segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Leão (que não o é) da Estrela (que era Branca)

    Depois de O Pátio das Cantigas, chegou O Leão da Estrela, com a Canção de Lisboa já anunciada.

   Por mais que se ouça no filme que tudo o que é inusitado se parece com um filme de 1947, o remake de Leonel Vieira pouco tem a ver com o original, tal como já havia acontecido com O Pátio das Cantigas (1942).
    A comédia de enganos portuguesa, a preto e branco, de Arthur Duarte, ressurge quase setenta anos depois, não com António Silva - Anastácio, administrativo adepto do Sporting a preparar-se para um 3 a 1 contra o Porto (que se fica por 2-1) no estádio do Lima, mas, desta feita, a cores, com Miguel Guilherme - Anastácio funcionário das finanças, adepto dos Leões de Alcochete a sofrer a derrota por 2-1 contra o Inferno Futebol Club num estádio alentejano.


Um dos trailers de 'O Leão da Estrela' - Novos Clássicos (2015)

    Na deslocação para assistir ao jogo (num estádio "lindo" de um pequeno clube local), Anastácio leva a sua família para terras alentejanas, ficando esta alojada na casa de uma família rica (ironicamente, Barata) cujo filho (André Nunes) é "amigo" de Facebook de Jujú (Sara Matos). Realidades para um tempo novo, moderno, afastado da década de quarenta do século passado e das tradicionais rivalidades (clubísticas e de sotaque) entre Lisboa-Porto.
    O fim interrompido do filme atual (sabe-se lá como correrá a vinda dos Barata a Alcochete, para dar o aval ao casamento do filho com Branca, que foi Estrela) é uma revisão da sugestão de pedido de casamento não pronunciado do comandante aos pais de Jujú no final do clássico português (dado que não comparece na versão atual, para além de os papagaios de outrora terem sido substituídos por um peixinho laranja, que acaba por morrer). Filipinho permanece motivo de riso em ambas as películas. A comédia instala-se nalgumas (poucas) cenas, nalgum (previsível) nonsense e nalguns (repetidos) tiques de personagens, nomeadamente os de registos de língua cruzados com pronúncias muito marcadas, seja a dos alentejanos seja a do novo-riquismo afetado (de que a forma de tratamento "você" é mero exemplo).

Pormenor do cartaz 'Novos Clássicos' (com réplicas do filme)

      É verdade que é comédia (embora, para mim, os bloopers finais tenham resultado melhor do que o sorrisos surgidos ao longo do filme); usa-se e abusa-se dos enganos, tal como no original (desta feita mais deslocados para a influência do par Anastácio - Jujú), mas não posso dizer que o resultado seja extraordinário, mesmo por comparação com o resultado da adaptação de O Pátio das Cantigas. Valham as interpretações de Miguel Guilherme (Anastácio), José Raposo (Barata), o mecânico Miguel e a "criada" Rosa (Aldo Lima e Dânia Neto), mais Alexandra Lencastre e Manuela Couto (Srª. Barata e Carlota) num contraste tão concertado (e sem concerto) que se constrói no seio de tanto logro a saltar à vista (e ao ouvido) do espectador entre as máscaras (re)criadas.

   Conclusão: como diria Anastácio, "isto das mentiras é uma coisa lixada. Um gajo perde-se nisto"! Venha o terceiro (que, pelos vistos, antigamente, foi o primeiro de todos).