domingo, 14 de janeiro de 2018

Dor mitigada (?)

        Ocorre-me pensar mais em lágrimas de crocodilo do que nas de verdadeiro sofrimento.

        Não se trata de pensar no réptil a pressionar o céu da boca quando ingere alimento e comprime as glândulas lacrimais (chorando de prazer quando devora a vítima), mas de chorar fingidamente. E, no que toca a dor, esta é a de ver tanto erro no meio de uma daquelas mensagens de sentimentalismo balofo que circulam pelas redes sociais:

Imagem recolhida de posts que circulam pelo Facebook

      O acento gráfico agudo (´) é o mais comummente utilizado na língua portuguesa; o grave (`) surge apenas nas situações de contração ou de vogal em contexto de crase (a+a > à; a+aquele > àquele; a+aquela > àquela; a+aquilo > àquilo). Portanto, DÓI ver o acento errado nalgumas palavras; a ausência do certo noutras (LÁGRIMA) e o uso excessivo do erro em CAIR (sem cento, claro). É que nem de indecisão se trata; é pura ignorância de como escrever bem (e, pelos vistos, tão familiartão generalizado aos nossos olhos de leitores e consumidores).

       Diga-se que é de chorar de tristeza tanta ignorância (isto se não for para chorar de riso com o ridículo), por mais que o pensamento lido faça sentido. Contudo, a seriedade da mensagem banaliza-se perante a escrita lamentável que a traduz. Nem dá para levar a sério!

sábado, 13 de janeiro de 2018

A História do Porquinho

        Não se trata da história dos três porquinhos para a hora de deitar...

      É antes uma narrativa para acordar e lembrar “A Hora Mais Negra”, com um Porquinho só, como familiar e afetivamente a esposa o tratava. É também assim que Winston Churchill surge aos olhos e ouvidos do espectador cinéfilo, tudo porque um filme dirigido por Joe Wright tanto mostra a personalidade deste líder histórico do século XX como expõe as fragilidades desse homem forte, porque imperfeito, e poderoso, porque soube ser só.

Trailer do filme "A Hora Mais Negra", de Joe Wright (2017)

      É com estes atributos – força, imperfeição, poder, solidão – que o primeiro-ministro inglês de Jorge VI nos é dado a conhecer no contexto da II Guerra Mundial, enfrentando um Hitler e um Mussolini, mais todos aqueles que, no seu país (Reino Unido), o viam como indesejado, irrefletido e tempestuosamente irascível. Além disto, tinha apenas para oferecer sangue, trabalho, lágrimas e suor (o que, seguramente, muitos não queriam), quando um caminho mais fácil (por aparente e enganador que fosse) era percebido como menos penoso.
  Na interpretação de Gary Oldman (recentemente galar-doado com um Globo de Ouro pelo papel desempenhado), a personagem Churchill é secundada por Lily James (a secretária Elizabeth Layton) e Kristin Scott Thomas (no papel da esposa Clementine – Clemmie -, que aceita a figura pública que o marido sempre quis ser), também relevantes na solidificação dos pilares e dos princípios de um homem que se torna uma referência do século XX. Nomeadamente, foi-o para a História enquanto figura de liderança que adotou princípios, defendeu convicções válidas e se revelou grande na ação, estando ao lado e do lado das mudanças que afasta(ra)m o despotismo, o poder autocrático, a tirania e tudo o que desvia a Humanidade de um caminho integrador, inclusivo e tolerante. Em suma, um exemplo para alguns dos que contemporaneamente se encontram no poder.
     Há imperfeições que são menores face à grandiosidade dos valores e princípios por que se luta. Neste sentido, a frase “Quando a juventude nos falha que a sabedoria nos valha” acompanha bem uma personagem que se revela sábia, mesmo quando o medo se impõe ou quando poucos apoios tem para o que há a fazer. Assim se cumpriram os tempos; assim se revê um homem que mudou, porque só os que não mudam é que não fazem nem trazem mudanças.
    Este é um filme largamente argumentativo (até pelos exemplos retóricos de Cícero e Horácio que inspiravam Churchill); persuasivo na construção de identidades e de condução de mentalidades. 

     Um filme educativo, a explorar e com lições de vida merecedoras de discussão - na consciência de que há movimentos de força conjuntos, impositivos, que nem sempre fazem sentido perante o que mais deve dignificar o Homem; na constatação de que um homem pode fazer a diferença por aquilo em que acredita e que, mais cedo ou mais tarde, sai legitimado.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Conta-me histórias

       Em registo um tanto anacrónico, fez-se a aproximação à Crónica de D. João I.

     Em termos de contexto epocal, falar da crise de 1383-85 e da batalha de Aljubarrota é ponto essencial quando se aborda uma das crónicas de Fernão Lopes: a Crónica de D. João I. Esta obra quatrocentista propõe uma versão legitimadora da ascensão do Mestre de Avis ao trono (após a morte do rei D. Fernando), numa visão parcial dos factos e das personalidades (entre a heroicização de um bastardo e a diabolização de uma rainha-regente, mais de um amante estrangeiro, os quais estão mais para uma facção indesejada: a que apoia a causa castelhana, bem como a perda da independência nacional).
      "Conta-me História" trata desta questão / época de uma forma ora cómica ora demonstrativa do que foi um período histórico crítico de Portugal:

Excerto do programa televisivo da RTP1: "Conta-me História"

     Num diálogo entre Luís Filipe Borges e Fernando Casqueira, em pouco mais de meia hora, fica a saber-se o que marcou o final do século XIV na História de Portugal, objeto da narrativa lopiana. Entre intrigas palacianas, que mais parecem uma "telenovela venezuelana", jogos e estratagemas assentes em interesses nem sempre claros, fica uma construção voltada para a causa portuguesa e a manutenção da independência nacional.
     A obra em apreço é quatrocentista (século XV) e os factos narrados são trecentistas (século XIV). A visão histórica é a de um cronista que, por mais que afirme a verdade da História, não deixa de a marcar por uma parcialidade que, literariamente, está bem assinalada com a modalidade apreciativa / avaliativa tão evidente em expressões como "era maravilhosa cousa de se ver" (para além de outras, que marcam a presença do narrador no discurso, com os seus comentários e juízos de valor acerca do que é narrado).

     Um exemplo que procura trazer o passado a uns olhos e ouvidos do presente, para que dele façam memória futura.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Para que nada se perca

     Começado o novo ano, convém saber distinguir os verbos dos nomes.

     Entre classes de palavras não devia haver confusão; menos ainda quando a morfologia se articula com elas para marcar a distinção. Ainda, assim, esta nem sempre acontece da melhor forma, como o provam o uso (popular) mais o cartoon seguinte:

Eis senão quando... a perca chega ao funeral.

     O uso, num registo mais popular, do termo "perca" para forma nominal associada ao verbo 'perder' é contrariar o princípio morfológico de derivação do verbo (deverbal) em nome (perder > perda) com manutenção da base derivante (o radical 'perd'). 
     Em termos de norma, é o termo 'perda' que se reconhece como nome resultante de um processo morfológico de derivação não-afixal (isto é, processo de formação que permite a passagem de uma forma verbal a nome, sem acrescento de afixos - apenas com a substituição da vogal temática 'e', em perder, pelo índice temático 'a', em perda).

      Fique-se, portanto, no registo do Português padrão, com a 'perca' para designação de peixe (nome) ou para conjugação verbal de 'perder' no presente do conjuntivo, inclusivamente com o valor suplementar deste último em frases de tipo imperativo. Mais do que isto, por agora, é cómico certo.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Abrir o ano com as palavras certas do poeta

      Feita a passagem (seja ela lá qual tenha sido), há que seguir em frente.

      Por outros termos, diz o poeta Fernando Pessoa o mesmo, na forma mais cert(eir)a e natural que todos devemos (re)conhecer:


             Ano Novo

Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluída e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.



         in Poesia 1918-1930, Assírio & Alvim, 

             ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

    A metáfora do rio, enquanto curso do tempo e da vida, é um 'topoi' literário. Em sete versos, materializa-se a expressão poética cantada e contada em número de forte espiritualidade e simbolismo (enquanto totalidade do Universo em constante transformação, associado à pesquisa, introspeção; ao ocultismo, ao pensamento profundo), na aproximação do Homem com Deus.

     Continuemos, então, o rio, indo ao encontro desse mar, lá nos confins desse encontro com o que está para depois da vida.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Votos pouco convencionais

       E depois do Natal, a entrada no novo ano.

     Avisa-se o leitor de que a imagem seguinte pode afetar algumas pessoas mais suscetíveis e/ou causar alguma incredulidade:


Imagem colhida a partir de http://geradormemes.com/meme/drk6hr

    Partilho uma forma original, embora pouco convencional, de formular os votos de umas boas entradas e de um bom ano. É o que dá brincar com a metonímia e a homofonia

       A bem do riso, do cómico e da boa disposição que o novo ano possa trazer. Bom 2018!

domingo, 24 de dezembro de 2017

Ainda Natal

     Pelo que tenha de bom e pelo que faça lembrar do que não é / tem.

     Repete-se um tempo que, entre a exceção e os excessos, pouco tem tido do muito que devia mais ser. Daí ser época a conjugar encantamento, magia e luz com tristeza, desilusão e perda. Assim persiste e resiste uma festividade que, no brilho, no regalo e no conforto, muito tem do lúrido real da pobreza, da solidão e do abandono. Entre o canto e o desencanto, o deus menino tudo isto espelha, tanto no nascimento como na morte. 

Um presépio em Espinho, com os espinhos da vida (Composição fotográfica VO)

     Esteve sempre nas mãos do Homem a hipótese de tudo ser diferente. Assim se manterá para futuro tal condição. Bom seria que neste Natal nascessem sinais da esperança, para que, cada vez mais, a luz permanentemente encandeasse o que de pior o mundo tem.
    Ainda assim, como dizem a música de Assis Valente (desde 1933) e a voz de Bethânia (desde 2008, com o CD "Natal Bem Brasileiro") em toada do Brasil, "Anoiteceu".

Vídeo com a versão, cantada por Maria Bethânia, de "Boas Festas"

        BOAS FESTAS

Anoiteceu, o Sino Gemeu 
A Gente Ficou Feliz a Rezar 
Papai Noel, Vê Se Você Tem 
A Felicidade Pra Você Me Dar 

Eu Pensei Que Todo Mundo 
Fosse Filho De Papai Noel
Bem Assim Felicidade Eu Pensei 
Que Fosse Uma Brincadeira De Papel 

Já Faz Tempo Que Pedi 
Mas o Meu Papai Noel Não Vem 
Com Certeza Já Morreu Ou Então 
Felicidade É Brinquedo Que Não Tem.

    Com música, até parece que "Papai Noel" ainda vem (não da Lapónia, mas das terras de Vera Cruz).


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Alaranjado Natal

       A poucos dias do branco(?!) Natal.

      Não são pinheiros, não. Também não é tempo de verão. As cores, porém, aquecem este inverno, num pôr do sol matizado dessa estação que já foi e que teima em fazer lembrar-se.

O pôr do sol na avenida da Liberdade, em Espinho (FOTO - VO)

      No mar, qual lençol em dobras e sulcos ondeados, há rastilhos de um sol mais do que anunciado ao fundo de uma tela feita de terra, água e céu.

      No calor das cores, só a friagem (ou o friacho do aproximar da noite) faz sentir alguma da natural invernia que não fez parte do dia.
      

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Para ver e ouvir... Caeiro.

     Depois de tanto procurar, encontra-se o que não se quer e o que não podia ser melhor.

    Procurando Caeiro, circulam pelas redes sociais e no mundo virtual materiais que tanto têm de bom como de péssimo. Já nem falo da ridícula questão de se assumir que Caeiro é um pastor ou camponês, quando se deve tomá-lo como bucólico e pensador, por mais que este, por princípio, procure recusar o pensamento abstrato (por isso, a todo o momento concretizado).
     Pior ainda é dizer-se (e fazer-se ouvir) que recusa a metáfora. Se estivesse numa realização cinematográfica, diria "Corta!", para lembrar que "O rebanho é os meus pensamentos" (in poema IX de "O Guardador de Rebanhos"), afinal, o que o torna um guardador de rebanhos (diga-se, pensador) ou alguém que tem a alma como a de um pastor (também eu, por vezes, tenho a alma como a de um santo, ainda que, realmente, esteja mais para pecador ou para diabo - isto de ser como ou ter como não é o mesmo que ser ou ter, por certo).
    No fundo, mais metáfora não existe do que aquela que faz de Caeiro o mestre, o pensador, o centro da criação pessoana que, quando surge, é encarado como o resultado de um "dia triunfal" (segundo carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro).
      Mais: afirmar que Caeiro não recorre ao adjetivo é não o ler, em toda uma produção literária que sublinha que "O que é preciso é ser-se natural e calmo" ou que "o poente é belo e é bela a noite" (in poema XXI de "O Guardador de Rebanhos"); que "Sou diferente" (in "Dizes-me: tu és mais alguma cousa" de "Poemas Inconjuntos"); que "fecho os olhos quentes" e que "Sei a verdade e sou feliz" (in poema IX de "O Guardador de Rebanhos"); que "Aquela senhora tem um piano / Que é agradável..." (in poema XI de "O Guardador de Rebanhos") - alguns versos apenas do heterónimo para contraditar o que nunca deveria ser dito / ouvido. Assim se revê a verdade de tanto material educativo, validado por tanto saber superior que a todo o momento cai. E bastava tão somente falar em "O Pastor amoroso" para duvidar da grande verdade! Quase apetece fazer uma tese com uma tipologia dos adjetivos a que Caeiro recorre, para sustentar, ainda mais, o que já aqui se assume nos sublinhados.
     E, assim, cresce o pecador e o criminoso que há em mim: cortando o inútil e combinando o válido com o que é bem feito, chega-se a algo que pode ser visto e ouvido para conhecer melhor. Um material novo, a partir do já feito e que, a bem da verdade literária, tinha de ser expurgado do que não interessa para ninguém.
    Como o objetivo não é obter lucro nem comercializar, fica um material para futuro (acompanhado de uma ficha de trabalho / um teste a propósito), sempre que Caeiro for para ensinar:

Composição de materiais relativos ao estudo de Caeiro, o Mestre pessoano 

     Imagens, pinturas, vídeos, versos, declamação (muito interessante de Pedro Lamares) - uma multiplicidade de suportes para fazer ver e ouvir o Mestre, que tanto adjetiva como metaforiza nessa intermediação que a língua (faz) representa(r) com o pensamento e com a realidade, por mais ou menos literário (ou poético) que seja.

     E tudo isto é Caeiro na suposta simplicidade que o caracteriza, num tempo-natureza a todo o instante novo por mais cíclico e repetitivo que possa revelar-se.
     

sábado, 2 de dezembro de 2017

Lutero

     A propósito de uma minissérie no canal público de televisão.

Estátua de Martinho Lutero frente à 
Igreja de Nossa Senhora (Frauenkirche), Dresden
Foto-VO
    Quando o rogo feito a Deus não é escutado (nem que seja por causa de um jogo de bola) ou quando os homens da igreja, a troco de indulgências, concedem o perdão, a fé surge necessariamente instrumentalizada. Resta a um homem caminhar no sentido da reforma da igreja, questionando-a e afastando-a das fraudes e dos logros criados. Foi o que Martinho Lutero fez.
     A Reforma de Lutero, minissérie em dois episódios hoje transmitida pela RTP1, é uma produção alemã da UFA Fiction - ZDF a ilustrar bem o que há 500 anos (1517) fez um sacerdote agostiniano revolucionário com as suas 95 teses acerca das indulgências: conseguiu que a poderosa Igreja Católica fosse abalada pelo movimento protestante do início do século XVI. 
     Do título original 'Reformation' e com a realização de Uwe Janson, a estreia televisiva denuncia como a máxima 'Quando o dinheiro cai na caixa, a alma voa para o Céu' se tornou na maior das contribuições dos fiéis para uma instituição que se afastava em muito do espírito cristão que a funda(menta)ra. A fé e a crença de um homem marcaram a diferença, na oposição aos dogmas da igreja a que pertencia; em favor da verdade, da piedade e da misericórdia para todos (nomeadamente na língua que dominavam e não no latim que desconheciam). Afinal de contas, ler permite construir o conhecimento que só alguns controlavam - logo, nada como traduzir as fontes para a língua que todos entendam.

      Trailer promocional da série, transmitida pela RTP1

    Martinho Lutero (interpretado por Maximilian Brückner) é o professor de Teologia que, na Universidade de Wittenberg e no início do século XVI, assina escritos contra a venda de indulgências, consciencializando os crentes de que nenhum homem deve pagar ou comprar a sua liberdade. Numa primeira conferência de Teologia em alemão, permitiu o acesso direto e generalizado à palavra de Deus, ultrapassando-se o espaço reservado apenas a quem sabia latim. Conquistada a população, enfurecido o Arcebispo, Lutero recebeu uma bula papal que o obrigava a retratar-se com as suas teses, sob pena de excomunhão. 
        O jogo agora era outro; a bola estava do lado do poder institucional e de um homem - o Papa - que, para Lutero, valia tanto como um porqueiro. Deus continuava a não parecer ouvir o rogo do seu 'pastor'. Daqui à destruição da bula e à afirmação de que "há uma Igreja falsa e uma Igreja real", Lutero faz o caminho, perante o Arcebispo, o Imperador e os príncipes alemães, que o levará a reafirmar as suas teses, a traduzir a Bíblia e a implantar uma nova igreja no seu país.

       Para a semana há mais (o segundo episódio), para conhecer melhor um dos religiosos mais influentes na reforma da igreja católica na Europa.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

82 anos depois...

       A cada trinta de novembro, a evocação da data.

      Já que o estudam, bem que os alunos podem receber a referência sobre esse criador de poetas: há 82 anos morreu aquele que agora estudam. Não foram, por certo, para eles estas palavras; porém, a quadra revela-se algo premonitória:

Morto, hei-de estar ao teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P'ra ver um bem em morrer.

in Quadras, Lisboa, ed. Assírio  Alvim, 2002, pág. 11

     Interpretemo-la como expressão do prazer do autor a ladear o leitor, nessa vontade de aproximação que nem só de morte se faz, para bem de muitos.
        No Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, o morto está ao lado da sua criação, quando Pessoa visita Reis (o criador de "mãos dadas" com a figura criada), depois de a morte do primeiro, nos termos romanescos, ter sido razão forte para o heterónimo "atravessar o Atlântico depois de dezasseis anos de ausência" (op. cit. 1984, 6ª ed., pág. 325).

         Neste jogo de aproximações, compõe-se o desafio à morte: porque lido e falado, Pessoa vive(u).

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Esse conheço eu... ou não!

      Convenhamos que a relação da poesia com a música é mais do que evidente...

      ... e um nome pode ser a ponte para mais um exemplo dessa evidência: Alexander Search. Podia ser Fernando Pessoa, sim, enquanto um dos seus heterónimos; é-o, de facto, na rádio, não numa simples declamação poética do texto, mas numa cantiga baseada no poema heteronímico.
    Trata-se do projeto musical de uma nova banda de rock eletrónico, con-cebida por Júlio Resende e onde figu-ram Salvador Sobral (hoje mais conheci-do enquanto vence-dor do último festi-val da Eurovisão), como o vocalista Benjamin Cymbra, para além de Augustus Search (composição, piano e teclados), Marvel K. (guitarra), Sgt. William Byng (eletrónica) e Mr. Tagus (bateria).
      Inspirado na poesia pessoana escrita em inglês aquando da permanência do poeta na África do Sul (Durban) nos tempos de adolescência, Alexander Search do século XXI canta o que Alexandre Search dos inícios do século XX escreveu.
     Ainda em tempos de sol, à espera da chuva que teima em não vir (a lembrar Caeiro e os versos "Nem tudo é dias de sol / E a chuva, quando falta muito, pede-se" - in Poema XXI de "O Guardador de Rebanhos"), chegam aos nossos ouvidos as palavras duplamente (re)criadas por Search (sem ter de procurar muito pela escrita):

Vídeo de apresentação de "A Day of Sun", de um Alexander Search mais contemporâneo

       A DAY OF SUN

I love the things that children love
         Yet with a comprehension deep
That lifts my pining soul above
         Those in which life as yet doth sleep.

All things that simple are and bright,
         Unnoticed unto keen‑worn wit,
With a child's natural delight
         That makes me proudly weep at it.

[I love the sun with personal glee,
         The air as if I could embrace
Its wideness with my soul and be
         A drunkard by expense of gaze.]

I love the heavens with a joy
         That makes me wonder at my soul,
It is a pleasure nought can cloy,
         A thrilling I cannot control.

So stretched out here let me lie
        Before the sun that soaks me up,
And let me gloriously die
        Drinking too deep of living's cup;

Be swallowed of the sun and spread
       Over the infinite expanse,
Dissolved, like a drop of dew dead
       Lost in a super‑normal trance;

[Lost in impersonal consciousness
       And mingling in all life become
A selfless part of Force and Stress
      And have a universal home;]

And in a strange way undefined
       Lose in the one and living Whole
The limit that I call my mind,
       The bounded thing I call my soul.

                                                                            17-03-1908

in Poesia Inglesa, Fernando Pessoa 
(organização e tradução de Luísa Freire, prefácio de Teresa Rita Lopes) 
Lisboa, Livros Horizonte, 1995, p. 172

     Segundo a biografia criada pelo grupo musical, o novo Alexander Search é um(a) (P/)pessoa coletiva com muito da mensagem que o autor de Orpheu propõe nos seus textos:

     "Alexander Search é uma banda de língua inglesa que cresceu na África do Sul, mas que está radicada na Europa, mais concretamente Portugal, “paraíso à beira mar plantado” como dizia o seu maior poeta, Fernando Pessoa. A sua música mistura influências da indie-pop, música electrónica e rock. As letras foram escritas maioritariamente por Alexander Search, membro da banda que morreu tragicamente ainda jovem, mas que granjeia o respeito e admiração dos seus pares como “the greatest conquerer of the beauty of words”, o maior conquistador da beleza das palavras.
     Augustus Search é o compositor de serviço da banda, toca piano e sintetizadores e faz a direcção musical. Benjamin Cymbra é um cantor extraordinário e traz na sua voz a garra rock n’roll do passado e as angústias e esperanças do presente. O futuro “é a possibilidade de tudo”, dizia também Pessoa.
    Sgt. William Byng comanda a vertente computacional e electrónica. Marvel K. tem uma guitarrada cortante e espacial. E Mr. Tagus, ex-baterista de jazz, ainda tem na música e ‘groove’ de África uma das suas maiores riquezas.
      Alexander Search é uma banda que gosta de ousar, impaciente, à procura, sempre à procura, da quintessência. Nunca o conseguiu. Este é o disco de mais uma tentativa falhada."

     Nos homónimos, há uma convergência de som e grafia a que Música e Literatura não são estranhas face ao escritor e projeto musical representados no cruzamento interartístico aqui divulgado.

     E nesta (re)criação artística estará uma boa forma de lembrar o criador que amanhã será recordado no seu fim terreno.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Qual é o aspeto?

      Não se trata de uma questão de moda nem de querer saber o estado de qualquer coisa!

     Pode, aliás, ser o estado ou o evento na situação traduzida num enunciado, atendendo a vários elementos linguísticos neste último presentes.
       É precisamente sobre isto que vem a questão seguinte:

     Q: Olá, Vítor. Posso dizer que na frase "Os alunos espirraram na aula" o aspeto é perfetivo porque o verbo se encontra no pretérito perfeito? Quando puderes, confirma-me, por favor.

      R: Olá. Lamento, mas não posso confirmar. Infirmo, mesmo.
      Creio haver um conjunto de pressupostos que precisa de ser reformulado: o da relação pretérito perfeito e valor perfetivo (pois o pretérito perfeito nem sempre configura o aspeto perfetivo nem o aspeto perfetivo se reduz ao uso do pretérito perfeito); o da associação direta entre tempo e aspeto verbal (uma vez que os valores aspetuais não apresentam linearidade ou implicação direta com valores temporais).
       A questão do aspeto, enquanto categoria gramatical que fornece informações acerca da estrutura temporal interna de uma dada situação, implica a consideração de uma combinatória de dados lexicais e gramaticais, os quais se revelam interatuantes na construção dos próprios enunciados.

 Sistematização proposta em Com Textos 11 - Edições ASA, 2011, pág. 185

      Para começar, interessa verificar que o verbo utilizado (espirrar), em termos lexicais e aspetuais, pertence a uma situação eventiva (dinâmica) distinta dos estados (não dinâmicos). Dentro dos eventos, 'espirrar' corresponde a um ponto (ou sucessão deles) que não admite uma situação resultativa final. Neste sentido, já não há razão para se falar de perfetividade.
       O facto de o verbo se encontrar no pretérito perfeito permite a localização da situação no tempo (passado face ao momento de fala) e a indicação de que esta terminou. Para apresentar valor aspetual perfetivo teria de esse mesmo enunciado dar lugar à perspetivação de um estado final consequente (verificável com o teste linguístico seguinte: 'Os alunos resolveram um teste' > o teste ficou / está resolvido; 'O atleta português ganhou a prova' > a prova ficou / está ganha). Ora, não é o que sucede com o exemplo proposto na questão ('Os alunos espirraram na aula' > *Os alunos ficaram / estão espirrados na aula). 
       O pretérito perfeito só tem valor aspetual perfetivo nas frases que admitem a construção de um resultado, ou seja, com verbos associados a culminações (duração muito breve, momentânea ou instantânea) ou a processos culminados (duração mais ou menos longa, com faseamentos intermédios) - a título de exemplo, para as primeiras, 'Os trabalhadores desmaiaram com o calor' (> Os trabalhadores ficaram / estão desmaiados com o calor); para os segundos, 'Pessoa construiu uma obra fantástica' (> a obra fantástica ficou / está construída). 
     A propósito de, por um lado, o pretérito perfeito não estar associado exclusivamente ao valor perfetivo e, por outro, não ser o único tempo a representar o valor perfetivo, considerem-se os seguintes enunciados (na combinatória das formas verbais e das expressões adverbiais utilizadas):

         * "Os alunos leram os textos todos durante duas horas
(pretérito perfeito com valor imperfetivo, dado que, durante duas horas, os livros não estiveram / ficaram lidos)

         * "Os alunos irão ler os textos todos na próxima semana
(futuro com valor perfetivo, dado que, na próxima semana, todos os livros irão estar lidos)

       Enquanto valores aspetuais básicos, o perfetivo e o imperfetivo são perspetivações internas de situações que estão independentes do valor temporal nela representados - o primeiro admitindo resultado consequente; o segundo, não.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Com ou sem acento

      Hoje uma colega dizia-me que estava a falar com outra sobre o Português.

    Isto de falar (em) Português é para todos os que o têm como língua materna e instrumento de discurso e pensamento; falar sobre ele não é só para alguns, mas, convenhamos, há uns que estão mais apetrechados do que outros para o efeito.

     Q: Agora, todos os 'ói' deixaram de ter acento, não é? Por exemplo, em 'celulóide' (> celuloide), 'asteróide' (> asteroide)? Este novo Acordo Ortográfico...

      R: Não é correta a generalização; estão certos os exemplos.
      'Ói' continua a ser grafado, por exemplo, em 'herói', dada a acentuação (fónica e gráfica) aguda da palavra. Já a palavra 'heroico(a)' perde o acento gráfico, por se tratar de uma palavra grave. Genericamente, as palavras graves não são acentuadas graficamente na língua portuguesa, pelo que o acordo ortográfico segue essa orientação geral para este caso, em concreto, bem como para os exemplos dados e afins.
      Digamos que a terminação 'óide', proveniente do grego 'eîdos' e designativo de forma ou semelhança, perde o acento gráfico, uma vez que está presente na formação de termos fonicamente graves - ex.: fungoide / intelectualoide / lipoide / ovoide / ulceroide).

       Lá que seja bom falarmos sobre o Português, nada a obstar. Devíamos mesmo fazê-lo todos (fosse pela grafia alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990 fosse por razões mais comuns ao comum dos falantes, se me permitirem a repetição, para frisar alguma transversalidade que se impõe na questão).

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Grassa não tem graça

     Podia ser jogo de palavras, mas é mais do que isso. É constatação de vocabulário a dominar.

    Quando dizia hoje, numa aula, que "Grassa nos nossos dias o discurso da desgraça", uma aluna comentava que não percebia a frase; perguntava mesmo qual era a piada. Pedi esclarecimento para a questão formulada e a reação foi imediata: "Não há graça nenhuma na desgraça, pois não?"
     A oralidade tem destas coisas: representar uma palavra a partir do que se ouve e se (re)conhece, mesmo que tal não seja o que alguém diz. Confundir "grassa" com "graça" não é nada engraçado, mas, por vezes, até pode dar para rir. Contudo, o silêncio na turma era geral (fosse pelo reparo ao professor fosse porque ninguém percebia a "piada"). A forma verbal do verbo 'grassar' (alastrar, desenvolver, propagar) não foi sequer entendida, por ser frequentemente desconhecida por quem reduz ao máximo o léxico que usa (tão restrito quanto o verbo 'meter' dar para tudo, mesmo quando tal não é possível).
     Na homofonia dos termos, tornou-se previsível a reação discente, além de se constituir como uma oportunidade para se explicar a diferença das palavras, repondo uma coerência no enunciado dito que não foi (re)construída por quem o escutou.
      São vários os exemplos a que podia aqui recorrer (alguns dos quais foram já mencionados em apontamentos anteriores). O seguinte vem muito a propósito:

Exemplos homofónicos para toda a gente ver
     
     A escrita é bem mais facilitadora na distinção; a oralidade convoca uma semelhança sonora a todo o tempo causadora de problemas ortográficos. A falha na leitura é fator impeditivo de boas práticas de escrita e, também, na aquisição de vocabulário, é certo, embora muitos outros possam ser acrescentados. Grassa por aí uma multiplicidade de razões que, não tendo graça, muito tem a ver com a limitação lexical dos nossos jovens. 

     Mais vale cair em graça do que ser engraçado, diz o povo! Talvez o diga porque grassa por aí muita coisa sem graça nenhuma ou sem interesse absolutamente nenhum, mas que muitos julgam mais engraçada ou interessante do que o que realmente é (nada se aprendendo com ela).

domingo, 5 de novembro de 2017

Voltando à(s) coesão(ões)

     O fim de semana permanece como tempo de trabalho para muitos professores.

    Porque há testes ou trabalhos para corrigir, matérias para preparar, fichas para produzir, leituras a fazer,... quando o ritmo da semana é alucinante e insuficiente: não dá para tudo o que cumpre ser feito junto dos alunos (e não só). 
    Vale o facto de este também ser o tempo de reencontro(s) com propósitos formativos.

    Q: Vítor, qual o mecanismo de coesão presente no enunciado "Poesia 2, de J. Sena, estende-se por 900 pp. (...) cuja escrita corresponde ao tempo de publicação dos seus LIVROS, desde "Peregrinação" até "Exorcismos"? O nome "livros", relativamente aos títulos enumerados, é um elemento que garante a coesão lexical - interfrásica - temporal - referencial? Eu digo lexical; porém, há quem aponte para a referencial. Serão as duas? Quando puderes, diz-me o que achas.

     R: Olá. Viva.
    A propósito das questões de coesão, tive já oportunidade de me pronunciar nesta "carruagem", particularmente acerca da noção de coesão referencial e de coesão lexical. Estas últimas concorrem para a construção de uma cadeia de referência num texto / segmento textual, mas só se pode falar de coesão lexical quando o foco do mecanismo linguístico utilizado se circunscreve ao uso do léxico / vocabulário.
   Ora, no caso em concreto, há coerência referencial entre 'livros' e os títulos mencionados, sendo todos estes termos constituintes de uma cadeia de referência, com anáforas de natureza nominal. Que esta última se constrói com base no léxico também não há dúvidas (até pela relação hiperonímica de 'livros' face aos hipónimos assumidos pelos títulos dos livros referidos), por mais que se trate de um caso de correferência não anafórica.
     Portanto, conjuga-se aqui a existência de uma cadeia referencial (coesão referencial) apoiada em léxico (coesão lexical). Só quando a primeira se faz em termos estritamente mais gramaticais (pronomes, determinantes, advérbios, entre outros) é que se fica pela designação de coesão referencial (onde cabe falar de anáforas, catáforas, deíticos, construções elípticas, por exemplo).
      Pensando num exercício de escolha múltipla, não colocaria como hipóteses a selecionar as duas atrás mencionadas, pois ambas são validáveis pelo enunciado em análise, com a segunda (a lexical) a poder estar também implicada na primeira (referencial).

      Neste sentido, pode dizer-se que a coesão referencial é uma das propriedades textuais mais genérica, pela sua natureza léxico-gramatical; a coesão lexical foca- -se, mais especificamente, nas relações lexicais textualmente representadas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Porque há montanhas no céu

      Enquanto a chuva não vem, faz-se a caminhada que nos deixa bem.

     Nos céus, há montanhas tão voláteis que, por mais que as queiramos subir, não há pés que as pisem nem asas que a elas nos elevem.

Junto ao mar e às montanhas do céu - (Foto VO)

      Só a imaginação nelas pousa, numa espécie de lanugem que sustém o que peso não tem.

      A chuva não veio, a caminhada fez-se e o instante do olhar fixou-se na imagem de uma noite que estava para chegar.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Num fim de verão em dias de outono

       Agora que se anuncia o fim do verão em pleno outono...

      ... há um fogo no céu que não cheira ao queimado da terra nem faz arder mais o pouco que esta já tem. É o calor a cobrir o oceano, num pôr-do-sol que o céu vai enegrecendo em pinceladas de noite esfumada ao final de uma tarde.

Fogo de verão outoniço - (Foto VO)

       Tudo acaba para que tudo recomece, cedo ou tarde (para não dizer 'assim que anoitece').

      Lá, na linha do horizonte, está a fronteira: nem o fogo tem o azul do mar nem as ondas se deixam queimar. Só as estações (dos tempos) se (con)fundem.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Como?! Assim?!

       Isto de fonética e fonologia tem tudo a ver com SONS.

       Não com letras!
      Os grafemas estão para a escrita. Os sons estão para a oralidade. E se uma letra admite vários sons (veja-se a letra 's' que admite quatro realizações sonoras: [s] em 'sapato', [z] em 'rosa', [ʃ] em 'espinho' ou [Ʒ] em 'as batatas'), quando se faz o estudo da fonética e da fonologia é ao nível sonoro que tudo interessa. Portanto, há que distanciar da escrita e da tirania que esta apresenta quando se fonética e fonologia se trata.

         Q: A passagem de 'assi' para 'assim' pode ser um exemplo de paragoge?

        R: Claramente não. Trata-se de um exemplo perfeito de nasalização.
          Ninguém lê 'assim' como [ɐ'sim], mas sim como [ɐ'sĩ]. Ou seja, não é o som [m] que está em causa, mas sim a nasalização da vogal 'i' (que deixa de ser apenas oral para passar a oral nasal). É a aparência da grafia que parece apontar para o adição final de um som; contudo, não é isso o que acontece. É a vogal final que adquire um traço diferencial (de ressonância nasal) na sua produção.
         A letra 'm' pode ser lida como o som [m] em 'mesa' ou 'acima'. Por sua vez, em 'assim', 'fim' ou 'importar', a escrita não pode confundir o som transmitido - e que é sonora ou foneticamente a representação feita por um til ([ɐ'sĩ], ['fĩ], [ĩpur'tar]), a marcar o traço da nasalidade.

         Mais um caso que mostra que nem tudo o que parece é (não é processo fonológico de adição, mas sim de alteração na natureza da vogal oral que já lá está /estava e que passa / passou a ter um traço novo - o da nasalidade).

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Cor de Ouro

        "O Sol dourava o céu."

        Assim o escreveu Cesário Verde no seu "Num bairro moderno", onde encontrou uma vendedeira toda regateira em pleno ambiente burguês citadino. A partir daí, o poeta transfigurador viu numa giga pedaços de vida humana como extensão da que decorre da natureza vegetal.
        Mal ele sabia que esse mesmo sol também dourava o mar, cobrindo-o das cores de um areal que o espera, num ir e vir a todo o tempo repetido.

Sol: esse intenso dourador (Foto VO)

        Um fim de tarde que pouco tem de outono, por mais que a ele pertença, fez lembrar o verão que se foi apenas como estação. É ainda este que se faz sentir no calor que nos aquece ou na luz que nos acompanha até ao adiantado da hora do pôr do sol.

      Bem razão tinham os alquimistas, que viam o dourado como símbolo de acesso ao coração de um ser. Com uma imagem destas, ao vivo, revitalizam-se a mente, as energias e a noite acaba menos escura, menos melancólica.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ingerir pode dar em má gestão de exemplos

       Tudo porque 'ingerir' precisa de contextualização.

       A pergunta surge na sequência de uma resolução de exercícios sobre formação de palavras e a constatação de que algo não batia certo com o ato de comer / ingerir (caso para se dizer que nem sempre se deve "comer" a papinha que nos dão):

      Q: Posso considerar 'ingerir' um verbo formado por prefixação (in+gerir)? Estou a trabalhar uma narrativa sobre o que um leão come e 'ingerir' é aproveitado para exemplificar um caso de derivação por prefixação.

        R: Na verdade, segundo o contexto facultado, não se trata de um bom exemplo. 
        A forma etimológica (latina) ingerĕre assim o dita, pelo que se trata de uma base, uma palavra que evidencia a pertença do português ao ramo das línguas provenientes do latim. Não se pode considerar, o 'in' como prefixo, por, já na origem latina, tal segmento estar incluso na palavra etimológica - daí não se poder falar propriamente de formação de palavra no português.
        Fosse o contexto outro (o de se estar a falar de má gestão) e o raciocínio seria completamente diferente. Usar o termo 'ingerir' como sinónimo de gerir mal representaria um bom exemplo de derivação por prefixação, com o prefixo de negação 'in-' a traduzir a gestão mal conseguida (a ingerência).
       Ingerir, no sentido de comer, engolir, consumir alimentos, quanto à formação da palavra, nada tem a ver com ingerir como sinónimo de administrar mal (esta última, sim, a marcar-se pela prefixação). São dois bons exemplos de palavras homónimas (base e formação bem distintas) e que têm de ser equacionadas no seu contexto significativo, sem hipótese de a formação de uma se poder explicar pela de outra.

       Ingerir tem muito que se lhe diga: se comermos mal, a indigestão pode surgir; se gerirmos mal, a ingerência instala-se. A bem da morfologia, espero ter contribuído para que não haja ingerência (nem indigestão).

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Ser igual ao litro

       Em dia de aniversário de uma amiga, nada é igual ao litro.

      O dia começou com uma colega a perguntar a origem da expressão - sabia o sentido pragmático, mas queria conhecer como tudo começou (isto de regressar às origens tem muito que se lhe diga, quando à língua diz respeito).
      Com alguma pesquisa, deu para concluir que, em tempos idos, o litro servia como medida para quase tudo (dado ser uma medida de volume e não de líquidos propriamente ditos). Assim lembrei, por exemplo, de ir à feira e ouvir alguém pedir um litro de feijão. Além disso, cabe também aqui referir o valor de um salário (palavra que veio de 'sal'), fazendo-se a distinção entre o valor do salário bruto (ilíquido) e o do líquido (na verdade, a diferença não é igual ao litro, por certo). Isto para não deixar de considerar também que o líquido deu para medir o tempo - as clepsidras, ou relógios de água, foram exemplo disso. Estou aqui estou a recuperar o pensamento de Heráclito de Éfeso, quando este pré-socrático dizia que o homem não se banhava duas vezes na mesma água de um rio. De novo a água (líquido), em passagem, tal como o homem se revela diferente, em mudança. O tempo passa (conta) e tudo muda.
      É verdade que a amiga aniversariante também vê o tempo passar; também ela muda (até mudou de escola). E a colega curiosa vive a mesma condição de existência, no que à fluidez do tempo diz respeito. Também eu. Todos contamos o tempo - já não com clepsidras - e, nesse aspeto, custa a acreditar que tudo seja igual ao litro!
       Depois disto tudo, apetece-me concluir que 'dei o litro' (também para medir / quantificar o esforço) neste objetivo de explicar uma expressão idiomática e no de retomar o curso desta "carruagem".

      Duas outras amigas queixavam-se de esta "Carruagem 23" andar muito parada (que paradoxo, isto de 'andar parado!). Hoje, vai "circular" um pouco, porque a reclamação não me foi igual ao litro. O problema é que há também muitas outras coisas que não mo são. Talvez algumas delas até sejam (mesmo muito) importantes, mas, por momentos, vão ter de ser iguais ao litro. Dei-lhes peso (ou medida) relativo(a), porque há quem me mereça a consideração de também ser ouvido / escutado.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Lá vem a vírgula do vocativo, gente!

    Chamamento, vocativo, apóstrofe... na pontuação dá no mesmo.

    É mesmo isto!
   Cansado de ler "boa tarde / boa noite professor" - quando devia encontrar "boa tarde / boa noite, professor" -, nem me apetece responder quando não sou nem me sinto chamado.
   Quem chama, invoca ou apostrofa deve marcar, na escrita, esse mesmo ato: fá-lo com uma simples vírgula. Dos poucos casos em que a ausência desta constitui erro ou altera substancialmente o significado da frase, um é precisamente o aqui ilustrado:

Do assunto ao destinatário / recetor - uma questão de vírgula

    E se dizem "é só uma vírgula", "esqueci-me", apetece-me responder "OK! Tens sete. Era dezassete, mas só falta um '1'. Esqueci-me".
    É tão mais fácil não ser escravo da ignorância! Claro que não acredito que alguém possa acabar com o trabalho (soa a promessa política que ninguém pode / deve concretizar). Aposto mais na colocação da vírgula para verdadeiramente perceber que o patrão / o político / o responsável ou chefe nos vê como autêntico escravo do trabalho.

    Mais se diga: a diferença entre o assunto (falar ou escrever sobre algo) e o destinatário (falar com alguém / escrever a alguém) é frequentemente assinalada pela simples vírgula, no segundo cenário. Sim, porque uma coisa é falar sobre escravos; outra bem distinta é falar com eles. Percebido, minha gente?

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Pedra-mar

       Não é um quadro nem uma janela de pedra.

      Ao longo do caminho, há um muro de pedra onde muitos se sentam para ver o mar, respirar a maresia, olhar o céu pintalgado de várias cores e ver o sol esconder-se lá para a linha do horizonte.
      Ao nível dos tornozelos e dos pés, ficam uns mirantes tão baixos que alguns olhos não veem, de tão altivos e sobranceiros que estão para o que o chão lhes oferece.
        Baixo-me, deito-me e capto a paisagem:

Um retângulo de horizonte, céu e mar (Foto VO)
        
     Parece um quadro, uma moldura de pedra envolvendo um leito oceânico ondulante, que vem a terra e deixa o céu entregue às cores quentes de um sol que ninguém já vê.

        A pedra encaixilha os sulcos do mar, o céu alilazado e um horizonte dourado pelo sol posto.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

"Mulher de Deus, Amante do Rei"

        Assim pode ser resumida a apresentação de Madre Paula.

     Iniciou-se hoje a exibição de uma série televisiva de produção nacional inspirada no livro de Patrícia Müller e dedicada àquela que ficou conhecida como a amante mais conhecida do rei D. João V: Madre Paula de Odivelas (Paula Teresa da Silva). 

Trailer da série televisiva (RTP1)

       No erotismo das cenas de abertura está lançado o mote para o profano e o sagrado conviverem em plena ambiência de época barroca, quando os contrastes se afirmavam pela conciliação. Nesta ordem de raciocínio, também se explica como Paula acaba por estar livre na prisão que o convento representa.
     Tendo entrado como noviça no Mosteiro de S. Dinis de Odivelas (à semelhança da irmã mais velha e em conformidade com decisão paternal, pelos fracos recursos familiares de que dispunha), Paula viria a professar a fé católica, em 1718, já com o pensamento no rei. Dos amores vividos com o Conde de Vimioso à predileção real, foi um exemplo das sóror que o soberano absolutista visitou na sua aproximação às esposas de Deus (privilégio que o representante divino na terra concedia a si próprio). Dela, teve o Magnânimo vários filhos, entre os quais D. José de Bragança (nascido em 1720) - um dos conhecidos "meninos de Palhavã", que viria a tornar-se inquisidor-mor. Bela e jovem, passou a ser a amante favorita do rei e tornou-se Madre do Convento, usufruindo de todas as atenções do monarca, que lhe deu condições de vida muito luxuosas, típicas dos devaneios extraconjugais do "rei do ouro" (também conhecido na História como o "freirático").
      A vida sumptuosa que levou, mesmo após a morte de D. João V, afastam esta figura feminina do percurso religioso e devoto a que apenas parece ter-se dedicado no final da vida, não sem os luxos nem os aposentos ofertados pelo rei. Falecida aos 67 anos, acabou por ser sepultada na Casa do Capítulo do Convento de Odivelas.

Representação de Madre Paula de Odivelas,
numa teatralização da figura da "Madre de Deus"
(Escola Portuguesa, séc. XVIII)

   José Saramago, em Memorial do Convento, refere-se a Madre Paula como a "…flor de claustro perfumada de incenso, carne gloriosa…", numa imagem clara a essa condição típica a que as mulheres menos abastadas do séc. XVIII acabavam por se entregar como forma de sobrevivência natural na sociedade.