sábado, 21 de novembro de 2015

Complemento... qual, afinal?!

       E depois da formação, lá veio uma questão - com toda a razão!

     É que nem sempre a formação é suficientemente clara, particularmente quando ela ocorre num contexto nem sempre oportuno e/ou ajustado às experiências e às práticas profissionais destes tempos tão sobrecarregados (mas que alguém gosta de sobrecarregar mais ainda). Deve ser prova de resistência!     

      Q: Olá, Vítor. 
        Desculpa incomodar-te mais uma vez, mas saí há pouco de uma formação e fiquei com uma dúvida: qual a função sintática da oração subordinada substantiva completiva "Penso que ele está em casa"? Para mim, seria CD, mas afirmaram ser CO. Na minha opinião, seria CO se se tratasse de um grupo preposicional, tal como em "Penso em ti." Obrigada pela atenção.

       R: Olá.
      O caso apontado faz parte de um mecanismo, entre os muitos que constituíram um estudo linguístico ao nível da sintaxe, denominado de transitividade e possibilidades alternativas de codificação - que pode ser encontrado na obra Gramática de Valências: Teoria e Aplicação, de Mário Vilela (Coimbra, Livraria Almedina, 1992, pp. 61-64). Genericamente, considera-se que as construções do complemento direto (CD) são por vezes alternativas de outras, nas quais ganham relevo construções preposicionais associadas a um só verbo:

a) Ele pensa isso / Ele pensa nisso
b) O governo cortou os salários da função pública / O governo cortou nos salários da função pública
c) Ele atirou a bola ao colega / Ele atirou com a bola ao colega
d) Ela encontrou as amigas / Ela encontrou-se com as amigas
e) O criminoso puxou ou sacou a pistola / O criminoso puxou ou sacou da pistola
f) O jovem gozou o colega / O jovem gozou com o colega
g) Os alunos cumprem os deveres / Os alunos cumprem com os deveres.

       Assim, estes são exemplos de construções não tipificadas de complemento direto, com verbos que procuram tornar saliente o objeto direto (ainda que precedido de preposição), encarado enquanto caso acusativo. Por mais estranho que possa parecer, a verdade é que há complementos diretos introduzidos por preposição, na linha do que Maria Helena Mira Mateus et al. já sistematizaram na Gramática da Língua Portuguesa (Lisboa, Editorial Caminho, 2003, pp. 286-7). Independentemente disso, quando se ouve / lê "penso", é admissível a questão 'o quê?' (ou mesmo 'O que é que pensas?') e a pronominalização da oração subordinada pelo pronome 'isso' (Penso isso > O quê? > Que ele está em casa).
         Posto isto, concordo com o raciocínio inicialmente construído ("que ele está em casa" é uma subordinada substantiva completiva, com a função de complemento direto). Problematizo a afirmação final ("Na minha opinião, seria CO se se tratasse de um grupo preposicional, tal como em "Penso em ti."): por mais que esta seja verdadeira para o exemplo dado, não o é nas situações em que o complemento direto admite preposição. Acrescento, por fim, que o complemento oblíquo nem sempre aparece configurado com um grupo preposicional: pode sê-lo com um grupo adverbial, por exemplo, como em "Moro ali / longe / perto".

     Com isto termino. Há que escolher bem a formação, sob pena de ainda podermos sair deformados.