sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Verdades saramaguianas

     Contra factos não há argumentos - aqueles estão à vista de todos; estes não têm ponta por onde se pegue.

   Na segunda divisão (vulgarmente designada capítulo) de Memorial do Convento, de José Saramago, têm normalmente os alunos que comentar a importância de um pensamento para a história narrada:

Montagem de fotografia (de Sónia  Vieira) com texto / pensamento (de José Saramago) 

     Talvez a tarefa seja incompleta, se não for feita a transposição para a realidade, para a condição destes tempos tão semelhantes aos literariamente representados. Se então (o do passado narrativo) era a farsa, o ridículo, "o descaro e a impiedade", agora (o presente vivido) é a máscara, o escárnio, a falta de credibilidade nas palavras e nos atos. São os pequenos a pagar as loucuras e a desfaçatez dos mais poderosos. É o popular comum a não poder escapar (mesmo que tenha sempre cumprido bem o seu papel e tenha confiado no propagado cruzamento de informações) ao que os grandes sempre fogem (na forma mais estratégica, simulada e perversa que qualquer um vê e sente como injusto).
     Voltando ao pensamento do narrador saramaguiano, é a maioria governante a mexer no bolso de quem trabalha... a ser o olho e a mão, sem cara nem pulso; ainda assim, a dominar no pior exemplo político, necessariamente não cuidando da maioria governada.
    Triste condição a de um país onde certos homens se posicionam como Deus(es), a escrever(em) torto (tortíssimo) em linhas que também, estando longe de ser direitas, dificultam a construção de qualquer sentido de ação.

      Depois venham dizer-me que a literatura é ficção. Por vezes é tão parecida com a realidade que só um cego é que não vê. Coitados de nós, que não aprendemos com a(s) história(s)!

domingo, 26 de outubro de 2014

Porque há siglas que podem ser acrónimos

      Regressa-se aos acrónimos, desta feita na sua distinção face às siglas.

      Há conceitos que, por mais que se queiram diferenciar, têm zonas de contacto. Os próprios estudos assim o demonstram, por mais que haja razões para os querer em campos opostos.

     Q: Caro colega, como classificar, quanto ao processo de formação, as palavras OIM (Organização Internacional para as Migrações) e SOS? Ambas as palavras se podem pronunciar como uma palavra só. 
         De acordo com o dicionário terminológico, e com os exemplos apresentados, surgiu-me a dúvida.
        "Acrónimo: Palavra formada através da junção de letras ou sílabas iniciais de um grupo de palavras, que se pronuncia como uma palavra só, respeitando, na generalidade, a estrutura silábica da língua."
      "Sigla: Palavra formada através da redução de um grupo de palavras às suas iniciais, as quais são pronunciadas de acordo com a designação de cada letra.".
        Aproveito a oportunidade para lhe dar os parabéns pelo Blog e agradecer os esclarecimentos, sempre tão claros.

         R: Caríssima colega, é com prazer que lhe respondo à dúvida, além de, desta forma, também poder agradecer as palavras simpáticas dirigidas à CARRUAGEM 23.
          Começando por citar Margarita Correia e Lúcia San Payo de Lemos (em Inovação Lexical em Português, ed. Colibri, APP, 2005, p. 46), é de sublinhar que "aquilo que distingue uma sigla de um acrónimo é apenas a sua concordância/não-concordância com a estrutura silábica da língua em causa. Uma unidade como ONU é uma sigla (porque é formada pela primeira letra de cada uma das palavras que constituem a designação — Organização das Nações Unidas), mas é também um acrónimo (porque a sua estrutura silábica é conforme à estrutura do português). Por seu turno, unidades como CGTP ou UGT (União Geral de Trabalhadores) apenas podem ser consideradas siglas."
            Neste alinhamento, é possível afirmar que a grande distinção prende-se com o seguinte: ´
. sempre que a palavra é formada apenas pelas iniciais de uma expressão, encontra-se a diferença entre sigla e acrónimo pela realização fónica, com o último a admitir uma realização silabada - o caso de TAP, NATO ou UNESCO, cuja leitura se faz na base de uma estrutura silábica e não por indicação letra a letra (cf. [TAP], [NA][TO] e [U][NES][CO]);
. é necessariamente um acrónimo toda a palavra que, já na sua formação, integra, total ou parcialmente, sílabas da expressão que lhe serve de base (exemplo de REFER, termo construído a partir das sílabas de 'REde FERroviária' Nacional).
        Atendendo aos casos concretos que solicita, assumo que, comummente, os falantes soletram cada uma das letras do 'SOS' (para se referirem ao sinal de emergência / perigo ou a situações críticas que requeiram intervenção urgente), nunca as lendo como se de uma sílaba se tratasse. Daí ser uma sigla. O mesmo sucede com OIM.

         Em síntese: entre a soletração da sigla e a silabificação do acrónimo fica a distinção de dois processos de formação irregular de palavras -  tão irregular quanto poderem coexistir os dois, atendendo à forma como os falantes pronunciam o termo em causa.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Higiene a quanto obrigas...!

     Contactado por uma dúvida que, não sendo nova, ainda levanta questões por se considerar (talvez) da mesma fase o que sucede, morfologicamente, em momentos distintos.

   Q: Colega, diga-me, por favor, como classificaria a palavra 'anti-higiénico' quanto à sua formação. Obrigado.

      R: Caríssimo colega, trata-se de uma palavra que é formada a partir de 'higiénico' (base), a que se acrescenta um prefixo (anti). Daí tratar-se de uma palavra derivada por prefixação.
       Esta será a última etapa de formação.


    Uma outra questão é a que se prende com a formação de 'higiénico' (derivada por sufixação, a partir de 'higiene', com o sufixo adjetival 'ico'), anterior à palavra entretanto solicitada.

   Mais um caso, portanto, de processualidade morfológica sequencial, construída em fases diferentes.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Tempo deles...

       ... dos dióspiros, pois então.

O fruto da discórdia linguística (foto VO), com agradecimento à VS.
    E, antes que digam que é erro, convém alertar para o facto de a palavra estar bem escrita. DIÓSPIROS, sim senhor, com acento gráfico no primeiro 'o', é verdade.
   Verdade, verdadinha é que ninguém o diz tal como deve ser - que é como quem diz, tal como se escreve: a palavra é esdrúxula (assim o dita o dicionário), mas toda a gente a pronuncia como se fosse grave (com a sílaba tónica no 'pi'). Não é de admirar, portanto, que, por influência da fala (incorreta), também quase todos escrevam (erradamente) o termo, sem o acento gráfico que se impõe.
     Ainda hoje falei do caso aos meus alunos, até para que ganhem a noção de como a língua se encontra em mudança no estádio sincrónico em que nos encontramos, a ponto de atualmente já ninguém ter consciência de que deve escrever-se 'dióspiro' e não 'diospiro'; de que deve dizer-se a palavra como proparoxítona (acento fónico esdrúxulo) e não paroxítona (grave).
       
       Ofertaram-me seis dióspiros. Um (dióspiro) já foi! Quando acabarem (os dióspiros), posso comprar mais (dióspiros), mas vou preparar-me para falar de forma errada (não vá a vendedora pensar 'Olha, olha... Professor de Português e a falar tão mal). Ironias da evolução da língua (viva).

sábado, 18 de outubro de 2014

Uma divindade mística de felinidade

    É o que se pode dizer e escrever quando os gatos têm mais de sete vidas (para não falar de experiências e convívios muito recentes com outros "gatos").

     Não era meia-noite nem as ruas da cidade estavam vazias (ao contrário do que diz a famosa canção da gata Grizabella). Havia, contudo, o luar: o da noite e o do palco que recebiam o público, a chegar desde as 20:30. Pouco depois de uma hora de espera, anunciava-se o começo: apareciam figuras esculturais e felinas junto a uma lixeira, num musical de canto e dança só interrompido por um curto intervalo.
   Desde a estreia em 1981, no New London Theater (onde permaneceu em palco até 2002), muitos foram os países que assistiram a este espetáculo de Andrew Lloyd Webber com versos de T. S. Elliot, (na maioria, do Old Possum's Book of Practical Cats, da década de 30 do século XX; alguns outros mais que, não sendo de conhecimento público, foram integrados graças à cedência de vários textos pela viúva do escritor); milhões de espectadores se emocionaram com a magia da celebração da raça dos gatos Jellicle, bem como a escolha daquele que teria a hipótese de "renascer" para uma nova vida.
    Sugerido pelo poema "Rhapsody on a Windy Night", alguns dos versos de T. S. Elliot podem ser revistos na cantiga "Memory", cantada pela gata Grizabella:


     Também na memória fica este espetáculo, de luz, cor e muita gataria. No final, fechado o baile dos Jellicle, o velho gato da tribo (Old Deutoronomy) indica como os espectadores devem lidar com os seus companheiros (afinal, aqueles que também circularam pela plateia e assustaram os mais desprevenidos): eles são muito parecidos com os humanos, feitos de beldades (como a gata branca Victoria), de vilãos (como Macavity), de perfecionistas (como Skimbleshanks, o gato dos comboios), de nostálgicos (como Gus, o gato do Teatro), de artistas mágicos (como Mistoffelees), de preguiçosos (Jennyanydots, a gata Gumbie), de poderosos (gato Rumpus), de engatatões narcisistas (Rum Tum Tugger), de líderes sábios (Old Deutoronomy) e também dos que se afastam para mais tarde regressar (Grizabella).

      No meio de tanto gato - com cumplicidades, batalhas, bailes, alegrias e desapontamentos -, há vidas que se multiplicam numa lixeira que, podendo ser um tipo de mundo, sempre pode dar lugar a uma viagem com destino a um novo e universo; a uma nova oportunidade (Heaviside Layer). Nisso também os gatos ensinam os humanos, apelando para a dimensão da memória ("Memory").

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

És mulher...

     O dia foi intenso, na alegria que se cruza com a dor.

    É difícil aceitar o que a injustiça impõe. Mais uma razão para viver com a vontade de imaginar, ultrapassando os limites que nos prendem à condição de sofrer.


ÉS MULHER...

Disseram que não eras mais bebé,
com o amor de quem te vê mulher...
Tudo mudou. Ficou a mesma fé,
devoção de um grato pai que te quer

presente; de dois irmãos que te mimam;
de uma mãe que, chorando, te tem viva.
Estiveram os amigos que te estimam,
os familiares que te querem... Diga

o tempo o que disser, "Já és mulher!"
Estejas como estiveres, onde puder
ser, haverá anos a celebrar:

'Parabéns a você' há de soar,
contido - mas sentido -, por haver
mágoa pelo que te fizeram perder.


    Pessoa escreveu "quem dera / Volver a sê-lo!", pensando no que pudera ter sido. Noutros casos, diria que era bom volver ao que (já) se foi. Na impossibilidade, que se seja! Além de tudo, há sempre os que se acham de si partidos e que podem (re)descobrir a existência dos que são ou estão pelo que muitos querem. 

     Eis a prova da esperança do querer, misturado com a força do crer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Um filme deliciosamente português

      Depois de uma experiência fílmica dececionante, chegou o (inesperado) inverso.

    Assumo que, à partida, não entrei na sala de cinema com grandes expectativas. A companhia era excelente, mas o filme não me dizia muito, a julgar pelo trailer e pelo que se anunciava em termos temáticos: a angustiante perda (na e da vida) e o peso estagnante da solidão superados pelo encontro de uma idosa de 73 anos com um jovem de 18, com tudo o que de mais insólito se previa na relação.


     "Os Gatos Não Têm Vertigens", realizado por António-Pedro de Vasconcelos, aborda a força de uma amizade que salva vidas: a de um jovem com dificuldades, e desamparado na vida, mais a de uma triste viúva, que bruscamente perdeu a sua fonte de energia. Ambos enfrentam o dia-a-dia numa sociedade onde parece não haver tempo para nada e onde o dinheiro se tornou regra de ouro ou condição básica de sobrevivência. Uma nota de esperança surge quando, um pouco à semelhança de David Copperfield (de Charles Dickens), o espectador depara com um jovem que não se resigna e, depois de uma infância e adolescência difíceis, acaba por vencer na vida pela escrita, graças à ajuda recebida de um outro alguém que lhe deu de comer, o acolheu, o "leu", num encontro improvável e inesperado.
     Com argumento de Tiago Santos, as personagens Jó (João Jesus) e Rosa (Maria do Céu Guerra) precisam apenas de um terraço para construir um universo de afetos, capaz de ultrapassar o desencanto do rapaz e a história triste de quem acabou de perder subitamente o companheiro (Joaquim, interpretado por Nicolau Breyner) de uma vida, de uma existência pautada de lutas e resistências várias. Nas diferenças de cada personagem, há uma base comum: a clandestinidade do amor, que vai ser conjuntamente descoberta e cimentada pelos comportamentos, pelas confidências, pelos compromissos, pela linguagem e pela cumplicidade cómica (tantas vezes reproduzida num "És tão disparatado!"). Dela, também, Ana Moura dará conta, musicalmente, enquanto voz do tema principal da banda sonora:

Fado-canção "Clandestinos do Amor", da banda sonora do filme 
(interpretado por Ana Moura e escrito por António-Pedro de Vasconcelos)

CLANDESTINOS DO AMOR

Vivemos sempre sem pedir licença
cantávamos cantigas proibidas
Vencemos os apelos da descrença
que não deixaram mágoas nem feridas

Clandestinos do Amor, sábios e loucos
vivemos de promessas ao luar
Das noites que souberam sempre a pouco
sem saber o que havia para jantar

Mas enquanto olhares para mim eu sou eterna
estou viva enquanto ouvir a tua voz
Contigo não há frio nem inverno
e a música que ouvimos vem de nós

Vivemos sem saber o que era o perigo
de beijos e de cravos encarnados
Do calor do vinho e dos amigos
daquilo que para os outros é pecado

Tu sabias que eu vinha ter contigo
pegaste-me na mão para dançar
Como se acordasse um sonho antigo
nem a morte nos pode separar

Nós somos um instante no infinito
fragmento à deriva no Universo
O que somos não é para ser dito
o que sente não cabe num só verso

Enquanto olhares para mim eu sou eterna
estou viva enquanto ouvir a tua voz
Contigo não há frio nem inverno
e a música que ouvimos vem de nós


     Trata-se de uma bela película, a dar conta do desprendimento que uma idosa divertida (no espírito e na vida vivida) pode assumir, para se revelar e se sentir útil junto de um jovem marginalizado. Curiosamente, num filme com interpretações de grandes atores (Maria do Céu Guerra, Nicolau Breyner, Fernanda Serrano, Ricardo Carriço), há a revelação de um jovem ator (João Jesus) que se impõe entre os veteranos com a qualidade da continuidade. Todos jogam para uma história em que os jovens (gatos) arriscam, desafiam, "não têm vertigens"; também alguns idosos não as sentem, ora porque dão de comer "aos gatos" (no terraço) ora porque também procuram ter tempo, ter projetos, ser úteis ao mundo - depois do tanto por que lutaram e viveram.
     No cómico de situações e de linguagens apresentado, o espectador sai do filme com o bem-estar e a sensação de que o mundo pode ser melhor, porque feito de humanidade, de afetos e de possibilidades decorrentes de encontros felizes.

    Porque os bons são premiados e os maus da fita denunciados; porque pode haver justiça (nem que seja apenas na ficção); porque pode haver felicidade independentemente da idade e dos caminhos que nos fazem cruzar com tristezas e/ou com aparentes alegrias..., há filmes que, na seriedade do enredo, não perdem a leveza que nos faz sentir bem. Este é um deles.

domingo, 5 de outubro de 2014

Historinha para um dia grande

   Em dia de celebração republicana, falta o feriado, roubado pelo fim de semana (e não só!).

   "Eu nasci na República"... e não sei se sou mais feliz (mas reconheço que "assim penso tudo aquilo que sempre quis"). É que o povo anda muito desesperançado.
    Esta é a minha reação ao filme de animação de Emília Mimi (Primeiro episódio Mix República), datado de 2010 e exibido no "Monstra" - Festival de Animação de Lisboa. Fica a história para lembrar como a vida faz frequentemente esquecer o passado, nem sempre melhor do que o presente (por pior que este último seja):


   Implantada a República e erguida a nova bandeira, faz hoje 104 anos que nos despedimos da Monarquia enquanto regime político oficial nacional. Talvez tenhamos substituído alguns problemas por outros tantos (às vezes parecendo os mesmos), mas sempre fica a possibilidade de podermos chamar a nós o poder de escolha, de voto naqueles que vão ter a legitimidade de os (vir a) resolver.

     Vou apanhar sol e acreditar que "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena" (só para citar o poeta).

sábado, 4 de outubro de 2014

Não é só a má qualidade de imagem...

       Demasiado mau para ser verdade.

     E assim o canal RTP nos vai habituando ao mau uso da língua, aquele que supostamente devia dar o exemplo até pelo "Bom Português" (também por vezes duvidoso) que vai divulgando ao telespectador logo pelas manhãs.
       Distorcida a imagem, deve esta ser reflexo tanto da dificuldade em ver o aumento (sUbida) do salário mínimo como do conhecimento distorcido da própria língua:

Sobe, sobe... salário, sobe, ... se ainda não SUbiu! (Foto VO)

       O pretérito perfeito mantém a regularidade gráfica da base verbal no infinitivo: 'sUbir'; daí 'sUbiu'. E, já agora, talvez não seja mau lembrar que, a partir do tema (radical e vogal temática) do pretérito, se formam o mais-que-perfeito simples do indicativo (sUbira, sUbiras, sUbira, sUbíramos, sUbíreis, sUbiram), o imperfeito mais o futuro do conjuntivo (respetivamente, sUbisse, sUbisses, sUbisse, sUbíssemos, sUbísseis, sUbissem e sUbir, sUbires, sUbir, sUbirmos, sUbirdes, sUbirem).

       Regularidades dos paradigmas flexionais (morfológicos) e ortográficos que a língua tem, mas que alguns responsáveis da comunicação desconhecem (devem ser influências a mais do "SObe, sObe, balão sObe" ou, então, a projeção de alguém que, falando à moda do 'Nuorte, só biu' uns parcos euros na carteira). Haja paciência!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Um filme para esquecer; um livro a rever.

         Os Maias é para ler. Sem mais.

        Há livros que não desmerecem os filmes que neles se inspiraram (lembro-me, por exemplo, de O Carteiro de Pablo Neruda, de Antonio Skármeta, e que Michael Radford dirigiu cinematograficamente). Por poucos que estes sejam, às vezes o sentido estético e artístico da tela chega a ser uma mais-valia para as páginas corridas pelas mãos e pelos olhos dos leitores.
       Outros - a maioria dos que conheço - não têm comparação possível. Os Maias, de Eça de Queirós, pertence a este último grupo, atendendo ao que pude assistir na versão fílmica de João Botelho.

Trailer do filme inspirado na obra realista-naturalista queirosiana

    Não posso dizer que tenha alguma coisa a ver com o realizador, de quem já apreciei outros desafios cinéfilos. O certo é que, para mim, a obra é um dos maiores romances da literatura portuguesa, depois de O Ano da Morte de Ricardo Reis (de Saramago). Nisso fica logo marcada por uma elevada expectativa, para não dizer reserva face ao que a sétima arte possa trazer para uma narrativa ímpar. O próprio João Botelho entende o texto como "intocável" e, como tal, anunciou uma proximidade que qualquer leitor atento vê por vezes comprometida.
       Há aspetos muito bem conseguidos no filme: o episódio do Sarau da Trindade, o da revelação incestuosa (comicamente entrecortado pelo pormenor do chapéu de Vilaça que não aparece nem deixa que o sentido trágico do momento se adense), o da relação consciente do incesto  por parte de Carlos (ainda que numa cena demasiado prolongada, por comparação a momentos significativos da obra ora eliminados ora reduzidos); o jogo de ausência de cor (na estrutura da novela ou da concentrada analepse inicial), seguido do colorido que acompanha os dois anos de vida de Carlos em Lisboa; a caracterização e decoração de interiores; a construção de algumas personagens (nomeadamente, Ega e o avô Afonso da Maia).

Exemplo dos wallpapers disponibilizados na página oficial do filme (http://www.ardefilmes.org/osmaias/)

         Depois, há toda uma deceção: exteriores repetitivos em telões pintados por João Queiroz, sem grande apelo (particularmente os do Douro, sem a vitalidade refrescante e rejuvenescedora de Santa Olávia) nem a tonalidade de luz ou calor tão marcantes quanto desgastantes da capital; personagens que ficam muito aquém dos traços que Eça destacadamente individualizou (um Eusebiozinho tão indiferenciado, um Dâmaso tão apagado e quase sem "chique a valer", uma Maria Eduarda tão longe do retrato de "deusa", um Alencar mais tresloucado do que "catedral romântica", um Afonso da Maia jovem tão pouco convicto ou convincente, uma condessa de Gouvarinho sem sabor, nada arrebatadora ou insinuante); a ausência de momentos fulcrais do romance (como o primeiro encontro de olhares entre Carlos e Maria Eduarda, apenas mencionado no jantar do Hotel Central; o episódio de Sintra) ou a introdução de outros tão desajustados (como o de uma patética Maria Eduarda sofridamente caída numa rua de Lisboa, o de planos inusitados para as rodas das tipoias ou caleches); a presença de um narrador cuja voz monocórdica, séria e grave não deixa ecoar os sinais críticos (e, por vezes, também risíveis) que a lente de um monóculo observador e atento deixava ver / ler.

    Se as "Cenas da Vida Romântica" (próximas do subtítulo romanesco "Episódios da Vida Romântica") estão mais para o projeto queirosiano das "Cenas de Vida Portuguesa" do que para a fidelidade ao romance de 1888 (o terceiro, depois de  O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio). Procurar ter em tela o que possa ser um conjunto de pinturas tornadas cenários teatralmente ajustadas à ambiência e ao registo próprios de uma ópera até poderia revelar-se uma estratégia interartística relevante; peca por as "cenas" ficarem tão irreais e antinaturais quanto afastadas de um retrato queirosiano real(ista) e natural(ista) ainda atual aos olhos dos leitores contemporâneos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Céu... Esperança...

       Uma causa para abraçar.

       É um caso triste, mas que existe. Tão próximo!
     Para o divulgar, ficam as palavras de quem com ele conviveu nas alegrias e a quem dá a mão para o futuro e a esperança.

      Dizer o quê, escrever o quê?
      Esta é das histórias mais trágicas que já conheci.
    Sou professora da Maria há dois anos (10º e 11º ano). Conheci uma menina aplicada, lutadora, humilde e que sabia bem o que queria!
     De um dia para o outro, tudo mudou...
     Uma operação, à partida simples, pôs fim à Maria que todos conhecíamos...
     Hoje, a Maria está presa a uma cama... dependendo de tudo e de todos...
     Aqui entramos nós; podemos ajudar!
    A Maria precisa de tanta coisa... da nossa presença, do nosso carinho, mas também de uma cama articulada, de um colchão, de uma cadeira de rodas...
     Para tal criamos uma conta em nome dela para fazer frente aos dias que hão-de vir...
     Por favor divulguem e sejam solidários! Um pequeno contributo pode fazer toda a diferença!


     Professora Manuela Oliveira ...
     Mt obrg 
     Força Para a Maria Do Céu

    Um erro médico, uma falha nos procedimentos cirúrgicos, uma irresponsabilidade técnica - hipóteses sem resposta e sem remédio.

     Vamos a isto. Há muito trabalho a fazer para dar o conforto possível à Maria. Este vai ser o meu voluntariado.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

E uns outros milhões expostos ao erro

   A notícia é sobre uns milhões. Outros são os que correm o risco de ficar apenas com o erro.

   É já tão frequente o problema, bem além de Portugal continental, que era escusado a RTP contribuir para a sua perpetuação.
   É triste a constatação de que é cada vez menor a atenção prestada pela televisão pública, na sua estação difusora, aos que escrevem português. Correto devia ser; cada vez mais errado se dá a ver e a ler:

Imagem captada da RTP1, durante a emissão do Bom Dia Portugal 
(título que também devia ter vírgula, para marcar a presença do vocativo).

   À informação do dinheiro vindo da União Europeia não escapa o indevido e agudo acento, que deveria ser grave. Grave (também) o erro! Aguda (ainda) a situação, de tão criticamente recorrente. Sendo a explicação do acento gráfico grave tão singular na nossa língua, chega a ser incompreensível o desconhecimento dela. Ora na indecisão ora no assumido erro, relembre-se que a contração (da preposição 'a' com o determinante artigo 'a') constitui o motivo para que o "embargo à", sublinho, "à Rússia" fique convenientemente grafado.

    Seja lá a quem for, devia a RTP dar formação a quem desconhece regras básicas de acentuação. A bem da própria imagem do canal de televisão.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Quando o papel da vida chega ao fim

    Foram muitos os papéis desempenhados em filmes, séries, teatro...

    Chegou ao fim o papel da vida. 
   É sempre triste a notícia da partida daqueles que artisticamente fazem parte de uma geração. A da minha juventude tem, por certo, Robin Williams como um dos grandes da Sétima Arte. Os traços do seu sorriso sempre desenharam o empático e contagiante registo da comédia, mesmo nos enredos cuja profundidade temática tinha tudo menos razões para fazer rir.
   Good Morning, Vietnam  (1987) e Clube dos Poetas Mortos (1989) são títulos que o assumem como protagonista de narrativas cinematográficas ímpares. O segundo muito mais diretamente me diz, pelo papel de professor de Literatura que o ator representou (John Keating) e que a mim me fascinou - talvez por, nesse ano, estar já eu a perspetivar o tipo de docente que gostaria de ser.
      No meio do enredo, ficava uma de várias mensagens:

     Imagem do filme Clube dos Poetas Mortos (Dead Poets Society)

     Parece que, hoje, a depressão e o desespero puseram fim ao romance, à poesia, à beleza, ao amor... à vida. 

    Na suspeição de um suicídio, aos sessenta e três anos, Robin Williams deixa o legado de um artista oscarizado (em 1998, com Good Will Hunting - ou, em Português, O Bom Rebelde -, na categoria de Melhor Ator Secundário), de uma carreira galardoada com grammys, emmys e globos de ouro diversos; o sinal de que a ficção pode mascarar ou iludir realidades insuportavelmente duras e graves.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Corpo são em mente sã (ou de como 'andar a pé faz bem')

     Em tempos de aposta no exercício físico, para compensar a imobilidade da maior parte dos dias, faz sentido uma pergunta deste estilo, por mais que ela convide à ausência de movimento.

     E pronto... lá vou eu sentar-me, para responder à questão.

     Q: Olá, Vítor.
     Esclarece-me esta dúvida, por favor: em 'Andar a pé faz bem', qual a função sintática do sublinhado?
         Obrigada.

    R: Olá. O sublinhado não deve ser encarado separadamente do verbo. 'Fazer bem' funciona como uma unidade léxica (lexia), com o verbo e o advérbio enquanto elementos constituintes de uma expressão fixa configuradora do predicado (sintático) e do predicador (semântico) nuclear da frase (que tem como sujeito sintático 'Andar a pé').
     O verbo 'fazer', no caso concreto, não é entendido como verbo pleno, mas funcional (à semelhança de 'dar', em 'dar apoio / autorização / permissão ou 'dar à corda / sola; 'ter', em 'ter fome / necessidade / fome / vontade' ou 'ter em consideração / conta'; 'pôr', em 'pôr em andamento / dúvida' ou 'pôr à venda', 'pôr fim a'). Assim se encara 'fazer face / frente a', 'fazer bem / mal', 'fazer perguntas / problemas', entre outras construções de realizações perifrásticas, redutíveis a um só termo (dar apoio > apoiar; fazer bem > favorecer). O verbo 'fazer' participa, assim, das chamadas equivalências lexicalizadas ou lexias com estruturas factitivas (isto é, a realização, por meio de verbos transitivos simples, de equivalências a perífrases factitivas: fazer cair < derrubar; fazer morrer < matar; fazer fugir < afugentar; fazer arder < queimar).
     O caso destes verbos - fruto de um esvaziamento semântico e/ou derivados, desprovidos de parte do seu sentido básico - leva a que alguns linguistas os designem como verbos leves (Jespersen), verbos operadores (Harris) ou verbos suporte (Gross). Quando seguidos de uma sequência nominal, preposicional ou adverbial, chega nalguns casos a não haver lugar a nenhum valor argumental, com o segmento 'verbo+sequência' a compor um predicador complexo (representado numa expressão fixa ou lexia). É o caso de 'fazer bem'.


sábado, 26 de julho de 2014

Asneira em cima de asneira...

     Tem sido esta a orientação no serviço público da língua. Mentira?

     Vivemos tempos de ludíbrio: ser rápido para ser melhor, dizer uma vez e aprender-se logo, contratar mão de obra barata e por pouco tempo, repetir o erro a ponto de o tornar verdade, encarar como bom (português) o que nunca foi... A barbaridade é extensa e infinita.
    Foram já várias as observações quanto ao mau serviço prestado pela RTP no chamado "Bom Português" - e permanece tudo como antes, com insistência evidente no erro (então o de 'sábado' ser escrito com letra minúscula por causa do novo Acordo Ortográfico já mete dó de tanta ignorância repetida). O mesmo aconteceu relativamente à escrita impensável dos rodapés em qualquer um dos maiores canais televisivos e seus associados (RTP, SIC, TVI). 
     Ora, os últimos tempos têm sido pródigos em ocorrências infelizes para qualquer leitor atento. Por vezes, acho mesmo que estou a ler textos de alguns alunos (os que escrevem mal, obviamente; porque os que escrevem bem até podiam ser contratados, para bem deles, da imagem dos canais e dos leitores).
    Para começar, um erro associado à má pronúncia numa leitura oralizada da palavra (e que conduz à má grafia da mesma - mais uma razão para se falar bem, para se poder escrever melhor):

Imagem captada na emissão do Jornal da Tarde (na RTP1), do passado dia 19 do corrente mês.

     Será de ESPECIALISTA escrever bem a palavra?!
    Quase uma semana depois, num mesmo apontamento e numa mesma edição noticiosa, encontram-se não um, não dois, mas três registos incorretos seguidos, a saber:
a) a utilização indevida da expressão relativa 'por que' em vez da conjunção subordinativa causal 'porque' (a introduzir o motivo para o arquivamento proposto pelo Ministério Público);

Imagem captada na emissão do Jornal das 19 (na RTP Informação), do passado dia 25 do corrente mês.

b) a acentuação errada de uma palavra aguda terminada em 'z';

Imagem captada na emissão do Jornal das 19 (na RTP Informação), do passado dia 25 do corrente mês.

c) a já comum, ainda assim errada, indiferenciação entre a expressão '(ter) a ver' e o verbo 'haver'.

Imagem captada na emissão do Jornal das 19 (na RTP Informação), do passado dia 25 do corrente mês.

    Quem não tem hábitos de leitura até pode ter alguma razão para não distinguir realizações com alguma natureza ou aproximação homofónica. Mas... podem os meios de comunicação social ter pessoas nos serviços de escrita / de edição sem formação adequada? E não há ninguém responsável por alguma supervisão gráfica, no mínimo? Ou linguística, no máximo?

     Pelos vistos (e pelo lido), não! E assim é capaz de continuar (verdade insuportável e lamentável). Triste condição do serviço público!
     

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Uma poeta no Panteão

     Por etimologia, Panteão é o templo dedicado aos deuses greco-romanos. Sophia lá está, a partir de hoje, na Igreja de Santa Engrácia (Lisboa) - a mesma cujas obras de restauro outrora nunca mais terminavam e deram lugar à expressão "obras de Santa Engrácia".

    Passados dez anos da sua morte, os restos mortais de Sophia de Mello Breyner Andresen deram entrada  no que é atualmente identificado como monumento da memória coletiva de cidadãos ilustres nacionais.
     A autora de muita prosa - A Menina do Mar e A Fada Oriana (1958), Noite de Natal (1959), Contos Exemplares (1962), O Cavaleiro da Dinamarca (1964), O Rapaz de Bronze (1965), A Floresta (1968), A árvore (1976), Histórias da Terra e do Mar (1984), O Bojador (2000) - e muito verso irá estar junto de outros escritores - Luís de Camões, Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro - e várias outras personalidades portuguesas também reconhecidas. Entre as mais recentes Amália Rodrigues e o General Humberto Delgado. É na mesma sala deste lutador contra o fascismo ditatorial que estará a criadora dos versos anunciadores da liberdade democrática do 25 de abril.
    Na luta que empreendeu pela causa pública, vários foram os poemas que a espelharam. Na obra Mar Novo (1958) encontra-se "Porque", um dos mais significativos na defesa da justiça e da verdade - valores assumidos como instrumento de denúncia da adversidade, de uma sociedade que, nas suas palavras, não se responsabiliza pelos mais fracos ou mais vulneráveis.


     No ideal de uma sociedade em que todos não ganhassem mais dinheiro, mas em que todos precisassem menos dele, Sophia compôs um universo poético com coordenadas muito solidárias, humanistas. Na compilação da Obra Poética, editada pela Editora Caminho (2010), há feixes de luz clássica; o perfume, os sons e a cor do mar; o grito de liberdade e a busca atenta do que o mundo oferece de esplendor e dor. A escrita poética materializa a sua observação, participação e convivência com a realidade; o encontro com vozes, personagens e imagens que tão generosamente deu a ler com a palavra "alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha" (Epidauro 62, in Ilhas, 1989).
   Da escritora nascida no Porto (1919), que cria na poesia pré-existente na natureza (sendo apenas necessário saber ouvi-la) e nela pensava como forma de construção e transformação do mundo, fica a memória eterna na capital, no Panteão Nacional.
   
    Entende-se o reconhecimento de uma figura cimeira da literatura portuguesa, ainda que o maior deles nunca seja a alocação num espaço de pedra nem nos discursos dos políticos e governantes que, tal como enaltecem a escritora, também ignoram a obra, ao legitimarem programas de ensino (como o novo programa de Português do Ensino Secundário) que não a contemplam entre os autores do século XX. Ironia da educação destes tempos, em que a aparente "luz que nos rodeia é como grades". Felizmente, há formas de desfazer ironias e grades muito enferrujadas.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Um aniversário discutível...

     Hoje acordei com as notícias a darem conta da festividade criada em torno dos 800 anos da língua portuguesa. Isto se esta não for mais velha.

    Considerando o aniversário da nossa língua situado nesta data, ter-se-á em linha de conta que o documento mais antigo do português é o testamento do rei D. Afonso II, datado de 27 de Junho de 1214. Trata-se, de facto, do primeiro documento real (entenda-se, da realeza) que se sabe ter sido datado e escrito para garantir a paz da família e do reino, caso sucedesse a morte prematura do monarca. Tomadas as providências para a sucessão pelo filho varão ou, na falta deste, pela filha mais velha, são ainda considerados outros cenários hipotéticos:

Mitra de Braga, caixa 1, documento 48, 240x495mm
       "Em nome de Deus. Eu, rei D. Afonso, pela graça de Deus, rei de Portugal estando são e salvo, temendo o dia da minha morte, para a salvação da minha alma e para proveito de minha mulher D. Urraca e de meus filhos e de meus vassalos e de todo o meu reino, fiz meu testamento para que depois de minha morte, minha mulher e meus filhos e meu reino e meus vassalos e todas aquelas coisas que Deus me deu para governar estejam em paz e em tranquilidade. Primeiramente mando que o um filho, infante D. Sancho, que tenho da Rainha D. Urraca assuma o meu reino inteiramente e em paz. E se este morrer sem deixar descendentes, o filho mais velho que houver da rainha D. Urraca tenha o meu reino inteiramente e em paz. E se não tivermos filho homem, a filha mais velha que tivermos, assuma o reino. E se no tempo da minha morte, meu filho ou minha filha que deve reinar não tiver idade, esteja o reino em poder da rainha, sua mãe. E meu reino siga em poder da rainha e de meus vassalos até quando cheguem à idade. E se eu morrer, rogo ao Papa, como padre e senhor e beijo a terra ante seus pés para que ele receba sob sua guarda e sob sua proteção a rainha e meus filhos e meu reino. E se eu e a rainha morrermos, rogo e peço que meus filhos e o reino sigam sob sua proteção." 
(Texto adaptado em português contemporâneo)

       Todavia, estudos mais recentes (dos finais do século XX) têm apontado para documentos anteriores, de foro menos real e mais legal, já com indicadores que remontam a registos notariais onde o português sobressai face à língua dos romanos (sem a desinência casual acusativa; com nomes configurados com a terminação típica do que vem a ser o português [o, a, os, as]; com marcas de um sistema preposicional que substitui o sistema casual latino; com uma ordem frásica que se distancia da latina). Exemplo disso é a Notícia de Fiadores, descoberta pela professora Ana Maria Martins - um pequeno fragmento que exibe a data de 1175 que fazia parte do espólio do mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto. Nele se lê uma lista de fiadores de Paio Soares Romeu (elemento da família dos senhores de Paiva e irmão do autor de um sirventês galaico-português: João Soares de Paiva):

"Noticia fecit pelagio romeu de fiadores 
Stephano pelaiz .xxi. solidos 
lecton .xxi. Soldos 
pelaio garcia .xxi. soldos. 
Gudisaluo Menendici .xxi soldos 
Egeas anriquici xxxta soldos. 
petro cõlaco .x. soldos. 
Gudisaluo anriquici .xxxxta 
Egeas Monííci .xxti. soldos 
Ihoane suarici .xxx.ta soldos 
Menendo garcia .xxti soldos. 
petro suarici .xxti. soldos 
ERa Ma. CCaa xiiitia 
Istos fiadores atan .v. annos que se partia de isto male que li avem"

(Mosteiro de S. Cristóvão de Rio Tinto, maço 2, documento 10: publ. por Ana Maria Martins: 'Ainda «os mais antigos textos escritos em português»', in Lindley Cintra, Homenagem ao Homem, ao Mestre e ao Cidadão, Lisboa, 1999, 517)

      Em suma: a não ter 800 anos, a língua portuguesa tem um documento, com coordenadas identificadas para os lados do concelho gondomarense, que a atesta já com cerca de 840 anos, para o caso de não aparecerem ainda outros, mais recuados no tempo, com a expressão romance (do galaico-português) suficientemente distanciada das produções reais ou dos registos dominantemente latinos.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O regresso a casa

       Não, não fui viajar. Só uma ida ao teatro (que permite, por certo, outro tipo de viagens).

    Desta feita, a peça foi baseada num texto do britânico Harold Pinter, Nobel da Literatura em 2005 apresentado pela academia como dramaturgo cujas peças tanto resvalam no choque de conversas absurdas do quotidiano como invadem a opressão da interioridade ou dos espaços fechados.
    De meados da década de sessenta do século passado, The Homecoming (1964, publicado no ano seguinte) é o título original para uma representação baseada na tradução de Pedro Marques - 'O regresso a casa' - e na encenação de Jorge Silva Melo.
    Nela há o poder do número (cinco homens em palco para uma mulher); há o poder da palavra (ora rude no tratamento, ora rude e feroz no registo, ora insinuante e insidiosa no que sugere); há o poder da interação e do diálogo (por vezes evasivo, por vezes irritante, insistente, tenso e que desarma quem a eles assiste, pela questionação e pela [des]associação de sentidos; pelos implícitos, subentendidos e malentendidos que fluem nos discursos); há o poder de uma mulher só (que vai dominando o espaço por que se movimenta; as personagens que a vão revendo diferentemente, que a procuram controlar, até se verem sorridente e desafiadoramente manipuladas, observadas).
     Harold Pinter, em 1958, escrevia que não há distinções fortes entre o que é real e o que não o é, nem sequer entre o que é verdadeiro e o que é falso; as coisas não são necessariamente ou verdadeiras ou falsas: podem ser tanto verdadeiras como falsas. Há poderes feitos do vazio; há forças de controlo que se impõem com silêncio, com olhares, com interesses e conquistas nada efusivos.

Fotografia de Jorge Gonçalves: representação de 'O regresso a casa' (com João Perry [Max] e Maria João Pinho [Ruth])

    No fim, mais do que o núcleo familiar (marcado por um sentido de exploração, deformações e desvirtuamentos trazidos para o presente) é o interesse individual que se destaca: o de uma mulher que escapa a um casamento vazio (encarado como deserto);  que pretere um marido e um académico algo estéril e inconsequente; que prefere viver no seio de uma arena de interesses, qual aranha tecendo demoradamente a teia, envolvendo as futuras vítimas, até se posicionar centralmente no espaço que assume como seu.
       A cena final - a da mulher sentada na cadeira do patriarca - é o sinal do precipício, do abismo em que o masculino se coloca: dominado, quando se julgava dominador; no fim, quando ainda se julgava com a possibilidade de tudo (re)iniciar. É também a confirmação do poder feminino enquanto símbolo de um estatuto social e sexual em detrimento de uma parceira sexual afetiva (imagem praticamente apagada em toda a peça).

      Reflexão sobre o poder, as questões de género e a natureza incontrolável de algumas forças que marcam e condicionam o ser humano, O regresso a casa é a ação e o jogo do gato e do rato, o confronto entre desejo sexual e domínio territorial; ou, ainda, o regresso a um espaço de memórias, da memória feita de experiências mal resolvidas que, moldando o ser humano, o podem fazer aspirar a uma condição completamente diferente daquela a que o quiseram votar.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Decididamente, um "olá" sem correção.

     São já tantos os casos que seria bom passar a dizer "Adeus".

    Não há anúncio publicitário da "Olá" que, ultimamente, passe no crivo. E a questão já não limita ao hífen mal usado, repetidamente mal usado, ou aos acentos indevidos.
    Desta feita, junto ao Douro e à ponte da Arrábida, há um registo que falha pela pontuação:


    A saudação e o tratamento dado ao rio tomam-no como recetor da mensagem. Daí a necessidade de vírgula a anteceder "Douro". Faz a diferença.

   As agências publicitárias contratadas para as campanhas da "Olá" mereciam ser processadas, pela frequência de erros ortográficos (e a vários níveis). Não há 'coração' (por mais gelado que seja) que aguente tanta asneira.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dia da Consciência

   Hoje é o 'Dia da Consciência' - iniciativa promovida por um português residente em Nova Iorque para marcar 70 anos passados de uma desobediência que evitou um sofrimento maior de milhares.

    Está anunciado que, neste dia, Aristides de Sousa Mendes vai ser homenageado em igrejas e sinagogas de todo o mundo, como forma de lembrar os esforços por ele conduzidos para salvar milhares de perseguidos pelo regime nazi.


   Parece coincidência toda esta movimentação em prol do diplomata português, depois da recente deslocação feita a Cabanas de Viriato e à Casa do Passal, há três dias. Mais uma prova de que as motivações para a escolha do local fizeram e fazem todo o sentido. 
     Hoje evoca-se o dia em que o cônsul de Bordéus conscientemente contrariou o conteúdo da Circular 14 (de 1940), aquela na qual Salazar impedia a passagem de vistos a qualquer estrangeiro de nacionalidade indefinida, contestada ou litigiosa; aos apátridas, aos judeus.

      Data de relevo para a Humanidade, não pelo nascimento nem pela morte, mas por ser o dia a partir do qual um Homem optou por estar “Antes com Deus contra os homens que com os homens contra Deus”.