quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

É bom que nos comportemos!

     Chegou a hora de nos comportarmos. Se bem se mal, logo se verá!

     Não se pretende que este seja um apontamento de etiqueta ou de regras de comportamento. Ainda assim, convirá que seja tido em mente.
       
   Q: Vítor Oliveira, por favor diz-me que "portar-se bem" ou "portar-se mal" se encaixa na classificação perífrase factitiva, sendo que não devemos analisar a função dos elementos separadamente. Obrigada.


     R: Digo que sim. Ainda assim, é preciso fazer alguns reparos.
      Desde logo, a questão do termo 'factitiva'. Este designa um mecanismo de redução sintática, redução da transitividade, com apagamento do agente / instrumento / causador e a apresentação da marca 'se' a configurar esse mecanismo. Assim se obtém uma construção incausativa (ex.: 'A chave abriu a fechadura' > 'A fechadura abriu-se'). Não vejo como 'portar-se bem / mal' possa ser representativo disso.
      Percebo o uso da 'perífrase', embora não entenda como a expressão pode dar lugar a uma só palavra (no cumprimento de que a perífrase é o recurso a uma expressão longa ou de várias palavras que podem ser substituídas por uma só).
     De resto, é de assumir que o verbo '(com)portar-se' é um exemplo de lexema complexo, pertencente ao conjunto dos chamados verbos intrinsecamente pronominais, tal como 'abster-se', 'apaixonar-se', arrepender-se', 'condoer-se', 'queixar-se' e 'suicidar-se'. Numa composição do verbo com o pronome, este último não desempenha qualquer função sintática; é usado com uma forma de pronome pessoal concordante em pessoa e número com o sujeito, mas sem qualquer valor semântico ou sem possibilidade de substituição por um complemento direto lexical ou pronominal (ex.: *'O José apaixonou o António / -o pela Carla').
       A unidade da expressão '(com)portar-se bem / mal' é ainda justificada pelo facto de '(com)portar-se' remeter para um predicado com um só argumento, não dois - isto é, em termos semânticos, não se denota uma relação binária entre entidades, mas um “predicado complexo”, de valor claramente intransitivo (só com um argumento externo). Numa frase do tipo 'A jovem portou-se bem / mal', não se relaciona a entidade designada por 'a jovem' com uma outra designada por 'mal'; o advérbio reflete uma das modalidades possíveis do predicador '(com)portar-se', numa interdependência entre o verbo e o termo ou a expressão de maneira nele implicado, mas sem valor referencial (de entidade, de localização temporal ou espacial). 
     Assim, à semelhança de 'cheirar bem / mal', 'vestir bem / mal', 'saber bem / mal' (no sentido percetivo, gustativo), 'sair-se bem / mal' e 'sentir-se bem / mal', o verbo contém uma dimensão do modo / da maneira que surge explicitamente transmitida no advérbio. O mesmo pode ser revisto em combinações do tipo 'bater certo', 'deitar fora', 'fazer bem / mal', 'ir longe', cujos 'predicados complexos' são representativos de lexicalizações associadas a algumas derivas semânticas.

       Dito isto, "não devemos analisar a função dos elementos separadamente". Agora, vou 'vestir-me elegantemente' (cá está mais uma situação), perfumar-me para 'cheirar bem' (mais outra), para 'me sair bem' (não há duas sem três) e 'me sentir feliz' (afinal havia outra).