quinta-feira, 13 de abril de 2017

De bom tem pouco!

      Isto de começar o dia com erros não é por certo de "Bom Português".

     Começa a ser um lugar comum, atendendo a tanto apontamento crítico já aqui registado. 
    Quando julgava estar a ouvir mal, confirmo na RTP-Play a "lição" do "Mau Português". Não é o que se escreve, mas o que a voz-off (da locução) dá a ouvir à medida que se lê a frase com a forma verbal corretamente escrita:

A partir do registo do programa "Bom Dia Portugal", emitido hoje na RTP1

     Já nem comento o facto de "chegarmos" ser palavra que os transeuntes dizem estar "tudo junto", "sozinha", "pegado" e "sem tracinho". Agora, às 7:24 da manhã, ouvir que se escreve tudo junto porque se trata da terminação da terceira pessoa do plural do infinitivo pessoal... é obra do pior exemplo.
     É do conhecimento geral, pela leitura atenta das gramáticas, que a terminação verbal em 'mos' (sem hífen, portanto) é a marca morfológica periférica (à direita, a dos sufixos) da primeira pessoa do plural, conforme se pode verificar na sistematização seguinte:

Sistematização dos paradigmas flexionais verbais comuns no Português

      Numa das realizações típicas do Português - a do infinitivo flexionado, com a marca de pessoa e de número -, é possível encontrar afixos flexionais que amalgamam as categorias de pessoa e número. No caso de "chegarmos", o que está em causa é a amálgama de pessoa e número para a primeira pessoa do plural ("O facto de <NÓS> chegarmos..."), não para a terceira ("O facto de <eles> chegarem...").

     Fica aqui a correção para a "lição", começada às 7:23 no que devia ser o "Bom Português". Voltou a não ser bom exemplo.

domingo, 26 de março de 2017

Pensamento do dia (com frio e chuva)

     E para hoje,...

     ... nada como passear pelo Facebook e encontrar a imagem seguinte na página "O Sexo e a Idade":


     Concordo com o conteúdo.
     Quanto à forma, resta-me responder à letra:


     Não é embirração, mas a impressão de que, amanhã, vou voltar ao mesmo (isto porque 'água mole em pedra dura muito dá e pouco fura'). 

     Parece que a única coisa que mudou hoje foi mesmo a hora, para tornar a luz dos dias mais longa.

sábado, 25 de março de 2017

A César o que é de César; ao nome o que é do nome.

      Voltando às funções sintáticas, desta feita mais internas.

      Nova dúvida em apontamento antigo (que nem era sobre sintaxe, mas que lá tem depositada a dúvida sobre tal domínio linguístico).

        Q: Boa tarde. 
      Tenho dúvidas se a função sintática do segmento textual "de uma esquadra inglesa", na frase “Ancorado em Alcântara desde a manhã de 22 de dezembro, assiste no dia seguinte à chegada ao Tejo de uma esquadra inglesa que larga ferro a estibordo“ é o complemento do nome ou o complemento oblíquo. Poderia ajudar-me?
         Muito obrigada,

     R: A função sintática do complemento oblíquo está na dependência de um verbo transitivo indireto. Assim, "assiste" seleciona o complemento oblíquo "à chegada ao Tejo de uma esquadra inglesa que larga ferro a estibordo". O foco centrado no verbo "assistir" (que, por sua vez, seleciona a preposição 'a' - ASSISTIR A) permite ver, a um primeiro nível de análise sintática, um verbo principal (transitivo indireto) complementado por um sintagma preposicional expandido (todo ele encarado como complemento oblíquo). 
     No caso do segmento indicado ("de uma esquadra inglesa"), este encontra-se na dependência do nome "chegada", numa expansão desse núcleo nominal; logo, corresponderá ao complemento do nome ("chegada"), enquanto função sintática interna (ou de segundo nível de análise).
       Esquematicamente, teríamos:


    Se é verdade que o verbo 'chegar' implica a estrutura argumental 'Alguém / Algo CHEGA A Algum lugar", o agente associado ao ato de chegar (a funcionar como sujeito sintático) é o que está configurado por 'de uma esquadra inglesa...'. Tratando-se de um argumento selecionado pelo verbo, conclui-se que o nome derivado desse verbo (chegar > 'chegada') também implica a consideração desse mesmo argumento como selecionado pelo próprio nome. Deste modo se justifica a presença de um complemento de nome.
         
      Diferentes níveis de análise, na sequência de uma expansão de segmentos, que não pode fazer esquecer a consideração do todo, mas também das suas partes (de modo a que estas não se confundam com o primeiro).

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crenças... muito oblíquas.

     Quando se acredita, acredita-se em alguma coisa.

     Vem isto a propósito de uma dúvida, formulada em apontamento anterior, que se debruça sobre a sintaxe do verbo 'acreditar' (o que também é válido para 'crer'):

      Q: Olá, Vítor!
      Precisava da sua ajuda no esclarecimento de uma dúvida. Na frase "Um em cada 10 portugueses acredita que o amor pode estar escondido atrás do ecrã do computador", que função sintática é desempenhada pela oração completiva? Normalmente, esta oração corresponde ao complemento direto, mas neste caso não me parece possível pronominalizar por "o" - "acredita-o". Diríamos "acredita nisso"; logo, podemos admitir que a oração tenha a função sintática de complemento oblíquo? Obrigada.

       R:  Viva.
      A oração "(em) que o amor pode estar escondido atrás do seu computador" é, de facto, um caso de oração subordinada completiva oblíqua (daí a função sintática de complemento oblíquo) à semelhança de outras construções que também apresentam, como principal, um verbo transitivo indireto (que seleciona preposição) - exemplo: aconselhar a, acreditar em, concordar com, conduzir a, convencer decrer em, discordar de, insistir em, lutar por, preferir a, prevenir de, entre outros.
        A estrutura argumental típica do verbo 'acreditar' é, na verdade, 'Alguém ACREDITA EM Algo / Alguém', pelo que 'em algo / alguém' desempenha a função de complemento oblíquo. O facto de se poder suprimir ou omitir a preposição não invalida a identificação desta função, atendendo aos testes de verificação da mesma (questionação por 'Em que acredita...?' / pronominalização 'acredita nisso' / impossibilidade da passivização, típica nas construções transitivas diretas).


       Vários outros exemplos análogos podem ser considerados, também com a omissão da preposição e a identificação da subordinada completiva oblíqua:

      i) Os alunos insistiam (em) que o teste devia ser adiado.
      ii) Os estudantes confiaram (em) que havia pouca matéria para estudar.
      iii) As vítimas anseiam (por) que seja feita justiça.
      iv) Ninguém se apercebeu (de) que alguém estava a faltar.
      v) Gosto (de) que faças tudo pelo melhor.
      vi) Ele convenceu-se (de) que tinha de salvar o mundo.

      No caso do verbo 'acreditar', a construção sem preposição é seguramente a preferida:

      a) Não acredito que tenhas feito asneira.
      a') ?? Não acredito em que tenhas feito asneira.

   Um caso para demonstração como a estrutura de superfície prefere uma construção típica de queísmo (recurso a construções iniciadas por 'que' pela supressão da preposição em orações subordinadas finitas, em situações aceitáveis para a maioria dos falantes), não obstante os testes e a manipulação da frase apontarem para o que os olhos não dão a ver.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Dia Mundial da Água

      Depois da Primavera e do dia da poesia,...

    Chega o "Dia Mundial da Água", criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, desde 1993, com o intuito de consciencializar publicamente para a proteção, conservação e desenvolvimento dos recursos hídricos.
   Da importância dela para a vida já muito se disse e daí decorrem as múltiplas significações e simbologias que adquire na arte, em particular, e na vida, em geral. Meio de fecundação e de purificação, de regeneração de forças (espirituais, anímicas, físicas), de regresso às origens, de fluidez do próprio tempo, a água é tudo isto nas letras que nos são dadas a ler; nas cores que cobrem as telas; no líquido que nos escorre pela pele.
      Pela relação que mantém com todo o ser humano, é também fonte de memórias, límpidas ou baças, alegres ou sofridas conforme reflete os bons ou maus momentos da vida. Assim se pode entender "The Water", musicada e interpretada pelo duo britânico Hurts (formado pelo teclista Adam Anderson e o vocalista Theo Hutchcraft):

Vídeo "The Water" em concerto por terras russas

     Do álbum "Happiness" (2010), fica a letra dessa 'água' que, no seio da vida e da felicidade, não deixa de espelhar também o receio de se estar / entrar numa relação pelo que já possa ter havido de dor no passado. O ciclo da água pode manter-se, mas impõe-se o cuidado de não se fazer ninguém perder naquele que também pode ser um leito de morte, onde os anjos também gritam.

       THE WATER

Innocent, they swim
I tell them 'no'
They just dive right in
But do they know?

It's a long way down
When you're alone
And there's no air or sound
Down below the surface

There's something in the water
I do not feel safe
It always feels like torture
To be this close

I wish that I was stronger
I'd separate the waves
Not just let the water
Take me away

There was a time I'd dip my feet
And it would roll off my skin
Now every time I get close to the edge
I'm scared of falling in

Cause I don't want to be stranded again
On my own
When the tide comes in
And pulls me below the surface

      ... fica  esta nota de música, neste dia da água que, entre o hídrico e o simbólico, também se faz de fluxo e de ondas da vida.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Viagens no Mundo de Deus... ou da Vida

     Podia ser nome de agência de viagens; é antes (e também) percurso de vida para um guia em busca do caminho.

    Por mais desconcertante, desencantado, desesperado e desiludido, é percurso a fazer: seja o do período da II Grande Guerra (textualmente representado) seja o de um outro qualquer momento (mais real) pintado das cores da crise e da descrença a dar lugar a tonalidades de sobrevivência. Ainda assim,é percurso com tons de vida, por maior que seja a adaptação conformada ao possível. 
     Esta é "A Noite da Iguana", do norte-americano Tennessee Williams (1911-1983), peça estreada na Broadway em 1961 e inspirada num conto escrito em 1946 com o mesmo título. Numa encenação de Jorge Silva Melo e numa coprodução de Artistas Unidos, está em palco no Teatro São João até ao próximo dia 26.
    Ao levantar do pano, Lawrence Shannon (Nuno Lo-pes) é apresentado ao especta-dor como um ex-reverendo, não despadrado, mas afastado da igreja por escândalos diversos - nomeadamente a entrega a relações sexuais com jovens adolescentes ou a produção de sermões que mostram a imagem herege de um Deus ocidental como um "delinquente senil". Institucionalizado por desequilíbrios nervosos, Shannon consegue um emprego como guia turístico de uma agência de viagens de segunda categoria e acompanha um grupo de senhoras evangélicas até a um hotel barato e boémio da Costa Verde, no oeste do México. Aí, junto de Maxine Faulk (que vive a liberdade obtida com a morte do marido Fred e que sensual e sedutoramente procura a companhia de Shannon), experiencia uma existência feita de conflitos morais, profissionais, pessoais, num confronto febril com os seus impulsos e anseios, as suas limitações e o que uma assombração (a sua mesma sombra) lhe dá a ver. As suas fraquezas e a sua natureza obscura são espelho da condição humana, dos silêncios e das ausências com que o Homem depara. Mais ainda quando busca transcender-se (metaforicamente sugerido na subida de uma colina), depois de se ter deixado ir abaixo (ao cair, de novo, na tentação da bebida; na tormentosa crise de fé; nas relações com uma jovem turista).
     No meio do desconcerto e da luta espiritual do protagonista, do trajeto de uma pintora solteirona de meia-idade e do respetivo avô (que procura compor o seu último poema), das pretensões da gerente do hotel (interpretada por Maria João Luís) não deixa de haver um grupo de turistas (alemães) alheio à perda da fé, à depressão e à crise existencial - tal como na vida de qualquer ser humano que, no desespero, não deixa de se ver rodeado de eternos otimistas ou patetas alegres, cegos ao que está para lá dos próprios umbigos. O registo da animação e da festa atravessa, por várias vezes, o palco, numa noite em que há tempestades, paraísos perdidos e buscas de portos de abrigo. Estes últimos são ainda possíveis, nomeadamente para a solteirona e estoica Hannah Jelkes (Joana Bárcia), ao construir pontes de comunicação com Shannon; para Maxine, ao atingir o seu propósito, no final, de ficar com o homem que libidinosamente desejava; para o velho Nonno (Américo Silva), ao concluir o seu poema final; para a iguana, ao regressar ao seu ambiente natural, depois de a libertarem da corda atada ao pescoço.

HANNAH: Fui ver a iguana.
SHANNON: Foi? E o que achou dela
HANNAH: Devíamos soltá-la.
SHANNON: Há iguanas que arrancam as pontas das caudas à dentada quando estão atadas pela cauda.
HANNAH: Esta está atada pelo pescoço. Não pode arrancar a cabeça à dentada para escapar da corda.

Tennessee Williams, in A Noite da Iguana

     Liberta a iguana, reencaminhado Shannon para um banho de mar com Maxine, concluída a poesia da vida que não descambou em simples verso, atinge-se um sossego (por momentâneo que seja) a soar a um "happy end" muito relativo.
      Só as palmas do público, de pé, deram a ouvir uma reação muito positiva ao espetáculo, para tanta febre e tanto tumulto representados n(est)a vida.

     Diz Tennessee Williams que esta é uma peça sobre “como viver para lá do desespero e ainda assim viver”; é a expressão de desejo da libertação - tal como a da iguana que, uma vez amarrada na parte baixa do hotel, foi solta por Shannon -, para que a vida ainda possa acontecer. Num tempo em que algumas liberdades e valores democráticos estão a sair comprometidos por extremismos, sinais de prepotência e arrogância, de políticas afastadas das pessoas, há pessoas que aspiram à libertação de iguanas (também seres de Deus); humanos que ainda lutam e desejam sobreviver em (alguma) felicidade, por mais conscientes que muitas utopias já tenham caído.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Combinações aspetuais

       Há que combinar bem, a bem do aspeto.

       A pergunta surge, quando a crença apontava para uma só resposta. E ambas estão corretas.

      Q: No enunciado "Temos vindo regularmente a discutir a questão com grupos profissionais de diferentes pontos do país", qual é o valor aspetual configurado?  O imperfetivo ou o habitual?

        R: Não se trata de uma questão de 'ou'. Ambos são admissíveis como resposta correta.
         O contraste perfetivo / imperfetivo relaciona-se com a consideração possível / impossível de um estado consequente, respetivamente, para uma dada situação. Trata-se de uma oposição básica em termos aspetuais, à qual se ajustam outros valores (acrescentados).
     Ora, a situação indicada não admite o estado consequente ou resultativo (> a questão está discutida), pelo que o valor imperfetivo se impõe. A combinatória com o valor (acrescentado) da iteratividade é evidente pelo recurso aos auxiliares 'ter' e 'vir', perspetivando-se um intervalo de tempo alargado com repetição múltipla da situação (discutir a questão) sem delimitação de ocorrências entre a fase inicial e a do ponto de chegada. Uma repetição com a duração do que possa tornar-se hábito até ao momento do ato de fala é, naturalmente, mais evidente quando se focam o advérbio 'regularmente' e a própria leitura de quantificação associada ao grupo nominal expandido "grupos profissionais de diferentes pontos do país". No fundo, a habitualidade resulta da própria possibilidade de manipular o enunciado proposto a ponto de se poder ler 'Temos vindo regularmente a discutir a questão sempre que nos juntamos a grupos profissionais de diferentes pontos do país".
      Conclui-se, portanto, que a imperfetividade concorre e é complementada pelos valores de iteratividade e habitualidade, no caso do enunciado em análise, pelo que não há exclusão dos termos / valores na análise. 

     A consideração do valor aspetual de um enunciado é, por certo, um dado complexo, até pela leitura composicional e de multifocalização que possa ser atribuída (por exemplo, a nível lexical do verbo usado na frase; a nível da frase e das expressões adverbiais usadas; a nível da progressão do próprio texto). À medida que se progride no âmbito do foco, vão sendo introduzidas alterações ao significado de base.
        

domingo, 29 de janeiro de 2017

Silêncio

    Não é ordem nem convite; antes constatação ou necessidade.

   Inspirado na obra do escritor católico japonês Shusaku Endo (1966), Silêncio é um filme a não perder pelas imagens, pela representação e pela referência cultural, mais os dilemas e desafios desconcertantes que propõe. Realizado por Martin Scorsese, retrata a epopeia nessa diáspora de jesuítas portugueses pelas missões no Oriente (nomeadamente no Japão) no século XVII. 
    No contexto da apostasia (negação da fé) e do inquietante reencontro de dois padres (Rodrigues e Garupe) com um terceiro (Ferreira) - que havia sido mentor na formação cristã deles e de muitos outros e que parecia ter renegado tudo o que ensinara -, o espectador confronta-se com os limites da fé e a necessidade (mais ou menos forçada) de abdicar de tudo aquilo em que se acredita quando o martírio (próprio ou dos outros) surge:

Trailer legendado do filme "Silence", de Martin Scorsese

     O silêncio de quem assiste às atrocidades, ao martírio e ao sacrifício pode ser expressão de impotência; o silêncio, por não haver resposta ou por se instalar a dúvida, constitui-se mais como um desafio, uma oportunidade de (re)construção para o bem comum, se não der lugar à espera do que apenas está para além de cada um de nós.
     Voltados para a educação, a catequização, a divulgação da palavra de Deus em terras nipónicas, o silêncio marca o percurso dos jesuítas representados, colocando-os sob o dilema surgido entre a crença, a fidelidade à fé e a sobrevivência dos próprios e dos que os seguem. A procura da resposta implica a questionação, a reflexão, inclusive alguma adaptação às situações. Isto é particularmente demonstrado no caminho feito pelos padres Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), tornados testemunhos de uma resposta para uma realidade que, por norma, se revela incompreensível, estranha, "estrangeira" diferente.
      Procurar apenas no exterior a resposta para os dilemas vividos não é a solução. Esta passa pela interioridade, pelo silêncio, pela consciencialização de que o bem ao próprio e aos outros admite ir ao encontro de algo / de alguém; afastar de modelos / exemplos de partida; estar atento a fatores contingenciais e a processos de enculturação, de tradução de práticas e crenças que não podem deixar de se focar no bem do outro e do que ele tem de distinto.
     A articulação de Silêncio e A Missão (1986), de Rolland Joffé, são inevitáveis, no que ao missionarismo diz respeito, bem como à posição frágil a que os jesuítas missionários acabaram por ficar votados quando confrontados com o poder, nomeadamente o da própria Igreja; Silêncio vai ao ponto de explorar as forças e as fragilidades que o Homem vive na sua fé. A missão aqui é a do próprio ser humano, que necessita de procurar, encontrar em si mesmo, no silêncio e na ausência, a resposta e a presença do bem. A fé por nós acolhida é em nós que se (re)constrói, sem que ela acabe negada - e, assim, a luz brilha na escuridão.

    À entrada, o título do filme até podia convergir com o pedido do silêncio; no final, não há a banda sonora usual, nem a necessidade de se saber quem canta o tema principal. Há o silêncio que diz e significa muito mais do que qualquer outro som, ruído.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Um julgamento com muito que se lhe diga.

       Depois do apontamento de há dias, a reflexão regressa.

     Desta feita, ela é revista a partir de um vídeo (com tradução em português do Brasil) que me fizeram chegar e que está na linha de alguns dos pressupostos que mencionei nesse apontamento:

Vídeo publicado no Grupo de Mentoria "Humana" 
(projeto de investigação da Escola-de-Redes)

    A parte da valorização do professor é significativa (e aplaudo-a). A de como chegar ao futuro é pouco sustentada, até porque dependente de muitas condicionantes que nem sempre se controlam e/ou anteveem no presente e no contexto de ação escolar. Muito do percurso a cumprir passa por uma cultura de empenho, de esforço, de persistência no trabalho, tão válidos na escola como na vida que existe para lá das paredes e dos muros das escolas. Todavia, são muitas as resistências e as culturas que algumas estruturas sociais educativas (nomeadamente algumas famílias que não convergem com tais valores) optam por contrariar, nomeadamente não ensinando o que é autoridade. Frequentemente é a escola a ter de o fazer, com um reconhecimento que muitas vezes se revela tardio.
    Uma dinâmica interativa, participada e colaborativa contribuirá para um estado de coisas bem distinto do que é julgado. E, por certo, não é sobrecarregando, fazendo mais do mesmo, apostando em inutilidades e "chicoespertismo" que o caminho se faz.
     Entre os aspetos que reconheço (a diferenciação desejada, a visão crítica da organização da escola, a relativização necessária à influência partidária na construção do currículo e de muitas orientações da escola, a adoção de múltiplos dispositivos estratégicos na avaliação, o reconhecimento dos diferentes dons e das múltiplas inteligências) e os que critico (as generalizações, o preconceito do conformismo da escola, a afirmação de imagens de escolas distintas como sendo iguais, a consideração de que nada mudou num século e de que tudo não passa de reprodução do passado, a redução da escola à dominante da costumização e do "costumer", a defesa de modelos de escola transpostos e desajustados dos contextos), fica o registo para memória futura - seja ela lá qual vier a ser. 

      Não se pode ser crítico sem o sustento do saber. Muito do progresso social e muita da evolução dos tempos também passaram e foram conseguidos pelos que andaram na escola. Não é possível fechar um caso que requer uma análise multifocada no(s) objeto(s) e objetivo(s) que o definem.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Um tempo de contrastes, se de tempo for...

      No meio de tanta coisa, nem sei por onde começar.

      Esta é a reação que revelo quando há muitos pontos e tantas outras "pontas" para pegar. 
      Tudo começa quando a pergunta surge:

      Q: Colega, gostaria que me desse a sua opinião sobre a frase "Enquanto que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade": a primeira oração tem o valor de uma adverbial temporal?

   
    R: Vejo dificuldade no valor temporal, na medida em que a frase proposta reflete um contraste de entendimentos relativamente ao significado do 'luar' para duas personagens de Felizmente Há Luar! (de Sttau Monteiro).
      Ver 'enquanto' como articulador / conector temporal implicaria a aceitação da substituição dele por 'ao mesmo tempo que / durante o tempo em que' (*Ao mesmo tempo / Durante o tempo em que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade), o que não se prefigura como frase aceitável, até por se estar a referir intervalos de tempo bem distintos, no que à obra mencionada diz respeito.
      O valor de temporalidade é bem evidente em sequências do tipo:
    . Enquanto esperava, lembrava-se dos momentos que haviam passado juntos ou Ouve música enquanto estuda, demonstrativas de intervalos de tempos simultâneos e/ou coincidentes para 'esperar'-'lembrar-se' e 'ouvir'-'estudar' (processos associados a um mesmo sujeito sintático e a uma simultaneidade temporal);
    . Enquanto a crise se agudizava, o desemprego disparou, exemplificativa de como uma situação pontual ('disparar') ocorre no interior de um intervalo de tempo mais lato ('agudizar');
    . Não saio da tua beira enquanto não melhorares, evidenciadora de uma situação durativa sem limites definidos para o futuro e com o conector tomado como sinónimo da expressão 'durante o tempo em que'. Neste último exemplo, é também significativo o valor de condição implicado no enunciado (cf. 'Não saio da tua beira se não melhorares').

       "Enquanto" pode apresentar valor de comparação / contraste acumulado com o de temporalidade, por exemplo, em:

    . Enquanto ela falava ao telefone, eu preparava o jantar, com os sujeitos sintáticos das orações (subordinada / subordinante) a operarem ações distintas ('falar'-'preparar') no mesmo intervalo de tempo.

      Todavia, não é impossível considerar apenas o de contraste:
      . Enquanto D. João IV apoiava Pre. António Vieira, D. Afonso VI não o via com bons olhos.

       Um último dado prende-se com o conector usado na frase proposta: "enquanto que". Seja por analogia com "ao passo que" (no contraste) ou "ao mesmo tempo que" (na temporalidade) seja por interferência do francês ("tandis que" / "pendant que"), está usada uma forma por muitos considerada inadequada à realização padronizada do português, mais conforme à construção "Enquanto o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de esperança". É certo, porém, que há alguns poucos estudos que vão apontando para o uso deste articulador, encarado no seu valor comparativo / contrastivo (e não temporal), ainda que seja reduzido o número de gramáticas que o consideram - lembro-me apenas de uma, a Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2013 - vol. II, pág. 2006. Mais uma razão para a leitura contrastiva das orações e do significado do articulador / conector.

      No que toca ao valor, pode dizer-se que 'enquanto' é muito polivalente, pelo «potencial de significado» (na expressão do linguista Michael Halliday) implicado ou decorrente de significados ajustados aos contextos e ao objectivo comunicativo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Estarei tricaidecafóbico ou parascavedecatriafóbico?!

     Não sei! Mas lá que me estão a pôr a jeito não duvido!


     Perante a novida-de de que vou pagar mais Imposto de Rendimentos Sobre Pessoas Singulares (IRS) - como se já pagasse pouco -, o dia de hoje começa em beleza! Pudera! É sexta-feira 13.
     Em apontamen-tos anteriores, tive já oportunidade de me referir a este dia e a esta doença asso-ciada ao número treze. E, sendo sexta-feira, a fobia é maior (parascavedecatriafobia ou frigatriscaidecafobia) . Tão aziago é o dia que se confirma a tradição, desta feita com o governo a anunciar a atualização das tabelas de IRS - diga-se que atualizar significa, na prática, pagar mais. É sempre bom saber isto, particularmente quando há anos o salário não é atualizado.
     Felizes e contentes, cá vamos nós, no início de mais um ano, à espera de novidades... novidades, sublinho... porque ser roubado nos rendimentos do trabalho não é nova nenhuma há algum tempo já.

   O dia tornou-se pesado, portanto! Uma bruxa ou um gato preto davam jeito. E não sou supersticioso. Tomara se fosse!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

É de génio!

    De cada vez que me falam de justiça e de igualdade de oportunidades, apetece-me desligar o botão.

      Tudo a propósito de avaliação, alunos e a justiça que nem sempre a igualdade traz. Já o escrevi antes; retomo o tema, tanto pelas igualdades injustas como pela justiça desigual. Não é jogo de palavras. É antes a consciência de que nem tudo pode ser colocado no mesmo saco e qualquer um de nós (singular) tem de estrategicamente sobreviver no meio de muitos, no seio do plural. Não é fácil, por certo, quando as variáveis são múltiplas e a diferenciação e avaliação alternativas requerem uma gestão de tempo incompatível com a forma como muitas vezes a escola se organiza. 
      Frequentemente Einstein é citado justamente para dar conta de que, segundo ele, todos somos génios; contudo, quando se avalia um peixe pela capacidade que tem para trepar árvores, deixa-se que a vida deste seja encarada como completa inutilidade.
       É um pouco isto mesmo o que se pode deduzir desta ilustração:


     Sorte do macaco, por certo (ou, nos termos do examinador, "igualdade"). Justiça, onde estás?
     Um pouco na mesma linha vejo outras situações, distintas das de testagem. Medidas de apoio, por exemplo. Dar uma mesma resposta a problemas de natureza tão diversa soa-me a manutenção destes últimos, com mais um: o de se ter adotado uma medida que, não resultando e não alterando o estado de coisas inicial, há que justificar. Ou seja, ampliam-se, inconvenientemente, os trabalhos, as dificuldades, os caminhos que não levam a lado nenhum.
      Neste ponto de não chegada está ainda o exercício de adivinhações por que se entra, quando se pedem números para médias que reflitam resultados superiores aos do ponto de partida, como se, ao longo do processo, o retrocesso não existisse; como se o desvio nunca acontecesse; como se o erro, o engano, a falha e a perda não fizessem parte da vida. Confundir o conjuntural com o estrutural é tão erróneo como não ver no último o primeiro, por mais que este possa não ser o dominante. Tão absurda parece a situação quanto a bola de cristal ser baça e inútil no tempo gasto a prever uma certeza que não o é e que nem sempre se cumpre (mesmo no que de mais científico existe). E mesmo quando a opinião partilhada do absurdo surge, mais inconveniente se torna a insistência para avançar com o número. "Cheira", no mínimo, a compromisso tal qual Saramago o definiu: "liberdade que a nós próprios negámos" (in O Ano da Morte de Ricardo Reis - divisão III do romance), algo bem distinto daquele outro que vejo mais engajado com o princípio da vontade. 

    Quando se confunde inclusão com avaliação-classificação, sem reconhecer diferenciação e práticas alternativas assentes em criteriação em processo / construção / negociação, torna-se disfuncional o próprio sentido de educação e formação (regular ou não).

sábado, 7 de janeiro de 2017

Pela democracia por que se bateu

      Em vida de democracia chega a notícia da morte (já) esperada.

Retrato oficial de Mário Soares (pintado por Júlio Pomar) 
no Museu da Presidência da República
       Faleceu Mário Soares.
   Importante que foi, suscitou adesões e contestações públicas, como todos os grandes que não foram conformistas e que se bateram por aquilo em que acreditavam.
     Estadista (que não quis ser e no que disse não se rever) com lugar na história política portuguesa, manteve-se fiel a uma ideologia independentemente de esta, em vários momentos, ter sido mais ou menos consensual. Na governação e na presidência da república portuguesa, esteve nos momentos mais relevantes do país nos últimos cinquenta anos, sem ter deixado de, anteriormente, intervir ativa e resistentemente contra uma ditadura que o levou à prisão e ao exílio antes de 1974; sem ter desistido de imprimir um cunho libertador de totalitarismos na jovem democracia, desde então.
     O seu protagonismo (que recusou, por princípio) está indissociavelmente ligado ao combate vitorioso da democracia e da liberdade - facto que o coloca, no final dos seus 92 anos, no lado devido da História e numa posição de referência nacional e internacional reconhecidas, pelo socialismo que defendeu e ajudou a fundar em Portugal; pela sociedade democrática e pluripartidária que representou; pela integração europeia plena a que destinou o país.
     O socialista, republicano e laico que assumiu ser submeteu-se ao plebiscito popular, algumas vezes ganhando outras perdendo. Reconheceu que "Só é vencido quem deixa de lutar". Disto não pode, por certo, ser acusado. Por isto ficará na História; do mais, muitas outras histórias se contam e contarão, que não apagam o que foi o seu papel e a sua visão para o país.
   
     Herdeiros que somos do regime por que lutou, resta agradecê-lo a uma das figuras maiores, se não tiver sido a maior de todas na democracia portuguesa.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Da noite para o dia de... Reis

      Hoje trabalhei e amanhã devia ser feriado. Tenho dito (ou melhor, escrito).

     Sou do tempo em que o início do segundo período letivo só acontecia depois desta celebração. Creio que não perdi muito com isso; hoje, acho que ganharia uns dias de descanso que a pausa letiva de Natal não deu. Ao menos, o dia de manhã - era uma boa forma de começar os feriados no novo ano.
    Na tradição católica cristã e segundo o Evangelho de S. Mateus (2: 1), Cristo recebeu a visita dos magos do oriente logo após o seu nascimento. Ora, a noite de 5 para 6 de janeiro homenageia este evento, num costume que data do século VIII. Belchior, Gaspar e Baltazar (sacerdotes para uns, magos para outros, sábios para alguns, reis para muitos mais) são três. Há quem diga que tenham sido mais; todavia, a bem dos três presentes oferecidos a Cristo (ouro, incenso e mirra), ficou tudo reduzido a uma tríade, nomeadamente os magos - que o Venerável Beda (monge inglês do século VIII) regista como sendo, respetivamente, um velho de setenta anos, um moço de vinte e um mouro de quarenta.
      Em Espanha, a troca de prendas natalícias acontece nesta noite. Em Portugal, anteciparam-se as ofertas para a noite de 24 de dezembro. Resta, agora, comer o bolo-rei (hoje já sem brinde nem fava - na família, quem encontrasse esta última devia trazer o bolo de Reis do ano seguinte) e ouvir "as janeiras" ou as "reisadas" (cantar de reis), de grupos que cantam músicas populares e tradicionais de porta em porta, algumas das quais com poemas singelos alusivos:

Dia de Reis

Vieram os três Reis Magos
Das suas terras distantes
Guiados por uma estrela,
Cujos raios cintilantes
Os levaram ao Deus Menino
Que, a sorrir de bondade,
Recebeu os seus presentes
E os acolheu com amizade.



Os Três Reis Magos

Já os três reis são chegados
À lapinha de Belém
A adorar o Deus Menino
Nos braços da Virgem Mãe.

Os três reis do Oriente
Vieram com grande cuidado
Visitar o Deus Menino
Por uma estrela guiados.

A linda estrela os guiou
Até à sua cabaninha
Onde estava o Deus Menino
Deitadinho na palhinha.

Venho dar as Boas Festas
As Boas Festas d' Alegria
Que vos manda o Rei da Glória
Filho da Virgem Maria.


     Nalgumas localidades do interior português (Vale de Salgueiro, em Mirandela), há tradições que se cruzam, nomeadamente a católica cristã com a celta. Daí o registo de algumas práticas hoje encaradas como singulares:

Registo da RTP1 sobre a tradição dos Reis em Vale de Salgueiro

     Há quem chame a esta festividade "Epifania". Eu só queria que a revelação fosse a de que amanhã é feriado! Essa seria a manifestação suprema!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Canibalismo ou ambiguidade?!

    Isto de comer tem muito que se lhe diga.

   É verdade que o verbo comer admite vários significados (dos mais literais e denotativos aos mais figurados e conotativos). Contudo, há que ter cuidado quando se leva à letra o que é dado a ler:

Uma mensagem, mesmo assim, antropofágica (a propósito de comer pessoas)

    Escrita está a proibição de ingestão de duas pessoas "no mesmo prato". Conclusão: é permitido comer duas pessoas, cada uma num prato! A ser assim, trata-se de um restaurante com prática de canibalismo pela certa.
    Estou a ouvir alguns alunos meus quando, ao escreverem qualquer coisa com ambiguidades deste tipo, me dizem "Oh, o professor percebe!"
     Claro que percebo o sentido de um aviso que está completamente desajustado na interpretação feita e evidentemente marcado na incorreção sintática cometida. Se a intenção é uma, a escrita deve ir ao encontro dela. O problema é que isso não acontece e uma espécie de ambiguidade sintático-semântica se instala (mais não digo, porque, necessariamente, desconheço restaurantes, botecos ou tascas, que sejam, a servir pessoas como refeição). Isto de confundir o agente (quem come) com o objeto (o que é comido) é desconhecer os papéis semânticos implicados na construção da frase e construir universos de mundo, no mínimo, inusitados.
     Se não é permitido que duas pessoas comam no / pelo mesmo prato, escreva-se isso e não outra coisa. Mesmo recordando Padre António Vieira e o Sermão de Santo António, os homens que aí se comem (uns aos outros, tal como os peixes repreendidos) são imagem de uma antropofagia social criticável (típica da corrupção que, na Terra, persiste). Convenhamos que exercer influência, tirar proveito, usar, enganar podem ser situações associadas a 'comer' (conotativamente), mas sem faca e garfo; sem espaço de restauração.

     É bom que a direção do estabelecimento saiba exprimir o que quer no aviso, para que surta o efeito desejável (não vá aparecer um par de canibais a pedir duas pessoas em pratos separados, para dar cumprimento ao aviso ou à chamada de atenção).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Sabem que mais... Novo ano tudo igual

      As consequências da passagem de ano podem ser desastrosas.

    O fogo de artifício tem destas coisas: assusta os animais, estes desaparecem e, depois, é preciso escrever avisos. Aqui vai parte de um (para que não se publicite o que até interessa, mas, para o caso, é irrelevante):

Segmento de um aviso publicitado no Facebook
    
      "Pelo cumprido"?! Mas... o que é que o pelo cumpriu para se dizer cumprido?!
     Senhores!!! Muda o ano e a asneira mantém-se! Isto de confundir palavras parónimas não está com nada. Depois desta, só me faltava ler, no final do aviso, "Melhores comprimentos". Santa Paciência!

      Comprimento para medida; cumprimento para saudação ou para resultado de 'cumprir' algo. Aqui fala-se da medida (do comprimento) do pelo... o pelo comprido que, pelos vistos, o cão tem.

sábado, 31 de dezembro de 2016

No fim... para começar

     Termina o ano com poesia.

     Carlos Drummond de Andrade, um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro, escreveu-o melhor que ninguém:

     in Poesia errante, Rio de Janeiro, Record, 1988

       Não é a primeira vez que o cito na passagem do ano (há sete anos fiz o mesmo). Palavras simples para terminar um ano e passar, qual voo de pássaro, ao início de um novo. 

        Que 2017 seja ano de voos, de música e de alegrias encontradas para todos.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

É para ouvir e escrever bem!!!!


     Acordo de manhã com o inquérito de rua da jornalista do "Bom Português, questionando a forma correta de escrever: altofalante ou altifalante? Na indecisão de alguns transeuntes, chega a hora de acertar: a voz-off assume que 'altofalante' não existe, que 'altifalante' é a forma correta e que 'alti' é um prefixo.
     Começando pelo fim, não ter consciência (morfológica) de que em [alti] está presente um termo latino usado na formação de palavras pode ser justificado pelo afastamento progressivo face às origens da nossa língua; todavia, para um programa que pretende usar e dar a conhecer o "bom português), é expectável que haja algum estudo que nunca deixaria de reconhecer, à partida e sincronicamente, a noção de altifalante como próxima de um dispositivo / aparelho que permite falar alto. Nem se pode dizer que se trate de um elemento morfológico incomum, atendendo a palavras como 'alticolúnio', 'altícomo', 'altiloquente', 'altímetro', 'altimurado', 'altipotente', 'altirrostro', altissonante' ou 'altitonante', todas a comportar o sentido comum de algo alto, elevado (traduzido na forma ora de um adjetivo ora de um advérbio).
     Apontar para um prefixo (e, por associação, situar a formação da palavra no processo da derivação) é, ainda, não ter consciência de que 'altifalante' é uma palavra composta, no mínimo, induzindo em erro o telespectador (já que de uma rubrica televisiva se trata). 'Alti' é um elemento latino usado na composição de palavras, nomeadamente na composição morfológica. Se derivação existe (e por sufixação) é apenas na formação do termo 'falante' (< fala), a que, posteriormente, se juntou o radical latino.
Um alto-falante / altifalante conforme o gosto de cada um
   Por fim, 'altifalante' é, por certo, a forma vocabular mais comum ou corrente, tanto na fala como na escrita. Nesta última, por convenção gráfica, deve ser tomada como a forma correta, perante as duas hipóteses propostas. Ainda assim, talvez não fosse mau acrescentar que, perante a admissão da realização 'alto-falante' em termos orais, a versão escrita desta última é configurada com um hífen - dado, aliás, acessível a qualquer utilizador da língua e corroborado pelas entradas de alguns dicionários ou por registos de publicações relacionadas com o tratamento de vocabulário. A consulta online do Dicionário Priberam permite encontrar tanto 'alto-falante' como 'altifalante'. O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa também contempla ambas as formas. O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves segue o mesmo exemplo, o mesmo acontecendo com o Dicionário da Porto Editora (considerando 'altifalante' a forma preferível). Assim sendo, as duas formas (alto-falante e altifalante) são legítimas, por mais que uma delas seja mais frequentemente usada pelos falantes do português.
     Se em termos de escrita não existe 'altofalante', um pequeno hífen faz a diferença, permitindo a existência gráfica para representar uma variante sonora admissível.

    Mais uma ocorrência (quase a ser treta) para se exigir maior qualidade e rigor no serviço público, quando da própria língua se trata. 

domingo, 25 de dezembro de 2016

Parece cada vez menos natal!

     É inverno, é domingo e brilha o sol.

    Pelos vistos, a tradição já não é o que era, no que ao clima diz respeito. Quanto à época festiva, parece-se cada vez mais com o que não devia ser - fruto dos tempos, que talvez possam mudar quando se der menos importância ao que nada vale. As corridas desenfreadas, as compras que nem sempre trazem felicidade e os excessos que dão em indisposições... Desencantos persistentes.
      Desejo o regresso às origens e ao (re)nascimento de um tempo mais virtuoso, tal como o poeta:

Presépio exterior, frente à Capela da Nossa Senhora da Ajuda - Espinho
(Clicar na imagem para ler o poema, de Miguel Torga) - Foto VO

      Com paz, sossego, descanso e com sol, assim recomendo este dia de natal: mais primaveril, de luz e azul (porque junto ao mar). Um natal mais natural e menos desigual.

      E relembro a canção: "A todos um bom natal..."

sábado, 24 de dezembro de 2016

É Natal... sem Compal!

    Permitam a rima, que nem saiu mal.

    Vai uma pessoa tomar café, para aquecer a manhã deste dia de noite natalícia, e depara com o que não quer. 

Exemplo de publicidade indesejada (Foto VO)

      Começo a pensar que é kharma. Ainda por cima, ler que Compal é mesmo natural chega a ser tão grave quanto o erro de acentuação.
   O acento grave marca a contração da preposição 'a' com o determinante artigo 'a(s)' e o determinante demonstrativo 'aquele/a(s)', ou o pronome demonstrativo 'aquilo'. 
      Com o verbo ser não se contrai nada, senhores! Tristeza de publicitários, gráficos e empresas que divulgam o erro. Apetece dizer que É um erro beber Compal.

     É Natal! Ninguém leva a mal, mesmo que não seja Carnaval! Não É? (Lembro-me de uma professora que dizia "Ninguém escreve 'é' com acento grave", quando deparava com tamanho erro! Mal ela sabe que o 'ninguém' está a revelar-se e a propagar-se).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Embirrações

    Reconheço que faço birra com algumas palavras ou expressões. E não são poucas as embirrações!

    Os meus alunos sabem que não suporto o verbo 'meter', particularmente quando não há condições para o utilizar (por exemplo, quando dizem para 'meter no quadro' ou para 'meter no papel' fico com cara de surpreso, ou franzo o sobrolho, por desconhecer como se pode 'meter' em superfícies planas). Eles "metem" vírgulas, "metem" respostas, "metem, metem, metem" espantosamente o que não pode ser metido e muitas vezes em locais inapropriados. Conclusão: embirrei com o verbo 'meter'.
    E quando o texto diz ou fala, por maior que seja a personificação, volto a embirrar. E o "tá (a)qui"?! Eu bem lhes pergunto se estão a falar do depilatório (Taky), mas mais me valia estar calado (porque tenho de lhes explicar a piada e fazê-los saber que há um produto homófono ao que dizem). Era tão melhor dizerem 'está aqui'! Não é por nada, mas sempre haveria a hipótese de não me aparecer o verbo 'tar'.
     Depois é a vez do '(um) bocado'. Eles ficam "um bocado tristes" (dizem) por os chamar à atenção, mas é só por o "bocado" não lhes sair da boca nem da cabeça. Pelos vistos, não só a eles.
    A propósito do início do "Comic con", há pouco tempo lia-se o seguinte, num apontamento do Porto Canal que circulou no Facebook:

'Post' do Facebook que tem "um bocado" que se lhe diga! Prefiro 'algo' (Foto VO)

    Isto de mostrar "um bocado" é caso para perguntar se é coisa que se coma e / ou quantidade acompanhada de qualidade. Duvido. É triste que um meio de comunicação social (se) divulgue com o pior exemplo, em porções, pedaços. É, no mínimo, indigesto!
     Há quem sofra "um bocado"; eu prefiro sofrer pouco ou muito (menos, se for possível). Há quem ache "um bocado" feio, triste ou nojento. Eu acho execrável! Há quem chegue "um bocado" antes do tempo; eu prefiro chegar à hora, mas pode acontecer que seja um pouco antes ou depois, se ninguém ficar algo (e não "um bocado") aborrecido ou incomodado.

   Pergunto: não haverá por aí um herói ou uma heroína que nos livre destas banalidades tão indesejavelmente comuns? Só para eu não embirrar tanto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Obrigado, RAP!

     Com o agradecimento devido à OC, também, por me ter feito chegar aos olhos (porque de leitura se trata) a última crónica de Ricardo Araújo Pereira (RAP, sem que de música se fale).

        Estava eu a ler a dita cuja tão contentinho - porque de Linguística não deixa de ser (mesmo que em registo cómico) -, e eis senão quando sou abalroado pela bombástica novidade: "... já quase ninguém se chama Vítor".
       Se do "vós" pouco se pode argumentar quanto ao desuso (mais do que evidente), do Vítor nem sei que diga! Vítor Pereira, com desgosto, vai deixar de treinar e comentar futebol, para não falar de um outro que nem vai mais apitar ou arbitrar! E Vítor Oliveira (não eu), no momento também a treinar lá para os lados de Portimão, está aqui está a fugir para África! É certo que Vítor Baía já não defende as balizas do Futebol Clube do Porto, mas não deixa de ser por aí muito badalado à conta de outras eventuais aspirações. Ainda desiste! E o Chefe Vítor Sobral?! Larga a cozinha. Até Vítor Norte vai deixar o teatro, com a tragédia anunciada! Para isto, muito deve ter contribuído Vítor Gaspar, com uma subida tão brutal nos impostos que nenhum paizinho nem nenhuma mãezinha de juízo quiseram dar tal nome a um seu descendente. Resta ao Senhor Padre Vítor Melícias rezar, a bem do bom nome que já foi de Papa e de Santo.
     Segundo o RAP, estou em desuso. Estou aqui estou tal igual (como diria Mia Couto) a arcaísmo. Bem... pior seria se o meu nome fosse grafado com 'c' (em verdade vos digo que nada tem a ver com o Acordo Ortográfico). Por isso, sempre que me apresento, digo "Muito prazer, Vítor Oliveira, sem 'c' e com acento no 'i'". Sempre dá um ar de modernidade, mais fresco e desempoeirado, não sei se percebeis (cá está o vós).
      Hoje, sinto-me, portanto, "avis rara" com a crónica "Até que o vós me doa" do RAP, publicada na revista Visão:

(clicar na imagem para aumentar o texto)

    Depois disto, não vos riais, que para mim é assunto muito sério! O desuso do pronome (que mais parece majestático, face ao banalizado 'vocês') e a raridade dos "Vítores" precisam de uma comissão de trabalho e de estudo já, para não falar de uma petição imediata, visando a resolução de duas questões críticas nacionais. Pelo menos, a dos "Vítores", claro está!

     E para ir ao encontro do RAP, antes que vos vades embora (este conjuntivo do verbo 'ir' na segunda pessoa do plural é um primor!), ficai sabendo que o nosso cronista da "Boca do Inferno" (vira essa boca para lá!) muito usou e abusou do "Vítor" (ou melhor, do "Senhor Vítor"). Tantas vezes o disse que disso não fez vitória. Imaculada Conceição me valha (por o dia feriado ser dela), com uma ajudinha de São Vítor, ora pois então!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Bom Português...

     É dia 7 (que dizem ser número perfeito), mas começa mal o dia - ai começa começa! -, ao ser acordado com o erro.

     De novo, o canal público no seu melhor da escrita. Ainda nem trinta minutos tinham passado da rubrica / lição do "Bom Português" (sobre o feminino de 'profeta' e que, por repetição mais do que frequente, já todos devem saber que é 'profetisa') e pôde ler-se, numa legenda bem contrastada a preto e branco, o seguinte:

Imagem captada a partir da emissão de "Bom Dia Portugal" - RTP1

     É bíblico o enunciado de que "No princípio era o Verbo". Só que na gramática também há lugar para os nomes. E alguns destes, para além de tipicamente serem antecedidos de um determinante ("[n]o início"), distinguem-se da forma verbal por serem acentuados - enquanto esta última não o é. Assim, onde se devia ler "icio" (nome) lá apareceu o verbo, não acentuado (certo), mas nada virtuoso - porque não era o que se queria / devia escrever. 
     Tal como "Prinpio" (e não a forma verbal 'principio'), "icio" (e não "inicio") tem de apresentar acentuação gráfica para ser nome.

    Não fosse a nota de rodapé relativa a um sismo na Indonésia, diria que um outro, linguístico, ocorreu hoje no  "Bom Dia Portugal" da RTP1, (e não se pode dizer que seja pouco frequente tamanha instabilidade - diga-se agramaticalidade - com este pontapé na gramática da escrita). Mais uma asneira e das grandes, para um meio de comunicação social.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Retomado o feriado

      A rima do título reflete a alegria da reconquista de um tempo livre, há quatro anos negada.

      É como se a restauração (não da soberania portuguesa, mas do feriado) nos animasse, depois da perda (não da independência, mas de novo, do feriado). Historicamente não foi tempo de descanso; o presente, para alguns, também não o é na plenitude. Ainda assim, é feriado para bem de alguns dos que trabalham.
      Depois de muito recentemente Filipe VI de Espanha e Dona Letícia terem visitado Portugal e de ambos terem partido ontem de terras lusas, desta feita não há "conjurados" nem ninguém é lançado da janela do Palácio da Ribeira. Não há coincidências, neste capítulo. Os tempos são de diplomacia e de boas relações políticas entre a monarquia espanhola e a república portuguesa (às vezes, a conjura necessária está mais para dentro do que para estrangeiros).
     Não sendo "o dia dos milagres", assim foi romanescamente encarado quando Francisco Moita Flores, em 2015, deu a ler a história da velha Efigénia Pé de Galinha - personagem que vive o período histórico compreendido entre a perda do rei D. Sebastião e a restauração da independência face a Filipe IV de Espanha (III de Portugal). Entre 1578 e 1640 é tempo de uma jovem cobiçada ser tomada por bruxa, não fosse ela vítima de múltiplos dissabores, infortúnios que o destino coloca ao ser humano a ponto de o afastar das alegrias dos afetos e de o marcar para a vida (que mais parece morte adiada). Contrariamente, há um duque que chega a rei, por uma força e um sentido de pátria no mínimo desafiador:

      "Há uma Pátria que vai para além de um Reino. É feita com a argamassa do tempo, dos dias de maior sofrimento, que é um território de pertença sem limite, qual oceano a perder-se no horizonte. É qualquer coisa mais densa do que o chumbo e bem mais leve do que uma pena de falcão a esvoaçar pelos ventos. É maior do que um sentimento, do que uma ascendência e do que grandes conquistas e descobertas. É uma Pátria que se diz, que vive dentro de nós, que reconhece cada rua e cada praça como nossos, tão nossos que só nos conhecemos porque essa rua e essa praça existem e são marcos por onde se escoam os dias das nossas vidas. Podemos ver as montanhas e os desfiladeiros de um Reino qualquer, mas não veremos nunca a Pátria que vive dentro de nós. Dizemo-la, amamo-la, por ela poderemos morrer, e será sempre um tempo que não começa nem termina. Que habita em nós como se respira, como se ama e até como se morre. É, afinal de contas, o âmago do nosso ser. A dimensão espiritual mais sublime que dá significado à existência. É um exército de odores e de palavras, de cantares e de memórias comuns. É amor ao passado, àquilo que fomos e fome de futuro.
    Assim se explicava no dia seguinte o duque de Bragança a Luísa. Falava-lhe do amor transcendente que une gente tão diversa, apenas irmanada pela mesma fala. Porém, a jovem duquesa revelava agora as inquietações que escondera durante a noite anterior, cheia de emoções e de amor.
     - E nós o que fazemos? Faltam cinco dias e ficamos aqui? Parados? Não é preciso fazer mais nada?
      - Saber esperar é um dom divino - respondeu João.
      Levantou-se da mesa, ainda mais agitada com a resposta do marido. (...)
      - Está tudo pronto, minha querida. Tudo pronto! - suspirou enigmaticamente.
      - Tudo pronto, como?
     - Está em alerta quem deve estar e planeado o que tem de ser previsto, não existe mais nada de que nos possamos ocupar - ia terminar, hesitou e depois recomeçou: - Sabes o que há a fazer? É sermos soldados do silêncio.
      - Tenho de me calar, queres tu dizer.
     - A surpresa é a única arma de um Reino sem exército contra o maior exército do mundo. Filipe tem dezenas de milhares de soldados experimentados por anos e anos de guerra. Nós temos quarenta conjurados, alguns deles já envelhecidos, e a vontade do povo de Lisboa.
     Sentou-se devagar. Os contrastes que João lhe apresentava eram de tal modo poderosos que tudo lhe parecia uma enorme loucura.
      - Só quarenta? - foi a única coisa que conseguiu perguntar. 
      -  E a maior parte deles nunca aprendeu a arte de esgrimir, nem a manipular um mosquete.
      Agora percebia melhor as palavras do marido sobre o sentido da Pátria. (...)
      Luísa desanimou por momentos.
      - Visto assim, parece impossível.
   - É quase impossível. A janela da esperança abriu-se quando os astros se combinaram de tal forma que foi possível acreditar nessa única arma, embora eficaz, que é a surpresa. (...)
     - Falas dos astros como se tivéssemos um destino já traçado para cumprir.
      João de Bragança sorriu em discordância.
     - Soubesse eu que o nosso destino estava traçado e não teria hoje a fama de hesitante entre alguns dos amigos. É preciso ter a astúcia da raposa, a paciência da coruja e a determinação de um lobo para forçar o caminho que trilhamos - disse João, como se pensasse em voz alta.
     (...) A expressão do duque mudou. Regressava a gravidade preocupada e admitia, com algum pudor, que era grande o esforço para não seguir a excitação da duquesa. Fervia por dentro, adornado com uma máscara de serenidade. As horas tinham agora passo de caracol, os dias pareciam eternos, aquele sol mole, preguiçoso e frio tornara-se tão vagaroso como se o Verão estivesse à porta."

in O Dia dos Milagres, Casa das Letras, 2015, pp. 155-159

    Por mais ficcionais que os acontecimentos se apresentem, alguma coisa houve para um pequeno se afirmar diante de um poderoso; para os poucos quarenta enfrentarem uma força numerosa que parecia invencível.

    Talvez uma lição para a vida; para estes tempos tão dominados por forças omnipotentes que ameaçam a felicidade e a liberdade a que muitos aspiram, para poderem (sobre)viver menos enleados nas teias de interesses transnacionais.