sábado, 2 de maio de 2009

Um passado bem presente a dar futuro

      Assim se exprimia o nosso Álvaro de Campos: "Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina!" (Ode Triunfal)

    Afinal, por que razão não substituem o Homem por uma máquina? Querem tanta quantificação, tanto resultado, sem olhar a pessoas, a tempos e a meios!
      Denis Kaufman, sob o pseudónimo Dziga Vertov, foi o cineasta russo que nos deixou "O Homem com a máquina de filmar" ('Man with the Movie Camera', de 1929) - uma espécie de alerta sob a forma de cinema mudo, similar ao que George Orwell (em 1948 e no romance Nineteen-Eighty Four), relembraria e inspiraria com o seu "Big Brother is watching you". Ao contrário deste escritor, o totalitarismo denunciado por Vertov não é (apenas) o da política: é o do triunfo da máquina na vida do Homem ("I am the machine that reveals the world to you as only I alone am able to see it.") a ponto de o substituir.



      Eis o prazer dos que observam quando, afinal, são os observados! Oferecer aquilo que dá prazer, e faz rir, não pode deixar esquecer como se pode estar ao mesmo tempo a destruir, a anular, a alienar o que de mais humano há! Esta é a lição que uma máquina de filmar torna mais visível, ainda que para muitos tal permaneça invisível. Nem a caixa, a lembrar Pandora (abre para deixar sair o mal, fugindo de cena), parece servir de aviso: a máquina que dela sai circulará pelo mundo, captando a realidade que alguns gostarão de observar até que descubram que eles mesmos - os espectadores - estarão na sua mira.
     Na década de 20, no século XX assim se deu a ver. E nós, no século XXI, mantemo-nos esquecidos de um passado que, afinal, já nos mostrou o nosso presente a dar futuro.



    Acaba por angustiar tanta dinâmica, tanta sede, tanta ânsia... tanta cidade, tanto sinal de civilização.
       No meio de tanto cansaço, relembro e fico-me por outros versos de Campos, bem mais conscientes das limitações e fragilidades humanas:

"...
Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
Senti de mais para poder continuar a sentir.
Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim.
Decresce sensivelmente a velocidade do volante.
Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos.
Dentro de mim há só um vácuo, um deserto, um mar nocturno.
..."

(Ode Marítima)

      Entre a força e a máquina de tudo 'ter que fazer', sinto-me sem o tempo, sem o espaço ou sem o ego do 'querer fazer'. Não quero ser a máquina em que me estão a tornar. Até porque ela, por certo, de tanto trabalhar e forçar, não deixará de avariar.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dia do trabalhador... quero ser cigarra!

Parece desabafo... pelo "inverno no nosso coração".

De vez em quando é bom "pedir uma música para cantar", pois, assim o diz o saber popular, quem canta seus males espanta.
É ainda o desejo de recriar a fábula de La Fontaine, fazendo com que efectivamente a formiga seja "a melhor amiga da cigarra".



Porque você pediu uma canção para cantar
Como a cigarra arrebenta de tanta luz
E enche de som o ar;

Porque a formiga é a melhor amiga da cigarra,
Raízes da mesma fábula que ela arranha,
Tece e espalha no ar;

Porque ainda é inverno em nosso coração,
Essa canção é para cantar
Como a cigarra acende o Verão e ilumina o ar.

Zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi ...
zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi .


Milton Nascimento

Não há vontade nem forças para dançar!
Esperemos por melhores dias, deliciados entre a singeleza e a simplicidade, o zunido e o ciciar desses irmãos do Brasil que nos vão desvelando alguma da alegria que se dissipa.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Pensamento feito (de) língua

     Na releitura de uma entrevista feita a Carlos do Carmo e Júlio Pomar (sempre no propósito desta combinação que o fado tem com a poesia e o poder sugestivo das palavras), reencontrei um pensamento de relevo, vindo do pintor e também poeta (leia-se Alguns Eventos, Pub. Dom Quixote, 1992).


"As palavras são como as pessoas: ou se dão bem ou não se dão. E há palavras que não se podem dar bem, porque as sílabas não pegam."
in Visão, 15 de Novembro de 2007, pág. 133


Mestre Júlio Pomar (Lisboa, 1926 - ...)

      Realmente,... há coisas entre as pessoas que não pegam (mesmo que alguma vez, por razões do insondável, já tenham pegado!). Acredito que a consciência disso é um sinal de crescimento.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dúvidas do nosso ofício... desafio novo?

     São tantas as pontas por onde pegar...

    Q: Como classificar morfologicamente a palavra 'triste' em "Ela caminhava triste"?

    R: A questão formulada merece, inicialmente, dois reparos:
    i) o propósito da questão orienta-se para uma classificação que não é de natureza morfológica (centrada na fronteira da palavra), mas sim relativa ao posicionamento que o termo assume na linearidade sintagmática (mais de natureza sintáctica, portanto, e das classes de palavras que se situam nessa posição);
     ii) a classificação morfológica é uma instrução que, de acordo com o Dicionário Terminológico, só faz sentido no caso de se querer indicar os constituintes morfológicos da palavra (radical, tema, base, afixos, ...).
      Assim, em termos do discurso didáctico, o que se pretende é a classificação de 'triste' quanto à classe de palavras.
      Na base desta última orientação, a palavra 'triste' pertence tipicamente à classe dos adjectivos (uniformes quanto ao género); contudo, no exemplo proposto, aparece um caso em que se pode proceder a uma recategorização do termo, aproximando-o de uma realização adverbial. No fundo, trata-se de utilizar 'triste' para caracterizar o processo 'caminhar' (caminhava tristemente).
    No caso particular dos adjectivos, é verdade que estes podem funcionar adverbialmente, e certas construções frásicas apontam para casos de formas já lexicalizadas (é o caso de ‘falar alto/baixo’, ‘vender caro/barato’, ‘escrever torto / direito / rápido’). Se os termos destacados são vulgarmente adjectivos quanto à classe de palavras, no que toca ao posicionamento na frase e à sua funcionalidade, eles revelam a ausência de concordância com o grupo nominal que funciona como sujeito (o que mais os aproxima do comportamento dos advérbios). É clássico o caso do poema palaciano “Cantiga partindo-se”, de Johan Roiz de Castel-Branco, e dos versos “Partem tão tristes / os tristes” (no fundo, trata-se do caso de os tristes [olhos] que partem muito tristemente].
    Para mais esclarecimentos sobre este assunto, aconselho a consulta da Gramática da Língua Portuguesa de Mário Vilela (Almedina, pág. 238) ou a com o mesmo título coordenada por Maria Helena Mira Mateus (Caminho, pág. 375-6).

     Caso para dizer que a tradição já não é o que era! O mundo é composto de mudança... E até Plutão já deixou de ser planeta (pelo menos, na gíria futebolística, por comparação com os -planetas - da primeira divisão).

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Conversas à volta da gramática


    Ora vamos lá conversar... para gramaticar (como o diria D. Francisco Manuel de Melo, no século XVII, na sua A Visita das Fontes)?


   Foi com este (sub)título que contribuí com uma comunicação, em jeito de "conversa", acerca da gramática (diria: questão séria e que me é cara para um registo de casualidade, de interacção feita pela ausência de objectivo estruturado, estratégico, tendendo para uma actividade comunicativa feita muitas vezes da "informalidade" e de uma finalidade que se fica pelo gratuito e pelo desconjuntado, conforme uma das definições de 'conversa').
      O convite partiu da Gabriela Barbosa, da Escola Secundária de Monserrate. Um grupo simpático de colegas, motivado por esta questão estruturante no trabalho da nossa disciplina, ouviu pacientemente as minhas palavras, contribuiu e enriqueceu o momento com as questões e as observações formuladas. Houve até a oportunidade de reencontrar alguém dos tempos da faculdade, desse período de 1984-89 que em muito contribuiu para a minha formação (" - bom tempo era esse! -", diria o narrador de "A Dama Pé-de-Cabra", na versão romântica de Herculano). Alguma nota de informalidade no trabalho desenvolvido entre colegas (é sempre bom estar junto dos que connosco partilham ideias, preocupações); a seriedade e a reflexão estratégica que se impõem a profissionais interessados.
     A todos o meu agradecimento por um bom momento de trabalho vivido em Viana.
     Para memória futura, deixo aqui o registo do que foi uma súmula da comunicação.

    Uma breve referência aos da Carruagem 23 (eles sabem bem quem são): Não há mar que lave a preocupação; / dele quero receber a força, a união. / Com tormenta, com bonança /cumpra-se a vida na temperança.

sábado, 25 de abril de 2009

Quando ter é estar

      Bem que podia ser um texto escrito por um(a) aluno(a)...

    Não fosse o facto de se tratar de um texto apresentado numa revista semanal, bem que parece uma daquelas produções em que muitos alunos transpõem, da oralidade para o escrito, o modo como falam (mal):


Digitalizado a partir de revista de imprensa semanal, editada para o período 24-30/04/09

      Entre os erros mais frequentemente cometidos, a confusão entre 'estivesse vivo' e 'tivesse vivo' é um sinal da perda da integridade do verbo auxiliar, numa redução silábica inicial que a oralidade não formal cumpre por várias razões (economia articulatória, despreocupação maior com a correcção da língua, registo socialmente identificado com uma classe de falantes que tende a neutralizar a oposição 'ter' / 'estar', entre outras). Quando passa a escrito, e em meios de difusão de massa, a avaliação é feita noutros termos (considerando, nomeadamente, as condições que a mediação do suporte escrito permite, por oposição ao meio oral).

     Efeitos de imediatismo telenovelesco... a evitar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Um toque sempre inspirador... o da música

    Há músicas que nos dizem tudo.

    As que tratam das relações entre pais e filhos são famosas.
    E esta, segundo muitos que assim a consideram, não lhes fica atrás.
    Há mesmo quem diga que nela se retrata um percurso que não foi bem sucedido; mas o sucesso musical é indiscutível.
    Prefiro ficar pela entendimento da unidade na diferença... e muitas são as coisas que, na vida, nos vão fazendo ficar diferentes... deixando, em parte, de sermos quem éramos.
     Mas sempre UM(A): One.


Is it getting better
Or do you feel the same
Will it make it easier on you now
You got someone to blame

You say...
One love
One life
When it's one need
In the night
One love
We get to share it
Leaves you, baby
if you don't care for it

Did I disappoint you
Or leave a bad taste in your mouth
You act like you never had love
And you want me to go without

Well it's...
Too late
Tonight
To drag the past out into the light
We're one, but we're not the same
We get to
Carry each other
Carry each other
One...

Have you come here for forgiveness
Have you come to raise the dead
Have you come here to play Jesus
To the lepers in your head

Well, did I ask too much
More than a lot
You gave me nothing
Now it's all I got

We're one
But we're not the same
Well we
Hurt each other
Then we do it again

You say
Love is a temple
Love is a higher law
Love is a temple
Love is the higher law
You ask me to enter
But then you make me crawl
And I can't be holding on
To what you got
When all you got is hurt

One love
One blood
One life
You got to do what you should

One life
With each other
Sisters and Brothers

One life
But we're not the same
We get to
Carry each other
Carry each other
One...

One ... life
    
      Data de 1991, do álbum Achtung Baby dos U2; depois, à voz de Bono Vox, juntou-se-lhe a de Mary J. Blige e tudo recomeçou, por 2005.

      É uma canção e uma letra do século passado, mas, como verdadeira peça de arte musical e como bom vinho, ganha com a passagem do tempo. É intemporal na sonoridade e na mensagem.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Desafio linguístico... no trabalho com textos

     Numa área em que há muito para descobrir, dizer e aprender.
    Cruza gramática com leitura, numa perspectiva de gramática textual.


   Q: No verso d' Os Lusíadas "Esta é a ditosa pátria minha amada", 'esta' e 'minha' podem ser ambos deícticos pessoais?

    R: Uma primeira questão a considerar é o facto de não estarmos a trabalhar com um contexto de produção discursiva cujas coordenadas temporais, espaciais, pessoais possam ser encaradas senão no plano do literário e da ficção. Nestes termos, e porque estamos perante um discurso que reproduz a voz enunciadora de Vasco da Gama (enquanto personagem da epopeia camoniana), 'minha' pode assumir a natureza deíctica dessa voz configurada num discurso dirigido ao rei de Melinde. Relativamente ao pronome demonstrativo 'esta', naturalmente há uma noção de proximidade entre aquilo que é referido e o enunciador que o enuncia; não considero, contudo, que estejamos perante uma marca pessoal que reflecte uma das coordenadas do contexto de produção do discurso.

      Considerando o verso isoladamente, diria que o pronome 'esta' está referencialmente associado a 'a ditosa pátria minha amada', num mecanismo de antecipação referencial conseguida pelo pronome (uma construção que evidencia uma catáfora, portanto).
     É conveniente, entretanto, proceder à contextualização do verso na obra: insere-se no discurso directo de Vasco da Gama (no canto III - est. 21), que, segundo o poeta-narrador da viagem, se encontra junto a Melinde e vai passar a assumir a narração do plano da História de Portugal - precisamente quando começa a situar Portugal geograficamente. Já na estância 20, ao referir-se a Portugal, Vasco da Gama diz "Eis aqui, quase cume da cabeça / De Europa toda, o Reino Lusitano, /...". O 'aqui' no plano da ficção narrativa também não pode ser entendido como deíctico (uma vez que Vasco da Gama se encontra em Melinde, não em Portugal); é um advérbio contíguo a um outro ("Eis") utilizado no âmbito de um exercício de transposição para a descrição geográfica que é representada mentalmente pelos interlocutores e que, de alguma forma, organiza, estrutura o processamento faseado do próprio discurso. Ora, na articulação da estância 20 com a 21, o que "Esta" faz é retomar uma sequência textual descritiva, fazendo progredir a referencialidade temática do antecedente "o Reino Lusitano" (est. 20) para "a ditosa pátria minha amada" (est.21) - um mesmo referente (Portugal) só que agora fortemente modalizado, na perspectiva enunciativa de alguém que é suspeito para falar da sua própria nação.
       Assim, discordo da classificação de "esta" como deíctico (pelo sentido mostrativo e de referencialidade directa ao contexto de produção discursiva que associo a esta classificação); assumo o pronome como uma marca de construção anafórica / catafórica (textualmente retomando um antecedente e/ou antecipando um referente modalizado), conforme o anteriormente explanado.

     A abordagem de certas áreas de análise linguística, como as que se associam à deixis ou mesmos aos actos de fala, requer alguma precisão de leitura e de análise dos textos, particularmente as que, no presente caso, espelham condições de produção do discurso. Talvez fosse conveniente seleccionar, para o trabalho didáctico dos deícticos, textos que reflectissem contextos enunciativos menos problemáticos, a ponto de permitir uma distinção mais clara no que à construção de referência diz respeito (por exemplo, a que permite contrastar a referência deíctica com a anafórica).

sábado, 18 de abril de 2009

Reencontro com Babel

      Há encontros que desejamos que nunca aconteçam... muito menos reencontros.

      Mas eles estão aí: com mais frequência do que o que se pretende.

A História da Torre de Babel, de Pieter Brueghel (O Velho) - 1563
Museu de História de Arte, Viena

DE NOVO AVISTEI BABEL

Não há língua, sentido ou juízo a dar-lhe razão.
Destrói o que quis erguer... é fonte de confusão.
Nas palavras ditas, tudo quer e tudo desfaz;
Nos actos, a hipocrisia lança; não gera paz.

Não tem rigor de Lísi; apaga Sião.
Pede um cântico; não sai do chão,
Por mais asas com que se faça voar.
Filha de Babel! Não sabe o que é o luar.
Gondomar
VO

      Não sei por que razão Babel tem nome de mulher altiva... que não se dá a entender (nem pode, apesar do seu poder).


quinta-feira, 16 de abril de 2009

Outro desafio linguístico... dominantemente com sintaxe

     A sintaxe tem-se revelado uma área de grandes questões... prova de que há muito para dizer, não obstante a tradição deste domínio (bem como o da morfologia) no ensino da gramática.

    Q: Para quê inventar um 'complemento oblíquo' para "Os alunos gostam muito de livros" se numa frase semelhante "Os alunos adoram livros" há um complemento directo? Por que não chamar complemento directo nos dois casos?

   R: Apesar da proximidade das frases no plano semântico (com verbos de percepção psicológica / apreciativa), a questão põe a tónica na função sintáctica desempenhada por grupos de palavras presentes nas frases. E é orientada para o domínio da sintaxe que a resposta se constrói.
     Para começar, os grupos de palavras em discussão são distintos:
     i) 'de livros' é um grupo preposicional que complementa o verbo 'gostar' na primeira frase;
     ii) 'livros' é um grupo nominal que complementa o verbo 'adorar' na segunda frase.
     Depois, são os verbos que determinam a função sintáctica dos elementos que com eles co-ocorrem (os que configuram a estrutura argumental dos verbos) e não o contrário. Há uma distinção evidente entre os verbos considerados, de natureza sintáctica bem diferenciada: enquanto 'gostar' é um verbo transitivo indirecto (requer um complemento que, no caso, é oblíquo), 'adorar' é transitivo directo (requer um complemento directo). Os testes da pronominalização (a) e da interrogação (b) marcam bem a distinção dos complementos.
      Para a frase inicial teríamos:

      ia) Os alunos gostam muito disso / deles (> pronome demonstrativo / pessoal tónico contraído com a preposição 'de' que o antecede);
      ib) De que gostam muito os alunos? (questão colocada ao verbo apresenta uma preposição à cabeça).

     Para a segunda frase, haveria algumas diferenças:

     iia) Os alunos adoram-nos (> pronome pessoal 'os' em contexto de nasalidade e /ou grafia final do verbo com '-m');
     iib) O que é que os alunos adoram? ( > interrogativa típica do complemento directo: 'O que é que + Suj. + V ou 'Quem é que + Suj + V).

     Uma última nota ainda para o facto de o 'complemento oblíquo' não ser propriamente uma invenção: trata-se de uma designação utilizada no estudo dos universais das línguas em geral (nomeadamente as casuais), a qual combina a noção de complemento com a de caso. No fundo, num complemento oblíquo cabem as situações de relação sintáctica mantida entre verbos transitivos e argumentos que, na complementação de uma frase activa, não pertencem ao caso acusativo (complemento directo) nem dativo (complemento indirecto). Eis alguns exemplos destacados.

      iii) Ele colocou os livros na pasta.
      iv) Os pais influenciaram os filhos na opção feita.
      v) O Pedro foi ao médico.
      vi) O professor adiou o teste para a semana.

     De novo, sublinha-se a necessidade de reflexão sobre a língua pela manipulação das frases e pela aplicação de testes que sustentem a identificação das funções sintácticas dos elementos.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Encontro com o divino ou a confusão

    Cruzei-me com Babel... em tempos de crescente simulação nas palavras e nos actos

Desenho do holandês Cornelis Theunissen (séc. XVI)


De cada vez que vejo uma imagem alusiva a essa bíblica e mítica torre, lembro...

... o mito de origem das línguas, e o modo como tudo se transformou: da porta do céu ou da porta dos deuses para a confusão do mundo;

... essa Babilónia feita de maravilhas do mundo, hoje praticamente apagadas da memória, simples e parcos vestígios a alimentar a lenda;

... a ténue fronteira entre a proeza ou o engenho humanos e os sinais da afronta;

... esse tema que a literatura e a pintura não deixam esgotar, por representarem ambições e desconcertos do mundo;

... como tantas vezes falamos, utilizando as mesmas palavras, e não nos entendemos (para não dizer que concordamos com base em compreensões tão diferentes, construídas à base dos mesmos discursos ditos / ouvidos).

     Castigo(s) ou lembrança para o orgulho do Homem.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Da(s) magia(s) do SETE... Ou não fosse hoje CATORZE

     É um dado cultural: na literatura, na música, ... na arte, na vida.

    Sempre que se pergunta por que razão o sete é um número mágico, são múltiplas as respostas. Começo por concentrá-las num texto que ficará em construção.

Das (im)perfeições do SETE

Ao fim de sete dias de trabalho (até ao sábado e ao domingo!),
lembrei como Deus deve ter trabalhado muito nos dias da criação do mundo.

Daí ter dedicado o sétimo ao descanso!

(Como seria se, em vez de dias, gastasse os sete anos com que Salomão ergueu o seu templo?!
Cumpriria também um para descanso, qual ano sabático?!)

Cansado, quase homem dos sete ofícios,

busquei a harmonia das sete notas musicais,
a variedade das sete cores do arco-íris.
Dos sete astros sagrados 

(Sol, Lua, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno),
voltei a cara para o Sol, para a luz desse Apolo feito deus
também de uma das Sete Artes: a Música 

(para lá da Pintura, Escultura, Arquitectura, Literatura, Coreografia e Cinema).
Senti-me homem,
dividido entre os sete pecados capitais 

(vaidade, avareza, ira, preguiça, luxúria, inveja, gula)
e as sete virtudes cardinais 

(castidade, generosidade, temperança, diligência, paciência, caridade, humildade).
Dos sete sacramentos 
(Baptismo, Confirmação, Eucaristia, Sacerdócio, Penitência, Extrema-unção, Matrimónio), 
alguns já se cumpriram; outros poderão ou estarão para vir 
até aos sete palmos de terra, na sepultura.

Recordei as cantilenas femininas da infância: 

“sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um; tenho sete namorados e não gosto de nenhum”.
Só faltava que elas viessem das nazarenas, mais as suas sete saias!

Cansado do sofrimento, fechei-o a sete chaves.


Troquei as sete rogatórias do “Pai Nosso” pelos sete anões da Branca de Neve;
apaguei da memória as sete quedas sofridas a caminho do Gólgota.

Fiquei-me pelo Carnaval, sete domingos antes do da Páscoa.
Na brincadeira e no espírito da diversão, aspirei ao sétimo céu.

Tantas foram as histórias ouvidas dos Sete Livros do Antigo Testamento 
(Job, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos, da Sabedoria, do Eclesiástico).
Resta a lembrança, no Génesis, de Noé e do Dilúvio: 
de como sete casais de cada espécie animal terrestre e aérea foram salvos na Arca; 
ou de como no sétimo mês esta última descansou no monte Ararat; 
ou de como, após o dilúvio, foi lançado um corvo,
seguido, sete dias depois, de uma pomba. 
Mais sete dias passados, esta regressou com um ramo de oliveira. 
Outros sete dias vieram, para, de novo, ser lançada ao ar e não mais voltar.

Mudaram-se os tempos: mudaram-se as maravilhas antigas para as modernas... ficou o sete.
Talvez por isso hoje tenha de se ver tudo com sete olhos, 
para que nada falhe...
ou para que alguma coisa dê certo.

Homem sem as sete vidas dos gatos, aproveito a que tenho,
sem pintar o sete - entre diabruras ou desatinos.
Sigo o curso do rio, sem as botas de sete léguas, até chegar ao mar.
Aí, qual marinheiro, navegarei pelos sete mares

Tão mais perfeito seria o mundo com os sete princípios da moral pitagórica: 
rectidão de propósitos, 
tolerância na opinião, 
inteligência para discernir, 
clemência para julgar, 
verdade nas palavras e nos actos, 
simpatia e equilíbrio!

GondomarVO

     Outras respostas haveria para mais numerados versos. Também sete são as Leis Universais (Natureza, Harmonia, Correspondência, Evolução, Polaridade, Manifestação e Amor); os dons do Espírito Santo (Sabedoria, Entendimento, Conselho, Força, Ciência, Piedade e Temor a Deus); as glândulas endócrinas (Hipófise, Tiróide, Paratireóides, Supra-renais, Sexuais, Timo e Pâncreas); os grandes mensageiros (Krisna, Buda, Lao-Tsé, Confúcio, Zoroastro ou Zaratustra, Moisés e Jesus); as personalidades de Deus (segundo Zoroastro, são estas a Luz Eterna, a Omnisciência, a Retidão, o Poder, a Piedade, a Benevolência e a Vida Eterna); os meios que o Homem tem para purificar, segundo o Budismo (Domínio de si mesmo, Investigação da verdade, Energia, Alegria, Serenidade, Concentração e Magnanimidade).
      Revejo algumas outras numa canção bem portuguesa, registada na memória da minha adolescência: a música e a voz dos Trovante na "Balada das Sete Saias":

Trovante ao vivo, com a voz de Luís Represas na interpretação de 'Balada das Sete Saias'

BALADA DAS SETE SAIAS

Sete ondas se noivaram 
Ao luar das sete praias 
Sete punhais se afiaram 
Menina das sete saias 

Sete estrelas se apagaram 
Sete, que pena, chorai-as
Sete segredos contaram 
Menina das sete saias 

Sete bocas se calaram 
Com sete beijos beijai-as 
Sete mortes evitaram 
Menina das sete saias 

Sete bruxas se encontraram 
No monte das sete olaias 
Sete vassouras montaram 
Menina das sete saias 

Sete faunos contrataram 
Sete cornos e zagaias 
Aos sete encomendaram 
Menina das sete saias 

Sete princesas toparam 
Com mais sete lindas aias 
Por sete e sete deixaram 
Menina das sete saias 

Sete danças que bailaram 
Sete vezes que desmaias 
Sete luas te ansiaram 
Menina das sete saias 

Sete vezes se encantaram 
No bosque das sete faias 
Sete sonhos desfolharam 
Menina das sete saias

       Assim se (re)lê e vê o sete, entre a tradição e a (re)criação, na letra da canção.

       E mais haverá para, no futuro, se ir acrescentando, para cumprimento da totalidade e perfeição do número.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O Leitor (ou de como a leitura é voz... e não só).

     Fica o registo de um filme que, há cerca de um mês, tive a oportunidade de visionar, apreciar e elogiar - não propriamente pela interpretação que deu o Óscar a Kate Winslet nem pela qualidade de realização de Stephen Daldry; mais pela história, pela História, pelo encontro, desencontro e reencontro de duas personagens que me despertaram outro interesse: o de ler o livro.

     O prazer da leitura é feito de sentidos. Prova disso é o belo exemplo proposto por Alberto Mangüel na sua Uma história da leitura (Lisboa, Ed. Presença, [1996] 1998, pág. 83, na qual se cita Israel Abrahams, Jewish Life in the Middle Ages, Londres, 1896):

     "Na sociedade judaica medieval, por exemplo, o ritual de aprendizagem da leitura era explicitamente celebrado. Na Festa de Shavuot, que celebra o dia em que Moisés recebeu a Tora das mãos de Deus, o rapaz prestes a ser iniciado era envolvido num manto de oração e levado pelo seu pai ao professor. O professor sentava o menino ao colo e mostrava-lhe uma lousa onde se encontravam escritos o alfabeto hebraico, um excerto das Escrituras e as palavras «Que a Tora seja a tua ocupação». O professor lia em voz alta cada uma das palavras e a criança repetia-a. Em seguida, a lousa era coberta com mel, que a criança lambia, assimilando desta forma as palavras sagradas. Também eram escritos versículos da Bíblia em ovos cozidos descascados e em bolos de mel, que a criança comia depois de ter lido os versículos em voz alta ao professor."

      Talvez por isto, há uns anos, um cartaz de divulgação e promoção da Feira do Livro tenha aparecido com a figura de um livro dentado num dos ângulos da capa.

      Entre Michael e Hanna há sentidos de leitura mais plurais. Uns perdem-se no tempo da vida; outros ultrapassam o limite da própria morte. Restam o desafio e o segredo: tentar entender ("Estamos a tentar entender", como Michael Berg nos faz relembrar).



     O filme levou-me à descoberta do livro, de Bernhard Schlink, do qual transcrevo um brevíssimo diálogo:



"- Lê-me em voz alta!
- Lê tu mesma, eu trago-tos.
- Tens uma voz tão bonita, miúdo, gosto mais de te ouvir ler do que ser eu própria a ler."



    O acesso ao sentido por outro(s) sentido(s) e o(s) prazer(es) que deste(s) se retira são o sabor, a cor, o encontro para se poder ler o indizível, muitos silêncios, muitas mágoas; experiências e descobertas por revelar, com limites imprevisíveis.

    Ler o comportamento humano é tentar entender o que o livro da vida nos oferece: buscar um rumo e dar sentido a esta passagem, pelo que ela tem de belo e de dor.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Nenhum homem é uma ilha...

    A máxima ("No man is an island") é de John Donne (1572-1631), uma espécie de Padre António Vieira 'avant la lettre' em território inglês. Se nenhum homem é uma ilha, muito menos o deveria ser a Humanidade.

     Assim mo apresentou uma amiga: filme que vale a pena ver.
    O Tropfest é o maior festival de curtas-metragens do mundo. Começou há 17 anos em Sydney, na Austrália. Teve a sua primeira edição no ano passado em Nova York. O vencedor de 2008 foi este filme totalmente produzido com um telemóvel em Sidney e Nova York, por Jason van Genderen, com um orçamento a rondar (espantoso!) trinta euros.


        Tinha razão. 
      A linguagem da música e a das palavras resultam num registo com toque poético, numa harmonia que não necessita de voz para ser cantada.   


     Há homens que vivem em ilhas de sofrimento, contornadas por um mar de gente indiferente. E, lamentavelmente, essas ilhas não estão tão longe assim. Que condição humana esta!

Voltando aos desafios linguísticos...

      A propósito da partilha de dúvidas, questões,... lá vai mais uma.

      Q: Como é que se distinguem os modificadores do predicado dos modificadores da frase?

   R: Os modificadores do predicado (internos ao grupo verbal que assume a função de predicado, independentemente da localização deles na frase) são constituintes facultativos do grupo verbal e admitem dois tipos de teste: o da interrogação numa estrutura clivada com o verbo ‘Ser’(a) e o da negação (b):

> Os alunos vão participar num torneio no próximo sábado. [Predicado]
> No próximo sábado, os alunos vão participar num torneio. [Predicado]
> O que é que os alunos vão fazer? Vão participar num torneio no próximo sábado. [Predicado]
(a) Vai ser no próximo sábado que os alunos vão participar num torneio?
(b) Os alunos vão participar num torneio não no próximo sábado, mas no domingo.

     O mesmo já não sucede com os modificadores da frase (externos ao grupo verbal que assume a função de predicado, assumindo eles valores da modalidade – isto é, configurando-se essencialmente como advérbios ou expressões adverbiais para marcar o posicionamento do sujeito da enunciação relativamente ao conteúdo da frase / do enunciado). Nestes casos, os testes acima mencionados já não são aplicáveis, uma vez que tornam as frases agramaticais (*):

> Francamente, ele podia fazer um trabalho bem melhor. [Predicado]
> O que é que se passa? Ele podia fazer um trabalho bem melhor. [Predicado]
(a) *É francamente que ele podia fazer um trabalho bem melhor?
(b) * Não francamente mas fingidamente, ele podia fazer um trabalho bem melhor.

    Mais um contributo assente numa abordagem próxima do carácter oficinal do ensino da gramática, desta feita na base de uma função sintáctica. Mais do que a etiquetagem é bom que se instituam processos (testes) capazes de sustentar o conhecimento.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Mais um desafio linguístico para partilhar

    Há questões que provam que nem tudo o que parece é. Marquemos, então, algumas diferenças.

    Q: Tenho um complexo verbal sempre que há dois verbos?

    R: A questão do complexo verbal passa pela consciencialização de que, no grupo verbal, se apresenta uma sequência de dois ou mais verbos (mediados ou não por preposição), sendo apenas um deles o verbo principal e os restantes auxiliares. Veja-se, a propósito, o exemplo com quatro verbos auxiliares e um principal:

   Sistematização e ordenação de verbos auxiliares

    Há, assim, que registar a natureza da auxiliaridade de verbos que constituem o complexo, para distinguir de situações nas quais não ocorrem complexos verbais, por maior proximidade que se estabeleça. É o caso de:

     i) Os alunos pensam fazer uma festa no final do ano lectivo.
     ii) Desejei ter umas férias repousantes.
     iii) O meu primo resolveu comprar jogos novos.
     iv) Todos nós aspiramos a viver amanhã numa sociedade mais justa.

   Em i), o verbo principal 'pensar' é seguido de um complemento directo na forma de uma oração subordinada infinitiva; o mesmo sucede com o verbo 'desejar', em ii), e 'resolver', em iii); na iv), o verbo principal 'aspirar' é seguido de um complemento oblíquo (introduzido por uma preposição seguida de oração subordinada infinitiva).
    Vários testes podem ser aplicados no sentido de diferenciar complexos verbais (verbos auxiliares + auxiliado) de grupos verbais dependentes de um verbo subordinante. A aplicação cumulativa dos testes seguintes permitirá concluir da propriedade de auxiliaridade dos verbos destacados:

1. Substituição da segunda parte da construção sintáctica por uma completiva:
Os alunos pensam fazer uma festa no final do ano lectivo. [Pensar - verbo principal]
(>Os alunos pensam que vão fazer uma festa no final do ano lectivo)
Os alunos devem fazer uma festa no final do ano lectivo
(*Os alunos devem que fazer uma festa...) [Dever - verbo auxiliar]

2. Os pronomes átonos normalmente ocorrem adjacentes ao verbo auxiliar:
O meu primo resolveu comprar jogos novos.
(> O meu primo resolveu comprá-lo.) [Resolver - verbo principal]
O meu primo tem comprado jogos novos.
(> O meu primo tem-nos comprado.) [Ter - verbo auxiliar]

3. Inserção do advérbio de negação
Desejei ter férias repousantes.
(> Desejei não ter férias repousantes) [Desejar - verbo principal]
Tinha de ter férias repousantes.
(> *Tinha não de ter férias repousantes) [Ter de - verbo auxiliar]
Vou ter férias repousantes.
(> *Vou não ter férias repousantes) [Ir - verbo auxiliar]

4. Inserção de adverbiais de tempo:
Todos aspiramos a viver amanhã numa sociedade mais justa.
(> Todos os dias todos aspiramos a viver amanhã numa sociedade mais justa) [Aspirar - verbo principal]
(> * Todos os dias todos podemos viver amanhã numa sociedade mais justa) [Poder - verbo auxiliar]

     Admitindo a falibilidade de alguns destes testes, será de relembrar que é pela aplicação cumulativa de todos eles que se aponta no sentido da natureza clara da auxiliaridade.

sábado, 28 de março de 2009

Novo Encontro - ASA


     Mais um momento para comunicar... comungar...
(Hotel Meliá, Vila Nova de Gaia)

    Algumas caras conhecidas, outras nem tanto; uns amigos (como é bom saber que eles por lá estão, a dar um sorriso e a encorajar), muitos colegas.
     A propósito do ensino da gramática, houve tempo e espaço para:
. discutir critérios de progressão relativamente ao ensino da gramática (como considerar, entre outros, o critério da frequência, por exemplo);

. esclarecer dúvidas relativamente à classificação de conectores / articuladores (e o mais importante - manipular frases, contextualizá-las, substituir por articuladores sinónimos, explorar a dimensão lógica e significativa - saiu relevado relativamente ao que possa ser uma simples classificação ou a procura de uma tabela ou um esquema que contemplem o conector em questão);

. reflectir sobre a relação de entendimentos distintos face ao ensino da gramática (talvez mais complementares do que distintos): o do conhecimento explícito autónomo, numa metodologia de carácter oficinal; o do conhecimento explícito ao serviço da dimensão funcional e significativa dos discursos;

. problematizar o ensino da gramática à luz de documentos / instrumentos que regulam a prática docente (programas, manuais, exames);

. considerar que a prática indutiva é mais legitimadora do ensino e da aprendizagem da gramática, focalizando os conhecimentos que o próprio aluno constrói (a partir de um percurso que implique uma planificação assente em: selecção e constituição de um corpus; observação / comparação / construção de generalizações; análise e problematização; treino; avaliação).

     Citando João de Barros, na Gramática de Língua Portuguesa (1540), "porque nossa tenção é fazer algum proveito aos meninos que por esta arte aprenderem, levando-os de leve a grave, e de pouco a mais" (actualizado na escrita).

     Tudo isto na sequência de um pequeno contributo a que já fiz referência, há cerca de um mês.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Constância vai sendo uma constante

      Uma visita de estudo que começa a ser uma tradição da escola, para os 10º anos de escolaridade da ESG.

     Lembro-me de, no ano lectivo 2007-2008, ter havido a feliz ideia de um conjunto de professores da Escola Secundária de Gondomar programar uma visita de estudo interdisciplinar (Biologia, Físico-Química, Português) para os 10º anos de escolaridade. Este ano lectivo, juntou-se Matemática.

       Regressámos a Constância - terra que, em tempo de Primavera, faz compreender a razão de o nosso épico quinhentista a ela se ter referido, se é que nela não viveu.

         Lá nos esperava a estátua da autoria de Lagoa Henriques, com os sinais de um homem-poeta que ainda não havia sofrido as agruras de África (preserva os dois olhos); que oferece a sua obra a quem a queira ler; que se encontra sob arcos sugestivos, a relembrar a praticamente certa vivência na Casa dos Arcos; que mantém o contacto directo com a natureza, num amor declarado a tudo o que se compagina com o "vi claramente visto".

Camões (Lagoa Henriques)

      O Jardim-Horto é espantosamente apresentado por uma colega de ofício, conhecedora da história (misturada com alguma lenda) de vida do poeta, bem como da poesia, por ela declamada a ponto de arrancar palmas do auditório. Para cada planta, há a citação de alguns versos da obra poética.

Ilha dos Amores (Lagoa Henriques)
       Junto à Casa dos Arcos, outra obra do mestre Lagoa Henriques: alusão à Ilha dos Amores. Bem foi dito aos alunos que preservassem os púdicos olhos de cenas que os pudessem chocar; mas, à semelhança da proibição de leitura do canto IX de Os Lusíadas nos tempos de Salazar, acabou por ser das peças artísticas mais observadas e com a maior atenção! Provada ficou a estratégia do fruto proibido como a que dá lugar ao que é mais apetecido. Faz lembrar o poeta, quando, nesse mesmo canto, assumia que "Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo."
       Tudo se conjugou para a busca de sentidos.
      Nem mesmo a visão geocêntrica do mundo, apresentada aos nossos olhos de herdeiros heliocêntricos, menorizou a estada numa terra que teve em José Coelho a generosidade e a dádiva reconhecidas em diferentes pontos da localidade. Mesmo junto ao Centro da Ciência Viva, lá se encontra o monumento que "espelha" a Máquina do Mundo camoniana, com os seus sete céus ou as sete esferas em torno da Terra:

A Grande Máquina do Mundo (José Coelho)

"Debaxo deste grande Firmamento,
Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
Júpiter logo faz o movimento,
E Marte abaxo, bélico inimigo;
O claro Olho do Céu, no quarto assento,
E Vénus, que os amores traz consigo,
Mercúrio, de eloquência soberana;
Com três rostos, debaxo vai Diana.

Em todos estes orbes, diferente
Curso verás, nuns grave e noutros leve;
Ora fogem do Centro longamente,
Ora da Terra estão caminho breve,
Bem como quis o Padre omnipotente,
Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
Os quais verás que jazem mais a dentro
E tem co Mar a Terra por seu centro".
in Os Lusíadas, de Luís de Camões
(Canto X - est. 89-90)

      Se é certo que a Literatura não é cópia da realidade, muito dela tem vivido. Um homem culto como Camões não deixou de apresentar poeticamente essa cosmovisão geocêntrica, ptolomaica que vigorou ao longo de cerca de quinze séculos (sécs. II - XVII). Nem Philolau (séc. V a. C.) nem Hicetas de Siracusa (séc. IV a. C.) veriam as suas teses (da Terra enquanto esfera girando em torno de um "fogo central", a que faltava dar o nome de "sol") reconhecidas senão nos séculos XVI, com Copérnico, e XVII, com Kepler e Galileu.

     Assim se fazem as revoluções do conhecimento, sem que se desmereça o valor heróico dos que (ainda) o desconhecem. Neste sentido, a literatura acaba por ver mais longe... numa atitude modelar.

terça-feira, 24 de março de 2009

A um leitor anónimo

    Perdoe-me o leitor anónimo, pela demora, pela extensão e pela deslocação do comentário para o corpo principal deste “bloguezito”, tal como o anunciei à hora de nascimento entre os amigos, os colegas e os conhecidos - aqueles que sempre me questionaram e também sempre me ajudaram a procurar e a querer saber mais, por conhecerem as vantagens de partilharmos o que sabemos e desconhecemos. Sem pedestais, cremos na "nossa comunidade de interessados na profissão" (deve ser por isso que, sempre que nos encontramos, acabamos por falar do mesmo, por mais que o evitemos). Nesta atitude nos unimos e colhemos algum sossego, pelo menos o de sabermos que não estamos sós.

    Q: Caro Mestre, a sua opinião, por favor. Entende ou não que há demasiada preocupação na questão das «terminologias» - chamava-se, agora chama-se... ui que sossego... - quando seria mais proveitosa - não é só opinião minha - a questão da didactização destes conceitos? Ou, por outra: vai mudar só a terminologia na aula de língua materna ou deveria aproveitar-se a mudança para mudar muito mais? Ou ainda por outra: o sonho da minha querida Odete Santos é para cumprir agora ou vai ficar ainda adiado? Agradeço uma resposta.


     R: Algumas breves notas:
i) não sou fundamentalista, no que concerne à terminologia bem como à necessidade da sua transposição para o contexto de sala de aula; não o sou ainda relativamente aos que a possam achar factor de desassossego ou até despicienda nas aulas de língua – posição que me dá, no mínimo, alguma liberdade para compreender quem o faça (na linha de que todas as disciplinas utilizam uma terminologia própria e vêem nela um indicador da especificidade de acção e/ou saber) e entender quem o não faça (ao privilegiar estratégias de indução, de natureza mais comunicativa e funcional). Tendo para o reconhecimento de que, inevitavelmente, todos ganharíamos ao considerar um núcleo mínimo / essencial de termos, para que estes não constituam ruído em contextos mais reguladores das práticas – de que programas e exames são apenas dois exemplos;

ii) a questão da didactização dos conceitos, subscrevo-a, naturalmente; considero que esta tarefa tem, numa das suas fases (inicial ou final, conforme a metodologia a considerar), a questão da explicitação terminológica; ao nível da didáctica da gramática, quer no entendimento desta ao serviço de actividades de revisão e regulação do oral e da escrita (na sua dimensão funcional) quer no sentido dela aplicada ao dispositivo estratégico da oficina da gramática, a abordagem indutiva não desconsidera o facto de, depois da selecção e constituição de um corpus, a observação / comparação / construção de generalizações, a análise e problematização, o treino e a avaliação, se poder proceder à explicitação de termos; está na mão dos professores e da avaliação que estes fazem do contexto em que trabalham, e com as motivações daqueles com quem trabalham, o relevo a ser dado à terminologia gramatical;

iii) o pretexto de querer mudar muito não pode ser factor para impedir a mudança de algo em menor âmbito, sob pena de nunca se conseguir mudar absolutamente nada (e, num domínio estruturante como o do conhecimento explícito, a mudança terminológica teve já a virtude de pôr a reflectir e a recuperar para as aulas de Português uma área que foi durante bastante tempo preterida; quem sabe a reflexão não venha a conduzir para uma conciliação e articulação cada vez mais desejável da gramática com instruções de sentido orientadas para competências de recepção / produção oral e escrita);

iv) várias foram as indicações, as propostas, as reflexões que a Professora Odete Santos deixou a quem com ela se cruzou. Sem referência concreta “ao sonho”, fico-me
1 - pela constatação de que o modelo pedagógico-comunicativo por ela entendido não conflitua com o facto de se explicitar ou não terminologia, desde que esta surja como mais um instrumento utilizado em contextos de planificação e regulação das actividades comunicativas “organizadas de maneira sistematizada em ordem ao desenvolvimento de um processo que se define como um acto intencional e programado de aprendizagem da comunicação em língua materna” (comunicar na escola, para não ser sinónimo de conversar, implica seleccionar, orientar estrategicamente para um objectivo, por forma a estruturar e sistematizar a ponto de poder ser produtivamente reactivado);
2 - pela afirmação de que o discurso pedagógico-verbal instaurado pelas entidades interlocutivas do professor e do aluno, segundo o modelo atrás proposto, se enriquece pela abordagem indutiva da gramática (que não desconsidera uma terminologia própria da disciplina e que não reifica necessariamente o saber do professor; coloca este último, sim, num papel de construtor, planificador de actividades que promovam maior interacção e aprendizagens mais estruturadoras do próprio conhecimento explícito);
3 - pela asserção de que a “dinâmica comunitária” - assente nos conhecimentos de mundo, nos ritmos de apreensão significativa, na apropriação dos novos saberes – também se faz com, na e pela própria língua (e quanto mais dela se souber, nos diferentes domínios, mais competentes nos tornamos), numa perspectiva interaccional do ensino-aprendizagem que destaca a necessidade de fomentar, no sujeito da aprendizagem, as condições necessárias à interacção com as suas próprias experiências de “mundo” e as marcas linguísticas dos textos / discursos;
4 - pela aceitação de que a análise e sistematização pedagógicas criam nos alunos “a consciência das condicionantes impostas pelas várias componentes dos processos comunicativos”, numa aposta em modelos que façam interagir competências conscientes de recepção com o domínio de estratégias de produção;
5 - pela consciência de que um modelo pedagógico-comunicativo orientado para uma “micro-comunidade enunciativa escolar” (configurando princípios comunicativos que instituem a “macro-comunidade enunciativa”) se promove pela abertura a uma diversidade de géneros discursivos, pela activação de contextos de produção comunicativa que posicionam os alunos como agentes do processo de aprendizagem, sem que tal signifique o apagamento do papel do professor como agente de ensino (planificando e orientando os trabalhos de forma consciente – como me lembro, e bem, das reflexões da minha metodóloga de ensino do Português, que nunca se esquecia de que um sujeito nem sempre é agente; também pode e deve ser paciente!);
6 - pela vontade de que, cada vez mais, se caminhe no sentido de construir projectos de língua capazes de promover a conjugação de domínios curriculares afins (nomeadamente os de língua materna e de línguas estrangeiras) – o que vai ao encontro da correlação pretendida entre a concepção de língua / modelos de investigação em linguística que dela decorrem e os modelos pedagógico-didácticos que se lhe associam (aspecto relevado pela professora em questão, considerando a obra que produziu).

     Por todos estes sonhos, creio que andamos muitos a fazer aproximações, umas mais felizes e estruturadas do que outras. Nesse caminho, procuramos concretizar um pouco de um sonho ou utopia sócio-profissional: a socialização e a solidariedade dos sujeitos fazem-se também pelo (re) conhecimento de um objecto estruturante e estruturador do próprio pensamento, condicionador ele próprio das interacções a construir, conforme a representação que delas se faça. Quanto maior o conhecimento da língua, maiores são as fontes e o(s) poder(es) do individual no social, maior é a partilha desse(s) poder(es).

quinta-feira, 19 de março de 2009

Formação de palavras

      Voltamos à complexidade da formação de palavras.

      Q: Como considerar a formação da palavra 'perfuração' - um caso de derivação por prefixação e sufixação?

     R: Desmontando a palavra nos seus constituintes, a base é o verbo 'perfura(r)' ao qual, depois de retirado o afixo verbal do infinitivo, se acrescenta o sufixo '-ção'. Consultando um dicionário, concluir-se-á que a forma latina 'perforāre' é a que está na base da entrada no léxico português. 'Perfurar' pode ser, assim, entendida como a palavra-base. Creio não haver sistematicidade e /ou frequência na utilização do prefixo 'per-', na língua portuguesa, para se proceder à formação de novas palavras e poder entender ainda a base 'furar' como estando na origem de 'perfuração' (atendendo ao facto de 'percorrer' ser palavra que tem origem na forma latina 'percorrĕre'; 'pernoitar', em 'pernoctāre'; 'perdurar', em 'perdurāre'; 'permutar', em 'permutāre', entre vários outros casos que contemplam 'per-' como constituinte já incluído na forma latina que evolui para o português). De qualquer forma, a considerar este último cenário, na linha da consciência sincrónica que mantém alguma rede significativa entre 'perfurar' e 'furar', tratar-se-ia de uma outra fase de sequencialização na formação, conforme se lê nos passos seguintes:
        1. furar > perfurar (derivação por prefixação);
        2. perfura(r) > perfuração (derivação por sufixação).
     Ou seja, não é 'furar' que dá origem ao nome 'perfuração'; este deriva do verbo 'perfurar', pelo que é a este nível (2) que devem ser considerados os constituintes morfológicos; outros terão de ser equacionados a um nível de processualidade morfológica diferente.

    De novo o conselho: utilizar um bom dicionário, quando se trabalha formação de palavras; considerar esta última como podendo contemplar etapas ou níveis sequenciais de formação distintos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Poesia, Som e Voz(es) em Pessoa(s)

    Entre o terreno do sensível e as alturas do inteligível, entre o sentido da pluralidade colectiva e a singular unicidade, constrói-se a diversidade na unidade.

      Imaginário(s), espaço(s), voz(es) e Pessoa(s).

Interpretação do poema pessoano "Do vale à montanha" por Mariza (Cavaleiro monge)

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.

24-10-1932
Fernando Pessoa, in Poesias de Fernando Pessoa
Edições Ática

      A elevação, a ascensão que se faz do sopé, do vale à montanha; a figuração do múltiplo da montanha na unidade do monte; a visão do coletivo no singular são percursos que Pessoa poetizou. Caminhou no sentido de uma espiritualidade de que o cavaleiro monge é símbolo; percorreu caminhos que não existem (senão na imaginação por ele sentida), que têm um sentido e o seu contrário. Dir-se-ia tratar-se de um percurso iniciático, no qual os obstáculos são provas para a superação e a transcendência necessárias à condição absoluta de felicidade.
    E, assim, cavaleiro e cavalo de sombra (que de real nada tem) "caminham" aliados, secretos, libertos, sozinhos, em mim. Esta a progressão das estrofes, sublinhando-se a dimensão de uma inconsciência que o eu-poético quer em si (enquanto sinónimo de idealização e de plenitude que mais parecem fruto de um "sentir com a imaginação"), até como forma de apagar o enleio da consciência, da realidade.
    Este é um poema com as linhas mestras da teoria de um fingimento artístico (sinónimo de criação), onde cabem o único e o múltiplo, a unidade e a diversidade, a realidade e a espiritualidade, a consciência e a inconsciência pessoanos.

     A conjugação perfeita da poesia, da voz, do espaço, da imagem - para um imaginário da espiritualidade.

terça-feira, 17 de março de 2009

Linguística na BD

       Dois exemplos da Mafaldinha...

      ... para mostrar como os Complementos do Adjectivo são funcionais... até na BD.

      Primeiro
      Segundo

      Agora, até estou interessado... (não digo em quê!);
      fico até ansioso... (também não digo por quê!).

      Tal como alguns verbos, também há adjectivos que se fazem acompanhar das preposições que introduzem a complementação destes últimos (ansiar por > ansioso por; interessar-se por / em > interessado por / em).

segunda-feira, 16 de março de 2009

Novo desafio linguístico (... mais complementar)

     Esta é uma questão complementar à da relação 'complemento determinativo-modificador' que foi objecto de tratamento no dia 14. A conversa é como as cerejas (quando se começa a comer...).
    
    Q: E com o atributo, já se pode dizer que é sempre substituído por modificador (restritivo)?


  R: Também não há linearidade na transposição das terminologias (a da Nomenclatura Gramatical Portuguesa e a do Dicionário Terminológico). Aliás, considerando a resposta dada anteontem sobre a relação não linear entre ‘complemento determinativo – modificador’, retomo um exemplo (o 3) para concluir o seguinte: 
    1 – a frase ‘A decisão do presidente foi contestada por todos os partidos políticos’ pode ser transformada da seguinte forma: ‘A decisão presidencial foi contestada por todos os partidos políticos’;
   2- a substituição da sequência ‘de+N’ pelo adjectivo ‘presidencial’, além de poder ser tomada como sinónima, corresponde à manutenção da função sintáctica independentemente das configurações sintagmáticas serem ‘de+N’ ou ‘Adj’ (‘presidencial’ funciona como complemento do nome, pelas mesmas razões enunciadas na resposta já mencionada [‘decisão’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do agente da decisão]).
    Aparece, assim, um exemplo de como o adjectivo (a funcionar como atributo, na nomenclatura tradicional) assume a função sintáctica de complemento do nome.
  Nesta mesma linha de argumentação, os adjectivos abaixo considerados podem funcionar como complementos do nome ‘eleição’, ‘aquecimento’, ‘proposta’ (todos nomes derivados de verbo transitivo ou com realização transitiva):
     a) “eleição presidencial(‘presidencial’ tomado como tema: alguém elegeu o presidente);
     b) “aquecimento solar(‘solar’ é a fonte / origem: o sol aquece qualquer coisa);
     c) “proposta estudantil(‘estudantil’ é o agente: os estudantes fizeram uma proposta).

     O mesmo já não sucede, por exemplo, com as sequências seguintes:

       d) “paisagem fabulosa
     e) “crise económica
     f) “comida deliciosa
     g) “vinho branco
     h) “imposto municipal

    Os nomes que antecedem os adjectivos não são derivados de verbos transitivos nem pertencem ao grupo daqueles que apresentam uma estrutura argumental que requer complementação (confronte, de novo, a resposta de anteontem); os adjectivos restringem a referência desse nome (por razões de qualificação, de classificação ou relação). Antigos atributos que funcionam como modificadores (restritivos).

   De novo impõe-se o trabalho da sintaxe numa interface com a semântica e até a morfologia - exemplo de uma gramática de corpo inteiro, para que a língua não resulte mutilada.