domingo, 14 de junho de 2009

Erros clássicos: um caso dos 'media' (para não dizer de um 'medium')

      Na base do que os próprios media nos oferecem, e sempre correndo o risco de ver quebrados os meus telhados de vidro, lá vai um bom exemplo do mau trato da língua.

     Num texto que fala de crise... a da língua está mais do que instalada, difundida e sem fim à vista, mesmo que o texto aponte para o tema-título "Retiros espirituais":


in Jornal de Notícias, 14 de Junho de 2009, pág. 61

       A menos que o leitor esteja num estado depressivo tal em que já não folheia para ler (só desfolha, pela simples vontade de destruir), diria que o exemplo não é novo. É clássico. Por várias vezes me referi a ele junto dos meus alunos (sim, porque, diziam eles, também desfolhavam livros, o manual... e eu, ironicamente, lá os acusava de destruidores implacáveis de bens publicados em suporte papel).
       Para lá da questão da selecção lexical e da distinção significativa (no confronto do par desfolhar / folhear), este sempre é um bom caso para se trabalhar a morfologia: chamar a atenção para a formação da própria palavra 'desfolhar'.
      À base 'folhar' (dicionarizada com o sentido de 'fazer criar folhas', 'cobrir de folhas' ou 'dar a forma de folha') é acrescentado um prefixo 'des-' que, geralmente, é considerado de negação (a par de 'in-' ou 'a-'); todavia, no caso concreto, associa-se mais ao significado de separação, orientação contrária ou complementar para um processo ou acção (na mesma lógica de ligar > desligar, instalar > desinstalar, fazer > desfazer, mascarar > desmascarar, abotoar > desabotoar, carregar > descarregar) e não tanto à negação prevista entre harmonia /desarmonia, confiança / desconfiança, cortesia / descortesia, proporcional / desproporcional, propositado / despropositado, acordo / desacordo, igual / desigual.
      Um outro significado pode ainda associar-se a 'des-': reforço ou aumento de intensidade. É o que se pode encontrar em formas como 'desinquieto', 'desinfeliz' ou ainda o popular 'deslarga-me'.
      Pelo trabalho de consulta dicionário, pode ser feita a construção de diferentes grupos com palavras (previamente fornecidas ou a pesquisar) que apontem para esta diferença de sentidos transmitida pelo mesmo prefixo:
(i) ser o contrário ou complementar a;
(ii) ser a negação de;
(iii) ser muito.

      Um caso de gramática a propósito de leitura. Valha o facto de sempre se aprender com os erros (os dos outros e os nossos também).

sábado, 13 de junho de 2009

Da fama dos elefantes

     Entre tantos animais na terra, fico-me pelo elefante...

     Não o Dumbo, de orelhas inusitadas, que é o herói da criançada; não Ganeixa, cuja cabeça elefantina é marca de divindade hindu; não os de Alexandre, o Grande, nem os de Aníbal, o cartaginês, que ficaram famosos pelas batalhas travadas; não os brancos, aos quais a história e o saber popular rezam como sendo singulares e dispendiosos.
      Fico-me por um elefante que só um escritor soube (re)ver, que faz a viagem por todos desejada: a viagem do espaço, do tempo, do uso, do poder, da realidade, da imaginação. Uma viagem que traz mudanças, que faz a diferença (na consciência de que, na linha da epígrafe, "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam"). E esse pode sempre ser o lugar da língua e da linguagem.


       Nas palavras do próprio autor, adivinha-se um livro cuja "viagem do elefante" se parece com a viagem, os percursos da própria língua, ao longo dos tempos e dos homens que a usam, bem como do acto de criação narrativa. É um gozo, uma brincadeira, em dezoito capítulos, com a própria língua, cada vez mais revista como convenção a violar e, quem sabe, como acto poético a (re)criar: "... não falta por aí quem diga que as fadas que presidiram ao meu nascimento não me fadaram para o exercício das letras, Nem tudo são letras no mundo, meu senhor, ir visitar o elefante salomão neste dia é, como talvez se venha a dizer no futuro, um acto poético, Que é um acto poético, perguntou o rei, Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu,..." (I - págs. 18-19).
      Cruzando com outras experiências de leitura do mesmo autor, regista-se: "No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade" (XVI - pág. 227). Assim se revê Memorial do Convento ou mesmo O Evangelho Segundo Jesus Cristo - romances que desafiam a perspectiva do(s) conhecimento(s) de mundo ou a versão oficial da História.

     Isto tudo para quem tenha memória de elefante ou para que ninguém esqueça, como diz o narrador, que "quem conta um conto não passa sem lhe acrescentar um ponto, e às vezes uma vírgula" (XIV - pág. 197).

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dúvidas e questões linguísticas

    Pragmática e linguística textual: área a (re)descobrir no ensino?

    Q: Num diálogo da obra O Leitor, de Bernhard Schlink, lê-se o seguinte:


" - Também aprendes alemão?
- O que é que queres dizer com isso?
- Só aprendes línguas estrangeiras, ou tens ainda alguma coisa a aprender na tua própria língua?
- Lemos textos."


    O pronome "isso" é um anafórico de quê? Alemão?

    R: Os anafóricos não são apenas elementos que retomam antecedentes sob a configuração de palavra ou grupo de palavras. No caso em concreto, ao falar-se de retoma, tem que se focalizar todo um acto de fala anterior a ser encarado como segmento antecedente; isto é, o acto de fala directivo apresentado no primeiro turno de fala (marcado por uma interrogação total) é recuperado pelo demonstrativo "isso" (o quê? > o facto de me perguntares se também aprendo alemão).
    Assim, em termos de análise do discurso produzido, o interlocutor que assume a voz no segundo turno de fala reenvia, anaforicamente, para o do primeiro, indagando-o quanto à intencionalidade ou ao sentido da interrogação total.

    A especificidade dos textos bem como o recurso a mecanismos que, a todo o momento, se pautam por lógicas que só a(s) leitura(s) dos textos admite(m) são fontes para o exercício de análise do discurso, quer oral quer escrito.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um feriado... romântico

     A tese romântica de que o poeta morre com a nação dá nisto: um abençoado feriado.

     Dizer que 1580 é data da perda da independência portuguesa, ficando o país sob o domínio filipino por um período de sessenta anos de governo dual, não é dado contestável.
     Certa a morte de Camões, já a data de nascimento levanta muitas incertezas (uma boa oportunidade para se trabalhar a modalidade epistémica, enquanto mecanismo linguístico da expressão da possibilidade ou probabilidade).

in Das Palavras aos Actos (manual de 10º ano de Português), Porto, Edições ASA

         Resta a evidência de um abençoado feriado.
     Quanto ao dia de Portugal, talvez devesse ser o dia 1 de Dezembro (o da Restauração da Independência, hoje mais lembrado pelo Dia Mundial da SIDA). 
      Se ainda o descobrem, tiram-nos o desejado descanso deste dia, a título da concentração / redução de feriados.

     
Bem razão tinha um outro nosso escritor, Eça de Queirós ("Somos invariavelmente românticos"), cuja data de nascimento ou morte bem que também poderia ser feriado - isto para quem pense que ando a dar ideias para tirar feriados (sempre fica a proposta de criação de um outro).


segunda-feira, 8 de junho de 2009

Progressão(ões) da Gramática

      Na sequência dos encontros em que participei, falando sobre o ensino da gramática.

    Mediante as solicitações recebidas, faço publicar, na íntegra, a comunicação apresentada acerca da noção de progressão(ões) no ensino da gramática.
     Estas foram as linhas de reflexão partilhadas no Porto (Fundação Cupertino de Miranda e Hotel Meliá), bem como em Lisboa (Universidade Católica Portuguesa).
      Propõe-se o seguinte alinhamento:
Capa da primeira gramática portuguesa, de Fernão de Oliveira (1536):
Grammatica da lingoagem portuguesa

   "A progressão como passagem do simples para o complexo, como orientação do familiar ou frequente para o desconhecido ou menos comum, como transição do genérico para o específico não pode desconsiderar o critério da utilidade e do que se revela necessário para determinadas opções discursivas, certos objectivos comunicativos que implicam o conhecimento e a explicitação de alguns dados da língua."

     Acrescentam-se alguns cuidados na terminologia gramatical, no discurso pedagógico, entre outros dados que articulam a gramática com as competências de leitura, de escrita e de abordagem literária.

      A bem da comunidade profissional a que pertenço.

sábado, 6 de junho de 2009

"Eu não temo nem devo"

    Esta é frase histórica para um rei absoluto, a quem o Memorial do Convento retrata como alguém que, sem ironias, muito devia e muito temia.

     Entre a visão histórica (já por si uma construção narrativa)...


... e uma outra ficção narrativa construída, fica a afirmação real (porque dita e porque de uma figura da realeza) pautada pelo retrato de um monarca

a) que se cruza com o ridículo, o sarcasmo e o registo de um narrador que o vê como uma criança em ponto grande:

"Quase tão grande como Deus é a basílica de S. Pedro de Roma que el-rei está a levantar. É uma construção sem caboucos nem alicerces, assenta em tampo de mesa que não precisaria ser tão sólido para a carga que suporta, miniatura de basílica dispersa em pedaços de encaixar, segundo o antigo sistema de macho e fêmea, que, à mão reverente, vão sendo colhidos pelos quatro camaristas de serviço. (...) Agora só falta colocar a cúpula de Miguel Ângelo, aquele arrebatamento de pedra aqui em fingimento, que, por suas excessivas dimensões, está guardada em arca à parte, e sendo esse o remate da construção lhe será dado diferente aparato, que é o de ajudarem todos ao rei, e com um ruído retumbante ajustam-se os ditos machos e fêmeas nos mútuos encaixes, e a obra fica pronta." (I, págs. 12-13 da 43ª edição)

b) dominado pela mundanidade, pela profanação, pela fragilidade ironicamente denunciada:

"É contudo um tempo de contrariedades. Agora sairão a freiras de Santa Mónica em extrema indignação, insubordinando-se contra as ordens de el-rei de que só pudessem falar nos conventos a seus pais, filhos, irmãos e parentes até segundo grau, com o que pretende sua majestade pôr cobro ao escândalo de que são causa os freiráticos, nobres e não nobres, que frequentam as esposas do Senhor e as deixam grávidas no tempo de uma ave-maria, que o faça D. João V, só lhe fica bem, mas não um joão-qualquer ou um josé-ninguém." (IX, 97, idem) "El-rei anda muito achacado, sofre de flatos súbitos, debilidade que já sabemos antiga, mas agora agravada, duram-lhe os desmaios mais do que um vulgar fanico, aí está uma excelente lição de humildade (...) Enfim, el-rei abriu os olhos, escapou, não foi desta, mas fica cm as pernas frouxas, as mãos trémulas, o rosto pálido, nem parece aquele galante homem que derruba freiras com um gesto, e quem diz freiras diz as que o não são (...) se agora o vissem as amantes reclusas e libertas não reconheceriam neste murcho e apagado homenzinho o real e infatigável cobridor." (X, 116-117, idem)

c) feito da megalomania traduzida em egocentrismo, magnanimidade simulada, religiosidade demasiado profana:

"Medita D. João V no que fará a tão grandes somas de dinheiro, a tão extrema riqueza, medita hoje e ontem meditou, e sempre conclui que a alma há-de ser a primeira consideração, por todos os meios devemos preservá-la, sobretudo quando a podem consolar também os confortos da terra e do corpo. Vá pois ao frade e à freira o necessário, vá também o supérfluo, porque o frade me põe em primeiro lugar nas suas orações, porque a freira me aconchega a dobra do lençol e outras partes, e a Roma, se com bom dinheiro lhe pagámos para ter o Santo Ofício, vá mais quanto ela pedir por menos cruentas benfeitorias..." (XVIII, 234-235, idem)

d) dimensionado à escala de uma visão da História assumida como ludíbrio, simulação, anedota, paródia, anacronismo visando a desvirtualização do universo do poder:

"... ficou o rei, que está em sua casa, agora esperando que regresse o almoxarife que foi pelos livros da escrituração, e quando ele volta pergunta-lhe, depois de colocados sobre a mesa os enormes in-fólios, Então diz-me lá como estamos de deve e haver. O guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, devemos cada vez mais, Já o mês passado me disseste o mesmo, E também o outro mês, e o ano que lá vai, por este andar ainda acabamos por ver o fundo ao saco, majestade, Está longe daqui o fundo dos nossos sacos, um no Brasil, outro na Índia, quando se esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que podermos então dizer, afinal estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah, ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, Não, majestade, é o dinheiro que é merda, e eu estou com muito boa posição para o saber, de cócoras, que é como sempre deve estar quem faz as contas do dinheiro dos outros." (XXI, 293-294, idem)

e) caracterizado pelo poder absoluto e pela vaidade, cruzados com o caricato:

"... D. João V teve um pensamento negro, viu-se-lhe na cara, e faz rápidas contas, mentais, com a ajuda dos dedos, Em mil setecentos e quarenta terei cinquenta e um anos, e acrescentou lugubremente, Se ainda for vivo. (...) Todos esperavam. E então D. João V disse, A sagração da basílica de Mafra será feita no dia 22 de Outubro de mil setecentos e trinta, tanto faz que o tempo sobre como falte, venha sol ou venha chuva, caia a neve ou sopre o vento, nem que se alague o mundo ou lhe dê o tranglomango. (...) Foram as ordens, vieram os homens" (idem, 301-302, idem)

    À mentalidade da época setecentista, D. João V (o Magnânimo) deixou a sua marca na terra: no temor sério do que seria o esquecimento provocado pela morte, cumpre os prazeres do corpo sem renegar, à sua peculiar maneira de representante divino na terra, os da alma.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Nova dúvida linguística... já velha

    No domínio da sintaxe, a questão das funções sintácticas e o esclarecimento acerca dos complementos de nome têm vindo a tornar-se uma constante, tanto pela noção deste complemento em si como pela relação / diferenciação face a outras funções.

    Q: Num manual, surge a definição de "complemento de nome" da seguinte forma: "Complemento do nome é um constituinte do grupo nominal que se encontra à direita do nome e é seleccionado por ele, podendo desempenhar a função de predicativo do sujeito ou de predicativo do complemento directo." Então o predicativo do sujeito não está integrado no predicado e não é pedido pelo verbo?

     R: Obviamente, a definição dada não está correcta, até pela formulação que não consegue destrinçar funções sintácticas básicas de outras de natureza interna. O "complemento do nome" não se confunde com as funções mencionadas. A ter alguma aproximação com elas será sempre num mecanismo de dependência e de expansão / alargamento do núcleo que desempenhe tal função sintáctica (ou seja, enquanto função sintáctica interna):

i) O meu próximo projecto é a construção da ponte.

   [no predicado - 'é a construção da ponte' - aparece um predicativo do sujeito - 'a construção da ponte' -, o qual é constituído por um grupo nominal expandido por um complemento de nome: 'da ponte']

ii) A oposição considerou o diploma uma decisão governativa.

    [no predicado - "considerou o diploma uma decisão governativa" - surge um complemento directo - "o diploma" - acompanhado de um predicativo do complemento directo - "uma decisão governativa" -, sendo este último constituído por um grupo nominal que contempla um complemento de nome: "governativa"]

    O que de mais comum poderá acontecer ao nível dos complementos do nome é a sua abordagem enquanto função de uma sequência de expansão constitutiva dos grupos nominais que desempenham as funções básicas de sujeito ou complemento directo.
      Interessará sempre considerar, entretanto, se tal expansão é complemento ou modificador - a este propósito, confronte-se registo anterior.

     Trabalhar as funções sintácticas, numa perspectiva oficinal da língua, convoca o recurso a testes de identificação dessas funções, numa estratégia de manipulação, substituição, comparação, contraste (processos de reconhecimento e de crescente consciencialização e explicitação do conhecimento da língua).

terça-feira, 2 de junho de 2009

Nova dúvida linguística... no léxico

      Chegou a vez de uma questão centrada no domínio da lexicologia.

     Q: Li, num livro de apoio destinado ao primeiro ciclo, uma instrução que pedia para os alunos construírem uma área vocabular. É uma lista de vocabulário?

    R: Entende-se por "área vocabular" uma expressão sinónima de "campo lexical", ou seja, um conjunto organizado de palavras / expressões relativo a um determinado campo conceptual, comum a todos os termos que o constituam (ex.: campo lexical das cores: 'verde, amarelo, vermelho,…'; campo lexical da agricultura: 'campo, lavrador, arado, terra, …'; campo lexical das relações familiares: 'mãe, filho, pai, tio, …'; campo lexical dos sentimentos: 'amor, ódio, revolta, admiração, reconhecimento, solidariedade,…').
     Há autores que defendem que os elementos pertencentes a um campo lexical devem obedecer  a uma mesma classe de palavras – assim, para o campo lexical de um nome teríamos nomes (ex.: marinha > barco, velas, ondas, vagas, marinheiro,…); para o de um verbo teríamos verbos (ex.: mover > andar, caminhar, arrastar,…); para o de um adjectivo teríamos adjectivos (ex.: emotivo > comovente, choroso, alegre, triste,…). Todavia, não há consenso relativamente a este dado, tendo alguns outros autores preferido socorrer-se do conceito de campo associativo, como forma de combater algum espartilhamento.
     Campo associativo corresponde, então, a um conjunto organizado de termos pertencentes a classes de palavras distintas, mas relacionadas com uma área conceptual. Para o campo associativo de ‘movimento’ ter-se-ia, então, termos como 'mover, deslocação, trânsito, móvel, imóvel, voar, subida, descer, queda, marcha,…'. Trata-se, portanto, de um conceito mais abrangente do que o de campo lexical, se nos ativermos à consideração restrita deste último enquanto campo representado por uma mesma classe de palavras.

      Livros e fichas de apoio, gramáticas, manuais,... cada cabeça sua sentença.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dúvida(s) linguística(s)... com ou sem desafio

    Começo a perceber o sentido da questão... e muitas são as razões para que dúvidas destas surjam, particularmente quando são aferidas em contextos de avaliação e se constituem como pontos a, de algum modo, reflectir e racionalizar nas práticas.

    Q: Não é a mesma coisa dizer 'grupo nominal' ou 'sujeito' da frase?

    R: Decididamente não. E por variadíssimas razões.
    Começo por indicar que não são confundíveis dois níveis de análise da língua, ainda que ambos pertencentes ao domínio da sintaxe: o nível da constituição ou combinação de palavras no interior de um grupo (normalmente com uma palavra-núcleo que dá nome a esse grupo, independentemente da posição ou da função que apresente na frase); o da função ou das funções desempenhadas por esse grupo na frase.
      Tipicamente, os grupos nominais têm um nome como palavra-núcleo, podendo ainda apresentar-se sob a configuração de um pronome, como se verifica nos itálicos em i-v:

i) Os alunos estavam atentos.
ii) Os alunos interessados estavam atentos.
iii) Os alunos interessados da turma estavam atentos.
iv) Os alunos interessados que tinham chegado tarde estavam atentos.
v) Eles estavam atentos.

     No caso de frases complexas, pode acontecer que toda uma sequência oracional subordinada acabe por ser recategorizada como grupo nominal (substituível, nomeadamente, por um pronome), como nos itálicos dos exemplos vi-viii:

vi) Fumar faz mal. > Isso faz mal.
vii) É bom que estudes nos tempos livres. > Isso é bom.
viii) Eu disse-lhe que ele estava errado. > Eu disse-lhe isso.

    Os grupos nominais podem, entretanto, desempenhar diversas funções sintácticas na frase. Nos exemplos i-v, os grupos nominais em itálico funcionam como sujeitos sintácticos. Porém, o mesmo grupo nominal de i) - 'os alunos' - assume funções diferentes nos exemplos ix-x:

ix) No recreio, o professor chamou os alunos. (complemento directo)
x) Estes são os alunos. (predicativo do sujeito)

      Num outro exemplo (xi), o grupo nominal 'os alunos' é um constituinte interno de um grupo preposicional que desempenha a função de 'complemento indirecto':

xi) O professor entregou os testes aos alunos.


      Outros argumentos mais podiam ser aduzidos. Creio que estes são suficientes para a resposta pretendida. Sublinharia o facto de toda esta reflexão se encontrar circunscrita a uma terminologia que nada tem de novo; a um conjunto de dados que não levanta questões dúbias (como, por exemplo, a de certos grupos nominais se assumirem, pelo menos à superfície, na configuração de adverbiais ou de funções sintácticas como modificadores).


domingo, 31 de maio de 2009

O (dis)sabor destes dias


Quando o trabalho excede o prazer da vida,...





FUGA


Abri a janela para sorver o ar, gasto na casa.
Cada ponto de luz era um sol longe do peito,
Numa noite feita do arejo fresco que a chuva deixou.

Meu ser é do vento,
Não das paredes que me atrofiam o mar;
Meu ser é de um sol
Que vê a lua oferecer apenas um quarto do seu absoluto;
Meu ser não quer terra,
Foge à raiz que não lhe alimenta o bater de asas;
Meu ser é de um verso aspirando a prosa,
Buscando, no rumor marinho,
A poesia de um horizonte preso ao Céu.

Condição em demanda de consequência,
Vejo-me língua à procura de sentido,
Ansiando por um grito aberto ao mundo,
Surdo à negação do possível,
Acordado pela motivação e vontade.

Vou com o ar… olho o infinito,
Numa viagem anunciada pelo
rodar à esquerda da chave na fechadura.

Gondomar, Maio 2009

..., resta esperar por melhores dias (crendo que estes ainda possam existir).

domingo, 24 de maio de 2009

Falo das mãos, falo das obras

      Na epopeia do trabalho, as mãos cumprem o lema do "pôr mãos à obra".


     Na revista Única, datada de 1 de Maio de 2009 (Dia do Trabalhador), uma série de fotografias de Ana Baião teste-munha a importância das mãos, sinedoca-mente representati-vas dos obreiros que estiveram na cons-trução de obras em-blemáticas do país.
    Um registo que fez relembrar Saramago, e o Memorial do Convento, bem como o domínio da epopeia do trabalho - relevada face a uma farsa palaciana que coloca o Luís XIV português (D. João V) a construir paródica e inabilidosamente a basílica de S. Pedro de Roma, como se de um jogo de Legos se tratasse.
      Relembre-se o segmento (cap. XIV) que fala das mãos, que fala das obras:

    "Dias passados, estando Bartolomeu de Gusmão na capela real, veio o italiano falar-lhe. Trocadas as palavras de primeira circunstância, saíram por uma das portas que, debaixo das tribunas do rei e da rainha, davam para a galeria por onde se entrava no palácio. Para lá e para cá discorreram. (...) Em tom que facilmente dava a entender não ser essa a matéria importante que ali se iria tratar, disse Domenico Scarlatti ao padre, El-rei tem na sua tribuna uma cópia da basílica de S. Pedro de Roma que ontem armou na minha presença, foi para mim honra grande, Com que a mim não me distinguiu nunca, (...), Dizem-me que el-rei é grande edificador, será por causa disso este seu gosto de levantar com as suas próprias mãos a cabeça arquitectural da Santa Igreja, ainda que em escala reduzida. Muito diferente é a dimensão da basílica que está a ser construída na vila de Mafra, gigantesca fábrica que será o assombro dos séculos. Como se mostram variadas as obras das mãos do homem, são de som as minhas, Fala das mãos, Falo das obras, tão cedo nascem logo morrem, Fala das obras, Falo das mãos, que seria delas se lhes faltasse a memória e o papel em que as escrevo. Fala das mãos, falo das obras."

      Das mãos se fala a propósito da composição musical nascida de um cravo, do amor natural sinalizado com o sangue que nos alimenta, dos sonhos que nos fazem voar em direcção ao desejo, das pedras erguidas que cimentam a memória, da construção narrativa de um romance.

Reprodução do discurso nobel de Saramago (1998) - a propósito de Memorial do Convento (1982)

     Há obras que se afirmam pela sua singularidade: Memorial do Convento é exemplo disso no estilo de escrita, no conteúdo profundamente humano das histórias que propõe, na visão da justiça e da humanidade que ingredientam um Quinto Império (espiritual, cultural, humanista) que só algumas personagens têm hipótese de construir, na verdade e sinceridade que vivem e sentem.


sábado, 23 de maio de 2009

Dos ecos camilianos em Saramago

     Ainda a propósito da visita de estudo a Mafra.
     Do velho se faz novo; do antigo, o moderno - a inovação relativa.

     A sensação das palavras já lidas, a das ideias comuns, a das que se desconstruem são alguns dos reflexos desse conceito já conhecido da intertextualidade: “(...) todo o texto se constrói como mosaico de citações, todo o texto é absorção e transformação de um outro texto.”[KRISTEVA, Júlia (1974: 64) in La Révolution du langage poétique - L’Avant-garde à la fin du dix-neuvième siècle: Lautréamont et Mallarmé]

       Num encontro de amigos, há cerca de um ano, os olhos pairavam pelas lombadas de livros protegidos por capas de relevo, letra dourada e papel tipo pele de cobra. Autoria (à moda gráfica da altura, conforme consta no interior do livro): Camillo Castello Branco. Folheada uma obra intitulada Mosaico e Silva, de Curiosidades Historicas, Litterarias e Biographicas (Porto, Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, sem data), lia-se:

     "Um dia encontraram-se no paço o bispo D. Nuno da Cunha e o franciscano fr. Antonio de S. José. 
     O bispo capellão-mor disse ao frade:
     – V. Reverencia encommende a Deus S. Ma­gestade para que lhe dê successão. El-rei nosso senhor anda triste, porque a rainha nossa senhora lhe não dá filhos.
     O servo de Deus respondeu:
     – El-rei terá filhos, se quizer.
    O fradinho sahiu. E o bispo inquisidor, reflec­tindo na resposta mysteriosa de fr. Antonio, per­guntou ao marquez de Gouveia:
    – Que conceito faz da virtude d'este arrabido?
    – Tamanho, que o fiz padrinho d'um filho meu.
    – Oh! – exclamou o futuro cardial.
    Volvidos dias, tornou D. Nuno da Cunha a encontrar-se com o frade e a perguntar-lhe o sen­tido latente da sua resposta. O arrabido pôz os olhos no céo e disse:
   – Prometa el-rei a Deus fazer um convento na villa de Mafra, que logo Deus lhe dará succes­são. Dito e feito, feito quero dizer não o convento, mas o fruto desejado. No mesmo anno de 1711 deu a rainha à luz uma menina."

     Ecoavam, na mente, as palavras lidas em Saramago:


     "... D. Nuno da Cunha, que é o bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Entre pas­sar adiante e dizer o recado há vénias complica­das, floreios de aproximação, pausas e recuos, que são as fórmulas de acesso à vizinhança do rei, e a tudo isto teremos de dar por feito e expli­cado, vista a pressa que traz o bispo e conside­rando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João V e o inquisidor, e este diz, Aquele que além está é frei António de S. José, a quem, falando-lhe eu sobre a tristeza de vossa majestade por lhe não dar filhos a rainha nossa senhora, pedi que encomendasse vossa majesta­de a Deus para que lhe desse sucessão, e ele me respondeu que vossa majestade terá filhos se quiser, e então perguntei-lhe que queria ele sig­nificar com tão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhos quer vossa majestade ter, e ele respondeu-me, palavras enfim muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar um con­vento na vila de Mafra, Deus lhe daria sucessão, e tendo declarado isto, calou-se D. Nuno e fez um aceno ao arrábido.
       Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de di­zer-me sua eminência, que se eu prometer levan­tar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a ver­dade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respon­deu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim as­segurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disse­ram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa da rainha."

     Não fosse o bastante, surgia novo passo de Camilo:

    "Ora, se o leitor quer vêr que nem piedade, nem generoso estipendio explicam o prodigioso afan n'aquelles treze annos de incessante traba­lho, leia uma carta, inédita que um dom abbade benedictino escrevia a outro respondendo ao convite de irem com a côrte assistir á sagração da basilica em 22 de outubro de 1730. Esteve a carta archivada em Tibães até que o cartorio se desfez e espalhou. Lá guardavam os frades esta pagina do «jornal opposicionista» d'aquelle tem­po. Frades eram então os politicos, os obreiros clandestinos das objurgatorias á laia d'esta. Jus­tos ou injustos, imitantes dos modernos, aquelles publicistas ineditos lavraram os seus protestos diante da posteridade. Por isso ficaram, e for­mam hoje a historia. Se os atirassem aos prelos e os divulgassem ás paixões do dia, chegariam até nós sem força nem preponderancia na balança do bom e mau do seculo passado. Mas o peor para o frade, certo, não seria o descredito do seu artigo de opposição, caso algum editor lh'o es­tampasse. É bem de crêr que lh'o trasladassem para as costas a ferro em brasa, se á noticia do corregedor do bairro chegasse a seguinte carta:

     «Meu amigo e snr. V. R. me convida para esta galhofa de Mafra [...]
   «Finalmente, meu amigo, para vêr Mafra não é necessario ir a Mafra; por que ella por nossos peccados está em toda a parte do reino; pois não haverá n'elle pessoa que não tenha tomado entre dentes a Mafra, e a não traga atravessada na gar­ganta e coração... No nome de Mafra temos des­coberto o enigma. Vamos tirando a mascara. Re­pare bem que se compõe Mafra de cinco letras que todas denotam a nossa perdição. Denota o M que seremos mortos; o A – assados; o F – fundidos; o R – roubados; e o ultimo A – arras­tados. E, se assolados, roubados, fundidos, ar­rastados e mortos são os termos a que nos acha­mos reduzidos, por pratica e experiencia de jus­tiça, estamos obrigados a dizer mal de Mafra e desterral-a; pois desde o diluvio universal esteve reservada no calcanhar do mundo para ser o di­luvio universal d'este reino.
     ..............................................................................
   «Não posso, meu amigo, alcançar o odio que tem o rei aos seus vassallos, nem em que dege­nerassem para ser desherdados d'aquelle agasa­lho que mereceram aos reis seus predecessores; porque na constancia do soffrimento e lealdade dos affectos não os há mais dedicados. O certo é que este abatimento é disposição para nos fazer apostatar da lei, para o que é já princípio esta af­fectada quebra com a séde apostolica e serão os fins a mesquita de Mafra, onde por peccados nossos veremos as ceremonias da lei escripta. Deus nos dê da sua graça e tenha de sua mão para que não desesperemos da salvação e a V. R. dê luz para se retirar de vêr Mafra á qual eu não chamarei templo de Deus, mas sim espelunca de ladrões. E por não approvar o que não póde ser do agrado de Deus, não quero ir a Mafra etc.»

        E não continha mais a insolente carta do dom abbade benedictino."

      Novo eco em Saramago:


     "Fazem alto os quadrilheiros, para que desta eminência possam os trazidos apreciar o amplo panorama no meio do qual vão viver, à direita o mar onde navegam as nossas naus, senhoras do líquido elemento, em frente, para o Sul, está a famosíssima serra de Sintra, orgulho de nacio­nais, inveja de estrangeiros, que daria um bom paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa, e a vila, lá em baixo na cova, é Mafra, que dizem os eruditos ser isso mesmo o que quer dizer, mas um dia se hão-de rectificar os sentidos e naquele nome será lido, letra por letra, mortos, assados, fundidos, roubados, arrastados, e não sou eu, simples quadrilheiro às ordens, quem a tal leitu­ra se vai atrever, mas sim um abade beneditino a seu tempo, e essa será a razão que tem para não vir assistir à sagração da bisarma, porém, não antecipemos, ainda há muito trabalho para aca­bar, por causa dele é que vocês vieram das lon­ges terras onde vivíeis, não façam caso da falta de concordância, que a nós ninguém nos ensinou a falar, aprendemos com os erros dos nossos pais, e, além disso, estamos em tempo de transi­ção, e agora que já viram o que vos espera, si­gam lá para adiante, que nós, ficando vocês en­tregues, vamos buscar mais."

     Quem diria: Saramago, o habitante de Lanzarote, não renegou os seus. Leu o romântico Camilo, que o inspirou naturalmente para a produção dessa obra-prima composta pela farsa palaciana, pela epopeia do trabalho bem como pelo domínio da virtuosa e virtual espiritualidade que faz dos homens mais humanos.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Morto, Assado, Fundido, Roubado, Arrastado... MAFRA

    Nova visita de estudo ao Palácio, Basílica e Convento de Mafra, com o 12º ano.

    Nunca o topónimo foi tão certeiro quanto ao sentido que um abade beneditino propôs para a palavra: morto (digo eu: de cansaço), assado (digo eu: pelo calor humano), fundido (digo eu: felizmente, com e num grupo de gente boa), roubado (digo eu: do descanso merecido), arrastado (digo eu: pela vontade de rever um espaço feito romance).

Fachada da Basílica e do Palácio de Mafra

     Certo de que não foi este o sentido para cada palavra nos tempos beneditinos, surge ele reinventado pela motivação que nos conduziu ao encontro com essa "brutidão de mármore", mandada construir pelo freirático rei (D. João V); um edifício setecentista que ecoa as palavras e as ideias contemporâneas de um autor, de um narrador, de um homem "levantado do chão" à qualidade de um Nobel.
   Uma visita excepcionalmente guiada, seguida da encenação de Memorial do Convento, ambas a convocar a leitura das páginas do livro de Saramago, pela extensão que o oral tem aí de representado.
    Tudo se faz da vontade e do sonho que alimentam a intriga da obra, numa mensagem universal. À data da publicação (1982), Bartolomeu Lourenço diz a Blimunda que serão necessárias duas mil vontades para a passarola voar; à data da leitura que compõe os nossos dias, diria que são precisas três mil.
                                                                                Capa da primeira edição da obra (1982)

     Cumpram-se as megalomanias de um homem; sacrifiquem-se os homens; inaugurem-se as obras por concluir; divorcie-se o amor natural e puro, a vida feliz e o progresso da ciência, por um lado, da absolutização do poder de um pequeno grupo, da cegueira da fé, da máscara ou farsa cortesãs, por outro. Assim se recria e questiona a História, o ciclo da vida.

   Houvesse vontade e sonho e os universos alternativos seriam possíveis: as passarolas voariam, as mãos e as pedras seriam o infinito um, o amor seria tocado pelo espírito da naturalidade e da sinceridade.

      Um dia que muitos tiveram a vontade de que tivesse sido mais (o infinito). Fica o registo para memória do tempo e das pessoas que partilharam esta experiência. Fica o sonho de um tempo diferente - condição natural a que o Homem aspira.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Uma língua universal... a música

    Houve já quem dissesse que "não se ama alguém que não ouve a mesma canção".

    Seja porque o amor se encontra na canção seja porque esta lhe abre a porta dos sentidos, a gramática que procura essa cor da vida encontra-se nos actos, nas palavras, nos sons que nos invadem - nessa zona do mapa do sentimento.

Vídeo RTP com o espectáculo de Simone no Coliseu

                IOLANDA 

Esta canção não é mais que mais que uma canção
Quem dera fosse uma declaração de amor
Romântica sem reparar na justa forma
Do que me vem de forma assim tão caudalosa
Te amo, te amo
Eternamente te amo

Se me faltares nem por isso eu morro
Se é pra morrer quero morrer contigo
Minha solidão se sente acompanhada
Por isso às vezes sei que necessito
Teu colo, teu colo
Eternamente teu colo

Quando te vi sabia que era certo
De quem me sentiria descoberto
A minha pele vais despindo aos poucos
Me abres o peito quando me acumulas
De amores de amores
Eternamente de amores

Se alguma vez me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo que tu me ensinaste
Olho teu rosto e digo à ventania
Iolanda, Iolanda
Eternamente Iolanda

Iolanda
Eternamente Iolanda
Eternamente Iolanda

   Uma simples música pode falar mais do que qualquer língua, casando vozes numa "declaração de amor".

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Dúvida... com desafio linguístico

       Voltemos às classes de palavras.

      Q: Na consulta de várias gramáticas, já encontrei 'como' com classificações diferentes. Afinal, é um pronome ou advérbio?

      R: A classificação de uma palavra varia conforme o contexto em que ela é empregue; desde logo segundo o posicionamento que tem ao nível do sintagma.
        O caso de 'como' é polivalente: pode ser advérbio, conjunção (de diferentes naturezas), nome. Não lhe reconheço dominantemente a categoria de pronome, por ser um termo que normalmente não substitui nenhum nome ou grupo nominal - excepção para construções do tipo 'Aprecio o modo como ele escreve', com o termo a funcionar, neste exemplo, num processo de retoma anafórica relativamente ao antecedente 'o modo'.
       Comummente, no contexto de frases de tipo interrogativo, acaba por se assumir como constituinte interrogado para respostas traduzíveis por advérbios ou expressões adverbiais (ex.: Como estás? > Bem, mal, mais ou menos / Como fizeste isso? > Assim, deste modo). Nestes casos, trata-se de um advérbio interrogativo. Similarmente, o advérbio exclamativo é o que se pode encontrar em frases do tipo 'Como chove!', 'Como é difícil educar!'
         De resto, 'como' pode ser ainda uma conjunção subordinativa comparativa (ex.: A interpretação feita está clarinha como a água), causal (ex.: Como Narciso viu a sua figura, perdeu o siso), conformativa (ex.: Como fizeres, serás punido ou recompensado); um advérbio relativo (ex.: O aluno perguntou ao professor como se resolvia a equação); um nome (ex.: 'Como' é uma palavra polivalente).

     Esta é a capacidade camaleónica das palavras: conforme a cor do contexto, o tom da classificação! Por isso, insisto em dar cor aos alunos.

Dúvidas... com desafio linguístico já conhecido

       Um pouco na sequência de uma outra questão que já apontava para este problema, recupera-se a complexidade da sintaxe.

       Q: Na frase: «Por aí, deixámo-nos fascinar por algumas raras personagens que, pela qualidade do que pensam...», «nos» tem função sintáctica de c. d. (complemento directo) ou de c.i. (complemento indirecto)?

      R: Trata-se de uma questão bastante complexa, implicando o trabalho com noções de subordinação, reflexividade, transitividade verbal e causatividade.
       Centro-me na abordagem do núcleo informacional proposto: ‘...deixámo-nos fascinar por algumas raras personagens’. Este corresponderá a uma sequência não pronominalizada do tipo ‘deixámos as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens’. Isto significa que, da sequência subordinante ‘(Nós) deixámos’, se parte para uma subordinada não finita infinitiva: ‘as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens’. No fundo, há uma oração ou frase superior (subordinante), com sujeito nulo subentendido [nós] e um predicado [deixámos X]; este último, com o núcleo verbal [deixámos] e o complemento directo X [correspondente a uma sequência frásica dependente: 'as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens']. Este não deixa de ser também ele constituído por um sujeito [as nossas próprias pessoas] e um predicado que integra um complemento oblíquo [fascinar por algumas raras personagens].
       Por esquema, dir-se-ia que:

i - Sequência superior (subordinante)
     a) Sujeito (nulo subentendido): Nós;
     b) Predicado: Deixámo-nos fascinar por algumas raras personagens;
  c) Complemento directo: ‘nos fascinar por algumas raras personagens’ (cuja realização não pronominalizada seria ‘as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens’);

ii - Sequência dependente (subordinada)
     a) Sujeito: as nossas próprias pessoas;
     b) Predicado: fascinar por algumas raras personagens;
     c) Complemento oblíquo: por algumas raras personagens.

       A partir daqui, a construção pronominalizada é explicada da seguinte forma: as sequências superiores marcadas por verbos causativos (como mandar, deixar, fazer) seguidos de uma completiva com sujeito lexicalmente marcado (neste caso, 'as nossas próprias pessoas') obrigam este último, ao assumir a forma de pronome clítico, a ligar-se ao verbo da sequência subordinante e não da dependente ou subordinada. Trata-se da chamada ‘subida de clítico’. Está aqui também parte da lógica causativa: SUJ causador (nós) + V causativo (deixámos) + CD obj/acontecimento (as nossas próprias pessoas fascinar por algumas raras personagens). Desta forma, é admissível a construção pronominal com ‘-nos’, configurando-se o sujeito da subordinada como parte integrante do CD da subordinante.
      É um bom exemplo do que Tesnière, na perspectiva de uma gramática de valências, considera ser a “diátese causativa”.
        Resta dizer que '-nos', neste caso, nunca poderia ser um complemento indirecto por duas razões:
      a) a realização pronominal está marcada pela natureza da reflexividade ([nós] deixámo-nos fascinar = [nós] deixámos as nossas próprias pessoas fascinar), com comportamento de CD;
      b) numa eventual transformação da frase e do pronome para contexto de terceira pessoa, não seria utilizada a forma "lhe(s)", mas sim "-lo(s)" ['deixámo-lo(s) fascinar por...'] - o que prova que estamos perante uma realização mais próxima do acusativo (CD) e não do dativo (CI).

    Sintaxe a vários níveis de análise é um cuidado a assumir, sendo de destacar se a análise se centra ao nível matriz ou dependencial dos constituintes maiores.


segunda-feira, 18 de maio de 2009

À memória... de uma dor

    Há dias que nunca deveriam estar marcados no calendário: aqueles que, só por ironia, dão normalmente lugar à constatação da vida.

Ceifada a seiva que nos prende à vida,
Sobressalta a dor, perde o mundo a cor;
Esconde-se o sol num céu feito de nuvem;
Corre uma lágrima a rugar o rosto;

Há desamparo numa voz que grita;
Lê-se o silêncio perante o horror.
Pais e mães, por mais que chorem, enlutem,
Padecem de um sufocante desgosto.

Perder um filho: não ter o encosto
Para uma idade a lembrar o sol posto…
Apaga-se a luz,… infância ferida;
Estrada sem saída, alma perdida.

Possa o inoportuno fim dar
Tempo e doce lembrança ao verbo amar.

Gondomar, Maio 2009

      Para todas as pétalas que não possam ser flor, por lhes faltar o que as faça ser corola.

domingo, 17 de maio de 2009

Poderes da sétima arte… muito além / aquém dos livros

      A vontade de ver um filme é seguramente motivada pela obra.

    Melhor do que O Código Da Vinci, Anjos e Demónios vence quer enquanto livro quer enquanto filme. Esta foi a ordem de leitura dos romances, contrária à da publicação de ambas as obras nos Estados Unidos da América. Caso para dizer que, à data de publicação dos originais americanos e à primeira, se conseguiu algo melhor do que com a segunda, mesmo que esta última não desmereça o apreço do leitor.


   
    Com maior rapidez de acção e valorização de efeitos técnicos e cinematográficos, no filme fica, contudo, a sensação de faltar algo, particularmente para quem leu e apreciou bastante o livro. Diria que o ritmo da procura, da descoberta, da reflexão e das construções mentais para a resolução dos enigmas, a que o livro obriga, é pouco compatível com o do filme: demasiado rápido, por vezes alucinante, e limitado essencialmente ao visual.
     No final, a sensação é a de que algo mudou na história, o que aliás se confirma pela releitura da narrativa: a relação CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire) – Vaticano não surge tão bem articulada ou fundamentada; a explicação para o comportamento da figura do “camerlengo” sai menos desenvolvida; a evolução da trama centrada nos “preferitti” surge alterada (valorizando um mártir); o final do romance é substituído por um guião que menoriza a discussão ciência-religião, bem como a própria relação Robert -Vitória.
    Enfim, mais um filme baseado num livro… com alterações substanciais na história lida.
   O filme fica, portanto (e à semelhança do sucedido com O Código Da Vinci), muito aquém do romance. O ritmo do cinema é mais voraz, menos envolvente na descodificação das pistas, as quais são melhor acompanhadas e representadas pelo leitor (que parece participar mais proximamente da acção prioritariamente levada a cabo por Langdon) comparativamente ao espectador.

     Mais um caso para preferir a leitura, por mais que goste da arte cinéfila.


sábado, 16 de maio de 2009

Porque não há duas sem três...

     No Auditório Cardeal de Medeiros da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, houve oportunidade para partilhar mais uma reflexão sobre o ensino da gramática.



     Bastantes professores de Português, todos na ânsia de saber algo sobre os novos programas do ensino básico, na partilha de reflexões sobre formas e modos de ensinar, de avaliar. Muitos abordam os comunicadores nos espaços ditos de intervalo: algumas angústias, algumas dúvidas, algumas dificuldades. Traçar caminhos, ultrapassar angústias, orientar para uma formação contínua responsável e séria, constatar a necessidade de pesquisar, de estudar, de saber mais.
    À lógica de experiências e comunicações já apresentadas, regista-se e recorda-se o que foi uma síntese do meu contributo, desta feita mais prolongado no tempo de comunicação. Destaque para tópicos de conversa centrados:
a) nos novos programas e na adopção de manuais escolares;
b) no Dicionário Terminológico (entendimento, funcionalidade, aplicação ao ensino);
c) em práticas de escrita e de ensino da gramática (articulação, gestão temporal, avaliação de desempenho e algumas evidências na progressão e evolução de competências dos alunos).

     Um (re)encontro sempre atento às necessidades docentes e a partilha de convicções, crenças, pistas de trabalho acerca do que o presente anuncia como futuro, não obstante alguns imponderáveis no trajecto e a consciência de que muitas questões colocadas se centram em tópicos que não podem ser tomados como novos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Por falar em (re)lembrar... a infância inocente

      Era o tempo em que as brincadeiras, os heróis dos desenhos animados não faziam crer no que o futuro, hoje tão presente, traria.

      João e Maria
    ... título de um conto tradicional, numa versão de 'Hansel e Gretel' (este último recolhido pelos irmãos Grimm);
     ... título para a letra de uma canção composta por Sivuca e Chico Buarque.
     Era o tempo de ouvir uma canção na inocência do(s) tempo(s) vivido e imaginado.


       Sabia lá eu que a combinação do "Agora" com o "era" seria o ingrediente linguístico necessário ao jogo, à ficção, à transposição; que a coordenada da enunciação narrativa (o 'Era uma vez...', 'Havia um tempo...', 'Há muito tempo havia...') se instituiria com um pretérito imperfeito analogamente funcional (na dimensão do pretérito e/ou no plano da transposição ficcional, pela construção de mundos alternativos) a um presente assumido como a coordenada de tempo associado ao instante do imediato, da actualidade e dos actos que se radicam ao presente da fala.

        JOÃO E MARIA

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três

Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock
para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido

Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
P’ra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

        O que eu agora sei está distante, bem diferente do "agora eu era..."

        Volto à música... "o que é que a vida vai fazer de mim?"

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Relembrando Campos, na angústia

      "Esta velha angústia" data de 16/6/1934, pouco tempo antes de Pessoa falecer.

    Dizem que é um exemplo de escrita poética da terceira fase, mais intimista, própria desse heterónimo pessoano moderno e vanguardista que, depois da euforia, da dinâmica, da força e da pujança, assume a sua limitação humana, a "disforia" ou a "avaria da máquina". Nenhuma aguenta ser puxada ao excesso, ao limite, à totalidade.
       Outros intitulam essa fase como a do "engenheiro aposentado".

Ouvir a angústia custa..., mas aprende-se, pelo menos, a evitar o "Estala, coração de vidro pintado"

      Por mim, continuo a achar que também pode ser a fase de qualquer ser humano a atingir a saturação, o desconforto, a vontade de largar "as rédeas", "o volante e o pedal"; aquela em que se sente também a máquina à deriva, em descontrolo, prestes a espetar-se contra uma parede ou a dirigir-se para um declive.

      Será a realidade um modelo inspirador para a literatura ou será a literatura um modelo a considerar para a realidade? Prefiro ver na segunda hipótese um aviso "poético", para que qualquer real vivido não se torne na amargura de muitos. Também há cirurgias estéticas para as "velhas angústias".

domingo, 3 de maio de 2009

A bem da variação... e das variedades

     Um pequeno poema, é certo, para um grande poeta, um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil.

       Data de 1925, publicado num livro intitulado Pau-Brasil - Poesia (S. Paulo, Globo).


pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Oswald de Andrade, in Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século,
sel. Italo Moriconi, Rio deJaneiro, Edição Objetiva, 2001, pág. 35

     Linguisticamente falando, a variação é aqui uma questão de posição: da ênclise do Português europeu à próclise no Português do Brasil. Não deixa de ser também um motivo literário, uma afirmação de singularidade, voz(es) para uma língua que se afirma pela sua multiplicidade.

      E tudo isto logo para mim, que não fumo!

sábado, 2 de maio de 2009

Um passado bem presente a dar futuro

      Assim se exprimia o nosso Álvaro de Campos: "Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina!" (Ode Triunfal)

    Afinal, por que razão não substituem o Homem por uma máquina? Querem tanta quantificação, tanto resultado, sem olhar a pessoas, a tempos e a meios!
      Denis Kaufman, sob o pseudónimo Dziga Vertov, foi o cineasta russo que nos deixou "O Homem com a máquina de filmar" ('Man with the Movie Camera', de 1929) - uma espécie de alerta sob a forma de cinema mudo, similar ao que George Orwell (em 1948 e no romance Nineteen-Eighty Four), relembraria e inspiraria com o seu "Big Brother is watching you". Ao contrário deste escritor, o totalitarismo denunciado por Vertov não é (apenas) o da política: é o do triunfo da máquina na vida do Homem ("I am the machine that reveals the world to you as only I alone am able to see it.") a ponto de o substituir.



      Eis o prazer dos que observam quando, afinal, são os observados! Oferecer aquilo que dá prazer, e faz rir, não pode deixar esquecer como se pode estar ao mesmo tempo a destruir, a anular, a alienar o que de mais humano há! Esta é a lição que uma máquina de filmar torna mais visível, ainda que para muitos tal permaneça invisível. Nem a caixa, a lembrar Pandora (abre para deixar sair o mal, fugindo de cena), parece servir de aviso: a máquina que dela sai circulará pelo mundo, captando a realidade que alguns gostarão de observar até que descubram que eles mesmos - os espectadores - estarão na sua mira.
     Na década de 20, no século XX assim se deu a ver. E nós, no século XXI, mantemo-nos esquecidos de um passado que, afinal, já nos mostrou o nosso presente a dar futuro.



    Acaba por angustiar tanta dinâmica, tanta sede, tanta ânsia... tanta cidade, tanto sinal de civilização.
       No meio de tanto cansaço, relembro e fico-me por outros versos de Campos, bem mais conscientes das limitações e fragilidades humanas:

"...
Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
Senti de mais para poder continuar a sentir.
Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim.
Decresce sensivelmente a velocidade do volante.
Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos.
Dentro de mim há só um vácuo, um deserto, um mar nocturno.
..."

(Ode Marítima)

      Entre a força e a máquina de tudo 'ter que fazer', sinto-me sem o tempo, sem o espaço ou sem o ego do 'querer fazer'. Não quero ser a máquina em que me estão a tornar. Até porque ela, por certo, de tanto trabalhar e forçar, não deixará de avariar.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dia do trabalhador... quero ser cigarra!

Parece desabafo... pelo "inverno no nosso coração".

De vez em quando é bom "pedir uma música para cantar", pois, assim o diz o saber popular, quem canta seus males espanta.
É ainda o desejo de recriar a fábula de La Fontaine, fazendo com que efectivamente a formiga seja "a melhor amiga da cigarra".



Porque você pediu uma canção para cantar
Como a cigarra arrebenta de tanta luz
E enche de som o ar;

Porque a formiga é a melhor amiga da cigarra,
Raízes da mesma fábula que ela arranha,
Tece e espalha no ar;

Porque ainda é inverno em nosso coração,
Essa canção é para cantar
Como a cigarra acende o Verão e ilumina o ar.

Zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi ...
zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi zi .


Milton Nascimento

Não há vontade nem forças para dançar!
Esperemos por melhores dias, deliciados entre a singeleza e a simplicidade, o zunido e o ciciar desses irmãos do Brasil que nos vão desvelando alguma da alegria que se dissipa.