domingo, 20 de outubro de 2013

Nasceu Rimbaud.

       1854: o ano no dia em que nasceu Rimbaud.

       O autor do poema "Voyelles" e "Une Saison en Enfer" (em verso livre) - na sua personalidade instável, cáustica, inquietante e libertina - acabou por se tornar num dos poetas mais influentes do simbolismo, graças à divulgação que o amante Paul Verlaine (autor de Les Poètes Maudis, 1884) promoveu, publicando a obra completa do jovem companheiro.
   Jean-Nicolas Arthur Rimbaud é comummente retratado como o poeta adolescente e o génio revolucionário, cedo desaparecido da vida (aos 37 anos). A sua obra, maioritariamente produzida na juventude (entre os 16-19 anos), é referencial para o movimento finissecular decadentista, além de ter inspirado muitos escritores, pintores, músicos das primeiras décadas do século XX (Modernismo). Quis experimentar tudo (um pouco à maneira do que o pessoano Álvaro de Campos quis - sentir tudo como se fosse todas as pessoas, numa existência encarada como universal), para se tornar no primeiro poeta do século. Morreu em 1891.
      O filme "Eclipse de uma paixão" (no original, "Total eclipse"), dirigido por Agnieszka Holland e datado de 1995, retrata o encontro entre o veterano Verlaine (David Thewlis) e o jovem Rimbaud (Leonardo DiCaprio), poetas que construíram uma amizade, descobriram o amor e produziram alguns dos mais importantes e famosos poemas franceses. 


     As amarras preconceituosas da sociedade, a intensidade da paixão entre os poetas, o choque de personalidades e idades destruíram a intimidade; ficaram, acima de tudo, as experiências e as vivências a matizar e a inspirar as palavras, os versos, rendidos a um encontro que marcou a grandiosidade artística, estética, literária desde o fim do século XIX.

       Rimbaud: mente original, controversa, sem limites. Uma visão de mundo a anunciar um modernismo literário que só podia ser visto como sinal de vanguarda para o tempo.

sábado, 19 de outubro de 2013

Espaço + Tempo = ???

      Isto é o que dá quando se quer fazer misturas.
   
     Quando a propósito de cronotopo (conceito que Michael Bakhtine, no estudo da narrativa, avançou para se referir à junção das duas categorias numa aproximação funcional e simbólica, por elas convocadas para a leitura literária e significativa assumida num conto, novela ou romance) alguém se lembrou da composição habitual do termo, a questão impôs-se:

      Q: Como é que se escreve espácio-temporal? Com hífen ou já o perdeu?

     R: Talvez já o tivesse perdido antes, ou talvez não. Na verdade, este é um dos termos compostos que introduz alguma instabilidade ortográfica, inclusivamente pelo uso que, anteriormente ao Acordo Ortográfico atual (datado de 1190 e com as alterações aprovadas em 2008), já admitia as grafias espaciotemporal e espácio-temporal (dependendo de se encarar, respetivamente, 'espacio' como redução do adjetivo 'espacial' ou o nome 'espácio' com entrada dicionarizada).
     Após o acordo, alguns dicionários têm optado por manter a  diferenciação: 'espaciotemporal' (Dicionário da Língua Portuguesa Houaiss, do Instituto Houaiss; Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora); 'espácio-temporal (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa).
      O facto de alguns destes dicionários adiantarem a entrada 'espácio' (como palavra autónoma) e a leitura do artigo primeiro da Base XV do Acordo são as razões para entender a última proposta (espácio-temporal) como a mais concordante com a letra do Segundo Protocolo Modificativo, aprovado na Assembleia da República em 2008 e a seguir transcrito (sendo o sublinhado da minha responsabilidade):

«BASE XV 
Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares 
1.º Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arcebispo-bispo, arco-íris, decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião, rainha-cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático, afro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira; conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.»

     Caso para dizer que, até lei em contrário, as categorias espácio-temporais se manterão hifenizadas, a bem da autonomia de 'espácio' contemplada por alguns dicionários de referência.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Um adjetivo... duvidoso

     Não é nenhuma categorização nova. A culpa nem é do adjetivo. Fiquei com dúvidas, pela simples formulação (ainda bem que não é nehum teste, pois nem sei o que responder).

     O contacto foi tão simples quanto este:

     Q: Só para tirar uma dúvida: como classificas o adjetivo 'ortográfica' em 'revisão ortográfica'?
                      
                    Trabalho de Christian Robert-Tissot (1983)
   R: Falta-me naturalmente o critério da classificação. Pretendes classificação sintática? O segmento facultado não me chega; preciso de toda a frase. Será a classificação morfológica? Espero que sim, já que, face ao critério da classificação quanto à classe de palavras, está assumido (e bem) que a palavra é um adjetivo (pela propriedade que tem de caracterizar um nome, com o qual concorda em género e número).
     'Ortográfica' é um adjetivo relacional, na linha do já exposto em apontamento anterior. Tal como 'grafia > gráfica', ortografia é a base nominal para se formar o adjetivo 'ortográfica', pelo recurso ao sufixo adjetival '-ico / -ica'. A sua posição à direita do nome e a sua não gradualidade são pistas consistentes dessa classificação morfológica.

     Espero ter sido certeiro no critério. Caso contrário, aguardo maior especificação.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"Apuntamentu du Nuórte"

      Circula no facebook uma imagem com algumas notas da "bariedáde" do "Puôrto", com a "debida internacionalizaçõue".

                                     Imagem da IllustrArt
       Algumas das expressões típicas  figuram na imagem, com uma pequena ilustração e a tradução, nem sempre fiel, do significado atribuído: o "c'a grizo" é mesmo a exclamativa "Que frio!", que também tem a variante do "que brióle!"; o "arrostar postas de pescada" é mais abrangente, para todo aquele que fala daquilo que não sabe. As restantes são mesmo típicas aos ouvidos do Porto.
       Claro que faltam os "bitorinos" (sapatos) para "dar de frosques" ou o também comum "bazar" ou "pôr-se na alheta"  (fugir). Nada de confundir com "abanar o capacete", porque isso só quando chega a hora da dança e nada como "pôr-se à coca" para apanhar o ritmo.
        Destas e muitíssimas outras expressões, nada como ler os Heróis à Moda do Porto (publicação da editora "Lugar da Palavra" e com a coordenação do professor João Carlos Brito), que bem podia ser à moda do Norte, para ser mais correto, pois tudo o que está para lá do Douro já é mouro.
        Para lá do escrito, nada como ouvir os Trabalhadores do Comércio, na clássica (já dos anos oitenta do século passado) cantiga "Ou tás quetinho ou lebas no focinho" (com letra imprópria para os ouvidos e os olhos habituados ao registo mais padronizado da língua):


TÁ QUETINHO OU LEBAS NO FOCINHO

Ou tás quetinho ou lebas no focinho (4x)
Ou tás quetinho e caladinho
Ou tás quetinho ou lebas no focinho

Já num quero mais comer
Já tou farto de ir p'à escola
O qu' eu gosto é de correr
E d' andar ao chuto à bola.

Eu num bisto mais calções
Nem bebam do qu' eu tenho
Não me deiam encontrões
Quando caio eu não saio.

Cala essa boca, não digas isso, isso é pecado
Olha c'o pai e o Jesus fica zangado.
Num custa nada pôr o sabudo a ser delicado

                                Refrão

Já tou farto de ir à missa e de rezar o Padre nosso
E num gosto que m' obriguem a comer do que num gosto
Só me impingem babozeiras
Só me querem magoar
E são tantas as asneiras mas eu tenho que calar.

Cala essa boca, não digas isso, isso é pecado
Olha qu' o pai e o Jesus fica zangado.
Eu só pergunto mas ele fica todo atrapalhado.

                                Refrão (x 2)


      Este apontamento ficou um hino ao linguarejar tripeiro, "p'ra ninguém mandar bire" (refilar, discutir, reclamar ou protestar).

        É o que faz ser um "hóme do Nuorte, carago!"

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Provérbio(s) polémico(s)

      Os provérbios têm destas coisas: adaptam-se às circunstâncias e associam-se a valores e a vivências culturais que, por vezes, contrastam em si mesmos.

      Nesta medida, entende-se que para o "Quem espera sempre alcança" também haja o "Quem espera desespera". À expectativa positiva do primeiro corresponde a negativa do segundo. E muitas vezes o que se espera não se encontra na esfera possível do nosso comum entendimento. Vem este apontamento na sequência de um pedido:

     Q: Gostaria que publicasse aqui uma explicação para a gaffe (ou não) da Manuela Moura Guedes, com o verbo "Dezembro frio... calor no esti(l)o".Tem gerado muita polémica e gostaria de ter a sua opinião como professor de Português. 

     R: Não tendo assistido à emissão do "Quem quer ser milionário" a que faz referência, tive já conhecimento de que uma concorrente falhou numa questão, quando lhe era solicitado que completasse o provérbio "Dezembro frio, calor no ...". Falhou a concorrente, mas, pelos vistos, não estava contemplada a hipótese mais consabida e/ou previsível na construção (estio). E, assim, entre as alternativas fornecidas (domicílio, aconchego, abrigo, estilo), pretendia a equipa responsável pelo concurso que a resposta fosse "Dezembro frio, calor no estilo". Soube ainda que a locutora reagiu à polémica entretanto surgida, alegando o facto de o patamar / nível (elevado) do prémio exigir uma versão menos conhecida do enunciado, a qual podia ser atestada em várias fontes, nomeadamente "o site da Literatura".
      Desconheço o alegado site (ainda por cima definitivizado, como se só houvesse um e/ou de reconhecida qualidade) e ponho em dúvida que possa ser um referencial fidedigno, a julgar pelos muitos sites que divulgam informação literária de credibilidade muito duvidosa. Conheço algumas variantes paramiológicas que apontam no mesmo sentido de contrastar o tempo frio com o calor, o inverno com o verão (é o caso de "Chuva em janeiro e sem frio dá riqueza ao estio"); sei ainda que um dos mecanismos mais comuns na construção dos provérbios é o recurso a sonoridades (aliterações, assonâncias) que (o) "estilo" quebra, por certo. Por rima interna, daria por certa a combinação frio / estio; e se estivesse no concurso, naqueles momentos / diálogos de explicitação do que vai no pensamento à hora da escolha, diria que nenhuma das alternativas correspondia a uma previsibilidade de resposta.

     Conclusão: dou por mais certa a chuva e o frio na combinação com o calor e o estio do que o estilo de qualquer pessoa que seja a querer impor o que uma construção linguística (também) não deixa antever. É que os provérbios são construções da língua, mais ou menos estabilizadas e com características que não se dão com um qualquer estilo de resposta, por mais variedade que possa existir (inclusivamente a da descontrução) e muito menos fora do habitual saber popular.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Intrigas... na sintaxe

     Isto é o que dá: quem se mete com intrigas...

     A questão é de sintaxe, tanto na função como na inversão.

     Q: Olá, Vítor. Como é que classificas "intrigante", em termos de função sintática, na frase "Nesse ano, os editores acharam intrigante que o acordo ortográfico mudasse tanto a escrita"?

    R: Viva. Trata-se de um predicativo do complemento direto, conforme se pode verificar pelos argumentos seguintes: é utilizado o verbo 'achar' enquanto transitivo-predicativo, sinónimo de 'julgar', 'considerar', 'avaliar'; a estrutura argumental deste tipo de verbos seleciona um complemento direto mais um predicativo (caracterizador desse complemento).
       Não sei se a dúvida se prende com a localização do adjetivo 'intrigante', mas a inversão é habitual nos contextos de complemento direto extenso na estrutura transitiva predicativa (nomeadamente com uma configuração oracional, como é caso da subordinada completiva da frase dada: 'que o acordo ortográfico mudasse tanto a escrita'). 

      A frase não é, por certo, alusiva à atualidade do acordo. Para mim, é o próprio enunciado que se revela intrigante.

domingo, 13 de outubro de 2013

Das notícias para um país sem futuro

    As notícias são graves, o descrédito é enorme. Triste do país que já não crê nos que o governam nem nos que o querem governar.

     De novo, os poetas falam mais alto, certeiros. 
     Não interessa onde vão, mas o que viram e o que encontraram (tão diferente do ponto de partida).

"Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?"

     Em que hei de pensar? Sei no que penso e no que não é por certo bom.
    Não sei no que hei de pensar, pois começo a não ver qualquer sinal de esperança, muito menos naqueles que só se governam, por já não governarem ninguém mais. Entre os que são desonestos, os que já o foram e falam (sem qualquer autoridade) na desonestidade daqueles, há ainda os que vendem a banha da cobra, para os que ainda estão à espera de soluções miraculosas.
    Nos versos de Álvaro de Campos (in "Tabacaria", 15 de janeiro de 1928), há pretérito tão presente que se revê no futuro que hoje vivemos, tão longe de ser diferente do que foi.
   Não há futuro com o presente constantemente ameaçado por quem se mostra cego, surdo e não mudo (porque fala de mais, antes do tempo e sem qualquer credibilidade).

     Sinais dos tempos (os que se vivem e os que estão para vir), mas que a poesia já encontrou, denunciou a todos os que a quiseram ler. Lembrando outro poeta, diria: não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Comida... para a fome de saber

     Andam por aí uns casos a complicar mais o que já é de si complicado.

     A questão prende-se com o ensino da formação de palavras.

    Q: 'Comer' é a base. Comida pode ser considerada derivação não-afixal? O livro tem o exercício e não vejo solução para ele.

   R: A forma 'comida' advém de um processo flexional (género feminino) aplicado a 'comido', termo atestado na língua desde o século XV. Ora, nesse estádio linguístico terá ocorrido a natural derivação sufixada ('com-' > 'com+ID+O), para construir a forma de particípio passado. A partir daí, a flexão de género permitiu a construção do nome (comida).
      O processo não pode ser entendido como derivação não-afixal, porque esta implica a construção de um nome deverbal (a partir de um verbo) pela troca, no radical da palavra, de um afixo de natureza verbal por um de flexão nominal, conforme se pode verificar nos sublinhados seguintes: 'rouba(r)' > roubo. Ora, não é isto o que sucede com 'comida', que já evidencia uma sucessão encadeada de processos derivacionais, em fases distintas.

      Espero ter ajudado e ter sido esclarecedor, para o encontro (outro termo de derivação não-afixal) com a solução.

domingo, 6 de outubro de 2013

Ser Português

     É com este título que acordo no fim de semana, a propósito do evento Escritarias.

    Fundado em 2007 na cidade de Penafiel, este sucesso cultural tem vindo a afirmar-se anualmente pelos discursos artísticos promovidos fora dos circuitos habituais associados à homenagem de autores da cultura, literatura e da língua portuguesa. Nomes como Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto e António Lobo Antunes juntam-se ao de Mário de Carvalho, este ano o indicado como autor inspirador de um grande número de iniciativas pela cidade.
    A par dos grandes nomes literários, outros surgem como o do jornalista Mário Galego, premiado com a reportagem radiofónica "Ser Português" (Antena 1). A este propósito fica aqui o registo do que pode bem ser objeto de trabalho didático, em termos da compreensão oral (para escuta ativa) e/ou de eventual integração noutras dinâmicas de trabalho relativos ao ensino da língua (na sua relação com o escrito, por exemplo).

Registo disponível nos arquivos online da Rádio Antena 1 (in http://www.rtp.pt/antena1/index.php?t=Ser-Portugues-reportagem-de-Mario-Galego.rtp&article=6693&visual=11&tm=12&headline=13), última consulta a 07/09/2013 às 14:00)

     Em cerca de doze minutos, resume-se o percurso realizado pelos repórteres Rita Colaço e Mário Galego, durante o mês de junho, desde o Gerês até Vila Real de Santo António - sem deixar de passar pelos Açores e pela Madeira.
      Um caminho para a descoberta, tanto da inovação como da tradição, do que compõe esta condição de "Ser Português".

    Um contributo para a nossa identidade cultural e, daí, um bom documento para utilizar nas aulas de língua, de literatura e de cultura.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Um pacote de açúcar com muita...

     Nada como ser consumidor de café para saber algumas coisas acerca da língua.

     O pacote de açúcar trazia o necessário. Ainda que não o utilize para adoçar (digo eu, estragar) o café, a informação disponibilizada veio na hora:


     A expressão não é nada politicamente correta, mas lá tem de ser dita no dia de estreia para os atores e atrizes (para bem do espetáculo, claro está).

     Deve ser por isso que os ingleses preferem o "simples" «Break a leg!» (Bolas!)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Uma história com alguma realidade e outro tanto de ficção

    Uma amiga comentava hoje uma situação que aparece relatada num apontamento 'postado' no blogue Mariana: 'Será isto (a)normal?'.

     Mais tarde, foi a minha vez de comentar o assunto com a gestora do blogue (é 'gestora', mas só ganha - e cada vez pior - como professora). 
     Entre a realidade e a ficção (até porque a língua é já uma parte dessa ficção, pela transposição que procura fazer do real para o código com que comunicamos), alguns dados foram (re)criados. Ainda assim, os comentários surgem. O ponto da reflexão conduz-se para a questão da formação: profissional, pessoal...

    Tudo começa por uma jovem docente dizer que há professores, com mais de cinquenta anos, que preparam aulas (e, pelos vistos, terão de passar a fazê-lo até aos 67). Perguntaria eu: qual é a novidade ou o insólito da afirmação? Temo, contudo, que começo a entender o espanto de quem é tão jovem.
     Na tentativa de justificar como percebi o dito, prefiro ficar-me pela dimensão pessoal (como a "minha gestora" adiantou), por acreditar que muito desta é transportado para a visão profissional que se constrói. Também é verdade que, por causa da primeira, a segunda não é, por vezes, compreendida no que tem de melhor. Infelizmente, o que se diz muitas vezes da profissão tem a ver com as experiências de vida que se tem, e quando estas são as dos nossos tempos - tão imediatas, tão para ontem e tão quantificadas (a ponto de terem de fazer parte da ditadura de uns números, de umas grelhas e de umas estatísticas que muita gente gasta tempos infinitos a construir e a ler, sem ir ao ponto essencial da questão ou sem dar solução aos problemas que existem há muito) - ficam-se pela constatação do que se lhes figura, à partida, como incompreensível. Como se não houvesse uma outra forma (melhor) de fazer as coisas. 
    Sem me querer colocar na posição do experiente, do sabedor, do formador, do que tudo sabe sobre a profissão docente ou dos profissionais que ainda preparam aulas, vou dizer simplesmente que... enfim: é jovem e no "salto alto das suas botas" deve ter sido uma das professoras que, atualmente e para sobreviver, deve dar aulas em todos os sítios e mais alguns; tem níveis tão diferentes que nem sabe para que ponta se há de virar e não tem tempo para conhecer a escola (na sua organização e nos recursos humanos especializados de que dispõe), muito menos as pessoas que os alunos são; tenta fazer, por certo, o melhor que pode e espanta-se que ainda haja professores com tempo para preparar aulas. Não pode entender de outra forma, porque não lhe dão condições para que o faça de modo diferente.
    Por mim, reconheço que, cada vez MAIS, tenho MENOS tempo para preparar as aulas (pelo menos, como eu gostaria que elas fossem). Também... estão a encher as turmas com um número de alunos que não cabe nas salas (recentemente intervencionadas, pelo menos até quando houve algum dinheiro)! Qualquer dia, para ceder o lugar a um estudante, tenho de dar a aula no amplo corredor (que mais parece o de um hospital, até porque, por instruções superiores, não se pode fazer nada que o anime, por ir contra o originalmente definido arquitetonicamente).
     Além disto, eu sei... também tenho culpa. Estou a perder a faculdade da juventude: cada vez gasto mais tempo a corrigir testes (à média de 15/20 minutos para cada um, que fará uma turma de trinta!?! E logo eu tenho quatro! Não me posso queixar. Há quem tenha sete e oito). São horas infindáveis, que não cabem num dia nem numa semana. Só de saber que ainda faltam as composições, as fichas e os trabalhos que não tenho coragem de recusar (porque ainda há alunos que gostam de mostrar os escritos que produzem por livre iniciativa), já acaba o período letivo e ainda tenho coisas por fazer...
    'The last but not the least' - isto de ser profissional na educação e no ensino já teve muito melhores dias. Hoje há profissionalizações que chegam ao ponto de se fazer num semestre e sem prática letiva. Tudo o resto que a escola é, quando muito, deve ser tema de um seminário que fica lá para o meio de muitas outras temáticas, muitas delas sem proveito direto para o desempenho profissional docente.
     Não sei se este vai ser um exemplo de professora a precisar de fazer um exame para entrar na carreira, mas na constatação do sucedido, com maior ou menor ficção, como eu gostaria de acreditar que o mesmo não viesse a ser repetido nas próximas décadas!

    Um caso conhecido para muitos outros exemplos que não são nem foram assim (ainda que, também, não tenham ou recebam qualquer diferenciação, ou contrapartida, pelo melhor que foram ou são). No dia em que as escolas deixarem de ter os profissionais que ainda fazem diferente (preparar aulas, por exemplo, e com o sentido que essa preparação deve ter), talvez se descubra que as críticas de hoje às políticas educativas em curso fazem todo o sentido, face às anormalidades criadas.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Um outubro outoniço, como se impõe.

       Com outubro em curso, as amareladas cores, os cheiros dos assadores de castanhas e a brandura de um enevoado frio são mais que familiares.

     A cada outubro outoniço reveem-se os sinais que nos afastam do calor estival; nos fazem ganhar consciência da anunciada invernia.
    "Canção de Outono" foi o título que Nikolay Bernard atribuiu a uma das dozes peças para piano encomendadas ao russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky - composição destinada ao mês de outubro, conforme se pode encontrar em "Les Saisons".


       No melancólico e elegíaco toque, na contenção a evocar aconchego, no recrudescimento que cede perante o lento e suavizado final, adormece o tempo num silenciado instante, ao qual se seguirá a troika (infeliz palavra!) representada por novembro.

     Assim se compõem as estações, com o registo clássico tchaikovskiano para uma canção que celebra o mês ontem começado.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Regresso à oralidade e às sonoridades originais

   Na primeira sessão de "Ensino-aprendizagem da oralidade: princípios, campos de trabalho, estratégias e práticas avaliativas", regressou-se às origens.

      Iniciei hoje mais um programa de formação para o Agrupamento de Escolas de Gondomar nº 1, desta feita sobre o ensino-aprendizagem da oralidade. Vinte horas para um grupo de cerca de também vinte formandos, interessados em reflectir sobre o âmbito do trabalho, as orientações pedagógico-didáticas a ele associadas, mais as práticas avaliativas.
     Para abrir a sessão de trabalhos, e focando o nível da compreensão oral, propus um exercício que consistiu na escuta ativa de uma brevíssima história. A pré-tarefa era clara: registar uma lista de palavras que, no ritmo da escuta, era  (no indicativo para ser mais factual) possível captar. Preparação feita, discurso escutado, os primeiros risos impuseram-se.
      Insistência na escuta (há que apurar o sentido auditivo). À segunda, surgiram as tentativas de listagem (umas mais extensas do que é outras, para não falar daquelas que se ficaram pelo vazio). Na verificação da tarefa, surgiu a pergunta: significado? Como os destinatários são professores de línguas, obviamente os sons ouvidos foram associados a palavras do inglês, do alemão, do neerlandês, do latim; mas houve quem dissesse que era uma algaraviada irreconhecível; quem tentasse reproduzir sons que não entendia. Alguém chegou a acusar uma colega de ter inventado uma língua; uma outra proposta foi a de se passar o registo do fim para o princípio; por fim, não deixou de aparecer a observação "Que é isto?" Resposta: "Há de ser alguma coisa".
      As primeiras tentativas de reproduzir sons, quando se é bebé, não andará longe do que se passou nesta experiência, por mais que já sejam ativados (re)conhecimentos e aproximações que um público especializado domina por certo. Este último só não sabia que estava a ouvir a língua das origens: uma versão do proto-indo-europeu (PIE), um idioma que investigadores e linguistas têm vindo sucessivamente a reconstruir e a atualizar em termos de som.
     A revista nova-iorquina Archaeology divulgou a contribuição mais recente do que seria a sonoridade deste idioma (extinto) falado há cerca de cinco mil anos:


     Confrontados com a versão escrita em inglês e o título, chegou-se ao reconhecimento do latino 'equus' (cavalo), quando a língua escutada corresponde a um estádio bem anterior.
       Assim reza a narrativa escutada, traduzida em inglês, segundo o que foi escrito pelo linguista alemão August Schleicher (1868):

                                           The Sheep and the Horses

      A sheep that had no wool saw horses, one of them pulling a heavy wagon, one carrying a big load, and one carrying a man quickly. The sheep said to the horses: "My heart pains me, seeing a man driving horses." The horses said: "Listen, sheep, our hearts pain us when we see this: a man, the master, makes the wool of the sheep into a warm garment for himself. And the sheep has no wool." Having heard this, the sheep fled into the plain.

     Falantes de línguas que descendem do PIE, todos experienciaram a dimensão material, fonética (percetiva e articulatória) de um continuum cujo significado não é (ainda completamente) partilhado.

      Assim se iniciou o percurso na "oralidade" que nos une na diversidade linguística que nos carateriza como herdeiros de um passado (por mais remoto que seja).

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Escrever (com) o espírito de si mesmo

    Formar palavras tem sido questão mais fácil de construir do que de estudar.

   Questões críticas, na formação de palavras, são as que se prendem com a História da Língua e a consciência não sincrónica dos estádios linguísticos.

   Q: Como se classifica a palavra "autopsicografia", quanto à sua formação? Já li duas interpretações: uma que a apresenta como prefixada (auto+psicografia), outra como composta morfológica. Qual a tua opinião?

     R: A palavra 'autopsicografia' é composta. 
      'Auto' é um radical grego com o sentido de 'próprio' ou 'de si mesmo' e entra na composição de palavras como 'autobiografia', 'autorretrato', 'autodidata' e 'autógrafo'. Assim, à base 'psicografia' (já de si complexa) é acrescida uma outra.
    Creio que a leitura prefixada da palavra decorre do facto de o radical grego ter sido empregue em 'automóvel' e, atualmente, pela forma truncada (auto) e num entendimento muito associado ao conceito mecânico da viatura, se ter dado origem a outros termos (como 'autoestrada' ou 'autódromo'). Ainda assim, trata-se de uma leitura indevida, pois Lindley Cintra e Celso Cunha apontam estes últimos exemplos, de segmentação e deriva semântica, como casos de recomposição.
   Em 'autopsicografia', o sentido do primeiro radical é marcadamente erudito, ligado ao que, no grego, era o significado originalmente estabilizado. Não há nenhuma deriva que o aproxime de questões de "pseudoprefixos", conforme se pode ler na Nova Gramática do Português Contemporâneo (1984).

      Enquanto título de um dos mais conhecidos poemas pessoanos, a palavra composta em análise (a escrita reflexiva, da alma e/ou do espírito, produzida pelo próprio ortónimo) anuncia um metatexto fundamental acerca da produção poética e da teoria do fingimento poético presente no maior representante da Geração de Orpheu.

domingo, 29 de setembro de 2013

Recordações melódicas

    Até podia ter dado lugar a Rodrigo Leão, de tão falado que anda por causa da banda sonora de "O Mordomo".

      A verdade é que não foi tanto o contributo português que mais me marcou no visionamento do filme. Foi mesmo o "Black Power" e, em particular, esta interpretação de Dinah Washington:


I'll close my eyes

A song through its doors
Just as if it seems to know
I'm exclusively yours

Knowing this
I feel but one way
You will understand too
In these words that I say

I'll close my eyes
To everyone but you
And when I do
I'll see you standing there

I'll lock my heart
To any other caress
I'll never say yes
To a new love affair

Then I'll close my eyes
To everything that's gay
If you are not there
Oh, to share each lovely day

And through the years
In those moments
When we're far apart
Don't you know I'll close my eyes
And I'll see you with my heart


    Já por várias ocasiões me referi aqui ao poder negro das vozes e da música. Este é mais um exemplo.

    E assim fica a vontade, neste dia de chuva.

sábado, 28 de setembro de 2013

Desta vez... foi culpa de "O Mordomo"?

     Há quase um mês que o filme está em exibição e a sala estava cheia Fiquei pela segunda fila... da frente.

      Pelos críticos, parece não haver razão para tal. Para portugueses, o facto de a banda sonora ter ficado a cargo de Rodrigo Leão é já motivo (mais do que) suficiente para assistir ao filme. Ainda há quem se renda à presença de Oprah Winfrey entre as atrizes. Prefiro uma história, um percurso de vida humana a par da História que tanto tem de oficial como de (re)construção. O argumento não escapa a uma visão típica do "American Dream", não o do "Go West", mas o de uma espécie de realização ("fulfilment") dos desejos humanos expressa desde a Declaração da Independência (1776): "We hold these truths to be elf-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their creator with certain unalienable rights, that among these are life, liberty and pursuit of happiness". Todavia, nesta linha de consenso (por mais mítico, ritualizado e retórico que seja) visiona-se o percurso de um herói, nas suas qualidades e nos seus defeitos, a par do fio condutor de uma História (a da América) que muito teve e tem de crítico. 


     Nascido numa plantação de algodão da Georgia, Cecil Gaines (Forest Whitaker) vive o período de um regime esclavagista que teima em resistir na história americana e que marca a década de vinte do século passado. Abençoado pela proteção que lhe dão (desde a matriarca do patrão branco aos negros com que se cruza na sua fuga para a cidade), Cecil assiste à morte do pai, à loucura da própria mãe, à morte de um filho, à afirmação rebelde de um outro. Recomendado para servir os brancos nos mais luxuosos espaços, acaba por ser contratado para servir na "White House" como mordomo. Competente, de personalidade afável e atento àqueles que serve, encontrou aí a estratégia para sobreviver numa sociedade e num mundo que maltrataram, perseguiram e eliminaram muitos da sua cor.  De Dwight D. Eisenhower (década de 50) a Ronald Reagan (finais da de oitenta), assiste a tudo o que lhe é dado a viver na consciência clara do que é a cara do dever e a sobrevivência da sua própria face. Num inconformismo velado (demasiado para alguns), assim rouba um sorriso aos seus clientes e a todos aqueles a quem serve; conquista a felicidade que nunca sonhara ter; luta pacificamente pelo sentido de igualdade (para si e para os seus) a todo o tempo ameaçado.
    Depois de reformado, de ter perdido a mulher (Glória, representada por Oprah Winfrey) e o filho mais novo (Charlie, por Elijah Kelley), vive a realização do dever (bem) cumprido; a reconciliação com o filho mais velho (Louis, por David Oyelowo); a ascensão de um presidente de cor à república do seu país (Barak Obama). 
    Dos movimentos racistas do Ku Klux Klan às reações dos "Panteras Negras", dos apoios à supremacia da raça branca à afirmação cultural do "Black Power", das histórias e das relações com vários presidentes aos episódios de família, da condição de servir à de ser servido, das memórias que o limitam à discreta esperança que o motiva, tudo trata o filme, com Cecil a resistir, a manter-se na integridade e nas convicções que lhe permitem, no final, caminhar pelos corredores que bem conhece.

      Numa realização de Lee Daniels, "O Mordomo" inspirou-se no artigo "A Butler Well Served by This Election", da autoria de Wil Haygood (publicado, em 2008, no "Washington Post") e na verdadeira história de Eugenne Allen. Pelo exemplo de vida, pelo retrato da História e pelo sentido de equilíbrio que perpassa nos vícios e nas virtudes do tempo e das pessoas representdas, vale a pena ver esta película.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Com defeitos destes, devia chamar-se a ASAE

      O dia foi "de molho", como é costume dizer daqueles que dão em forte chuva (e trovoada).

    Ainda assim, não houve aqui razões para impedir o reencontro de professores com ex-alunos de uma turma especial da ESG, numa confraternização que já vai sendo hábito na última sexta-feira de setembro.
    A comer e a beber, além de muita conversa, cumpriu-se o convívio. Tudo satisfeito e uma vez paga a conta, só no exterior é que deu para ver o defeito:

Pormenor de uma fotografia: a evidência do erro

     Está mal! Assim a francesinha não é boa! Isto de confundir os diminutivos 'inha' e 'zinha' já não dá com nada, muito menos com a iguaria que deliciou os convivas. Alguns até quiseram a denominada 'especial' e apanharam, no final, com o erro. Como 'francesinha' vem de 'francesa' (estando esta escrita com 's'), mantenha-se o sabor (no paladar) e o saber (na língua... a portuguesa, claro está)!
     A francesinha pode ser "c/batata", mas devia ser "s/" a letra 'z'.

     Não tivesse já pagado a conta e tinha pedido desconto, a título da imperfeição no anúncio do produto. Assim, de barriguinha cheia, saí e fiquei mal "na vista".

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

"Natália é nome de bairro..."

     Este é o título de um texto noticioso, produzido por Sérgio Almeida (Jornal de Notícias, 14/09/2013), que abriu o caminho.

    Assim se deu início às aulas de Literatura Portuguesa: ouvindo a notícia, pedindo a tomada de notas, recuperando a informação ouvida, (re)construindo a figura da poeta (que não quis ser chamada de poetisa).
     Do que se falou e do que se ouviu, faltou depois o mais importante: os textos da escritora.
    Pedi um exemplar de poema para trazer para a aula, à escolha dos alunos. Objetivo: preparar a leitura oralizada, justificar a escolha feita. Sem grandes pretensiosismos - apenas o de contactarem com os textos, o de se reverem de alguma forma nestes e o de transmitirem como se fez o encontro, a aproximação.
    Hoje foi o dia de lerem os poemas que trouxeram (a maioria, transcritos no caderno; outros, em fotocópia; talvez um dia chegue a vir o livro). Alguns fizeram-no com o ritmo, o trejeito do olhar, a ironia, a exaltação, a conjugação do coro de vozes. Até houve bastante variedade poética: do 'Auto-retrato' a 'O fim do Coito' (ou o mais conhecido 'Poema do Truca-Truca'); de 'Queixa das almas jovens censuradas' a 'Bilhete para o amigo ausente'; 'Do Sentimento Trágico da Vida' a 'O Espírito'; de 'Nuvens correndo num rio' a 'Andar?! Não me custa nada''; de 'Poema' a 'Poema Involuntário'; de 'Paz' a 'Ode à Paz'. Ofertei-lhes um outro na forma de separador, na senda de um setembro poético.
     Também na sala dos professores se falou da autora e de alguma da obra. Lembraram-se algumas irreverências; recordaram-se outros poemas:


    Quanto à aula, espero que tenha servido para dar a conhecer os versos (e só estes) de alguém que os jovens diziam, no início da semana, não saber sequer o nome.

     Não foi uma completa tertúlia, mas não andou longe disso no que significou de partilha, de voz dada à poesia e à poeta.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ramos Rosa

        Dia de morte para a poesia, em particular, e a literatura portuguesa, em geral.

     Aos oitenta e oito anos, António Ramos Rosa reescreveu, pela última vez, um dos seus mais emblemáticos versos. Mais do que falar da sua morte (que marca o dia de hoje), parece que o poeta quis afirmar a vida e o que de virtuoso ela tem. Na sua fecunda produção poética, há sol quanto baste para se poder dizer, citando-o, que...

Imagem do poeta num desenho a grafite de Helder de Carvalho

Estou vivo e escrevo sol

Eu escrevo versos ao meio-dia 
e a morte ao sol é uma cabeleira 
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo 
Estou vivo e escrevo sol 
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam 
no vazio fresco 
é porque aboli todas as mentiras 
e não sou mais que este momento puro 
a coincidência perfeita 
no acto de escrever e sol 
A vertigem única da verdade em riste 
a nulidade de todas as próximas paragens 
navego para o cimo 
tombo na claridade simples 
e os objectos atiram suas faces 
e na minha língua o sol trepida 
Melhor que beber vinho é mais claro 
ser no olhar o próprio olhar 
a maraviha é este espaço aberto 
a rua 
um grito 
a grande toalha do silêncio verde

in Estou Vivo E Escrevo Sol (1966)

       No confronto do silêncio e da palavra, o rumo poético faz-se na busca da felicidade, rimada com a verdade e a cor da esperança. 

         Este é o maior legado de quem fez da poesia e do desenho expressões para um sentido de vida composto de imagens e gestos criados na leveza, no desprendimento e na liberdade de um espírito aberto e atento a "cada árvore (...) um ser para ser em nós" e que não podia "adiar o amor para outro século" nem podia " adiar o coração".

domingo, 22 de setembro de 2013

E (re)começa o outono...

     É ainda com as cores e o calor do verão que chega o outono.

     Os ingleses dizem que é "The Fall". 
     Depois do calor e das intensidades que o estio oferece, amarelecem as folhas, até que caem.

       CANÇÃO DE OUTONO

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

                                                 Cecília Meireles

    Nas folhas caídas, há uma viagem que, do alto das árvores até ao chão, traça uma passagem: a do tempo que, por mais que voe e nos ultrapasse, deixa marcas para dele toda a gente se recordar.

     Foi embora o verão, começa hoje o outono, chegará a vez do inverno, que dará em primavera.

     

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Acordo tem limites

      A propósito do Acordo Ortográfico, hoje surgiu uma questão a que o dito não se aplica.

      Há frutos que deixam de o ser (se é que alguma vez o foram).

     Q: Olá,Vítor. Tenho uma dúvida de "Acordo". O miúdo na composição escreveu Armação de Pera (e não Pêra), ao qual foi assinalado erro. Ele continua a justificar, com o Acordo, a palavra 'Pera'. Como ele começou logo com o "acordo" incorporado no ADN linguístico percebo a justificação. Andei a pesquisar na net..., mas confesso que, nestes casos, nada melhor que perguntar a quem sabe do assunto. Se puderes dar-me uma ajuda, agradeço. 

     R: Ora viva. O miúdo teria toda a razão se estivéssemos a considerar a peça de fruta. Não é o caso. O Acordo Ortográfico não prevê alterações nas assinaturas legalmente registadas de nomes associados a pessoas (antropónimos), localidades (topónimos), além de marcas, títulos, nomes de sociedades ou firmas comerciais. Daí manter-se a escrita Armação de Pêra, enquanto nome de localidade que os usos e costumes estabilizaram.

     Um dos limites das convenções terá sempre a ver com o que os falantes de uma língua identificam como comummente fixado nos hábitos e costumes. No que às designações dos locais diz respeito, a questão é cultural, histórica e temporalmente marcante; legalmente identificada nos e pelos registos formais produzidos nesses mesmos lugares.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Lírico: do texto ao canto

    Hoje foi tempo para falar de texto lírico. Houve quem se lembrasse de canto lírico, mas de tenores ou sopranos a questão foi mais difícil.

    Porque um dos pontos do programa é precisamente o da poesia lírica (cantada e configurada na expressão emotiva de um 'eu'), procurou-se recuperar a noção de 'lírica' no que tem de modo literário e de afinidades com outras expressões artísticas.
    A música, no género do canto lírico, é uma aproximação feliz. Todavia, referências como Plácido Domingo, Josep Carreras ou Luciano Pavarotti não parecem dizer muito à maioria dos jovens. Lembrei-me, então, de Freddie Mercury: não é cantor lírico, mas ainda há quem se lembre que o vocalista dos Queen cumpriu um dueto com a soprano Montserrat Caballé. Ouvir "Barcelona", na interpretação dos dois cantores, é um exemplo dessa intensificação emotiva que tanto caracteriza o lirismo.

Montagem de som e imagens, a partir de recolha na Internet
(vídeo original da composição em https://youtu.be/Y1fiOJDXA-E)


     BARCELONA

Barcelona Barcelona

I had this perfect dream
Un sueño me envolvió
This dream was me and you
Tal vez estás aquí
I want all the world to see
Un instinto me guiaba
A miracle sensation
My guide and inspiration
Now my dream is slowly coming true

The wind is a gentle breeze
El me habló de ti
The bells are ringing out
El canto vuela
They're calling us together
Guiding us forever
Wish my dream would never go away

Barcelona!
It was the first time that we met
Barcelona!
How can I forget
The moment that you stepped into the room
You took my breath away

Barcelona!
La música vibró
Barcelona!
Y ella nos unió
And if God is willing
We will meet again
Someday

Let the songs begin
Déjalo nacer
Let the music play
Ahhhhhhh...
Make the voices sing
Nace un gran amor
Start the celebration
Ven a mi
And cry!
Grita!
Come alive
Viva!
And shake the foundations from the skies
Ahhhh, Ahhhh.... Shaking all our lives

Barcelona!
Such a beautiful horizon
Barcelona!
Like a jewel in the sun
Por ti seré gaviota de tu bella mar
Barcelona!
Suenan las campánas
Barcelona!
Abre tus puertas al mundo

If God is willing
If God is willing
If God is willing
Friends to the end
Viva!
Barcelona!

       E segue-se uma das versões ao vivo, em Ibiza, corria o ano de 1987:

O dueto de Mercury e Caballé (Ibiza, 1987)

      Uma combinação de rock e da ópera resultou no dueto de uma soprano e de um vocalista rock que, em voz de barítono, compôs uma canção para a cidade, tornada hino dos jogos olímpicos de 1992. Composta em 1987, a composição viria a ser gravada um ano depois. No dia dos jogos, Freddie Mercury já não era vivo.

    Tudo para dar conta da emotividade, da projeção que a intensidade sentimental traz à arte (seja ela música seja ela literatura, ou, mesmo, pintura).

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Homonímias

      Hoje alguém comentava comigo uma imagem. Teve dúvidas, perguntou e obteve resposta.

      Nada disto tinha sido preparado, mas na base de um diálogo de aula, saiu o 'penso' enquanto forma do verbo 'pensar'. Surgiu entretanto outro 'penso': o do adesivo para curativo. Foi então que alguém se lembrou de falar nesta imagem:


     Outro alguém perguntou se tinha alguma coisa a ver uma com a outra. Na inocência da pergunta, veio a complicação da resposta: se 'pensar' fosse sinónimo de colocar um penso, tem tudo a ver, por certo; se tiver o significado de refletir, já não tem nada.
      Conclusão: a propósito das relações lexicais, tratou-se a homonímia (a etimologia do verbo latino pensāre / penso associada ao sinónimo cogitar não se confunde com o verbo 'pensar' relacionado com o nome 'penso' e os sufixos 'ar').
      Entre os dois 'penso', há, portanto, uma relação homonímica na representação gráfica das palavras.

    Depois disto tudo, e nas suas diferenças, importa dizer que o 'penso' fez 'pensar' com tanta interação.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Na boquilha trazia o fogo; na voz, a intensidade dum trovão; nos versos, da guerra à paz e ao embalo

     Em tempos de ameaça bélica, a voz da paz ganha mais sentido.

     Assim começo, lembrando versos de Natália Correia no dia em que se comemora o seu nascimento. Foi há noventa anos, na Fajã de Baixo (ilha de S. Miguel). 
    A intelectual, a poeta (porque, no seu ver, a poesia era assexuada), a deputada, a cidadã interventiva e socialmente empenhada na afirmação do matricismo (enquanto expressão do feminino, da fonte matricial da humanidade) foi mulher de contundente e tumultuosa exceção e exaltação para um tempo que, por mais que não a acompanhasse nos ideais e na visão das coisas, se rendeu à capacidade oratória (entre o tom reflexivo e a teatralidade provocatória) posta ao serviço do valor da liberdade.
    Suas foram as noites do "Botequim", espaço de tertúlia para a cultura, a política, a criação artística, o encruzilhar de personalidades afins à sua, no fascínio espiritual da língua mátria; da pátria que deixou em direção ao "Templo" (a 16 de março de 1993); da frátria feita de igualdade e equidade - em suma, de fraternidade.
      Nos termos de Fernando Dacosta, que se referiu a "A Natalidade de Natália", "a ilha deu-lhe o gosto mágico pela vida", o mesmo gosto que a aproximou da poesia, desta fazendo território para um lirismo que a fez conviver com a tradição e a modernidade, a narratividade poética ou a poesia narrativa, o espírito que casa o fim com o princípio num retorno em constante e contínua renovação.


    FIZ UM CONTO PARA ME EMBALAR
Natália Correia, retratada por Bottelho (2010)
Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.


Rosas fatais, as três donzelas,
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.


in "Inéditos (1947-49), 
Poesia Completa

     Na prosa, no verso e na voz, Natália Correia nasceu para a intensidade das palavras do amor sedutor de um Eros e a (pre)ocupada consciência do caminho para Thanatos ou "o lugar / onde cai o véu / do mistério final".

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Entre acrónimos e amálgamas

     No domínio da lexicologia, há questões que se cruzam com processos (irregulares) de formação de palavras.

      A dúvida colocada centra-se em dois desses processos produtivos na construção neológica do léxico.

      Q: Vítor, quando puderes, esclarece-me, por favor, a seguinte dúvida: considerando as definições (do Dicionário Terminológico) para acrónimo ("Palavra formada através da junção de letras ou sílabas iniciais de um grupo de palavras, que se pronuncia como uma palavra só, respeitando, na generalidade, a estrutura silábica da língua") e amálgama ("1. Processo irregular de formação de palavras que consiste na criação de uma palavra a partir da junção de partes de duas ou mais palavras; 2. Palavra resultante do processo de amálgama"), em qual das duas se insere a palavra DECO? E, já agora, uma breve explicação. Muito obrigada.

      R: DECO é um exemplo de acrónimo, atendendo à recuperação das sílabas e/ou letras iniciais da expressão "DEfesa do COnsumidor".
        No caso das amálgamas, a consciência dos constituintes dos novos termos formados é bem mais ampla: as partes das palavras constituintes não se reduzem a letras ou a uma sílaba inicial (podem ser iniciais ou finais), para além de estarem implicados processos diversos de fusão / sobreposição / interseção / reconstrução / supressão simultânea de segmentos.
          A título de exemplo, nas amálgamas podem ocorrer processos como:
a) sobreposição de um denominador comum de segmentos - ex.: perFUME+FUMEgante > perFUMEgante;
b) junção da redução de duas ou mais palavras, compondo novo termo (sem ou com sobreposição dos termos reduzidos) - ex.: CRÉDIto para teleFONE > Credifone; MOTor hoTEL > Motel
c) junção, com inversão, da redução de uma palavra (com múltiplas sílabas) face a uma segunda palavra - ex.: 'taxa [E][CO]lógica' > Ecotaxa; buro[CRA][TAS] [EU][RO]peus > Eurocratas
d) fusão, numa expressão, de sílabas iniciais com finais, com supressão simultânea de outros segmentos - ex.: SEnhOR(a) douTOR(A) > Setor(a); DICIOnário e encicloPÉDIA > Diciopédia
e) eliminação, por sobreposição, de letras / sons - ex.: Não e sIM > Nim.
      Em suma, na diferenciação dos dois processos, interessará sublinhar que, no caso dos acrónimos, não se pode propriamente falar de interseções, misturas, sobreposições, o que faz da amálgama um processo distinto, que alguns estudiosos também designam de 'contaminação' na formação neológica de uma língua (como, por exemplo, o caso do inglês quando formou o termo 'smog' < SMOke+fOG).
      Espero ter sido esclarecedor.

     Um caso de estudo, por certo, para marcar como a formação de palavras é uma área de trabalho no entrecruzamento de várias perspetivas de análise da língua (não apenas da morfologia).

sábado, 7 de setembro de 2013

No rio... não sobre o rio

      Com ou sem contração, a questão não é só a da preposição.

    Miguel Torga falaria de "O sol, esse Van Gogh desumano..." (in "Douro"). Eis a razão para que na verdura fluída se desenhe o arco rendilhado, o tabuleiro altaneiro e as paralelas cordas a unir a realidade ao quadro natural oferecido pelo Douro, no fim de uma tarde de verão.

Ponte Luís I refletida no rio (Fotografia VO)

     Não são "telas amarelas, calcinadas, / [que] Fremem nos olhos como um desengano" (in "Douro"). É o verde matizado de "charco de luz" (in "São Leonardo da Galafura") numa representação geoliterária que se pinta como

DOIRO

Corre, caudal sagrado,
Na dura gratidão dos homens e dos montes!
Vem de longe e vai longe a tua inquietação...
Corre, magoado,
De cachão em cachão,
A refractar olímpicos socalcos
De doçura
Quente.
E deixa na paisagem calcinada
A imagem desenhada
Dum verso de Frescura
Penitente


     A visão do poeta para a beleza que um rio transporta: entre a sagração divina e o sofrimento humano; entre a dureza granítica e a libertação vivida no mar. Tudo numa cidade animada pelo sabor de férias que deixa ainda viver nos inícios de setembro.

    Assim foram as cores, de luz, e os ecos, poéticos, de um sábado ainda livre.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Falares... com pronúncia do Norte.

     A propósito de um pedido de colaboração, no âmbito dos falares do Português, recupero os sons e os sentidos de uma canção.

     É certo que todas as línguas têm uma melodia própria.
     Há mesmo quem procure caracterizar os falares distintos de cada língua.
    A pronúncia do norte de Portugal tem uma canção só para ela. Assim o interpretou Rui Reininho (vocalista do grupo Grupo Novo Rock - GNR), em colaboração com Isabel Silvestre (cantora portuguesa identificada com os cantares folclóricos de Manhouce - região influenciada pelo Douro e Beira Litoral), no álbum Rock in Rio Douro (1992):


         PRONÚNCIA DO NORTE

Há um prenúncio de morte
Lá do fundo de onde eu venho
Os antigos chamam-lhe ralho
Novos ricos são má sorte

É a pronúncia do Norte
Os tontos chamam-lhe torpe

Hemisfério fraco outro forte
Meio-dia não sejas triste
A bússola não sei se existe
E o plano talvez aborte

Nem guerra, bairro ou corte
É a pronúncia do Norte

Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar
Tolheste os ramos onde pousavam
Da geada às pérolas as fontes secaram

Corre um rio para o mar
E há um prenúncio de morte

E as teias que vidram nas janelas
esperam um barco parecido com elas
Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar

E é a pronúncia do Norte
Corre um rio para o mar


   Na variação que o Português possui, "Nem guerra, bairro ou corte" é o que se impõe, para reconhecimento de uma diversidade e riqueza linguísticas feitas de um tempo ainda em curso ("Meio-dia não sejas triste") e de um espaço com múltiplas coordenadas ("A bússola não sei se existe").

    Está aí a natureza viva da língua: (sobre)viver na sua progressiva atualização e ativação, à procura de "caminhos novos para andar".

domingo, 1 de setembro de 2013

Setembro a começar

     Mudou o mês. Anuncia-se novo ciclo...

   Não é por certo mês do meu agrado, pelo que tem de aproximação de fim para um tempo livre e de arranque para ritmos cada vez mais pesados.
   Por ser setembro, lembrei-me de uma música e de uma letra que fica, só na sonoridade, entre o diminutivo da manhã (morn) e a ameça do lamento (mourn) - homofonias que as lantejoulas dissipam.
    

      SEPTEMBER MORN

Stay for just a while
Stay and let me look at you
It's been so long, I hardly knew you
Standing in the door

Stay with me a while
I only wanna sing for you
We've traveled halfway 'round the world
To find ourselves again

September morn
We danced until the night
Became a brand new day
Two lovers playing scenes
From some romantic play
September morning
Still can make me feel that way

Look at what you've done
Why, you've become a grown-up girl
I still can hear you crying
In a corner of your room
And look how far we've come
So far from where we used to be
But not so far that we've forgotten
How it was before

September morn
Do you remember
How we danced that night away
Two lovers playing scenes
From some romantic play
September morning
Still can make me feel that way

September morn
We danced until the night
Became a brand new day
Two lovers playing scenes
From some romantic play
September morning
Still can make me feel that way

    Valha o escrito para se afirmar o revivalismo romântico e a expressão dos reencontros, nem que seja os que se (re)constroem com a memória.

     Mais um mês com direito a música. E o tempo a passar...