quarta-feira, 2 de março de 2011

ADD: entre o consistente e o elevado

       Há uma canção de Sérgio Godinho com o título "Pode alguém ser quem não é?"... cada vez a entendo melhor.

     Ao ler uma grelha de avaliação do desempenho docente (ADD), deparei com uns "designados" descritores / evidências que me causaram alguma perplexidade. Ei-los:

  
    Entendo que as duas formulações cimeiras não servem o propósito para que foram produzidas. Falta-lhes luz, claridade, evidência (isto se entender que um descritor de desempenho - para não ser linguagem de moda - se define por um enunciado sintético, preciso e objectivo, indicando o que se espera que o avaliado seja capaz de fazer, no cruzamento de conhecimentos e competências evidenciados em operações de natureza diferenciada, ao nível do saber-fazer, do saber-ser / estar do saber-aprender / formar-se).
    Ora, entre os sinónimos de "consistente", registam-se: sólido, resistente, firme, estável, válido, seguro, coerente (cf. Dicionário de Língua Portuguesa, da Verbo); no mesmo sentido vai o Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de Cândido de Figueiredo, publicado pela Bertrand Editora). Acrescenta o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (da Academia das Ciências de Lisboa) que é a propriedade do que subsiste ou tem duração; que está bem estruturado, que tem uma base bem fundamentada - no fundo, o significado de duradouro previsto no Dicionário Houaiss. Em fonte mais vulgarizada, como o Dicionário de Língua Portuguesa (Porto Editora), o próprio sentido figurado aponta para algo que é credível, constante, estável. Mesmo ao nível do saber popular e coloquial, toma-se tal adjectivo como sendo aquilo que alimenta, que é substancial.
     Torna-se, portanto, dúbio que, num registo de avaliação de desempenho docente, se aponte um 'descritor / evidência', no ponto da realização das actividades lectivas, que inferioriza o 'consistente' ("o docente evidencia consistente conhecimento científico, pedagógico e didáctico inerente à disciplina / área curricular" - patamar 4) face a 'elevado' ("o docente evidencia elevado conhecimento científico, pedagógico e didáctico inerente à disciplina / área curricular" - patamar 5).
   Novamente a consulta de dicionários (na ordem das fontes atrás consideradas) permite concluir que 'elevado' significa aquilo que tem lugar alto, elevação; que é sublime, nobre (isto até me fez lembrar o Peri Hupsous, esse tratado de Pseudo-Longino, descoberto no século XVI, no qual se procurava abordar as origens, as fontes dessa qualidade inefável que é o sublime - princípio tão clássico na abordagem do fenómeno literário); que é superior moral ou intelectualmente (senti a ascese platónica); que tem intensidade, que subiu e atingiu um alto grau; que é forte, excessivo (disto não gostei, por me parecer barroco), subido (não sei até onde, mas por certo não chego lá).
    Em suma, sempre na procura de algum respeito, rigor no sentido das palavras, bem como no que elas reflectem quando de avaliação se trata, deparo com um terreno instável. Devia ser o contrário, até pela necessidade de a avaliação ter de ser o mais transparente possível, para bem dos avaliados e dos próprios avaliadores que necessitam de uma tarefa menos impressiva e pouco clarificada. Qualquer professor entende isto, até pela obrigação e pelo exemplo a dar aos alunos com quem trabalha e avalia; mais ainda, quando está em causa algo que marca um percurso profissional dos seus pares.
    Assim sendo, é de questionar se a pontualidade de um 'elevado' (que possa ser atingido) pode ser preferido relativamente à sistematicidade, à duração implicada no significado de 'consistente'. Voltando ao caso dos alunos, quantos não terão atingido um resultado 'elevado' sem que tenham sido consistentes em resultados posteriores? Não acontecerá o mesmo com professores e com outros profissionais?
     A bem da verdade, é de considerar que um avaliado aprecie bem mais a observação de que desenvolve um trabalho consistente do que a indicação de que teve um desempenho 'elevado' - é, assim, preterido o patamar 5 em favor do 4. Como profissional consciente, atento, preocupado e interessado em avaliar criteriosamente, seria este último patamar (o 4) que gostaria de atingir, sempre na esperança de que não me associassem a um desempenho elevado, o qual significaria que numa, duas, três aulas poderia atingir tal grau (e, possivelmente, não noutras... porque a máquina - que não sou - também falha e avaria); que poderia ser qualificado, no desempenho, de 'sublime', superior moral ou intelectualmente (será esta a elevação que pretendem?) ou mesmo excessivo (eu não queria nada ser assim). De novo, sem qualquer pretensão para tal (a não ser que me achem merecedor disso, o que me honraria) desde já, preferiria o patamar 4. Este garantir-me-ia, pelo menos, que as qualidades seriam duradouras, constantes, credíveis. E que além dos avaliadores, os meus alunos me achariam merecedor de ensinar alguma coisa de uma forma mais contínua e continuada.
     Face ao exposto, e com nova consulta de dicionário, sublinho que matematicamente se diz que algo é consistente quando se apresenta isento de contradição interna (cf. Dicionário de Língua Portuguesa, da Porto Editora). Não é possível entender isto, face ao arrazoado construído. Quando a aprendizagem e a formação são consistentes apontam para uma qualidade que perpassa e até ultrapassa o tempo (que dizer dos velhinhos mestres que tanto nos ensinaram e que nos legaram um saber que a morte não quebrou?). Isso permite construir referenciais. O mesmo não se dirá de um desempenho elevado por si só.
      Apoiado em traços de significado distintos, em critérios heterogéneos, em parâmetros não uniformes, não é evidente (por mais que o descritor se encontre associado a evidências) por que motivo esta grelha de avaliação pretere o 'consistente' ao 'elevado'.
     Conclusão: diz uma expressão popular que a sabedoria da vida está em suportar coisas sem importância (como é o caso desta avaliação de 'faz de conta', proposta por quem quer definitivamente viver de uma imagem pintada com um verniz que estala: a de que tudo se faz, mas sem consistência alguma, e sob a bandeira de uma pretensa qualidade).

     E logo eu tenho que dizer isto, quando sou a favor da avaliação do desempenho docente. Retomo uma expressão do pensamento deste blogue: "luz de fantasia". Resta-me, decididamente, aspirar a mais do que oferece este mundo.

4 comentários:

  1. Este mundo é, de facto, consistentemente rasteiro. Seria bom não perdermos muito tempo. abç

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  2. Subscrevo.
    Por mim, não perco mais para este 'faz de conta'.
    Obrigado.
    Abç

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  3. Infelicidade a destas pessoas que formatam, enjaulam o que há de mais humano em grades ou grelhas. Exemplo triste e infeliz.
    Bj

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  4. Caro colega, deixe-se de eufemismos! Nada de perplexidades!
    Isto foi elaborado por indivíduos pretensamente professores e aprovado num dos muitos conselhos pretensamente pedagógicos desta porcaria de país. Tenho assento num destes pedagógicos, estou mortinho por desandar de lá para fora na primeira oportunidade. Só visto! Mas a tanto não chegaram, não são tão consistentes ou... elevados!!! Quem é novo e vem para esta profissão, hoje, não anda bom da cabeça.

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