domingo, 17 de outubro de 2021

E vão cinco... (e uns quantos mais deles!)

      Número a propósito do que está para vir (esperemos que seja mais profecia e menos perdição).

   Segundo o Tarot, nas cartas dos arcanos maiores, o cinco corresponde à figura de 'O Papa'. O simbolismo do número, na decomposição de um 4+1, sugere uma ação unitária que dirige as forças materiais; com 2+2+1, uma mediação entre duas fecundidades (a Papisa, na repetição do gérmen, sem esquecer a unidade); com 2+3, uma conjugação de energias (as da Papisa e da Imperatriz, respetivamente), combinando a fecundação de ciclos, de forças mentais associadas à comunicação e comunhão. É uma carta espiritual que evoca a descida do sagrado sobre o material; um aviso espiritual que deve encontrar eco no plano físico; um apelo para a libertação da matéria.
      Talvez um pouco de tudo isto venha a ser Quinto Império: Profecia de Perdição:

Convite para o lançamento público do romance de Manuel Maria

       Mais uma história que deu em livro, diria, parafraseando, grosso modo, um outro título do escritor (com tempo / modo verbal distintos). 
       E quanto à apresentação, acrescento que isso serão 'Contas de um outro Rosário'!
     Por ora, mais não escrevo para que fique algo para dizer proximamente (dia 30 de outubro, pelas 15:30, no Auditório Horácio Marçal - Paranhos), aquando da apresentação pública deste romance - o quinto do autor (e com cinco palavras no título), com tanto de histórico como de ficcional. 

Estudo da capa e contracapa do romance

     Assim o construiu Manuel Maria: como narrativa que recupera Pre. António Vieira da sua senda histórico-biográfica para uma dimensão nova, a de um universo em que a personagem se cruza com Adão e Eva, sem que estas últimas sejam necessariamente bíblicas.

sábado, 16 de outubro de 2021

Se eu quiser falar com Deus

       Um cenário, uma hipótese cheia de condições.

       Assim o compôs Gilberto Gil, nessa melodia que figura em "Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)", de 1981, mas que, já um ano antes, era apresentada já num programa televisivo brasileiro: 'Fantástico':

Excerto vídeo relativo ao programa televisivo "Fantástico"

SE EU QUISER FALAR COM DEUS

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho

Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

    Com uma carreira musical iniciada nos finais dos anos cinquenta (1959), o cantor, compositor, instrumentista, e também político brasileiro (foi ministro da Cultura no seu país, entre 2003 e 2008), é reconhecido pela sua contribuição na música popular brasileira, contando já na sua carreira prémios como os "Grammy Awards - Best Contemporary World Music Album" (1998, com o disco 'Eletracústico') e o de "Best World Music Album" (2005, com "Quanta Live"), mais o "Grammy Latino" (em 2001 e 2002, pelas raízes criadas na música brasileira).

      Em 1999, foi nomeado "Artista pela Paz", pela UNESCO - motivo mais do que justo para ser uma referência mundial.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Completivas encadeadas

       Isto de classificar subordinadas tem algo que se lhe diga.

       Particularmente, quando elas se apresentam em vários níveis de análise.

        Q: Boa noite, Vítor.
          Aqui vai uma frase para análise: "soube perceber o que estava em causa". Qual é a classificação da oração sublinhada?
          Obrigada.

     R: O sublinhado apresenta uma subordinada completiva associada ao verbo 'perceber', um predicador subordinado face ao verbo 'saber' (o predicador da frase matriz, como elemento subordinante). 
       Com essa frase afirma-se que 'alguém soube perceber ALGUMA COISA / ALGO', pelo que o elemento destacado / sublinhado, relativamente à estrutura argumental do verbo 'perceber' (transitivo direto), corresponde ao seu complemento direto.
       De salientar que se trata de um complemento direto de segundo nível (N2), oracional, incluído numa oração já por si subordinada e encadeada numa subordinada anterior (N1) introduzida pela forma verbal 'perceber'. A frase considerada evidencia uma subordinante com a seguinte estrutura: (ALGUÉM) SOUBE ALGUMA COISA. Esta 'alguma coisa' funciona como complemento direto de 'saber', estando esta função configurada numa subordinada completiva não finita infinitiva ('perceber o que estava em causa'). Por sua vez, esta subordinada é constituída por um elemento predicador ('perceber') e o seu complemento direto (oracional - 'o que estava em causa' - pronominalizável pelo pronome 'isso' [= o que estava em causa]).
        Esquematicamente, representa-se a construção (com subordinadas encadeadas) da seguinte forma:

Esquema representativo dos dois níveis de subordinação (B1 e N2) na frase analisada.

        Assim, o sublinhado indicado é um complemento inserido num segundo nível de predicação, com o núcleo predicador a selecionar complemento direto.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Morrer na praia

      O dia iluminou-se com um radioso sol...

     Regressado o bom tempo, revive-se o conforto desses momentos que nos deixam apreciar o final de uma outoniça, mas calorenta tarde, aromatizada pelo iodado vindo do mar, numa combinação a que não falta uma fresca névoa esfumada, a embaciar levemente a paisagem.
     Erguido o olhar para o alto, como para sorver agradecidamente o terapêutico ar, reparei num céu cruzado, que decidi guardar em foto:

Céu cruzado junto à Granja (Foto VO)

     No enlevo do instante, fui subitamente espertado pelo aparato ruidoso de sucessivas sirenes, trazendo o sobressalto e a aflição. Bombeiros, polícia marítima e muitos curiosos deixavam-se ficar na praia. Não era a simetria dos traços nem a variedade das cores celestes que os atraíam. No areal, havia um corpo humano estendido, inanimado. Morto. Tudo tão rápido. Ninguém conseguia explicar o sucedido. Simplesmente caiu, quando caminhava naquela linha de areia que fica entre o molhado e o seco. Foi aí que o corpo encontrou o seu leito de morte, bem próximo daquele outro que dizem ser a origem de tudo, mas que, no seu vaivém ondulatório, nada trouxe a quem deixou definitivamente de ver o espetáculo do céu cruzado, pintado de algum dourado em tela de fundo azul.
      Por vezes, a vida reduz-se a isto: a uma rápida queda sem recobro. Nada resta; nada mais há. Só chão - no caso, areia, a mesma que, na ampulheta, se deixa cair de uma âmbula para outra até esgotar. Tudo acaba, mesmo quando alguém vai em socorro e ao encontro do que já só é um peso inerte, algures deixado, abandonado de todos os sentidos.
     O céu cruzado e a luz ainda quente assistiam a alguém caído, a esfriar à medida que as sombras e o escuro surgiam, extinguindo as cores do dia. Azul, só o das luzes rotativas das viaturas que, agora paradas e em silêncio, haviam trazido socorro a destempo; calor, só o da humanidade dos que prestavam os cuidados derradeiros, ensacando quem partira numa última viagem, já sem horizonte.

      ... até que a vida se apagou. Literalmente, alguém morreu na praia. RIP.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

A propósito do 'é que'

     Retomemos a noção de construção clivada no português e o operador 'é que'.

     Já lá vai algum tempo. Pronunciei-me sobre a questão já há alguns anos. Uma nova questão permite-me recuperar esse escrito.
 
    Q: Olá, Vítor! A professora da filha de uma colega classificou como pronome relativo o "que" presente nesta frase: "Por isso é que tens de ir à escola". Sinceramente, eu não concordo; no entanto, também não sei como o classificar quanto à classe de palavras. Vejo que está associado à forma verbal "é", pelo que, para mim, é uma expressão de realce. Será que me podes dar uma ajuda, por favor? 

    R: Olá. Com a expressão 'é que', estamos perante um processo de gramati-calização, ou seja, um  processo de mu-dança linguística pelo qual uma pala-vra muda de estatu-to, passando a ser equacionada em ter-mos mais funcionais ou gramaticais. Mais do que a classifi-cação dos termos quanto à classe de palavras, estes valem pela funcionalidade de realce / destaque atribuída a um segmento discursivo-textual. 
   Assim, enquanto unidade, a expressão em causa proporciona uma funcionalidade discursiva própria, tomando-se o 'que' como um operador de uma estrutura ou construção clivada ou de clivagem (cf. M.ª Helena Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa, 2003, págs. 685-694). Concordo contigo quanto a este 'que' não ser um verdadeiro pronome relativo. A sua classificação situa-se mais no plano de análise discursivo-textual, da gramática de texto, do que no da tradicional gramática da frase. Neste sentido, é no âmbito de um alto grau de gramaticalização e do estudo do que João Andrade Peres e Telmo Móia designam de construções enfáticas ou construções de foco (Áreas Críticas da Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, p. 91, nota 12) que nos devemos situar.
      Ainda que, nalguns estudos, se aborde o 'é que' como expressão em construção aparentada com as relativas livres (e daí a eventual classificação mencionada na tua questão), creio estarmos perante uma situação bem distinta no exemplo dado. Distinguiria bem os exemplos seguintes:

(i) O queijo (é que) foi comido pelos convivas.
(ii) Os convivas (é que) comeram o queijo.
(iii) O que é que a jovem comprou? (< O que comprou a jovem?)
(iv) Porque (é que) fizeram isso?
(v) Por isso (é que) tens de ir à escola.

      Se i a iii podem ser encaradas como construções aparentadas com as orações relativas (com o 'que' eventualmente a destacar o constituinte retomado de uma frase - o sujeito da passiva em i e o da ativa em ii; o complemento direto em iii, depreendido como o objeto interrogado), o mesmo já não sucede em iv e v, mais associadas a sentidos pragmáticos decorrentes de atos de fala.
     Atendendo ao exemplo v, 'é que' funciona como introdutor de um ato de fala que sai realçado ou enfatizado no seu conteúdo na sequência de uma razão ou motivo a dar lugar a uma necessidade (consequente). É o que se pode depreender na relação dialógica dos enunciados A e B:

(vi) (A) - Ainda não sei ler / escrever.
       (B) - Por isso (é que) tens de ir à escola.

      Num só enunciado, vi A e B poderia ter a seguinte configuração, se resultante de um só enunciador para com o seu enunciatário:

(vi a) Ainda não sabes ler / escrever. Por isso (é que) tens de ir à escola.

      Face à constatação / asserção de um dado (primeira sequência de vi a), surge o conselho consequente (segunda sequência), destacado face ao ato de fala anterior (tomado como premissa para um raciocínio consequente). Responsável pelo realce / destaque atribuído ao ato consequente , 'é que' (enquanto unidade) proporciona uma funcionalidade discursiva própria, específica ao 'que', tomado como um operador do que os estudos linguísticos designam estruturas ou construções clivadas
      Em suma, a classificação deste 'que' situa-se mais no plano de análise discursivo-textual, da gramática de texto e da pragmática do que no da tradicional gramática da frase. Encaixa-se na definição proposta, no Dicionário Terminológico, para a entrada 'Marcador discursivo', onde se encontram os operadores discursivos com a função de reforço argumentativo.

      Apetece dizer que há níveis distintos de análise na língua. Convocar classificações típicas para realizações linguísticas que requerem níveis de análise mais complexos não me parece ser a prioridade de trabalho para determinado tipo de alunos e de situações de aprendizagem, onde as regularidades devem ser mais exploradas (particularmente quando o objetivo de estudo parece ser o da classificação e não o da análise de especificidades nas condições de produção discursiva). Espero ter ajudado.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Uma releitura de 'O Carteiro de Pablo Neruda'

       Termino o mês com um recomeço... de leitura.

     Refiro-me à releitura de uma obra que li há já muitos anos, depois de, muitos mais ainda, ter assistido a um filme que apreciei bastante. O título do filme era homónimo da obra (O Carteiro de Pablo Neruda), mas as semelhanças são poucas no que ao enredo diz respeito. Entre pormenores aqui e além bem distintivos (o nome do protagonista, a localização temporal e espacial, a relação familiar Rosa-Beatriz, o percurso de Pablo Neruda, o contexto político representado), o final do livro nada tem a ver com o do filme realizado por Michael Radford (com mortes bem distintas).
      Uma outra adaptação cinematográfica pode ser encontrada na realização de Antonio Skármeta - uma versão mais fiel à obra e ao contexto chileno representado. Curiosamente, esta versão cinéfila acontece em Portugal (entre a zona da Figueira da Foz e Mira), aquando do exílio do autor por terras lusas. 

Versão fílmica apresentada na Alemanha em 1984 (a partir do roteiro de Antonio Skármeta)

        Desta feita, apoiando-me mais no livro e menos nos filmes, o prólogo chamou-me mais a atenção, destacando-se o anúncio da linha progressiva da intriga (do entusiasmo à profunda depressão), da "geografia erótica do poeta" (e não só), da identificação do herói, do tempo gasto na produção escrita (catorze anos), da fronteira de ficção e de realidade (tanto no contexto político representado como nas personagens construídas). São janelas e portas de entrada na leitura do designado ora romance ora novela, segundo classificação do próprio António Skármeta, escritor agraciado com prémios literários de renome (Prémio Internacional de Literatura Bocaccio e o Prémio Nacional de Literatura do Chile).
         De resto, foi a oportunidade de relembrar o há muito conhecido incipit da obra:

    Em Junho de 1969 dois motivos tão afortunados como triviais levaram Mário Jiménez a mudar de ofício. Primeiro, o seu desamor pelas lides da pesca que o arrancavam da cama antes do amanhecer, e quase sempre quando sonhava com amores audaciosos, protagonizados por heroínas tão abrasadoras como as que via no écran do cinematógrafo de San Antonio. Este talante, juntamente com a sua consequente simpatia pelas constipações, reais ou fingidas, com que se escusava em média todos os dias a preparar os apetrechos do bote do seu pai, permitia-lhe retouçar debaixo das nutridas mantas chilenas, aperfeiçoando os seus oníricos idílios, até o pescador José Jiménez voltar do mar, encharcado e faminto, e ele aliviava o seu complexo de culpa preparando-lhe um almoço de estaladiço pão, sediciosas saladas de tomate com cebola, mais salsa e coentros, e uma dramática aspirina que engolia quando o sarcasmo do seu progenitor o penetrava até aos ossos:
      - Arranja trabalho. - Era a concisa e feroz frase com que o homem concluía um olhar acusador, que podia durar até dez minutos, e que de qualquer modo nunca durou menos de cinco.
       - Sim, pai - respondia Mario, limpando as narinas com a manga do colete.
     Se este motivo foi o trivial, o afortunado foi a posse de uma alegre bicicleta marca Legnano, valendo-se da qual Mário trocava todos os dias o diminuto horizonte da calheta dos pescadores pelo quase mínimo porto de San Antonio, mas que em comparação com o seu casario o impressionava como faustoso e babilónico. A simples contemplação dos cartazes do cinema com mulheres de bocas turbulentas e duríssimos parentes de havanos mastigados entre dentes impecáveis, deixava-o num transe do qual só saía após duas horas de celulóide, para pedalar desconsolado de volta à sua rotina, às vezes sob uma chuva marítima que lhe inspirava épicas constipações.

      Ao longo de O carteiro de Pablo Neruda, cruzam-se os sonhos e as expectativas de Mario Jiménez com a descoberta do poder das palavras, das metáforas e da poesia, para quem delas precisa. Acresce a aprendizagem e a conquista da amizade (com Pablo Neruda) e do amor (por Beatriz). A par destes ingredientes, há também o retrato político da década de 70 no Chile, assim como a recriação da vida política e poética de Pablo Neruda, o Nobel da Literatura no ano de 1971.
    Entre a luta contra um confinamento ou determinismo social a que o protagonista parecia votado e a afirmação do sentido poético da vida, respira-se nas páginas da narrativa a vontade da libertação, que aparece ameaçada no final do livro (com o golpe militar e a revolta política; a deslocação do poeta até à janela para ver o mar agitado; a doença e morte de Neruda; o controlo e a "prisão" de Mario).

    Uma obra que apela ao sentimento, à ousadia e ao humor, à plasticidade da língua (entre os registos mais coloquiais, familiares e os poéticos), à consciência política que (pode) traz(er) o perigo de uma agitação coletiva.

domingo, 18 de julho de 2021

Despir a camisola

        Há quem goste de vestir a camisola!

      Esta é uma expressão metaforicamente associada à (sublinhado e a negrito) adesão a causas, a princípios, a instituições. Quem veste a camisola é alguém que participa, defende, dá a cara por algo em que, por norma, acredita.
      Depois há aqueles que, com a mania de tudo recusar e na onda negacionista daquilo que é visto e aceite por muitos, acabam por defender aquilo que, à partida (sublinho, à partida), não quere(ria)m. É nestes momentos que se deve tirar a camisola:

Camisola traidora da causa de quem a vestiu (foto colhida do Facebook)

      Pobres de espírito aqueles que não sabem o que fazem: vestem a camisola que afirma o contrário daquilo que os faz sair à rua (volto a sublinhar).
       Concordo: não há ditadura sanitária. Há necessidade, sim, de se aprender a escrever, para que se passe a mensagem. Neste caso, porém, o erro até surte o efeito desejado, com a cara a não bater com a careta.
        
        Não à  (sublinho, repetidamente) ignorância! Leiam, escrevam, aprendam e rasguem a camisola.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Agradecimentos...

      Há quem registe o agradecimento!

     Hoje, a Rádio Comercial mostrou a sua generosidade e um sentido justo para os agradecimentos não terem de ficar condicionados às vitórias.

Um agradecimento à espera da vírgula do vocativo! - (imagem colhida do Facebook)

        Concordo. Há perdas ou derrotas que também merecem agradecimentos. 
      Duas palavrinhas apenas... e a falta de um sinal de pontuação faz sentir-se: a vírgula do vocativo, se faz favor. 
      Quem chama virgula. "Obrigado, rapazes!" É assim que se agradece, com o chamamento devido dos "rapazes".

      Faz sentido a imagem! Contudo, no texto, uma virgulazita faz a diferença.

domingo, 20 de junho de 2021

Céu, mar e vegetação gotejados de chuva

       Em vésperas de entrada no verão, há cores, clima e sentir inverniços.

     Dizem que já nada é como era. Não confirmo nem desminto. Há quem queira pôr a natureza à sua medida e ao seu gosto. Hoje não está radiante para os que assim se tomam, nem dá calor aos que só o querem receber.
      A impressão que tenho é a de que o mar anda gotejado de chuva e  a frescura do dia cinzento se faz sentir no gotejamento do vidro.

Uma impressão de céu, mar e vegetação à chuva (Foto VO)

       Não é a primeira vez que o capto, mas uma coisa é dezembro; outra é a entrada do estio, que não rima com frio na ordem do desejar e do sentir. É tão interessante visitar Portugal que até o inverno vem cá de férias passar o verão.

        Hoje foi dia sensaborão, não fosse a foto um registo de alguma animação, ainda sem o cheiro nem o calor do verão.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Gestos de quem se gosta

      Fecha-se um ciclo, um tempo feito de muitos momentos...

     Para alguns talvez mais do que para outros: há quem tenha vivido um ciclo de três anos; quem se tenha ficado por dois ou, ainda, quem não passou além de um só. Independentemente disso, o dia foi de intensa e comum despedida sentida por e para todos.
     Houve rosa sem espinhos; houve postais escritos a mostrar que, no afeto, há mais do que correção; houve lembrança dedicada a quem quis ensinar a todos, sem exceção; houve recordação de palavras, de vivências, de reações de um antes que deu lugar a um depois tão diferente! Houve ainda a foto para memória futura, aquela que já faz sentir saudades de tudo o que se experienciou aula a aula e fora dela (quando se pôde e quando se quis).
    Num ano particularmente difícil, continuei a ter a felicidade de estar acompanhado daqueles que, dia-a-dia, me souberam respeitar; me tiveram em mente, apesar de algumas ausências; me fizeram sentir grato, ganhar forças e ver que, na medida do possível, colaboravam com o lema do "trabalho, trabalho e mais trabalho". Uns pela qualidade demonstrada, outros pelas descobertas conseguidas, uns mais pelos erros cometidos que também ajudavam a ensinar, outros ainda pelos comentários que (no fundo da sala, em surdina, mas com voz bem reconhecida) permitiam construir cumplicidades e afinidades além do estatuto e do papel devidos, sem esquecer os que reservada e timidamente assistiam ao espetáculo de todos... esta foi a soma construída que nos foi aproximando.
     Ouviu-se "Queremos ficar aqui! Não queremos ir embora!" (Como?!); "Vou ter de ir mais vezes à Carruagem 23!" (O que fazem as saudades!); "Que dia tão triste!" (Não, senhor! É bonito!).
    Circularam T-shirts que deixaram de ser apenas brancas - simples, do clube desportivo da terra ou da junta de freguesia -, para ter dedicatórias que, em jeito de finalistas, revelavam sentimentos, desejos que o tempo (re)fez e fará recordar. 
     Citaram-se alguns versos de uma ode camoniana (Ode IX):

«Porque, enfim, tudo passa;
Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;
E nossa vida escassa
Foge tão apressada
Que quando se começa é acabada.»

      Quando tudo parecia chegar ao fim, veio o "Sabe, eu queria um abraço!"
      À distância, foram-se abrindo os braços, como se fosse possível sentir toque apenas com o que se vê. Um íman parecia estar em cada um de nós. Por maior que a sala fosse, o campo magnético fez-se de vontades humanas (se Blimunda soubesse, vinha colhê-las para o seu frasco, a fim de que a Passarola voltasse a voar).
    Chegado a casa, pouso os livros, um ou outro caderno (com quadrículas, números, nomes, notas, apreciações, registos), a pasta, um romance... Releio um pequeno texto que me foi entregue a medo, não houvesse alguma falha: "Esperamos ter marcado tanto a sua vida como o professor marcou a nossa". Ficaram felizes quando lhes disse que não havia nenhum erro. Não podia, simplesmente. Era uma pequena grande frase.

       É tão clara a certeza do que é esperado! Obrigado, por terem estado comigo. (E mais não digo, porque sabem bem quem são).

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Novo conceito de rua

       Começa a antever-se a animação em Espinho!

       No que toca ao arruamento, há quem já fale na rua cobra ou ziguezague. Tanto faz!
       Eu já serpenteei a primeira camada de asfalto da rua 19:

A "corrida da serpente" - ou a nova forma de chegar a Espinho 
(fotografia postada no Facebook)

   Convenhamos que, antes de chegar ao fundo da foto, à rotunda, já os condutores tiveram oportunidade de experimentar, de treinar curvas e contracurvas, para que o redondo final seja mais perfeito.
    Qualquer semelhança com as pistas dos carrinhos de choque das festas talvez não seja mera coincidência.

        Que a Nossa Senhora da Ajuda nos proteja!

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Do melhor e do pior que a mulher tem

       A realidade será a mesma? A forma de ler é bem distinta.

       No dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, partilho um texto daquele que é hoje celebrado - poeta com feriado no calendário, reconhecido como um dos três universais, homem de armas e das letras (conforme o ideal renascentista). Trata-se de uma trova que admite leitura dupla: 

Trova camoniana "[Vós] sois ũa dama" - entre o horrível e o perfeito.

      Da negação para a negatividade do retrato (leitura vertical) à negação para a afirmação da beleza (numa espécie de lítotes, na leitura horizontal), parece que a base de inspiração é bem contrastiva. Dama é por tratamento, por mais ficcionada que seja. 
    Seja na linha do jogo poético trovadoresco do "Ai, dona fea, foste-vos queixar" (Joam Garcia de Guilhade) seja no da construção da imagem perfeita da mulher, compôs o poeta texto aberto a leitura duplicada, conforme arranjo gráfico em colunas (e sem os sinais de pontuação) o permite.

        Perdoe Camões este abuso nas suas rimas, mas são tempos em que o jogo poético se desconstrói na redescoberta de leituras dos versos, em interação com outros poemas - uma forma de lembrar o escritor numa rede de aproximações com a escrita criativa (do próprio e de outros que nele se revejam).

quarta-feira, 9 de junho de 2021

A um dia de Camões...

     Na véspera do dia da sua morte,...

     Relembra-se "Descalça vai para a fonte" e essa Leanor retratada como exemplo de beleza - aquela que vai formosa e (mas / por isso) não segura.
     Num retrato predominantemente físico, há um cromatismo bem colorido na figura dessa mulher que um filme a preto e branco (com mais alguns cinzentos) não traduz:

Interpretação de António Vilar e Leonor Maia, nos papéis do poeta e de Leanor 
"Camões" (1946), de Leitão de Barros

     Os efeitos inspiradores da musa feminina no poeta, lendariamente caracterizado como um pinga-amor, são mais para a construção poética dos versos (para os louros) do que para as paixões da vida concreta (as louras). 
      Reconheça-se a escrita marcada pela escola / corrente tradicional, ou da medida velha, e pense-se que o resto é o que menos interessa: a vida do escritor.
      Fica a obra para lá do tempo da vida; fica a voz lírica que nos "canta" um poema "em verso humilde celebrado", com "agreste avena ou frauta ruda" (para não confundir com o "som alto e sublimado", o "estilo grandíloco e corrente", com "tuba canora e belicosa" no jeito épico).

Mote: Descalça vai para a fonte 

          Leanor pela verdura;

          Vai fermosa e não segura.

 

Glosas ou voltas:


Leva na cabeça o pote,

O testo nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata.

Sainho de chamalote;

Traz a vasquinha de cote.

Mais branca que a neve pura;

Vai fermosa e não segura.

 

Descobre a touca a garganta,

Cabelos d' ouro o trançado,

Fita de cor d' encarnado,

Tão linda que o mundo espanta;

Chove nela graça tanta

Que dá graça à fermosura;

Vai fermosa e não segura.


     ... fica o registo fílmico a ilustrar uma das suas redondilhas (maiores, no caso) mais conhecidas - um vilancete, a julgar pelo mote de três versos e as glosas com sétimas.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Para lá da simpatia...

      Há que contentar com o gesto simpático!

      De resto, nada mais se pode pedir, quando se escreve mal.

   Certo é que 'pôr' tem acento gráfico (circun-flexo) na sua grafia. O mesmo não sucede com os com ele formados ou a ele fonicamente asso-ciados na sílaba final de verbo, na forma do in-finitivo -  como 'ante-por', 'compor', 'contra-por', 'descompor', 'dis-por', 'expor', 'impor', 'propor', 'repor', 'supor' e afins -, conforme já o indiquei em aponta-mento anterior.

    Se o contraste 'por' (preposição simples) / 'pôr' motiva a distinção gráfica, o mesmo não sucede com os restantes termos atrás mencionados. Sublinhe-se o facto de estar a considerar-se formas verbais no infinitivo (o que nada tem a ver com as formas conjugadas, como 'antepôs', 'compôs', 'contrapôs',...).

    Tipicamente as palavras terminadas em 'r' são agudas e não requerem acentuação gráfica - eis a razão para o infinitivo dos verbos e, por conversão, as formas nominais / nominalizadas não apresentarem acentos.

       Agradeço o gesto, portanto, mas ficaria mais grato pela ausência de acento.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Não é "d'oiro", mas é "doirado"

     Tudo em busca da base da palavra (embora eu preferisse o "oiro").

     Siga-se o raciocínio de onde uma palavra vem, e lá chegaremos ao resultado final.

      Q: Olá, Vítor. Qual é o processo de formação da palavra "doirado"?

O doirado da paisagem, com o doirador responsável ao centro.

    R: Olá. A palavra "doirado" é o particípio passado do verbo "doirar", sendo esta última a palavra base. Embora se trate mais de um caso de flexão do que propriamente de formação, a passagem "doira(r) > 'doirado" ilustra a consideração de afixos gramaticais no final da palavra (sufixos), de modo a construir, a partir da forma do infinitivo, a que surgirá como forma verbal de particípio passado e/ou adjetivo.
     Pelo raciocínio exposto no primeiro parágrafo, fica identi-ficada a base (verbal), a partir da qual se processa a sufixação. Trata-se de sufixos de natureza estritamente gramatical (para as categorias da forma parti-cipial verbal e do contraste de género).
      Não se veja, portanto, o oiro como a origem de tudo na nossa língua, mas o que permite "doirar" e, por sua vez, esta palavra ver o doirado, nomeadamente o que a talha da natureza por momentos ganha (sem ouro; com sol).

     Ou seja, "nem tudo o que doira vem de oiro", pelo menos em termos da natureza. "Doirar" entrou historicamente na língua portuguesa pela forma latina "deauro, -are", estando já aqui assumida a palavra base (doirar), a qual virá a dar lugar a 'doirado'.

sábado, 22 de maio de 2021

Hoje, depois de ontem, com versos de séculos

     Ontem foi o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento; hoje fica a lembrança da celebração.

      A ocorrência do dia celebrado a 21 de maio, segundo proclamação da Assembleia Geral da ONU há dezanove anos (com a "Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural", onde se reconhece esta última como património comum da humanidade), deve repetir-se a cada dia pelo significado que tem para o bem-estar de todos em todos os tempos. 
    Celebrar a diversidade cultural é respeitar e defender valores fundamentais como a liberdade, a democracia, a tolerância, a igualdade, a não discriminação, o respeito pelo estado de direito, os direitos humanos, a solidariedade entre povos, o sentido de paz e de fraternidade harmoniosas.
  Enquanto imperativo ético, no respeito pela dignidade humana e pela aceitação de valores diversos e multiculturais, sublinha-se com esta efeméride a aprendizagem do que é a vivência conjunta, integrada e inclusiva; a luta contra estereótipos culturais, preconceitos e fundamentalismos, num diálogo contínuo enquanto garante de um generalizado desenvolvimento sustentável.
      Assim também o pensou Camões, como o sugere, por exemplo, "Endechas a Bárbara Escrava":

Montagem de imagens e declamação do poema camoniano "Endechas a Bárbara Escrava".

     Uma composição poética contraposta às tendências dominantes dos padrões de beleza num tempo clássico, quando os traços da pele clara e dos cabelos louros se impunham; a singularidade de uma "Pretidão de Amor", de uma negritude que, afinal, não é bárbara (por mais que desta tenha o nome próprio). Assim se marcava a diferença nessa expressão versificatória da corrente tradicional, bem distinta da medida nova (mais superlativizadora do ideal feminino dos "Ondados fios de ouro reluzente"):

Padrões de beleza camoniana bem contrastivos 
("Endechas a Bárbara Escrava" e o soneto "Ondados fios d'ouro reluzente")

    Numa versão musicada por Zeca Afonso e interpretada por Sérgio Godinho, a conhecida trova escrita em redondilha menor progride numa melodia que se vai intensificando na harmonização sonora, sem deixar de sublinhar a excecionalidade da figura retratada.

Interpretação de Sérgio Godinho, para a letra de Camões e a música de Zeca Afonso

     O canto poético quinhentista traduziu um pensamento que se mostra atual, contemporâneo, liberto de preconceitos, feito dessa universalidade revista num "Todos diferentes, todos iguais". Nada melhor para literariamente relembrar o dia que passou.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Fragilidade da vida

      Tema mais do que atual face aos tempos pandémicos que se vivem.

      Camões, no final do canto I, reflete sobre esse tema, mencionando o "... Caminho de vida nunca certo: / Que aonde a gente põe sua esperança, / Tenha a vida tão pouca segurança". Enquanto "fraco humano" ou "bicho da terra tão pequeno", há forças que nos superam (no mar, na terra, no Céu). Não há domínio que nos deixe de testar, a ponto de a pergunta surgir: "Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida...?" Mais do que interrogação (retórica), será a constatação da pequenez e da insignificância humanas face ao poder das forças que gravitam em seu torno, fazendo-as cair de um pedestal antinatural e a todo o momento questionável. E, assim, da temática quinhentista rapidamente se dá o passo para a contemporaneidade.
"Shattering", de Leon Keer
   Leon Keer, artista holandês reconhe-cido pela sua 3D Street Art - essa capacidade de trans-formar uma superfí-cie plana numa obra-prima multiní-vel -, criou um mural para o festival de arte de rua em Helsingborg, na Suécia. Retratando quatro chávenas de chá empilhadas de modo instável, aca-bou por descrever a obra conseguida com as seguintes palavras: "A vida é tão frágil quanto uma xícara de chá"; "Quero mostrar que a nossa vida pode mudar repentina-mente. Podemos perder um ente querido. Ou a nossa casa. Ou outros grandes artistas mundiais, expoentes da cultura. Por isso, nas xícaras de chá, pintei todos os cenários apocalípticos." 
       Desta forma, as chávenas que figuram no mural (as Rörstrand, uma conhecida marca de cerâmica centenária muito popular na Suécia) passam a representar uma realidade aumentada, cada uma delas a propor, metaforicamente, um episódio ilustrativo dos efeitos decorrentes, por exemplo, das mudanças climáticas; das falhas e das perdas que fazem com que a terra e o ser humano estejam prestes a "cair".

       Um caso evidente de arte pedagógica, consciencializadora, preventiva e intemporal na mensagem a transmitir. Na aproximação com Camões, Leon Keer é mais um exemplo contemporâneo de pintura a rimar com literatura.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Passiva, sim... sem agente! (nova versão)

      Lá está... a mensagem vai passando (com mais uma passiva sem agente).

   Tudo porque nem tudo o que parece é, por mais semelhança que haja.

      Q: Vítor, na frase 'O processo foi reclassificado por via administrativa', o 'por via administrativa' pode ser considerado um complemento do adjetivo?

       R: Garantidamente, não.
       Um complemento do adjetivo é uma expansão de um adjetivo. Ora, na frase dada, 'reclassificado' não é adjetivo, mas, sim, a forma verbal principal (no particípio passado) antecedida pelo verbo auxiliar da passiva.
        A construção passiva em causa é configuradora de uma ativa ('Reclassificou-se o processo por via administrativa') que, na transformação operada, mantém o modificador do grupo verbal original ('por via administrativa').
     Assim, para o sujeito 'O processo' é apresentado o predicado ('foi reclassificado por via administrativa'), com o complexo verbal do verbo auxiliar ('foi'), o verbo principal ('reclassificado'), mais o modificador do grupo verbal ('por via administrativa') a integrar esse mesmo predicado.
        Se é verdade que muitos adjetivos, na língua portuguesa, são formados a partir da forma de particípio passado dos verbos, em termos sintagmáticos não se deve confundir os primeiros com os segundos, particularmente em construções passivas (cujo complexo verbal tem de assumir, pelo menos, dois verbos - o auxiliar e o auxiliado / principal).

       Uns diriam complemente agente da passiva! Nunca. Outros diriam complemento do adjetivo! Muito menos. Fiquemo-nos pelo modificador do grupo verbal (a traduzir o modo, isto é, como foi feita a reclassificação), retirável da frase e sem o qual esta última se manteria correta.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Reação "poética"!

       Disseram-me para ler um poema que lhes dizia muito.

      Gosto destas partilhas genuínas, capazes de transformar o mundo e fazer de nós melhores pessoas. E quando de um poema se trata, digo que estou na minha zona de predileção.
      Ei-lo:

As palavras que sempre te direi: aprende a pontuar.

      Se ainda fosse para ouvir, até a mensagem poderia resultar (no conteúdo, sem atentar muito no vocabulário pobre da escrita). Como me pediram para ler, só me resta dizer: pontua melhor e serás grande!
    Talvez devesse dizer versos, mas apetece-me ficar pelas dez linhas do texto, que me apresentaram como poema. Escapa a última. Nas sete primeiras, uma vírgula separa sistematicamente o sujeito do predicado - o que nunca pode acontecer, enquanto regra essencial da língua; na passagem da oitava para a nona, existe um ponto e vírgula com uso estranhíssimo (melhor, incorreto) a separar o verbo - 'interfere' - do seu complemento - 'Naqueles que estão ao meu redor'.
      Nunca!
      Duas regras basilares da pontuação: não separar NUNCA o sujeito do predicado por uma só vírgula; não separar NUNCA o verbo dos seus complementos / predicativos por uma só vírgula (ou ponto e vírgula).

      Esta foi, assim, a melhor pessoa que "o poema" despertou em mim: a que denuncia os erros de pontuação, garantidamente, como exemplos a não repetir. É este o meu princípio de boa fé.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Passiva sim... sem complemento agente

       São perguntas que têm vindo a acontecer desde há algum tempo... e agora mais ainda!

       Comecemos por uma delas:

       Q: Vítor, na frase "O povo foi reconhecido pela sua lealdade", pode classificar-   -se o sublinhado como complemento agente da passiva?

        R: Não, seguramente. 
    Não se pode confundir ou associar o grupo preposicional 'por X ( > pela sua lealdade) a complemento agente da passiva, apesar de a frase estar configurada numa construção passiva (o complexo verbal 'foi reconhecido' confirma-o). A função sintática proposta não tem cabimento, a partir do momento em que a expressão 'a sua lealdade', desde logo, não pode ser tomada como agente, enquanto papel temático semântico. Trata-se, no fundo, da causa implicada na construção ativa subjacente: "Alguém reconheceu o povo pela sua lealdade" (> por causa da sua lealdade).
   O agente da ativa ('Alguém') encontra-se elidido na frase passiva ('por alguém'), dada a sua indeterminação. Nestes contextos frásicos, o complemento agente da passiva não aparece configurado na transformação passiva. Esse 'por alguém' seria, sim, o agente do processo de reconhecimento; a lealdade é a propriedade reconhecida no objeto da ativa ('o povo'), tornado sujeito na construção passiva.
      Não é, portanto, possível entender a causa da ativa (prefigurada num modificador) como agente da passiva. São funções sintáticas com papéis semânticos bem distintos.
      Situação análoga encontra-se abaixo esquematizada:

Frases com sintagmas e constituintes afins, mas funções sintáticas distintas

      Se, no primeiro caso, o professor elogia o aluno, no segundo, as notas não elogiam o João (são, antes, a causa do elogio). Não se confunde, assim, um complemento agente da passiva (primeiro caso) com um modificador (segundo), apesar de sintagmaticamente aparecerem frases com os mesmos constituintes.
      Por isto, é crítico aquele discurso que assume 'por alguém / algo / alguma coisa' como a função sintática questionada. A frase sugerida é um bom exemplo dessa generalização errada. Outras mais há. Bom será que se chame a atenção para o cuidado a ter nos exemplos a trabalhar com os alunos.

      Já tive a oportunidade de abordar este problema em apontamento anterior. A mesma atenção é aqui requerida, para que não se veja sempre o grupo preposicional final da ativa ('por+X') como complemento de um agente (semanticamente ausente; sem o traço da intencionalidade e do cumprimento de uma situação verbal relacionada com uma ação ou um processo).