sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Dos frutos de ferro às árvores-fábrica

    Tudo a propósito da 'Ode Triunfal' de Álvaro de Campos.

Interpretação icónica por Catarina Cruz 
(in http://dcvcatarinacruz.blogspot.pt/2011/04/segunda-proposta-de-trabalho-alvaro-de.html)
     Entre tudo o que o poema possa ser, nas múltiplas inter-pretações dele feitas, a leitura de uma ode aos sinais dos tempos modernos (feitos de sensações de diferentes tem-pos) impõe-se quando o heteró-nimo pessoano se questiona sobre tudo o que ante-riormente abordou (desde a exaltação da fábrica e das máquinas à consideração de espaços e de tipos sociais pautados pelo dinamismo e pela vitalidade sociais e civilizacionais).
   Serve a interrogação para a progressão textual que introduz um novo dado significativo:


                               " (...) 
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! 

                                      (...)"

     Afirma-se, então, o relevo do tempo, do "Momento" maiusculizado e repetidamente retomado, sempre feito de presente, a par das sensações a ele associados.
      Num texto de exaltação aos tempos modernos - nos quais a máquina, o motor, a fábrica, o calor, os óleos, a eletricidade e a voracidade se afirmam -, novos símbolos poéticos surgem. É o caso dos "frutos de ferro" e das "árvores-fábrica". A lógica integrativa dos primeiros nas segundas (seja pelos frutos das árvores seja pelo ferro que se revê nas fábricas) não deixa de resultar estranha aos olhos e ouvidos de alguns jovens, que julgam demasiadamente ousada e irreverente a construção destes novos conceitos artísticos.
    Não o achariam tanto se tivessem em mente a floresta de betão que algumas cidades têm, nomea-damente Roterdão, com as casas cúbicas - as Kijk-Kubus, em blocos de amarelo e cinza projetados original-mente pelo arquiteto holandês Piet Blom, nos anos setenta do século XX - no coração da urbe. São 38 habitações no total, com uma inclinação de 45º e pousadas sobre colunas hexagonais. Trata-se de um ícone arquitetónico construído acima do nível da estrada, com ruas e carros a passar por baixo, num sinal da modernidade e da reconstrução que a cidade tem vindo cumulativamente a sofrer desde os tempos da II Guerra Mundial.

      Uma ode ou canto poético lírico - em tom elevado e sublime - para um assunto de relevo e interesse para a humanidade. Assim acontece quando se fala do tempo, dessa categoria que na duração ou no instante acompanha a vida, a existência humana, por mais clássica ou modernista que seja.