segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Uma série para as segundas

       À segunda-feira, na RTP1, garantem-se noites de qualidade televisiva.

      Por algumas semanas (oito), enquanto durar a série O Nome da Rosa, baseada no romance de Umberto Eco (1980), haverá a oportunidade de acompanhar o percurso de Adso (de Melk) e Guilherme (de Baskerville) - personagens que vivenciam uma série de crimes num mosteiro beneditino do norte italiano, em plena época da Baixa Idade Média.
       Se a versão fílmica de Jean Jacques Annaud (1986) projetou a obra a ponto de a tornar um clássico (cruzando romance investigativo com ação detetivesca, fanatismo religioso, luta pelo poder e pelo acesso ao saber, confronto do sagrado com o profano, erotismo, crime e violência em contexto medieval), a série da RAI FICTION (2019) adiciona aos ingredientes anteriores o pormenor, os grandes planos e a qualidade de imagem, a par da brilhante atuação do protagonista (John Turturro) e da realização de Giacomo Battiato.

O 'quarteto' maravilha da série, sem Jorge de Burgos: 
da esquerda para a direita, Bernardo Gui, o ganancioso Abade, William de Baskerville e Adso de Melk

      Tal como na obra de Eco, Adso apresenta-se como narrador, um monge já idoso a rememorar o percurso feito, enquanto jovem, junto do afável, sensato, perspicaz e enigmático mestre Guilherme de Baskerville (John Turturro), um monge franciscano com a argúcia típica dos bons detetives aliada a uma fé cristã humanista. Assim se reconstrói o experienciado na base da memória e do que ela possa recuperar, passado muito tempo:

      "No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto a Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto a Deus e o dever do monge fiel seria repetir cada dia com salmodiante humildade o único evento imodificável do qual se pode confirmar a incontrovertível verdade. Mas 
videmus nunc per speculum et in aenigmate e a verdade, ao invés de cara a cara, manifesta-se deixando às vezes rastros (ai, quão ilegíveis) no erro do mundo, tanto que precisamos calculá-lo, soletrando os verdadeiros sinais, mesmo lá onde nos parecem obscuros e quase entremeados por uma vontade totalmente voltada para o mal.
    Chegando ao fim desta minha vida de pecador, enquanto, encanecido, envelheço como o mundo, à espera de perder-me no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta, participando da luz inconversível das inteligências angélicas, já entrevado com meu corpo pesado e doente nesta cela do caro mosteiro de Melk, apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos miríficos e formidáveis a que na juventude me foi dado assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem me aventurar a tirar disso um desenho, como a deixar aos que virão (se o Anticristo não os preceder) signos de signos, para que sobre eles se exercite a prece da decifração.
   Conceda-me o Senhor a graça de ser testemunha transparente dos acontecimentos que tiveram lugar na abadia da qual é bem e piedoso se cale também afinal o nome, ao findar do ano do Senhor de 1327 em que o imperador Ludovico entrou na Itália para reconstituir a dignidade do sagrado império romano, segundo os desígnios do Altíssimo e a confusão do infame usurpador simoníaco e heresiarca que em Avignon lançou vergonha ao santo nome do apóstolo (falo da alma pecadora de Jacques de Cahors, que os ímpios honraram como João XXII).
     Quem sabe, para compreender melhor os acontecimentos em que me achei envolvido, é bom que eu recorde o que andava acontecendo naquele pedaço de século, do modo como o compreendi então, vivendo-o, e do modo como o rememoro agora, enriquecido de outras narrativas que ouvi depois - se é que a minha memória estará em condições de reatar os fios de tantos e tão confusos eventos."

Trailer oficial da série televisiva, realizada por Giacomo Battiato

       Mestre e pupilo veem-se, então, envolvidos numa série de assassinatos, que, para muitos, é obra demoníaca; todavia, e afinal, nada mais é do que fruto de uma mente perversa, que exerce influência no mosteiro (em particular, na sua biblioteca). Na perversão e depravação de quem não olha a meios para atingir fins, a "cegueira" pelo poder não é muito distinta da hipocrisia e da egolatria fundamentalista do inquisidor Bernardo Gui (Rupert Everett), que faz questão de punir qualquer suspeito de heresia (nomeadamente William de Baskerville).

    O nome da Rosa -  título simbólico que, na época medieval, expressava o enorme poder das palavras. Daí a centralidade de uma biblioteca na história e o universo das obras proibidas pela Igreja (nomeadamente, A Comédia, de Aristóteles), que Jorge de Burgos pretende dominar. Uma metáfora e reflexão para o poder e controlo no acesso à informação; para a transição de mundividências (do pensamento obscuro, místico e pretensamente religioso medieval para um raciocínio mais esclarecido, renascentista, humanista); para o tempo que tudo leva, dele restando apenas as palavras, os nomes (porque, da rosa de outrora, fica apenas o nome).

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Leonardo

      Começou bem o ano televisivo, com uma série sobre um grande para a Humanidade!

    O título disse tudo: "Leonardo". Sim, o que nasceu em Florença, em Vinci (comuna italiana, na Toscana). Daí, Leonardo Da Vinci. 

Leonardo (centro), Caterina (esquerda) e o investigador da polícia (direita) - imagem representativa da série

    Em duas semanas foi exibida, na RTP1, uma série datada de 2021, com realização em países europeus como a Itália, o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Espanha, bem como nos Estados Unidos da América. Enquanto figura das mais importantes no Alto Renascimento (nas áreas das artes e das ciências), Da Vinci foi apresentado com algumas fragilidades e pontos críticos no seu percurso biográfico; foram identificadas as suas influências, as suas invenções, sem esquecer o relevo de muitas das suas obras-primas. Encarado como o próprio arquétipo do Homem do Renascimento, foi retratado como polímata, dotado de talentos diversos e obcecado pela perfeição.

Encontro pessoal com a estátua de Leonardo da Vinci, em Milão

      Na representação desta figura, o ator Aidan Turner deu corpo a um protagonista histórico, numa intriga criada por Frank Spotnitz e Steve Thompson. 

Trailer oficial da série televisiva exibida na RTP1

     O ponto de partida foi localizado na cidade de Milão, em 1506, quando Leonardo da Vinci foi preso por ser falsamente acusado de envenenar Caterina de Cremona. Entre intrigas palacianas e detetivescas, houve toda uma analepse para recuperar a juventude (quando aprendiz no estúdio de Andrea del Verrocchio, onde conheceu Caterina) e a infância (quando abandonado pelo pai); refez-se todo um percurso de vida, pautado por descobertas, desistências, frustrações e conquistas, ganhos e perdas, amores e desamores, rivalidades, enganos e desenganos, com a entrega fiel ao que escolheu como família, paixão e projeto de vida.

   Na contracena, Matilda De Angelis (Caterina), Alessandro Sperduti (Tommaso Marsini, o companheiro de artes) e Carlos Cuevas (o amante Salai) enquadraram a vivência marcante desse artista e cientista, explorando a dimensão emotiva, pintada de várias tonalidades, na genialidade do autor de "Mona Lisa (ou Gioconda)" e "A Última Ceia".

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Publicidade azeda

      E quando há virtudes na publicidade, eis que fica tudo estragado.

     Um regalo para os olhos e para a saúde, quando se anunciam bolos sem açúcar (até se torna aceitável a inusitada maiúscula):

      Come-se com os olhos, mas azeda-se a gramática (ou como os bolos e doces ficam uma desgraça)

      Agora, "Os bolos e doces... não leva..." não lembra ao Diabo! A falta de concordância entre o plural do sujeito (composto, ainda por cima) e o singular na forma verbal é de bradar aos céus e aos infernos (já que mencionei o maléfico).

      Acho que vou buscar um pouco de açúcar para adoçar algum do meu azedume. Nem saúde nem natural (na língua)!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Da esquerda à direita, os particípios da desgraça!

    Nos tempos de antena política, com os debates em curso, as figuras representantes dos partidos deixam muito a desejar (também) na língua.

     Para começar, antes do confronto Costa (PS) - Ventura (CHEGA), na RTP1, a receção feita a António Costa dá lugar a uma pequena entrevista, na qual o ainda primeiro-ministro produz a primeira das falhas:

Fotomontagem a partir da imagem difundida na RTP Play (com citação das palavras de António Costa)
     
     Na SIC, com Catarina Martins (BE) e João Cotrim de Figueiredo (INICIATIVA LIBERAL) é a vez de chegar a segunda:

Fotomontagem a partir da imagem difundida na SIC (com citação das palavras de João Cotrim de Figueiredo)

      Digamos que os verbos com duplo particípio são questão crítica no uso da língua, com o costume de se indiferenciar muitas vezes a forma fraca e a forma forte do particípio. Numa perspetiva de gramática normativa, está identificada a primeira como sendo a utilizada com os verbos auxiliares 'ter' e 'haver'; a segunda, com 'ser' e 'estar'.
    Ora, no caso da réplica de Costa, o verbo 'eleger' (com os particípios elegido / eleito), há que reconhecer a predicação 'SER ELEITO' (e não 'ser elegido', considerada agramatical) - daí a correção que se impõe: ter sido eleito. Poderíamos sempre abordar também a escolha do verbo 'eleger' (por se referir uma situação que não deu lugar a eleição, mas, sim, a consideração / julgamento / avaliação), mas isso seria outra questão que, por ora, não é para aqui chamada.
      Já a fala do líder da Iniciativa Liberal é reveladora da clássica confusão entre, por um lado, os verbos 'morrer' e 'matar', ambos com admissão do particípio passado 'morto'; por outro, do contraste 'matado / morto' no que toca ao verbo 'matar'. Pragmaticamente reagindo à insinuação de que o seu partido estaria a 'matar' portugueses com as opções defendidas no passado,  João Cotrim de Figueiredo profere a frase que deveria ter a seguinte configuração final: "teria matado". É o verbo auxiliar 'ter' que está em questão, o qual seleciona a forma fraca ou regular de matar (matado). 'Morto' seria para a construção com auxiliar 'ser' ou 'estar'.

     Portanto, independentemente dos programas políticos que nem sempre são claros, a língua está a revelar alguns pontos muito escuros e escusos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Acerca de 'mentora(n)dos'

      Eu que nem sou mentor, lá vou abordar o tópico.

      Chegada a questão, feita alguma pesquisa, cá segue a resposta:

      Q: Olá Vítor,
         Preciso de ajuda no seguinte: tenho pesquisado e não consigo perceber se aquele que é alvo de um processo de mentoria deve ser referido como o "mentorado" ou "mentorando". Qual das duas é correta? Ou são ambas? Ou nenhuma? Obrigada!

Mentor, mentorado ou mentorando... fica a parceria e a colaboração.

      R: Olá. Na verdade, ambas estão corretas e dicionarizadas.
       Por norma, numa análise semântica estreita, aquele que se encontra integrado ou se encontra em acompanhamento de mentoria (em curso) designa-se 'mentorando' (por analogia com mestrando, que se encontra a realizar o mestrado, e doutorando, a realizar o doutoramento); o 'mentorado' é identificado como aquele que é ou foi objeto de mentoria, sem que esteja propriamente em questão se está no seio do processo em si mesmo (pode encontrar-se apenas indicado para tal e ainda não estar envolvido / implicado no processo em causa, ou pode ser mencionado como aquele que esteve envolvido em mentoria, mas já não se encontra nessa condição).
       Vulgarmente, os dois termos são tomados como equivalentes; porém, o primeiro é o mais adequado para descrever a condição do processo de mentoria em curso.

      Não sei se chegarei a mentor ou a mentorado; por ora, vou mentorando (daí que esteja mais para este último do que para o anterior). Quanto ao primeiro,... muito caminho a fazer.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

O Pouso das Gaivotas

      O "mamarracho" vai ganhando os seus encantos,...

      A começar o dia, nada como contemplar um muro de betão e descobrir que vou passar a ter a visita dos olhares indiscretos das gaivotas. Seja no poste de luz seja no teto aberto do espaço multiusos (vulgarmente aqui chamado de "mamarracho"), ambos são pousos, locais de descanso para aves que, por momentos, se afastam do mar.

As gaivotas "indiscretas" (Montagens de fotos - VO)

      Olhando para elas, dá para esquecer uma obra que estava para ser concluída em 2020:

O anúncio, no JN, do fim de uma obra que está por acontecer (passados dois anos!)

       A todo o momento lá vêm elas, em voo rasante ao teto aberto, para, no fim, pousarem no rendilhado que encima o betão.

O voo da(s) gaivota(s) (Foto - VO)

        ... tão voláteis que ainda estão a aguardar pela inauguração.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Previsão falhada

    Esperemos que não se concretizem os números apontados, até porque a previsão já falhou.

    Para não variar, o final e a abertura do ano dão lugar a balanços e/ou previsões a alimentarem o espetáculo televisivo. Na "ciência" dos dados, há erros que são mais do que evidentes, a julgar pelos rodapés noticiosos:

Previsões que falham - é preciso ter falta de visão na correção da língua.

    A brincar, costumo dizer que para 'ver' há dois olhinhos (apesar de alguns, não os tendo, verem mais do que quem os tem), pelo que dois 'e' fazem a diferença. O contraste 'vêm' (do verbo vir) / 'veem' (ver) é bem distintivo. Etimologicamente, os dois 'e' são a prova de uma síncope que os juntou, até que se processou a contração-crase (vedere > veer > ver).
     'Vem / vê' (terceira pessoa do singular) e 'vêm / veem' (terceira pessoa do plural) são formas verbais, respetivamente, de vir / ver - casos críticos na ortografia, mas que qualquer comunicador deverá reconhecer e usar com correção.

    Com falhas destas, não há peritos que possam resistir. Assim, o que preveem deixa de ter impacto (pela deslocação da atenção de quem lê para o erro). Há quem precise de ficar confinado a ler regras ortográficas.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Primeiro filme do ano com uma das Brontë

     O ano 2022 entrou e foi tempo para relembrar a obra-prima de Charlotte Brontë.

   Na lista da Netflix figurava o título Jane Eyre - homónimo do romance da literatura romântica inglesa (vitoriana) na linha da narrativa pessoal, isto é, da evolução de uma personagem chamada Jane Eyre. Foi esta a escolha para abrir o ano em modo cinema televisivo.
   Pode mesmo falar-se, a partir da narrativa em que o filme se baseia, de uma busca de "personal fulfillment" no percurso de uma personagem desde os seis aos vinte / trinta anos. A obra assenta na estrutura básica de uma viagem, referenciando cinco espaços perfeitamente distintos da zona de Yorkshire, a corresponder a fases distintas da vida da protagonista: Gateshead (criança), Lowood (menina e adolescente), Thornfield (jovem precetora da protegida de Rochester, Adele Varens), Marsh ou Moor End (mulher em processo de resolução) e Ferndean (mulher assumidamente adulta, autónoma).
    A representação fílmica, numa versão de 2011, reflete esse percurso de afirmação da narrativa em primeira pessoa. Provam-no os grandes planos iniciais focados em Jane, num enredo protagonizado por Mia Wasikowska (Jane Eyre) e Michael Fassbender (Edward Rochester):

Trailer da versão fílmica de 2011, realizada por Cary Joji Fukunaga

    Sem a natural obediência à obra de Brontë (nalguns dos seus pormenores) - conforme à expressão própria de cada uma das peças de arte -, não deixa de se rever na produção fílmica a afirmação do feminino que Jane Eyre simboliza face ao mundo e poder dominador masculinos, de Edward Rochester (que cai do cavalo; se vê impedido de se regenerar, de recompor a sua felicidade com um segundo casamento; acaba cego, depois de ver a sua casa destruída), do Sr. Brocklehurst (encarado na sua frigidez, no diabolismo punitivo, na orientação religiosa do metodismo) ou de St. John (a quem Jane muito quer apenas como irmão e, por isso, o recusa, quando ela é pedida em casamento). Confronta-se razão (o mundo realista do comportamento e das convenções sociais) com o sentimento (o mundo sentimental da consciência passional). Explora-se a dimensão do romance gótico (na apresentação da 'red room', em Gateshead; no aparecimento progressivo de Rochester, no primeiro encontro em Thornfield; a existência de Bertha Mason, no sótão; os incêndios e a destruição de Thornfield). Recria-se a imagética da cor e dos elementos naturais da água, do fogo e do ar.

     Termina o filme com a recuperação da relação Jane-Rochester; a obra, com uma afirmação associada à fé e ao espírito de St. John (a expressão da espiritualidade romântica). Sem o romantismo oitocentista, também é preciso ter fé que este ano venha a ser melhor do que o anterior. No início, entre a fé e a esperança - é o que nos resta  considerar para o caminho a fazer.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

2021... vai-te!

       Chegado ao último dia do ano (que não deixa saudades), ficam as cores de mais um pôr do sol.

     A paisagem marinha inspira: a origem da vida, a liberdade dos voos que queiramos dar, a luz no horizonte, o sombrio dos tempos e dos perigosos rochedos.

O último pôr do sol de 2021 - Canidelo (Foto VO)

      De tudo isto se fará, por certo, 2022. De tudo o mais se faça ainda cada novo dia, sempre com a nota positiva do que nos faça viver, aproveitando as cores da natureza.

       Para todos, um oceano de muita saúde com muitas ondas de alegria e cores quentes no horizonte. Bom ano!
 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Nossa! Que desgraça!

      Podia referir-me, por certo, ao número terrível dos infetados.

   Quase 27 mil é número assustador (e ainda se prevê mais para a primeira semana de janeiro)! Todavia, há mais uma epidemia a grassar nas notícias:

A prova da desgraça (no presente a referir-se ao futuro do conjuntivo)!

     Quem escreve a nota para a SIC Notícias precisa seguramente de umas aulas de Português, para saber conjugar o futuro do conjuntivo de 'manter'.
       Certo que há verbos em que a distinção é difícil de perceber pela forma da palavra - só a construção sintática a permite ('para trabalhar' > infinitivo / 'se trabalhar' > futuro do conjuntivo; 'para comprar' > infinitivo / 'se comprar' > futuro do conjuntivo; 'para correr' > infinitivo / 'se correr' > futuro do conjuntivo;  'para subir' > infinitivo / 'se subir' > futuro do conjuntivo). O mesmo não sucede com verbos marcados pela irregularidade ('para ir' > infinitivo / 'se for' > futuro do conjuntivo; 'para pôr' > infinitivo / 'se puser' > futuro do conjuntivo; 'para trazer' > infinitivo / 'se trouxer' > futuro do conjuntivo; 'para saber' > infinitivo / 'se souber' > futuro do conjuntivo). É o caso de 'ter' e 'manter'. Fosse a construção 'no caso de se manter' (o que seria desejável, para evitar a duplicação de 'se') e nada haveria a dizer; não foi, lamentavelmente, o cenário escolhido.
       Portanto, 'se se mantiver' era o que devia ser lido, mas, para tal, era preciso que não se escrevesse mal (e quem escreve assim ou não fala diferente ou ignora regras gramaticais elementares - o que resulta, em qualquer dos casos, em erro declarado).

       Temo que, no caso, a epidemia da ignorância da língua precise de uma vacina bem eficaz, para se superar a calamidade evidenciada. E não é só nas notícias!

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Final do dia... às dezoito!

       Quando dizem que os dias vão crescer...

       Uma tela de céu,
       Um sol que se foi,
       Uma luz que persistiu,
       Mais o escuro que se arrolou.
       Eis o que o olhar viu:

À espera que os dias cresçam (Foto VO)

       Sombras chinesas de uma natureza
       tão à mão, tão versátil, tão diversa na sua riqueza.

       Cresçam, cresçam... com luz e sol!

sábado, 25 de dezembro de 2021

Logo a seguir ao Natal

     Depois do Natal, as más notícias.

   É o mau tempo em Salvaterra de Magos; a chuva que vai piorar; o discurso do papa a focar diversos temas críticos contemporâneos (crise, conflito, violência, padecimento, abandono) - falar em nome do conforto, da luz, da paz, de valores e direitos ainda não é para toda a Humanidade.
    Em escala bem diferente, por certo, também no uso da língua não há respeito. Num só canal e num só programa noticioso, há de tudo:
. o anúncio do habitual discurso papal à cidade e ao mundo (Urbi et Orbi):

Imagem televisiva captada da CNN Portugal - I (Foto VO)

A palavra 'bênção' inexplicavelmente perde o acento gráfico necessário à sílaba tónica (grave), para que esta não seja identificada com a sílaba final terminada em som nasal.

. as medidas de contenção, com a evolução da pandemia:

Imagem televisiva captada da CNN Portugal - II (Foto VO)

O plural das palavras agudas terminadas em 'l' grafa-se com acento gráfico na última sílaba, não na anterior (portanto, devia ler-se 'hotéis' e não o que está escrito na foto).

. direto do discurso de Francisco I (do meio e no fim):

Imagem televisiva captada da CNN Portugal - III (Foto VO)

Como que por milagre, 'bênção' passa a estar bem escrito,
assim que começa o discurso do Papa, transmitido em direto.

Imagem televisiva captada da CNN Portugal - IV (Foto VO)

No final, volta-se à desgraça do erro - tirando o acento indevidamente.
Digamos que ficamos com a bênção incompleta.

    Quando se faz a festa de abertura de um recente e novo canal televisivo, tão propagado na qualidade e no rigor jornalístico, bem fora que tal se fizesse acompanhar da qualidade da escrita.

     Há uma espécie de vírus, na comunicação escrita jornalística, que também, parece não ter fim - teste de resiliência à desgraça ortográfica.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Está para chegar mais um Natal

       Dizem, porém, que este ainda não é o tal!

       Ficam os votos de que o façam especial.

Votos natalícios, com postalinho "personalizado" (Foto e texto VO)

         Evitem o "morcom" (como chamam ao ómicron, e bem, cá no Norte) e livrem-se de tamanho mal.

      Boas festas para todos os amigos - os virtuais, os virtuosos, mais aqueles que dão à amizade um sentido mais pleno, mais real.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Histórias de fadas com verdade(s) para crianças e adultos

     Sentidos pedagógicos de muitos livros para crianças residem na mensagem para todas as idades.

    Tive já oportunidade de referir como a literatura para jovens e crianças é frequentemente associada ao mundo adulto. Senti-o na mensagem lida de As Fadas do Bosque das Cores e das Estórias - um livro que mostra como um mundo dividido às cores é seguramente mais pobre do que o profuso colorido do bosque; como o diferente também atrai e se descobre; como as fadas também são humanas na(s) aprendizagem(ns); como ler e ouvir histórias é oportunidade para criar laços, partilhar, comunicar / comungar valores.

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - I 

     Se, no início, está tudo ordeiramente arrumado num conformismo sem aventura, tudo muda, a determinada altura, abrindo-se novas perspetivas - é tempo de (re)aprender. Até porque grupo formado não quer ver ninguém afastado, mesmo quem, às vezes, na cor diferente que tem, se quer afirmar pela individualidade a que tem direito:

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - II

   Em cerca de sessenta páginas, valoriza-se a diversidade, a inclusão, a memória, a preservação, as mudanças do(s) e no(s) tempo(s), o sentido da descoberta e da alegria. Lembra-se que tudo o que é bom não apaga o seu reverso:

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - III

    Porém, tudo pode dar lugar a um novo ciclo:

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - IV

As Fadas do Bosque..., de Dolores Garrido - V

    Tal como as árvores que da raiz e do rebento chegam, por renovação, à alta copa, o significado da amizade ganha contornos mais amplos, múltiplos, diferenciados, caso se queira fazer desta procura, aproximação, vivência plural, em visão e acolhimento multicolor num só arco (de renovadas e diferentes íris) e num só bosque (a que todos pertencemos).

As Fadas do Bosque..., com ilustrações de Cristina Pinto - VI

     Em tempos de tolerância, diversidade e inclusão em constante (re)construção, o arco-íris do "vermelho lá vai violeta" (vermelho-laranja-amarelo-verde-azul-anil-violeta) recria-se num bosque cheio de letras, artes e cores: o castanho-amarelo-azul-verde-vermelho-rosa-roxo das sete fadas, que revelam a magia de aprender com e quais seres humanos.

sábado, 18 de dezembro de 2021

Adele no seu melhor

      O concerto em Los Angeles, difundido na RTP2, ontem.

     Um espetáculo construído a partir do exterior do Observatório Griffith, com a cantora a apresentar os seus sucessos e novas melodias do seu mais recente álbum (30) - ingredientes para êxito garantido no Adele - One night only. Transmitido pela CBS a 14 de novembro, chega a Portugal cerca de um mês depois.
     Toda a ambiência criada, numa espécie de concerto íntimo, privado (para amigos, familiares e alguns convidados), num anfiteatro ao ar livre, revelou-se espetacular (ou não se tratasse de um espetáculo), no jogo de luz (com reflexos, projeções e sombras), na localização e na panorâmica, na orquestração, no coro, na composição de todo o evento! Começando com Hello e culminando com Love is a game, esta foi a oportunidade de assistir à voz e interpretação poderosas e deslumbrantes da artista britânica. Entre os temas anunciados como inéditos, mas hoje já tomados como hits, ouviu-se Easy on me ou I Drink Wine. Juntaram-se composições já conhecidas desde o álbum de estreia 19 (caso de Make you feel my love), nomeadamente a que deu voz a um dos filmes de James Bond.

Segmentos do espetáculo Adele - One Night Only

      Um final de tarde que deu em pôr-do-sol, noite de cores e luzes, mais uma estrela que encantou o público que assistia ao show. Um programa entusiasmante (o que seria se fosse ao vivo em direto)!
       
      O programa televisivo faz-se acompanhar de alguns segmentos de entrevista exclusiva, conduzida por Oprah Winfrey, na qual Adele deu a conhecer alguns aspetos do seu percurso de vida pessoal e profissional.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Caminhos naturais

     Depois da caminhada e do registo fotográfico, umas parcas linhas.

     Podia ser uma fita de cinema, mas saiu escrita para poema. E, assim, deixam de ser linhas e passam a versos (sem reverso).
     
       CAMINHADA

Há um caminho, um trilho,
atravessado por um riacho
que, antes de ser rio, chega ao mar. 
É neste que pouso o meu olhar.

Entre areia, pedras e rochedos,
limpo-a dos pés;
pontapeio-as a cada passo;
sento-me neles a descansar.

(Instante para pensar.)

Estou mais alto, mais perto do céu.
Limpo-lhe as nuvens, seco-lhe a chuva.
Deixo ficar o azul.

Esqueço tudo o resto.
Lavo a alma de qualquer dor ou protesto.

Fecho os olhos, ergo a cabeça, sorvo o ar.
Salga-se a mente. Vou adiante.

Para trás fica o que foi.
Da ventura não vou atrás
(por não ser certa, ser incapaz.)

Sigo com céu e mar.

   Assim o afirmava António Machado, poeta castelhano, no livro Campos de Castilla, numa estrofe de "Proverbios y cantares": "se hace camino al andar" (traduzindo: "o caminho faz-se caminhando").

      Nada como continuar a tirar as pedras do caminho. E ver que há razões mais fortes para caminhar.
      

sábado, 11 de dezembro de 2021

Já chega! Lá se vai a resiLIência!

         Nada mais parece ter acontecido no país, neste dia.

        A sistemática e repetitiva notícia de o antigo presidente do banco BPP ter sido detido na África do Sul já satura. E diz-se onde estava, de onde veio, por onde passou, como foi surpreendido, se vai ou não ser extraditado, o que vai ou não vai acontecer e até o que pode (ou não) ser a evolução próxima da situação. 
        Entre o que acontecido e o hipotético, tudo se diz, se comenta, se critica e se escreve... mal:

As legendas da desgraça, com a CNN (ou de como a RESILIÊNCIA está fraca)

      Já chega de tanto falar no mesmo assunto, que ainda vai garantidamente render (ou não fosse o detido 'Rendeiro') para os próximos tempos. Já agora, chega também de não ter cuidado naquilo que se dá a ler.
      Seja a origem inglesa (resilience) seja latina (resilio), está lá o 'i' (após o 'l') que falta à CNN - fundamentos etimológicos que nenhuma 'breaking news' poderá esquecer (basta ouvir com atenção o senhor Diretor Nacional da Polícia Judiciária). Que se cite bem o que foi bem dito, e resultou mal escrito.

      Isto da RESILIÊNCIA tem muito que se lhe diga. É preciso ser mesmo resiliente, para aguentar tanto mau uso e desatenção na língua (mesmo em jovens canais televisivos). Esperemos que seja uma mera gralha.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Revivalismos infantis... ou de infância

     Há momentos que se revelam pelo insólito.

    É o caso de se estar a apresentar o mito de Tristão e Isolda, falar-se de que há várias versões da história, nomeadamente as que estão para lá dos livros - por exemplo, as de filmes.
    Quando se propõe a verificação deste cenário com outras grandes obras literárias, entre os múltiplos exemplos, vem à coleta a referência a Alexandre Dumas e Os Três Mosqueteiros (1844). A par das personagens Athos, Porthos e Aramis, não fica esquecido D'Artagnan, o quarto mosqueteiro, que o romancista francês tornou famoso numa trilogia narrativa (com o já citado romance, mais Vinte Anos Depois e O Visconde de Bragelone), cuja intriga versa os reinados de Luís XIII, Luís XIV e do período da Regência instaurado entre estes monarcas. Surge, assim, a menção a alguns exemplos cinematográficos, até que, num registo cómico, aparece a adaptação televisiva infantil do D'Artacão (e dos três moscãoteiros).
     Foi o mote para, lembrados da série tão comum a várias gerações, os alunos fazerem ouvir o trautear de uma melodia que lhes é familiar:

Genérico da série infantil "D'Artacão e os Três Moscãoteiros" (dos anos 80 do século XX)

      Recordados o lema do 'Um por todos, todos por um' mais o amor da Julieta, deu para rir; também para lembrar a música, a animação, o prazer desses instantes.

     No inesperado de uma aula, foram revividas memórias - que, por certo, deram alguma felicidade. Soube bem trazê-las para o presente.

sábado, 4 de dezembro de 2021

Com um bosque por cima das cabeças...

       Foi, assim, a tarde de hoje, num lugar de arte e onde tudo pode ser possível.

     No Lugar do Desenho, de Júlio Resende, aconteceu a apresentação de As Fadas do Bosque das Cores e das Estórias, de Maria Dolores Garrido, livro com ilustrações de Cristina Pinto, publicado sob a chancela da Editorial Novembro.
      Se a editora se designa Novembro, o certo é que já estamos em dezembro - um mês no qual muita coisa acontece, inclusive um bosque a pairar por cima das nossas cabeças, tal como uma foto do evento o dá a ver:

A mesa da apresentação: representante da Fundação, representante da editora, 
Dolores Garrido, Idalina Ferreira, Cristina Pinto (Foto VO)

     Um projeto de Cristina Pinto para marcar o momento com a fantasia e a magia necessárias ao universo criado no livro de Dolores Garrido: o de um bosque onde a alegria e a felicidade são trazidas pelos meninos; onde a magia se faz sem varinhas de condão; onde as árvores mais bonitas não são de uma só cor; onde a vida é feita da graça e do seu contrário. Na descoberta desse bosque, abrem-se os horizontes do cuidado, da solidariedade, da diversidade, da união que não esquece a liberdade e a individualidade e se constrói a cada reconciliação. 
A obra apresentada como "um dos livros mais bonitos da editora"
      Assim se compõe a paleta de cores da amizade, num livro feito de palavras "bem juntinhas aos desenhos / pra tudo melhor contar". E também há música, e dança, e festa, e voz(es).
      A da avó e da narradora é uma delas. Efeitos de voz e/ou de oralidade são explorados (rimas, ritmo, interjei-ções, entoação, sonori-dades, expressões colo-quiais) no texto escrito, num jogo em que o diálogo entre o ler e o ouvir ler se fundem. Daí também a exploração de efeitos fónico-rítmicos, fono-icónicos e/ou onomatopaicos, exercícios de dicção, matizes semânticos e metafóricos de palavras que começam a ser sugeridos e explorados face a um público que está em fase de aquisição de língua e linguagens, de exploração de um potencial que abre portas ao lúdico, ao sonho, à magia, à imaginação, ao possível que sensibiliza e que traduz o universo dos afetos e das emoções espontâneas e expressivas, tão próprias da literatura infantil ou para as crianças.
      Enquanto literatura que propicia a modelização do mundo, a construção de universos simbólicos e de crenças / valores / comportamentos, as fadinhas de todas as cores estão para este livro como o imaginário e o encantatório estão para qualquer ser humano: tão possível, tão próximo, tão acessível às crianças como aos adultos. Afinal de contas, literatura infantil é, acima de tudo literatura - não fosse o facto de muitos contos ditos infantis terem sido narrativas de adultos e para adultos ou, mesmo, a fronteira da literatura infantil e a adulta se encontrar muito esbatida entre clássicos como As Viagens de Gulliver (Jonathan Swift), Rob Roy (Walter Scott), Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll), Os três Mosqueteiros (Alexandre Dumas), Moby Dick (Herman Melville). Mais do que o público leitor e a sua idade, valem os argumentos de se estar perante uma produção que relativiza a realidade (explorando a dimensão do sonho, do imaginário, do fantástico e do maravilhoso, do possível); que explora uma semiose de pluricódigos (dos mais gráficos aos mais simbólicos, passando pelos diversos sentidos físicos a culminar na construção de um universo ficcional, criativo e sugestivo); que ultrapassa o sentido de expectativas dos seus leitores (buscando o âmbito dos afetos, da sensibilidade e dos valores sociais).
       As ilustrações que acompanham frequentemente a linguagem verbal das obras para crianças são o indicador maior dessa bitextualidade e dessa codificação estética que destacam a universalidade expressiva feita de emoções, de sentidos, de manifestações que a arte conjunta ou interartística oferece. Cristina Pinto em muito contribuiu para a beleza da obra hoje apresentada - pela cor, pelo traço, pelo toque de dramatização, de jogo, de diversão, de infância (re)vivida.
       De tudo isto, numa comunicação tão acessível quanto clara (típica de quem muito sabe e partilha), falou Idalina Ferreira na apresentação deste livro com uma imagem e uma linguagem próprias de criança, mas com uma mensagem tão digna e ajustada à vida de adultos.

O momento 'giroflé, giroflá' (Foto VO)

       De toda esta tarde, fica aquele instante do "Fui ao jardim da Celeste / giroflé, giroflá..." que deixou de ser cantado pela fada verde (ou por quem a representou ao vivo, em diferentes gerações) e passou a ser ouvido na voz de uma criança que, entre o público, se deixou encantar pelo momento e foi replicando a cantilena, na sua vozinha cadenciada. Fez os adultos sorrirem e acreditarem no bom que a vida, apesar das adversidades, (também ou ainda) tem.

domingo, 28 de novembro de 2021

Quando faz frio...

         ... vêm as saudades do verão.

     Nada como o frio para virem aquelas expressões tão típicas que o caraterizam na língua. 
   Os franceses falam do tempo frio e cinzento (gris), mas connosco "Está cá um griso que nem te passa!". Costuma dizer-se que "Deus dá o frio conforme a roupa, mas mais a quem tem pouca" - em versão mais reduzida, ficamo-nos por "Cada um sente o frio conforme a roupa" ou "Dá Deus o frio conforme a roupa" (ficando ao homem a escolha desta última, diga-se, para que Ele não seja responsabilizado por determinismos ou injustiças sociais). 
    "Que briol!" ou a versão "Que barbeiro!" não são menos populares, bem mais intensos na frialdade e na invernia, quando acompanhadas de vento. 

Quem tem brio não tem frio?

     Tem sido isto (ou próximo) nos últimos dias, com a acentuada queda nos valores da temperatura. 
   Lá se foi o verão! Mesmo que se diga "Em (fins de) Agosto dá o frio no rosto", não é o mesmo sentido de sensação. O de novembro e o de dezembro chegam a doer, a gelar, a 'cortar' na pele. Por isso é bom aquecer as mãos nas chávenas, usar os carapins nos pés, proteger as orelhas com o carapuço (até a máscara, tão escusada, resguarda lábios e nariz). Não sejam os alarmismos "amarelos" e "laranjas" com que nos brindam, estão aí os sinais de um outono comum a anunciar inverno.
     "Ande o frio por onde andar, no Natal vem cá parar". Já não estamos longe, portanto. Assim que passar o ano poderá dizer-se "Chuva em janeiro e sem frio vai dar riqueza  ao estio"; ainda assim, e à cautela, bom é que se saiba: "Janeiro frio ou temperado, passa-o enroupado". Não vá o Diabo tecê-las e entre "Noite fria, dia quente, fica o homem doente" (e a mulher, também). Digamos que é princípio válido para qualquer altura do ano. No que toca  a frio, este existe em todo o tempo, a todo o mês. Há mesmo quem defenda março friorento e ventoso como condição necessária e virtuosa: "Janeiro geoso, fevereiro nevado, março frio e ventoso, abril chuvoso e maio pardo fazem o ano abundoso".
     Como nem tudo é frio, vento, chuva ou neve, pense-se no calor, na primavera e no sol, que dizem fazer bem à pele (na dose certa). Certo é que, na moderação, "Guarda do calor o que guardas do frio", até porque "Quem não anda por frio e por Sol não faz seu prol". Não é de espantar, por isso, o conselho de proteção: "Usa sempre cobertor, faça frio ou calor".

    À falta de outro calor, viva-se o que de mais humano há e brinde-se com as malgas da sopa (é sempre uma forma de celebrar convívio, amizade e de tornar os corações bem mais quentes, fazendo esquecer algumas agruras da vida ou outros corações que não aquecem).