segunda-feira, 26 de março de 2018

Agente ou não, faça-se a distinção

      Um perfeito exemplo de como a sintaxe requer a semântica para uma melhor classificação.

       Assim me chegou, sem mais, a questão:

     Q: Olá. Na frase ‘As tarefas foram distribuídas pelos alunos’, ‘pelos alunos’ é o complemento agente da passiva, certo?

      R: Talvez sim, talvez não. Na ausência de todo um contexto que permita enquadrar a produção da frase, antecipo dois cenários: um, com os alunos a serem os agentes e responsáveis pela distribuição; outro, com os alunos a serem beneficiários ou destinatários do ato de distribuição.
     Com o primeiro cenário, temos a frase proposta como a construção passiva obtida a partir de uma frase ativa de base (‘Os alunos distribuíram as tarefas’), na qual ‘os alunos’ seriam o sujeito-agente da ação de distribuir. Neste contexto, após as transformações típicas da frase ativa para passiva, o sujeito da ativa dá lugar, na voz passiva, ao complemento agente da passiva.
     O segundo cenário perspetiva a frase com significados e papéis semânticos distintos, mesmo que a frase não deixe de ser apresentada como uma construção passiva. Pode esta última ser a configuração final de uma frase ativa do tipo ‘O professor distribuiu as tarefas pelos alunos’, a qual, uma vez transformada na passiva, apresenta uma sequência com o complemento agente da passiva omisso (‘pelo professor’), apenas com o sujeito (‘As tarefas’) e o predicado (‘foram distribuídas pelos alunos’) – este último com o auxiliar ‘ser’ (da passiva), mais o particípio passado do verbo principal (‘distribuídas’) e o respetivo complemento oblíquo.
    Dependendo da interpretação do primeiro e do segundo cenários, temos naturalmente funções sintáticas distintas. O certo é que, para existir um complemento agente da passiva, a frase tem de se encontrar na voz passiva e o agente deve ser o que pratica a ação ou o processo configurada(o) no verbo principal (no caso, ‘distribuir’) daquela que seria a frase original da voz ativa.

      Um caso, portanto, em que sintaxe e semântica têm de estar de mãos dadas para desambiguizar sentidos e funções.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Religião (ou religiões) à parte...

       E voltamos à questão dos plurais de 'ão'.

       Deve ser a proximidade da Páscoa. Trouxe ao diálogo, entre dois professores, a questão do plural de 'sacristão'. Perguntavam-me, em jeito de reclamação, por que motivo tinha de ser 'sacristães', se a palavra estava relacionada com cristão, que forma o plural 'cristãos'.
       Há tempos vi, no 'Bom Português' (RTP1), que esta tinha sido a pergunta lançada aos transeuntes, muitos a tenderem precisamente para o 'sacristãos'. Eis que chegou a vez de entrevistar uma freirinha toda simpática, que, sorridente e como quem sabia do ofício, afirmava convictamente que o plural era 'sacristães'. Ora sem mais, a voz-off confirma o dado (na base da consultoria do programa) e falta saber quem o (vai) usa(r).
      Na verdade, consultando a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 182), de Lindley Cintra e Celso Cunha, podem aí ser encontrados os casos de um reduzido número de palavras que tem o plural formado em 'ães': alemão, bastião, cão, capelão, capitão (em dissemelhança com ‘capitanus’), catalão, charlatão, guardião (e muitos a preferir os ‘charlatões’ e os ‘guardiões’), escrivão, pão, sacristão, tabelião. Contudo, não deixa de ser um dado o cenário de palavras terminadas em 'ão' admitirem dois ou três plurais (um ora de natureza mais etimológica e outro ora de uma tradição mais popular: anãos, anões; corrimãos, corrimões; refrãos, refrães (que poucos dizem, preferindo os 'refrões'); verões, verãos; vilãos, vilões / aldeãos, aldeões, aldeães; anciãos, anciões, anciães; ermitãos, ermitões, ermitães; sultões, sultães, sultãos). Dicionários há, como o Houaiss, que admitem 'sacristães' e 'sacristãos'.
      Há dias, a propósito de uma reportagem, voltaram a palavra e o seu plural à baila:


    Assim sendo, pela gramática e também sustentado pela reportagem, lá respondi 'sacristães', tal como 'capelães' ou 'ermitães' (embora, neste último caso, as outras formas de plural também sejam válidas).
    Sem muita fé no que toca a palavras que não fazem parte de um uso frequente ou que não são ativadas tão regularmente,  diria que a consciência morfológica da questão está em deriva ou numa instabilidade que a sincronia procura regularizar, nos novos termos, para 'ões' (cf. camiões, aviões, corrimões, apagões e outros casos que tais).

     Não se trata de uma questão de religião nem de fé: na língua, fazem-se algumas conversões, concessões e alterações que uma gramática mais normativa entende como corrupções, mas que muitos estudiosos veem como variações, evoluções próprias de uma língua viva, sujeita a transformações. Algumas até demasiado presidenciais!

segunda-feira, 19 de março de 2018

Viajando... de comboio?

     Não é a propósito desta carruagem, nem tão pouco de nenhum comboio. Nela, contudo, fica sem que nele se viaje... porque de tempo (acima de tudo) se trata.

     Em torno de uma narrativa epónima (de um nome apenas para três personagens, feitas de uma só), compõe-se uma viagem no tempo.
    Assim se lê "George", esse conto de Maria Judite de Carvalho que configura as três idades de uma mulher, surgida como adulta aos olhos do leitor, no início e no final da narrativa. É este o ponto de partida (e será o de chegada) para alguém que, regressando à sua aldeia de infância, se reencontra com Gi (George na sua juventude, próxima dos vinte anos). Não se trata de relembrar ou recordar o bem passado; antes um tempo que George quer ver apagado, para que não se sinta presa / condicionada (tudo o que a quarentona de sucesso parece não querer).
      O passado esfumado, qual memória que se vai esgotando, é tempo recuado em mais de vinte anos; é rosto fixado num retrato de uma mala qualquer. É uma jovem que podia ser uma filha da protagonista; porém, surge como esboço, como figura de alguém com disposição para a partida - alguém que levará uma mala velha, de cabedal, para sair do "cu de Judas" (onde fica Carlos, que, ao contrário dela, se deixa prender). A reconstrução da memória é como uma pintura: inicialmente, apenas um rosto vago sem contornos, com o sorriso dos dezoito anos (bem distinto do de Georgina); depois, um reencontro, espelhando e  revendo o que não se quer presentificado.
      O presente é o instante do regresso à vila, para vender uma casa (para que nada prenda a um tempo ou a um espaço), pois George é mulher que não se quer ver agarrada a nada (a não ser, talvez, ao "último dos seus amores"). É o momento da consciência do duplo (ou do múltiplo) e de um percurso de errância, sempre na predisposição de partir, de viajar - até porque a vida é feita de constantes partidas / viagens / percursos. É ainda o tempo de despedida do passado e de uma viagem de comboio, qual metáfora da passagem do tempo. É o agora de uma vivência que se faz em Amesterdão, com um trabalho que agrada e faz da adulta George uma pintora bem sucedida, que adora viajar; que prefere os pensamentos agradáveis (feitos de um gosto materialista e de uma propensão para um controlo do tipo quem tudo pode e tudo quer - porque tudo tem).
       O futuro é encarado no momento em que vai o "comboio a fugir de dantes". Aparece, então, um novo esboço, o de Georgina, uma idosa que se sente só (por causa desse "crime" da velhice), com necessidade de retratos (o da menininha que foi Gi, saída da vila com uma foto no fundo da mala). Vê pior, as mãos enrugadas tremem (nada pior para quem foi uma conceituada pintora) e o "mundo já não lhe pertence", aos setenta anos.
     20, 45, 70 anos - a passagem do sorriso do dia para o da noite. O 'eu' no reencontro, na descentração, com o outro 'eu' (o de outros tempos, sejam passados sejam futuros). Nenhum deles George quer. Só o presente, o instante, o momento que controla, à mesma lógica das emoções que são contidas ("uma simples lágrima no olho direito, o outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar. É como se se negasse a compartilhar os seus problemas, não e não" / "Não tive desgosto nenhum, nenhum. Um encontro, um simples encontro...").

       A pretensa liberdade do 'eu'. A adulta que tudo julga controlar (inclusive o tempo). A pintora que expõe, que tem sucesso e acredita poder "fechar os olhos" a tudo o que lhe desagrada. Acredita que a mala cara, leve, de rodinhas não dará lugar a uma "carteira preta, cara, talvez italiana, italiana, sim". Porém, "tudo passa", por mais que a antecipação disso incomode George - título narrativo para um presente que dura (só até chegar o futuro).
      

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.

quarta-feira, 14 de março de 2018

"A vida seria trágica se não fosse engraçada"

     Pensamento tão certo para quem, melhor do que ninguém, sabia do que falava.

     Talvez tivesse razões para pensar ou dizer o contrário, mas optou por desfrutar do pouco que a vida lhe deu e do muito que conquistou. Aos dois ou três anos que resistiria juntou mais de cinquenta. Foi uma equação de conquista, na qual o poder da mente se impôs seja pela vontade de sobreviver seja pelos segredos que desvendou para a Humanidade, nos domínios da física, em particular, e da ciência, em geral.
    No mesmo dia em que Stephen Hawking morre, Albert Einstein celebraria 139 anos; na data em que nasceu (8 de janeiro de 1942) tinham passado 300 anos da morte de Galileu Galilei - coincidências ou intervalos de tempo que não deixam de juntar grandes nomes da ciência, para não falar de factos como os da celebração do dia do (3,141592653589793238462643383...).
     Reconhecido pelo trabalho desenvolvido e pela luta na sobrevivência, Stephen William Hawking procurou uma explicação para o Universo; também para a vida, quando lhe foi diagnosticada esclerose lateral amiotrófica (doença incurável e degenerativa motora que o aprisionou a um corpo que progressivamente deixou de controlar). 
     No filme "A Teoria de Tudo" (2014), com a excelente interpretação de Eddie Redmayne no papel do cientista britânico (o que lhe valeu o óscar de melhor ator em 2015), é possível contactar com esse surpreendente percurso, simultaneamente de degenerescência e de superação:

Trailer de 'A Teoria de Tudo', filme de James Marsh (2014)

      Em cerca de duas horas, o espectador, através do papel de uma personagem de ficção, encara o modo como uma personalidade real dos nossos tempos explorou o seu trabalho científico, focando o estudo daquilo que, cada vez mais, lhe restava menos: o tempo. Limitado no corpo, mas com a cabeça no universo, o nada e o tudo se conjugaram até hoje.


    Aos 76 anos, com a mesma idade de Einstein, Hawking deixa-nos com o seu contributo acerca da natureza da gravidade e da origem do universo; da teoria da singularidade do espaço-tempo, aplicando a lógica dos buracos negros a todo o universo; do seu best-seller Uma breve história do tempo (1988); do seu exemplo de vida, inspirador para todos aqueles que reclamam do que a vida lhes não dá ou lhes tira.

     Alguém que quis ser matemático e se tornou um génio da física. RIP.

terça-feira, 13 de março de 2018

Conjunções e outras coisas que tais...

   Nunca se deve negar um pedido de ajuda, mais ainda quando vem de quem nos merece consideração.

      Chegada a pergunta, preparo a resposta:

       Q: Venho por este meio pedir-lhe a seguinte ajuda para a seguinte questão:
             1.1. Identifica as frases em que a palavra sublinhada é uma conjunção.
            (A) Clio viu a confusão que tinha causado depois de ter adormecido.
          (B) Os automobilistas chegavam a Lisboa lentamente quando a confusão se instalou.
          (C) Ibn-el-Muftar alçou as mãos a Alá porque acreditava na proteção divina.
         (D) O português considerou a situação normal até chegarem os muçulmanos.
           Nos cenários de resposta, aparece como resposta as alíneas B e C. Será que a A também pode ser incluída ou é um pronome relativo?

      R: Efetivamente, em (A), 'que' é um pronome relativo, numa sequência frásica em que a palavra 'confusão' surge retomada. Tal retoma é feita ora na expansão do nome com uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva ora na articulação de duas orações: 'Clio viu a confusão' e 'Clio tinha causado confusão'. 
    Trata-se, portanto, de um 'que' anafórico, tendo como antecedente a palavra 'confusão'.
     Na medida em que esse 'que' introduz uma oração subordinada adjetiva, não poderá ser nunca considerado conjunção. Esta última, nos contextos de subordinação, é destinada, tipicamente, para introduzir orações subordinadas substantivas completivas ou subordinadas adverbiais.
        
        Na expectativa de que tenha sido esclarecedor, para o caso em concreto, fica o registo de que os cenários de resposta nem sempre erram; só não apresentam é o nível de consciência em que se deve fundar uma tomada de decisão (por mera escolha que seja).

segunda-feira, 12 de março de 2018

Gi-George-Georgina

    Afinal, (também) Maria Judite de Carvalho.

    Na sequência da abordagem do conto "George", nada como apresentar a autora da narrativa, a partir de um pequeno documentário sobre a vida e obra daquela que, na escrita literária, se (re)viu mulher em diferentes idades e se compôs na solidão.

Documentário da RTPN (2011)

    Um visionamento que prossegue o tratamento de um pequeno texto informativo (para deteção de linhas temáticas, marcas de construção narrativa e registos de inspiração biográfica) e incide sobre uma pré-tarefa a dar continuidade / complemento à recolha de dados relativos ao trabalho anterior.
     Dos muitos dados contemplados, sublinham-se os seguintes:
"As Três Idades do Homem e Três Graças", 
de Hans Baldung Grien, 1539 (Museu do Prado)
a) consciência em movimento (interior da alma) de personagens, dimensionada no âmbito do psicológico;
b) vertente realista de retrato de uma sociedade frustrada, oprimida, isolada, marginal;
c) consciência da velhice e dos idosos (que todos seremos) no ciclo da vida;
d) técnica do monólogo interior (na expressão de uma consciência partilhada do pensamento);
e) exigência da colaboração do leitor (corresponsável na construção de imagens narrativas, por exemplo, a do espelho, no caso de 'George');
f) vivência no estrangeiro (França, Bélgica), tal como George (em Amesterdão);
g) crença mais no talento de pintora (tal como George) do que no de escritora.

      Vamos, então, a "George" (que já foi Gi e será Georgina), narrativa epónima marcada por essa consciencialização do encontro do 'eu' consigo mesmo, pela representação do que foi e do que será, numa espécie de despersonalização, distanciamento, descentração para se poder ver na memória, ao espelho ou n(um)a bola de cristal.

     Uma narrativa tão reflexiva e deambulante quanto o que Bernardo Soares fez com Pessoa (ou o último no primeiro). Porque a consciência da vida é feita de procura, numa viagem que nos faz estar atentos ao que há à volta de todos nós e que nos leva a revermos o percurso já feito e/ou a prevermos o que estará para além de nós a cada instante.

sexta-feira, 9 de março de 2018

A propósito de anáforas... bem distintas.

      Feita a devida distinção entre o mecanismo linguístico de retoma e a figura de retórica, tudo vai bem.

       O problema está mesmo quando os dois processos são confundidos.

      Q: Quando aparecem palavras repetidas ao longo de uma frase, pode dizer-se que estamos perante a figura de estilo da anáfora? Estou a considerar o seguinte exemplo: "Quando a cidade acorda, não há cidade com a paz do campo. Não há cidade com paz."

      R: Não generalizaria a questão desse mundo, particularmente no que à figura de estilo diz respeito. Em termos de coesão do segmento proposto, pode dizer-se que há uma relação anafórica na repetição do termo 'cidade', mas a questão, neste caso, fica centrada na construção de uma cadeia de referência baseada na reiteração ou repetição lexical. Os três termos não são exemplo de anáfora como figura de estilo, mas de uma repetição sinónima de retoma (do já referido) que pode eventualmente resultar sugestiva no diferencial e no destaque que esse espaço adquira no texto em que surge - ainda assim, não a anáfora como recurso estilístico, por não se tratar de repetição de palavra em frases (ou versos, no caso de um poema) ou sequências sucessivas.
     Em termos de estilo, o exemplo que propõe pode apenas ilustrar a figura de estilo da anáforana construção 'não há cidade com [...]. Não há cidade com', na medida em que persiste, em frases / orações sucessivas, uma cadência de escrita apoiada na repetição não só do vocábulo 'cidade' mas também de uma construção sintática ('não há cidade com'), colocada no início de orações principais e tomada como fator cadenciado e sucessivo de construção.
     Não tomaria, portanto, o uso do primeiro 'cidade' na relação com os seguintes como exemplo de uma figura de estilo, mas sim de um mecanismo coesivo baseado num processo referencial anafórico (enquanto mecanismo linguístico). Aproximaria o segundo 'cidade' do terceiro (no seio de toda a sua construção frásica similar) enquanto efeito estilístico, sugerido por um ritmo cadenciado de segmentos sintáticos sucessivos (seja em prosa seja em verso), familiar a uma retórica literária interessada na exploração de efeitos expressivos e significativos motivados por uma intencionalidade distinta de sentidos mais literais, denotativos e/ou imediatos.
      Lausberg, no seu Elementos de Retórica Literária, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian ([1963] 1993: 174-175), apresenta a figura de estilo como sendo do tipo "... / X... /X...", em que X é a palavra, expressão ou construção repetida em segmentos sucessivos. É este o tipo que se revê em "..., não há cidade... Não há cidade...".

      Um mesmo nome (anáfora) não quer dizer que signifique o mesmo ora quando de mecanismo linguístico se fala ora quando de processo retórico e estilístico se trata.

domingo, 4 de março de 2018

Um condicional muito factual

    A propósito de História que daria um Livro... e deu mesmo!

    Foi ontem divulgada mais uma publicação do escritor e amigo Manuel Maria - uma produção, uma apresentação que ganhou nota de foro pessoal, não só pelo convite amigo que me foi endereçado (e permitiu o reencontro com pessoas de bem) mas também pelo facto de me ter, surpreendentemente, deparado com um romance que me foi dedicado.
    Abri-o. Sorri com a leitura das primeiras linhas, antevendo um José António tão feito de Manuel Maria quanto marcado pelo azul (quer pela nobreza de caráter quer pelo amor ao Futebol Clube do Porto). Será o reencontro com uma personagem que conheço desde a leitura de Checa é Pior que Turra (1996).
    Relembrado de como uma carta deste romance foi transcrita nas páginas de um manual de Português de que fui coautor, o capítulo VII da História que daria um Livro sublinha precisamente esse dado, num diálogo entre as personagens Estela e Silvana (Sissi):

   "- Procuro um livro. É sobre a guerra colonial. Vem aí o aniversário do Tito e gostaria que as filhas lho oferecessem. Tenho a certeza de que iria gostar. Apesar do divórcio, a sua relação com as miúdas continua a ser exemplar.
    - Ainda bem.
    - Acho que é o mínimo que nos resta.
    - E que livro é?
    - Chamou-me a atenção, porque tem uma carta de Natal reproduzida no manual de Português da mais nova.
    - Da Luna...
    - Sim.
   Abriu a pasta e retirou um manual de 10º ano, Das Palavras aos Actos, Edições ASA. Tinha uma marcador na página 152. Em fundo cinza, uma citação da obra a ocupar quase toda a página; no canto superior direito, um mapa do continente africano, com a localização exata de Moçambique, além da Península Ibérica, a norte, com o retângulo de Portugal. À margem, à esquerda, uma miniatura, a preto e branco, da capa do romance Checa é Pior que Turra.
    - Conheces? - Perguntou Estela.
   - Não. Não tenho ideia de o ter visto cá, mas deixa que chame o Zé António, que está no primeiro andar a arrumar uns livros. Pode ser que ele conheça."

      Conhecerá ele, por certo, a carta que escreveu, publicada num manual que cita um livro escrito por Manuel Maria. Como este último terá chegado à carta de José António, diria que são "contas de um outro rosário".

    Resta-me agradecer ao Man(u)el que tenha feito registar neste seu novo livro, quase vinte anos passados, um pedaço das nossas vidas, de projetos comuns, perdurados numa narrativa que certamente irei ler com a atenção que merece e com o desafiante sentido de como a ficção pode inspirar-se numa realidade que ultrapassa a(s) sua(s) fronteira(s).

sábado, 3 de março de 2018

"Sempre é uma companhia"

      Citando o título de um conto de Manuel da Fonseca, publicado em O Fogo e as Cinzas (1951) ou o discurso de uma personagem.

      Em qualquer uma das circunstâncias, a referência à telefonia é um dado, para além da sua perspetivação como uma novidade no tempo da narrativa. Centra-se neste facto o núcleo de uma intriga que, uma vez lida no conto mencionado, sempre me fez lembrar um episódio do filme 'O Costa do Castelo' (1943), dirigido por Arthur Duarte. A velhinha película a preto e branco traz, em registo cómico, o que oito anos depois o conto sugere, num contexto mais marcado pela visão neorrealista e pelo retrato de uma ambiência de desesperança a evoluir para a expectativa da mudança e para a construção da esperança possível.
  Nesta exploração interartística (cinema e literatura), há coincidências a rever, paralelismos a construir, referências culturais a traduzir para qualquer momento que se reveja como crítico face à ausência de sinais de alegria ou de felicidade no seio dos homens.
       Assim, (re)vê-se o segmento fílmico, tomando como pré-tarefa do visionamento a construção de aproximações entre o conto e o que a tela / monitor dão a perceber:

Excerto fílmico de 'O Costa do Castelo' (versão de 1943)

        Entre os tópicos possíveis de abordagem / aproximação, registam-se os seguintes:

      a) centralidade da telefonia na alteração de comportamento das personagens (a partir do jantar de aniversário familiar a dar lugar ao baile / animação / prazer);
    b) o portador da telefonia como introdutor do fator de mudança (apologista da mudança e da tecnologia), num contacto com o mundo e na sugestão da música como fuga harmoniosa para uma realidade alternativa ao vivido;
     c) o ato explicativo associado ao funcionamento do aparelho;
    d) um contexto persecutório (associado à personagem do jovem masculino) numa aproximação, ainda que por razões diferenciadas, ao contexto de produção de O Fogo e as Cinzas (a fuga de alguém a um controlo equiparável à ditadura de Salazar, tal como no ambiente de desfavorecidos tomados pela desesperança, a dar lugar a uma esperança possível);
    e) a data da realização fílmica e a da publicação de O Fogo e as Cinzas (onde se insere "Sempre é uma companhia") compreendidas numa época associada à ditadura e ao controlo despótico de Salazar;
     f) a leitura sociopolítica do excerto fílmico equiparada à abordagem sociopolítica de uma narrativa neorrealista (com foco na questão social, na procura de uma saída feliz para uma realidade adversa).

        Mais haverá por certo, numa sugestão convocada por sinais que um tempo propõe à luz do que um par de obras dispõe e o leitor / espectador (re)compõe.

     Um caso de como as memórias do passado (vivido) se redefinem a cada momento que a motivação (da leitura e das aulas associadas) se impõe.
    

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

De novo a Morfologia

       Ainda a formação de professores de Português.

     São doze profissionais a trabalhar comigo ao longo de quinze horas, começando hoje na Escola EB2,3 de Gondomar, a pedido do Centro de Formação de Escolas Júlio Resende.
      Quase apetece dizer que vou "morfologizar", à semelhança do ocorrido há cerca de dois anos, na Escola Secundária com EB2,3 Dr. Manuel Laranjeira. No início do ano foi mesmo por Valadares, na Escola Secundária Joaquim Ferreira Alves. Como não há duas sem três, chegou a vez de Gondomar:

Diapositivo de apresentação do curso de formação

       Trata-se de um curso de formação que procura contribuir para a aquisição de saberes atualizados, enformados por princípios metodológicos e/ou pedagógico-didáticos; o desenvolvimento de conhecimentos e competências numa rentabilização e/ou problematização do objeto de formação segundo os programas de ensino e documentos referenciais reguladores das práticas; a exploração de competências pedagógicas nos professores de Português, do ensino básico e secundário, de modo a integrar saberes e reflexões promotores de transposições e aplicações didáticas; a sensibilização e tomada de conhecimento - implicada, sustentada e fundamentada - de referenciais de trabalho que assentam em contributos das áreas da Linguística, da Literatura, da Didática e da Organização e Desenvolvimento Curricular; a discussão e a consciencialização de áreas ou pontos críticos no domínio linguístico da Morfologia e na sua interrelação com os programas de ensino, as metas de aprendizagem e o discurso pedagógico-didático.

       Numa área que parece ser fácil, muito há a estudar e a refletir, porque há generalizações e falsas aparências, à espera de uma maior cuidado (no mínimo, um dicionário com informação etimológica e morfológica. 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Da poesia fílmica ao filme poético

      É neste círculo fechado (e mágico) que o espectador se mantém até que a realidade (demasiado real) volta.

      Aos primeiros acordes da banda sonora, há como que uma nota de encantamento a conduzir-nos para um universo de que a música é uma das portas entreabertas (diria mesmo que ela evoca a identidade com um filme a ser recordado e relembrado por uma melodia que, mal se faz ouvir, nos transporta para a presença de "uma princesa sem voz" e de um ente com tanto de feérico como de selvagem, mas bem mais sensível no olhar e no toque do que alguns dos humanos representados).
     Recuada até aos anos sessenta do século XX e ao contexto da guerra fria, a intriga narrativa convoca o registo do fantástico, no qual uma relação amorosa entre uma empregada de limpeza (de um laboratório militar) e um anfíbio (na luta pela sobrevivência) cresce na base do silêncio, do sorriso, do olhar, do toque. É no seio da água que a aproximação se constrói, alimentando essa outra vida que paira sobre a realidade e se afirma como alternativa sensível, sentida e poética, culminando na citação dos versos "Unable to perceive the shape of you, I find you all around me. Your presence fills my eyes with your love".

Trailer do filme de Guillermo del Toro 

     Se "The Shape of the Water" (2017), realizado pelo mexicano Guillermo del Toro, é uma forma de (re)encontro com o universo do fantástico, do mágico e do poético na tela cinematográfica - para fugir à vida, por vezes, dura e crua (diria, demasiado real) -, não deixa de espelhar o que esta nossa vida tem de mais preconceituoso e tomado como marginal: a jovem muda, Elisa Esposito, homónima dessa outra personagem do "My Fair Lady"(Sally Hawkins); o ser (Doug Jones) que, na sua diferença física, se mostra mais homem do que alguns outros que nem merecem ser chamados de tal; o vizinho homossexual Giles (Richard Jenkins), pintor sem sucesso e vítima da vaidade, tornado cúmplice na proteção dada por Elisa à criatura fantástica; o casal negro, com a mulher vítima (Octavia Spencer) de um marido desdenhado e inútil. Não menos marginal é o monstruoso e sádico agente policial Strickland (Michael Shannon), ainda que representativo de uma das forças sociais marcadas por um poder tirano e impiedoso que vemos derrotado às mãos de uma figura estranha e monstruosa com a qual o espectador se identifica pela justiça e pela sensibilidade por ela trazidos à história - afinal, duas condições essenciais de sobrevivência na vida. Aos primeiros dá-se o sentido virtuoso dos que buscam a felicidade, o prazer, a beleza interior e o valor dos justos; ao último, o que há de mais maléfico, para não dizer abjeto.
    Na perspetiva de um narrador que se identifica com a personagem Giles, o universo de fantasia e magia constrói-se na afirmação do amor; na apologia das minorias ou dos desajustados da sociedade, no direito que têm de fazer o seu caminho; na valorização do espetáculo da dança e do cinema musical; na afirmação de que há "guerras frias" bem contemporâneas que não permitem a felicidade ou que sublinham a ideia de que qualquer monstro é mais justo e sensível diante de uma vida composta por perversões.

   Um exemplo de como uma muda e uma criatura-monstro se tornam heróis por aquilo que conseguem conquistar: sentir, amar, viver fora de uma realidade escura, à vista de todos, sem princípios ou valores sociais que dignifiquem o ser humano. Um filme belo sem deixar de ser um belo filme.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Cores de um fim de domingo

       Na rapidez com que passa o fim de semana. 

    Do pouco tempo que houve para respirar em dois dias de merecido descanso (que devia ser sem trabalho), ficou um breve momento em que o colorido do fim de dia se mesclou com a depressão de que amanhã se regressa à azáfama (na qual já me deixo ir mais na onda do que no controlo do tanto que há para fazer):

Quadro natural, num fim de domingo junto ao mar... a trabalhar (Foto VO)

     O escuro anunciado da noite está para o pensamento depressivo de que segunda-feira está já aí;  as restantes cores estão para o dia de sol que findou, porque não há bem (por mais relativo que seja) que sempre dure.

      Espero que o resto do provérbio se cumpra: nem mal (também relativo que seja) que não se acabe (resta focar na sexta à noite que está para chegar).

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Ainda o desassossego

      Desta vez, fico-me pelo Livro do Desassossego (que já teve versão fílmica).

    Trabalhados alguns fragmentos, fica a sensação de um Bernardo Soares que ecoa o ortónimo, bem como os heterónimos, num registo prosaico feito da poesia e do pensamento plasmados em alguns versos familiares aos olhos dos leitores pessoanos.
     Na proximidade com o criador, Bernardo Soares é um semi-heterónimo (no seio de outros dois) que muito contribuiu para a dimensão reflexiva da obra completa do criador poético; um prosador que observa e transfigura a cidade, os ambientes, o quotidiano à semelhança de Cesário; que trabalha e reflete sobre a língua (pois gosta de "palavrar"); que explora o sonho como libertação do sono da vida (ou da "salada coletiva da vida").
     É na dualidade de um Pessoa-Soares ou de um Fernando-Bernardo que o ser-sombra se compõe, como se pode depreender do documentário seguinte (a abordar um livro, que é simultaneamente vida, de desassossego):

Documentário com montagem a partir da série televisiva "Grandes Livros" (RTP-1)

     Mais do que um Vicente Guedes (aristocrata falido que ganha a vida como empregado de escritório) ou o Barão de Teive (com morte anunciada, e que decide escrever antes de se matar), Bernardo Soares é o pensador moderno na reflexão sobre o abismo da alma humana, reportando uma vivência de angústia, numa sociedade feita de desalento e numa época tão crítica quanto criativa. Nesta, a alma do escritor é "uma orquestra oculta", sem saber "que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores"; só se conhece como sinfonia e vê a infância como saudade da emoção desse momento de "grande certeza sinfónica".

       Sem sentimento político ou social, Bernardo Soares assume-se pelo alto sentido patriótico: a sua pátria é a língua portuguesa.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Quase a terminar janeiro e...

      ... vem aí mais do mesmo.

      Quem construiu o programa de 12º ano da disciplina de Português, de facto, ou gosta muito de Pessoa ou contribui definitivamente para alguma saturação: ele é ortónimo - nas construções poéticas curtas e na obra Mensagem -, mais heterónimos; junta-se o semi-heterónimo Bernardo Soares e, para fechar, volta-se, com Saramago, a um universo pessoano com O Ano da Morte do Ricardo Reis. Faltou algum doseamento, num indisfarçável propósito de ver em Pessoa toda uma literatura, porque ele é todo um conjunto de poetas em verso, contista e prosador exímio, dramaturgo de uma peça ou cena com faces / máscaras / caracterizações "em gente".
        A riqueza e diversidade do poeta modernista são enormes, por certo. Falta saber se a adesão à multifacetada obra se consegue com a insistência na leitura de tanto verso, pensamento e (re)construído, criativo universo. Por mais que a multiplicidade se verifique, não deixa de comparecer a unidade: a de um criador que ecoa nas suas criações ou a da convergência de sensibilidades várias e aglutinad(or)as no escrito. É um Pessoa que se exprime, por fingimento artístico, através de várias pessoas e estéticas ou estilos diversos, numa representação feita em um só palco, mas com a fragmentação do ser própria do artista que se confronta com múltiplas verdades.

       Um Fernando Pessoa(s) acompanha os nossos dias, até não sei quando, à espera de uma linha de fronteira que se esbata no jogo do real ficcionado ou da ficção que tem muito de real concentrado num romance.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Desassossego(s) escusado(s)

      Quando as soluções não ajudam.

     Do bom exemplo que os profissionais devem dar quando se confrontam com soluções indesejáveis (pois, as das bandas esquerdas / direitas dos manuais que alguns dizem ser uma mais-valia):

      Q: Ao ler um fragmento do Livro do desassossego, de Bernardo Soares, faz-se a progressão das expressões "nas costas do homem" para "nas costas do meu adiantado" (do homem que está adiante). Num exercício do manual, pede-se o mecanismo de coesão exemplificado e a solução dada é "coesão lexical por substituição (sinonímia)". Fiquei com dúvida, pois acho que se trata de um exemplo de correferência não anafórica.

     R. Trata-se, de facto, de correferência não anafórica. Nem se trata de uma questão lexical apenas, pois não é um caso de substituição sinonímica entre termos / vocábulos, com equivalência comprovável em termos de dicionário (não se pode concluir, obviamente, que 'adiantado' seja sinónimo de 'homem'). 
     Está em jogo a construção de uma cadeia referencial assente na progressão da expressão "(costas d)o homem" para "(costas d)o meu adiantado", com a perífrase 'o meu adiantado' a associar-se a 'o homem'. Tal associação é configurada por grupos nominais que não têm implicação obrigatória / necessária entre si: nem todo o adiantado tem de ser (o) homem, nem o homem tem que estar adiantado. Se o está no texto / fragmento (são termos correferentes), é por conhecimento textual equiparável a conhecimento de mundo / enciclopédico resultante do que se lê. É na pragmática da relação leitor-texto e na realidade extralinguística dos enunciados lidos que a relação das expressões sai construída.
       Em suma, desfaça-se a dúvida e esqueça-se a solução.

     Tal como o título da obra de Bernardo Soares o indica, as soluções dos manuais fazem destes, por vezes, um "livro de desassossego".

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A nova velha... e as mudanças!

     Quando se anuncia a novidade de um documento que enformará a vida da escola,...

      ... é bom que o documento traga algo de novo (de novidade) e não algo de novo (outra vez). 
   Tudo a propósito de uma conferência a que assisti hoje e da divulgação do "Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória" (através do Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho), encarado como referência para as escolas e para a sua organização (bem como de todo o sistema educativo), visando a convergência e a articulação das decisões curriculares com as práticas docentes e as aprendizagens do futuro (próximo).
      Quando a anunciada mudança se compagina com um conjunto de valores e princípios - os do humanismo, da responsabilização, da liberdade e da autonomia, das áreas de competências e de integração de projetos -, poder-se-á perguntar onde reside a novidade. De Dewey aos fundamentos da pedagogia moderna explicitados por Carl Rogers, pode dizer-se que o novo já tem praticamente um século. Muita formação docente (inicial, contínua e continuada) se apoiou nessa abordagem / equação tão propagada, no mínimo (senão antes), desde os anos oitenta do século passado. 
      Que a gestão / organização das escolas deve ser outra para se compatibilizar com esses princípios, não há dúvida - dos espaços, tempos e recursos materiais à perspetivação dos profissionais que nelas trabalham. Mudanças substantivas, não episódicas ou conjunturais, são requeridas na forma como as escolas públicas e os sistemas escolares são concebidos e no modo como são geridos, na consciência de como o público  (jovem e adulto, ou com espírito sempre jovem) que os frequenta irá ter uma palavra a dizer no que deles quer, em termos de integração, partilha, utilização de recursos, colaboração e, nomeadamente, distribuição de poderes. Também isto não é novo, pelo menos na literatura especializada sobre a administração escolar e as estruturas de gestão / participação da vida escolar.
    Talvez passar das palavras aos atos seja o passo que muitos veem como gigante, para os pés ainda sentirem o chão ou para que os voos não se façam desasados. Não pode é entender-se tais posturas de reserva como a recusa do novo (que já não o é) nem justificar-se alguma desconfiança como sinónima da apologia de práticas rotineiras ou do passado, tomadas como gerais, assentes na mera reprodução acrítica, em tecnicismos prolixos ou em disposições não participativas ou não interativas. Como se todos os docentes não fizessem mais do que isto. Muitos dos constrangimentos para a mudança passam por condições que, frequentemente, nem externa nem internamente, são garantidas para que ela aconteça além da letra ou da orientação discursiva. Nem sempre o espírito do texto se compatibiliza com os investimentos (de vária ordem, não só financeiros) que se impõem. Desfasamentos entre as orientações para a ação e a ação propriamente dita sempre os houve e sempre haverá, não sendo um documento ou decreto que os fará desaparecer. Daí que o futuro não se construa apenas pelo que se dá a ler ou a saber.
     A disponibilidade e a motivação para a sua concretização passarão, por certo, pela articulação entre palavras e atos, focando uma maior integração e coerência (vertical e horizontal) dos documentos curriculares, programáticos e organizacionais, nomeadamente na estruturação das aprendizagens a desenvolver ao longo da escolaridade. Daí também a necessária promoção de uma gestão mais articulada e integradora, nomeadamente flexível no que à concretização do currículo diz respeito (contrariando, definitivamente, essa ideia que alguns ainda têm de que todos a fazer o mesmo, ao mesmo tempo e, se possível do mesmo modo faz ensinar / aprender melhor). Neste sentido, a atuação política e a das organizações escolares / educativas serão fulcrais para a orientação e concretização da ação docente, atualmente limitada pelos currícula, pelos programas e metas definidos, pela forma como os espaços e tempos são geridos pelas escolas, pela distribuição de serviço docente e pelo modo de constituir turmas. Não menos importantes são as formas de liderança nas escolas (mais ou menos centralizadoras), a formação docente (tanto a inicial como a contínua) e a construção de equipas educativas mais focadas na colaboração, partilha e conjugação para a construção e consecução de projetos.
     Das implicações apontadas e das orientações preconizadas se faz a mudança pretendida, talvez nova na ação; não tanto nos pressupostos teóricos do texto ou documento em divulgação. Impõe-se a sensibilização para a primeira, com os sinais necessários da ação política e da gestão das escolas, de forma a fazer perceber que ela seja possível, para que não se caia exatamente na posição oposta: a de que a mudança não é (foi) possível nem necessária. Cair-se-ia numa quase reprodução de um discurso que se vai ouvindo e que parece legitimar o que não faz (muito) sentido para lá das palavras:

Excerto do programa televisivo "Melhor do que falecer" (episódio 10), na TVI (2014)

      (Bom seria que o cómico deste sketch fosse um sintoma do ridículo do que é dito; por vezes, creio que se torna mais do que isso, pelo que se ouve de apologia, por vezes, do passado e de um sentido de liberdade em que alguém se [re]vê como não tendo "serventia para ela").

     Com um bom comunicador e um espírito interessante (não obstante algumas generalizações dispensáveis e redutoras), pode dizer-se que o momento da conferência inicial sobre "Biblioteca Escolar / Perfil do aluno do século XXI" permitiu esquecer alguns cansaços acumulados, embora a perspetiva do futuro preconizado não deixe de se revelar, por ora, incerta e nebulosa. A ver vamos se não será canseira a redundar em novo cansaço.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Morfologizemos - II

    Voltando à Morfologia, na formação de docentes.
   
   Dezanove formandos estão a trabalhar comigo, a partir de hoje e num total de quinze horas de formação. Desta feita na Escola Secundária Dr. Joaquim Ferreira Alves (Valadares), a pedido do Centro de Formação Aurélio Paz dos Reis.
    Vou "morfologizar", pela segunda vez, com o programa formativo proposto há dois anos na Escola Secundária com EB2,3 Dr. Manuel Laranjeira:


Diapositivo de apresentação do curso de formação

       Um curso de formação que visa a aquisição de saberes atualizados, segundo princípios metodológicos e/ou pedagógico-didáticos; o desenvolvimento de conhecimentos e competências numa rentabilização e/ou problematização do objeto de formação segundo os programas de ensino e documentos referenciais reguladores das práticas; a exploração de competências pedagógicas nos professores de Português, do ensino básico e secundário, de modo a integrar saberes e reflexões promotores de transposições e aplicações didáticas; a sensibilização e tomada de conhecimento - implicada, sustentada e fundamentada - de referenciais de trabalho que assentam em contributos das áreas da Linguística, da Literatura, da Didática e da Organização e Desenvolvimento Curricular; a discussão e a consciencialização de áreas ou pontos críticos no domínio linguístico da Morfologia e na sua interrelação com os programas de ensino, as metas de aprendizagem e o discurso pedagógico-didático.



     Mais uma oportunidade de partilhar experiências, saberes, desenvolvendo o espírito crítico que se impõe face a materiais, discursos e práticas muito rotinizadas e reguladas por publicações com muito que se lhe diga.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Dor mitigada (?)

        Ocorre-me pensar mais em lágrimas de crocodilo do que nas de verdadeiro sofrimento.

        Não se trata de pensar no réptil a pressionar o céu da boca quando ingere alimento e comprime as glândulas lacrimais (chorando de prazer quando devora a vítima), mas de chorar fingidamente. E, no que toca a dor, esta é a de ver tanto erro no meio de uma daquelas mensagens de sentimentalismo balofo que circulam pelas redes sociais:

Imagem recolhida de posts que circulam pelo Facebook

      O acento gráfico agudo (´) é o mais comummente utilizado na língua portuguesa; o grave (`) surge apenas nas situações de contração ou de vogal em contexto de crase (a+a > à; a+aquele > àquele; a+aquela > àquela; a+aquilo > àquilo). Portanto, DÓI ver o acento errado nalgumas palavras; a ausência do certo noutras (LÁGRIMA) e o uso excessivo do erro em CAIR (sem cento, claro). É que nem de indecisão se trata; é pura ignorância de como escrever bem (e, pelos vistos, tão familiartão generalizado aos nossos olhos de leitores e consumidores).

       Diga-se que é de chorar de tristeza tanta ignorância (isto se não for para chorar de riso com o ridículo), por mais que o pensamento lido faça sentido. Contudo, a seriedade da mensagem banaliza-se perante a escrita lamentável que a traduz. Nem dá para levar a sério!

sábado, 13 de janeiro de 2018

A História do Porquinho

        Não se trata da história dos três porquinhos para a hora de deitar...

      É antes uma narrativa para acordar e lembrar “A Hora Mais Negra”, com um Porquinho só, como familiar e afetivamente a esposa o tratava. É também assim que Winston Churchill surge aos olhos e ouvidos do espectador cinéfilo, tudo porque um filme dirigido por Joe Wright tanto mostra a personalidade deste líder histórico do século XX como expõe as fragilidades desse homem forte, porque imperfeito, e poderoso, porque soube ser só.

Trailer do filme "A Hora Mais Negra", de Joe Wright (2017)

      É com estes atributos – força, imperfeição, poder, solidão – que o primeiro-ministro inglês de Jorge VI nos é dado a conhecer no contexto da II Guerra Mundial, enfrentando um Hitler e um Mussolini, mais todos aqueles que, no seu país (Reino Unido), o viam como indesejado, irrefletido e tempestuosamente irascível. Além disto, tinha apenas para oferecer sangue, trabalho, lágrimas e suor (o que, seguramente, muitos não queriam), quando um caminho mais fácil (por aparente e enganador que fosse) era percebido como menos penoso.
  Na interpretação de Gary Oldman (recentemente galar-doado com um Globo de Ouro pelo papel desempenhado), a personagem Churchill é secundada por Lily James (a secretária Elizabeth Layton) e Kristin Scott Thomas (no papel da esposa Clementine – Clemmie -, que aceita a figura pública que o marido sempre quis ser), também relevantes na solidificação dos pilares e dos princípios de um homem que se torna uma referência do século XX. Nomeadamente, foi-o para a História enquanto figura de liderança que adotou princípios, defendeu convicções válidas e se revelou grande na ação, estando ao lado e do lado das mudanças que afasta(ra)m o despotismo, o poder autocrático, a tirania e tudo o que desvia a Humanidade de um caminho integrador, inclusivo e tolerante. Em suma, um exemplo para alguns dos que contemporaneamente se encontram no poder.
     Há imperfeições que são menores face à grandiosidade dos valores e princípios por que se luta. Neste sentido, a frase “Quando a juventude nos falha que a sabedoria nos valha” acompanha bem uma personagem que se revela sábia, mesmo quando o medo se impõe ou quando poucos apoios tem para o que há a fazer. Assim se cumpriram os tempos; assim se revê um homem que mudou, porque só os que não mudam é que não fazem nem trazem mudanças.
    Este é um filme largamente argumentativo (até pelos exemplos retóricos de Cícero e Horácio que inspiravam Churchill); persuasivo na construção de identidades e de condução de mentalidades. 

     Um filme educativo, a explorar e com lições de vida merecedoras de discussão - na consciência de que há movimentos de força conjuntos, impositivos, que nem sempre fazem sentido perante o que mais deve dignificar o Homem; na constatação de que um homem pode fazer a diferença por aquilo em que acredita e que, mais cedo ou mais tarde, sai legitimado.