sábado, 26 de dezembro de 2015

No coração do mar

    Título de filme atual baseado numa obra que retrata um facto inspirador para um épico da literatura oitocentista norte-americana.

   Aquela obra que Nathaniel Hawthorne considerou ser um exemplo moderno da epopeia homérica aplicada à literatura norte-americana nasceu a partir do sucedido e relatado neste filme.
    Não se trata propriamente de uma adaptação cinematográfica de Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891), mas, antes, das condições de produção desse romance pelo escritor norte-americano. Daí este aparecer, na intriga da película, como personagem, pesquisando os motivos que viriam associar-se à construção desse mito literário identificado com uma baleia branca (ou albina) - verdadeira metáfora do poder animal e natural contra o interesse humano da altura (aproveitar-se da gordura animal para um sinal da modernidade do mundo de então: a iluminação a óleo das cidades e o comércio associado à caça baleeira). 
   O filme adapta a obra homónima de Nathaniel Philbrick (publicada no ano 2000), que narra a verdadeira história dramática vivenciada pela tripulação do navio Essex, em 1820 - facto que também resultou na realidade inspiradora do romance Moby Dick (1851).

Trailer do filme (2015)

      Sob a realização de Ron Howard (o mesmo de “O Código Da Vinci”), assiste-se a uma história na perspetiva do velho Thomas Nickerson (Brandan Gleeson), traumatizado com o que vivera como jovem navegador (Tom Holland) do baleeiro Essex. Em analepse, é ele que dá a conhecer a Melville (Ben Whishaw) o vivido e por longos anos silenciado, por os acontecimentos se pautarem pelo que há de mais terrífico, trágico e simultaneamente heroico. Quer o escritor quer o espectador ficam a saber como sucedeu o naufrágio do Essex, a par do confronto da fúria animal em alto mar com o interesse dos homens; do conflito aceso entre o capitão George Pollard Jr. (Benjamin Walker) e o imediato Owen Chase (Chris Hemsworth), que aspira a ser comandante de um baleeiro; da questionação que os sobreviventes revelam acerca de tudo aquilo em que acreditavam (desde a dignidade e honra pessoais ao verdadeiro sentido e valor da vida humana) mal se veem à deriva durante meses em pleno mar, aflitivamente lutando contra forças que os dominam. Impõem-se a experiência marítima e um instinto de sobrevivência que supera os limites de qualquer código moral, ético ou pessoal. Se uma tempestade não destruiu por completo a embarcação, viria a fazê-lo uma baleia, numa resposta à teimosa ousadia do Homem. Quando este para, também aquela deixa de atacar.
     No final do filme, a crença na palavra de Chase e na lealdade (ainda que infrutífera) para com o amigo que deixa numa ilha à espera da salvação; o reconhecimento de Pollard face aos acontecimentos vividos e não aos que comerciantes e companhias de seguro queriam fazer crer por imperativos financeiros; os silêncios que são ultrapassados para se viabilizar uma ficção inspirada na realidade são a constatação de que Moby Dick é uma possibilidade apenas para a certeza de que o Homem tem nas suas mãos o cumprimento das promessas que faz, a afirmação da verdade vivida e a vontade de não querer repetir aquilo que aconteceu e se aviltou.
     Esperando mais dos efeitos fílmicos (nomeadamente no que aos conflitos com a baleia diz respeito), não nego a qualidade dos grandes planos (essencialmente focados nas forças naturais) e os picados que minimizam o poder dos homens. Ainda assim, o drama da vida parece estar mais nos conflitos criados pelos humanos do que nos confrontos propostos pela natureza (e que, mais cedo ou mais tarde, desaparecem).

      A baleia albina é uma força; os homens são outra. Por mais que estes se queiram sobrepor, é aquela que sobrevive para se tornar mito. A humanidade tem, porém, sempre a hipótese de se recompor, caso não se renda àquilo que não quer ou à mentira declarada. Nisso, o filme apresenta uma mensagem de esperança, por mais que esta se situe no plano da ficção.