quarta-feira, 13 de abril de 2011

Existência e absurdo

        105 anos: em terras da Irlanda (Dublin) Samuel Beckett nascia.

      Nome para um romancista e dramaturgo irlandês, Beckett cedo se cruzou com as línguas e os estudos franceses e italianos; foi professor e conheceu James Joyce. Dir-se-ia que, por isto, o currículo já era significativo.
       Na escrita,e como poeta, publicou o monólogo dramático Whoroscope; foi ensaísta; assinou a autoria de More Pricks Than Kicks (1934), Murphy (1938), Molloy (1951), Malone Meurt (1951) e L'Innommable (1953), Watt (1953), ao nível da narrativa; En Attendant Godot (1952), Fin de Partie (1957), Krapp's Last Tapee (1959) e Oh Les Beaux Jours (1961), entre os textos dramáticos mais consagrados e que o tornaram num dos nomes de referência ao nível do teatro.
Quadro de Roger Cummiskey
Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras.

Samuel Beckett, in Textos para Nada

      E, para fechar o currículo em beleza, surge o Prémio Nobel da Literatura em 1969.

      Um dia e um escritor para serem lembrados, pelo que a existência dá - na realização e no absurdo.

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