sentido e valor da vida humana) mal se veem à deriva durante meses em pleno mar, aflitivamente lutando contra forças que os dominam. Impõem-se a experiência marítima e um instinto de sobrevivência que supera os limites de qualquer código moral, ético ou pessoal. Se uma tempestade não destruiu por completo a embarcação, viria a fazê-lo uma baleia, numa resposta à teimosa ousadia do Homem. Quando este para, também aquela deixa de atacar.
     No final do filme, a crença na palavra de Chase e na lealdade (ainda que infrutífera) para com o amigo que deixa numa ilha à espera da salvação; o reconhecimento de Pollard face aos acontecimentos vividos e não aos que comerciantes e companhias de seguro queriam fazer crer por imperativos financeiros; os silêncios que são ultrapassados para se viabilizar uma ficção inspirada na realidade são a constatação de que Moby Dick é uma possibilidade apenas para a certeza de que o Homem tem nas suas mãos o cumprimento das promessas que faz, a afirmação da verdade vivida e a vontade de não querer repetir aquilo que aconteceu e se aviltou.
     Esperando mais dos efeitos fílmicos (nomeadamente no que aos conflitos com a baleia diz respeito), não nego a qualidade dos grandes planos (essencialmente focados nas forças naturais) e os picados que minimizam o poder dos homens. Ainda assim, o drama da vida parece estar mais nos conflitos criados pelos humanos do que nos confrontos propostos pela natureza (e que, mais cedo ou mais tarde, desaparecem).

      A baleia albina é uma força; os homens são outra. Por mais que estes se queiram sobrepor, é aquela que sobrevive para se tornar mito. A humanidade tem, porém, sempre a hipótese de se recompor, caso não se renda àquilo que não quer ou à mentira declarada. Nisso, o filme apresenta uma mensagem de esperança, por mais que esta se situe no plano da ficção.