domingo, 10 de abril de 2011

(Des)acordo... mas só na ortografia

      A passagem para novo (?) Acordo Ortográfico e a sua aplicação no ensino-aprendizagem da língua materna terá no próximo ano lectivo muito a dizer e a fazer...

     As relações da ortografia com outros domínios é uma questão que levantará muitas dúvidas. Na verdade, o futuro dirá até que ponto foi facilitada a aprendizagem da língua materna com a mensagem publicitada de que o modo como se fala passa a ter relações directas com o modo como se escreve. Nunca foi assim; não será assim.
    Assuma-se a convencionalidade da escrita. Outras relações podem tornar-se 'liaisons dangereuses'.

    Q: A palavra "anti-rugas", p.ex., que dizíamos derivada por prefixação, com o acordo ortográfico, fica "antirrugas", certo? Continuamos a referir o mesmo processo de formação? É que, se antes os alunos, não conhecendo a história da língua, já não sabiam o que eram palavras ou prefixos, agora ainda vai ser mais difícil, acho eu!

     R: É verdade que a perda de consciência das regularidades morfológicas, sintácticas e semânticas é um dado a considerar, enquanto factor da própria evolução da língua. Se assim não fosse, não haveria lugar à consideração de um conceito operacional como o da 'lexicalização', por exemplo.
      A forma 'antirrugas' é aquela para que o acordo aponta, havendo apenas a manutenção de hífen nos casos em que a base derivante inicia com 'h' (ex.: anti-higiénico) ou com a mesma vogal do prefixo (ex.: anti-ibérico). Trata-se de um exemplo que obedece ao princípio do ponto 2º da Base XVI:
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BASE XVI: DO HÍFEN NAS FORMAÇÕES POR PREFIXAÇÃO, RECOMPOSIÇÃO E SUFIXAÇÃO
1Nas formações com prefixos (como, por exemplo: ante-, anti-, circum-, co-, contra-, entre-, extra-, hiper-, infra-, intra-, pós-, pré-, pró-, sobre-, sub-, super-, supra-, ultra-, etc.) e em formações por recomposição, isto é, com elementos não autónomos ou falsos prefixos, de origem grega e latina (tais como: aero-, agro-, arqui-, auto-, bio-, eletro-, geo-, hidro-, inter-, macro-, maxi-, micro-, mini-, multi-, neo-, pan-, pluri-, proto­, pseudo­, retro-, semi-, tele-, etc.), só se emprega o hífen nos seguintes casos:
a) Nas formações em que o segundo elemento começa por hanti-higiénico/anti-higiênico, circum-hospitalar, co-herdeiro, contra-harmónico/contra-harmônico, extra-humano, pré-história, sub-hepático, super-homem, ultra-hiperbólico; arqui­hipérbole, eletro-higrómetro, geo-história, neo-helénico/neo-helênico, pan-helenismo, semi-hospitalar.
b) Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação,eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.

2Não se emprega, pois, o hífen:
a) Nas formações em que o prefixo ou falso prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos domínios científico e técnico. Assim: antirreligioso, antissemita, contrarregra, contrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom, minissaia, tal comobiorritmo, biossatélite, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia.
b) Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente, prática esta em geral já adotada também para os termos técnicos e científicos. Assim: antiaéreo, coeducaçao, extraescolar, aeroespacial, autoestrada, autoaprendizagem, agroindustrial, hidroelétrico, plurianual
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     No que toca ao processo de formação da palavra, naturalmente que se continuará a dizer que 'antirrugas' é uma palavra derivada por prefixação. 
    A questão da convenção escrita é distinta da que diz respeito ao domínio da formação de palavras. É verdade que a junção gráfica prefixo-base pode comprometer a consciência sincrónica do termo, mas essa questão já se levantava antes do acordo, com situações análogas. Entre falantes contemporâneos, muitos já não reconhecerão intuitivamente a formação de certas palavras, para não dizer que se tiravam conclusões erradas a partir do que era intuitivo ou imediatamente observável (chegou-se, por exemplo, a diferenciar processos morfológicos pela presença / ausência de hífen - lembro-me do que diziam certas gramática e manuais relativamente ao que era justaposição / aglutinação) Ouvia-se dizer que 'contra-informar' era uma palavra composta por justaposição (e não o era); que 'girassol' era aglutinada, e também não o era. 
    Enfim, aprendizagens que alguns conseguiram reciclar e reorientar; outros não, porque se mantiveram agarrados ao que aprenderam (mal) e repetiram por simplesmente ver reproduzido em materiais de qualidade questionável. 
     Em síntese: os receios adiantados não são nada que já não tivesse acontecido antes. Quem sabe que 'anti-' é um prefixo, conforme o próprio acordo o diz na Base XVI, sabe também que a palavra que o contiver terá de ser derivada. Estar junto à base é convenção ortográfica, tal como o é a duplicação de 'r', para a manutenção do som [R] com o qual iniciam palavras como 'rugas' (ou qualquer outra assim iniciada).
     Assim, a pergunta deve ser reconduzida para a necessidade de formação dos que vão ensinar com a língua materna, em geral, e de Língua Portuguesa / Português, em particular (seja na fase inicial seja na contínua, para não dizer ao longo da vida). Não se passou assim connosco? Pois há-de acontecer com os vindouros. Que procurem bem, que sejam bem formados e que descubram o que deve e como deve ser ensinado da melhor forma. Os que aprendem irão confrontar-se com dúvidas, irão perguntar e ficarão ou não satisfeitos com a resposta face às necessidades que vão ser criadas

    ... mas não devemos chamar para nós, professores de língua materna, mais do que deve ser feito. O problema é bem mais transversal. Por outro lado, em termos da nossa especificidade, há que reconhecer que o domínio da ortografia é um; outros domínios (como o morfológico) são outros domínios. E a misturar muito, o bolo vai sair torto, por certo.

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