domingo, 25 de junho de 2017

Sinal dos tempos...

       Não são famosos, por certo. Falo dos tempos... e não só.

      Falo também de música, daquela que me tem acompanhado o gosto nos últimos tempos e que me faz lembrar batalhas, guerras com "balas", por vezes a fazer perder algum do sentido da vida.
      Assim ouço a composição na voz de alguém que, pelos vistos, fez parte de um grupo que não apreciei particularmente, mas que evoluiu para sonoridades que hoje me chamam a atenção. Harry Styles (antigo membro dos 'One Direction') dá voz a uma balada intitulada "Sign of the times", primeira canção a solo para este músico britânico; grito musical para ir em busca de outros dias, de maior felicidade:

Vídeo de "Sign of the times", canção interpretada por Harry Styles 
(difundida na rádio desde abril de 2017)

SIGN OF THE TIMES

Just stop your crying
It’s a sign of the times
Welcome to the final show
I hope you’re wearing your best clothes

You can’t bribe the door on your way to the sky
You look pretty good down here
But you ain’t really good

We never learn
We’ve been here before
Why are we always stuck and running from
The bullets, the bullets
We never learn
We’ve been here before
Why are we always stuck and running from
The bullets, the bullets

Just stop your crying
It’s a sign of the times
We gotta get away from here
We gotta get away from here
Just stop your crying
It’ll be alright
They told me that the end is near
We gotta get away from here

Just stop your crying
Have the time of your life
Breaking though the atmosphere,
And things look pretty good from here
Remember everything will be alright
We can meet again somewhere
Somewhere far away from here

Just stop your crying
It’s a sign of the times
We gotta get away from here
We gotta get away from here
Stop your crying, baby
It’ll be alright
They told me that the end is near
We gotta get away from here

We don’t talk enough
We should open up
Before it’s all too much
Will we ever learn
We’ve been here before
It’s just what we know

Stop your crying, baby
It’s a sign of the times
We gotta get away
We gotta get away

      A lembrar uns "The Verve" ou "Oasis", esta canção instalou-se na minha mente; contudo, o pedido de que o choro não continue traz qualquer coisa de repetitivo, de cíclico (na melodia como na vida); também de derradeiro, até de fatídico - o que não me agrada na letra, mas que toca, por certo, com a melodia dada a ouvir. Mesmo que "We we don't talk enough" e que "We should open up", a fuga impõe-se, mas convém que seja neste mundo, com os pés assentes no chão, para que também nele se retire alguma lição.

     Se alguma coisa está prestes a findar, que seja este "dar o peito às balas" (porque já cansa e não faz de ninguém herói). À espera, portanto, de dias melhores.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Prémio Manuel Laranjeira no Dia da Cidade

     Celebrado do Dia da Cidade (pelo 44º aniversário de elevação de Espinho a esse estatuto), fecha-se um ciclo de trabalhos a anunciar outro(s).

     O Prémio Literário Manuel Laranjeira teve hoje direito ao reconhecimento da sua premiada, na cidade de Espinho.
     Na subida ao palco e na presença do Senhor Presidente da Câmara Municipal (Dr. Pinto Moreira), da Senhora Vereadora da Cultura (Drª. Leonor Fonseca), do Responsável pelos Serviços de Cultura e de Museologia (Dr. Armando Bouçon) e da Senhora Diretora do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (Drª. Ana Gabriela Moreira), a agraciada com um prémio de cinco mil euros (Sandra Inês Cruz) dirigiu algumas palavras ao público presente no Multimeios.

Cerimónia da entrega do Prémio Literário Manuel Laranjeira, 
no Multimeios de Espinho (premiada à direita)

   Da nota de agradecimento às breves palavras que explicitaram um pouco da criação da obra premiada (Viagens por histórias mais ou menos naturais), fica o registo fotográfico do momento em que a autora é presencialmente dada a conhecer ao público e recebe os merecidos aplausos.
    Assim se concluem dois anos de ação, numa equipa que, nos termos do protocolo estabelecido entre a Câmara Municipal de Espinho e a Escola Secundária com 2º e 3º Ciclo Dr. Manuel Laranjeira, fez relançar uma prática cultural por alguns anos abandonada no concelho, mas que teve neste 2017 a sua primeira edição, com a seguinte a ter lugar em 2019.

      Cumpriu-se o trabalho, partilharam-se os agradecimentos e pode dizer-se que tudo foi feito para bom nome do homenageado que dá nome ao prémio. Daqui a dois anos há mais.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Mas algum humano acredita nisto?!

     Nem Freud! (Não é argumento de autoridade. É crença, mesmo!)

    Quando procuro descomprimir, está visto que não dá para ir ao Facebook. Não é por nada, mas quando se lê isto (um catafórico, por anunciar o que ainda não é explicitamente textual, só pairando na minha mente) não é possível ficar indiferente, incólume ou corroborar o impensável.
      Cá vai:

A circular no Facebook 
e a haver quem ache, pelo lamento crescente, que não devemos ser de ferro...
mas de aço!

       Perigoso! Nem Freud o aceitaria, seja no dever seja na resposta a dar à vida!
    A acreditar nisto, e a aceitá-lo, pouco falta (espantemo-nos!) para crer em fundamentalismos e extremismos... É tão medieval o pensamento quanto o ferro humano que, na imagem, me sugere a armadura ou a malha dos que faziam da vida luta, duelo ou morte.
      Máquinas, com avarias anunciadas no final, já Álvaro de Campos propôs na "Ode Triunfal": "Ah não poder ser eu toda a gente em toda a parte!" Popularmente, dir-se-ia "Quem tudo quer tudo perde". 
       Cedo ou tarde, por mais que se ache que os telhados de vidro não existem, a pedra cairá (não sei se na cabeça de alguém, mas que seja, no mínimo, na consciência). Talvez a vida venha a ensinar muita gente que não somos nem aço nem ferro. Humanos, sim, com falhas e nem sempre porque as queremos, mas porque elas existem connosco ou vêm ao nosso encontro e nos derrubam. Pensar o contrário só no discurso do lamento ou negando que, na vida, há pequenas coisas que fazem os dias diferentes.
     Na realidade, a verdade não é a do pensamento citado; é muito outra e é pena que muitos humanos dela se esqueçam. Só se lembram dela nos momentos de choque, e talvez aí já seja um pouco tarde. É pena que da história não se faça da memória! E a história muitas vezes é a nossa! 
     Felizmente, quero acreditar que há quem a ajude a (re)escrever e a (re)viver de outra forma.
    Mais não digo - melhor: não escrevo, para não repetir o exemplo de alguns alunos que, ao escrever num teste escrito. dizem que fala(ra)m. Oh, vã ilusão!

    Não gosto, não aceito, não acredito e só o entendo quando tudo corre bem (e não será, certamente, para todos o que procuram sobreviver nas situações ou nos tempos mais críticos). Pena é quem haja que ainda subscreva o pensamento, tal como apresentado na imagem! E há! Oh se há!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Sem santo nem poeta

     Quando me preparava para escrever sobre Santo António ou a data de nascimento de Pessoa, fiquei sem santidade (como se alguma vez a tivesse) e perdi a poesia.

      Não há milagre ou santo nem poesia ou poeta que resistam. É tão mau que nem ao Diabo (vá de retro, Satanás!) lembra. Tudo num só dia. É obra (ingrata)!
       Para começar, logo pela manhãzinha, não há luz ao fundo do túnel para quem escreve as legendas na RTP:

As legendas da RTP no seu pior (I)

     Coitadas das timas (nome), que deixaram de o ser (até porque nem na notícia o foram) por passarem a forma verbal (vitimas). Lá se foi a palavra esdrúxula, porque a quiseram tornar grave. É grave... muito grave!
       E por falar em esdrúxulas (ou proparoxítonas), três minutos depois, mais duas pérolas:

As legendas da RTP no seu pior (II)

       Não é bom falar de vidas, é certo; porém, confundi-las com a forma do verbo dividir no presente do conjuntivo (segunda pessoa do singular: dividas)...! Quer-se o nome; não o verbo. Para terminar, e ainda no mesmo rodapé, último (adjetivo) a ser confundido com a forma verbal de 'ultimar' (eu ultimo, tu ultimas, ele ultima...). É a sílaba tónica distinta (em termos fónicos) e a acentuação gráfica (em termos ortográficos) que fazem a diferença.
       Um minutinho depois, é a vez de novo caso crítico:

As legendas da RTP no seu pior (III)

     Nova esdrúxula que o devia ser enquanto nome (tráfico), e sai nova forma verbal grave (eu trafico, tu traficas, ele trafica,...). Isto de traficar nunca deu bom resultado!
      Quando tudo parecia crer que havia alguma coisa contra a acentuação gráfica das esdrúxulas (tão elementar quanto obrigatória no português), surgem, duas horas depois, duas falsas esdrúxulas com o mesmo problema (o da ausência de acentos):

As legendas da RTP no seu pior (IV)

As legendas da RTP no seu pior (V)

       'Queda às' em vez de 'Queda nas' é questão menos problemática, quando, por comparação, se conclui que não há queda nenhuma, efetiva, para a acentuação gráfica - inclusive das palavras terminadas com encontros vocálicos habitualmente proferidos em ditongo crescente (casos de tio e de água, ou as chamadas "falsas esdrúxulas").
        Não fosse isto suficiente, falta o momento de "Última hora". Na festa, tudo se passa e muito se consente; mas no que toca à sua notícia, para além da falha / troca de letra ou grafema (se > de), a discordância sintática é evidentemente contraproducente:

As legendas da RTP no seu pior (VI)

     As comemorações, na justa medida, sempre animaram e não há santo que tal mude: a concordância no plural é processo de coesão frásica tipicamente verificado e normalizado na língua. Contudo, na cabeça de alguns nem sempre tal se verifica, para mal dos pecados de quem tem que os ler, quando escrevem (MAL).

      Nem Fernando nem António nos livram, por mais santos ou poetas que tenham sido. É muito mau receber isto tudo num só dia. Dizem que à dúzia é mais barato, mas, definitivamente, já à meia a imagem do canal do "Bom Português" sai bastante comprometedora. Mais uma imagem que não dá para comprar.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Quando a vergonha é pública...

     Aos doze dias do mês de junho,...

    fica o registo de que não sei o que é mais escandaloso: se a nomeação dos novos dirigentes da TAP (Transportes Aéreos Portugueses), tão discutida nas notícias de hoje, se a manutenção do erro na RTP (Rádio Televisão Portuguesa).

Imagem captada no programa informativo 360º, emitido na RTP3

     Ainda há dias ditava um sumário aos alunos, alertando para o contraste 'critica - forma verbal / crítica - forma nominal ou adjetival'.
     E tomando atenção na sílaba tónica de cada uma das formas (critica / crítica), lembrava como na última estávamos perante uma palavra esdrúxula (sempre graficamente acentuada no português). Chamando cada uma das palavras, a diferença tornou-se evidente em termos fónicos; na classe de palavras a questão foi exercitada em contextos frásicos, para reconhecer qual das palavras utilizar. É um caso CRÍtico da língua e eu criTIco os que erram. Estou a sair cá um CRÍtico!
      Na RTP começa a ser um facto que alguém não sabe escrever corretamente. Um meio de comunicação social a expor milhões ao erro.

     Em vez de chamar a palavra para deteção da sílaba tónica, berrava (até porque a frequência e a natureza dos erros começa a ser absurda) a quem faz as legendas no rodapé das notícias. Caso para dizer que "Vergonha (também) foi o erro" e não se ficou pelo privado. Não é "Bom Português".

sábado, 10 de junho de 2017

Famílias poéticas ou da língua

     Feriados ao sábado são um desperdício (ao domingo também).

    Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas foi dia celebrado entre o Porto e o Rio de Janeiro, a falar português, esse idioma que une continentes e se fez pátria - pelo menos, assim o dita essa citação poética revista em azulejo:



     Em dia de Camões, não é heresia nenhuma citar Pessoa, este que parecia ver-se no espelho como esse "supra-Camões" sugerido numa sequência de artigos sobre a nova poesia portuguesa, escritos em 1912 para a revista A Águia (órgão do movimento da Renascença Portuguesa). Talvez não seja muito rigoroso dizer-se que o pensamento é de Fernando Pessoa, quando de Bernardo Soares se trata, o semi-heterónimo do Livro do Desassossego.

      Num feriado dedicado (também) ao poeta, é a língua e a cultura que se reveem nessa identidade de comunidades e famílias poéticas feitas de um mesmo material que é, simultaneamente, objeto e construção, em aberto, às potencialidades (re)criadas na e pela arte.

sábado, 3 de junho de 2017

Desconsolado

     Sempre que nos meios de comunicação social o erro surge, este propaga-se por milhões.

     Parece que já não há princípio nem cuidado a pautar por quem escreve legendas no rodapé das notícias. São tantos os maus exemplos que, no meio da banalidade, nem os responsáveis de edição reparam. Aqui vai mais um:

Uma legenda infeliz num rodapé que requer investigação... todos os dias!
(A RTP anda a precisar de apostar nessa "investigação" mais linguística)

     É de perder a paciência, um desconsolo, quando se confunde um cônsul com consolo. Depois, claro, vem o 'consolado' que, em vez de ser adjetivo (formado a partir do particípio passado do verbo 'consolar') é erradamente tomado por nome para o espaço do cônsul. Enfim! Uma desgraça! 
     Tristeza! Não é para ficar consolado; antes pelo contrário. Resta saber se o cônsul anda consolado lá para o seu CONSULADO.

     Caso para dizer, investiguem a língua e pode ser que não caiam em erros de natureza homofónica. Até a senhora, na imagem, está com cara de poucos amigos.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Há fumo branco!

        Depois de uma manhã, que se revelou consensual,...

Anúncio televisivo do Prémio Literário Manuel Laranjeira 
(RTP2, na emissão de 28 de abril de 2016)
    ... o Prémio Literário Manuel Laranjeira (1ª edição, 2017) já tem uma vencedora. É do concelho (também piscatório) de Matosinhos e produziu uma obra inédita, em língua portuguesa, num dos géneros a que o escritor espinhense se dedicou: o diário. Sandra Inês Andrade Ramos Cruz é o nome da autora distinguida com cinco mil euros, pela distinção da obra intitulada Viagens por histórias mais ou menos naturais.
     Segundo o júri, a escolhida entre as 74 candidaturas foi destacada pela originalidade, pelo respeito por um dos géneros textuais selecionados e por uma vontade de estilo sedutora dos leitores das obras a concurso. A qualidade foi ainda reconhecida por um dos jurados, a sublinhar que "Temos escritora!". Perspetiva-se o conhecimento e a leitura de um texto que se anuncia formativo para o público geral, nomeadamente - e mais em particular - os mais jovens. Nesta medida, há razões para crer que haverá iniciativas em que a premiada, os promotores do prémio (Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Laranjeira, Biblioteca e Câmara Municipal) e o potencial público leitor venham a ver multiplicadas oportunidades de homenagem ao autor de Às Feras (1905) e de Pessimismo Nacional (1907-08).
     Na presença dos elementos do júri, dos responsáveis da cultura da Câmara Municipal de Espinho, dos órgãos de direção e gestão da escola, bem como da equipa dinamizadora, a boa nova foi partilhada num almoço preparado pelo formador e servido por formandos do Curso Profissional de Restauração do 10º ano do estabelecimento de ensino mencionado. À qualidade revelada na refeição confecionada e ao momento de confraternização vivido, somou-se ainda o instante em que todos testemunharam a comunicação do resultado à galardoada. Um dia e momento dignos da figura cultural evocada e da criação artística (para a qual também muito contribuiu).
    A entrega do prémio ocorrerá, publicamente, no próximo dia 16 do corrente mês (Dia da Cidade), no Centro Multimeios.


        Foi assim retomada, de forma feliz, uma prática cultural que marcou a edilidade durante alguns anos e que se espera ver continuada daqui a dois, sempre com o intuito de projetar uma das figuras referenciais da localidade nas letras portuguesas, também patrono da escola / do agrupamento que assumiu a parceria do prémio e do evento junto com a Câmara Municipal de Espinho.
      

sábado, 13 de maio de 2017

Portugal vence Eurofestival com os irmãos Sobral

      De tão anunciada ao longo da semana, não custava (nada) acreditar na vitória.

      É um facto que o festival nacional da canção já levou à Eurovisão cantigas que não me disseram nada, mas também é verdade que já tivemos belíssimos exemplos que ficaram muito aquém das expectativas. E não foi apenas um. Vários casos podiam ser aqui mencionados (Simone de Oliveira, Duarte Mendes, Maria Guinot, Sara Tavares, Dulce Pontes, Rita Guerra).
      Há quem diga que são motivações políticas que estão por trás do apoio aos vencedores - não creio que tenha sido o caso este ano. Outros apontam razões económicas - também aqui não está o nosso ponto forte. Alianças ou identidades culturais haverá, por certo, entre os países que se fazem representar num festival que se diz europeu e já lá conta com a Austrália (grande redefinição continental)! Nas aproximações e nos afastamentos, Portugal recebeu pontuações máximas entre aliados históricos e amigos mais recentes. No centro de tudo, há uma belíssima composição, na letra e na música. Quanto à interpretação, por mais que se fale na teatralização e nas particularidades expressivas do cantor, está em causa a sensibilidade de quem canta e interpreta, por mais caricato que possa parecer; um modo de sentir uma letra e uma melodia que têm tudo para ouvir e seduzir, ao estilo de um jazz de versatilidade vocal e harmonias românticas simples, matizadas com sonoridades tão diversas quanto o choro do fado, o embalo da bossa nova, mais a esperança e a vontade que o jazz traz ao que possa ser "blue".
      Os prémios extra-concurso (Marcel Bezençon Awards, pela interpretação de Salvador Sobral e pela composição musical de Luísa Sobral) eram um indício de um final feliz, há pouco reafirmado: Portugal vence o Eurofestival com os irmãos Sobral, depois de 53 anos de participação no certame.
    Foi assim que tudo começou (tão simples, genuíno, sensível, melodioso) e muito deve ser assim lembrado, por mais brilho, palmas, sucesso ou público que tenham sido ou venham a ser conquistados:

Participação no Festival da Canção 2017, na RTP1 - Salvador Sobral

       AMAR PELOS DOIS

Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi para te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada para dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois

      
     Talento de irmãos, formação musical, sonoridades bem combinadas a despertar a emoção foram ingredientes essenciais para a(s) vitória(s). Em Português.
       
     Uma música pela música. Uma vitória que faz sentido, E a canção é linda! É balada que os irmãos Sobral souberam muito bem criar e pôr muita gente a cantar. Com orgulho, também.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

De bom tem pouco!

      Isto de começar o dia com erros não é por certo de "Bom Português".

     Começa a ser um lugar comum, atendendo a tanto apontamento crítico já aqui registado. 
    Quando julgava estar a ouvir mal, confirmo na RTP-Play a "lição" do "Mau Português". Não é o que se escreve, mas o que a voz-off (da locução) dá a ouvir à medida que se lê a frase com a forma verbal corretamente escrita:

A partir do registo do programa "Bom Dia Portugal", emitido hoje na RTP1

     Já nem comento o facto de "chegarmos" ser palavra que os transeuntes dizem estar "tudo junto", "sozinha", "pegado" e "sem tracinho". Agora, às 7:24 da manhã, ouvir que se escreve tudo junto porque se trata da terminação da terceira pessoa do plural do infinitivo pessoal... é obra do pior exemplo.
     É do conhecimento geral, pela leitura atenta das gramáticas, que a terminação verbal em 'mos' (sem hífen, portanto) é a marca morfológica periférica (à direita, a dos sufixos) da primeira pessoa do plural, conforme se pode verificar na sistematização seguinte:

Sistematização dos paradigmas flexionais verbais comuns no Português

      Numa das realizações típicas do Português - a do infinitivo flexionado, com a marca de pessoa e de número -, é possível encontrar afixos flexionais que amalgamam as categorias de pessoa e número. No caso de "chegarmos", o que está em causa é a amálgama de pessoa e número para a primeira pessoa do plural ("O facto de <NÓS> chegarmos..."), não para a terceira ("O facto de <eles> chegarem...").

     Fica aqui a correção para a "lição", começada às 7:23 no que devia ser o "Bom Português". Voltou a não ser bom exemplo.

domingo, 26 de março de 2017

Pensamento do dia (com frio e chuva)

     E para hoje,...

     ... nada como passear pelo Facebook e encontrar a imagem seguinte na página "O Sexo e a Idade":


     Concordo com o conteúdo.
     Quanto à forma, resta-me responder à letra:


     Não é embirração, mas a impressão de que, amanhã, vou voltar ao mesmo (isto porque 'água mole em pedra dura muito dá e pouco fura'). 

     Parece que a única coisa que mudou hoje foi mesmo a hora, para tornar a luz dos dias mais longa.

sábado, 25 de março de 2017

A César o que é de César; ao nome o que é do nome.

      Voltando às funções sintáticas, desta feita mais internas.

      Nova dúvida em apontamento antigo (que nem era sobre sintaxe, mas que lá tem depositada a dúvida sobre tal domínio linguístico).

        Q: Boa tarde. 
      Tenho dúvidas se a função sintática do segmento textual "de uma esquadra inglesa", na frase “Ancorado em Alcântara desde a manhã de 22 de dezembro, assiste no dia seguinte à chegada ao Tejo de uma esquadra inglesa que larga ferro a estibordo“ é o complemento do nome ou o complemento oblíquo. Poderia ajudar-me?
         Muito obrigada,

     R: A função sintática do complemento oblíquo está na dependência de um verbo transitivo indireto. Assim, "assiste" seleciona o complemento oblíquo "à chegada ao Tejo de uma esquadra inglesa que larga ferro a estibordo". O foco centrado no verbo "assistir" (que, por sua vez, seleciona a preposição 'a' - ASSISTIR A) permite ver, a um primeiro nível de análise sintática, um verbo principal (transitivo indireto) complementado por um sintagma preposicional expandido (todo ele encarado como complemento oblíquo). 
     No caso do segmento indicado ("de uma esquadra inglesa"), este encontra-se na dependência do nome "chegada", numa expansão desse núcleo nominal; logo, corresponderá ao complemento do nome ("chegada"), enquanto função sintática interna (ou de segundo nível de análise).
       Esquematicamente, teríamos:


    Se é verdade que o verbo 'chegar' implica a estrutura argumental 'Alguém / Algo CHEGA A Algum lugar", o agente associado ao ato de chegar (a funcionar como sujeito sintático) é o que está configurado por 'de uma esquadra inglesa...'. Tratando-se de um argumento selecionado pelo verbo, conclui-se que o nome derivado desse verbo (chegar > 'chegada') também implica a consideração desse mesmo argumento como selecionado pelo próprio nome. Deste modo se justifica a presença de um complemento de nome.
         
      Diferentes níveis de análise, na sequência de uma expansão de segmentos, que não pode fazer esquecer a consideração do todo, mas também das suas partes (de modo a que estas não se confundam com o primeiro).

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crenças... muito oblíquas.

     Quando se acredita, acredita-se em alguma coisa.

     Vem isto a propósito de uma dúvida, formulada em apontamento anterior, que se debruça sobre a sintaxe do verbo 'acreditar' (o que também é válido para 'crer'):

      Q: Olá, Vítor!
      Precisava da sua ajuda no esclarecimento de uma dúvida. Na frase "Um em cada 10 portugueses acredita que o amor pode estar escondido atrás do ecrã do computador", que função sintática é desempenhada pela oração completiva? Normalmente, esta oração corresponde ao complemento direto, mas neste caso não me parece possível pronominalizar por "o" - "acredita-o". Diríamos "acredita nisso"; logo, podemos admitir que a oração tenha a função sintática de complemento oblíquo? Obrigada.

       R:  Viva.
      A oração "(em) que o amor pode estar escondido atrás do seu computador" é, de facto, um caso de oração subordinada completiva oblíqua (daí a função sintática de complemento oblíquo) à semelhança de outras construções que também apresentam, como principal, um verbo transitivo indireto (que seleciona preposição) - exemplo: aconselhar a, acreditar em, concordar com, conduzir a, convencer decrer em, discordar de, insistir em, lutar por, preferir a, prevenir de, entre outros.
        A estrutura argumental típica do verbo 'acreditar' é, na verdade, 'Alguém ACREDITA EM Algo / Alguém', pelo que 'em algo / alguém' desempenha a função de complemento oblíquo. O facto de se poder suprimir ou omitir a preposição não invalida a identificação desta função, atendendo aos testes de verificação da mesma (questionação por 'Em que acredita...?' / pronominalização 'acredita nisso' / impossibilidade da passivização, típica nas construções transitivas diretas).


       Vários outros exemplos análogos podem ser considerados, também com a omissão da preposição e a identificação da subordinada completiva oblíqua:

      i) Os alunos insistiam (em) que o teste devia ser adiado.
      ii) Os estudantes confiaram (em) que havia pouca matéria para estudar.
      iii) As vítimas anseiam (por) que seja feita justiça.
      iv) Ninguém se apercebeu (de) que alguém estava a faltar.
      v) Gosto (de) que faças tudo pelo melhor.
      vi) Ele convenceu-se (de) que tinha de salvar o mundo.

      No caso do verbo 'acreditar', a construção sem preposição é seguramente a preferida:

      a) Não acredito que tenhas feito asneira.
      a') ?? Não acredito em que tenhas feito asneira.

   Um caso para demonstração como a estrutura de superfície prefere uma construção típica de queísmo (recurso a construções iniciadas por 'que' pela supressão da preposição em orações subordinadas finitas, em situações aceitáveis para a maioria dos falantes), não obstante os testes e a manipulação da frase apontarem para o que os olhos não dão a ver.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Dia Mundial da Água

      Depois da Primavera e do dia da poesia,...

    Chega o "Dia Mundial da Água", criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, desde 1993, com o intuito de consciencializar publicamente para a proteção, conservação e desenvolvimento dos recursos hídricos.
   Da importância dela para a vida já muito se disse e daí decorrem as múltiplas significações e simbologias que adquire na arte, em particular, e na vida, em geral. Meio de fecundação e de purificação, de regeneração de forças (espirituais, anímicas, físicas), de regresso às origens, de fluidez do próprio tempo, a água é tudo isto nas letras que nos são dadas a ler; nas cores que cobrem as telas; no líquido que nos escorre pela pele.
      Pela relação que mantém com todo o ser humano, é também fonte de memórias, límpidas ou baças, alegres ou sofridas conforme reflete os bons ou maus momentos da vida. Assim se pode entender "The Water", musicada e interpretada pelo duo britânico Hurts (formado pelo teclista Adam Anderson e o vocalista Theo Hutchcraft):

Vídeo "The Water" em concerto por terras russas

     Do álbum "Happiness" (2010), fica a letra dessa 'água' que, no seio da vida e da felicidade, não deixa de espelhar também o receio de se estar / entrar numa relação pelo que já possa ter havido de dor no passado. O ciclo da água pode manter-se, mas impõe-se o cuidado de não se fazer ninguém perder naquele que também pode ser um leito de morte, onde os anjos também gritam.

       THE WATER

Innocent, they swim
I tell them 'no'
They just dive right in
But do they know?

It's a long way down
When you're alone
And there's no air or sound
Down below the surface

There's something in the water
I do not feel safe
It always feels like torture
To be this close

I wish that I was stronger
I'd separate the waves
Not just let the water
Take me away

There was a time I'd dip my feet
And it would roll off my skin
Now every time I get close to the edge
I'm scared of falling in

Cause I don't want to be stranded again
On my own
When the tide comes in
And pulls me below the surface

      ... fica  esta nota de música, neste dia da água que, entre o hídrico e o simbólico, também se faz de fluxo e de ondas da vida.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Viagens no Mundo de Deus... ou da Vida

     Podia ser nome de agência de viagens; é antes (e também) percurso de vida para um guia em busca do caminho.

    Por mais desconcertante, desencantado, desesperado e desiludido, é percurso a fazer: seja o do período da II Grande Guerra (textualmente representado) seja o de um outro qualquer momento (mais real) pintado das cores da crise e da descrença a dar lugar a tonalidades de sobrevivência. Ainda assim,é percurso com tons de vida, por maior que seja a adaptação conformada ao possível. 
     Esta é "A Noite da Iguana", do norte-americano Tennessee Williams (1911-1983), peça estreada na Broadway em 1961 e inspirada num conto escrito em 1946 com o mesmo título. Numa encenação de Jorge Silva Melo e numa coprodução de Artistas Unidos, está em palco no Teatro São João até ao próximo dia 26.
    Ao levantar do pano, Lawrence Shannon (Nuno Lo-pes) é apresentado ao especta-dor como um ex-reverendo, não despadrado, mas afastado da igreja por escândalos diversos - nomeadamente a entrega a relações sexuais com jovens adolescentes ou a produção de sermões que mostram a imagem herege de um Deus ocidental como um "delinquente senil". Institucionalizado por desequilíbrios nervosos, Shannon consegue um emprego como guia turístico de uma agência de viagens de segunda categoria e acompanha um grupo de senhoras evangélicas até a um hotel barato e boémio da Costa Verde, no oeste do México. Aí, junto de Maxine Faulk (que vive a liberdade obtida com a morte do marido Fred e que sensual e sedutoramente procura a companhia de Shannon), experiencia uma existência feita de conflitos morais, profissionais, pessoais, num confronto febril com os seus impulsos e anseios, as suas limitações e o que uma assombração (a sua mesma sombra) lhe dá a ver. As suas fraquezas e a sua natureza obscura são espelho da condição humana, dos silêncios e das ausências com que o Homem depara. Mais ainda quando busca transcender-se (metaforicamente sugerido na subida de uma colina), depois de se ter deixado ir abaixo (ao cair, de novo, na tentação da bebida; na tormentosa crise de fé; nas relações com uma jovem turista).
     No meio do desconcerto e da luta espiritual do protagonista, do trajeto de uma pintora solteirona de meia-idade e do respetivo avô (que procura compor o seu último poema), das pretensões da gerente do hotel (interpretada por Maria João Luís) não deixa de haver um grupo de turistas (alemães) alheio à perda da fé, à depressão e à crise existencial - tal como na vida de qualquer ser humano que, no desespero, não deixa de se ver rodeado de eternos otimistas ou patetas alegres, cegos ao que está para lá dos próprios umbigos. O registo da animação e da festa atravessa, por várias vezes, o palco, numa noite em que há tempestades, paraísos perdidos e buscas de portos de abrigo. Estes últimos são ainda possíveis, nomeadamente para a solteirona e estoica Hannah Jelkes (Joana Bárcia), ao construir pontes de comunicação com Shannon; para Maxine, ao atingir o seu propósito, no final, de ficar com o homem que libidinosamente desejava; para o velho Nonno (Américo Silva), ao concluir o seu poema final; para a iguana, ao regressar ao seu ambiente natural, depois de a libertarem da corda atada ao pescoço.

HANNAH: Fui ver a iguana.
SHANNON: Foi? E o que achou dela
HANNAH: Devíamos soltá-la.
SHANNON: Há iguanas que arrancam as pontas das caudas à dentada quando estão atadas pela cauda.
HANNAH: Esta está atada pelo pescoço. Não pode arrancar a cabeça à dentada para escapar da corda.

Tennessee Williams, in A Noite da Iguana

     Liberta a iguana, reencaminhado Shannon para um banho de mar com Maxine, concluída a poesia da vida que não descambou em simples verso, atinge-se um sossego (por momentâneo que seja) a soar a um "happy end" muito relativo.
      Só as palmas do público, de pé, deram a ouvir uma reação muito positiva ao espetáculo, para tanta febre e tanto tumulto representados n(est)a vida.

     Diz Tennessee Williams que esta é uma peça sobre “como viver para lá do desespero e ainda assim viver”; é a expressão de desejo da libertação - tal como a da iguana que, uma vez amarrada na parte baixa do hotel, foi solta por Shannon -, para que a vida ainda possa acontecer. Num tempo em que algumas liberdades e valores democráticos estão a sair comprometidos por extremismos, sinais de prepotência e arrogância, de políticas afastadas das pessoas, há pessoas que aspiram à libertação de iguanas (também seres de Deus); humanos que ainda lutam e desejam sobreviver em (alguma) felicidade, por mais conscientes que muitas utopias já tenham caído.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Combinações aspetuais

       Há que combinar bem, a bem do aspeto.

       A pergunta surge, quando a crença apontava para uma só resposta. E ambas estão corretas.

      Q: No enunciado "Temos vindo regularmente a discutir a questão com grupos profissionais de diferentes pontos do país", qual é o valor aspetual configurado?  O imperfetivo ou o habitual?

        R: Não se trata de uma questão de 'ou'. Ambos são admissíveis como resposta correta.
         O contraste perfetivo / imperfetivo relaciona-se com a consideração possível / impossível de um estado consequente, respetivamente, para uma dada situação. Trata-se de uma oposição básica em termos aspetuais, à qual se ajustam outros valores (acrescentados).
     Ora, a situação indicada não admite o estado consequente ou resultativo (> a questão está discutida), pelo que o valor imperfetivo se impõe. A combinatória com o valor (acrescentado) da iteratividade é evidente pelo recurso aos auxiliares 'ter' e 'vir', perspetivando-se um intervalo de tempo alargado com repetição múltipla da situação (discutir a questão) sem delimitação de ocorrências entre a fase inicial e a do ponto de chegada. Uma repetição com a duração do que possa tornar-se hábito até ao momento do ato de fala é, naturalmente, mais evidente quando se focam o advérbio 'regularmente' e a própria leitura de quantificação associada ao grupo nominal expandido "grupos profissionais de diferentes pontos do país". No fundo, a habitualidade resulta da própria possibilidade de manipular o enunciado proposto a ponto de se poder ler 'Temos vindo regularmente a discutir a questão sempre que nos juntamos a grupos profissionais de diferentes pontos do país".
      Conclui-se, portanto, que a imperfetividade concorre e é complementada pelos valores de iteratividade e habitualidade, no caso do enunciado em análise, pelo que não há exclusão dos termos / valores na análise. 

     A consideração do valor aspetual de um enunciado é, por certo, um dado complexo, até pela leitura composicional e de multifocalização que possa ser atribuída (por exemplo, a nível lexical do verbo usado na frase; a nível da frase e das expressões adverbiais usadas; a nível da progressão do próprio texto). À medida que se progride no âmbito do foco, vão sendo introduzidas alterações ao significado de base.
        

domingo, 29 de janeiro de 2017

Silêncio

    Não é ordem nem convite; antes constatação ou necessidade.

   Inspirado na obra do escritor católico japonês Shusaku Endo (1966), Silêncio é um filme a não perder pelas imagens, pela representação e pela referência cultural, mais os dilemas e desafios desconcertantes que propõe. Realizado por Martin Scorsese, retrata a epopeia nessa diáspora de jesuítas portugueses pelas missões no Oriente (nomeadamente no Japão) no século XVII. 
    No contexto da apostasia (negação da fé) e do inquietante reencontro de dois padres (Rodrigues e Garupe) com um terceiro (Ferreira) - que havia sido mentor na formação cristã deles e de muitos outros e que parecia ter renegado tudo o que ensinara -, o espectador confronta-se com os limites da fé e a necessidade (mais ou menos forçada) de abdicar de tudo aquilo em que se acredita quando o martírio (próprio ou dos outros) surge:

Trailer legendado do filme "Silence", de Martin Scorsese

     O silêncio de quem assiste às atrocidades, ao martírio e ao sacrifício pode ser expressão de impotência; o silêncio, por não haver resposta ou por se instalar a dúvida, constitui-se mais como um desafio, uma oportunidade de (re)construção para o bem comum, se não der lugar à espera do que apenas está para além de cada um de nós.
     Voltados para a educação, a catequização, a divulgação da palavra de Deus em terras nipónicas, o silêncio marca o percurso dos jesuítas representados, colocando-os sob o dilema surgido entre a crença, a fidelidade à fé e a sobrevivência dos próprios e dos que os seguem. A procura da resposta implica a questionação, a reflexão, inclusive alguma adaptação às situações. Isto é particularmente demonstrado no caminho feito pelos padres Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), tornados testemunhos de uma resposta para uma realidade que, por norma, se revela incompreensível, estranha, "estrangeira" diferente.
      Procurar apenas no exterior a resposta para os dilemas vividos não é a solução. Esta passa pela interioridade, pelo silêncio, pela consciencialização de que o bem ao próprio e aos outros admite ir ao encontro de algo / de alguém; afastar de modelos / exemplos de partida; estar atento a fatores contingenciais e a processos de enculturação, de tradução de práticas e crenças que não podem deixar de se focar no bem do outro e do que ele tem de distinto.
     A articulação de Silêncio e A Missão (1986), de Rolland Joffé, são inevitáveis, no que ao missionarismo diz respeito, bem como à posição frágil a que os jesuítas missionários acabaram por ficar votados quando confrontados com o poder, nomeadamente o da própria Igreja; Silêncio vai ao ponto de explorar as forças e as fragilidades que o Homem vive na sua fé. A missão aqui é a do próprio ser humano, que necessita de procurar, encontrar em si mesmo, no silêncio e na ausência, a resposta e a presença do bem. A fé por nós acolhida é em nós que se (re)constrói, sem que ela acabe negada - e, assim, a luz brilha na escuridão.

    À entrada, o título do filme até podia convergir com o pedido do silêncio; no final, não há a banda sonora usual, nem a necessidade de se saber quem canta o tema principal. Há o silêncio que diz e significa muito mais do que qualquer outro som, ruído.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Um julgamento com muito que se lhe diga.

       Depois do apontamento de há dias, a reflexão regressa.

     Desta feita, ela é revista a partir de um vídeo (com tradução em português do Brasil) que me fizeram chegar e que está na linha de alguns dos pressupostos que mencionei nesse apontamento:

Vídeo publicado no Grupo de Mentoria "Humana" 
(projeto de investigação da Escola-de-Redes)

    A parte da valorização do professor é significativa (e aplaudo-a). A de como chegar ao futuro é pouco sustentada, até porque dependente de muitas condicionantes que nem sempre se controlam e/ou anteveem no presente e no contexto de ação escolar. Muito do percurso a cumprir passa por uma cultura de empenho, de esforço, de persistência no trabalho, tão válidos na escola como na vida que existe para lá das paredes e dos muros das escolas. Todavia, são muitas as resistências e as culturas que algumas estruturas sociais educativas (nomeadamente algumas famílias que não convergem com tais valores) optam por contrariar, nomeadamente não ensinando o que é autoridade. Frequentemente é a escola a ter de o fazer, com um reconhecimento que muitas vezes se revela tardio.
    Uma dinâmica interativa, participada e colaborativa contribuirá para um estado de coisas bem distinto do que é julgado. E, por certo, não é sobrecarregando, fazendo mais do mesmo, apostando em inutilidades e "chicoespertismo" que o caminho se faz.
     Entre os aspetos que reconheço (a diferenciação desejada, a visão crítica da organização da escola, a relativização necessária à influência partidária na construção do currículo e de muitas orientações da escola, a adoção de múltiplos dispositivos estratégicos na avaliação, o reconhecimento dos diferentes dons e das múltiplas inteligências) e os que critico (as generalizações, o preconceito do conformismo da escola, a afirmação de imagens de escolas distintas como sendo iguais, a consideração de que nada mudou num século e de que tudo não passa de reprodução do passado, a redução da escola à dominante da costumização e do "costumer", a defesa de modelos de escola transpostos e desajustados dos contextos), fica o registo para memória futura - seja ela lá qual vier a ser. 

      Não se pode ser crítico sem o sustento do saber. Muito do progresso social e muita da evolução dos tempos também passaram e foram conseguidos pelos que andaram na escola. Não é possível fechar um caso que requer uma análise multifocada no(s) objeto(s) e objetivo(s) que o definem.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Um tempo de contrastes, se de tempo for...

      No meio de tanta coisa, nem sei por onde começar.

      Esta é a reação que revelo quando há muitos pontos e tantas outras "pontas" para pegar. 
      Tudo começa quando a pergunta surge:

      Q: Colega, gostaria que me desse a sua opinião sobre a frase "Enquanto que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade": a primeira oração tem o valor de uma adverbial temporal?

   
    R: Vejo dificuldade no valor temporal, na medida em que a frase proposta reflete um contraste de entendimentos relativamente ao significado do 'luar' para duas personagens de Felizmente Há Luar! (de Sttau Monteiro).
      Ver 'enquanto' como articulador / conector temporal implicaria a aceitação da substituição dele por 'ao mesmo tempo que / durante o tempo em que' (*Ao mesmo tempo / Durante o tempo em que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade), o que não se prefigura como frase aceitável, até por se estar a referir intervalos de tempo bem distintos, no que à obra mencionada diz respeito.
      O valor de temporalidade é bem evidente em sequências do tipo:
    . Enquanto esperava, lembrava-se dos momentos que haviam passado juntos ou Ouve música enquanto estuda, demonstrativas de intervalos de tempos simultâneos e/ou coincidentes para 'esperar'-'lembrar-se' e 'ouvir'-'estudar' (processos associados a um mesmo sujeito sintático e a uma simultaneidade temporal);
    . Enquanto a crise se agudizava, o desemprego disparou, exemplificativa de como uma situação pontual ('disparar') ocorre no interior de um intervalo de tempo mais lato ('agudizar');
    . Não saio da tua beira enquanto não melhorares, evidenciadora de uma situação durativa sem limites definidos para o futuro e com o conector tomado como sinónimo da expressão 'durante o tempo em que'. Neste último exemplo, é também significativo o valor de condição implicado no enunciado (cf. 'Não saio da tua beira se não melhorares').

       "Enquanto" pode apresentar valor de comparação / contraste acumulado com o de temporalidade, por exemplo, em:

    . Enquanto ela falava ao telefone, eu preparava o jantar, com os sujeitos sintáticos das orações (subordinada / subordinante) a operarem ações distintas ('falar'-'preparar') no mesmo intervalo de tempo.

      Todavia, não é impossível considerar apenas o de contraste:
      . Enquanto D. João IV apoiava Pre. António Vieira, D. Afonso VI não o via com bons olhos.

       Um último dado prende-se com o conector usado na frase proposta: "enquanto que". Seja por analogia com "ao passo que" (no contraste) ou "ao mesmo tempo que" (na temporalidade) seja por interferência do francês ("tandis que" / "pendant que"), está usada uma forma por muitos considerada inadequada à realização padronizada do português, mais conforme à construção "Enquanto o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de esperança". É certo, porém, que há alguns poucos estudos que vão apontando para o uso deste articulador, encarado no seu valor comparativo / contrastivo (e não temporal), ainda que seja reduzido o número de gramáticas que o consideram - lembro-me apenas de uma, a Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2013 - vol. II, pág. 2006. Mais uma razão para a leitura contrastiva das orações e do significado do articulador / conector.

      No que toca ao valor, pode dizer-se que 'enquanto' é muito polivalente, pelo «potencial de significado» (na expressão do linguista Michael Halliday) implicado ou decorrente de significados ajustados aos contextos e ao objectivo comunicativo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Estarei tricaidecafóbico ou parascavedecatriafóbico?!

     Não sei! Mas lá que me estão a pôr a jeito não duvido!


     Perante a novida-de de que vou pagar mais Imposto de Rendimentos Sobre Pessoas Singulares (IRS) - como se já pagasse pouco -, o dia de hoje começa em beleza! Pudera! É sexta-feira 13.
     Em apontamen-tos anteriores, tive já oportunidade de me referir a este dia e a esta doença asso-ciada ao número treze. E, sendo sexta-feira, a fobia é maior (parascavedecatriafobia ou frigatriscaidecafobia) . Tão aziago é o dia que se confirma a tradição, desta feita com o governo a anunciar a atualização das tabelas de IRS - diga-se que atualizar significa, na prática, pagar mais. É sempre bom saber isto, particularmente quando há anos o salário não é atualizado.
     Felizes e contentes, cá vamos nós, no início de mais um ano, à espera de novidades... novidades, sublinho... porque ser roubado nos rendimentos do trabalho não é nova nenhuma há algum tempo já.

   O dia tornou-se pesado, portanto! Uma bruxa ou um gato preto davam jeito. E não sou supersticioso. Tomara se fosse!