quinta-feira, 31 de maio de 2012

Circularidades... de um texto e de uma peça...

    "No dia seguinte ninguém morreu" - início para um romance de José Saramago (2005); início e fim para a representação de uma peça, inspirada nesse romance e encenada numa coprodução do Ítaca Teatro de Itália, da Associação Cultural Quinta Parede e da companhia Trigo Limpo.


     Uma reflexão sobre a vida, a morte, a linguagem e o amor, mais o sentido ou a falta dele na nossa existência: eis aquilo a que o espectador assistiu no Teatro Carlos Alberto, no âmbito do  FITEI, numa representação dinamizada pelos atores Ginni Bissaca, Marco Alotto e Sara Alzeta, em franca fidelidade à narrativa de Saramago (muito bem conseguida no tom e no conteúdo do texto-base).
     A celebração da vida, com requintes e prazeres, é a imagem de partida; todavia, é a morte que o Nobel português da Literatura foca como tema fulcral, nas relações que mantém com a organização da vida, dos sentimentos e da expressão de poder. Farta de ser temida e indesejada pela Humanidade, a "Senhora Foice" suspende a sua ação e, num certo país, ninguém morre. Do fervor patriótico ao grave problema o passo é curto, denunciando-se os interesses que o Estado, a Igreja e o comum dos  cidadãos revelam para com ela.
    Retomada a normalidade, é risível (porque nos rimos daquilo que nos assusta?) a ideia de a Morte anunciar uma semana antes o seu propósito, em carta de cor violeta. Como comunicar não é fácil, é desafiadora a devolução da carta à própria Morte (Bem feito! Como sairá ela disto?). 

      «Sobre a mesa há uma lista de duzentos e noventa e oito nomes, algo menos que a média do costume, cento e cinquenta e dois homens e cento e quarenta e seis mulheres, um número igual de sobrescritos e de folhas de papel de cor violeta destinados à próxima operação postal, ou falecimento-pelo-correio. A morte acrescentou à lista o nome da pessoa a quem se dirigia a carta que tinha regressado à procedência, sublinhou as palavras e pousou a caneta no porta-penas. Se tivesse nervos, poderíamos dizer que se encontra ligeiramente excitada, e não sem motivo. Havia vivido demasiado para considerar a devolução da carta como um episódio sem importância. Compreende-se facilmente, um pouco de imaginação bastará, que o posto de trabalho da morte seja porventura o mais monótono de todos quantos foram criados desde que, por exclusiva culpa de deus, caim matou a abel. Depois de tão deplorável acontecimento, que logo no princípio do mundo veio mostrar como é difícil viver em família, e até aos nossos dias, a cousa tinha vindo por aí fora, séculos, séculos e mais séculos, repetitiva, sem pausa, sem interrupções, sem soluções de continuidade, diferente nas múltiplas formas de passar da vida à não-vida, mas no fundo sempre igual a si mesma porque sempre igual foi também o resultado. Na verdade, nunca se viu que não morresse quem tivesse de morrer. E agora, insolitamente, um aviso assinado pela morte, de seu próprio punho e letra, um aviso em que se anunciava o irrevogável e improrrogável fim de uma pessoa, tinha sido devolvido à origem, a esta sala fria onde a autora e signatária da carta, sentada, envolta na melancólica mortalha que é seu uniforme histórico, com o capuz pela cabeça, medita no sucedido enquanto os ossos dos seus dedos, ou os seus dedos de ossos, tamborilam sobre o tampo da mesa.»

      E quando esta se disfarça de mulher sedutora,  promovendo maior aproximação a um violoncelista, é este último que a domina, a seduz, fazendo-a destruir a carta violeta a ele destinada - e, assim, "No dia seguinte ninguém morreu".

     Circularidades... tal como os ciclos de vida que se repetem, nas rotinas que se impõem e/ou nas novidades que dão outra perspetiva ao que o eterno tempo pode, por alguma boa e harmoniosa razão, deixar ecoar.

Sentir... sinta-se o que é!

     A sintaxe é domínio gramatical que se constitui como fonte de muitas questões, dúvidas... a esclarecer. Assim o consiga!

Q: Gostaria apenas de esclarecer o seguinte: na frase "Ela sentiu a irmã descontente", o verbo sentir pode classificar-se como transitivo-predicativo? Se assim for, na frase - "O João sentiu-se mal" - em que o "se" se pode considerar inerente ao verbo, por que motivo "mal" não pode ser considerado um predicativo do sujeito? Sentir-se mal, parece-me um estado, tal como sentir-se doente.

     R: Começo por fazer uma abordagem inicial para responder à primeira questão, até porque ela virá a ter implicações com a segunda.
   O verbo 'sentir' caracteriza-se pela propriedade da transitividade, segundo uma lógica traduzível tipicamente numa estrutura argumental do tipo 'Alguém SENTIR Alguma coisa' / 'Alguém SENTIR(-se) De algum modo'. Pela natureza transitiva do núcleo verbal se pauta a complementação selecionada: ora a de complemento direto (Sentir O QUÊ? > Senti-lo /la) ora a de complemento oblíquo (Sentir COMO? > Sentir assim).
    Atendendo à transitividade mencionada, não é compatível a consideração de 'sentir' como verbo de tipo copulativo, ou seja, que seleciona ou liga um predicativo ao sujeito. Por outro lado, em termos de aspeto gramatical, 'sentir' não é um estado (tipicamente não admitindo construção progressiva: '*Ele está a estar / ser mal / doente'), mas sim um evento (admitindo tal construção: 'Ele está a sentir-se mal / doente'). Entra na categoria dos processos associados à percepção física e/ou psicológica.
    A transitividade de 'Sentir', por seu turno, é combinável com uma relação predicativa, à semelhança de verbos transitivos predicativos (como é caso de 'avaliar', 'nomear', 'eleger', 'considerar', 'julgar' e 'achar'): além do argumento que funciona como complemento direto, segue-se uma estrutura com um predicador descritivo-identificacional, apontando para um predicativo do complemento direto. Ou seja, a frase 'Ela sentiu a irmã descontente' apresenta um predicado (sentiu a irmã descontente) constituído por um complemento direto (a irmã > a) mais o predicativo deste último. Tal acontece por, no fundo, 'sentir' acarretar, na frase dada, uma avaliação / apreciação (cf. 'Ela avaliou a irmã como descontente', 'Ela considerou a irmã descontente').

      Sendo possível um predicador na sequência ou continuidade de uma estrutura transitiva (daí os verbos transitivos predicativos), um predicativo do sujeito requer um verbo de ligação ou copulativo (para ligar uma propriedade / característica ao sujeito do enunciado).
    

terça-feira, 29 de maio de 2012

Literatura... até na procura...

    Porque há quem procure o indefinível, por mais que se (nos) apresente ao(s) sentido(s).

    Nunca serão demasiadas as palavras dos que a melhor conheceram.


     A busca de uma entidade que faz (re)ver o Homem, que é do Homem e para o Homem e para o que este e o seu mundo possam ser.

   Estudaram-na, (re)criaram-na, tornaram-na a mestra que nos ensina, sem tempo e sem espaço de aula... não mais do que a vida tem e/ou possa ter.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Homens feitos da mesma massa dos sonhos...

     Assim abriu o FITEI deste ano: Tempestade Indiana, inspirada na obra de Shakespeare e criada em três meses de residência artística na Capital Europeia da Cultura 2012 (Guimarães).

   Um nome grande e clássico, um palco mágico no Mosteiro de Santo Bento da Vitória para uma representação singular, numa miscelânea performativa a convidar uma Babel de sentidos... todos à procura de um fio de Ariadne capaz de reconhecer na atuação um texto que alguns não conheciam; outros não reconheciam; outros, ainda, lembravam de um contacto já distante ora com a obra ora com outras dramatizações do mesmo autor.
    Grandes são os desconcertos do mundo quando no plano da fantasia, do humano e da natureza tudo se encontra em ebulição. The Tempest, uma das últimas obras do dramaturgo isabelino, apresenta uma intriga de conspirações oportunistas, de traição, de vingança, de amor. Nela se contrapõe a ferocidade que habita o Homem à espiritualidade marcada pela ânsia de liberdade e pela lealdade (que também o caracterizam). 
      Num palco feito com um círculo de panos e uma tela de sombras, surge a ilha habitada por Próspero (Duque de Milão, mago poderoso) e pela filha Miranda. Aí se encontram exilados na sequência de um ato de traição política. Com o primeiro, Caliban (um inconformado nativo da ilha, tornado escravo do Duque) e Ariel (espírito servil, metamorfoseável em ar, água ou fogo) veem chegar os sobreviventes de um naufrágio: o usurpador António, irmão de Próspero, mais o cúmplice dele, Alonso (rei de Nápoles), o príncipe Ferdinand (filho do rei e que se torna noivo de Miranda). Um jogo de máscaras e personagens rocambolescas desfila para lembrar que "All's Well That Ends Well", sem desconsiderar a tragédia humana a que todos estão sujeitos.
       Pelas congeminações de Próspero, uma nova história se lê: a da denúncia da fraqueza de António; a da redenção de Alonso e a do amor entre dois jovens. A festa, o casamento de Ferdinand e Miranda permitem a reposição da ordem, e a legitimidade dela, no lugar que lhe compete. 
      A reconciliação acontece com a vingança bem-sucedida de Próspero (até o revoltado Calibã se transforma quando experiencia os efeitos inebriantes do vinho, junto com outros dois bêbados - os tradicionais 'fools' , que têm um fundo cómico feito de virtude e sinceridade).

Tempestade Indiana - projeto do grupo Footbarns (2012)

      A representação da peça a quatro línguas (francês, inglês, sânscrito e malavalam - língua oficial da região indiana de Kerala, onde o grupo Footsbarn realizou uma digressão marcante) é decerto uma babel verbal para o espectador comum. Ariadne tem a música, a luz, os movimentos, o cenário e os adereços para compor um fio não verbal e uma atmosfera de fantasia que fez Shakespeare anunciar que "We are such stuff / As dreams are made on, and our little life / Is rounded with sleep".

       Numa vida breve e que expira num sono, há nesta peça um A Midsummer Night's Dream com algo de milagrosa humanidade, numa obra composta de originalidade e complexidade cénicas, que muitos críticos apontam como a última e maior das peças shakespearianas.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ficando pela metade... ou pelo quase

    Depois das assíntotas, tinha que vir mais esta, bem mais familiar.
    
    Q: Professor, como é que se escreve semi-recta com o acordo?

    R: A ilustração já responde à questão. Dois dados distintos estão implicados na correção: um que se prende, na grafia, com a queda das consoantes mudas c e p; outro com a utilização de hífen nos compostos. Ora, se a propósito do termo simples 'recta' ´se passou a grafar 'reta', o mesmo se diz para o segundo termo da palavra composta. Quanto ao primeiro termo, de origem culta (do latim) a significar 'meio, metade' e a revestir, ainda, as noções de 'quase', 'metade' e 'um tanto' ( > semibreve, semiconsciente, semifinal), por norma perde o hífen, com exceção das seguintes situações:

     i) quando o segundo termo começa com 'h' ( > semi-hospitalar, semi-hodierno);
   ii) quando o segundo termo inicia com a mesma vogal com que fecha o pseudoprefixo ( > semi-integral; semi-independente; semi-internato).

     No caso da questão, por não se encontrar em nenhuma das situações anteriores, retira-se o hífen e passa a ter-se a grafia 'semirreta' (eliminação do 'c', aglutinação gráfica dos termos e duplicação da letra 'r', para ser lido com o som da vibrante múltipla).

   Na mesma linha de conduta gráfica estão os casos que implicam 'anti', 'auto / hetero' 'co', 'hiper', 'intra', 'micro / macro'.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

"Staying alive"... no more

    Bee Gees: nome para um grupo que animava as discotecas da minha juventude. Dos três irmãos Gibb, Robin faleceu hoje, aos 62 anos, numa luta contra a doença do tempo: o cancro.

   Barry, o sobrevivente, vê-se assim separado de Maurice (2003) e de Robin, com os quais se dedicou à música, tendo formado um conjunto musical responsável por sucessivos sucessos em vários estilos musicais (rock psicadélico, balada, disco, música country, R&B entre outros), muito reconhecido na tonalidade de voz dos falsetes. De relevo foi também o contributo do grupo e de Robin, em particular, para êxitos compostos para outras vozes, nomeadamente as de Barbra Streisand, Diana Ross, Dionne Warwick, Celine Dion; a dos Destiny's Child; a de Dolly Parton e Kenny Rogers.
   Entre os vários número 1 do Top de vendas musical e os milhões de cópias vendidos, nove Grammys contam-se entre os prémios com que foram agraciados. "Saturday Night Fever" e "How Deep is your Love" são dois dos 'hits' dos finais da década de 70.
    Robin Gibb foi um dos irmãos que arriscaram uma carreira a solo, a nível quer do canto quer da composição.
   Entre as suas últimas composições conta-se a da sua participação no álbum The Titanic Requiem, por ocasião do centenário do naufrágio do Titanic - um trabalho de tonalidade clássica, realizado em conjunto com o filho RJ.


   "Don't Cry Alone" dá-nos a escutar a voz de Robin Gibb.

    No dia de hoje, fica o registo de que "Staying alive" é condição das obras; não do físico humano. Em tempo de morte, fica a harmonia e a magia da música feita pelo homem.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Nada COLD para muito PLAY

     Era por certo muita a chuva, mas maior era o ânimo, abrigado por uma simples capa de plástico.

    Depois do arranque de Rita Ora e de Marina and The Diamonds, chegava o grupo de luxo para o palco multicolor de Mylo Xyloto.
    Para começar, ‘Hurts like heaven’, como se a chuva que ia caindo pudesse magoar alguém que tenha estado no Dragão.     
    Um apontamento ainda para o que foi ‘In my place’, conquistada que estava a cidade - não só a que estava a assistir como ainda aquela(s) que, pelas redondezas, ouvia(m) e se deixava(m) levar pela imaginação no que seria estar frente ao palco, vivendo a luz, a cor, o som espalhados pelo ar.
     E, por fim, um outro sucesso para mostrar como a cidade invicta pode ficar no historial do grupo, a ponto de se poder dizer que é digna de ciência, do conhecimento de um ‘The Scientist’: "Come up to Porto!", assim o disse Chris Martin, arrancando a ovação devida.

Montagem com vários momentos do concerto no Estádio do Dragão

     Um momento, uma experiência... to "fix you" when "lights will guide you home".

     Um tempo de luz em plena noite de sexta-feira, com os grandes Coldplay. Concerto fantástico!

Novo silêncio para antiga voz - uma don(n)a que se foi.

     Mais um óbito para o mundo da música.

     A doença da moda levou mais uma das grandes vozes negras do panorama musical: a "Rainha do Disco", conforme foi apelidada nas décadas de 70 e 80 do século passado.
    Cantora de sucessos como "Love to love you baby", "I feel love", "Hot Stuff", "Bad Girls", "Last Dance" e "She works hard for the money", Donna Summer (nome artístico para LaDonna Adrian Gaines, nascida em Boston no último dia de 1948) falece aos 63 anos, depois de ter influenciado a carreira de muitos autores, cantores e grupos musicais. Um deles, os Westlife, cantou com a diva afro-americana num dos duetos produzidos, originalmente, com Barbra Streisand: "No more tears (Enough is enough)":


    A versão feminina, mais clássica, havia juntado duas vozes portentosas: Donna Summer e Barbra Streisend.


   NO MORE TEARS (enough is enough)

It's raining, it's pouring
my lovelife is boring me to tears,
after all these years

No sunshine, no moonlight,
no stardust, no sign of romance
we don't stand a chance

I've always dreamed I 'd find the perfect lover
but he turned out to be like every other man
our love, our love

Raining (raining)
pouring (pouring)
there's nothing left for us here
and we won't waste another tear

If you've had enough,
don't put up with his stuff,
don't you do it
If you've had your fill,
get the check pay the bill,
you can do it

Tell him to just get out
nothing left to talk about
pack his raincoat show him out
just look him in the eyes and simply shout

Enough is enough is enough
I can't go on, I can't go on, no more no
enough is enough is enough
I want him out, I want him out that door now

I've always dreamed to find the perfect lover,
but he turns out to be like every other man
our love (I had no choice from the start)
our love (I've gotta listen to my heart)
our love (tearing us apart)

Goodbye mister, goodbye,
goodbye mister, goodbye sugar

No more tears
no more tears
no more tears
I've had it, you've had it, he's had it, we've had it
enough is enough is enough is enough

is enough is enough is enough is ENOUGH!!!


    Muitos milhões de discos vendidos, quarenta anos de carreira premiados com os mais altos galardões da música, voz e estilo inconfundíveis - assim fica sumariamente registado um balanço de vida que vê a sua existência física finalizada, para dar lugar ao canto que na memória perpetuará.

    Caso para dizer, em período de tanta morte em tantas boas vozes, "enough is enough".

terça-feira, 15 de maio de 2012

Nem quero acreditar!...

     Registo: estou em período de formação / deformação.

     Esclareço: o tema é o da avaliação e nisso tenho expectativas de vir a ser formado (ainda sou crente neste capítulo).
     Pena é que saia deformado, na língua, por uma plataforma cujas 'Definições' me apresentam, ao nível dos contactos, a seguinte "pérola" da língua (só para referir a primeira, que não deixa esquecer a ausência da seleção da preposição 'de' com o verbo 'precisar'; a ambiguidade sintática do 'por exemplo o Quicktime', que até parece, à primeira leitura, um tipo de som):

      Assim sendo, não pode haver formação em tudo. Formado em avaliação, deformado na morfologia e na conjugação do verbo 'haver'. 

     E ando eu a dizer aos meus alunos que 'haver', enquanto verbo principal, não tem plural ("Há um, havia dois, houve três... milhões até. Só o 'haver' auxiliar tem plural, o mesmo não se diz do principal"). Com uma musiquinha bem entoada, até o "moodle" não leva a mal.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

E tudo passa... e o que fica?

    Entre a aporia e a ataraxia de Ricardo Reis, hoje, nas aulas, falou-se de abdicação, apaziguamento, resignação, aceitação das leis fortes da vida e que o Homem não controla.

     Entende-se que a reflexão de Blimunda sobre a vida e a morte, em Memorial do Convento, não ande longe de uma estratégia de sobrevivência, tal como a filosofia epicurista pintada de algum estoicismo, no heterónimo de cariz clássico pessoano.

PASSAGEIRO

Corre o rio,
fluem as imagens,
as flores na jarra, a murchar...

Outras virão,
mais umas outras passarão
e o curso de água faz-se clepsidra, sem parar...

Sucedem-se as mortes na vida:
das que nos apartam fisicamente
às que nos apagam, nos secam enquanto somos.

Nós, girassóis,
procuramos sol;
voltamos costas à sombra;
buscamos o mar.

Nele há sempre um horizonte,
um futuro, mediado pelas ondas, com altos e baixos...
marés revoltas, ruidosas, batendo no areal da praia...
leito sereno, embalo cerúleo, deixando o nosso corpo boiar...

num tempo feito de ciclos... a navegar.


O fluir da água, qual corrente da passagem do tempo - uma clepsidra nos ciclos da vida

   Surgiu, então, a canção: de como a dor passada se torna apaziguamento presente, para poder haver futuro...

   
A música: não foi feita no cravo de Scarlatti, teve as notas que o compositor deu à poesia, trouxe alguma harmonia (mais ou menos momentânea) a um tempo, a um instante que de ânimo se disfarçou. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Uma lufada de ar fresco

     Num filme em que um dos protagonistas pede para apanhar ar, para respirar, há momentos de forte gargalhar.

     A comédia francesa em exibição com o título (traduzido) "Amigos improváveis" é um exemplo fílmico que faz esquecer a(s) crise(s) que possa(m) estar a ser vivida(s); que faz soltar o riso e a gargalhada, graças ao cruzamento de opostos. A receita é familiar, mas o resultado, no caso, é francamente divertido e libertador de tensões.
     Dirão alguns que é um bom momento de alienação, não fosse o caso de se assistir a uma situação com fundo verídico e, no meio do riso, se encontrar reflexões que não deixam de ser marcantes para o bem do comum cidadão (encarado nas suas diferenças e perspetivado nas potencialidades que sempre tem).
   Realizado por Eric Toledano e Olivier Nakache, o filme produzido em 2011 conta com duas grandes interpretações: a de François Cluzet (no papel de Philippe, um bem sucedido aristocrata que fica tetraplégico depois de uma queda de parapente, mas que sofre mais com a perda da mulher amada) e a de Omar Sy (Driss, um jovem dos subúrbios e com uma história de vida familiar problemática, que acaba por obter um emprego quando tudo parecia apontar para o facto de ser o candidato menos adequado à função: cuidar, a todo o tempo, de Philippe).

Montagem do trailer e de cenas fílmicas de Amigos Improváveis
     
     No arranque do filme uma situação caricata dá lugar a uma analepse na narrativa. Nela se revela como um amante de música clássica acaba por contratar um fan dos Earth, Wind and Fire; como um homem de arte e estilo necessita e convive com um subsídio-dependente, que aceita um desafio, uma aposta. Esta vai fazê-lo mudar de vida. Acima de tudo, constata-se como um deficiente aprende a (re)viver, acabando por se rir da sua própria condição junto da pessoa que não o faz lembrar-se sistematicamente desta última. Na redescoberta de cada um e na adaptação feita, a ponto de ambos se revelarem influenciados pelos sinais e pelos mundos de que se apartavam, cresce o sentido feliz da história: a atitude de abertura e a predisposição para aceitar oportunidades por parte de todos os que queiram dar uma chance à realização pessoal e à felicidade.
     Na solidariedade revelada e pelas motivações / representações dos universos vivenciados por cada um, nasceu um futuro melhor. Assim se anunciou no final. Uma realidade que se quer, por certo, repetida.

     "Intouchables" - este é o título original para uma película em que, contrariamente ao que o primeiro dá a ler, tudo toca: o princípio e o fim da história (mediada por uma analepse); as personagens representadas, que se interajudam; a mensagem e o espectador; um presente que, por mais marcado que seja pelo passado, tem hipótese de futuro.

domingo, 29 de abril de 2012

"De que sofre esta cidade?"

     Esta cidade, Tebas (velha cidade de Cadmo) ou outra, maior ou mais pequena, remota ou atual, deveria sempre ter esta pergunta, para a busca da resposta.

     A tarde foi passada no auditório da Academia Contemporânea do Espetáculo (ACE) - Teatro do Bolhão, em boa companhia e com grande representação.
    Num anfiteatro (qual encosta de degraus não de terra nem de pedra, mas de cadeiras - quase poltronas - voltadas para um palco), frente a um palco dominado pela essencialidade minimalista de um cenário e por um grupo de ótimos atores (a que não faltou um coro, enquanto personagem múltipla, cujo canto ritmado servia de comentário à ação dramatizada), assisti a Édipo, de Sófocles. Com encenação de Kuniaki Ida, o elenco contava com as participações de António Capelo (Édipo), João Paulo Costa (Tirésias, Jocasta e Servo), João Cardoso (Creonte e Mensageiro), além de Pedro Lamares (Corifeu) e um coletivo de jovens artistas.


    Nas primeiras décadas do século XXI reencontrei-me com alguns sinais do último quartel do século V a.C. Foi o caso da representação assente em três atores masculinos (o protagonista, o deuteragonista e o tritagonista);  da figura do Corifeu liderando o coro; do tom e do conteúdo trágicos do texto; da conciliação dos opostos (um homem que se sente livre, mas que só o é enquanto percorre um caminho fatalmente determinado; a modernidade de adereços conjugada com a clássica máscara em Jocasta mais a sugestão de trajes e o calçado de sola espessa dos sacerdotes que prestavam culto a Dionísio; o conhecimento e a consciência portadores da desonra fatal, das maldições que fazem sucumbir o Homem). Junta-se-lhes o sentido didático e emocional da peça (com confrontos explicitamente demonstrados e publicamente partilhados, suscitando, perlocutoriamente, o terror e a piedade), a força do destino que aprisiona o Homem àquilo de que o próprio possa tentar fugir ou contrariar - tudo ingredientes típicos para um género marcado como a maior expressão literária da antiguidade, conforme o evidenciavam as práticas teatrais dionisíacas (as mais conhecidas), com representações diárias de três tragédias, fechadas com a apresentação de uma comédia.
      Sófocles foi grande figura nestes eventos tão religiosos quanto cívicos. Édipo foi um dos seus textos, do ciclo tebano (acerca da fundação da casa real de Tebas, por Cadmo), retratando a tragédia de caracteres, composta pela pretensa individualidade espelhada na vida social da pólis.
     Desde o início da obra, a questão da atualidade impõe-se, pelo diálogo mantido entre o Corifeu e Édipo. É a crise, o drama da cidade revelados:


«Visto que desejas continuar no trono, 
bem melhor será que reines sobre homens
do que numa terra deserta. 
De que vale uma cidade, de que serve um navio, 
se no seu interior 
não existe uma só criatura humana?»

     O percurso cénico do despojamento de Édipo - da túnica do poder ao pé descalço de uma figura voluntariamente cega e desamparada - é o caminho de um decifrador de enigmas que tudo quer saber e se agarra à vontade de não fugir à verdade; o do conhecimento ou da consciência que se revela ignorância, na interpretação errada de sinais e na fuga que não dá lugar ao afastamento ou à distância do indesejável - antes à proximidade e à concretização trágica das profecias dos oráculos. 
      Entre a cegueira do Homem e a insegurança da condição humana revê-se um dos mitos gregos de maior relevo.

     Assim se traça a complexa procura e revelação da identidade de um herói lendário grego (que matou o pai e procriou com a mãe), mais ajustado ao que de anti-herói tem (pelo entrecruzamento da fragilidade humana no sacrifício supremo do autoconhecimento, com a marca do fatalismo, da crueldade e da determinação do destino).

sábado, 28 de abril de 2012

Derivação (e não só) na formação (de palavras)

      Ao passar pelo histórico do blogue, dei conta de respostas que ficaram por endereçar. As minhas desculpas. Talvez já não venham a tempo, mas fica o registo devido, pela pertinência revelada nas questões que as motivaram e nos comentários produzidos. Aqui vai uma delas.

    Q: Professor, a respeito da análise da palavra "deslocalizar", suscitaram-me algumas dúvidas. É o caso de palavras como 'desvalorização', 'empobrecimento' e 'irreconhecível'. Aquela é formada por prefixação e sufixação ou apenas por sufixação, já que é sabida a análise sobre encadeamento de formações diferenciadas a partir de valor, valorizar, desvalorizar, desvalorização? Essa é formada por parassíntese ou por sufixação (pobre-empobrecer-empobrecimento)? E a última é formada por prefixação ou por parassíntese (conhecer-reconhecer-???)? Obrigado!

   R: Com o agradecimento pelo desafio colocado, retomo a ideia da sequência ou do encadea- mento, como diz, de etapas de formação diferenciadas.
     Assim, o nome deverbal 'deslocalização' obtém-se a partir da base 'deslocalizar', pelo que esta última é uma palavra derivada por sufixação. Naturalmente, é reconhecível o prefixo 'des-' nesse nome, mas atendendo à base 'localizar' é que se pode falar numa palavra derivada por prefixação ('deslocalizar'), numa fase anterior à que permitirá formar 'deslocalização'. O mesmo raciocínio deve ser aplicado à palavra 'desvalorização', derivada por sufixação ([[[valor > valorizar] valorizar > desvalorizar] desvalorizar > desvalorização]) .
    Quanto a 'empobrecimento', o termo tem por base 'empobrecer' (a qual foi, anteriormente, obtida por parassíntese, a partir de 'pobre'). Ora, o nome deverbal resulta da derivação por sufixação, novamente.
     Por fim, o adjetivo 'irreconhecível' resulta da base 'reconhecível'. Portanto, há derivação por prefixação.

     A consulta de um dicionário, como já indiquei anteriormente, permitirá sempre a verificação do termo base que antecede a forma derivada. O mesmo sucede com a informação etimológica que permitirá entender que a palavra 'reconhecer', a partir do étimo 'recognoscĕre', tem mais de evolução fonética na introdução do termo em Português do que de morfologia.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Eis... por onde andas?

      Em tempos de alteração na nomenclatura gramatical, vêm os casos que não surgem nos exemplos.

     Q: Agora que os advérbios aparecem divididos entre os de frase, os de predicado e os conectivos, onde fica o 'eis'?

      R: A natureza designativa, apresentativa ou mostrativa deste advérbio faz com que ele seja encarado no âmbito  dos elementos linguísticos que "mostram" verbalmente as condições ou informações contextuais em que um discurso é produzido. Assume-se, portanto, como elemento detentor de uma função deítica, obtida pela relação com as circunstâncias de enunciação.
    Neste sentido, o advérbio apresenta propriedades orientadas para a enunciação que releva, destaca um elemento enunciado ("Eis o homem!"), bem como o momento (temporal) de revelação, designação e construção da própria referência enunciativa.
      Contrariamente aos advérbios de localização temporal que modificam o predicado (e, portanto, admitem as estruturas da negação e da interrogação), o caso de 'eis' compagina-se com as propriedades dos advérbios de frase, sublinhando a intencionalidade, a dimensão modalizada de um enunciado caracterizado por marcas orientadas para o falante, para a avaliação que este processa em termos de saliência, de realce, de topicalização (como se evidencia com a construção frásica equiparada a uma estrutura clivada: "Eis a questão que surge!" > É a questão que surge). 
           Vejo, assim, razões para situar 'eis' entre os advérbios de frase, na medida em que se toma como fruto da intervenção do falante / enunciador sobre o conteúdo proposicional produzido, pelo modo como diz  (dicere) e pelo que quer dizer (uelle dicere).

       A natureza excecional deste advérbio surge tratada em O Advérbio em Português Europeu, de João Costa (2008: 16). A sua inclusão no campo dos advérbios de designação (cf. Gramática da Língua Portuguesa, de Mário Vilela, 1999: 242), enquanto subcategoria acrescida às classificações tidas como tradicionais, era já um dado a considerar nessa excecionalidade.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Monumento cinzento

     Em dia feriado...

     Diz o poeta que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena'... mesmo quando esta já foi maior.

ACINZENTADA DEMOCRACIA

Do cravo em pedra,
foi-se a rubra cor.
Sem sangue na terra,
secou o vigor.

Da revolução,
a memória fica,
lembrando a canção...,
o povo que grita...,

a arma a dar flor...
Renovado o tempo,
nascida a manhã,
no sopro do vento,


a sã liberdade
esvai-se na idade.

Em dia cinzento,
vejo um monumento:
voam as gaivotas
só no pensamento.

No duro betão,
há ondas de mar
plantadas no chão,
subidas ao ar.

Com fénix em cinzas,
Esperança, vinhas...
Foto em tempos de sol, de luz...
(Monumento  ao 25 de  abril, Espinho)

    Na agenda, no dia do calendário, em tempo de pressão e depressão, teriam de multiplicar-se os sinais de confiança e esperança... 

   ... para o bem da democracia.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sonho, vontade, vida...

    Na véspera da revolução e nos tempos anteriores a ela, muitas eram as mensagens voltadas para a ação - a vontade da realização, da afirmação de abril.

    A manhã e o dia viriam, depois de muitas lutas, de muitos sofrimentos e de se fazer sublinhar que "o sonho comanda a vida".


    Nestas palavras de António Gedeão (pseudónimo do professor de Física Rómulo de Carvalho) ecoava a vontade da mudança. Se a pedra filosofal (Lapis Philosophorum) era um dos principais objetivos dos alquimistas humanos medievais (em geral na Idade Média), muito se devia ao facto de se pretender, através dela, transmutar qualquer metal inferior em ouro ou mesmo seres do reino animal sem sacrífico de qualquer natureza. Outros viam nela o elixir da vida eterna, para lá de interpretações que a libertavam do físico e a posicionavam no plano espiritual. Era o plano do desejado, da forte vontade de concretização de um ideal.
    No poema, refere-se a Passarola Voadora, a lembrar Memorial do Convento, de Saramago - esse espaço alternativo onde ciência, trabalho, amor puro, visão e harmonia se conjugaram numa sociedade (a dos três Bs: Baltasar, Blimunda e Bartolomeu) construída a partir de um sonho, da vontade de constituir uma dimensão livre das desigualdades sociais, do ocultismo, da profanação dos valores humanistas, da farsa do poder, da perseguição dos que pudessem ter um entendimento distinto do oficialmente estabelecido. 
    É certo que o sonho comanda a vida, tal como a falta dele, do desejo, da vontade antecipa a morte. Faz, como o diz Blimunda, parecer morto aquele que na vida está.
    Abril veio. Terá ficado?

    Palavras sábias de quem tem uma perspetiva, uma visão, uns olhos que veem para além do comum mortal (e que tem tudo de verdade, por mais que elas surjam na dimensão do ficcional). Talvez a morte não esteja nem antes nem no fim da vida. Está na própria vida e no que nela e dela se perde. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma hora para a vida

     Tudo vemos, nada temos, nada somos... e assim cumprimos os ciclos.

     A principiar, um peregrino lança o espectador na condição de um ser, de uma criatura cuja existência cumpre uma demanda feita de valores, de imagens e de linguagens.
     Desde a Páscoa de 1518 cumpre-se, em palco, essa demanda: a que Gil Vicente depositou no seu Auto da Alma, enquanto reflexão moral sobre a vida e o Homem. O passado alimentou-a, o presente quinhentista e as consequências dos Descobrimentos reconfiguraram-na, o futuro torná-la-ia evidente e eternamente intemporal.
     No dilema entre dar-se aos prazeres do(s) tempo(s) e do(s) espaço(s) ou cumprir um percurso de despojamento, a Alma vê-se numa circularidade, na revisitação de um percurso que se faz de vivências e de memória(s). Nele, há sempre lugar para a tentação e a sedução demoníacas, que atacam o corpo (se não a alma). Num contínuo "fitness", numa corrida esforçada que não deixa de revelar a fragilidade da Alma, esta última tem de se confrontar com a vaidade, a materialidade, os sinais de poder, de ter e de haver, resumidos no que de mais pesado, desprezível e volátil o mundo apresenta.

Montagem fílmica 
(excertos de "Burnay and You - Exclusive Moments" e representação da peça).

     A salvação (possível, ainda que constantemente ameaçada por forças satânicas persistentes) atinge-se pelo exigente caminho do Bem, fundado em "manjares" ofertados pela Igreja, por anjos protetores e por ensinamentos dos Santos Doutores. Assim se alimenta e sobrevive a Alma na vida, numa cosmovisão tão quinhentista quanto hodierna, face às metamorfoses do Bem (que ainda o há, mesmo fora da "Santa Madre Igreja") e do Mal (tão dissimulado e tantas vezes aparentando-se com o que há de bem e de bom).
     O percurso é o da vida, não o da pós-morte que tornou o teatro vicentino mais reconhecido (caso da Trilogia das Barcas); daí ser mais identificável com a condição da existência humana, feita de recuos e avanços, de opções, de aparentes felicidades e fortes arrependimentos, de retratações e recuperações a que não faltam sacrifícios.

     Alma: título para uma rapsódia de textos poéticos (vicentinos e outros mais contemporâneos) feita à base do Auto da Alma, de Gil Vicente, e dos ecos que esta faz refletir num Teixeira de Pascoaes e num Vitorino Nemésio, que (também) a "escritam" nos seus textos. Uma moralidade a não perder, segundo a dramaturgia de Nuno Carinhas e Pedro Sobrado, no Teatro Nacional de São João (até ao próximo dia 28).

sábado, 21 de abril de 2012

Questões do outro lado do oceano (X)

     Mais um apontamento e uma questão vindos do lado de lá do Atlântico.

     De apontamento em apontamento, já cá estão dez provas de que há quem queira falar sobre a nossa língua, mesmo nas coisas mais problemáticas que esta possa apresentar.

    Q: Classifique os quês: "Eu não sei que ela faz aqui. Eu não sei que pessoa é essa. Eu sei que ela faz aqui. Eu sei que pessoa é essa. Eu sei que ela não vem."


    R: Começo por agradecer o desafio (que não é pequeno).
     Constato a variedade da língua em realizações sintáticas que me atrevo a aportuguesar segundo a variedade europeia.
         Obtenho os enunciados seguintes:
         
         i) Eu não sei o que ela faz aqui.
        ii) Eu não sei que pessoa é essa. (> Eu não sei que tipo de pessoa é essa  OU Eu não sei quem é essa pessoa.)
         iii) Eu sei o que ela faz aqui.
        iv) Eu sei que pessoa é essa. (> Eu sei que tipo de pessoa é essa OU Eu sei quem é essa pessoa)
         v) Eu sei que ela não vem.

         E, agora, tanto para fazer.
     Primeiro de tudo, interessará constatar a integração de todos os 'que' no que se designa tradicionalmente por subordinadas substantivas (sejam subordinadas completivas sejam subordinadas relativas sem antecedente); de seguida, classifico cada uma das ocorrências do termo em estudo, atentando  no seguinte:
.  em i), tal como em iii) na forma ou polaridade negativa, 'que' surge antecedido de um 'o', numa estrutura subordinada que algumas gramáticas apelidam de 'relativas semi-livres'; trata-se, portanto, de um 'que' pronome relativo;
.  em ii), duas abordagens são possíveis para o que se toma como subordinadas substantivas associadas a interrogativas indiretas (isto é, não as interrogativas indiretas totais - introduzidas pela conjunção 'se' -, mas as parciais - as que requerem a focalização de um dado informativo pressuposto na questão direta parcial): face ao determinante interrogativo pressuposto em 'Que (tipo de) pessoa é essa?', a subordinada completiva apresentada é introduzida por um termo pertencente a essa mesma classe de palavras; no caso da transformação proposta em 'Eu não sei quem é essa pessoa' e da questão pressuposta ('Quem é essa pessoa?'), estaremos perante uma subordinada introduzida pelo pronome interrogativo 'quem';
 em iii), encontra-se o que já foi exposto em i), só que num enunciado de polaridade negativa; 
.  em iv), encontra-se o mesmo 'que' assinalado em iii), numa frase matriz de polaridade positiva (contrariamente à negativa proposta em ii);
. em v), 'que' é utilizado como conjunção integrante ou completiva (introduzindo a subordinada 'ela não vem', de natureza declarativa ou enunciativa quanto ao tipo de frase).

       Em suma, para os cinco enunciados, há três utilizações distintas de 'que': pronome relativo (em i e iii); determinante interrogativo (em ii e iv); conjunção completiva ou integrante (em v).

     Se, de comum, os 'que' têm a natureza articulatória, conectiva ao nível da composição frásica, em muito se distinguem em termos de classificação quanto à classe de palavras. Exemplo de mais um termo camaleónico na gramática da língua portuguesa.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Numa teia...

       No seio dos problemas...

     É numa aranhiça teia que me vejo, tal como a da letra desta canção, feita música de um grupo que conjuga o que de bom se vai fazendo contemporaneamente.


                           TROUBLE

Oh no, I see,
A spider web, it's tangled up with me,
And I lost my head,
The thought of all the stupid things I've said.


Oh no what's this?
A spider web, and I'm caught in the middle,
So I turned to run,
The thought of all the stupid things I've done,
And I... I never meant to cause you trouble,
And I... I never meant to do you wrong,
And I... well if I ever caused you trouble,
Oh! No, I never meant to do you harm.


Oh no I see,
A spider web and it's me in the middle,
So I twist and turn,
Here am I in my little bubble,
Singing out, oh I never meant to cause you trouble...

Oh, I never meant to do you wrong,
Oh, well if I ever caused you trouble,
Oh no, I never meant to do you harm.


They spun a web for me,
They spun a web for me,
They spun a web for me.

    Da verdade da letra ao ritmo melancólico da melodia... tal como na vida, à espera que a aranha cumpra o seu papel.

    And if there isn't any kind of trouble, in a month, I'll be where I'll be able to watch and to listen to this sound or any other about to come.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"I have a dream"

     É mais citação do que pensamento próprio (daí a intencionalidade das aspas, para que se dê a César o que é de César - ainda que, neste caso, o nome seja mais 'real' do que 'imperial').






      Há quarenta e quatro anos morria quem proferiu tais palavras: Martin Luther King - nome de um líder negro assassinado em 1968, aos trinta e nove anos, na sequência da sua luta pacífica pela declaração de inconstitucionali-dade da segregação racial dos negros.
     Talvez já ninguém se lembre de histórias como as de uma mulher negra que se recusara a ceder o seu assento no autocarro a um branco e, por isso, foi presa por violar a lei da segregação racial. Hoje, parece enredo de cinema; mas, vivido nos anos cinquenta na América, foi um dos motivos para uma guerra de princípio: a da igualdade do Homem, independentemente da cor, da raça, das crenças.
    O sonho de um dia ver brancos e negros juntos teve um grande passo na sua concretização quando, em 1964, foi aprovada a lei que poria fim à segregação racial. O condicional deveria ser mais pretérito perfeito, não fosse alguma dessa realidade ter sobrevivido até ao presente (branco, negro, amarelo, tanto faz... o sonho, por vezes, revela-se mera miragem).
    O galardoado com o Prémio Nobel da Paz, atribuído em 1964, veio a ser morto por um atirador branco, segundo acusação oficial apontada a James Earl Ray (condenado a 99 anos de prisão). 

      Um exemplo para a Humanidade roubado à vida por um outro homem que não compreendeu que, assim o dizia Luther King, "Temos de aprender a viver todos como irmãos ou morreremos todos como loucos."