segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Travessuras... travessuras...!

     A escolha é óbvia: as doçuras fazem mal.

   Regressa o tempo do Halloween, num imaginário que alguns dizem anglo-americano, mas que, afinal, não deixa de ser uma herança muito europeia (céltica) - para não dizer que o primeiro se inspirou na segunda.
    Entre abóboras dentadas, bruxas, caretas de palhaço assassino, feridas e sangue falso, máscaras do "Scream", mortos-vivos, partes de corpo decepadas, teias de aranha, vampiros e zombies, ecoa o "trick or treat" em noite que, nos tempos correntes, convém que seja mais para travessuras do que para doçuras - a bem dos diabetes e outras doenças "açucaradas", nada favoráveis ao combate da obesidade.
    Desde a celebração celta do Samhain (o "fim do verão"), a noite de 31 de outubro tem vindo a ser encarada numa maior proximidade entre mortos e vivos, dizendo-se mesmo que os espíritos regressam às casas que foram suas para pedir comida. Daí a prática de alguns familiares deixarem as sobras do jantar à porta de casa. Com a instituição, pelo século VIII e pela Igreja Católica, do 'Dia de Todos os Santos' à data de 1 de novembro, paganismo e catolicismo fundiram-se numa só festividade de natureza mais para o profano (e comercial) do que religioso.
    Em meados do século XIX, tal celebração rumou da Irlanda para a América do Norte, num movimento emigratório associado ao período da Grande Fome (pelas décadas de 40 e 50), que havia dizimado muita da população europeia de então.

   Uma história de viagem que, afinal, é mais de cá para lá do que ao contrário. Logo, quando disserem  que isto é tudo uma americanice, é melhor ver a questão na perspetiva inversa, ao estilo do bom filho a casa torna.

domingo, 30 de outubro de 2016

Com ou sem hífen?

      De novo, a questão do Acordo Ortográfico (AO).

      Dúvidas que só o uso pode vir a resolver, com alguma leitura e/ou consulta do Acordo (que, por certo, não é o melhor exemplo de literatura).

      Q: 'Personagem-tipo' perde o hífen com o AO?
Personagens-tipo queirosianas
    R: Não. Voltando à base XV do AO - intitulada "Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares" -, é assumido que se emprega o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio,
    Trata-se, assim, de um composto na mesma linha de 'ano-luz' e 'turma-piloto', também grafados com hífen (justapostos e com contraste de número no primeiro termo).

       Porque 'personagem-tipo' é um tipo de personagem, tal como 'ano-luz' é um tipo de medida / distância e 'turma-piloto' é um tipo de turma. e se mantêm os acentos próprios dos termos (daí a justaposição). 

sábado, 29 de outubro de 2016

Novidades... com alguma velhice!

     Fala-se de "novidade", mas só com aspas de distanciamento e não apenas de citação.

     Fica, então, a questão que propõe o novo mais do que relativo.

     Q: Vítor, numa ação de formação ouvir falar de umas subordinadas que, admito, desconheço por completo: "subordinadas proporcionais"! Procurei no Dicionário Terminológico e não vi tal coisa. Só vi as subordinadas habituais e, nestas, as comparativas. Onde é que foram inventar esta, pergunto eu? Já ouviste falar disto?

  R: Meu caro, já ouvi falar e não são invenção. Mesmo não estando no Dicionário Terminológico (que não é, certamente, documento exclusivo do ou para o ensino da gramática), posso referenciar algumas gramáticas que tratam da questão, que consideras nova (ainda que não o seja).
    Desde logo, a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 585), de Celso Cunha e Lindley Cintra, já faz referência a este tipo de subordinadas, ao abordar o que designa-va "conjunções proporcionais". Na Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Mira Mateus (Caminho, 2003, págs. 765-766), tais subordinadas são configuradas através de conectores correlativos como "(Quanto) mais / menos... (tanto) mais/menos..." ou articuladores do tipo "À medida que..." / "Enquanto...", na expressão da proporcionalidade. É o que se pode exemplificar com os sublinhados das subordinadas seguintes:

       i) Quanto menos fazes menos queres fazer.
       ii) (Quanto) Mais te esforças melhor resultado tens.
       iii) Enquanto eles estudam, mais / melhor compreendem a matéria. 
       iv) À medida que o estudo avança, melhor é a compreensão da matéria.

      São construções de graduação que estão em causa (veja-se o sublinhado no segundo termo das frases dadas, ou na subordinante), antecedidas por uma expressão de proporção. 
      Ainda que se trate de uma classificação mais conforme à Nomenclatura Gramatical Brasileira, há gramáticas portuguesas que referem especificamente o caso das comparativas correlativas [encarando-as, portanto, como um subtipo de comparativas, que admite até a inversão dos termos com articulador isolado - cf. iii e iv)]. Testes de clivagem e de inversão oracional com o articulador marcam, contudo, um diferencial significativo face às comparativas, em termos sintáticos, numa aproximação bem mais consistente com a natureza das subordinadas adverbiais.
    Já agora, deixa-me também mencionar as subordinadas conformativas (NGPC, pág. 585 / GLP, págs. 362-365), presente, por exemplo, na última vinheta da tira seguinte:


     "Segundo disse o médico,..." é a subordinada conformativa usada. Também não é propriamente nova e traduz a conformidade face ao explicitado na subordinante. É expressa por articuladores como 'conforme', 'segundo' e 'consoante', ou mesmo um 'como' parafraseável pelas formas indicadas entre parêntesis:

        v) Não concordo contigo; pensa como quiseres (conforme / da maneira que / do modo que quiseres)
       vi) Como se previa (Conforme / Da maneira que / Do modo que / Segundo se previa), a experiência falhou.

      Estes outros dois tipos de subordinadas admitem alguma inversão dos termos (cf. iii, iv e vi), particularmente nos casos com articulador / conector isolado (ou seja, não correlativo), bem distintos dos casos de comparativas com graduação de igualdade, superioridade ou inferioridade.

      Uma outra gramática que aborda estas subordinadas é a Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian (vol. II, 2013, págs.2164-8 e 2159, respetivamente). Sem invenções, com exemplificação e testes distintivos relativamente às subordinadas comparativas, com que geral e criticamente são identificadas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Provérbios...!

      São tão cultural e experiencialmente relativos quanto, às vezes, se desdizerem no que significam.

     Que o diga o "Quem espera...", a dar tanto para o "... sempre alcança" (na visão positiva) como para o "... desespera" (na versão negativa).
      Hoje apetece-me desconstruir o que a tradição impôs. Houve já quem dissesse / escrevesse que "Deus escreve torto em / por linhas direitas" (que heresia, santo Deus!) ou que "As mulheres não se medem aos palmos" (a bem de que não seja sempre o homem a representar a humanidade). Eu, por exemplo, já escrevi que "Mais vale mal acompanhado" (por razões óbvias)!
     Um pouco à semelhança de Chico Buarque, talvez o "Bom Conselho" esteja em ir contra a corrente que a nada conduz:

Chico Buarque, "Bom Conselho (1972)

BOM CONSELHO

Ouça um bom conselho 
Que eu lhe dou de graça 
Inútil dormir, que a dor não passa 
Espere sentado 
Ou você se cansa 
Está provado, quem espera nunca alcança 

Venha, meu amigo 
Deixe esse regaço 
Brinque com meu fogo, Venha se queimar 
Faça como eu digo 
Faça como eu faço 
Aja duas vezes antes de pensar 

Corro atrás do tempo 
Vim de não sei onde 
Devagar é que não se vai longe 
Eu semeio o vento 
Na minha cidade 
Vou pra rua e bebo a tempestade

      Inconformismo, cansaço, desilusão, alguma noção de perda de tempo (que não traz felicidade a ninguém) e alguma desistência, para ainda poder agir em função daquilo em que se acredita - e não do que a "ditadura da democracia" quer. Eis alguns motivos para que o silêncio se instale (ainda que este último às vezes signifique mais do que muitos discursos ou palavras, tornados ocos). Por isso é que (perdoe-me o graffiter!) tenho de reformular o provérbio:

Graffiti nas ruas de Alfama (Lisboa)

       Quem cala não deixa de querer mudar (e, por isso, nem sempre consente). E, assim, se vai construindo uma revolução silenciosa, nem que seja a de recriar a própria língua (afastando-a da sua zona de conforto ou de rotineira comunicação).

   Tenho dito, escrito e, quiçá, passado das palavras aos atos (silenciosos, antes que sejam silenciados)!

domingo, 23 de outubro de 2016

De novo o "Inferno"

       Já sobre ele escrevi várias vezes - antes, do livro; hoje, do filme.

     A leitura de "Inferno" de Dan Brown foi hoje complementada pelo visionamento da adaptação fílmica do livro à tela. Protagonizado por Tom Hanks, o enredo fílmico traduz algum do caos ameaçador que contribui para uma visão dantesca do mundo:

Trailer do filme para a obra homónima de Dan Brown

       Não é negada - se é que alguma vez o será - a constatação clássica de que o ritmo da sétima arte - com percursos bem mais curtos, para não mencionar os eliminados - em nada condiz com o do tempo de leitura. Assim se marca a produção de Ron Howard, em mais um episódio - digamos assim - da série de aventuras do simbologista Robert Langdon. Depois de O Código Da Vinci (2006) e Anjos e Demónios (2009), chega a versão cinematográfica de Inferno (2016), numa rede de relações muito próxima à referência cultural que Dante representou nessa descida literária aos infernos de A Divina Comédia - obra trecentista constituída por três partes ('Inferno', 'Purgatório' e 'Paraíso').
       Langdon acorda num hospital italiano em estado amnésico. A recuperação da memória faz-se à medida que a parceria com Sienna Brooks (Felicity Jones) dá lugar à constatação de que é preciso correr contra o relógio, de modo a desvendar os segredos que podem transformar-se numa crise global fatal. O mau da fita (sê-lo-á?!), Bertrand Zobrist, sustenta que a superpopulação conduzirá ao fim da humanidade, pelo que a sobrevivência passa por diminuir o número de habitantes planetários. Se, no livro, um vírus provoca uma mutação genética - causando esterilidade a um terço da população mundial, numa estratégia de controlo da natalidade -, na tela o perigo da exterminação da humanidade mantém-se, ao evitar-se que o vírus esterelizador se propague.
      As diferenças da escrita face às do registo cinésico da arte do cinema não se esgotam neste aspeto temático final: a descrição física das três figuras femininas da história não é coincidente; há personagens nas páginas do livro que não têm lugar na tela (caso de Christoph Brüder, um agente ao serviço da Organização Mundial da Saúde com a missão de capturar Robert Langdon e que, no fim, colabora na resolução da trama), bem como o contrário (o agente Christoph Bouchard persegue Langdon e Sienna, aliando-se a estes para obter o vírus que pretende vender no mercado negro); no liveo, o conhecimento recente de Robert Langdon relativamente à Dr.ª Elisabeth Sinksey - chefe da Organização Mundial de Saúde -, no filme, redunda num passado amoroso resolvido em favor dos percursos profissionais e em detrimento da relação sentimental.

     E nas distinções que compõem as duas expressões artísticas (o que, aliás, já se havia verificado com Anjos e Demónios), um dado ressalta: as viagens por Florença (Giardino di Boboli, Corridoro Vasari, Ponte Vecchio, Galeria Uffizi, Catedral Santa Maria del Fiore), Veneza (o Grande Canal, a Praça de S. Marcos, o Palácio do Doge) e Istambul (Hagia Sophia e a Cisterna da Basílica de Istambul) são itinerários que preenchem a visão e a imaginação tanto de quem lê como de quem vê.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Um dia depois... Dylan (um Nobel para o Bob)

    Hoje começo a escrever em inglês (em ‘American English’), da pergunta à resposta: Are these times a-changing?! The answer, my friend, is blowing in the wind / The answer is blowing in the wind!
Bob Dylan num concerto há quatro anos 
(© KI PRICE / REUTERS)
   Comoção geral. Assim parece pela frequência do tema de conversa: Bob Dylan é Nobel da Literatura.
  Para o choque de uns, a satisfação de outros, sem deixar de mencionar os que indiferentemente olham para o assunto como mais um, no meio de tantos outros provavelmente mais críticos ou interessantes (porque mais determinantes na vida de cada um).
    Interessa-me particularmente a reação que vai sendo revelada pelos que no campo literário (ora por serem conceituados escritores ora por estarem relacionados com o ensino da literatura) se vão pronunciando sobre a questão.
   Entre as argumentações produzidas (música, canções não são literatura; os autores de canções não são poetas; chegou a banalização, a relativização ou menorização da literatura face a outras artes; há tempos de mudança na produção literária ou de falta de critérios para o que é literatura), quase todas esbarram em duas evidências: uma, a de que muitos poemas acabaram por ser musicados, tornando-se o suporte textual de belíssimas letras de canção (com autores tão diversos como Camões, Florbela Espanca ou Pessoa, para me ficar por Portugal e apenas por alguns poetas mais canónicos); outra, a de que muitas letras de canção refletem autênticas pérolas poéticas (pelos mecanismos de construção sonora, sintática, semântica, estilística; pela densidade metafórica associada aos motivos / temas [re]criados; pelos efeitos pragmáticos, cultural e simbolicamente reconstruídos nos planos da intervenção, da formação, da sugestão, da criação artística, do gosto, da emoção e da ficção, numa memória tão ou mais afetivamente coletiva quanto as que são reproduzidas de cor [ou, como dizem os ingleses, “by heart”]).
   Pelo cérebro ou pelo coração, chega-se ao estético, por mais variáveis que os tempos, as contingências históricas e os gostos sejam. Neste sentido, muitas letras de canção revelam conteúdos, trabalho de linguagem e processos de (re)construção poéticos, a ecoar outros textos / outras artes / outras realizações linguísticas / outras dimensões culturais. Encarados como poetas ou não, nomes como Carlos Tê, Sérgio Godinho, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Djavan, Dorival Caymmi marcam muita da escrita musicada na língua portuguesa “d’aquém e d’além mar”, numa qualidade reconhecida como literária.
    Uma letra de canção pode constituir-se como um belo poema, se for literalmente rica, (re)ativa na leitura que dela se faça. Escrita para ser acompanhada da música, ela não fica, por norma, no papel. O poema até poderá não sair dele; contudo, na sua leitura original, não anda longe da voz que, mais ou menos silenciosa, é bem distinta da representada na leitura de uma notícia de jornal ou da linha de uma comum prosa, em ritmo diferente do verso. Isto para não falar de alguma prosa que, de tão poética, está por certo mais próxima da entoação do canto.
    Entre a poesia feita canção ou a canção redigida em jeito poético, a história literária confirma essa interação que música e literatura sempre tiveram desde as origens. A tradição oral dos bardos, a homérica ou, ainda, na história da literatura portuguesa, as compilações dos cancioneiros são o exemplo dessa convergência, registando cantigas (de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer) que são poemas produzidos para serem cantados no contexto de animação das cortes medievais.
    Por tudo isto, Bob Dylan ser o Nobel da Literatura deste ano é um dado que não me choca nem polemizo, enquanto cantautor de relevo na tradição cultural da música norte-americana, escritor de prosa poética e autor de uma obra autobiográfica. É mais conhecido como músico; ainda assim, mais influente na sua escrita do que muitos outros nomes agraciados com o mesmo prémio.
     Por mais marginais que possam ser perspetivadas no seio da obra literária, as letras de canção não deixam de ser um género de escrita entre os muitos que a literatura tem. No seu sentido mais elevado (‘stricto sensu’) ou no âmbito da paraliteratura / literatura popular (também “folk”) / infraliteratura, há sentidos estéticos de variação e variedade muito difusos, por certo; mesmo assim, literatura (no seu ‘lato sensu’), próxima que seja dessa proveniência derivante de ‘littera’ (letra) e da arte da escrita.

 Vídeo e letra de "Blowin' in the Wind", de Bob Dylan

     Parafraseando “Blowin' in the wind” (nessa metáfora dos anos sessenta do século XX, tão marcada pelo registo de protesto e intervenção, na procura da justiça social por que se lutava nesses tempos de inconformismo), apetece perguntar ‘How many roads must a man walk down / Before you can call him a ‘nobel’?


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

MCR no seu melhor

     Tempo de ondas musicais.

     E no vaivém sonoro nem sempre há ondas iguais, tal como não se repetem os instantes do tempo e o que neles se vive.
     O mesmo parece acontecer no amor, segundo a letra desta balada dos My Chemical Romance:

Vídeo oficial da música (2007)

I Don't Love You

Well, when you go
Don't ever think I'll make you try to stay
And maybe when you get back
I'll be off to find another way

And after all this time that you still owe
You're still a good-for-nothing I don't know
So take your gloves and get out
Better get out
While you can

When you go
Would you even turn to say
"I don't love you
Like I did
Yesterday"

Sometimes I cry so hard from pleading
So sick and tired of all the needless beating
But baby when they knock you
Down and out
Is where you oughta stay

And after all the blood that you still owe
Another dollar's just another blow
So fix your eyes and get up
Better get up
While you can
Whoa, whoa

Well come on, come on

When you go
Would you have the guts to say
"I don't love you
Like I loved you
Yesterday"

I don't love you
Like I loved you
Yesterday

     Um tema já quase com dez anos, do álbum The Black Parade (2007), com Gerard Way a ser vocalmente muito bem acompanhado pelos guitarristas Ray Toro, Mikey Way e Frank Iero, o teclista James Dewees e o baterista Bob Bryar.

      Uma onda rock alternativa que findou pelo ano 2013, com a desintegração do grupo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Nem tudo o que parece é!

     Um caso para considerar na sua excecionalidade.

     Assim se entende o caso proposto na questão.

   Q: Professor, posso dar conta da produtividade do sufixo '-oso' na língua portuguesa com os exemplos 'feioso' e 'rancoroso'? Obrigada pela ajuda.

     R: É verdade que ambos os exemplos indicados correspondem a palavras derivadas por sufixação e podem ser, nesse capítulo, considerados bons. 
      Contudo, a questão da produtividade é bem mais evidente com 'rancoroso', 'jeitoso', delicioso', 'famoso', 'melodioso', 'harmonioso', por exemplo, do que com 'feioso'. Este último termo é excecional, pela pontualidade e assistematicidade do processo formativo: trata-se de um adjetivo formado a partir de um outro adjetivo (feioso < feio), traduzindo alguma avaliação / intensidade de 'feio' . Ora, não se pode dizer que haja regularidade nesta formação. Estou a lembrar-me de mais dois casos (belicoso < bélico, sonoroso < sonoro) e alguns outros, poucos, existirão. 
       Bem mais sistemáticos são os adjetivos construídos a partir de nomes (denominais), que permitem obter 'amoroso < amor', 'brioso < brio', 'carinhoso < carinho', 'chuvoso < chuva', 'deleitoso < deleite', 'guloso < gula', 'harmonioso < harmonia', 'invernoso < inverno', 'numeroso < número', 'oleoso < óleo', 'perigoso < perigo', 'preguiçoso < preguiça', 'respeitoso < respeito', 'saboroso < sabor', 'talentoso < talento', 'venenoso < veneno', 'vicioso < vício', 'zeloso < zelo', entre muitos outros.
      Assim se conclui que a formação de adjetivos com o sufixo '-oso', derivados de nomes, é um processo mais típico, regular, sistemático e produtivo.

      Faria apenas lembrar, por fim, que a paráfrase 'que tem NOME' dos últimos exemplos é  distinta da associada a '-oso' de 'feioso' (* que tem feio), sendo neste último caso preferível dizer-se 'que é muito / pouco ADJETIVO' - casos distintos de realização do sufixo, portanto, com enquadramentos semânticos diversos, para lá da natureza produtiva (ou não) de cada um.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sinceridade acima de tudo!

     Viva a República!


    É verdade que sou mais adepto do regime republicano do que da monar-quia. Nessa medida, nunca percebi como é que, entre os feriados retirados no ano crítico de 2012 (a bem da suposta produtividade que interessava incre-mentar com o novo Código do Traba-lho), o da implan-tação da república (o do regime em curso, diga-se) figurava como dispensável. Nem tudo o  que é significativo na vida de um povo se configura como feriado, mas o que é de regime é de regime, digo eu!
    A República, proclamada em Lisboa a 5 de outubro de 1910, instituiu um sentido democrático que se vinha a afirmar desde a década de noventa do século XIX, em tentativas goradas que pretendiam pôr fim à monarquia. 
    1891 e 31 de janeiro foram marcos na tentativa de mudança, face a uma realeza degastada e sem resposta para as preocupações de um século que viu o Ultimato minar a honra e a credibilidade de um país. Um novo regime viria a singrar quase duas décadas depois. A História viria a dar relevo ao facto; houve quem invertesse a bandeira republicana numa das mais recentes celebrações; um dos últimos governos acabou por minimizar a efeméride há cerca de quatro anos. O certo é que o dia "grande" acabou em simples "historinha", para o comum dos cidadãos.
  Como diria o Velho do Restelo, numa transposição dos tempos da descoberta do caminho marítimo para a Índia para os da atualidade: "Mísera sorte! Triste condição!"
     Vale a natureza democrática, e a todo o tempo passível de retoma, que a República permite.

     Hoje, mais de cento e cinco anos depois do evento histórico, a ressurreição do feriado é digna de registo e de celebração. A Implantação da República até pode ser o motivo, mas, acima de tudo, o que me sabe bem é (a reimplantação d)o feriado.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Perdendo a paciência!

   Está um homem a tentar esquecer o trabalho e há quem o lembre sistematicamente!

   Tudo começa com o visionamento da quarta temporada de Vikings (2013) - série criada por Michael Hirst -, demasiado boa para ter legendas como a que se segue:

Captura de imagem do episódio 5 da quarta temporada da série irlando-canandense.

      É que não há paciência! Tão bom, tão bom, tão bom..., mas tinha de escapar à correção da língua. Escapou e da pior forma!
     É clássica a homofonia do nome 'voz' com o pronome 'vós'; porém, daí à confusão e ao erro ainda vai uma distância significativa - até ao momento em que os meus olhos leem o que não deviam, por a equipa de legendagem, tradução e revisão (AsapSubs) ter no seu seio alguém que não domina regras ortográficas ou de distintividade lexical.

     Intrigas políticas, psicológicas, para além de barbaridades à língua, na quarta temporada de Vikings (especificamente no episódio cinco, na tradução das palavras do filho do grande líder Ragnar - Björn Ironside -, quando fala com o chefe Harald Fairhair). O rapaz não merecia tamanha vergonha!

sábado, 10 de setembro de 2016

Memória na cidade e na obra

       A morte de um artista. E a expressão não é irónica. É factual.

   Hoje fala-se da morte do escultor José Rodrigues. Para muitos desconhecido. No Porto, é reconhecido, entre outras obras, pelo 'Cubo da Ribeira' (da década de 70 do século passado); pela estátua ao General Humberto Delgado, na Praça Carlos Alberto (2008); pela lápide de homenagem ao Duque da Ribeira (1995); pela pantera negra junto ao estádio do Bessa, do Boavista Futebol Clube (2000-2001) e pelo 'Monumento ao Empresário' (dos anos 90), que se vê ao subir ou descer a Avenida da Boavista;

Montagem com imagens de algumas das obras do artista na cidade invicta

        De origem africana (nascido em Luanda, no ano de 1936), este artista plástico português foi membro do chamado grupo "Quatro vintes", numa referência direta seja à classificação obtida nos estudos artísticos da Escola Superior de Belas-Artes do Porto seja a uma marca de tabaco designada como "Três Vintes". Foi na capital nortenha que concluiu o curso de Escultura, mas a sua arte ganhou expressão em diferentes áreas (como a cenografia em companhias dramáticas portuenses e não só; a ilustração de livros; a cerâmica e a medalhística) e em múltiplas iniciativas culturais e educativas (por exemplo, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore no Porto, em 1963, e um dos promotores da Bienal de Vila Nova de Cerveira).

     Pelo seu empenho socialmente interventivo, pela qualidade da obra que deixou, pelo sentido oficinal e coletivo que atribuiu à sua arte antes de atingir os oitenta anos, o "mestre Zé" viajou para esse mundo sem espaço nem tempo, dedicado e feito de memórias.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Findou!

     Do verbo 'findar' (e não do nome 'fim'), porque há recursividade e etapas sucessivas na formação de palavras.

  Terminou um ciclo de 15 horas de formação - ou, como alguém disse, de super, hiper, mega-formação (veja-se a sucessão de dois prefixos na deri-vação por prefixação - 'super' e 'hiper' - acrescentada a uma palavra composta, com um radical erudito - 'megafor-mação').
     Foram vários os tópicos de aborda-gem, centrados na morfologia e na procura de uma referência de trabalho comum. Entre o que se entende presentemente por este domínio da linguística numa perspetiva sincrónica, a noção dos constituintes morfológicos, as questões de morfologia flexional e derivacional, a formação de palavras (não só nas suas regularidades como também nos outros processos ditos assistemáticos e, ainda assim, produtivos), não deixou de estar presente o objetivo da reflexão das práticas, do discurso pedagógico-didático e dos focos críticos a ativar (de modo fundamentado) quando se lida com discursos e/ou materiais que muitas vezes não auxiliam na sistematização de dados (por mais que, às vezes, assim se pretenda). Houve ainda tempo para exemplificar estratégias, exercícios orientados para o que se considera bons exemplos ou uma mais-valia neste tipo de trabalho, visando a interestruturação do saber, o conhecimento explícito e o uso de uma metalinguagem própria - à semelhança de muitas outras disciplinas.
     Quando se trabalha com um grupo interessado e que contribui com achegas pertinentes, tudo fica mais fácil para a compreensão e conhecimento de todos. Além disso, não se pode deixar de registar os sorrisos visíveis na cara dos que começavam a aplicar as estratégias e a verificar (em exercícios práticos) como tudo ganhava mais sentido, depois dos fundamentos teóricos propostos. Mesmo reconhecendo a necessidade de tempo para trabalhar o pouco que foi mencionado (sim, porque quinze horas não são um programa de morfologia que ainda teria muito para dizer), o facto é que qualquer transposição didática que aconteça / se construa requer o que este intervalo de tempo permitiu, nomeadamente, a perspetivação crítica que deve enformar opções ao nível da gestão / planificação dos programas; da seleção de estratégias e de materiais; da planificação a construir; da adoção de discursos mais consentâneos com aprendizagens mais estruturadas e estruturantes, a partir de um ensino (assente num conhecimento) mais fundamentado. Estas serão sempre as implicações pedagógicas mais coerentes com a prática docente.
     O tempo trará, por certo, mais confiança, mais formas e partilhas de experiências, para não dizer novos desafios a tudo o que foi discutido / abordado. Assim se fará a (re)construção do conhecimento, na base de referenciais que regulam as práticas docentes.
      Fica a satisfação da reação positiva revelada, não obstante a sobrecarga e as condições de trabalho no final de um ano letivo, sempre entre o desejo das férias que nunca mais chegam e a constatação do muito que ainda há a fazer até lá.

    Depois disto tudo, e ao contrário do que certo treinador de futebol dizia (numa consciência morfológica muito discutível sobre quem 'treina a dor'), só espero que não tenha, como formador, contribuído para formar a dor de quem tenha tido expectativas outras, distintas do que foi proposto. 
  

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um universal que não chega a ser

    É como na vida: há quem tudo queira e nada pode.

    Agora até nas compras nada é seguro (como se alguma vez tivesse sido), a julgar pela publicidade seguinte e os quantificadores nela utilizados:

Registo colhido dos apontamentos que circulam no Facebook

        Se qualquer peça tem o valor indicado, é incoerente dizer 'exceto algumas' (para as que o não tenham). 
    Perante o quantificador universal 'qualquer' à esquerda (remetendo para a ideia de totalidade de um conjunto, como em 'toda e qualquer peça') não há exceção a considerar. Por isso, na indicação à direita, o quantificador existencial no grupo nominal 'algumas peças' assere a existência da entidade designada ('peças'), mas contradiz a universalidade anterior.

     Eu nem entrava na loja. Ou é (todas) ou não é (só algumas). Vá lá perceber-se isto! Ao menos serve para trabalhar a (in)coerência dos discursos, assente em classes de palavras. 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Partilhas...

     Na sequência da sessão de formação de hoje, uma colega fez-me chegar um vídeo (que agradeço, pelo momento e pela boa disposição criada).

    Claro que estas coisas, por mais cómicas que sejam, podem tornar-se sérias - nomeadamente quando são tão publicitadas e divulgadas, a ponto de serem imitadas por muitos falantes.
     Vejamos: um empresário quer cantar uma música gospel, gravar um disco e sai uma frase muito 'sui generis'. Ei-la:

Vídeo recolhido do Youtube - com agradecimento, pela lembrança, à DB.

     O atropelo fonético é mais do que audível e a consciência morfológica é muito reduzida, se não for comprometida. Não é, por certo, nenhuma realização normalizada ou padronizada; mas, a verdade, é que estas produções singulares não deixam de introduzir fatores de instabilidade que podem traduzir-se em fenómenos evolutivos. Espero que daqui a uns séculos não se esteja a dizer / escrever 'árveres', 'árbiris' ou 'árberes', nem 'nozis' em qualquer das variedades do português, de tão popular que a produção se tornou.
      Veio isto a propósito de quê? Da perda da consciência morfo(fono)lógica de alguns termos, como 'dióspiro' (que já ninguém praticamente diz de modo correto, nem assim escreve), bem como de fenómenos morfológicos típicos de algumas regiões ou variedades do português que muitos desconhecem. Não sendo realizações-padrão hoje (tal como o gerúndio flexionado - que problematiza a classificação de forma verbal não finita), quem sabe o que estas poderão vir a ser nos próximos séculos. À maneira de Probo, quero registar 'árvores' não ''árbis'; 'nós' não 'nozis'.

      Discussões que surgem de dúvidas, questões, esclarecimentos que vão surgindo nas horas que se vão dedicando à formação - sobre morfologia (mas com 'cãibras' na língua, 'fuga' da palavra ou  quando 'tá enrolando tudo'). Calma! Devagarinho!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Pandemos!

     Assim começou a sessão de formação de hoje: Pandemos!

    Sem o significado, o grupo não sabia o que dizer. Ainda houve quem avançasse com a ideia de "pândega" - a necessidade de diversão, festa é muita nestes tempos em que, cada vez mais, nos mandam trabalhar. Dei-lhes o texto,... o contexto e, mesmo assim, a questão não se tornou fácil. 
   A necessidade do significado, por vezes, é ditatorial; ainda assim, os experimentalismos de Jorge de Sena desafiam-na, a ponto de termos a oportunidade de trabalhar a consciência morfológica dos falantes - até porque esta surge, por norma, quando se desconhece uma palavra; se pretende formar uma nova; se processa um trabalho de análise crítica e corretiva (a ponto de constituir uma tipologia de erros morfológicos).
     Lido o poema seniano (e agora digam que a palavra não existe!), lá fomos à construção do que estava em falta, pela "janela" da morfologia.
   Ter encontrado formas como "baissai", "refucarai" e "contumai" (primeiro terceto), ou, ainda "lambidonai" (segundo terceto), por mais desconhecidas que também sejam, convocou a funcionalidade do convite, da sugestão dirigida a uma segunda pessoa. Não se soube muito bem para quê, é certo, mas lá que várias coisas eram propostas não havia dúvida. O "Pandemos" era só mais uma, desta feita para uma primeira pessoa (do plural). E, assim, todos entramos na estratégia da descodificação do termo.
      A consciência morfológica foi ativada, no reconhecimento de formas verbais flexionadas, a ponto de se chegar ao verbo 'pandar' (com o radical 'pand-', a vogal temática '-a-' e o afixo de infinitivo '-r'). Em 'pandemos', era visível a flexão do conjuntivo, no afixo '-e-', e a da amálgama pessoa-número, em '-mos' (ainda que com o valor típico das frases de tipo imperativo ou dos atos de fala diretivos).

     Outras janelas, por certo, seriam precisas para se atingir a projeção máxima do significado e do sentido. Todavia, desta feita, "pandemos" valeu pelo que nos fez pensar, recorrendo ao processo de segmentação e análise morfológica.
      

terça-feira, 12 de julho de 2016

Morfologizemos...

       Pode não estar no dicionário, mas é verbo potencial tornado atual.

     Na verdade, conheço um grupo que já está a 'morfologizar' comigo, na sequência de uma ação de formação que está a ser dinamizada no Centro de Formação Aurélio da Paz dos Reis, mais propriamente na sede do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (Espinho).
     Quinze horas para abordar vários aspetos da Morfologia na sua articulação com o ensino da gramática, a prática e o discurso pedagógicos, mais a reflexão sobre áreas críticas na abordagem de um domínio que, não sendo novo, tem muitas novidades (desde os estudos que enformaram a construção da Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário - TLEBS - ou o Dicionário Terminológico - DT).
       Eis o programa:

(Clicar na imagem para a ver ampliada)

       Hoje foi o primeiro dia - não do resto das nossas vidas (espero!) - para a partilha e um trabalho que marca necessariamente a identidade profissional de docentes empenhados na (re)construção do seu saber para saber fazer / ensinar na área específica do seu exercício profissional.

    Reciclar, formar, aprender, partilhar, discutir, trabalhar... muito verbo implicado em 'morfologizar'.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

"Já avisei a família que só vou dia 11 para Portugal"

      A frase podia ter vários sentidos, mas há quem já a considere profética.

     Assim falava o treinador de futebol da seleção de Portugal, Fernando Santos, que, pouco tempo depois de chegar a França para o Campeonato Europeu de Futebol, podia simplesmente referir-se ao facto de, independentemente do resultado da equipa portuguesa, ficar em Paris para assistir ao jogo final. Hoje, com Portugal como campeão europeu, diz-se que o enunciado foi profético.
     A verdade é que, no final de uma sequência de empates iniciada frente à Áustria (15 de Junho), não se antevia aquela que se se diz ter sido uma convicção premonitória do treinador / selecionador para o Euro2016. O facto é este: com ou sem sorte, com ou sem acaso, a certeza das coisas é a de hoje se celebrar o regresso dos campeões europeus de futebol ao país, com o primeiro dos títulos de topo internacional da seleção nacional (há quem popularmente diga "com o caneco", em vez da taça). Recebidos como heróis, com cânticos do hino ou da "minha alegre casinha" (na versão dos Xutos & Pontapés), jogadores e equipa técnica são saudados com o maior dos orgulhos e condecorados com o título de "comendador".
    O fim de semana foi pródigo em sucessos desportivos: José Ramalho venceu a prova de K1 em Pontevedra (Espanha) sábado passado; Sara Moreira sagrou-se campeã da Europa na meia-maratona das provas de atletismo de Amesterdão, o mesmo acontecendo com Patrícia Mamona no triplo salto; Portugal vence coletivamente a prova da Taça da Europa feminina em aletismo. Nem por sombras foram projetados como os futebolistas - evidência daquele que se diz ser o "desporto rei".
    Por todos, há quem diga que se cumpriu Portugal, evocando a alterando "O Infante" de Mensagem (Fernando Pessoa):

"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. 
Quem te sagrou criou-te português. 
Do mar e nós em ti nos deu sinal. 
Cumpriu-se o mar e o Império se REFEZ
Senhor, CUMPRIU-SE Portugal!"

    Pelo evento futebolístico, relembro as palavras camonianas que fecham a dedicatória de Os Lusíadas

"Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses." 

                                          
(canto X, estância 152)


      Proféticas ou não, as palavras ditas cumpriram-se neste dia, que também valeu pelo momento vivido ontem. Desde então, os Galos ficaram com um valente galo, já que o nosso galo de Barcelos deu um ar da sua graça. Aos restantes vencedores nacionais, saiba-se que não foram menores para o orgulho nacional.

domingo, 10 de julho de 2016

História(s) que se repete(m)

     No final do filme, o desconcerto... porque há lutas que parecem inglórias.

    Tudo a propósito de "Estado Livre de Jones", película realizada por Gary Ross e protagonizada por Matthew McConaughey (no papel de Newt Knight).
    O contexto da intriga fílmica é o da guerra civil americana (tão larga e cinefilamente retratada nos últimos tempos), ainda que, com as devidas diferenças, não pareça andar muito longe dos dias de hoje. 

Trailer legendado de "Estado Livre de Jones" (2016)

    Newt Knight surge como uma espécie de Zé do Telhado americano, um "cavaleiro" numa luta épica, digna, humana e socialmente dignificante, enquanto agricultor pobre do Mississipi que deserta do exército dos confederados (por uma causa humanizadora e desafiadora de lideranças hipócritas), encabeça um movimento revolucionário apoiado por pequenos proprietários e escravos do sul, culminando na separação do condado de Jones dos restantes territórios confederados. Daí o título.
    As conquistas conseguidas (um amor liberto de condicionalismos sociais, de cores ou raças; uma sociedade de homens plural e interracial, empenhada no trabalho da terra e em recolher desta o que nela é semeado; uma comunidade de iguais, de partilha sem ricos a tornar os outros cada vez mais pobres; um conjunto de leis ou emendas inspiradoras e simples para a sobrevivência humana) refletem uma utopia a todo o tempo em construção e ameaçada, numa espécie de encruzilhada de dilemas, de poderes e de homens interessados em fazer reverter todo um processo / percurso, que teima regressar ao ponto de partida.
   Intercalando momentos da narrativa nuclear (relativos ao período 1862-76) com os do julgamento de um descendente de Knight no estado do Mississippi (referentes a meados do século XX), abordam-se temas tão estruturantes como o das forças bélicas e dos interesses / traições a elas associados, do regime de escravatura e da libertação racial, dos conflitos originais das ideologias de republicanos e democratas, da manipulação de resultados eleitorais em função de lógicas de poder, da impotência humana relativamente ao rumo a dar aos ideais que mais devem orientar e preservar a (sobre)vivência.
     Inspirado numa situação histórica documentada, o enredo é a prova de que se mudam os tempos, mas mantêm-se algumas vontades e algumas questões críticas - apesar de configurações distintas -, num jogo em que "the free" e "the unfree" parecem ser duas faces para uma mesma moeda.

    Nestes tempos pré-eleitorais americanos, com republicanos a deixarem-se representar por um candidato tão grotescamente prepotente, há certamente um desafio democrata a considerar (um pouco ao contrário do que a história rezou para os tempos da guerra civil e da Secessão), sob pena de também se retroceder na visão mais humana a dar ao mundo.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Oh, pá! (veja-se bem o que está antes do 'pá')

  Logo após a vitória, aparece publicidade por tudo quanto é sítio (nomeadamente o Facebook).

    São tantos os casos de registo encomiástico e apelativo que leio erradamente escritos que a cada leitura só me apetece dizer (mesmo que apenas no pensamento!) "Irra!" ou "Bolas!" (já que de bola foi o jogo).
      Basta ver o amarelinho que acrescentei a todos os 'post'.
      Aí vai o primeiro:

A Rádio Comercial e o apontamento no Facebook
(Falta de vírgula - I)

       Segue-se o segundo:

   A página da Seleção Futebol no Facebook  (in https://www.facebook.com/selecaoptfutebol/)
(Falta de vírgula - II)

     E cá vai mais um (porque dizem que "Não há duas sem três"), porque no meio do registo amarelito  cimeiro um outro amarelo tem de aparecer:

O Semanário Sol e o apontamento no Facebook 
(Falta de vírgula - III)

         Não fosse o bastante, lá vem o quarto:

A página da aiamatilde no Facebook  (in https://www.facebook.com/aiaimatilde/photos/)
(Falta de vírgula - IV)

     Custa muito colocar a vírgula do vocativo?!
   É dos poucos casos é que esta é mais do que obrigatória na escrita e, ainda, assim, tantos se esquecem dela.

   Bem digo eu: chamou, virgulou!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit - uma amálgama tornada salgalhada política

    É mesmo 'exit', ainda que seja mais para a Inglaterra (England) e Gales (Wales) do que para o Reino Unido (com a Escócia e a Irlanda do Norte a demarcarem-se).

    O dia acorda com a notícia de que o Reino Unido (mais desmantelado do que unido) se decidiu pelo sim, pela saída da União Europeia, com cerca de 52% dos votos. É a maioria, de facto, para um ainda grande registo de 'nãos' (48%). Mais do que convicção, lê-se desunião.
Cartoon de Ben Garrison, no The Telegraph
     Os representantes das instituições eu-ropeias mostram-se dececionados, pesa-rosos, angustiados com um resultado que parece ser en-tendido mais como traição do que lição. Por mais que a insularidade e o "mais vale só" bri-tânicos sejam dados a considerar no re-sultado deste refe-rendo, é verdade que não é menor o "orgulhosamente nós" com que a "Great Britain" sempre se deu a ver na sua posição eurocética, dividindo para reinar, nessa atitude de realeza muito ligada ainda à herança de uma época imperial (se não anterior) revisitada num modo de estar "snobish" e tipicamente "british". Se os mais moderados ainda buscaram compromissos ou ainda viram nas diferenças uma hipótese de reconstrução daquilo que mais os unia (David Cameron assim o parece ter tentado), o espaço dos extremistas, dos mais radicais e nacionalistas acabou por se impor, vincando o que os separa, pelo desgaste de não se verem significativamente unidos ou representados nos princípios de uma estrutura / instituição que não tem dado respostas às debilidades surgidas a afetar muitos países (a bem de um mercado que não traz ninguém feliz, feito de desemprego, de impostos, de austeridade sem recuperação); que tem desrespeitado orientações e políticas nacionais, sobrepondo as estas últimas uma ideologia e um conjunto de interesses que trucidam a sobrevivência dos mais desfavorecidos e de todos aqueles que se mostram crescente e socialmente desesperançados.
    A par de tudo isto, e não menos relevante, estão os discursos, as tomadas de decisão e a visão centralizadora de uma União Europeia que tem vindo a produzir publicamente mais dissensos do que consensos, em nada ajudando no caminho a fazer a vinte e oito - a partir de hoje vinte sete. Entre burocratas e tecnocratas mais preocupados com o universo financeiro do que com a dimensão humana (culturalmente rica, diversa e solidariamente comprometida), a realidade hoje vivida não deixa de ser uma reação e uma posição expectáveis, para não dizer ameaçadoramente alastráveis.
    Entre os muitos cenários que se antecipam (desvalorização da libra, desintegração do Reino Unido, independência da Escócia, integração da Irlanda do Norte na república do 'Eire', entre outros), fosse esta a oportunidade de a Europa se rever na sua união, no seu projeto, no foco a dar à dimensão humanista e humanizadora dos princípios que presidiram à sua constituição. A não ser assim, uma ideia e um projeto europeu caem definitivamente.

      Se "o que não nos mata nos torna mais fortes" é o pensamento orientador do presidente do conselho europeu, Donald Tusk, só espero que a força e a determinação europeias não criem situações análogas à hoje vivida. A Europa, acima de tudo, faz-se com as pessoas que querem ver respeitada a sua identidade cultural, social, de soberania nacional, numa representação que não se veja invadida por jogos e interesses e iniquidades só a privilegiar ou a desculpabilizar os "maiores" - e entre estes há sempre um ou outro que gosta de se mostrar "superior" e que até pode desafiar qualquer "suprema" instituição (quanto mais não seja por ser uma das maiores economias europeias e/ou do mundo).