quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Falta de visão

   Quando se ouve o anúncio "Visão... tenha uma", chego, por vezes, a preferir a falta dela.

  Sou leitor assíduo da revista Visão e tenho a leitura desta como um tempo bem passado, nos momentos em que me procuro informar do que se passa à nossa volta.
   Lamentavelmente, a última edição é exceção a esta disposição geral.
   Já, por si, a capa é muito estranha: com informação tão errada quanto a escolha das pessoas a que dá voz e/ou cuja mensagem reproduz (espero que bem, ainda que com conteúdo mau).

Recortes de uma edição da revista Visão, sem qualquer visão do que seja o ensino da língua

   Na verdade, o complemento direto não é substituído por nenhum outro complemento. E quanto ao oblíquo, ele tem uma natureza sintática muito particular: não é direto, não é indireto e ocorre em situações em que o verbo principal seleciona grupo adverbial (ex.: Eles moram MUITO LONGE) ou grupo preposicional (ex.: Ele colocou o livro NA PRATELEIRA) que admita anaforização com um advérbio (ex.: Ele colocou o livro ALI) ou com a sequência 'preposição + isso' (ex.: Todos adequam o trabalho às condições que têm > adequam o trabalho A + ISSO).
     Além disto, o conteúdo da capa não revela o da entrevista que apresenta nas páginas 72 a75, também de conteúdo com muito que se lhe diga, à responsabilidade ora de quem o transmite o conteúdo ora mesmo de quem costuma dar voz àqueles que muitas vezes não sabem o que dizem - o mínimo para quem afirma, e por várias vezes o fez e sem sentido nenhum, "só o 10º ano não tem literatura" (Edviges Ferreira); "Em lado algum do programa de Português se fala de morte - foram retirados os poemas de Pessoa que a abordam" (Maria do Carmo Vieira) ou "No passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar, etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um 'complemento oblíquo'" (Teolinda Gersão).
     Ao contrário da conclusão da jornalista Teresa Campos, são exemplos em nada elucidativos de coisa nenhuma: há literatura no programa de 10º ano (quanto mais não fosse pela abordagem da lírica camoniana); a morte figura como tema em vários textos, de Camões a Pessoa, não tendo eu conhecimento de condicionamento na seleção de poemas ou de temas por via dos programas (para não dizer que Mensagem é obra para encontrar vários poemas, nos quais a 'morte' é ingrediente para uma consciência de simbologia e renovação cíclica, de dimensão cultural; "O menino de sua mãe" e "Ela canta, pobre ceifeira" figuram em muitos materiais escolares como textos paradigmáticos da ortonímia, com veios de morte bem distintos das outras 'mortes' ou perdas que subsistem nas dicotomias do sentir e do pensar); o complemento oblíquo não é tudo e não pode ser entendido como transposição direta nem linear dos complementos circunstanciais (ou não fossem alguns destes exemplos de modificadores internos ao grupo verbal).

     Em suma, páginas que li e que não me trouxeram o bem-estar pretendido no anúncio do fim de semana. Caso para dizer que houve muita falta de visão, para uma revista que se diz de crédito.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Morfologia e não só!

   Trabalho cíclico... passado mais de um ano.

   Q: Li sua resposta [acerca da formação do verbo 'encorajar', a partir de 'coragem'] e ficou uma dúvida: como explica a ausência do «m» na evolução coragem > encorajar? Será caso de queda a considerar na formação da palavra? Muito agradecida.

   R: Tive de retomar o apontamento, reler o que escrevi - no fundo, situar-me.
    Começo por sublinhar que a dúvida apresentada assenta na aceitação da formação do verbo 'encorajar' numa das hipóteses entre duas colocadas.

      Nessa linha, responder a esta dúvida, formulada em apontamento anteriorimplica desde já considerar que se deve processar o distanciamento relativamente à componente gráfica, bem como a questões de evolução da língua ao nível fonético.
  Assim, a realização [ku'raӠᾶj] é graficamente representada com um 'm' enquanto indicador do traço de nasalidade da última sílaba. Ora, é esse traço de nasalidade que se perde (não o som [m]) na derivação do nome para a forma verbal 'encorajar'. A sílaba nasal da base derivante dá lugar a uma sílaba não nasal na palavra derivada, além de se processar uma elevação na natureza articulatória do som vocálico e a mudança de acento tónico.
    Registo, ainda, a recorrência deste mecanismo, como se pode comprovar nas derivações 'ferrugem > enferrujar', 'vantagem > avantajar' (por parassíntese) ou 'linguagem > linguajar', 'massagem > massajar', 'portagem > portajar', 'viagem > viajar' (por sufixação). 
    Não há, portanto, o que, em termos de evolução linguística e numa perspetiva diacrónica, se apelida de fenómeno de queda.
 
   Mais um contributo para mostrar como as aparências (gráficas) não devem iludir.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Jogos com a descoberta de um livro

    Foram hoje abertos os Jogos Paralímpicos - Londres 2012. 

    Porque há quem faça das fragilidades força, cabe reconhecer que há filhos de um Deus que não é  menor e, portanto, nas suas dificuldades, dão o exemplo de que os limites existem para serem superados. Daí o símbolo da bandeira paralimpíada, o 'Agito' - 'eu movo', na língua latina. 
    Na cerimónia de apresentação dos jogos deste ano, o núcleo do espetáculo apoiou-se na apresentação de um livro: o Admirável Mundo Novo (Brave New World, segundo o título original inglês), da autoria de Aldous Huxley. 
  Inspirado numa réplica de Miranda na obra shakespeariana The Tempest, o título desta narrativa publicada em 1932 tem mais de atrativo no que sugere do que na história dá a ler: propõe a hipótese de um futuro no qual as pessoas se encontram genética e psicologicamente predeterminadas, conformadas a viverem harmoniosamente segundo leis e regras sociais de uma sociedade estratificada, organizada por castas. 
    Bernard Marx é o protagonista, descontente consigo mesmo por, em certa medida, se apresentar como fisicamente distinto dos outros elementos da sua casta.
    Nessa medida, numa espécie de reserva histórica, onde algumas pessoas continuam a viver conformes a valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver.

    "... chorava por estar sozinho, por ter sido escorraçado, sozinho, para o mundo sepulcral dos rochedos e do luar. Sentou-se à beira do precipício. A Lua estava atrás dele; mergulhou os olhos na sombra negra da mesa, na sombra negra da morte. Tinha só que dar um passo, um pequeno salto... Estendeu a mão direita ao luar. Do golpe do pulso ainda corria sangue. Com intervalos de alguns segundos, caía uma gota, sombria, quase incolor na luz morta. Uma gota, uma gota, uma gota... «Amanhã, e amanhã, e ainda amanhã ...
      Tinha descoberto o Tempo, a Morte e Deus. 
      - Só, sempre só - dizia o rapaz. Estas palavras acordaram um eco doloroso no espírito de Bernard. Só, só... 
    Eu também - disse ele num sopro de confidência. - Terrivelmente só. 
     - Você também? - John espantou-se. 
     - Pensei que Além ... Quer dizer, Linda,dizia sempre que nunca ninguém estava só. Bernard corou, contrafeito. 
     - É preciso esclarecer - continuou, gaguejando e desviando os olhos - que devo ser um pouco diferente da maioria das pessoas. Se acontece às pessoas serem diferentes desde a decantação ... 
     - Sim, é isso, precisamente. - O rapaz aprovou com um sinal de cabeça. - Ser diferente condena a uma fatal solidão. E a um tratamento abominável. Acredita que eles me mantiveram absolutamente afastado de tudo? Quando os outros garotos iam passar a noite nas montanhas - sabe quando é, quando se deve ver em sonho qual é o nosso animal sagrado -, não consentiram que eu fosse com os outros. Não quiseram confiar-me nenhum dos segredos. O que não impediu que eu o fizesse sozinho - acrescentou. 
     - Estive sem comer cinco dias, e depois fui uma noite sozinho para as montanhas, além. - E indicou-as com o dedo. 
     Bernard teve um sorriso protector. 
     - E você conseguiu ver qualquer coisa em sonho? - perguntou. 
     O outro fez um sinal afirmativo com a cabeça. 
  - Mas não posso dizer-lho. - Calou-se uns momentos, para acrescentar em voz baixa: - Um dia fiz uma coisa que os outros nunca tinham feito: fiquei de pé contra um rochedo, num meio-dia de Verão, com os braços estendidos, como Jesus crucificado. 
     - Mas porquê? 
  - Porque queria saber o que representa ser crucificado. Suspenso ali, em pleno sol ... 

     Não imaginando as implicações, os problemas e conflitos decorrentes da sua decisão, a personagem Bernard Marx acaba por, em cumplicidade com o autor, fazer de Admirável Mundo Novo um aviso, uma chamada de atenção aos totalitarismos, um apelo à consciência dos homens face aos perigos que ameaçam a humanidade, caso não haja resistência ao sedutor canto da sereia que anuncia (falsas) noções de progresso.

      Mensagem relevante para qualquer sociedade que, nas suas diferenças, tenda a tratar todos por igual, sem reconhecer os limites de cada um ou fazendo destes um qualquer padrão de comportamento (a que nem todos podem chegar). Que os nossos atletas paralímpicos revelem como são especialmente diferentes, por mais que frequentemente se sintam "suspensos ali, em pleno sol".

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Na condição das estrelas

      Seja porque estão tristes seja por ficarem da cor do céu, a condição das estrelas é sempre superior.

     Isto é o mínimo que se pode dizer de um grupo famoso (The Corrs) que partilha o palco com o vocalista de um outro: Bono Vox, dos U2.
     O sucesso impõe-se, na certeza de que os irlandeses têm grandes representantes na música do mundo.



When The Stars Go Blue (The Corrs featuring Bono)

Dancin' where the stars go blue
Dancin' where the evening fell
Dancin' in your wooden shoes
In a wedding gown

Dancin' out on 7th street
Dancin' through the underground
Dancin' little marionette
Are you happy now?

Where do you go when you're lonely
Where do you go when you're blue
Where do you go when you're lonely
I'll follow you
When the stars go blue, blue
When the stars go blue, blue
When the stars go blue, blue
When the stars go blue

Laughing with your pretty mouth
Laughing with your broken eyes
Laughing with your lover's tongue
In a lullaby

Where do you go when you're lonely
Where do you go when you're blue
Where do you go when you're lonely
I'll follow you
When the stars go blue, blue
When the stars go blue, blue
When the stars, when the stars go blue, blue
When the stars go blue
When the stars go blue, blue, blue
Stars go blue
When the stars go blue

Where do you go when you're lonely
Where do you go when you're blue, yeah
Where do you go when you're lonely
I'll follow you, I'll follow you, I'll follow you
I'll follow you, I'll follow you, yeah
Where do you go, yeah
Where do you go, Where do you go



   "Where do you go? / I will follow you": Felicidade a destas estrelas, que, por mais tristes que sejam, brilham no caminho de alguém que tem outro alguém que o siga. Na terra, a condição é outra, mesmo que nela se veja o cair das estrelas.

     Dançando, rindo, cantando... para seus males ir espantando.

domingo, 26 de agosto de 2012

Areia feita mar

      Na partilha de mais uma foto, faltava o texto feito letra.

      Pelo que me era dado a observar, o olhar do geólogo captava, no areal, um ondeado trazido pelo vento, com motivo assumido para uma instrutiva aula acerca das nortadas.
      Na minha mira, estava algo mais do que a geologia deixava ver.
      
Foto de Nuno Miguel Pires Correia
                              
        Surgiram, então, os versos:

                              AREAL AO NORTE

                              As ondas deixaram de ser líquidas,
                              perderam também a cor do céu;
                              na aragem e pelo vento varridas,
                             têm nos grãos sinais de escarcéu.


         Imagem e texto, figura e legenda...
     
    Foi mais uma tentativa para que geologia rimasse com poesia, na ampulheta desta vida cronometrada por grãos de areia moldados por vento e mar.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Assim não chega!

     Partilharam comigo uma imagem (das muitas que proliferam pelo Facebook), porque, dizem, ela faz lembrar o que ando sempre a referir nas aulas.

    Não vejo a razão para tal associação.
    Não concordo com o conteúdo da figura e tenho de o corrigir:


    Os acrescentos e sinais a vermelho são meus, a bem da verdade e da correção. Desde que haja um encaixe entre o sujeito e o predicado, estes últimos podem ser separados por vírgula - mais do que uma, naturalmente:

   i) As pessoas da rua, em período de férias, caminham lentamente.
   ii) O meu irmão mais velho, o José, vai comprar um carro.
   iii) O parto da minha vizinha, que aconteceu ontem, foi bem sucedido.
   iv) O meu maior sonho, ainda por realizar, é viajar para a Europa.

    Há imagens que até podiam fazer um figurão. Mas, assim, não se vai longe, não.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Para cada passo à frente (também) há dois ou mais atrás

    Em pleno domingo, conforme o previsto lá para as terras da Senhora da Agonia, lá se cumpriu o evento de uma tourada anunciada.

    A polémica impôs-se ao longo da semana; houve a tourada em praça e arena montadas em terreno particular (por mais que este faça parte de uma terra que tinha decidido afastar-se dessas práticas) e a agitação entre os partidários da tauromaquia (por eles encarada como arte e cultura) mais os que nela veem uma afronta direta aos direitos dos animais (sem arte, sem cultura; só tortura).
      Lembro-me sempre destes parágrafos de Miguel Torga, no conto "Miura" de Bichos (1940), quando o tema se impõe:

      "Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria alentejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão!"
...

    "Com ar de quem joga a vida, o manequim de lantejoulas caminhava sempre (...).
       Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora.(...)
       Mais palmas ao dançarino. (...)
       O espectro doirado lá estava sempre."
...



      "Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?
  Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque.
  Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?!
       Calada, a lâmina oferecia-se inteira.
       Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume."
   
    Pior do que isto só a RTP1, quando passa largas horas, em serviço de canal público, a dar conta de espetáculos de "cor, brilhantismo, emoção, lide, força e pega" para o comum dos telespectadores que não deixa de assistir a jogos sangrentos entre vários animais, palmas para estocadas, "urras e vivas" para heróis que recebem flores pelas lutas que desencadeiam contra toiros instigados aos ferros tão desnecessariamente.

     Definitivamente, há espetáculos que deviam estar limitados a quem os aprecia por qualquer razão.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Religião tão natural...

     Em tempo de feriado que está para deixar de o ser (e poucos o notarão, por certo), recordo-me de uma escultura que fotografei há pouco tempo.

     Em plena Feira Medieval de Santa Maria, visitei o Museu-Convento dos Lóios - um espaço que exibe uma sala de pinturas de António Joaquim (feirense que doou à localidade alguma da sua obra nela inspirada), uma exposição sobre a arqueologia mais as artes e os ofícios locais, além de uma mostra com algumas informações do tempo e do rei a que a feira foi dedicada este ano (D. Sancho I).
    Num dos corredores, há um pequeno espaço destinado ao culto religioso. Lá figura uma pequena escultura, com a seguinte legenda:

"O divino feminino foi sempre a imagem sagrada associada à natureza, sinónimo de fertilidade, sabedoria, harmonia e beleza. Com o Cristianismo surge Maria, Mãe de Deus e dos homens, revelada como Imaculada Conceição, concebida em pureza por Sua Mãe Ana e sem mancha de pecado original."

      A imagem apresentada é a de Nossa Senhora, amparando Jesus, à esquerda, tendo Santa Ana, à direita, segurando os dons naturais dos frutos e do pão, alimento para o Homem no que este colhe da Natureza. Subsistem, no registo religioso cristão, os tópicos originais do sagrado feminino - o poder de produzir vida, o alicerce das religiões de outrora, pagãs, assentes num panteísmo que vê na Natureza e no feminino formas de expressão, simbologias (re)construídas e/ou apagadas com o tempo e pelas ideologias dominantes. Em todas, a tónica do feminino impõe-se, por contraposição à figura masculina que o imperador romano Constantino e os homens da Igreja Católica Cristã souberam, por razões de poder, sobrepor a expressões religiosas pagãs anteriores, cujos códigos ainda sobrevivem numa dimensão alegórica e metafórica que desafiam o Homem à interpretação e à (re)descoberta do que lhe é mais natural.
     A religião maior, a do Homem com a Natureza, a do respeito que ele mantém com a Terra - o lugar em que vive, e do qual deve cuidar -, por tão próxima que é, parece ser também progressivamente relativizada.
      Que dizer de uma data, de um dia, de um número a pretexto de, sabe-se lá, que razões económicas?
    
      Em dia da Assunção de Nossa Senhora (este ano ainda feriado, dedicado à condição divina da mãe de Jesus, à hora da morte consagrada e ressuscitada, no corpo e no espírito, para sua ascensão celestial) fica o apontamento para a perda de um direito humano; para a relativização a que é votada a qualidade de um divino feminino que, por certo, terá formas de expressão substantivas para nenhum governo poder minimizar.
      

Por três vezes, a mesma canção.

    Diz-se que não há duas sem três. Assim sucedeu com uma música ouvida na rádio (por três vezes, a mesma, num curto intervalo de tempo).

      Em pleno verão, o dia revelou-se tempestuoso, tanto no vento como na chuva.
    Por esta última, que regou o dia, veio a propósito a ideia de como no quente verão persiste o chuvoso inverno. Daí que nada melhor do que "set fire to the rain" (de Adele) - assim o ouvi por três vezes na rádio.

Concerto ao vivo no Royal Albert Hall, 2011

         Set Fire To The Rain

I let it fall, my heart,
And as it fell, you rose to claim it
It was dark and I was over
Until you kissed my lips and you saved me

My hands, they were strong
But my knees were far too weak
To stand in your arms
Without falling to your feet

But there's a side, to you, that I never knew, never knew
All the things you'd say, they were never true, never true
And the games you'd play, you would always win, always win

But I set fire to the rain
Watched it pour as I touched your face
Well, it burned while I cried
'Cause I heard it screaming out your name, your name!

When I lay with you
I could stay there, close my eyes
Feel you here forever
You and me together, nothing is better!

Cause there's a side, to you, that I never knew, never knew
All the things you'd say, they were never true, never true
And the games you'd play, you would always win, always win

But I set fire to the rain
Watched it pour as I touched your face
Well, it burned while I cried
'Cause I heard it screaming out your name, your name!

I set fire to the rain
And I threw us into the flames
Well, it felt something died
Cause I knew do that was the last time, the last time!

Sometimes I wake up by the door
That heart you caught must be waiting for ya…
Even now when we're already over
I can't help myself from looking for ya

I set fire to the rain
Watched it pour as I touched your face
Well, it burned while I cried
'Cause I heard it screaming out your name, your name!

I set fire to the rain
And I threw us into the flames
Well, it felt something died,
'Cause I knew do that was the last time, the last time!

Oh oh oh oh oh…

Let it burn…


     A força da composição, a potência da voz e a vibração orquestral não me cansam. Ouço-as, repito-as, vivo-as como se fossem o universo que me serve, no contínuo apagar de um calor que não tem estação.

     Caso para dizer que a canção serve o dia 'and it fits my way of living'. 


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Perguntas... para quê?

    Cá está uma pergunta (na forma) que sugere mais do que as palavras e a entoação dizem. Vale mais pela asserção que dela deriva.

    Muitos são os casos na língua que estão bem além do que a forma interrogativa possa imediatamente significar. Daí a velhinha pergunta "para que servem as interrogações?" ter muito que se lhe diga. A resposta "para fazer perguntas" é tão redutora quanto aquelas serem utilizadas para fazer pedidos, avisar, dar conselhos, atenuar as ordens, marcar posições. Entre o diretamente formulado e o indiretamente proposto são muitos os cenários, alguns dos quais dão lugar a atos e não tanto a discursos.
    Uma foto avança com muitas interrogações:


    À entrada de uma igreja, as questões não servem para confirmar nada. A forma de questões totais (com resposta admissível do tipo Sim / Não) associa-se a um conjunto de avisos / conselhos para quem pretenda assistir a um serviço religioso.
    Neste sentido, o ato de fala diretivo (da interrogação) corresponde a um outro ato de fala diretivo, mas indireto, cuja força ilocutória sai atenuada, comparativamente aos enunciados correspondentes como:
      i) Não entre, se deixou o seu carro mal estacionado / Estacione bem o seu carro antes de entrar;
      ii) Desligue o telemóvel antes de entrar na igreja / Não esteja com o telemóvel ligado dentro da igreja;
   iii) Não entre, se não estiver convenientemente vestido / Entre apenas no caso de estar vestido convenientemente.

     É por perguntas destas e doutras que, quando entro num quiosque e pergunto se tem o Público, não estou à espera que me respondam (com ou sem sorriso) "Tenho". A minha pergunta é desejo de compra, que deve dar lugar à apresentação do jornal para venda. Prova de que, na língua, muito facilmente se passa das palavras (ditas ou escritas) aos atos (de fala).

domingo, 12 de agosto de 2012

Final dos jogos olímpicos

     Londres 2012 deu lugar a jogos em Português.

  Esta começa por ser a grande diferença, programada para 2016. Quatro anos nos distanciam da sonoridade lusófona que sucede ao poder anglófono afirmado nos últimos quinze dias.
   Depois da cerimónia de abertura 'so british... too british', a de encerramento não foi menor, pelo que musicalmente as terras de sua majestade têm conseguido dar ao mundo.
   Dos mais clássicos aos mais contemporâneos, os cantores e os grupos musicais desfilaram em parada contínua.Tudo muito "british", só contrariado, no final, por "Aquele abraço" (composição e letra de Gilberto Gil) enérgico, sem preconceitos, aberto ao mundo e à sua multiculturalidade. Só por este sinal, está ganha a posta. Como se, da insularidade britânica, o 'go southwest' constituísse a descoberta de um novo mundo. Sê-lo-á, por certo, para os jogos olímpicos, que, pela primeira vez, são recebidos no continente sul-americano.


    E no continente, em extensão, americano, impõe-se o Português enquanto língua.

   Uma oportunidade para a lusofonia se abrir ao mundo, acolhê-lo, de modo a tê-lo "mais rápido, mais alto e mais forte". Assim o foi na História. Que o seja no Futuro!
     

sábado, 11 de agosto de 2012

Economia na escrita

    É certo que o tempo era outro, o mesmo sucedendo com a escrita.

     A economia é um princípio que também afeta a linguagem, mas, daí a tanto, é bom que haja contenção. 
   Assim se lia numa tenda de vendas e serviços, em plena feira medieval de Santa Maria da Feira, a troco da compra de um escudo (com brasão) e de uma espada: *GRATIS.
  Já lá diz a regra ortográfica: as palavras graves (ou paroxítonas) com a aberto, e ou o semiabertos, i ou u na sílaba tónica levam acento gráfico agudo sempre que terminam com 'i' ou 'u', seguidos ou não de 's'.
    A regra é antiga, apenas com alguma variação para o Português do Brasil, dada a sonoridade de algumas vogais que, na fala dessa variedade, se apresentam como semifechadas (logo, utilizando, na escrita, um acento circunflexo - ex.: 'tênis', 'ônus', 'bônus').
     E quanto a isto, não há acordo ortográfico possível (para bem de ambas as variedades linguísticas -  a continental europeia e a  não europeia).
    
   Que seriam do bónus, da íris, do júri, do lápis, da miosótis, do ónus e do ténis sem o acento? Simples: um exercício de curiosidade: ler essas palavras todas como se fossem palavras agudas. No mínimo, estranho! Ora, da mesma forma, há que ler a última palavra da foto. 

No castelo de D. Dulce, na Feira

     Regressar ao passado (bom!) para um melhor presente (maravilha!), que de crítico já tem que chega.

     Em terras de Santa Maria (da Feira) realiza-se mais uma viagem medieval - a décima sexta edição.
   Depois da vivência do ano passado, localizada no período histórico do 'Conquistador' D. Afonso Henriques (para alguns revisto como o "Fundador"), chega este ano, no período entre 2 e12 de Agosto, mais uma feira / viagem medieval.


   Na sucessão do pai surge o filho, D. Sancho I, o Povoador - à sombra do progenitor -, dando-lhe continuidade na ação de conquista e, depois, na de organização e povoamento. Assim cresceu o território e assim se estabilizou o reino, em pleno século XII.


     Entre tendas, animação, comes e bebes, a cidade vive a invasão dos turistas nacionais e internacionais. Revê-se o castelo altaneiro, encontram-se caras conhecidas, fazem-se algumas compras, come-se e bebe-se numa vivência consciente de que há passado para recordar e desejar.

    Espera-se, assim, pelo próximo ano, com D. Afonso II (O Gordo, em pleno século XIII) a reinar ou, em tempos de República, a presidir ao evento.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Dos canoístas e da modalidade hoje tão falada

    Em dia de medalha de prata (a saber a ouro) nos jogos olímpicos, com Fernando Pimenta e Emanuel Silva a sagrarem-se vice-campeões olímpicos em canoagem, há quem não saiba referir-se à modalidade.

    Por influência certa do termo 'canoísta', hoje mais do que uma locutora, em mais do que um canal televisivo, referiu-se ao feito do '*canoísmo' português.
      A associação das olimpíadas à cultura grega não tem correspondência com a origem do afixo para a designação da modalidade em causa.
      A partir de 'canoa' forma-se 'canoagem', pelo acrescento do afixo (sufixo) '-agem' - um elemento morfológico com proveniência múltipla:

i) do francês '-age', que permite a formação de nomes ora deverbais ora denominais, ou da influência provençal '-aitge', de base masculina, que se constituiu como empréstimo pelo século XIV e, por vezes, se associou ao elemento latino '-atĭcu-' - daí palavras como 'bagagem', 'barragem', 'carruagem', 'coragem', 'homenagem', 'hospedagem', 'linguagem', 'linhagem', 'mensagem', 'paisagem', 'passagem', 'personagem', 'plumagem', 'portagem', 'selvagem', 'vantagem', 'viagem'; 
ii) da terminação casual genitiva do latim '-go, ĭnis' presente em nomes como imagem (< imāgo, ĭnis), voragem (< vorāgo, ĭnis), cartilagem (< cartilāgo, ĭnis); das terminações conexas de nomes obtidos a partir da conversão de adjetivos construídos no latim com '-atĭcu-' (selvagem < selvatĭcu- < selva), os quais resultaram também, em via erudita, em algumas palavras com a terminação '-ádego', '-ádigo' e '-ágio'.
iii) de construções associadas a empréstimos de outras línguas, por sua vez já marcas pela recursividade de elementos e/ou pela combinação de processos morfológicos: percentagem (< provém do inglês 'percentage', por sua vez, obtido da expressão latina '[per][centum]' acrescida do afixo [agem].

     A produtividade do sufixo em questão revê-se na recorrente utilização no âmbito da formação de nomes:
. pela vulgarização do sufixo na construção de deverbais (decorrentes de verbos com a vogal temática '-a-', isto é, da primeira conjugação): abordagem (< abordar); açambarcagem (< açambarcar), acoplagem (< acoplar), adoçagem (< adoçar), aparelhagem (< aparelhar), aterragem (< aterrar), cobreagem (< [a]cobrear), estiagem (< estiar), estocagem (< estocar), galinhagem (< galinhar), gatunagem (< gatunar), lavagem (< lavar), matutagem (< matutar), postagem (< postar), secagem (< secar), soldagem (< soldar), vadiagem (< vadiar), zincagem (< zincar) - exemplos que traduzem o significado de ação, processo, estado, resultado da situação relacionada com o verbo de base; 
pela aglutinação do afixo na construção de nomes deverbais associados à segunda conjugação verbal: moagem (< moer);
. pela derivação associada a deadjetivais (particularmente na variedade do Português do Brasil): sacanagem (< sacana), bobagem (< bobo);
. pelo recurso na formação de vários denominais e/ou depredicativos, frequentemente com um sentido
       a)  coletivo, com ou sem registo pejorativo: costumagem / libertinagem (< costume / libertino), folhagem (< folha), gatunagem (< gatuno), malandragem (< malandro), pelagem (< pelo), politicagem (< política), ramagem (< ramo), utensilagem (< utensílio), vadiagem (< vadio), vitragem (< vitral);
       b) intensificador: voltagem (< volt);
       c) locativo: pastagem (< pasto).

       A canoagem é, portanto, designação formada segundo a produtividade do afixo'-agem' na formação de nomes denominais. Não é o caso de '-ismo', mais relacionado com a origem grega ('-ismós,oû) para formar nomes a partir de verbos gregos terminados '-ízó' e, por vezes, em '-ió', numa relação análoga com o afixo latino '-ismus,i': catequizar / catecismo (< katékhízó:katékhismós); helenizar / helenismo (< hellenízó:hellenismós); para construir, na área da medicina, nomes denominais que servem para designar agentes tóxicos (álcool > alcoolismo); para formar nomes relativos a movimentos sociais e/ou ideológicos, culturais, espirituais, profissionais na base de outros nomes (África > africanismo, anarquia > anarquismo, Aristóteles > aristotelismo, Buda > budismo, biografia > biografismo, enciclopédia > enciclopedismo, moda > modismo, símbolo > simbolismo, técnica > tecnicismo); para obter nomes deadjetivais (brasileiro > brasileirismo, tropical > tropicalismo).
    Ainda que a relação entre os sufixos '-ista', '-ico' e '-ismo' seja próxima não se pode concluir da implicação cognata dos afixos no que possa constituir uma família de palavras e/ou morfológica. Há relações de seleção a caraterizar os sufixos reveladoras de muita diversidade e complexidade quanto à atuação destes com as  suas bases (derivantes).
      Assim, ao canoísta associa-se a canoagem e não o '*canoísmo' hoje tão divulgado.

    Fica então um registo do feito histórico e olímpico, não compaginável com feitos linguísticos e/ou morfológicos televisivamente difundidos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Dos temas do mundo

    Entre o muito que possa ter acontecido neste mundo, a ponto de se fazer notícia, hoje falou-se de um aniversário.

     Nos telejornais, desde ontem, muito se tem falado dos setenta anos de Caetano Veloso. Houve até direito a uma breve reportagem sobre o percurso do cantor e compositor baiano, identificado como um dos maiores na música brasileira.
     Ainda que não seja dos meus preferidos, reconheço-lhe a qualidade, o espírito indomável e a dimensão interventiva, criativa e criadora que tem vindo a assumir no panorama cultural brasileiro ou, como ele gosta de o dizer, na e com a língua portuguesa.
    Títulos como "Alegria, alegria", "Os Argonautas", "Felicidade",  "Leãozinho", "Eu sei que vou te amar", "Menino do Rio", "Você é linda", "Língua" ou "Sozinho" são alguns dos que recordo na memória do meu apreço, para me centrar naqueles a que associo a voz do cantor já com mais de 50 álbuns de cantigas.
      Em 1967, no vinil "Caetano Veloso", ouvia-se este "Alegria, alegria"


     ALEGRIA, ALEGRIA

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...
Por que não, por que não...


    Os contributos ligados a outras vozes / interpretações são inúmeros na Música Popular Brasileira (MPB) - desde a irmã Maria Bethânia a nomes como Gal Costa, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Mascimento, Djavan -, além dos registos e ensaios mais experimentalistas com grupos / cantores do Brasil contemporâneo (de que os nomes de Ivete Sangalo e Maria Gadú são exemplo, entre os mais conhecidos neste canto à beira-mar plantado).

   Uma prova de  que o tempo não é tudo: as roupagens do presente no passado ajudam a dar futuro, num homem que se prevê atual(izado) e com visão.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Noite de estreia no cinema

     Em noite de estreia de mais um filme de Batman, 'O Cavaleiro das Trevas Renasce' (The Dark Knight Rises) fica entre a previsibilidade do enredo e a espetacularidade dos efeitos fílmicos.

     Estamos em tempos de precisar de heróis, nesta luta já clássica entre o mal e o bem.
    Com a crise instalada na cidade, a entrega desta última ao "poder do povo" não mais é do que a deturpação dos princípios, num maniqueísmo típico de quem se deixa dominar pela sede de poder e se deixa levar ou pela anarquia ou pelo jogo das perversões e dos interesses.


     É nesta metáfora dos tempos (modernos), de desafio mais psicológico do que físico, que Batman ressurge, num registo que fecha uma trilogia épica  (Batman, o Início - Cavaleiro das Trevas - O Cavaleiro das Trevas Renasce), de ação, em que o bem tarda, por mais previsível que seja o sucesso diante de provas a superar e da força dos vilões a enfrentar. 


      Depois de 'O Joker' (segundo filme), a cidade de Gotham vê-se nas mãos de Bane (Tom Hardy), um líder terrorista que ascende à luz, a uma posição ou a um ideal, ameaçando Gotham com a destruição nuclear. Batman vencê-lo-á (auxiliado pela Catwoman), libertando a cidade do perigo, é certo; mas várias descobertas e uma revelação de um outro vilão (desta feita uma vilã) acabam por prender o espectador a uma intriga artificiosa, também acompanhada de vários efeitos visuais e sonoros potentes, sem ter de se recorrer ao já habitual 3D.
   Três são os trailers oficiais para o filme, que põe fim a uma saga interpretada por Christian Bale, enquanto Homem-morcego portador da justiça e do bem, num mundo feito de destruição, caos e desordem.


     Assim se reconhece a necessidade de heróis.

   Com este novo filme de Christopher Nolan, retrata-se o ceticismo das vivências numa grande cidade e como este pode conduzir a uma situação ainda mais perversa - mensagem que teve tanto impacto quanto a estreia da película nos Estados Unidos da América (Colorado), onde um estudante disparou indiscriminadamente para uma plateia (possíveis reflexos de heróis que se afirmam num cenário de violência e adrenalina banalizado, como os do filme em causa).

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Entre 'estadias' e 'estadas'... fico com a oferta

   Em período de férias, e mesmo antes, os anúncios publicitários das agências de viagens só falam em 'estadias'...

  Há uns tempos, conforme o atesta o Dicionário de Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo (1996), seria caso para dizer que a viagem era de barco e que a paragem (ou a 'parada', como dizem os nossos irmãos brasileiros) seria aquela que o capitão do barco determinasse em certo porto ou local de permanência.
    Poderia ainda ser o caso de a mobilidade conseguir-se num qualquer tipo de veículo e o direito (a pagar) para permanecer num determinado local.
  Para qualquer outro contexto, o termo era mesmo 'estada', nomeadamente o que dava conta de uma pessoa se manter em permanência em qualquer tempo / lugar.
   Hoje, 'estadia' é termo comum, para não dizer mesmo que 'estada' surge preterido no uso. Os dicionários lá contemplam ambas as entradas, chegando o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa () e outros de uso mais corrente, a tomar a 'estadia' como sinónimo de 'estada' e vice-versa  nas avançadas acepções numéricas contempladas nas devidas entradas.
     Mais um sinal de evolução da língua, de como esta não é estável no tempo (como estratégia de sobrevivência). Entre estádios de deriva, o tempo dirá qual a forma que o uso fará vingar.

    Para não ser acusado de purista da língua, concedo na utilização dos termos como convergentes, mas lá que os distingo no meu uso não tenho dúvida (prova de que sou do século passado). Daí que prefira as ofertas em 'estadas' superiores a qualquer número de noites. 

domingo, 29 de julho de 2012

Venha o que vier...

      Duas vozes, um filme, uma história para afirmação de um amor eterno.

      Moulin Rouge (2001) é o título de um filme, um musical realizado por Baz Luhrmann onde se pode encontrar uma composição com um dos mais belos duetos, nas vozes de Nicole Kidman (no papel de Satine) e Ewan McGregor (no de Christian): 'Come what may'.


     Composto por David Baervald para o filme 'Romeu e Julieta', o trecho acabaria por ser reescrito para um novo filme, também com cores trágicas na intriga. A letra faz lembrar Pessoa e a frase que pronunciou no fim da vida: "I know not what tomorrow will bring". Tem, contudo, origem numa outra referência da literatura: a do texto shakespeariano intitulado Macbeth

        COME WHAT MAY

Never knew I could feel like this
Like I've never seen the sky before
Want to vanish inside your kiss
Everyday I love you more and more


Listen to my heart, can you hear it sings
Telling me to give you everything
Seasons may change winter to spring
But I love you until the end of time

Come what may, come what may
I will love you until my dying day

Suddenly the world seems such a perfect place
Suddenly it moves with such a perfect grace
Suddenly my life doesn't seem such a waste
It all revolves around you

And there's no mountain too high no river too wide
Sing out this song and I'll be there by your side
Storm clouds may gather and stars may collide
But I love you until the end of time

Come what may, come what may
I will love you until my dying day
Oh come what may, come what may
I will love you

Suddenly the world seems such a perfect place...

Come what may, come what may
I will love you until my dying day


    Num futuro composto do que haja de mais desconhecido, o título da música sublinha uma certeza: a de um amor assumido como eterno, por mais trágico que se revele o destino (assim dele já fiz referência noutros apontamentos).

   Acreditando ou não na sua existência, dedicar-lhe letras de canção e cantá-lo resultam em experiências dignas de relembrança.
      

sábado, 28 de julho de 2012

'So british' ou 'too british'

     Noite para a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, em Londres.

   A máxima do 'mais rápido, mais alto, mais forte' retoma-se em ano de jogos olímpicos, desta feita realizados em Londres. O lema, instituído desde 1924 por Pierre de Coubertin nos jogos da era moderna, apoia-se nas palavras latinas 'Citius, Altius, Fortius'.
    O espírito universal comunitário, livre de credos ou raças, revê-se nos cinco anéis olímpicos entrelaçados, representando os cinco continentes que se unem numa efeméride desportiva, realizada de quatro em quatro anos, para expressão dos limites psicológicos e físicos a que se dedicam muitos atletas. A música oficial de 2012 ("Survival"), interpretada pelos Muse, explora esses limites, ecoando acordes de 'We are the Champions' dos Queen, para não falar mesmo da versatilidade de registos sonoros e vocálicos representados na composição.

Vídeoclipe oficial com a música dos Muse

   Quanto à cerimónia de abertura, revelou-se tipicamente 'british', numa afirmação dos sinais contemporâneos e até imperiais da 'old England'. A terra de Sua Majestade a Rainha Isabel II está no centro de muitas heranças para a humanidade: a revolução industrial, a literatura infanto-juvenil, o pop e as 'novas ondas' musicais, o futebol, o cinema e o teatro, a moderna instituição monárquica. De tudo isto se compôs o evento artístico, com as figuras representativas dessa ilha europeia que se individualiza face ao próprio continente, para não dizer ao mundo com a sua "Commonwealth". Neste sentido, o espetáculo revelou-se "too british".


   Chegou mesmo a soar despropositado um ou outro pormenor, como o da rainha envolvida numa curta-metragem com esse agente que se dá pelo nome de Bond... James Bond (como que a precisar de alguma divulgação internacional para o novo filme de 007, prestes a estrear); o de Mr. Bean a sonhar ser vitorioso numa corrida, ao som de "Chariots of Fire", em que tudo parece valer (até o cómico devia ter limites).

     Veremos o que o evento trará. Quanto mais não seja, que se sublinhe esse pensamento-matriz que se explicita no juramento olímpico: "A coisa mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas participar, assim como a coisa mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta. O essencial não é ter vencido, mas ter lutado bem."

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Tudo uma questão de... trevos

    Nas arrumações do escritório, cruzei-me com uns trevos!

  Podia tê-los colocado ao lixo, mas serviram para um arranjo "artístico" - quanto mais não seja, pela reutilização feita, houve já razão para não ter dado o fim inicialmente destinado.
   Da inspiração prosseguiu-se para a criação - não sei de que tipo (poética? versificatória? livre? lúdica?).
   Do "Trifolium" pouco há a dizer, quando, comummente, respeita o nome que tem. Um trevo é planta de três folhas e, na banalidade que representa, não traz novidade. Só a certeza do que o tempo dá: o que foi tornou-se diferente, sem futuro.
   São três folhas encontradas no meio de outras tantas que compunham uma agenda com algumas notas esparsas, não no tempo das situações nem no da escrita. As agendas têm destes mistérios: a destempo, tornam-se meras folhas, funcionais apenas por servirem para registar o que a memória possa trair, no esquecimento das horas ou até dos dias que nelas não figuram.
   Tivessem estes trevos quatro folhas e a "sorte" seria outra. Talvez já não estivessem comigo, na ânsia de cumprir a realização dos desejos a que são votados. Estariam na mão de três outras pessoas, numa cadeia ou numa rede que partilhasse as energias necessárias à concretização de sonhos - quanto mais não fosse à da comunhão entre elas.
   Tivessem estes trevos quatro folhas e possivelmente eles tenderiam algo mais para uma sorte (não fosse a falta de 'v' e daria um belo anagrama de 'trevos'!), o que daria à produção escrita uma outra qualidade.

  Talvez, um dia, a sorte se cruze comigo e a criação seja digna de "artista".

domingo, 22 de julho de 2012

Reencontros

     Passa o tempo e o que parece de ontem tem já a soma dos dias, dos meses e dos anos.

    Lembro-me das caras e dos lugares que ocupavam numa sala de aula que, por mais que ainda a ocupe, de tão mudada já não é a mesma.
     Também o tempo lhes mudou a fisionomia dos corpos e dos rostos: hoje são homens e mulheres à espera do que a vida lhes possa trazer, entre os passos que vão dando, com ecos do que os mais velhos lhes foram transmitindo. Lembram-se de feitos e ditos; dizem que valeu a pena; evocam tempos que foram tão difíceis, mas que o tempo lhes comprovou serem dos mais fáceis.
     E assim se cumpre o ciclo da vida, tomado de saberes e sabores.


     Os temas de conversa são variados, na sede de partilhar o que não está a ser vivido por todos, mas que se quer participado em honra e em memória de vivências (ainda e felizmente) queridas e presentes.

    Depois de cinco anos passados, de adamastores ultrapassados, permanece o espírito jovem e alegre para as oportunidades que surgirem no caminho. Espírito são em grupo são em lugar de reencontro pleno de sabor.
     

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Amor sem fim...

    Para quem nele acredite, há vozes que o cantam.

    Há versões musicais que se tornam difíceis de avaliar quanto à qualidade. 
    Diz-se que não há amor como o primeiro e, no que toca a canções, um dueto já por si perfeito torna-se difícil, dificílimo de igualar (mesmo que isso não signifique imitar).
    A década de 80, no ano de 1981, viu um fracasso fílmico dar lugar a um sucesso musical escrito por Lionel Richie e partilhado, na voz, com Diana Ross.


     A dupla teve 'cover', doze anos depois, com Mariah Carey e Luther Vandross - duas vozes acrobáticas para uma melodia serena e romântica.

Versão ao vivo de "Endless Love" (Albert Hall, 1994)

ENDLESS LOVE

My love
There's only you in my life
The only thing that's right


My first love
You're every breath that I take
You're every step I make

And I
I want to share
All my love with you
No-one else will do

And your eyes (your eyes, your eyes)
They tell me how much you care
Oh, yes
You will always be
My endless love

Two hearts
Two hearts that beat as one
Our lives have just begun

And forever (forever)
I'll hold you close in my arms
I can't resist your charms

And I
I'd be a fool
For you, I'm sure
You know I don't mind (no, you know I don't mind)
You mean the world to me, yeah
I know I've found in you
My endless love

Whooooa
And I
I'd play the fool
For you, I'm sure
You know I don't mind (you know I don't mind)
Oh, yes
You'd be the only one
'Cause no-one can't deny
This love I have inside
And I'll give it all to you
My love (my love, my love)
My my my
My endless love

    Duas faces para uma mesma moeda, a de um texto e de uma música colocados nos primeiros vinte lugares do TOP-100 das Melodias de Sempre.

      Ganha o amor por uma das mais emotivas músicas que o cantam.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sexta-feira 13... Azar?

      Dia aziago, a sexta-feira, como diria Garrett; ainda para mais 13!

      Belo dia para começar a segunda fase de exames nacionais!
    A prova de Português do ensino secundário acompanhou o toque de entrada. Assim se compôs a segunda oportunidade para muitos que pretendem ver a classificação da primeira frase melhorada. Os resultados, não tendo sido maus (acima da média nacional em um-dois valores), não estiveram na linha do que parecia ser uma prova acessível.
    Consultado o enunciado da segunda prova, é curioso que ainda mais fácil se me afigura o exame (com uma ou duas questões mais problemáticas). Pelo menos, os meus alunos que se propuseram a realizá-lo têm quase obrigação de melhorar os resultados, a julgar pela resolução do último teste (na linha da compreensão / interpretação de um excerto de Memorial do Convento); pela do segundo, no início do segundo período (na aposta em Álvaro de Campos, segundo a fase modernista, futurista e vanguardista contemplada, precisamente com excertos de 'Ode Triunfal' e 'Ode Marítima'); pela do primeiro teste, no qual solicitei uma dissertação sobre a importância da mulher na sociedade atual (a que, no exame, correspondeu o papel dela, acrescentando-se também o do homem).
     Ainda no início do ano, uma aluna minha escrevia o seguinte na sua dissertação sobre a importância do feminino na sociedade em geral:

    "O feminino é sinónimo de origem de vida, não fosse a mulher a responsável pela gestação e por dar à luz o rebento que tanta felicidade traz às famílias. Se, até em termos morfológicos, o corpo da fêmea é dotado de tão bela realidade, é injustificável qualquer razão para ter havido tanto desprezo ou rebaixamento sociais."
(A.I.L.T.)

    Este era um parágrafo perfeitamente aproveitável para o texto de reflexão agora solicitado. Haveria que acrescentar algo para o papel masculino, é certo; mas, na desejável lógica de complementaridade e de comunhão, não faltariam argumentos e exemplos que pudessem ir ao encontro do enunciado proverbial de que "por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher" (para não assumir que o contrário também é verdadeiro: "por trás de uma grande mulher pode e deve haver um grande homem").

     Caso para dizer que mais coincidente não podia ter sido o trabalho deste ano, assim o tenham os alunos recuperado e conseguido provar. Nesta ordem de ideias, este não foi um dia de grande azar (pelo menos, no que toca a este aspeto).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Para quem precisa de acreditar

      Na falta de confiança, no rumo das incertezas, no futuro que amedronta, para tudo há uma saída.

      Uma canção transporta a mensagem: "When You Believe..." (Just Believe).


    Alguém me dizia que chorava quando ouvia esta canção. Acredito (pois o mesmo se passou quando a escutei pela primeira vez e procurei disfarçar a lágrima que caía mal as luzes do cinema abriram para dar saída aos espectadores do "Príncipe do Egipto"). 
    Já lá vão muitos anos e a força da letra, da música e das vozes mantém-se. Por ironia, uma das intérpretes parece que se esqueceu do que (nos) quis transmitir.

        WHEN YOU BELIEVE

Many nights we prayed
With no proof anyone could hear
In our hearts a hope for a song
We barely understood
Now we are not afraid
Although we know there's much to fear
We were moving mountains
Long before we knew we could, whoa, yes 

There can be miracles
When you believe
Though hope is frail
It's hard to kill
Who knows what miracles
You can achieve
When you believe somehow you will
You will when you believe 

[Mmmmmmmmmyeah]
Mmmyeah
In this time of fear
When prayer so often proves in vain
Hope seems like the summer bird
Too swiftly flown away
Yet now I'm standing here
My hearts so full, I can't explain
Seeking faith and speakin words
I never thought I'd say 

They don't always happen when you ask
And it's easy to give in to your fears
But when you're blinded by your pain
Can't see the way, get through the rain
A small but still, resilient voice
Says love is very near, oh [Oh]

There can be miracles (Miracles)
When you believe (Boy, when you believe, yeah) [Though hope is frail]
Though hope is frail [Its hard]
It's hard to kill (Hard to kill, oh, yeah)
Who knows what miracles
You can achieve (You can achieve, oh)
When you believe somehow you will (Somehow, somehow, somehow)
Somehow you will (I know, I know, know)
You will when you believe [When you]
(Ohoh)
[You will when you]
(You will when you believe)
[Oohoohooh]
[Oh... oh]
[When you believe]
[When you believe]


     Uma letra de fé, de esperança, na consciência das limitações, da fragilidade que elas possam evidenciar. A possibilidade de vencer está em quem acredita e na resiliência. O Óscar de 1999 para esta música também foi um sinal de como é possível crer num dom e num valor maior.
     
     Na variância do que seja o objeto da crença, esta é a mensagem a que todos nos devemos agarrar. Os sucessos a construir terão sempre mais significado se resultarem daquilo em que acreditamos.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Uma só noite

     Tradução para a letra de uma canção em voz negra.

      Já por várias vezes tenho feito referência à negritude da voz como uma das forças mágicas para algumas interpretações musicais.
     São múltiplos os exemplos, o de Jennifer Hudson é mais um para uma música que já teve várias versões, uma das mais recentes com o filme Dreamgirls, numa interpretação de Beyoncé ritmada para espetáculo de dança.


     Prefiro a de Jennifer Hudson, em jeito de balada e numa interpretação fortemente emotiva, para uma canção datada de 1981 aparecida num musical da Broadway (na voz de Effie White) e que veio a figurar no filme homónimo surgido em 2006.


      ONE NIGHT ONLY

You want all my love and my devotion
You want my loving so, right on the line
I had no doubts that I could love you, forever
The only trouble is, you really don't have the time

You've got one night only, one night only
That's all we have to spare
One night only, lets not pretend to care
One night only, one night only come on big baby come on
One night only, we only have 'till dawn

When the morning this feeling will be gone
Has no chance going on
Something so right has got no chance to live
So lets forget about chances, Its one night I will give

One night only, one night only you'll be the only one
One night only, then you'll have to run
One night only, one night only there's nothing more I say
One night only, once get in the way

One night only, one night only, one night only



      Registos de romantismos típicos do R&B.
      

domingo, 8 de julho de 2012

Não há duas sem três... ou sem quatro.

      Do herói Homem Aranha às escolhas da vida... herói e tema para uma tarde.

      Em tempo de quarto filme do Homem Aranha (The Amazing Spider-Man), a tarde de hoje foi passada frente à televisão - como já não o fazia há mais do que tempo -, vendo ainda a que foi a terceira película (que perdi no circuito cinéfilo).
      O efeito não terá sido, por certo, o mesmo, mas não deixou de me prender por uma intriga feita do previsível (com o herói a vencer as forças perversas, bem como a salvar a sua amada), dos efeitos técnicos e sonoros marcantes, para não falar também de duas linhas temáticas de interesse: uma, até os heróis têm de fazer escolhas difíceis, mesmo quando há que recusar o que lhes possa dar maior força e/ou tornar mais invencíveis e admirados; outra, até forças contrárias ao herói não deixam de merecer perdão, nomeadamente o deste último.


         Para tudo é necessário ter preparação.
      Peter Parker (Tobey Maguire), o discreto fotógrafo-repórter que protege a cidade, é tentado a assumir-se com poderes ainda mais extraordinários, mas tem de fazer uma escolha: manter-se tal como é ou passar a revelar algo que o descaracteriza. É verdade que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades e não é menos certo que o super-herói demonstra ter valores bem sólidos, como o amor por Mary Jane Watson (a namorada ruiva, na versão fílmica das três primeiras produções) e a amizade por Harry Osborn (James Franco).
      Entre os vilões, há um repórter rival (chamado Eddie Brock) tanto na função jornalística como no interesse por uma jovem admiradora que, uma vez salva pelo Homem-Aranha, nutre por este último uma admiração sem par. Há ainda o Homem-Areia (a personagem Flint Marko), que, no final, mais não é do que uma vítima, um pai que quer salvar a filha a todo o custo, mesmo que isso signifique manter-se no papel de foragido, depois de já ter sido preso e ter sido acusado (injustamente) de matar o tio de Peter Parker - a verdade é que foi cúmplice e se encontrava no local e no momento errados; por isto, acaba por ser perdoado. Há, por fim, Harry Osborn que, morrendo, não deixa de descobrir o verdadeiro significado da amizade, para lá dos interesses e dos sentidos de vingança (sem sentido) que o fizeram agir contra o seu velho amigo de escola.

     Pelas fragilidades que o herói revela, pelas escolhas que faz, pelo exemplo mais alto que atribui à amizade e ao amor, pela sensibilidade e pelo perdão que o liberta da maior das tensões internas, este foi um filme bom de se ver numa tarde de sábado a cheirar a autêntico fim de semana. Além disso, foi mais um exemplo de ficção para o qual não deixar de ver muita realidade.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Da ficção(?) tornada realidade(?)

    O dia é universalmente celebrado pela independência dos Estados Unidos da América, ocorrida em 1776; este ano pode ter-se escrito uma nova página da História da Humanidade.

     A possível descoberta do Bosão de Higgs (genericamente, uma partícula subatómica que confere massa às restantes partículas), também conhecida como a "partícula de Deus", revela-se um passo crucial para a compreensão do universo.
    Segundo o CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire), trata-se de uma partícula nova com características de massa e comportamento semelhante ao Bosão de Higgs: partícula resultante da colisão de outras que, sem massa, se deslocam à velocidade da luz num campo supostamente vazio, conferindo à primeira uma massa visível.

    
      Mais um passo gigante para o Homem.
    E o que era ficção (ou nem tanto) assume-se como realidade. Basta para tanto ler o excerto transcrito da obra Anjos e Demónios, de Dan Brown, romance que inspirou filme homónimo.
_______________________________________
    "- O que significa LHC? - perguntou, esforçando-se por não parecer nervoso.
     - Large Hedron Collider - respondeu Kohler. - É um acelerador de partículas.
     Acelerador de partículas? Langdon conhecia vagamente o termo. Ouvira-o pela primeira vez durante um jantar com alguns colegas na Dunster House, em Cambridge. Um dos membros do grupo, um físico chamado Bob Brownell, aparecera no tal jantar lívido de raiva.
    - Cancelaram-no, os filhos da mãe! - desabafara.
    - Cancelaram o quê? - perguntaram eles em coro
    - O SSC!
    - O quê?
    - O Superconducting Super Collider.
    Alguém encolhera os ombros. (...)
    Quando, finalmente, acalmara um pouco, Brownell explicara que um acelerador de partículas era um grande tubo circular ao longo do qual eram aceleradas partículas subatómicas. Ímanes distribuídos por toda a circunferência do tubo eram ligados e desligados em rápida sucessão de modo a "empurrarem" as partículas até que elas atingiam velocidades tremendas. Na aceleração máxima, as partículas circulavam pelo tubo a mais de duzentos e noventa mil quilómetros por segundo.
   - Mas isso é quase a velocidade da luz! - exclamara um dos professores.
   - Pois é - dissera Brownell. Explicara então que acelerando duas partículas em direcções opostas e fazendo-as colidir, os cientistas conseguiam decompô-las nas suas partes constituintes e ter um vislumbre dos componentes fundamentais da natureza.
   - Os aceleradores de partículas - concluíra Brownell - são essenciais para o futuro da ciência. A colisão de partículas é a chave para a compreensão dos elementos com que foi construído o Universo. (...)

   -  O CERN tem então um acelerador de partículas?, pensava Langdon enquanto o elevador continuava a descer. Um tubo circular para esmagar partículas. (...)
     - O tal acelerador de partículas, fica algures neste túnel? - perguntou Langdon, em voz baixa. (...)
     - Aí o tem.
     Langdon olhou para o tubo, confuso.
     - Aquilo é o acelerador? - O artefacto não se parecia nada com o que imaginara. Com cerca de noventa centímetros de diâmetro, corria em linha recta, horizontalmente, a todo o comprimento visível do túnel, antes de desaparecer na escuridão."

in Dan Brown ([2000] 2005: 72-74) - Anjos e Demónios
cap. XV, 2ª ed., Lisboa, Bertrand Editora
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   Uma possibilidade à espera de confirmação. Cinquenta anos passaram desde a formulação da hipótese e a criação de condições para a constatação da possibilidade. É interessante o cenário, a descoberta, particularmente nos tempos em que se quer tudo tão imediato.