terça-feira, 7 de novembro de 2017

Grassa não tem graça

     Podia ser jogo de palavras, mas é mais do que isso. É constatação de vocabulário a dominar.

    Quando dizia hoje, numa aula, que "Grassa nos nossos dias o discurso da desgraça", uma aluna comentava que não percebia a frase; perguntava mesmo qual era a piada. Pedi esclarecimento para a questão formulada e a reação foi imediata: "Não há graça nenhuma na desgraça, pois não?"
     A oralidade tem destas coisas: representar uma palavra a partir do que se ouve e se (re)conhece, mesmo que tal não seja o que alguém diz. Confundir "grassa" com "graça" não é nada engraçado, mas, por vezes, até pode dar para rir. Contudo, o silêncio na turma era geral (fosse pelo reparo ao professor fosse porque ninguém percebia a "piada"). A forma verbal do verbo 'grassar' (alastrar, desenvolver, propagar) não foi sequer entendida, por ser frequentemente desconhecida por quem reduz ao máximo o léxico que usa (tão restrito quanto o verbo 'meter' dar para tudo, mesmo quando tal não é possível).
     Na homofonia dos termos, tornou-se previsível a reação discente, além de se constituir como uma oportunidade para se explicar a diferença das palavras, repondo uma coerência no enunciado dito que não foi (re)construída por quem o escutou.
      São vários os exemplos a que podia aqui recorrer (alguns dos quais foram já mencionados em apontamentos anteriores). O seguinte vem muito a propósito:

Exemplos homofónicos para toda a gente ver
     
     A escrita é bem mais facilitadora na distinção; a oralidade convoca uma semelhança sonora a todo o tempo causadora de problemas ortográficos. A falha na leitura é fator impeditivo de boas práticas de escrita e, também, na aquisição de vocabulário, é certo, embora muitos outros possam ser acrescentados. Grassa por aí uma multiplicidade de razões que, não tendo graça, muito tem a ver com a limitação lexical dos nossos jovens. 

     Mais vale cair em graça do que ser engraçado, diz o povo! Talvez o diga porque grassa por aí muita coisa sem graça nenhuma ou sem interesse absolutamente nenhum, mas que muitos julgam mais engraçada ou interessante do que o que realmente é (nada se aprendendo com ela).

domingo, 5 de novembro de 2017

Voltando à(s) coesão(ões)

     O fim de semana permanece como tempo de trabalho para muitos professores.

    Porque há testes ou trabalhos para corrigir, matérias para preparar, fichas para produzir, leituras a fazer,... quando o ritmo da semana é alucinante e insuficiente: não dá para tudo o que cumpre ser feito junto dos alunos (e não só). 
    Vale o facto de este também ser o tempo de reencontro(s) com propósitos formativos.

    Q: Vítor, qual o mecanismo de coesão presente no enunciado "Poesia 2, de J. Sena, estende-se por 900 pp. (...) cuja escrita corresponde ao tempo de publicação dos seus LIVROS, desde "Peregrinação" até "Exorcismos"? O nome "livros", relativamente aos títulos enumerados, é um elemento que garante a coesão lexical - interfrásica - temporal - referencial? Eu digo lexical; porém, há quem aponte para a referencial. Serão as duas? Quando puderes, diz-me o que achas.

     R: Olá. Viva.
    A propósito das questões de coesão, tive já oportunidade de me pronunciar nesta "carruagem", particularmente acerca da noção de coesão referencial e de coesão lexical. Estas últimas concorrem para a construção de uma cadeia de referência num texto / segmento textual, mas só se pode falar de coesão lexical quando o foco do mecanismo linguístico utilizado se circunscreve ao uso do léxico / vocabulário.
   Ora, no caso em concreto, há coerência referencial entre 'livros' e os títulos mencionados, sendo todos estes termos constituintes de uma cadeia de referência, com anáforas de natureza nominal. Que esta última se constrói com base no léxico também não há dúvidas (até pela relação hiperonímica de 'livros' face aos hipónimos assumidos pelos títulos dos livros referidos), por mais que se trate de um caso de correferência não anafórica.
     Portanto, conjuga-se aqui a existência de uma cadeia referencial (coesão referencial) apoiada em léxico (coesão lexical). Só quando a primeira se faz em termos estritamente mais gramaticais (pronomes, determinantes, advérbios, entre outros) é que se fica pela designação de coesão referencial (onde cabe falar de anáforas, catáforas, deíticos, construções elípticas, por exemplo).
      Pensando num exercício de escolha múltipla, não colocaria como hipóteses a selecionar as duas atrás mencionadas, pois ambas são validáveis pelo enunciado em análise, com a segunda (a lexical) a poder estar também implicada na primeira (referencial).

      Neste sentido, pode dizer-se que a coesão referencial é uma das propriedades textuais mais genérica, pela sua natureza léxico-gramatical; a coesão lexical foca- -se, mais especificamente, nas relações lexicais textualmente representadas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Porque há montanhas no céu

      Enquanto a chuva não vem, faz-se a caminhada que nos deixa bem.

     Nos céus, há montanhas tão voláteis que, por mais que as queiramos subir, não há pés que as pisem nem asas que a elas nos elevem.

Junto ao mar e às montanhas do céu - (Foto VO)

      Só a imaginação nelas pousa, numa espécie de lanugem que sustém o que peso não tem.

      A chuva não veio, a caminhada fez-se e o instante do olhar fixou-se na imagem de uma noite que estava para chegar.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Num fim de verão em dias de outono

       Agora que se anuncia o fim do verão em pleno outono...

      ... há um fogo no céu que não cheira ao queimado da terra nem faz arder mais o pouco que esta já tem. É o calor a cobrir o oceano, num pôr-do-sol que o céu vai enegrecendo em pinceladas de noite esfumada ao final de uma tarde.

Fogo de verão outoniço - (Foto VO)

       Tudo acaba para que tudo recomece, cedo ou tarde (para não dizer 'assim que anoitece').

      Lá, na linha do horizonte, está a fronteira: nem o fogo tem o azul do mar nem as ondas se deixam queimar. Só as estações (dos tempos) se (con)fundem.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Como?! Assim?!

       Isto de fonética e fonologia tem tudo a ver com SONS.

       Não com letras!
      Os grafemas estão para a escrita. Os sons estão para a oralidade. E se uma letra admite vários sons (veja-se a letra 's' que admite quatro realizações sonoras: [s] em 'sapato', [z] em 'rosa', [ʃ] em 'espinho' ou [Ʒ] em 'as batatas'), quando se faz o estudo da fonética e da fonologia é ao nível sonoro que tudo interessa. Portanto, há que distanciar da escrita e da tirania que esta apresenta quando se fonética e fonologia se trata.

         Q: A passagem de 'assi' para 'assim' pode ser um exemplo de paragoge?

        R: Claramente não. Trata-se de um exemplo perfeito de nasalização.
          Ninguém lê 'assim' como [ɐ'sim], mas sim como [ɐ'sĩ]. Ou seja, não é o som [m] que está em causa, mas sim a nasalização da vogal 'i' (que deixa de ser apenas oral para passar a oral nasal). É a aparência da grafia que parece apontar para o adição final de um som; contudo, não é isso o que acontece. É a vogal final que adquire um traço diferencial (de ressonância nasal) na sua produção.
         A letra 'm' pode ser lida como o som [m] em 'mesa' ou 'acima'. Por sua vez, em 'assim', 'fim' ou 'importar', a escrita não pode confundir o som transmitido - e que é sonora ou foneticamente a representação feita por um til ([ɐ'sĩ], ['fĩ], [ĩpur'tar]), a marcar o traço da nasalidade.

         Mais um caso que mostra que nem tudo o que parece é (não é processo fonológico de adição, mas sim de alteração na natureza da vogal oral que já lá está /estava e que passa / passou a ter um traço novo - o da nasalidade).

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Cor de Ouro

        "O Sol dourava o céu."

        Assim o escreveu Cesário Verde no seu "Num bairro moderno", onde encontrou uma vendedeira toda regateira em pleno ambiente burguês citadino. A partir daí, o poeta transfigurador viu numa giga pedaços de vida humana como extensão da que decorre da natureza vegetal.
        Mal ele sabia que esse mesmo sol também dourava o mar, cobrindo-o das cores de um areal que o espera, num ir e vir a todo o tempo repetido.

Sol: esse intenso dourador (Foto VO)

        Um fim de tarde que pouco tem de outono, por mais que a ele pertença, fez lembrar o verão que se foi apenas como estação. É ainda este que se faz sentir no calor que nos aquece ou na luz que nos acompanha até ao adiantado da hora do pôr do sol.

      Bem razão tinham os alquimistas, que viam o dourado como símbolo de acesso ao coração de um ser. Com uma imagem destas, ao vivo, revitalizam-se a mente, as energias e a noite acaba menos escura, menos melancólica.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ingerir pode dar em má gestão de exemplos

       Tudo porque 'ingerir' precisa de contextualização.

       A pergunta surge na sequência de uma resolução de exercícios sobre formação de palavras e a constatação de que algo não batia certo com o ato de comer / ingerir (caso para se dizer que nem sempre se deve "comer" a papinha que nos dão):

      Q: Posso considerar 'ingerir' um verbo formado por prefixação (in+gerir)? Estou a trabalhar uma narrativa sobre o que um leão come e 'ingerir' é aproveitado para exemplificar um caso de derivação por prefixação.

        R: Na verdade, segundo o contexto facultado, não se trata de um bom exemplo. 
        A forma etimológica (latina) ingerĕre assim o dita, pelo que se trata de uma base, uma palavra que evidencia a pertença do português ao ramo das línguas provenientes do latim. Não se pode considerar, o 'in' como prefixo, por, já na origem latina, tal segmento estar incluso na palavra etimológica - daí não se poder falar propriamente de formação de palavra no português.
        Fosse o contexto outro (o de se estar a falar de má gestão) e o raciocínio seria completamente diferente. Usar o termo 'ingerir' como sinónimo de gerir mal representaria um bom exemplo de derivação por prefixação, com o prefixo de negação 'in-' a traduzir a gestão mal conseguida (a ingerência).
       Ingerir, no sentido de comer, engolir, consumir alimentos, quanto à formação da palavra, nada tem a ver com ingerir como sinónimo de administrar mal (esta última, sim, a marcar-se pela prefixação). São dois bons exemplos de palavras homónimas (base e formação bem distintas) e que têm de ser equacionadas no seu contexto significativo, sem hipótese de a formação de uma se poder explicar pela de outra.

       Ingerir tem muito que se lhe diga: se comermos mal, a indigestão pode surgir; se gerirmos mal, a ingerência instala-se. A bem da morfologia, espero ter contribuído para que não haja ingerência (nem indigestão).

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Ser igual ao litro

       Em dia de aniversário de uma amiga, nada é igual ao litro.

      O dia começou com uma colega a perguntar a origem da expressão - sabia o sentido pragmático, mas queria conhecer como tudo começou (isto de regressar às origens tem muito que se lhe diga, quando à língua diz respeito).
      Com alguma pesquisa, deu para concluir que, em tempos idos, o litro servia como medida para quase tudo (dado ser uma medida de volume e não de líquidos propriamente ditos). Assim lembrei, por exemplo, de ir à feira e ouvir alguém pedir um litro de feijão. Além disso, cabe também aqui referir o valor de um salário (palavra que veio de 'sal'), fazendo-se a distinção entre o valor do salário bruto (ilíquido) e o do líquido (na verdade, a diferença não é igual ao litro, por certo). Isto para não deixar de considerar também que o líquido deu para medir o tempo - as clepsidras, ou relógios de água, foram exemplo disso. Estou aqui estou a recuperar o pensamento de Heráclito de Éfeso, quando este pré-socrático dizia que o homem não se banhava duas vezes na mesma água de um rio. De novo a água (líquido), em passagem, tal como o homem se revela diferente, em mudança. O tempo passa (conta) e tudo muda.
      É verdade que a amiga aniversariante também vê o tempo passar; também ela muda (até mudou de escola). E a colega curiosa vive a mesma condição de existência, no que à fluidez do tempo diz respeito. Também eu. Todos contamos o tempo - já não com clepsidras - e, nesse aspeto, custa a acreditar que tudo seja igual ao litro!
       Depois disto tudo, apetece-me concluir que 'dei o litro' (também para medir / quantificar o esforço) neste objetivo de explicar uma expressão idiomática e no de retomar o curso desta "carruagem".

      Duas outras amigas queixavam-se de esta "Carruagem 23" andar muito parada (que paradoxo, isto de 'andar parado!). Hoje, vai "circular" um pouco, porque a reclamação não me foi igual ao litro. O problema é que há também muitas outras coisas que não mo são. Talvez algumas delas até sejam (mesmo muito) importantes, mas, por momentos, vão ter de ser iguais ao litro. Dei-lhes peso (ou medida) relativo(a), porque há quem me mereça a consideração de também ser ouvido / escutado.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Lá vem a vírgula do vocativo, gente!

    Chamamento, vocativo, apóstrofe... na pontuação dá no mesmo.

    É mesmo isto!
   Cansado de ler "boa tarde / boa noite professor" - quando devia encontrar "boa tarde / boa noite, professor" -, nem me apetece responder quando não sou nem me sinto chamado.
   Quem chama, invoca ou apostrofa deve marcar, na escrita, esse mesmo ato: fá-lo com uma simples vírgula. Dos poucos casos em que a ausência desta constitui erro ou altera substancialmente o significado da frase, um é precisamente o aqui ilustrado:

Do assunto ao destinatário / recetor - uma questão de vírgula

    E se dizem "é só uma vírgula", "esqueci-me", apetece-me responder "OK! Tens sete. Era dezassete, mas só falta um '1'. Esqueci-me".
    É tão mais fácil não ser escravo da ignorância! Claro que não acredito que alguém possa acabar com o trabalho (soa a promessa política que ninguém pode / deve concretizar). Aposto mais na colocação da vírgula para verdadeiramente perceber que o patrão / o político / o responsável ou chefe nos vê como autêntico escravo do trabalho.

    Mais se diga: a diferença entre o assunto (falar ou escrever sobre algo) e o destinatário (falar com alguém / escrever a alguém) é frequentemente assinalada pela simples vírgula, no segundo cenário. Sim, porque uma coisa é falar sobre escravos; outra bem distinta é falar com eles. Percebido, minha gente?

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Pedra-mar

       Não é um quadro nem uma janela de pedra.

      Ao longo do caminho, há um muro de pedra onde muitos se sentam para ver o mar, respirar a maresia, olhar o céu pintalgado de várias cores e ver o sol esconder-se lá para a linha do horizonte.
      Ao nível dos tornozelos e dos pés, ficam uns mirantes tão baixos que alguns olhos não veem, de tão altivos e sobranceiros que estão para o que o chão lhes oferece.
        Baixo-me, deito-me e capto a paisagem:

Um retângulo de horizonte, céu e mar (Foto VO)
        
     Parece um quadro, uma moldura de pedra envolvendo um leito oceânico ondulante, que vem a terra e deixa o céu entregue às cores quentes de um sol que ninguém já vê.

        A pedra encaixilha os sulcos do mar, o céu alilazado e um horizonte dourado pelo sol posto.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

"Mulher de Deus, Amante do Rei"

        Assim pode ser resumida a apresentação de Madre Paula.

     Iniciou-se hoje a exibição de uma série televisiva de produção nacional inspirada no livro de Patrícia Müller e dedicada àquela que ficou conhecida como a amante mais conhecida do rei D. João V: Madre Paula de Odivelas (Paula Teresa da Silva). 

Trailer da série televisiva (RTP1)

       No erotismo das cenas de abertura está lançado o mote para o profano e o sagrado conviverem em plena ambiência de época barroca, quando os contrastes se afirmavam pela conciliação. Nesta ordem de raciocínio, também se explica como Paula acaba por estar livre na prisão que o convento representa.
     Tendo entrado como noviça no Mosteiro de S. Dinis de Odivelas (à semelhança da irmã mais velha e em conformidade com decisão paternal, pelos fracos recursos familiares de que dispunha), Paula viria a professar a fé católica, em 1718, já com o pensamento no rei. Dos amores vividos com o Conde de Vimioso à predileção real, foi um exemplo das sóror que o soberano absolutista visitou na sua aproximação às esposas de Deus (privilégio que o representante divino na terra concedia a si próprio). Dela, teve o Magnânimo vários filhos, entre os quais D. José de Bragança (nascido em 1720) - um dos conhecidos "meninos de Palhavã", que viria a tornar-se inquisidor-mor. Bela e jovem, passou a ser a amante favorita do rei e tornou-se Madre do Convento, usufruindo de todas as atenções do monarca, que lhe deu condições de vida muito luxuosas, típicas dos devaneios extraconjugais do "rei do ouro" (também conhecido na História como o "freirático").
      A vida sumptuosa que levou, mesmo após a morte de D. João V, afastam esta figura feminina do percurso religioso e devoto a que apenas parece ter-se dedicado no final da vida, não sem os luxos nem os aposentos ofertados pelo rei. Falecida aos 67 anos, acabou por ser sepultada na Casa do Capítulo do Convento de Odivelas.

Representação de Madre Paula de Odivelas,
numa teatralização da figura da "Madre de Deus"
(Escola Portuguesa, séc. XVIII)

   José Saramago, em Memorial do Convento, refere-se a Madre Paula como a "…flor de claustro perfumada de incenso, carne gloriosa…", numa imagem clara a essa condição típica a que as mulheres menos abastadas do séc. XVIII acabavam por se entregar como forma de sobrevivência natural na sociedade.  

domingo, 25 de junho de 2017

Sinal dos tempos...

       Não são famosos, por certo. Falo dos tempos... e não só.

      Falo também de música, daquela que me tem acompanhado o gosto nos últimos tempos e que me faz lembrar batalhas, guerras com "balas", por vezes a fazer perder algum do sentido da vida.
      Assim ouço a composição na voz de alguém que, pelos vistos, fez parte de um grupo que não apreciei particularmente, mas que evoluiu para sonoridades que hoje me chamam a atenção. Harry Styles (antigo membro dos 'One Direction') dá voz a uma balada intitulada "Sign of the times", primeira canção a solo para este músico britânico; grito musical para ir em busca de outros dias, de maior felicidade:

Vídeo de "Sign of the times", canção interpretada por Harry Styles 
(difundida na rádio desde abril de 2017)

SIGN OF THE TIMES

Just stop your crying
It’s a sign of the times
Welcome to the final show
I hope you’re wearing your best clothes

You can’t bribe the door on your way to the sky
You look pretty good down here
But you ain’t really good

We never learn
We’ve been here before
Why are we always stuck and running from
The bullets, the bullets
We never learn
We’ve been here before
Why are we always stuck and running from
The bullets, the bullets

Just stop your crying
It’s a sign of the times
We gotta get away from here
We gotta get away from here
Just stop your crying
It’ll be alright
They told me that the end is near
We gotta get away from here

Just stop your crying
Have the time of your life
Breaking though the atmosphere,
And things look pretty good from here
Remember everything will be alright
We can meet again somewhere
Somewhere far away from here

Just stop your crying
It’s a sign of the times
We gotta get away from here
We gotta get away from here
Stop your crying, baby
It’ll be alright
They told me that the end is near
We gotta get away from here

We don’t talk enough
We should open up
Before it’s all too much
Will we ever learn
We’ve been here before
It’s just what we know

Stop your crying, baby
It’s a sign of the times
We gotta get away
We gotta get away

      A lembrar uns "The Verve" ou "Oasis", esta canção instalou-se na minha mente; contudo, o pedido de que o choro não continue traz qualquer coisa de repetitivo, de cíclico (na melodia como na vida); também de derradeiro, até de fatídico - o que não me agrada na letra, mas que toca, por certo, com a melodia dada a ouvir. Mesmo que "We we don't talk enough" e que "We should open up", a fuga impõe-se, mas convém que seja neste mundo, com os pés assentes no chão, para que também nele se retire alguma lição.

     Se alguma coisa está prestes a findar, que seja este "dar o peito às balas" (porque já cansa e não faz de ninguém herói). À espera, portanto, de dias melhores.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Prémio Manuel Laranjeira no Dia da Cidade

     Celebrado do Dia da Cidade (pelo 44º aniversário de elevação de Espinho a esse estatuto), fecha-se um ciclo de trabalhos a anunciar outro(s).

     O Prémio Literário Manuel Laranjeira teve hoje direito ao reconhecimento da sua premiada, na cidade de Espinho.
     Na subida ao palco e na presença do Senhor Presidente da Câmara Municipal (Dr. Pinto Moreira), da Senhora Vereadora da Cultura (Drª. Leonor Fonseca), do Responsável pelos Serviços de Cultura e de Museologia (Dr. Armando Bouçon) e da Senhora Diretora do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (Drª. Ana Gabriela Moreira), a agraciada com um prémio de cinco mil euros (Sandra Inês Cruz) dirigiu algumas palavras ao público presente no Multimeios.

Cerimónia da entrega do Prémio Literário Manuel Laranjeira, 
no Multimeios de Espinho (premiada à direita)

   Da nota de agradecimento às breves palavras que explicitaram um pouco da criação da obra premiada (Viagens por histórias mais ou menos naturais), fica o registo fotográfico do momento em que a autora é presencialmente dada a conhecer ao público e recebe os merecidos aplausos.
    Assim se concluem dois anos de ação, numa equipa que, nos termos do protocolo estabelecido entre a Câmara Municipal de Espinho e a Escola Secundária com 2º e 3º Ciclo Dr. Manuel Laranjeira, fez relançar uma prática cultural por alguns anos abandonada no concelho, mas que teve neste 2017 a sua primeira edição, com a seguinte a ter lugar em 2019.

      Cumpriu-se o trabalho, partilharam-se os agradecimentos e pode dizer-se que tudo foi feito para bom nome do homenageado que dá nome ao prémio. Daqui a dois anos há mais.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Mas algum humano acredita nisto?!

     Nem Freud! (Não é argumento de autoridade. É crença, mesmo!)

    Quando procuro descomprimir, está visto que não dá para ir ao Facebook. Não é por nada, mas quando se lê isto (um catafórico, por anunciar o que ainda não é explicitamente textual, só pairando na minha mente) não é possível ficar indiferente, incólume ou corroborar o impensável.
      Cá vai:

A circular no Facebook 
e a haver quem ache, pelo lamento crescente, que não devemos ser de ferro...
mas de aço!

       Perigoso! Nem Freud o aceitaria, seja no dever seja na resposta a dar à vida!
    A acreditar nisto, e a aceitá-lo, pouco falta (espantemo-nos!) para crer em fundamentalismos e extremismos... É tão medieval o pensamento quanto o ferro humano que, na imagem, me sugere a armadura ou a malha dos que faziam da vida luta, duelo ou morte.
      Máquinas, com avarias anunciadas no final, já Álvaro de Campos propôs na "Ode Triunfal": "Ah não poder ser eu toda a gente em toda a parte!" Popularmente, dir-se-ia "Quem tudo quer tudo perde". 
       Cedo ou tarde, por mais que se ache que os telhados de vidro não existem, a pedra cairá (não sei se na cabeça de alguém, mas que seja, no mínimo, na consciência). Talvez a vida venha a ensinar muita gente que não somos nem aço nem ferro. Humanos, sim, com falhas e nem sempre porque as queremos, mas porque elas existem connosco ou vêm ao nosso encontro e nos derrubam. Pensar o contrário só no discurso do lamento ou negando que, na vida, há pequenas coisas que fazem os dias diferentes.
     Na realidade, a verdade não é a do pensamento citado; é muito outra e é pena que muitos humanos dela se esqueçam. Só se lembram dela nos momentos de choque, e talvez aí já seja um pouco tarde. É pena que da história não se faça da memória! E a história muitas vezes é a nossa! 
     Felizmente, quero acreditar que há quem a ajude a (re)escrever e a (re)viver de outra forma.
    Mais não digo - melhor: não escrevo, para não repetir o exemplo de alguns alunos que, ao escrever num teste escrito. dizem que fala(ra)m. Oh, vã ilusão!

    Não gosto, não aceito, não acredito e só o entendo quando tudo corre bem (e não será, certamente, para todos o que procuram sobreviver nas situações ou nos tempos mais críticos). Pena é quem haja que ainda subscreva o pensamento, tal como apresentado na imagem! E há! Oh se há!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Sem santo nem poeta

     Quando me preparava para escrever sobre Santo António ou a data de nascimento de Pessoa, fiquei sem santidade (como se alguma vez a tivesse) e perdi a poesia.

      Não há milagre ou santo nem poesia ou poeta que resistam. É tão mau que nem ao Diabo (vá de retro, Satanás!) lembra. Tudo num só dia. É obra (ingrata)!
       Para começar, logo pela manhãzinha, não há luz ao fundo do túnel para quem escreve as legendas na RTP:

As legendas da RTP no seu pior (I)

     Coitadas das timas (nome), que deixaram de o ser (até porque nem na notícia o foram) por passarem a forma verbal (vitimas). Lá se foi a palavra esdrúxula, porque a quiseram tornar grave. É grave... muito grave!
       E por falar em esdrúxulas (ou proparoxítonas), três minutos depois, mais duas pérolas:

As legendas da RTP no seu pior (II)

       Não é bom falar de vidas, é certo; porém, confundi-las com a forma do verbo dividir no presente do conjuntivo (segunda pessoa do singular: dividas)...! Quer-se o nome; não o verbo. Para terminar, e ainda no mesmo rodapé, último (adjetivo) a ser confundido com a forma verbal de 'ultimar' (eu ultimo, tu ultimas, ele ultima...). É a sílaba tónica distinta (em termos fónicos) e a acentuação gráfica (em termos ortográficos) que fazem a diferença.
       Um minutinho depois, é a vez de novo caso crítico:

As legendas da RTP no seu pior (III)

     Nova esdrúxula que o devia ser enquanto nome (tráfico), e sai nova forma verbal grave (eu trafico, tu traficas, ele trafica,...). Isto de traficar nunca deu bom resultado!
      Quando tudo parecia crer que havia alguma coisa contra a acentuação gráfica das esdrúxulas (tão elementar quanto obrigatória no português), surgem, duas horas depois, duas falsas esdrúxulas com o mesmo problema (o da ausência de acentos):

As legendas da RTP no seu pior (IV)

As legendas da RTP no seu pior (V)

       'Queda às' em vez de 'Queda nas' é questão menos problemática, quando, por comparação, se conclui que não há queda nenhuma, efetiva, para a acentuação gráfica - inclusive das palavras terminadas com encontros vocálicos habitualmente proferidos em ditongo crescente (casos de tio e de água, ou as chamadas "falsas esdrúxulas").
        Não fosse isto suficiente, falta o momento de "Última hora". Na festa, tudo se passa e muito se consente; mas no que toca à sua notícia, para além da falha / troca de letra ou grafema (se > de), a discordância sintática é evidentemente contraproducente:

As legendas da RTP no seu pior (VI)

     As comemorações, na justa medida, sempre animaram e não há santo que tal mude: a concordância no plural é processo de coesão frásica tipicamente verificado e normalizado na língua. Contudo, na cabeça de alguns nem sempre tal se verifica, para mal dos pecados de quem tem que os ler, quando escrevem (MAL).

      Nem Fernando nem António nos livram, por mais santos ou poetas que tenham sido. É muito mau receber isto tudo num só dia. Dizem que à dúzia é mais barato, mas, definitivamente, já à meia a imagem do canal do "Bom Português" sai bastante comprometedora. Mais uma imagem que não dá para comprar.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Quando a vergonha é pública...

     Aos doze dias do mês de junho,...

    fica o registo de que não sei o que é mais escandaloso: se a nomeação dos novos dirigentes da TAP (Transportes Aéreos Portugueses), tão discutida nas notícias de hoje, se a manutenção do erro na RTP (Rádio Televisão Portuguesa).

Imagem captada no programa informativo 360º, emitido na RTP3

     Ainda há dias ditava um sumário aos alunos, alertando para o contraste 'critica - forma verbal / crítica - forma nominal ou adjetival'.
     E tomando atenção na sílaba tónica de cada uma das formas (critica / crítica), lembrava como na última estávamos perante uma palavra esdrúxula (sempre graficamente acentuada no português). Chamando cada uma das palavras, a diferença tornou-se evidente em termos fónicos; na classe de palavras a questão foi exercitada em contextos frásicos, para reconhecer qual das palavras utilizar. É um caso CRÍtico da língua e eu criTIco os que erram. Estou a sair cá um CRÍtico!
      Na RTP começa a ser um facto que alguém não sabe escrever corretamente. Um meio de comunicação social a expor milhões ao erro.

     Em vez de chamar a palavra para deteção da sílaba tónica, berrava (até porque a frequência e a natureza dos erros começa a ser absurda) a quem faz as legendas no rodapé das notícias. Caso para dizer que "Vergonha (também) foi o erro" e não se ficou pelo privado. Não é "Bom Português".

sábado, 10 de junho de 2017

Famílias poéticas ou da língua

     Feriados ao sábado são um desperdício (ao domingo também).

    Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas foi dia celebrado entre o Porto e o Rio de Janeiro, a falar português, esse idioma que une continentes e se fez pátria - pelo menos, assim o dita essa citação poética revista em azulejo:



     Em dia de Camões, não é heresia nenhuma citar Pessoa, este que parecia ver-se no espelho como esse "supra-Camões" sugerido numa sequência de artigos sobre a nova poesia portuguesa, escritos em 1912 para a revista A Águia (órgão do movimento da Renascença Portuguesa). Talvez não seja muito rigoroso dizer-se que o pensamento é de Fernando Pessoa, quando de Bernardo Soares se trata, o semi-heterónimo do Livro do Desassossego.

      Num feriado dedicado (também) ao poeta, é a língua e a cultura que se reveem nessa identidade de comunidades e famílias poéticas feitas de um mesmo material que é, simultaneamente, objeto e construção, em aberto, às potencialidades (re)criadas na e pela arte.

sábado, 3 de junho de 2017

Desconsolado

     Sempre que nos meios de comunicação social o erro surge, este propaga-se por milhões.

     Parece que já não há princípio nem cuidado a pautar por quem escreve legendas no rodapé das notícias. São tantos os maus exemplos que, no meio da banalidade, nem os responsáveis de edição reparam. Aqui vai mais um:

Uma legenda infeliz num rodapé que requer investigação... todos os dias!
(A RTP anda a precisar de apostar nessa "investigação" mais linguística)

     É de perder a paciência, um desconsolo, quando se confunde um cônsul com consolo. Depois, claro, vem o 'consolado' que, em vez de ser adjetivo (formado a partir do particípio passado do verbo 'consolar') é erradamente tomado por nome para o espaço do cônsul. Enfim! Uma desgraça! 
     Tristeza! Não é para ficar consolado; antes pelo contrário. Resta saber se o cônsul anda consolado lá para o seu CONSULADO.

     Caso para dizer, investiguem a língua e pode ser que não caiam em erros de natureza homofónica. Até a senhora, na imagem, está com cara de poucos amigos.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Há fumo branco!

        Depois de uma manhã, que se revelou consensual,...

Anúncio televisivo do Prémio Literário Manuel Laranjeira 
(RTP2, na emissão de 28 de abril de 2016)
    ... o Prémio Literário Manuel Laranjeira (1ª edição, 2017) já tem uma vencedora. É do concelho (também piscatório) de Matosinhos e produziu uma obra inédita, em língua portuguesa, num dos géneros a que o escritor espinhense se dedicou: o diário. Sandra Inês Andrade Ramos Cruz é o nome da autora distinguida com cinco mil euros, pela distinção da obra intitulada Viagens por histórias mais ou menos naturais.
     Segundo o júri, a escolhida entre as 74 candidaturas foi destacada pela originalidade, pelo respeito por um dos géneros textuais selecionados e por uma vontade de estilo sedutora dos leitores das obras a concurso. A qualidade foi ainda reconhecida por um dos jurados, a sublinhar que "Temos escritora!". Perspetiva-se o conhecimento e a leitura de um texto que se anuncia formativo para o público geral, nomeadamente - e mais em particular - os mais jovens. Nesta medida, há razões para crer que haverá iniciativas em que a premiada, os promotores do prémio (Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Laranjeira, Biblioteca e Câmara Municipal) e o potencial público leitor venham a ver multiplicadas oportunidades de homenagem ao autor de Às Feras (1905) e de Pessimismo Nacional (1907-08).
     Na presença dos elementos do júri, dos responsáveis da cultura da Câmara Municipal de Espinho, dos órgãos de direção e gestão da escola, bem como da equipa dinamizadora, a boa nova foi partilhada num almoço preparado pelo formador e servido por formandos do Curso Profissional de Restauração do 10º ano do estabelecimento de ensino mencionado. À qualidade revelada na refeição confecionada e ao momento de confraternização vivido, somou-se ainda o instante em que todos testemunharam a comunicação do resultado à galardoada. Um dia e momento dignos da figura cultural evocada e da criação artística (para a qual também muito contribuiu).
    A entrega do prémio ocorrerá, publicamente, no próximo dia 16 do corrente mês (Dia da Cidade), no Centro Multimeios.


        Foi assim retomada, de forma feliz, uma prática cultural que marcou a edilidade durante alguns anos e que se espera ver continuada daqui a dois, sempre com o intuito de projetar uma das figuras referenciais da localidade nas letras portuguesas, também patrono da escola / do agrupamento que assumiu a parceria do prémio e do evento junto com a Câmara Municipal de Espinho.
      

sábado, 13 de maio de 2017

Portugal vence Eurofestival com os irmãos Sobral

      De tão anunciada ao longo da semana, não custava (nada) acreditar na vitória.

      É um facto que o festival nacional da canção já levou à Eurovisão cantigas que não me disseram nada, mas também é verdade que já tivemos belíssimos exemplos que ficaram muito aquém das expectativas. E não foi apenas um. Vários casos podiam ser aqui mencionados (Simone de Oliveira, Duarte Mendes, Maria Guinot, Sara Tavares, Dulce Pontes, Rita Guerra).
      Há quem diga que são motivações políticas que estão por trás do apoio aos vencedores - não creio que tenha sido o caso este ano. Outros apontam razões económicas - também aqui não está o nosso ponto forte. Alianças ou identidades culturais haverá, por certo, entre os países que se fazem representar num festival que se diz europeu e já lá conta com a Austrália (grande redefinição continental)! Nas aproximações e nos afastamentos, Portugal recebeu pontuações máximas entre aliados históricos e amigos mais recentes. No centro de tudo, há uma belíssima composição, na letra e na música. Quanto à interpretação, por mais que se fale na teatralização e nas particularidades expressivas do cantor, está em causa a sensibilidade de quem canta e interpreta, por mais caricato que possa parecer; um modo de sentir uma letra e uma melodia que têm tudo para ouvir e seduzir, ao estilo de um jazz de versatilidade vocal e harmonias românticas simples, matizadas com sonoridades tão diversas quanto o choro do fado, o embalo da bossa nova, mais a esperança e a vontade que o jazz traz ao que possa ser "blue".
      Os prémios extra-concurso (Marcel Bezençon Awards, pela interpretação de Salvador Sobral e pela composição musical de Luísa Sobral) eram um indício de um final feliz, há pouco reafirmado: Portugal vence o Eurofestival com os irmãos Sobral, depois de 53 anos de participação no certame.
    Foi assim que tudo começou (tão simples, genuíno, sensível, melodioso) e muito deve ser assim lembrado, por mais brilho, palmas, sucesso ou público que tenham sido ou venham a ser conquistados:

Participação no Festival da Canção 2017, na RTP1 - Salvador Sobral

       AMAR PELOS DOIS

Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi para te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada para dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois

      
     Talento de irmãos, formação musical, sonoridades bem combinadas a despertar a emoção foram ingredientes essenciais para a(s) vitória(s). Em Português.
       
     Uma música pela música. Uma vitória que faz sentido, E a canção é linda! É balada que os irmãos Sobral souberam muito bem criar e pôr muita gente a cantar. Com orgulho, também.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

De bom tem pouco!

      Isto de começar o dia com erros não é por certo de "Bom Português".

     Começa a ser um lugar comum, atendendo a tanto apontamento crítico já aqui registado. 
    Quando julgava estar a ouvir mal, confirmo na RTP-Play a "lição" do "Mau Português". Não é o que se escreve, mas o que a voz-off (da locução) dá a ouvir à medida que se lê a frase com a forma verbal corretamente escrita:

A partir do registo do programa "Bom Dia Portugal", emitido hoje na RTP1

     Já nem comento o facto de "chegarmos" ser palavra que os transeuntes dizem estar "tudo junto", "sozinha", "pegado" e "sem tracinho". Agora, às 7:24 da manhã, ouvir que se escreve tudo junto porque se trata da terminação da terceira pessoa do plural do infinitivo pessoal... é obra do pior exemplo.
     É do conhecimento geral, pela leitura atenta das gramáticas, que a terminação verbal em 'mos' (sem hífen, portanto) é a marca morfológica periférica (à direita, a dos sufixos) da primeira pessoa do plural, conforme se pode verificar na sistematização seguinte:

Sistematização dos paradigmas flexionais verbais comuns no Português

      Numa das realizações típicas do Português - a do infinitivo flexionado, com a marca de pessoa e de número -, é possível encontrar afixos flexionais que amalgamam as categorias de pessoa e número. No caso de "chegarmos", o que está em causa é a amálgama de pessoa e número para a primeira pessoa do plural ("O facto de <NÓS> chegarmos..."), não para a terceira ("O facto de <eles> chegarem...").

     Fica aqui a correção para a "lição", começada às 7:23 no que devia ser o "Bom Português". Voltou a não ser bom exemplo.

domingo, 26 de março de 2017

Pensamento do dia (com frio e chuva)

     E para hoje,...

     ... nada como passear pelo Facebook e encontrar a imagem seguinte na página "O Sexo e a Idade":


     Concordo com o conteúdo.
     Quanto à forma, resta-me responder à letra:


     Não é embirração, mas a impressão de que, amanhã, vou voltar ao mesmo (isto porque 'água mole em pedra dura muito dá e pouco fura'). 

     Parece que a única coisa que mudou hoje foi mesmo a hora, para tornar a luz dos dias mais longa.

sábado, 25 de março de 2017

A César o que é de César; ao nome o que é do nome.

      Voltando às funções sintáticas, desta feita mais internas.

      Nova dúvida em apontamento antigo (que nem era sobre sintaxe, mas que lá tem depositada a dúvida sobre tal domínio linguístico).

        Q: Boa tarde. 
      Tenho dúvidas se a função sintática do segmento textual "de uma esquadra inglesa", na frase “Ancorado em Alcântara desde a manhã de 22 de dezembro, assiste no dia seguinte à chegada ao Tejo de uma esquadra inglesa que larga ferro a estibordo“ é o complemento do nome ou o complemento oblíquo. Poderia ajudar-me?
         Muito obrigada,

     R: A função sintática do complemento oblíquo está na dependência de um verbo transitivo indireto. Assim, "assiste" seleciona o complemento oblíquo "à chegada ao Tejo de uma esquadra inglesa que larga ferro a estibordo". O foco centrado no verbo "assistir" (que, por sua vez, seleciona a preposição 'a' - ASSISTIR A) permite ver, a um primeiro nível de análise sintática, um verbo principal (transitivo indireto) complementado por um sintagma preposicional expandido (todo ele encarado como complemento oblíquo). 
     No caso do segmento indicado ("de uma esquadra inglesa"), este encontra-se na dependência do nome "chegada", numa expansão desse núcleo nominal; logo, corresponderá ao complemento do nome ("chegada"), enquanto função sintática interna (ou de segundo nível de análise).
       Esquematicamente, teríamos:


    Se é verdade que o verbo 'chegar' implica a estrutura argumental 'Alguém / Algo CHEGA A Algum lugar", o agente associado ao ato de chegar (a funcionar como sujeito sintático) é o que está configurado por 'de uma esquadra inglesa...'. Tratando-se de um argumento selecionado pelo verbo, conclui-se que o nome derivado desse verbo (chegar > 'chegada') também implica a consideração desse mesmo argumento como selecionado pelo próprio nome. Deste modo se justifica a presença de um complemento de nome.
         
      Diferentes níveis de análise, na sequência de uma expansão de segmentos, que não pode fazer esquecer a consideração do todo, mas também das suas partes (de modo a que estas não se confundam com o primeiro).

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crenças... muito oblíquas.

     Quando se acredita, acredita-se em alguma coisa.

     Vem isto a propósito de uma dúvida, formulada em apontamento anterior, que se debruça sobre a sintaxe do verbo 'acreditar' (o que também é válido para 'crer'):

      Q: Olá, Vítor!
      Precisava da sua ajuda no esclarecimento de uma dúvida. Na frase "Um em cada 10 portugueses acredita que o amor pode estar escondido atrás do ecrã do computador", que função sintática é desempenhada pela oração completiva? Normalmente, esta oração corresponde ao complemento direto, mas neste caso não me parece possível pronominalizar por "o" - "acredita-o". Diríamos "acredita nisso"; logo, podemos admitir que a oração tenha a função sintática de complemento oblíquo? Obrigada.

       R:  Viva.
      A oração "(em) que o amor pode estar escondido atrás do seu computador" é, de facto, um caso de oração subordinada completiva oblíqua (daí a função sintática de complemento oblíquo) à semelhança de outras construções que também apresentam, como principal, um verbo transitivo indireto (que seleciona preposição) - exemplo: aconselhar a, acreditar em, concordar com, conduzir a, convencer decrer em, discordar de, insistir em, lutar por, preferir a, prevenir de, entre outros.
        A estrutura argumental típica do verbo 'acreditar' é, na verdade, 'Alguém ACREDITA EM Algo / Alguém', pelo que 'em algo / alguém' desempenha a função de complemento oblíquo. O facto de se poder suprimir ou omitir a preposição não invalida a identificação desta função, atendendo aos testes de verificação da mesma (questionação por 'Em que acredita...?' / pronominalização 'acredita nisso' / impossibilidade da passivização, típica nas construções transitivas diretas).


       Vários outros exemplos análogos podem ser considerados, também com a omissão da preposição e a identificação da subordinada completiva oblíqua:

      i) Os alunos insistiam (em) que o teste devia ser adiado.
      ii) Os estudantes confiaram (em) que havia pouca matéria para estudar.
      iii) As vítimas anseiam (por) que seja feita justiça.
      iv) Ninguém se apercebeu (de) que alguém estava a faltar.
      v) Gosto (de) que faças tudo pelo melhor.
      vi) Ele convenceu-se (de) que tinha de salvar o mundo.

      No caso do verbo 'acreditar', a construção sem preposição é seguramente a preferida:

      a) Não acredito que tenhas feito asneira.
      a') ?? Não acredito em que tenhas feito asneira.

   Um caso para demonstração como a estrutura de superfície prefere uma construção típica de queísmo (recurso a construções iniciadas por 'que' pela supressão da preposição em orações subordinadas finitas, em situações aceitáveis para a maioria dos falantes), não obstante os testes e a manipulação da frase apontarem para o que os olhos não dão a ver.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Dia Mundial da Água

      Depois da Primavera e do dia da poesia,...

    Chega o "Dia Mundial da Água", criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, desde 1993, com o intuito de consciencializar publicamente para a proteção, conservação e desenvolvimento dos recursos hídricos.
   Da importância dela para a vida já muito se disse e daí decorrem as múltiplas significações e simbologias que adquire na arte, em particular, e na vida, em geral. Meio de fecundação e de purificação, de regeneração de forças (espirituais, anímicas, físicas), de regresso às origens, de fluidez do próprio tempo, a água é tudo isto nas letras que nos são dadas a ler; nas cores que cobrem as telas; no líquido que nos escorre pela pele.
      Pela relação que mantém com todo o ser humano, é também fonte de memórias, límpidas ou baças, alegres ou sofridas conforme reflete os bons ou maus momentos da vida. Assim se pode entender "The Water", musicada e interpretada pelo duo britânico Hurts (formado pelo teclista Adam Anderson e o vocalista Theo Hutchcraft):

Vídeo "The Water" em concerto por terras russas

     Do álbum "Happiness" (2010), fica a letra dessa 'água' que, no seio da vida e da felicidade, não deixa de espelhar também o receio de se estar / entrar numa relação pelo que já possa ter havido de dor no passado. O ciclo da água pode manter-se, mas impõe-se o cuidado de não se fazer ninguém perder naquele que também pode ser um leito de morte, onde os anjos também gritam.

       THE WATER

Innocent, they swim
I tell them 'no'
They just dive right in
But do they know?

It's a long way down
When you're alone
And there's no air or sound
Down below the surface

There's something in the water
I do not feel safe
It always feels like torture
To be this close

I wish that I was stronger
I'd separate the waves
Not just let the water
Take me away

There was a time I'd dip my feet
And it would roll off my skin
Now every time I get close to the edge
I'm scared of falling in

Cause I don't want to be stranded again
On my own
When the tide comes in
And pulls me below the surface

      ... fica  esta nota de música, neste dia da água que, entre o hídrico e o simbólico, também se faz de fluxo e de ondas da vida.