Mostrar mensagens com a etiqueta Eça de Queirós. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eça de Queirós. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Essa é à Eça!

     Verdade ou não, assim se lê no Facebook.

     Mudam-se os nomes e acho que já li isto algures:  
 


    Fosse Carlos Eduardo e Maria Eduarda, creio que estaríamos perante mais um dos "Episódios da Vida Romântica" a (re)visitar com a leitura de Os Maias, de Eça de Queirós. É verdade que ambos não tiveram descendência, como diz a imagem; contudo, não deixaram de praticar o que lhe dá origem, no sentido pleno de "filhos". 

     Se a fonte do TVI-IOL for credível, afinal, Eça mantém-se contemporâneo. E não só pelo tópico das relações incestuosas. Garanto!

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Voltando a Aveiro, com Eça e/ou os Queirós

      O dia foi vivido em grupo (grande grupo), com saber, sabor e arte.

     Rumo à Veneza portuguesa, foi-se ao encontro de Eça e das pistas que a família Queirós deixou pela cidade, aquela que se diz ser "lugar das aves" (etimologicamente, 'aviarium').
      O ponto de encontro na Escola Secundária com 3º Ciclo Dr. Manuel Laranjeira refez-se, passada meia hora, na padaria / pastelaria Eça de Queirós, com alguns participantes que aí se juntaram ao convívio. A propósito, lá figura um painel azulejado, com um pequeno trecho de O Primo Basílio (1878): 

"Servia-se muito, com gula; 
depois picava um bocadinho da ponta do garfo, deixava, 
punha-se a comer côdeas de pão 
que barrava de manteiga". 

Na rua Capitão Lebre, na Pastelaria Eça de Queirós, há um painel com citação de O Primo Basílio (Foto VO)

      Na gula, coube um docinho a acompanhar o cafezinho.
   Roteiro na mão, organizado e inspirada e queirosianamente mente produzido pela professora Adélia Reis, o grupo preparou-se para a caminhada. À hora de pagar, veio a pergunta ao empregado do balcão: "Porque é que esta pastelaria tem o nome Eça de Queirós?" A resposta não tardou, apenas com algo de certeira e uma certa marca de familiaridade no trato: "Acho que o Eça morou para estes lados e a rua tem qualquer coisa a ver com ele". Não diretamente, porque na rua Capitão Lebre se localizava - nome caricato para António Tavares Lebre, figura influente local e nacional, um oficial do exército que, na primeira metade do século XX, marcou a vida social de Verdemilho (de que as romarias religiosas eram exemplo e, diz-se, alguma investigação para provar as andanças de Eça por estas paragens, nomeadamente a presença da então criança em Aveiro). 
   É nesta localidade que se situa a "Quinta da Torre", onde Eça passou alguns anos da sua meninice. Há quem o refira como o solar do avô Queirós (o conselheiro e desembargador José Joaquim de Queirós); melhor, contudo, é falar do que resta dessa propriedade: uma fachada velha e degradada do que foi um palacete brasonado, resistindo à desamparada queda final e ainda disputando, com a Torre da Lagariça, o 'locus' inspirador para A Ilustre Casa de Ramires (1900); e talvez o espaço de infância de Carlos n'Os Maias (1888) ou mesmo a memória e o retrato criativos do jacobino e liberal avô Afonso da Maia. 

Por terras de Verdemilho, na busca de vestígios da presença queirosiana (Fotos e montagem VO)

       Junto a um posto de gasolina da Prio, no limite da Avenida Europa, uma rotunda tem no seu centro um monumento ao escritor realista-naturalista, com a cabeça empalada num pilar, um brasão estilizado da família e um excerto do pensamento transcrito das Notas Contemporâneas (publicação póstuma, 1909)): "A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da Terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas". Ironia desta peça de arte: colocar a cabeça do neto como esteve quase para ser a do avô.
       Chegados a Aradas, no cemitério onde se encontra o jazigo do conselheiro José Joaquim de Queirós, percebe-se a singularidade de um monumento fúnebre, por comparação aos circundantes: a ausência de símbolos católicos, cristãos. O espírito e a atuação de quem escapou a uma pena de morte atroz (exilando-se em Inglaterra e regressando com os liberais chegados ao Mindelo) fazem com que a luta contra os miguelistas estivesse mais para os valores e ideais revolucionários, progressistas e maçónicos do que para uma tradição e um conservadorismo religiosos fortes. Fosse por reservas aos primeiros ou por convicção nos segundos, a hipótese de trasladar Eça para a terra do avô parecia requerer um outro lugar de paz, talvez um mausoléu para a nova família constituída pelo casamento, em 1886, com Emília de Castro Pamplona Resende, com quem teve quatro filhos (Alberto, António, Maria e José Maria). A  gosto ou a contragosto de alguns familiares, e da finitude da vida, tal não viria a acontecer e os restos mortais do escritor conheceram as sepulturas de Neuilly, do Alto de São João, de Santa Cruz do Douro (Baião-Tormes) e, por fim, de Santa Engrácia (Panteão Nacional).
      Nas imediações da universidade de Aveiro, a Quinta do Alboi ou dos Santos Mártires foi espaço visto e evocado a partir dos encontros e das práticas maçónicas em que o avô de Eça se viu envolvido, enquanto comandante do Batalhão de Caçadores 10. Perante a tentativa falhada de revolta em maio de 1828, o que conduziu José Joaquim de Queirós para o exílio (evitando-se a condenação à morte pelos miguelistas, com enforcamento, decapitação e exposição pública da cabeça em estacas frente às casas dos capturados), fica a Capela dos Santos Mártires como símbolo de uns mártires religiosos (S. Veríssimo, Máxima e Júlia, romeiros sacrificados nos tempos das perseguições de Diocleciano) que, por extensão, passam também a representar os condenados e revoltosos liberais ou os mártires da Liberdade.
       Após o almoço, junto à ria e no Centro Cultural e de Congressos, chegou a vez da Costa Nova e do palheiro de José Estevão, pai de Luís de Magalhães - grande amigo de Eça. Aí se ia a banhos e aí também foi tratado o casamento do escritor com D. Emília, uma vez que a família Resende também frequentava a Costa. Em carta à já esposa, quando esta e as crianças se encontravam de férias no local e Eça em Paris, refere-se o local: "(...) a Costa Nova - e eu considero esse um dos mais deliciosos pontos do globo. É verdade que estávamos lá em grande alegria e no excelente chalé Magalhães" (escrito de 1883, publicado em Eça entre os seus - Cartas íntimas). O conhecimento do espaço vinha também já das vivências aí mantidas com os avós, a ponto de, em carta a Oliveira Martins (1884), Eça assumir-se como "filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe na ria". Com previsível palheiro próprio ou não, deste último já não restam provas. Fiquemo-nos, portanto, pelo do amigo, logo à entrada, frente à atual marina.
      Última paragem em hotel de luxo: o palacete Valdemouro, hoje Hotel MS Collection Aveiro, um dos mais requintados edifícios oitocentistas da cidade onde viveu a família Queirós. Tornado hotel literário na conhecida "rua Larga" (hoje rua José Estevão), fica o que dizem ter sido morada, nomeadamente, do pai de Eça e da tia Anna Emília. Verdade ou não, nele encontram-se quartos temáticos relacionados com personagens queirosianas, uma sala de receção e de estar com múltiplos sinais da vida e obra do autor (alguns dos quais cedidos pela casa de Tormes), mais um mural com o rosto de Eça (a instalação de arte urbana "Essa é que é Eça", da autoria de Vhils, o graffiter e pintor Alexandre Farto). Entre café, água e limonada, num breve instante de repouso, cumpriu-se um momento de tertúlia inspirado na escrita, no pensamento do escritor e nas vivências na cidade. Pedidas as desculpas pela animação não preparada, mas oportuna e justificada, findou-se a interação com a sugestiva expressão "Ora essa!"

Palacete de Valdemouro, na rua José Estevão (Fotos e montagem VO)

      Fosse Sintra e não nos esqueceríamos das queijadas; sendo Aveiro, lá fomos aos ovos moles, em receita com mais de cinco séculos criada pelas freiras do Convento de Santa Joana (a padroeira) e que, nas palavras de Aquilino Ribeiro, são "Os miríficos e celestiais ovos moles, uma das melhores descobertas de Portugal, depois da Índia". Bons momentos merecem ser prolongados e recordados com um docinho.
        

domingo, 5 de outubro de 2025

Eça aveirense, de afeição.

    Polémicas à parte quanto ao local de nascimento do escritor (disputado pela Póvoa de Varzim e por Vila do Conde), Aveiro não deixa de ter pistas da presença queirosiana.

    Numa recente passagem pela Costa Nova, encontrei uma placa onde se lê um excerto da correspondência epistolográfica de Eça, evocando a experiência vivida no palheiro de José Estevão (tribuno oitocentista), propriedade de Luís de Magalhães (filho do tribuno, também dono da Quinta do Mosteiro, em Moreira da Maia, e um grande amigo de Eça). 
    Nesse "palheiro" (casa de praia) reuniam-se grandes figuras da época, nomeadamente as da Geração de 70.
Fachada do palheiro José Estevão (requalificado), na Costa Nova - foto in Fotobiografia de Eça de Queiroz
(de A. Campos Matos, Edições Caminho, pág. 150)

Placa azulejada à entrada do "palheiro" José Estevão (requalificado), na Costa Nova - Foto VO

     Segundo se lê na página 150 da Fotobiografia de Eça de Queiroz (da Caminho), em carta datada de 1884, a Joaquim Pedro Oliveira Martins, a proximidade e a afinidade a Aveiro (não necessariamente a naturalidade, assumidamente poveira, por informação da mãe, familiares e amigos) são evidentes, quando o nosso realista-naturalista se identifica como "filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quasi peixe de ria"; como alguém que não precisa que mandem ao seu encontro "caleches e barcaças. Eu sei ir por meu proprio pé ao velho e conhecido palheiro do José Estevão. Um telegramma, um mensageiro avisará o author de D. Sebastião [poema da autoria de Luís de Magalhães]". Eça via a Costa Nova como tempo de libertação, nomeadamente da escrita, ao não levar, por exemplo, as provas redigidas da sua prosa "para os areaes da Costa Nova", por não ser prático: "Ha lá de certo a brisa, a vaga, a duna, o infinito e a sardinha, cousas essenciaes para a inspiração: mas falta-me essa outra condição suprema, um quarto isolado com uma mesa de pinho". Perante as palavras citadas do autor de O Crime do Padre Amaro, percebe-se o seu entendimento enquanto "filho" da terra, pela aproximação, pela afeição e amizade, pelo prazer de lá estar. Tal não significa negar o "poveiro" que foi, tal como Luís de Magalhães o assegura a 12/10/1906, por escrito, a António Cabral, ou o próprio Eça o enuncia, a 14 /12 / 1880, em carta a Manuel Pinheiro Chagas, afirmando (ainda que ironicamente) "eu sou apenas um pobre homem da Póvoa de Varzim". 
      Outras proximidades com a Veneza portuguesa são as que colocam o neto junto do avô (o conselheiro liberal José Joaquim de Queirós) e do criado Mateus, na propriedade de Verdemilho (também conhecida como a quinta da Torre e que alguns tomam como a propriedade inspiradora para a A Ilustre Casa de Ramires), onde mergulham as raízes dos antepassados. O solar foi frequentado por Eça na infância (entre os três e os dez anos); hoje, resta desse espaço apenas uma fachada em elevado estado de degradação / destruição, depois de nele se ter instalado um armazém de botijas de gás.

Fachada do solar de Verdemilho - foto partilhada na internet por Carlos Braga

       Referencia-se, ainda a este propósito, uma notícia do funeral do escritor, na qual se admite que, após o enterro no "caveau" da igreja de Saint Pierre de Neuilly, o corpo aguardava a trasladação para Portugal, "parece" para terras de Aveiro (Aradas). A viúva, em carta de 17 de dezembro de 1932, a Luís de Magalhães, assim o sugere quando se lê "Eu desejava muito reunir o meu marido e o meu filho, foi o que me fez pensar no jazigo já existente ao pé de Verdemilho (…)”; a 15 de agosto de 1933, o amigo da família escrevia: “V. Exa. é que nos podia dar o prazer de ir passar uns dias à Costa Nova (…). Seria ocasião para irmos a Verdemilho e resolver-se, no próprio local, aquele assunto que tanto a preocupa”.
     Na sequência de tudo isto, e por extensão, também se diz que Aveiro surge como lugar de nascimento declarado na certidão de óbito do escritor. 
         Nem no nascimento, nem na morte.

      Alguém não o quis assim, para última morada. Independentemente de sinais que o autor possa ter dado a entender na sua obra, os restos mortais foram trasladados, por barco, para Lisboa, um mês depois do funeral, tendo sido depositados no cemitério do Alto de São João, até que, em 1989, a Fundação Eça de Queiroz se decidiu pela trasladação para Santa Cruz do Douro, em Baião (Tormes). A oito de janeiro deste ano, 125 anos depois do falecimento, o Panteão Nacional, sem menor polémica, recebe um homem cuja biografia e obra são excecionalmente ricas para o jornalismo, a diplomacia, a arte, a cultura e a literatura portuguesas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Momento do dia... aziago (sexta-feira 13)!

         Aquele momento em que estás a chegar a casa e parece que estás no estrangeiro!

      Não fugi por causa da sexta-feira 13 (não sou parascavedecatriafóbico). Em mais um dia de trabalho, no regresso a casa, deparo-me, numa rotunda à entrada da cidade, com um técnico a arranjar as luzes de... Xmas!

Uma rotunda "Xmas" entre as muitas que deixaram de ter "Feliz Natal" - (Foto VO)

     Lá se vai o Natal (feliz) e o Ano Novo (próspero). Digamos que, assim, o vocabulário fica muito mais internacional e sempre dá aquele toque de ser mais "chique" (porque no e do estrangeiro é que é bom)!
      Lembro-me, então, dessa figura ridícula e exibicionista que é a personagem Dâmaso Salcede, de Os Maias (1888). Nela depositou Eça de Queirós toda uma súmula de vícios - da mesquinhez, à mentira, à desfaçatez, ao provincianismo que a todo o momento faz "estalar o verniz". Tem como preocupação fulcral na vida o "chique a valer"! Arvora-se em galante e apreciador de tudo o que é requintadamente parisiense (ou francês). Não tem morada; tem 'adresse' (à Paris, bien sûre):

Representação de Dâmaso Salcede (cartoon)
     "Pois eu assim que posso, é direitinho para Paris! Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os anos, (...) até começo a andar doente. Aquele Boulevarzinho, hem!... Ai, eu gozo aquilo!... E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo... Tenho até um tio em Paris. (...) É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe, chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran..." 
         (cap. VI, Os Maias)

       Agora o novo-riquismo e os vícios nacionais do primeiro quartel do século XXI são mais para o inglês (ora o "british" ora o do "uncle Sam"). Não é Paris, mas será a terra de Sua Majestade ou os "eStates".

    Há por aí uns Dâmasos mais anglicistas que também acham a sua língua um "chiqueiro", a troco de um "Xmas" iluminado com as cores de um internacionalismo balofo! Tudo tão inchado, enchido e postiço! (E logo eu, que tenho uma costela anglófona).

domingo, 24 de novembro de 2019

Pontapés e futebol

         Só se fala do homem pelo grande feito futebolístico.

        Depois de conquistar a taça final dos Libertadores - principal campeonato de futebol da América do Sul, frente à equipa argentina do River Plate -, bem como o campeonato brasileirão, o Flamengo treinado por Jorge Jesus é equipa celebrada; Jesus, treinador endeusado.
      Na carreira ascendente ainda em terras lusas, a qualidade do treino não correspondeu à dos discursos. De tão comentado que foi pelo que dizia (mais propriamente pelos erros de fala cometidos), Jorge Jesus chegou a afirmar "Não sou Eça de Queirós" (como se alguma vez o tivesse de ser, para evitar tanto pontapé na correção da língua). Pelo que proferiu hoje, talvez devesse acrescentar que (também) não é Pedro Nunes ou, na forma alatinada, Petrus Nonius.
        É verdade que chegou ao Brasil, viu e venceu, qual Júlio César, mas não terá sido, seguramente, com cálculos matemáticos (muito menos os associados às medições do nónio):

Jorge Jesus, matematicamente falando

       Afirma-se como o catedrático do futebol. Na língua e na matemática está a precisar de aulas de apoio. Dezassete em dezasseis?! Dezassete mais dez (perdendo ou ganhando, tanto dá) resulta em dezasseis?!... E, portanto,... cerca de treze segundos de Matemática pura e... não percebi!

       Com exemplos destes, sublinham-se as múltiplas inteligências - nem todos temos as mesmas nem estão elas desenvolvidas da mesma forma. Jorge Jesus é grande no treino e na gestão desportiva, mas na língua e no cálculo..., portanto,... estou sem palavras!

sábado, 19 de janeiro de 2019

Aventura dos cinco

      Não se trata dos heróis infantis da Enid Blyton, não! Antes uns leitores adultos e bem queirosianos, reanimados pela Torre da Lagariça.
Rumo à Torre da Lagariça (Foto VO)
      O pretexto é a venda anunciada da Torre. Já que não pode ser comprada pelos próprios, estes vão ao encontro da que alguns dizem ser a torre inspiradora de Eça de Queirós para a construção de A Ilustre Casa de Ramires (AICR). Já sabem que não vão encontrar lá Gonçalo Mendes Ramires nem  o projetado romance, em dois volumes, centrado no antepassado ou "avoengo" Tructesindo Mendes Ramires. O imaginário romanesco queirosiano é motivo suficiente para juntar cinco amigos, fazê-los viajar pela zona norte de Portugal, dar umas gargalhadas e aproveitar um sábado chuvoso para ficar na história das respetivas memórias. Não há pretensão de escrita (pronto, talvez este singelo apontamento) nem intento genealógico e/ou político (como o de Gonçalinho); talvez o desejo de conhecer um pouco mais do país tão à mão, mas sempre tão ignorado na sua interioridade. No final, já se sabe que haverá muitas histórias para contar e recontar, acrescentar uma piada, brincar com as palavras e as situações - um pouco como nas narrativas que o protagonista queirosiano lê, revê e reescreve à medida que com elas se cruza.
     Do Porto a Baião, entre curvas e contracurvas, procurou-se esse defensivo e sólido torreão, essa "robusta sobrevivência do Paço acastelado da falada Honra de Santa Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meados do século X" (AICR, Lisboa, Edições Livros do Brasil, p. 6). Falar da casa de Ramires não parecia ser muito esclarecedor na busca de orientações; em contrapartida, a "Torre da Lagariça" já era tomada pela consabida tradição da marca da defesa da linha do Douro na época da Reconquista; aquela que, mais tarde, perdido o seu interesse e significado militares - com as fronteiras mais a norte - acaba, no século XVI, nas mãos da família Pinto (senhores da Torre da Chã e do Paço de Covelas, descendente de Paio Soares Pinto, que lutara ao lado de Afonso Henriques na Batalha de Ourique).
      Com a sua fachada granítica resistente ao tempo, lá se encontrava ela: a "famosa Torre, mais velha que Portugal" ou "a antiquíssima Torre (...) com uma pouca de hera no cunhal rachado" (AICR, ibidem) no seu formato quadrado e escuro, im-ponente, forte, a contras-tar com o fantasmagórico branco de uma decadência maior no solar anexo. Tal como o dissera uma habitante local, ao seu jeito popular e familiar, esta não tem lá ninguém. Mostra-se, na sua gran-deza, como testemunho histórico-literário da "fre-guesia de S. Cipriano, concelho de Resende, distrito de Viseu... e aqui estou eu".
    Um caminho rural estreito permitiu chegar mais perto. A densa vegetação envolvente, a invadir e bloquear o que foram acessos à casa e à torre, não impediu o calcorrear do miradouro, da muralha em torno do solar, nem a observação das fenestradas paredes de pedra típica nas fortalezas ameadas.
     Persistente, a chuva convidava ao abrigo nessas portas destruídas pelo tempo, a deixarem antever o que seria o espaço solarengo hoje abandonado. A vegetação desordenada, invasiva toma conta do vazio. O que foi um jardim torna-se tão natural quanto o tempo permite. Sobrevivem ali buganvílias entrelaçadas com silvas; folhas e ramos secos, mortos a par ou sobre tufos de musgo viçoso, com verdor.
     A resiliência dos  aventureiros (mais uns do que outros) resultou em registo fotográfico. Talvez, daqui a uns anos ou décadas, a imagem venha a ser diferente. Quem sabe - seria bom que assim não fosse - ausente.
       Hoje ficou esta:

Torre da Lagariça e o solar anexo (Foto VO)

      De regresso ao Porto, os cinco, sem que a imaginação os leve "sempre a exagerar até à mentira", vivenciaram uma viagem bem real, alimentaram o corpo e o espírito com o que de bom a vida também tem, sempre com "A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades..." - por ora diria que bastava resolver o interesse em preservar um espaço, uma memória cultural e histórica, um motivo literário do interesse e da especulação imobiliários, no respeito pelo "silêncio e doçura da tarde (...), pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras" (final de AICR, pág. 362).  
   

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Complemento... qual?

    Mesmo a fechar o período letivo, a sintaxe ainda é preocupação de alguém.

    A questão surge na pertinente constatação de que há realizações linguísticas que ultrapassam as situações mais comuns.

    Q: Professor, no conto "A Aia", de Eça de Queirós, aparece a seguinte frase: "A leal escrava a ambos cercava de carinho igual". Podia dizer-me a função sintática do sublinhado?

Capa do conto queirosiano (ilustração de E. T. Coelho)
  R: Trata-se de um complemento direto (CD), conforme se pode detetar pelo teste de pronominalização (> A leal escrava cercava-os de carinho igual), numa realização do verbo 'cercar' próxima de 'cobrir' (> cobria-os de carinho igual) e com a preposição 'a' - de "a ambos" - numa ocorrência facultativa.
   Por estranha que possa parecer a identificação desta função sintática, é de relembrar que o complemento direto admite contextos preposicionados. Além disso, é de sublinhar que um desses contextos vai ao encontro da própria caracterização da personagem 'aia' - marcada por uma perceção ou um entendimento sagrados quer relativamente aos seus senhores quer no que respeita ao próprio filho. O príncipe por ela salvo e o filho dela são as duas entidades referenciadas pelo pronome indefinido (correspondente ao uso pronominal de um quantificador) 'ambos', numa articulação clara do enunciado e do CD com um sentido religioso do tipo "Amar a Deus" (com "a Deus" igualmente a funcionar como complemento direto).
     Acresce ainda o facto de o teste da interrogação ([A] Quem é que a leal escrava cercava / cobria de carinho igual? > [A] Ambos) apontar para a conclusão atrás considerada (com a pronominalização), tal como a construção passiva viabilizar a colocação do complemento direto da frase ativa no sujeito da passiva (Ambos eram cercados / cobertos de igual carinho pela leal escrava).

     Na base deste esclarecimento, espero que esteja afastada a previsível noção de um complemento (o indireto), por, no caso, o sublinhado não poder ser substituído por "lhes" (na ocorrência de terceira pessoa).

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aluga-se quando há lugar...

     Pedem-me comentário a uma foto...

   Perante o que me é dado a ver, acabo a ler em voz alta, para a sonoridade da língua me ajudar a resolver o enigma gráfico:

(Foto partilhada por uma colega da área da matemática que me pede comentário. Assim seja!)

    Decifrado o texto, há criatividade suficiente na língua para se poder ultrapassar o desconhecimento e as limitações revelados quanto à convenção escrita. Na base de tudo fica a oralidade, a procurar pontes entre os sons e o reconhecimento de alguma reprodução destes naquilo que são registos escritos que os possam traduzir. Quando não se sabe, fazem-se aproximações "criativas" (lembro-me de uma aluna que leu tão atentamente 'Os Maias', de Eça de Queirós, que chegou ao ponto de escrever o nome do pai de Afonso como 'Queitano').
     Não obstante a tentativa (criativa, mas fracassada) demonstrada na foto, é preciso ainda adicionar outra problemática: a da interferência de alguma variação linguística no registo feito. O português de sonoridade vocálica aberta está mais para variedades não europeias da língua (como a do Brasil ou de África) do que para o que é dado a ouvir em Portugal. Aquele "Ha luga-se", inexistente na escrita, é uma aproximação ao que se ouve algum falante africano (ou mesmo falante nativo de uma língua estrangeira) produzir. 
    Resta juntar, a este dado, outros ingredientes como um défice de escolarização; uma inconsciência fonético-fonológica, lexical e ortográfica. Alguma história da língua também ajudava à correção pretendida, mas isso significaria ativar competências que, por mais importantes que também sejam para a justificação da escrita comum e socialmente reconhecida na correção, corresponderiam a um grau de desenvolvimento maior.

     ... e acabo a reconhecer a grande vontade / necessidade de comunicar com muita inconsciência à mistura.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Um filme para esquecer; um livro a rever.

         Os Maias é para ler. Sem mais.

        Há livros que não desmerecem os filmes que neles se inspiraram (lembro-me, por exemplo, de O Carteiro de Pablo Neruda, de Antonio Skármeta, e que Michael Radford dirigiu cinematograficamente). Por poucos que estes sejam, às vezes o sentido estético e artístico da tela chega a ser uma mais-valia para as páginas corridas pelas mãos e pelos olhos dos leitores.
       Outros - a maioria dos que conheço - não têm comparação possível. Os Maias, de Eça de Queirós, pertence a este último grupo, atendendo ao que pude assistir na versão fílmica de João Botelho.

Trailer do filme inspirado na obra realista-naturalista queirosiana

    Não posso dizer que tenha alguma coisa a ver com o realizador, de quem já apreciei outros desafios cinéfilos. O certo é que, para mim, a obra é um dos maiores romances da literatura portuguesa, depois de O Ano da Morte de Ricardo Reis (de Saramago). Nisso fica logo marcada por uma elevada expectativa, para não dizer reserva face ao que a sétima arte possa trazer para uma narrativa ímpar. O próprio João Botelho entende o texto como "intocável" e, como tal, anunciou uma proximidade que qualquer leitor atento vê por vezes comprometida.
       Há aspetos muito bem conseguidos no filme: o episódio do Sarau da Trindade, o da revelação incestuosa (comicamente entrecortado pelo pormenor do chapéu de Vilaça que não aparece nem deixa que o sentido trágico do momento se adense), o da relação consciente do incesto  por parte de Carlos (ainda que numa cena demasiado prolongada, por comparação a momentos significativos da obra ora eliminados ora reduzidos); o jogo de ausência de cor (na estrutura da novela ou da concentrada analepse inicial), seguido do colorido que acompanha os dois anos de vida de Carlos em Lisboa; a caracterização e decoração de interiores; a construção de algumas personagens (nomeadamente, Ega e o avô Afonso da Maia).

Exemplo dos wallpapers disponibilizados na página oficial do filme (http://www.ardefilmes.org/osmaias/)

         Depois, há toda uma deceção: exteriores repetitivos em telões pintados por João Queiroz, sem grande apelo (particularmente os do Douro, sem a vitalidade refrescante e rejuvenescedora de Santa Olávia) nem a tonalidade de luz ou calor tão marcantes quanto desgastantes da capital; personagens que ficam muito aquém dos traços que Eça destacadamente individualizou (um Eusebiozinho tão indiferenciado, um Dâmaso tão apagado e quase sem "chique a valer", uma Maria Eduarda tão longe do retrato de "deusa", um Alencar mais tresloucado do que "catedral romântica", um Afonso da Maia jovem tão pouco convicto ou convincente, uma condessa de Gouvarinho sem sabor, nada arrebatadora ou insinuante); a ausência de momentos fulcrais do romance (como o primeiro encontro de olhares entre Carlos e Maria Eduarda, apenas mencionado no jantar do Hotel Central; o episódio de Sintra) ou a introdução de outros tão desajustados (como o de uma patética Maria Eduarda sofridamente caída numa rua de Lisboa, o de planos inusitados para as rodas das tipoias ou caleches); a presença de um narrador cuja voz monocórdica, séria e grave não deixa ecoar os sinais críticos (e, por vezes, também risíveis) que a lente de um monóculo observador e atento deixava ver / ler.

    Se as "Cenas da Vida Romântica" (próximas do subtítulo romanesco "Episódios da Vida Romântica") estão mais para o projeto queirosiano das "Cenas de Vida Portuguesa" do que para a fidelidade ao romance de 1888 (o terceiro, depois de  O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio). Procurar ter em tela o que possa ser um conjunto de pinturas tornadas cenários teatralmente ajustadas à ambiência e ao registo próprios de uma ópera até poderia revelar-se uma estratégia interartística relevante; peca por as "cenas" ficarem tão irreais e antinaturais quanto afastadas de um retrato queirosiano real(ista) e natural(ista) ainda atual aos olhos dos leitores contemporâneos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

"Não evoluo; viajo"

    Estas as palavras de quem fisicamente poucas vezes fez de viajante, com exceção desse percurso que o levou de Lisboa até Durban e o fez regressar à cidade que disse ser de Ulisses.

    Deste dia já se fez nota neste blogue, por várias vezes.
   O dia fecha o mês e, há setenta e seis anos, assistiu ao fim de uma vida (ou várias, para alguém que dizia que não sabia quantas almas tinha).
    No drama de gente que representou e nas palavras de Bernardo Soares, foi a "cena viva onde passam vários actores representando várias peças". Aí fez muitas viagens, sempre na procura da ideia, do ideal, da verdade suprema que o libertava, que o fazia sentir-se um aspirante, solto face a um mundo real, sensível que o limitava, o enleava.
     Nascido no dia de Santo António (que fora Fernando de Bolhões) e no ano em que Eça de Queirós via publicado o romance Os Maias, Fernando António Pessoa Nogueira viajou para lá desta vida ao fim de quarenta e sete anos.
  Tornou-nos herdeiros de uma obra imensa, na qualidade e na quantidade; no conhecido e no desconhecido. Foi articulista, ensaísta, poeta, dramaturgo, publicitário, homem de sensibilidade múltipla, interventiva e comprometida com o avanço cultural de um país, capaz de dar sinais de modernidade, de fragmentação e desassossego naquilo que ainda era pautado pela tradição.
      "Minha pátria é a língua portuguesa", dizia, no que de mais inteligível e espiritual isso possa representar. 

"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem."

     Livro do desassossego, de Bernardo Soares 
(semi-heterónimo de Pessoa)

     Cumpriu-se a etapa de uma viagem, aquela que se vê sempre repetida com a descoberta dos percursos pessoanos (re)construidos aos olhos de novos leitores. 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Um convertido... à poesia.

     Assim se fala de alguém que foi antimonárquico, republicano; escritor de tendência satírica e panfletária.

     Diz-se que nasceu a 6 de Junho de 1848, em Lisboa.
    Assumido na sua pose de poeta boémio, satânico e janota, cumpriu o percurso comum a alguns poetas parnasianos, decadentistas, simbolistas e finisseculares.
     Eis um dos seus poemas, em homenagem a Eça de Queirós:

Declamação do poema 'O Visionário (ou Som e Cor)'

      Um exemplo poético do inadaptado, do sensacionista ou do que, nas palavras do autor, "um belo dia", encontrou "a sua estrada real de Damasco, como Saulo" - a exemplo de um percurso em que "a cegueira dos olhos se cure e dissipe enfim" (in "A Senhora da Melancolia").

      No final da vida, assumiu a sua conversão à monarquia e ao catolicismo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O ciclo da História e do Tempo

      Com a passagem do tempo, descobre-se que o ciclo da História se repete...

     Garrett, nas suas Viagens na Minha Terra (1846 - cap. XXXVIII), reconhece a "Admirável condição da natureza humana, que tudo nos parece melhor e menos feio quando visto de longe!". Contudo, quando o longe ainda está tão perto, torna-se incompreensível que se apoie e defenda o indefensável.
    Com Frei Luís de Sousa (1843), já se devia ter aprendido que um homem, quando "queima" a sua imagem,  caminha iniludivelmente para um tempo trágico, quando este último é, ainda por cima, ameaçado por um passado mal resolvido.
   Não fosse isto suficiente, Eça de Queirós tem a actualidade que se reconhece em toda uma obra que, à diferença de cerca de século e meio, parece ainda um retrato do presente. E, por certo, tomaria qualquer um dos romances ou crónicas como bons exemplos de uma evidência do século XIX (finais) transformada em vidência para o XXI (inícios).
    Relembro, então, o final de Os Maias e essa reflexão de Carlos e Ega tão ao jeito de quem já descrê da nossa elite política e de um destino que surge como fatal:
    
    "– E que somos nós? – exclamou Ega. – Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão...
      Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim...
      – Creio que não – disse o Ega. – Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor...
      – Resumo: não vale a pena viver...
      – Depende inteiramente do estômago! – atalhou Ega.

    Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança – nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades.
     Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade de todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na Terra – porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do «Eclesiastes», em desilusão e poeira.
     – Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna como a dos Rothschilds ou a coroa imperial de Carlos V, à minha espera, para serem minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não saía deste passinho lento, prudente, correcto, que é o único que se deve ter na vida.
      – Nem eu! – acudiu Carlos com uma convicção decisiva. (...)

   – Espera! – exclamou Ega. – Lá vem um americano, ainda o apanhamos.
      – Ainda o apanhamos!
    Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
    – Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
    Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
    – Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...

    A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
    – Ainda o apanhamos!
    – Ainda o apanhamos!

   De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."

    Esta a diferença entre as palavras e os actos, com vantagem para estes últimos no romance. 
     Contemporaneamente ouviram-se muitas palavras; todavia, os actos desdisseram-nas. 
    Há quem fique no sofá à espera do que venha a suceder no próximo domingo. Outros há que gritam e aplaudem os "preparados", os "conscientes", os "coerentes" nas palavras e nos actos que nos levaram ao anúncio próximo de uma bancarrota. E assim fica um país em clima de festa, de animação, numa alegria sinónima da "paz podre" que pode tornar repetível o ciclo da História: não com um mapa cor-de-rosa que nos retire territórios africanos, mas com uma bandeira negra de fome, de desemprego, de dependência financeira e económica, sem solução para um país europeu cada vez mais no fundo.

      ... ainda que esteja nas nossas mãos o poder de não o fazer repetir-se (mesmo que haja nódoas que só o tempo venha a resolver).

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Uma lição queirosiana... e vidência /evidência para o século XXI

       Não se trata da vidência. Era evidência no século XIX.
     
       Assim o escrevia Eça de Queirós, numa das suas "farpas" (compiladas em Uma Campanha Alegre - vol. 1):

  (...) Portugal, não tendo princípios, ou não tendo fé nos seus princípios, não pode propriamente ter costumes.
   Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: e fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, que o vai buscar alegremente, ao meio-dia, cantando o Bendito; é uma classe inteira que vive dele, de chapéu alto e paletó.
      Este caldo é o Estado. Toda a Nação vive do Estado. Logo desde os primeiros exames no liceu, a mocidade vê nele o seu repouso e a garantia do seu futuro. A classe eclesiástica já não é recrutada pelo impulso de uma crença; é uma multidão desocupada que quer viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira; é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietários procuram viver à custa do Estado, vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. A própria indústria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive também do Estado. A ciência depende do Estado. O Estado é a esperança das famílias pobres e das casas arruinadas. Ora como o Estado, pobre, paga pobremente, e ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade.
   Resulta uma pobreza geral. Com o seu ordenado ninguém pode acumular, poucos se podem equilibrar. Daí o recurso perpétuo para a agiotagem; e a dívida, a letra protestada, como elementos regulares da vida. Por outro lado o comércio sofre desta pobreza da burocracia, e fica ele mesmo na alternativa de recorrer também ao Estado ou de cair no proletariado. A agricultura, sem recursos, sem progresso, não sabendo fazer valer a terra, arqueja à beira da pobreza e termina sempre recorrendo ao Estado.
      Tudo é pobre: a preocupação de todos é o pão de cada dia.
     Esta pobreza geral produz um aviltamento na dignidade. Todos vivem na dependência: nunca temos por isso a atitude da nossa consciência, temos a atitude do nosso interesse.
      (...) – Ando aborrecido! – é o coro geral. Os espíritos estão vazios, os sentidos insatisfeitos. Gradualmente, com a vontade doente, o corpo enfraquecido, o homem só procura distrair, matar o tempo. Mas em quê? Na leitura?
     Não se compra um livro de ciência, um livro de literatura, um livro de história. (...)
    Perdeu-se através de tudo isto o sentimento de cidade e de pátria. Em Portugal o cidadão desapareceu. E todo o País não é mais do que uma agregação heterogénea de inactividades que se enfastiam.
     É uma Nação talhada para a ditadura – ou para a conquista."

   Crónicas de um tempo que teve o que se chamou um "prólogo" em As Farpas, um estudo social de Portugal. Era o mês de Junho de 1871; mas bem que podia ser Maio ou Junho de 2011.

     Crónicas de um tempo que ainda não lá vai.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tarquínio ou um exemplar de primavera romântica (até ao fim)

     Ainda que o título da obra seja plural, Primaveras Românticas (1872), o seu autor teve um percurso singular para um tempo feito de conformismos, poderes instituídos, conservadorismos de valores.

     Há 169 anos, nascia Antero de Quental em Ponta Delgada, o mentor da Geração de 70 (de onde saíram nomes e actos que marcaram o final do século XIX: Eça de Queirós, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, só para referir os mais sonantes; as Conferências do Casino Lisbonense, "As Farpas", o projecto das Cenas da Vida Portuguesa, só para mencionar os mais marcantes).
     Por trás de tudo, estava Antero - poeta da reflexão estética e do papel social e civilizador da expressão poética, pensador e defensor do espírito científico-filosófico de combate ao sentimentalismo ultra-romântico dominante em Portugal pela década de 60 do século XIX.
     Não obstante o espírito polémico, revolucionário, activo, questionador da tradição artística obsoleta e paralisante, um percurso pessoal crítico e influenciado pela metafísica, bem como pela religião, cruzou-se com o pessimismo filosófico de Schopenhauer e de Hartmann, expressos na composição de, entre outros, Sonetos Completos (1886) - uma das formas poéticas que adopta para a consciencialização do processo de libertação da condição humana.

EVOLUÇÃO

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in Sonetos (1861)
        
      Trinta anos depois, o autor destes versos far-se-ia em nada, interrompendo a evolução (ou antecipando-a, abandonando esta imensidade que é a vida).

     Nessa libertação, nessa fuga romântica persistiu um ideário que, porém, acabou por contradizer algum do sentido e do objectivo com que pautou a vida a que pôs fim: o da crença e o da opção pela mudança e pela ruptura, em prol do desenvolvimento intelectual, político e cultural.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Como os tempos se repetem... se é que mudaram!

      No reencontro com algumas páginas desse grande romance intitulado Os Maias, de Eça de Queirós...

     Já me perguntei se não estarei dominado pelo romântico mito do eterno retorno. Pode ser trágico o retorno do passado para um presente que indicia retrocessos na sua evolução (por mais ambíguo ou contraditório que isto possa parecer) ou no seu simples fluir - leia-se Frei Luís de Sousa, de Garrett, para assim se concluir.
      E que dizer de umas simples linhas como estas, no capítulo VI do romance queirosiano?

   «Ega ia fulminá-lo. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e superior a estas controvérsias de literaturas, calou-se; ocupou-se só dele, quis saber que tal ele achava aquele St. Emilion; e, quando o viu confortavelmente servido de sole normandelançou com grande alarde de interesse esta pergunta:
    – Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz?
    E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
   O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo». E assim se havia de continuar...
   Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
     – Num galopezinho muito seguro e muito a direito – disse o Cohen, sorrindo. – Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma...
     Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
      – A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela – continuava o Cohen – que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país...»


    Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.
    Diga-se que a literatura é ficção, sempre foi e será; mas quando o tempo alternativo se conjuga tão bem com o real não deixa de ser uma verdade a (re)viver, seja no momento da produção (marcado por um paradigma cientificista e positivista) seja no da leitura e da contemporaneidade (a que o futuro e a História virão a designar com um '-ismo' a estudar). Disto também se fazem as grandes obras.

   Entre máscaras, desencantos, desenganos e desilusões, lá vamos a correr (para não desistir) à procura de um novo "americano", esquecendo de novo o "paiozinho".

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Do que vive uma nação?

     As palavras são de quem nasceu há 165 anos, o fundador do "Distrito de Évora" (1867) e o conferencista que proclamou o "Realismo como nova expressão da arte" (1871).

     Reencontro-me com o seguinte excerto do seu pensamento:

      "Uma nação vive, próspera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelas recepções oficiais, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas - mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas. Hoje, a superioridade é de quem mais pensa; antigamente era de quem mais podia: ensaiavam-se então os músculos como já se ensaiam as ideias. "

Eça de Queirós, in "Distrito de Évora"

      Convenhamos que o pensamento é actual (algumas soluções para a contenção da despesa?) e orientador para a formação e a educação (não as do faz de conta nem as das 'novas' oportunidades, por cumprir e apoiadas em aparências) que conjugam o saber com o poder e o saber fazer.

terça-feira, 6 de julho de 2010

De alguma deriva nas formas de tratamento

       Alguma da evolução da língua também se faz sentir na dimensão pragmática.

    No capítulo das formas de tratamento, muitos sinais de deriva podem ser perspectivados à luz das diferenças entre o que alguns textos deixam ler e o que as relações interpessoais dão a ver.

    "Este dia [quando Dâmaso fora convidado por Afonso a ir jantar ao Ramalhete] pareceu belo a Dâmaso, como se fosse feito de azul e ouro. Mas melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incomodado e ainda deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... Daí datava a sua intimidade: começou a tratar Carlos por você. Depois, nessa semana, revelou aptidões úteis (...); e daí por diante passava horas à banca de Carlos (...) Tanta dedicação merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lho."
Os Maias, de Eça de Queirós, cap. VII (pág. 190)

     Cláudio Basto, no artigo "Formas de tratamento, em Português" publicado na Revista Lusitana (nº 29, pp. 183-202) regista 'você' como um derivação de 'vossa mercê' (tratamento nominal outrora dirigido ao rei), que o tempo fez registar com as variantes e reduções fonéticas de 'vossemecê', 'voss'mecê', 'vossancê', 'vomecê', võcê'. A par destas evoluções sonoras, chegou-se ao desprestígio social do tratamento (na zona do Minho e dos Açores há quem reaja, dizendo "você é estrebaria").
     Actualmente, a simplificação que a forma de tratamento permite - pela adopção e redução das marcas morfológicas de flexão verbal à terceira pessoa -; a vulgarização de um discurso de 'moda, de bom tom, de chic'; a exposição ao registo do Português do Brasil acabam por a converter a um sinal de crescente democratização, ainda que socialmente marcado na diferenciação do que é uma pessoa saber avaliar a adequação da sua utilização.
    Por isso, quando um aluno me trata por 'você' e eu o corrijo (explicando a inadequação desse tratamento face a alguém que nos é superior na idade, na experiência, no estatuto), a velha questão do respeito, da adequação, da importância ou mesmo da familiaridade é evocada, por um tratamento que me é contra-argumentado de forma afectiva, comparada à de um pai ou um avô. Em tempos diria, à de um rei!

      E a minha vontade, no meio de tanta deriva, é quase esquecer a questão e dizer: obrigado (mas, para o bem da integração social deles, não o posso fazer).

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A star was born...

      Em 1845: dia para uma estrela das letras portuguesas.


Caricatura em aquarela de Eça de Queirós (Lézio Júnior)

      Começa essa época que viria a marcar-se pela agitação intelectual e teria em Eça um dos seus mais significativos espíritos revolucionários. Folhetinista, romancista, "prosador bárbaro", jornalista, advogado e diplomata, é a escrita que hoje ainda lhe dá renome, num sentido de actualidade inquestionável.
        Em A Cidade e as Serras, editado em 1901 (postumamente, e após um ensaio feito com o conto "Civilização", datado de 1892), há profecias para um tempo e um homem muito actual, prenunciado num Zé Fernandes que admira a mesa de toilette de um Jacinto:

"As escovas, sobretudo, renovavam, cada dia, o meu regalo e o meu espanto - porque as havia largas como a roda maciça dum carro sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange de um mouro; côncavas, em forma de telha aldeã; pontiagudas, em feitio de folha de hera; rijas que nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola! (...) E assim (...) permanecia este Príncipe [Jacinto] passando pêlos sobre o seu pêlo durante catorze minutos".

     Caso para dizer: o requinte de um autêntico metrossexual dos finais do século XIX (a avaliar pelo período de criação), ou de um "Vencido da Vida" à la Eça. Ora essa!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um feriado... romântico

     A tese romântica de que o poeta morre com a nação dá nisto: um abençoado feriado.

     Dizer que 1580 é data da perda da independência portuguesa, ficando o país sob o domínio filipino por um período de sessenta anos de governo dual, não é dado contestável.
     Certa a morte de Camões, já a data de nascimento levanta muitas incertezas (uma boa oportunidade para se trabalhar a modalidade epistémica, enquanto mecanismo linguístico da expressão da possibilidade ou probabilidade).

in Das Palavras aos Actos (manual de 10º ano de Português), Porto, Edições ASA

         Resta a evidência de um abençoado feriado.
     Quanto ao dia de Portugal, talvez devesse ser o dia 1 de Dezembro (o da Restauração da Independência, hoje mais lembrado pelo Dia Mundial da SIDA). 
      Se ainda o descobrem, tiram-nos o desejado descanso deste dia, a título da concentração / redução de feriados.

     
Bem razão tinha um outro nosso escritor, Eça de Queirós ("Somos invariavelmente românticos"), cuja data de nascimento ou morte bem que também poderia ser feriado - isto para quem pense que ando a dar ideias para tirar feriados (sempre fica a proposta de criação de um outro).