quinta-feira, 30 de outubro de 2025

One man show e seus companheiros

    Uma boa forma de terminar o dia: com um concerto no Super Bock Arena (ou o mais familiar Pavilhão Rosa Mota, que alguns ainda lembram como Palácio de Cristal). 

      O espetáculo (porque foi concerto e porque foi fantástico) assumiu-se como festa, um dos da celebração dos vinte anos de carreira de Miguel Araújo. Um outro acontecerá em Lisboa, mas o(s) do Porto é(são) sempre o(s) "da terra" do músico, enquanto homem do Norte, bem próximo da Finisterre (só para lembrar a "Serenata do Norte").
    São vinte anos para muitas canções daquele que é hoje considerado um dos mais reconhecidos e notáveis compositores, guitarristas e intérpretes do panorama musical português. Também um comunicador nato, tanto no registo sério como no da ironia e da comédia, numa multifacetada interação com o público que reage e se compromete com o espetáculo (como, por exemplo, quando é convidado a dançar uns passos de valsa, em fila de cadeiras que nem uma volta permite). Não poderia ser de outra forma, pela qualidade e familiaridade demonstradas: é o cantor, é a banda, são as músicas (com letras partilhadas), é o cenário luminoso e colorido conjugado com os ritmos e as mensagens transmitidas,... É o espetáculo pleno de energia e força convocadas.
        
Três momentos do espetáculo que foi o concerto do Miguel Araújo (montagem fotográfica VO)

      Um balanço de vinte anos não se faz sozinho: subiram ao palco o filho; artistas e amigos de uma vida, como João Só, António Zambujo, Os Quatro e Meia, Rui Veloso, Os Azeitonas, os Kapa (e, entre todos, uns quantos médicos bem vozeados, como se houvesse necessidade de assistência ou acompanhamento do imenso público que vibrava com o repertório musical do artista, dos amigos, dos familiares, com alguma nota de Beatles e de Rolling Stones).
       Fica um breve apontamento vídeo de um concerto fora de série, num fim de outubro que fica para memória de quem experienciou o evento:

Apontamentos de um espetáculo enérgico, com música/músicos de grande qualidade

     Assisti, há uns anos, a um espetáculo transmitido na RTP1 que, pela sua diferença, me captou a atenção e me prendeu ao televisor. Estar no espetáculo, hoje, ao vivo, sem filtros, é um outro envolvimento contagiante, uma outra sinergia, regeneradora das forças que o cansaço de um dia de trabalho parece fazer esgotar. 

     Amanhã, por certo, ficará a sensação de não ter dormido tudo; porém, haverá reforçado motivo para lembrar a excecionalidade de um concerto bem português. (Com agradecimento ao MA, família e amigos - todos tão musicais!).

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Na senda do digital

      A convite da Direção Geral de Educação (DGE), a minha participação aconteceu à distância de um clique.

    O propósito era o de, num workshop online intitulado “Cenários de aprendizagem com recurso às tecnologias e aos manuais digitais”, entre as 17h30 e as 20h30, fazer uma alocução na rubrica “À conversa com…”, partilhando a experiência do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) na implementação e utilização dos manuais digitais. Em cerca de 20-30 minutos, fiz incidir o discurso sobre alguns eixos de reflexão, nomeadamente: a importância dos manuais digitais no apoio à aprendizagem dos alunos; as razões que motivaram a adesão do AEML à iniciativa e os benefícios identificados; a estratégia de implementação e a articulação com o Projeto Educativo; a forma como os objetivos definidos têm vindo a ser concretizados; as perspetivas futuras no âmbito da utilização dos manuais digitais.
      A ação promovida resultou numa formação de curta duração (ACD), orientada para a promoção e integração do uso das tecnologias digitais enquanto ferramentas ao serviço de uma educação de qualidade, designadamente no que respeita à utilização pedagógica dos manuais digitais, valorizando os recursos disponíveis e partilhando práticas potenciadoras do envolvimento dos alunos nas aprendizagens. Apresentando exemplos e estratégias de utilização dos manuais digitais e de outras ferramentas tecnológicas nas práticas de ensino, em diferentes contextos e áreas disciplinares, em articulação com outros recursos, a representação do AEML procurou, desde logo, sublinhar a importância do digital tanto em contexto de sala de aula como fora dela e dos tempos letivos. Não na substituição de nada nem de ninguém; antes, no propósito de integrar e de se assumir como uma outra oportunidade de trabalho, explorando um fator motivacional (pela abrangência de sentidos ativados; pelo envolvimento e imersão num mundo de dispositivos oportuno, diverso e plural; pela convocação de efeitos de "realia" e autenticidade de conhecimentos partilhados; pela estratégia de gamificação que possa implicar); a acessibilidade a fontes diversas de informação, que importa trabalhar / tratar lógica e criticamente, segundo as competências e as aprendizagens essenciais definidas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO); as possibilidades de proximidade / ajustamento de condições de ensino-aprendizagem (por efeitos de personalização, diferenciação e inclusão, no recurso a serviços, aplicativos e adequação de ritmos / tempos). Em suma, encarando o digital como um meio para um fim maior.
Plataforma Aprender-AEML
     Vários motivos têm presidido à adesão, pode dizer-se, deste projeto de ação, que foi tornando cada vez mais o AEML como escola / agrupamento digital: a já longa oferta formativa dos cursos profissionalizantes, no âmbito dos cursos multimédia e audiovisual, bem como dos cursos regulares do ensino básico e secundário, com a disciplina de oferta de escola Média XXI (a par de Tecnologias de Informação e Comunicação - TIC - e de Aplicações Informáticas); a adoção do projeto-piloto dos Manuais Digitais desde os anos letivos 23-24 (implicando as turmas de 5º a 9º anos); a integração do Laboratório de Educação Digital (nos módulos científico-tecnológicos e de comunicação / difusão audiovisual); a transposição e o alargamento dos propósitos do Plano de Transição Digital e do PADDE (Plano de Ação para o Desenvolvimento Digital da Escola, aprovado com a resolução do Conselho de Ministros nº 30/2020) para os de Coordenação de Educação Digital no agrupamento; a construção de uma plataforma de aprendizagem (Aprender AEML), com elaboração, inventariação e aplicação de recursos diversos numa lógica de estudo autónomo. 
     Um projeto educativo que prioriza como um dos seus eixos tanto a escola cultural (onde cabe a cultura difundida digitalmente) como os ambientes (ecológico, relacional, profissionais, comunicativos e de aprendizagem, tecnológicos e digitais), não pode desconsiderar uma área fulcral para as aprendizagens, para a crescente e progressiva integração social e para o domínio de competências de literacia(s) múltipla(s) e de exercício futura e profissionalmente eficiente / eficaz.
     A par dos benefícios associados à implementação destas dinâmicas, não deixou de ser considerada a possibilidade de integrar equipas de trabalho que auxiliaram na partilha, no trabalho e na consultoria de procedimentos (como, entre outros, o Centro de Coordenação TIC e o Centro de Formação Aurélio Paz dos Reis), tudo contribuindo para uma convergência integradora no domínio de competências e inteligências múltiplas; para a construção de maiores níveis de confiança na operacionalização racional de ferramentas e modos de trabalho; para a diversificação de instrumentos / recursos e progressiva consciencialização no uso.
         
Laboratório de Educação Digital (LED) em ação, na escola sede

      A visão estratégia integradora de diversos campos na linha de ação adotada foi sendo alicerçada de acordo com, desde logo, o apetrechamento tecnológico necessário; a consideração da disposição física de espaços (salas de aula, laboratórios); a planificação de aulas e iniciativas orientadas para a aplicação dos recursos / dispositivos. Não menos importante tem sido a dimensão da formação docente, levada a cabo com ações de curta duração, nas quais também participei como formador; com a dinamização das "Jornadas'24 de Inovação e Educação", para as escolas do concelho e zonas geográficas envolventes; com planos de formação desenhados em conjunto com o Centro de Formação e a embaixadora digital; com o acompanhamento dos Centros de Coordenação TIC e as equipas / os núcleos localizados de trabalho instituídos, para partilha de boas práticas / dificuldades / estratégias de resposta; com parcerias editoriais. De considerar ainda a implementação da Academia Digital dos Pais e Encarregados de Educação, como forma de ativar processos de sensibilização, acompanhamento e formação continuada para um público que não deixa de ser central na educação dos jovens.
       
Projeto-piloto dos Manuais Digitais na Escola Básica Integrada Sá Couto (EBISC) e na escola sede

       Nos desafios e nas atualizações constantes a promover, o foco foi sendo definido e orientado para essa moeda de dupla face que é o ensino-aprendizagem, evitando o endeusamento / encantamento pelo imediatismo da máquina e dos suportes tecnológicos; preferindo a articulação com o modelo híbrido de aprendizagens, mais completo e complementarmente sustentado. Neste sentido, procedeu-se a um acompanhamento periódico junto das equipas educativas dos anos de escolaridade envolvidos; a balanços em sede de Conselho Pedagógico e outras estruturas de gestão intermédia (conselhos de grupo disciplinar, de diretores de turma), recorrendo a mecanismos avaliativos promotores de feedback de processos e de resultados, os quais permit(ir)am a reflexão e a transformação das aprendizagens segundo quatro Cs orientadores: competência, comunicação, colaboração, (reflexão) crítica.
       Com o reconhecimento de recuos e avanços, o caminho continua a ser feito com a colaboração de muitos, as resistências de alguns, a consciencialização progressiva da inevitabilidade dos recursos em jogo (não necessariamente para diversão). O uso consistente e consciente das TIC - com ou sem manuais digitais, com aplicações crescentes e diversas, na escola ou na vida - requer uma visão de ensino e de aprendizagem assentes em avaliação sucessiva, na qual os critérios de adequação se impõem, com uma planificação estratégica dos recursos a utilizar, dos objetivos a atingir, da informação a tratar (nas lógicas e nas competências a ativar, no exercício crítico a fomentar, no respeito das fontes a considerar), da avaliação a promover (mais formativa ou mais sumativa, sem deixar de explorar intermodalidades) para monitorização das aprendizagens. Nisto, na nuclearidade de intervenção educativa, não há muita diferença de a(tua)ção; quando muito, esta existe conforme a maior ou a menor abertura à adoção de recursos / suportes, à exploração de oportunidades, ao trabalho a planificar e a cumprir.

     Transmitida a mensagem, expressos os agradecimentos e o reconhecimento da "sua excelente partilha" (citação do dito e do escrito), foi sublinhado o contributo significativo para o sucesso do evento. Mais do que a disponibilidade e o entusiasmo pessoais, ficou a consciência do que foi desenvolvido no agrupamento; da representação que intencionalmente quis marcar em favor de todos aqueles que muito me inspiraram no que disse, a partir do que empenhadamente fizeram / fazem construíram / constroem. A todos estes, muito em particular, fica a gratidão maior, em nome do agrupamento e, permitam-me, em nome pessoal.

domingo, 26 de outubro de 2025

E depois da quarta...

       ... vem a quinta dimensão.

       Altura, largura, profundidade, tempo - quatro são. Qual é a quinta de que se fala?
      Talvez uma outra mais ou a fusão de todas. Alguma que permita ultrapassar as anteriores e vá bem além do que qualquer outra força permita (visibilizar). O conceito de dimensões adicionais aparece mencionado em diversas obras de Óscar Wilde, Marcel Proust e HG Wells; configura-se em Picasso e noutros artistas modernistas, que representam dimensões alternativas, múltiplas, transcendentes.
     Eis que me surge um poema com esse título, na segunda parte de um livro intitulado Ousadias (2025), com poesia e fotografia, da autoria de Adriana Carmezim e Cristina Pinto
        Na estruturação da obra, depois de 'ousadias lua' vem o 'sol ousadias', com notas de cor e palavras de esperança, tal como a noite se faz dia:

A ousadia de pôr voz no escrito e de tornar visível um livro, pelo título, já ousado (montagem VO)

    Adriana Carmezim traz regeneração, um solstício que deixa de ser inverniço e frio e passa artisticamente a um tempo diferente, salvífico, com ritmo poético expectante, confiante. Ecos de uma nova fase de vida, mais promissora, risonha, própria de quem vê luz, seja no fundo do túnel seja no caminho que passa a ser cumprido mais positivamente. O lunar dá lugar ao solar - ampliando-se o toque de luz.

         Lidos os versos silenciosamente, deu-se-lhes voz, como se o canto trouxesse às palavras escritas um efeito metamorfoseador, transfigurador. Recriador. Uma outra dimensão - a que permite acreditar em melhores tempos.

sábado, 25 de outubro de 2025

Nostalgias e Ousadias

       Hoje foi dia de (re)encontros, no Lugar de Desenho - Fundação Júlio Resende (Valbom).

    A convite da Adriana Carmezim e da Cristina Pinto, fui apresentar o relançamento do Nostalgias (outubro de 2001 - de 2025) e o nascimento público do Ousadias. Duas artistas, duas publicações, duas expressões artísticas (desenho / fotografia e escrita literária), num crescendo multiplicativo que preencheu o dia com sentido(s), sentimento(s), reflexão(ões), memória(s), vivência(s) a todo o tempo revitalizadores.

As obras da Adriana e da Cristina, no Lugar do Desenho (Valbom) - exemplos interartísticos

      O espaço é belo, as obras apresentadas também; e as pessoas são o melhor, quando o tempo é (re)vivido em sorrisos, partilha e (re)união.

A responsabilidade de apresentar duas obras é grande. Foi uma honra!
 (Foto facultada pela AC e CP)

      O meu contributo procurou trazer vivências tão contrastivas quanto complementares, referências sintonizadoras de expressão (inter)artística e cultural (literárias e não só), bem como a partilha, o testemunho, a parceria, a sintonia, a terapia, a difonia (duas pessoas com duas expressões artísticas capazes de se multiplicarem em comunhão e beleza), para harmonias, geografias e cosmogonias mais humanas e humanistas.
         Destas autoras fico à espera de outro '...ias' (e já sei qual é)!

      Lá fora chovia, mas o calor humano do momento aqueceu uma tarde outoniça a prenunciar inverno. Agradecimento à Adriana Carmezim e à Cristina Pinto pela aposta.

domingo, 5 de outubro de 2025

Eça aveirense, de afeição.

    Polémicas à parte quanto ao local de nascimento do escritor (disputado pela Póvoa de Varzim e por Vila do Conde), Aveiro não deixa de ter pistas da presença queirosiana.

    Numa recente passagem pela Costa Nova, encontrei uma placa onde se lê um excerto da correspondência epistolográfica de Eça, evocando a experiência vivida no palheiro de José Estevão (tribuno oitocentista), propriedade de Luís de Magalhães (filho do tribuno, também dono da Quinta do Mosteiro, em Moreira da Maia, e um grande amigo de Eça). 
    Nesse "palheiro" (casa de praia) reuniam-se grandes figuras da época, nomeadamente as da Geração de 70.
Fachada do palheiro José Estevão (requalificado), na Costa Nova - foto in Fotobiografia de Eça de Queiroz
(de A. Campos Matos, Edições Caminho, pág. 150)

Placa azulejada à entrada do "palheiro" José Estevão (requalificado), na Costa Nova - Foto VO

     Segundo se lê na página 150 da Fotobiografia de Eça de Queiroz (da Caminho), em carta datada de 1884, a Joaquim Pedro Oliveira Martins, a proximidade e a afinidade a Aveiro (não necessariamente a naturalidade, assumidamente poveira, por informação da mãe, familiares e amigos) são evidentes, quando o nosso realista-naturalista se identifica como "filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quasi peixe de ria"; como alguém que não precisa que mandem ao seu encontro "caleches e barcaças. Eu sei ir por meu proprio pé ao velho e conhecido palheiro do José Estevão. Um telegramma, um mensageiro avisará o author de D. Sebastião [poema da autoria de Luís de Magalhães]". Eça via a Costa Nova como tempo de libertação, nomeadamente da escrita, ao não levar, por exemplo, as provas redigidas da sua prosa "para os areaes da Costa Nova", por não ser prático: "Ha lá de certo a brisa, a vaga, a duna, o infinito e a sardinha, cousas essenciaes para a inspiração: mas falta-me essa outra condição suprema, um quarto isolado com uma mesa de pinho". Perante as palavras citadas do autor de O Crime do Padre Amaro, percebe-se o seu entendimento enquanto "filho" da terra, pela aproximação, pela afeição e amizade, pelo prazer de lá estar. Tal não significa negar o "poveiro" que foi, tal como Luís de Magalhães o assegura a 12/10/1906, por escrito, a António Cabral, ou o próprio Eça o enuncia, a 14 /12 / 1880, em carta a Manuel Pinheiro Chagas, afirmando (ainda que ironicamente) "eu sou apenas um pobre homem da Póvoa de Varzim". 
      Outras proximidades com a Veneza portuguesa são as que colocam o neto junto do avô (o conselheiro liberal José Joaquim de Queirós) e do criado Mateus, na propriedade de Verdemilho (também conhecida como a quinta da Torre e que alguns tomam como a propriedade inspiradora para a A Ilustre Casa de Ramires), onde mergulham as raízes dos antepassados. O solar foi frequentado por Eça na infância (entre os três e os dez anos); hoje, resta desse espaço apenas uma fachada em elevado estado de degradação / destruição, depois de nele se ter instalado um armazém de botijas de gás.

Fachada do solar de Verdemilho - foto partilhada na internet por Carlos Braga

       Referencia-se, ainda a este propósito, uma notícia do funeral do escritor, na qual se admite que, após o enterro no "caveau" da igreja de Saint Pierre de Neuilly, o corpo aguardava a trasladação para Portugal, "parece" para terras de Aveiro (Aradas). A viúva, em carta de 17 de dezembro de 1932, a Luís de Magalhães, assim o sugere quando se lê "Eu desejava muito reunir o meu marido e o meu filho, foi o que me fez pensar no jazigo já existente ao pé de Verdemilho (…)”; a 15 de agosto de 1933, o amigo da família escrevia: “V. Exa. é que nos podia dar o prazer de ir passar uns dias à Costa Nova (…). Seria ocasião para irmos a Verdemilho e resolver-se, no próprio local, aquele assunto que tanto a preocupa”.
     Na sequência de tudo isto, e por extensão, também se diz que Aveiro surge como lugar de nascimento declarado na certidão de óbito do escritor. 
         Nem no nascimento, nem na morte.

      Alguém não o quis assim, para última morada. Independentemente de sinais que o autor possa ter dado a entender na sua obra, os restos mortais foram trasladados, por barco, para Lisboa, um mês depois do funeral, tendo sido depositados no cemitério do Alto de São João, até que, em 1989, a Fundação Eça de Queiroz se decidiu pela trasladação para Santa Cruz do Douro, em Baião (Tormes). A oito de janeiro deste ano, 125 anos depois do falecimento, o Panteão Nacional, sem menor polémica, recebe um homem cuja biografia e obra são excecionalmente ricas para o jornalismo, a diplomacia, a arte, a cultura e a literatura portuguesas.

sábado, 4 de outubro de 2025

Cá está o homem!

       Depois de o citar, lá vem a foto comprovativa do pensamento.

     Foi só passar na Praça da República de Vila Viçosa, e lá estava ele abrigado por uma árvore junto a um café-restaurante bem frequentado: Bento Jesus Caraça. Professor, matemático e ensaísta, é ainda hoje uma das figuras de referência na área, apesar da sua morte precoce e da inoportunidade, por motivos políticos, de prosseguir com a sua intervenção cultural e ideológica, numa época marcada pelo pendor fascista e ditatorial espelhado na realidade portuguesa na primeira metade do século XX.
   Nascido num meio social modesto (Alen-tejo, Vila Viçosa) em 1901, a sua vocação para a matemática e o sentido pedagógico e cívico intensos que assumiu para a vida pautaram sempre a sua ação até à chegada da morte em 1948, em Lisboa.
     Do pensamento citado, nas ruas de Vila Viçosa, ficam as palavras tão atuais, no que ao entendimento do erro diz respeito, como ingrediente da própria aprendizagem e do ato corretivo que se lhe associa.
      
     Não recear o erro e estar pronto para o corrigir são princípios e atitudes que todo o professor deve manter como condição principal do seu exercício profissional. Sublinha-se, também, a humildade que muitos relegam para plano menor.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

De mal a pior

      De tanto se falar mal na saúde e da ministra...

      ... até a língua fica doente, com os maus usos que lhe dão.
      O último, captado em rodapé televisivo, é prova da chaga (dis)ortográfica que assoma a ira de qualquer leitor:

Algo vai mal e não é só na saúde. Ponha-se ordem sem ouvir ninguém. Basta ler! (Foto VO)

      Isto de confundir o verbo 'haver' com o 'ouvir', numa das formas mais homofónicas de ambos (houve / ouve) é erro que considero impensável. Resta a esperança de quem o cometeu nem sequer ter pensado antes de escrever.
     Por isso, relembro as sábias palavras de Bento Jesus Caraça (matemático, pedagogo, anti-fascista, nascido em 1901 e falecido em 1948):

"... se não receio o erro 
é porque estou sempre pronto a corrigi-lo."

       Cure-se o que ainda possa ter remédio. Creio que haverá tarefeiros na área da comunicação a necessitar também de regulação.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Mostra-me os teus Lusíadas - momento de (re)encontro(s)

      Um evento feito de duas palavras.

    Na verdade, houve muitas mais, mas o Sr. Comissário Nacional para a Comemoração dos 500 anos do nascimento de Camões marcou o seu discurso por duas: "Parabéns" e "Obrigado".
      O agradecimento começou quando, na abertura do evento, reparei na presença de várias gerações no Auditório Maria Ricardo - crianças pequenas, jovens, pais, educadoras, professores, avós -, todos em torno de uma atividade promovida pela Coordenação da Biblioteca do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), em articulação com o Departamento de Línguas e o grupo disciplinar de Português: "Mostra-me os teus Lusíadas" (perdoada, claro, a deturpação do título, a bem de uma oralidade mais fluida, natural, tornada escrita).
    Na senda das atividades  promovidas a propósito do ano quingentésimo do nascimento do épico português, o AEML fecha um ciclo, com a recolha de edições da epopeia quinhentista Os Lusíadas e o propósito de encontrar a mais antiga. Entre vários formatos e edições de diversas datas, não se chegou à original (de 1572); conseguiu-se recuar até ao ano 1870, com uma edição de bolso, não maior do que a palma da mão, surpreendentemente composta de finas e pequenas páginas onde cabiam 1102 estâncias (para 8816 versos) distribuídas por dez cantos. Caso para dizer que "Mostra-me os teus Lusíadas" quase precisava do complemento lupa para a devida leitura.

Bem andei com os meus Os Lusíadas à mostra, com muitas notas minhas (como aluno e professor), 
mas era apenas uma edição do século passado (1978). Havia vários exemplares datados do século XIX!

      O Auditório Maria Ricardo (inicialmente) e a Biblioteca da escola-sede do agrupamento (aquando da divulgação de prémios, generosamente patrocinados pela Porto Editora e pelo Grupo Solverde) foram os locais de (re)encontro, onde se acolheu uma exposição de livros e se recebeu o grupo de convidados e participantes, numa oportunidade para lembrar diferentes gerações de que, para lá dos planos da História de Portugal, da viagem marítima até à Índia e dos episódios mitológicos, há mais um (o quarto) com versos épicos camonianos a sublinhar a universalidade, intemporalidade e a contemporaneidade do pensamento do autor. 

     Biblioteca da EBSML, local da entrega de prémios e da exposição de edições de Os Lusíadas.

    Daí relembrar-se a reflexão final do Canto I, tão ajustada aos tempos modernos e à humilde constatação da fragilidade da condição humana perante a grandiosidade das forças que a dominam:

105 (...)
Oh! Grandes e gravíssimos perigos,
Oh! Caminho de vida nunca certo,
Que, aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!

106 
No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

     Daí evocar-se o Canto VII, naquele momento em que Paulo da Gama se prepara para explicar ao Catual o significado dos símbolos da bandeira nacional nas naus: surge o pedido de auxílio do poeta às ninfas (mais uma invocação, para que se cumpra grandioso relato), imediatamente seguido de um lamento por quem tem obra feita e não se vê reconhecido pelo que faz (seja pelo esforço desproporcionado para se fazer notar seja pelas invejas movidas contra quem trabalha):

78 
 (...)                           ... Mas, ó cego,
Eu, que cometo, insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário,
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

     No seio do sentido eufórico e grandioso da epopeia, não deixam de se ler notas críticas, disfóricas de uma época em extensão contínua, quase profética para a atual. No mar da vida, os ventos contrários surgem tão inesperados quanto certos, restando à humanidade remar "em fraco batel" contra marés adversas e provar a sua tenacidade, para a sobrevivência; para a luta por uma sociedade mais humanizad(or)a, justa, menos tomada por jogos de interesse, manipulações, maniqueísmos ou invejas.
     De tudo isto e muito mais trata Camões na sua epopeia, tão diversa, inspirada e experimentada (com "saber de experiência feito").
    Pelo exposto, o AEML mereceu os parabéns: pelas iniciativas levadas a cabo; pelos produtos conseguidos (mais icónicos, mais escritos, mais manuais, mais digitais, mais simbólicos); por ter feito da celebração ação, divulgando e reconhecendo obra; por saber que ainda muito há a partilhar do poeta universal português. Razões, portanto, para mais evocações e comemorações, com as lições intemporais colhidas dos textos, numa leitura atenta, focada num tempo que se (re)visita e, nalguns casos, parece manter-se pela pertinência e atualidade das questões, dos tópicos e dos problemas vividos, transeculares.
  Agradeceu-se, também, a presença amiga e já familiar do Sr. Comissário Nacional, o Professor José Augusto Cardoso Bernardes, ao dar maior dignidade - com o seu estímulo, a sua acessibilidade, douta simplicidade e afabilidade no saber e no trato - a um momento de reconhecimento do que se faz bem e em honra de quem deu a ler e a ouvir grandiosa epopeia ao mundo. 
   Gratidão ainda por se ter contado com a música e o canto de membros do Bando do Surunyo (com a voz encantadora de uma ex-aluna e a companhia harmoniosa, simpática e colaborante de uma instrumentista), que mais abrilhantaram a tarde deste dia, numa ambiência memorável, festiva, musical, poética - pelas palavras camonianas, pelas sonoridades criadas, pela animação vivenciada, pela presença de muitos e pelos gestos que engrandecem o ser humano (a partir do exemplo dos grandes, clássicos ou contemporâneos).

    Caminhe-se rumo ao seiscentésimo ano, evocando e reencontrando, a cada dia, mês, ano, a grandiosidade de quem simboliza a língua, a identidade nacional e o sentido universal de mensagem(ns) humanas e humanistas.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Nem com Shakespeare isto lá vai...

  O fundo escuro com o texto a branco fez-me lembrar a comédia Twelfth Night.


   Já que do dramaturgo quinhentista / seiscentista inglês se trata, evoque-se a máxima "There is no darkness but ignorance" (Ato IV, cena II), proferida pelo bobo Feste, reforçando a metáfora da ignorância como escuridão.
     Tudo a propósito de uma série documental que tem vindo a passar na RTP2, sobre a vida e obra de William Shakespeare, na perspetiva de muitos estudiosos, investigadores, atores, especialistas na obra produzida e encenada.
       Logo a abrir o programa televisivo, lê-se:

Genialidade só no autor / escritor. Quanto ao resto,... (Foto VO)

     No melhor pano, a nódoa. Gosto do programa, do tema, do autor, da obra, mas no que toca a ascender, fiquemo-nos pela ASCENSÃO (e não o que aparece grafado). Na escuridão da imagem, a ignorância ortográfica.
       Algum conhecimento etimológico faria luz ortográfica: "ascensus" do latim está para ascenso, tal como "ascensio, onis" está para ascensão. Na família de palavras, a aproximação (orto)gráfica é evidente.

     A verdade é que Shakespeare é um dos maiores da literatura. Ascendeu por certo. Evidentíssima ascensão.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Tempos hodiernos, convocando grandes poetas

      Atos, discursos, história, cultura e mentalidades.

   Vê-se e ouve-se o que, incompreensivelmente, só alguns querem: em Lisboa, impede-se a realização de uma peça, com a agressão a um ator de forma fortuita e irracional; atacam-se barbaramente adeptos de um clube desportivo, após um jogo de hóquei em patins; em vários pontos do país, habitados pelos que nos procuram, verificam-se movimentações contra imigrantes; aumentam, cerca de 30%, denúncias de violência doméstica; cresce a criminalidade violenta provocada por organizações mafiosas; tornam-se mais do que evidentes manifestações progressivas de extremismos políticos e formas de populismo que comprometem a segurança e o equilíbrio social.
     A questão não é apenas nacional. Os exemplos multiplicam-se por países e continentes (na Europa, na América trumpiana, em África, no Oriente).
    Tanta desgraça de indignidade humana, tanto desconcerto do mundo quando mais se pede paz, ética, responsabilidade, segurança... a humanidade e o humanismo que nos fazem ser diferentes.
     No dia de hoje, celebrando-se um poeta, uma língua, a cultura da portugalidade, há todo um discurso que faz a diferença: a tradução de um espírito, de uma mensagem que ilumina o sorriso de muitos e o desconforto de alguns outros. 
    E, assim, se evocam grandes poetas, a sua universalidade e atualidade de pensamento, apesar da passagem e da evolução dos séculos:

"... é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redon-dilhas e vilancetes de Camões como se fossem filmes modernos feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.
    Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico como é em Sôbolos Rios que Vão, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos escritos há quase quinhentos anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender os tempos duros que atravessamos, tão em conformidade com os tempos em que ele próprio viveu.
    Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo, e sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das mil cento e duas oitavas que compõem Os Lusíadas, vinte e duas delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então. Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género. O paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado na criação de um Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que passados cinquenta anos impediam a manutenção desse mesmo império. E nesse campo, pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o Dia de Portugal seja o Dia de Camões, expressa corajosas verdades, dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.
    É bom lembrar que entre os séculos XVI e XVII três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante dezasseis anos, e no entanto os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas. Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos, e entre eles os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias. Sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, e o poder temeroso e o poder laxista.
   No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da História para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral. Mencionava "o vil interesse e sede immiga/ do dinheiro, que a tudo nos obriga", e evocava entre os vários aspectos da degradação o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado o mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer fortuna. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento. Queixava-se da falta de seriedade intelectual que resultava, depois, na prática, na degradação dos actos do dia a dia. Escreve o poeta no final do Canto VIII – "Este deprava às vezes as ciências, /Os juízos cegando e as consciências (…) Este interpreta mais do que sutilmente/Os textos; este faz e desfaz leis; / Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis…"
    Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios em que viveram. Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do Globo Terrestre. Ou, mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a Terra ao pescoço como se fosse um berloque. Os três autores perceberam bem que em dado momento é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência. Escreveu Shakespeare no acto IV do Rei Lear: "É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos."
    Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de la Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido. Por seu lado, Camões, no corpo de Os Lusíadas não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas em resultado dela, a insanidade. O desastre de Alcácer Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do canto X. Era a História, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela Literatura. No entanto, o fim de ciclo que neste caso aqui interessa não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa. Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global.
   Porque nós, agora, somos outros, deslocamo-nos à velocidade dos meteoros, e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam pelo Espaço. Mas alguma coisa desse outro fim de ciclo que se seguiu ao tempo da Renascença malograda relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a Terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque. E os cidadãos? São público que assiste a espectáculos em écrans de bolso. Por alguma razão os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas. É contra isso, e por isso, que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. (...)
    Consta que em pleno século XVII, dez por cento da população portuguesa teria origem africana. Essa população não nos tinha invadido, os portugueses os tinham trazido arrastados. E nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro, a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e de migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizava, filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.
    A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos, nos dias de hoje, um pouco por toda a parte, agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte. A pergunta é esta – Quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos, e os pilares de relação de inteligência homem/máquina entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um ser humano? (...)
     Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.
    Hoje, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?"

     Lídia Jorge, aquando da celebração do 10 de junho (Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas) deste ano, disse o que muitos querem ouvir; outros relativizam ou renegam. Enquanto estes últimos crescentemente se reveem no que a maioria não quer esquecer, os primeiros aceitam uma inevitabilidade histórica e uma razão forte para colher e viver mundo(s), aceitar a miscigenação cultural, integrar os que (re)encontram em Portugal oportunidade(s) para descobrir ou responder à questão "Onde pode acolher-se um fraco humano / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme, e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?”

    A reflexão de Camões, no final do canto I de Os Lusíadas (1572), é interrogação intemporal, buscando um sentido de vida humano, humanista, focado na segurança, na humildade, nessa pequenez e fragilidade ansiosas de uma felicidade que só o pensamento (crítico), a consciência e a espiritualidade (podem) trazer.

domingo, 8 de junho de 2025

Eruditismos... (credo!)

    ..., já que não se trata de erudição!

    Perdoe-me o leitor por iniciar este apontamento (quase escrevia 'post') com um termo que, não estando dicionarizado, é o que me apetece escrever de momento, para reagir negativamente a algo que uma amiga me endereçou e para me referir à pretensa erudição de alguém que se encontrava a apresentar um livro, junto de um público tão sorridente, seleto e entusiasmado.
     O orador lembrou(-se) de tanta coisa interessante! Contudo, esqueceu-se de distinguir duas palavras bem diferentes na língua: folhear e desfolhar.

Como diria o abade Remédios, "não havia necessidade" 
(vídeo partilhado pela AC, com o devido agradecimento)

     Diz o senhor apresentador que "desfolhava" (por duas vezes, uma delas ainda que involuntária) o livro. E, assim, só por milagre não o destruiu! Isto de tirar ou arrancar as folhas dos livros, das revistas ou dos jornais não está com nada, muito menos quando, pelos vistos, se cruzam tantas comparações de qualidade (no âmbito da arquitetura, história, música, culinária). Já a imagem de marca da apresentação não tem salvação possível.
     Foi, portanto, um momento em ato de incultura linguística / lexical, no mínimo.

Siga-se a dica esclarecedora, com imagem, para se aprender melhor.

    Fico na expectativa de que a Livraria Lello não tenha uma baixa significativa no seu acervo bibliográfico, caso haja mais apresentações destas, com livros desfolhados. Protejam-nos! São um bem precioso, pelo saber que transmitem. Ninguém os deve desfolhar. 

   Folheemos os livros. Não há palimpsestos que resistam, nem intertextos ou intratextos, se persistirmos em os desfolhar.

sábado, 31 de maio de 2025

Pediram-me para ler...

       ... e não me fiz rogado.

     Aquando da apresentação de VINTE SONETOS e outros poemas, de Manuel Maria, no Auditório da Biblioteca Municipal de Gondomar, durante a tarde de hoje, li dois dos textos poéticos compilados na obra. Tinham-me pedido um, mas, como ando um insubordinado e insubmisso, decidi abusar e dobrei a parada.
     Contrariei, inclusive, a ordem do título, iniciando pelo único dístico presente na secção (segunda) intitulada "outros poemas". Enquanto leitor de Sophia, relembrei o facto de os poemas mais curtos da nossa poeta apresentarem uma profundidade de pensamento evidente, uma sabedoria que nos toca com as palavras mais singelas - lições de vida traduzidas em cerca de dois a quatro versos. Fica, portanto, provado que a escolha não teve nada a ver com preguiça minha, mas com um capital de leitura que, de uma forma ou outra, se vai cruzando com outras oportunidades trazidas pelo próprio ato de ler.
      Também disso o Manuel Maria é capaz, pelo que, ao folhear o livro, na página 33, encontrei o texto
 
Vídeo e áudio do poema "Há tantas coisas tristes...", de Manuel Maria (maio 2025)

     A seleção reflete, por um lado, a tónica de um sentimento emergente de um mundo que nos vai deixando sinais fortes dos perigos e das ameaças que, longe ou perto, nos colocam em aviso constante e na razão da crescente consciência de que nenhuma guerra dignifica o ser humano; por outro lado, assume uma estratégia, na qual o fingimento recobre uma forma de sobrevivência, enquanto ingrediente necessário à vida e ao ato criativo, fictivo, poético, recuperando Pessoa e a génese criadora de quem "chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente" (como se lê em "Autopsicografia"). A nota de negatividade presente ao longo dos catorze versos decassilábicos, não pela forma, mas pelo conteúdo, é típica de um Manuel Laranjeira, que me persegue (n)a vida e que, na polaridade negativa, não deixa de a representar como húmus a alimentar e a valorizar o seu contrário, num caminho de idealização a fazer, a perseguir, a cumprir.
      Por extensão, e numa relação intratextual com a obra hoje dada a ler (desta feita com a parte correspondente aos "Vinte Sonetos"), reencontro novas e coincidentes dissonâncias, em versos a espelhar um sujeito poético atormentado, revoltado, caraterizado por uma disforia exógena a dominá-lo endogenamente (pág. 27):

Poema "Ingratidão" de Manuel Maria (vídeo e áudio por Vítor Oliveira)

      Eis as palavras, os versos de um sujeito poético que o Manuel Maria compôs à imagem e semelhança de um estado de espírito que vive instantes, que tem momentos feitos de opostos complementares, que busca identidades e que encontra palavras num exercício de escrita dominador: ao mesmo tempo "(a minha) cruz" e também "a luz". Na dualidade da dor rimada com amor, resulta uma tensão declarada na expressão poética, visível também ora na forma perfeita e convencionada do soneto italianizante ora na liberdade versificatória moderna (ambas usadas na publicação hoje publicitada), orientadas para Amor - Tempo - Arte. 

Obra poética de Manuel Maria, dedicada "A todos os que, na leitura e na escrita, se sentem com alma de poeta".

    Estas são as linhas com que, acronimicamente, o sujeito poético (também o poeta,... também o Manel) se ATA(m): na multiconfiguração e plurivalência do Amor; na inexorável, mas profícua passagem do Tempo; na exploração e na entrega à Arte (da palavra alada).

      De novo, relembrando Sophia e "Epidauro 62", ecoam versos: "Oiço a voz subir os últimos degraus / Oiço a palavra alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha". A apresentação feita por Ana Maria Cardoso e a estratégia feliz da leitura a várias vozes amigas resultaram, sobretudo, em "partilha poética", em leituras e interpretações de muitos, conduzidas por esse fio de Ariadne a permitir o (re)encontro com a escrita e a leitura, num coro pintado de vozes, tons e cores a matizar uma co-autoria polifónica a diferentes tempos.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Pedro Lamares na Laranjeira

       Chegou o momento de o rever: um ex-aluno da escola.

      O reencontro aconteceu graças à iniciativa do grupo disciplinar de Português, que preparou, junto com a Coordenadora da Biblioteca do Agrupamento e o Departamento de Línguas, uma sessão para o programa que constituiu a celebração da Semana da Língua Portuguesa (onde se inclui o dia 5 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa).

Reencontros num "Passei por aqui" que honra o AEML (com Pedro Lamares)

     Um ex-aluno da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira deu-se a conhecer aos que hoje frequentam o agrupamento, numa interação que se pautou pela abordagem de vários tópicos: a formação, as opções académicas e profissionais, o posicionamento político, o gosto pela poesia, a apresentação de programas televisivos, entre outros.
        Nascido em Portimão, Pedro Lamares cedo mudou para a Granja, tendo estudado em Espinho. Cruzou-se com as artes plásticas, a escola de jazz do Porto (1996/97), o curso de preparação para licenciatura em música sacra, até que chegou ao teatro (com formações em vários pontos do mundo). Conta, no seu currículo, a participação no Filme do Desassossego, de João Botelho (2010), onde assumiu o papel de Fernando Pessoa. Em 2015, é convidado para apresentar o programa televisivo Literatura Agora (RTP2), onde "diz" (e não declama) poesia.

Interação de Pedro Lamares com o público que assistiu ao (re)encontro

    Foram praticamente duas horas de uma conversa próxima, à qual assistiram alunos e professores, brindados com a simpatia de quem partilhou o gosto pela leitura (nesse encontro feliz do leitor com os textos, pela janela do sentido e não pelos formalismos de análise tecnicista), a natureza expressiva do discurso teatral e das experiências de leitura poética (mais ou menos marcadas por escolas e por diferentes modos de oralizar os textos), o elogio da aposta nos cursos das literaturas e humanidades. No princípio de tudo, uma visão e uma posição face ao mundo, focadas no exercício de uma cidadania comprometida com os valores que dignificam a pessoa. Em suma, uma lição para muitos, na qual a experiência de vida se cruza com o sentido (inter)artístico e político das causas comuns.
     Não terminou o encontro sem que fosse dada a conhecer uma poetisa a descobrir: Filipa Leal (jornalista, escritora portuense). Lido o poema "Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis", ecoaram os rituais desse 'topus' literário da partida, seus motivos (imigração) e efeitos (autocontrolo), junto das que muito a sentem.
     
Espaço de cidade, espaço de mundo para o ser humano do século XXI 
(poema de Filipa Leal dito por Pedro Lamares)

       Realidade tão atual em texto tão contemporâneo: "É tanto o que se pede a um ser humano no século XXI!" 

        Manual de despedida para mulheres sensíveis 

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito, 
não chorar para não enfraquecer o emigrante, 
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo, 
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas 
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala 
que não pode levar mais de vinte quilos 
(quanto pesará o coração dele? e o meu?), 
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento, 
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia 
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre, 
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda 
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui), 
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe, 
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas 
e mesmo assim não chorar, nunca chorar, 
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar, 
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes, 
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar, 
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente, 
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas, 
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas 
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem, 
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico, 
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez, 
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado, 
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal. 

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um. 
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro. 
Mas que não chore. 
                                                  
                                                   in Vem à Quinta-feira (2016: 48)

        E, no fim de tudo, despediu-se com o sorriso e a empatia que o caracterizam. Sem chorar.

    Mais uma figura de relevo nacional passou pelo agrupamento (ontem e hoje) e deixou o seu testemunho a quem o acompanhou.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Literatura a antecipar a realidade

   Quando há dois dias, pelo final da manhã, se viveu o apagão em Portugal e na Espanha, lembrei-me de um livro.

    O incidente foi anunciado como "cyber attack", sinal de guerra, conspiração, falha de satélite, quebra de energia (prolongada) que não deixou de gerar pânico, preocupação, surpresa, consciência de que estamos muito mal habituados nessa garantia de que tudo temos e a todo o tempo nos vemos desarranjados na vida.
   A estabilidade da rede elétrica nacional foi vivida como incerta, e há quem afirme que a Inteligência Artificial (IA) já prenuncia novas ocorrências nos próximos anos. Um verdadeiro pandemónio (depois da pandemia que nos atrofiou)!
    Leitor atento diria que não precisa das "tecnologias sapientes", que tantos idolatram, para o preparar para o que aí possa vir. Não há razão para espanto, quando, já em 1986, Saramago tinha escrito na sua Jangada de Pedra o seguinte (terceira divisão narrativa, na edição de 1986, páginas 37-38):

Excerto do romance do Nobel português, prenunciador do "apagón" peninsular

     O que aconteceu a 28 de abril do ano corrente teve repercussões ibéricas transversais, deixando a península à deriva e com impactos significativos em vários setores (nas casas, nas escolas, nos hospitais, nas empresas, no país, na península). Comunicações, proximidades e imediatismos ficaram comprometidos - certezas, dados adquiridos que deixaram de o ser e revelaram como nos tornamos frágeis e instáveis de um momento para o outro.
     Não se separou a península do resto da Europa, como na obra do Nobel português (por isso, não se pode afirmar que se tenha feito jangada), mas parecia termos recuado a um tempo (o da pedra, talvez) feito de nada, com tudo à mão, mas por funcionar.
     Qual personagem romanesca, num fim de dia em que chegava a casa sem energia nem luz, revi-me numa passagem ilustrativa de alguns gestos e instantes já vividos, lidos e relembrados:
 
Mais um excerto do romance saramaguiano, prenunciador do "negrum" e da retoma da normalidade

     Quase quarenta anos depois, a página de um livro deixou de ser ficção. Qualquer semelhança com a realidade não foi pura coincidência nem puro exercício de imaginação. Durou mais do que quinze minutos e foi em abril (que dizem ter águas mil e ficou sem luz)! Não espanta que, como epígrafe do romance saramaguiano e citando Alejo Carpentier, se possa ler e dizer "Todo futuro es fabuloso".

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Para que conste do que sou capaz

      Nunca um pensamento foi tão coincidente com a realidade.

      Foi o que me deu para concluir quando li a imagem que me fizeram chegar:

Se fosse tudo uma questão de capacidade...! (imagem colhida do Facebook)

      Fico-me entre o cómico (não sei se pelo inesperado se pelo despropósito) e o dramático (não sou só eu a pensar assim; até mais novos). 
   Ainda falta algum tempo no meu caso (isto se não for muito, caso decidam alterar a idade de "ingresso" para mais tarde).

       Quando comecei a minha vida profissional, a expectativa de então era a de já estar aposentado. Agora fico sentado... a trabalhar e à espera.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Sem santos nem milagres na língua

    Não podia ser de outra forma, quando se repete o erro.

  Que dizer daquele algoritmo que vai comandando a nossa vida, ao clicar-se num produto / assunto / tema / apontamento, e tem um "agente inteligente" que não vê a ignorância perpetuada num convite que só pode ter uma resposta?!

Até pode ser o bom Portugal, mas, no que toca ao Português, vai muito mal (colhido do Facebook)

Além do país, adore-se também a língua, para que não seja incorretamente usada (colhido do Facebook)

Nem com Santo António isto lá vai! Não há santo que valha ao bom uso da língua (colhido do Facebook)

   Claro que não me sentaria - eis a resposta!
  Sentar-me-ia se houvesse a consciência de como fazer um convite corretamente. Não adianta  a referência a terras, a santos; a apresentação de carinhas larocas e comidinhas apetecíveis, de chorar por mais. Nada disso me convence. Está em causa o mau uso do português, que, no condicional ou no futuro, é mal falado ou escrito até por ministros.

E não é que insistem?! Mudam as caras e as iguarias, mas mantém-se o erro crasso (colhido do Facebook)

  O condicional pronominalizado tem, tipicamente, o pronome entre a base verbal e a sua terminação. "Sentar-te-ias" devia ser a forma a ler; não aquela que a inteligência artificial (AI) e um algoritmo infeliz não descobriram, ainda, para usar corretamente na fala e/ou na escrita. 

Nossa Senhora de Fátima nos acuda, nos salve da persistência declarada no erro (colhido do Facebook)

  Caso para dizer que não há ruralidade nem iguaria que resistam. 
  Futuro e condicional pronominalizados são deveras casos críticos da língua
  Nem com a AI isto vai lá!

    Triste daqueles que não veem nalguns registos da inteligência artificial, sublinhe-se, a artificialidade que só o espírito humano pode melhorar / corrigir / fazer vingar como virtuosa.