sábado, 31 de janeiro de 2015

Pensando na montanha...

     Tudo vale, quando não se quer fazer o que tem de ser feito.     

     Porque tenho uma montanha de testes para corrigir, esqueço-os e fico-me pela montanha.
     A música também assim motiva a escolha:


     MOUNTAIN

You say that we're apart
And you can’t reach me
Yeah you can’t reach me
You got a broken heart
Don’t let them see it
Don’t let them see it

You built a wall bigger than your dreams
Feeling so small, covered in your fears
Baby, open the door
Let me come closer
I’ll dry your tears

When the lights go out
I’ll still be here
When the world falls down
Just listen clear

If only you knew that your words can
They can move a mountain
You’re changing my world when you’re smiling
I can’t live without it
And I won’t leave you hanging, hanging, oh no
I won't leave you hanging, hanging, oh no
I won't leave you hanging, hanging, oh no
'Cause you are the air that I breath

Agir:
Step into the dark
So you can see me
So you can see me
We’re a work of art
That I couldn’t finish
I couldn’t finish
I built a wall bigger than my pride
And how I wish you were here by my side
But I closed the door
Still I want you closer
With nothing to hide

When the lights go out
Search for me, search for me
And I’ll clear your doubts

If only you knew that your words can
They can move a mountain
You’re changing my world when you’re smiling
I can’t live without it
And I won’t leave you hanging, hanging, oh no
I won't leave you hanging, hanging, oh no
I won't leave you hanging, hanging, oh no
'Cause you are the air that I breath
Yeah you are the air that I breath
Yeah you are the air that I breath
Yeah you are the air that I breath
   
     Ao contrário do que cantam Carolina Deslandes e Agir, "I feel myself hanging, hanging, oh no !"

    Nem com música (com toada internacional que seja) isto vai lá! A montanha (de testes) é muito alta! E, ao contrário da letra, as palavras que leio não movem montanhas. Pena sinto que assim seja, quando, apesar de tudo, esta profissão ainda é "the air that I breath".

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

É preciso ter espírito

   Há quem ache que se chega a essa dimensão graças a uns complementos (bebíveis) muito discutíveis.

     A designação está aí, não porque essas bebidas tenham, nos seus líquidos, entidades sobrenaturais capazes de incentivar os bebedores a revelarem a sua dimensão mais invisível, mas porque contêm álcool etílico (obtido pelo processo de destilação).
     Ora, falar no "espírito" do vinho (para designar o álcool etílico) ou de outras bebidas alcoólicas é questão pacífica, quando bem escrita e com o devido acento. Contudo, adjetivar a partir do "espírito" tem mais do que se lhe diga e, por certo, com eventual perda de qualidade quando o resultado é o seguinte:

"Vinhos mal acompanhados" é o que se impõe dizer. (FOTO VO)

      Esrito (nome) não se confunde com o adjetivo (espirituosas), nem a natureza esdrúxula da intensidade silábica da primeira palavra se revê na característica grave da segunda (conforme se prova no sublinhado a marcar as sílabas salientes em cada termo).

     Com escrita mais correta, talvez houvesse mais esrito, mais graça espirituosa. Siga-se a seta pelos vinhos, porque pelas outras não há qualidade que lhes valha.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aluga-se quando há lugar...

     Pedem-me comentário a uma foto...

   Perante o que me é dado a ver, acabo a ler em voz alta, para a sonoridade da língua me ajudar a resolver o enigma gráfico:

(Foto partilhada por uma colega da área da matemática que me pede comentário. Assim seja!)

    Decifrado o texto, há criatividade suficiente na língua para se poder ultrapassar o desconhecimento e as limitações revelados quanto à convenção escrita. Na base de tudo fica a oralidade, a procurar pontes entre os sons e o reconhecimento de alguma reprodução destes naquilo que são registos escritos que os possam traduzir. Quando não se sabe, fazem-se aproximações "criativas" (lembro-me de uma aluna que leu tão atentamente 'Os Maias', de Eça de Queirós, que chegou ao ponto de escrever o nome do pai de Afonso como 'Queitano').
     Não obstante a tentativa (criativa, mas fracassada) demonstrada na foto, é preciso ainda adicionar outra problemática: a da interferência de alguma variação linguística no registo feito. O português de sonoridade vocálica aberta está mais para variedades não europeias da língua (como a do Brasil ou de África) do que para o que é dado a ouvir em Portugal. Aquele "Ha luga-se", inexistente na escrita, é uma aproximação ao que se ouve algum falante africano (ou mesmo falante nativo de uma língua estrangeira) produzir. 
    Resta juntar, a este dado, outros ingredientes como um défice de escolarização; uma inconsciência fonético-fonológica, lexical e ortográfica. Alguma história da língua também ajudava à correção pretendida, mas isso significaria ativar competências que, por mais importantes que também sejam para a justificação da escrita comum e socialmente reconhecida na correção, corresponderiam a um grau de desenvolvimento maior.

     ... e acabo a reconhecer a grande vontade / necessidade de comunicar com muita inconsciência à mistura.

domingo, 25 de janeiro de 2015

De novo, com os olhos e ouvidos nas origens.

    Hoje gostava de estar em Atenas a gritar SYRIZA.

     Espero que amanhã, num tempo mais alargado do que o dia, o grito ecoe para cada medida ou decisão feitas da honestidade e do dever cumprido para o prometido. Basta de sufoco, a bem de alguma esperança. Por maior que tenha sido o erro do passado, para que haja presente com sentido há que abrir a caixa de Pandora.
     Assim se construirá verdade, confiança, referência, ao contrário de muitos que continuamente desdisseram o que os levou ao poder. 
    Assim se alimentará tempo novo, com uma outra forma de fazer as coisas, mais atenta ao Homem e menos ao capitalismo sufocante e castrador em que as instituições de crédito financeiro se tornaram.
    Curioso (ou talvez nem tanto) que tudo esteja a acontecer na Grécia, nesse berço do pensamento democrático original. Se foram muitos os erros anteriores, se ainda há quem não cumpra o que é necessário para o bem comum grego (e, por consequência, europeu), tudo tem que ser feito para responsabilizar os que prevaricam; mas também há que criar vontades, novas vozes, novas caras e dinâmicas de futuro, apostadas na mudança (não no 'statu quo' ou no 'dejá vu').
    Em tempo de novo protagonismo, de um pioneirismo que se quer exemplar para a Europa - continente que muito lhe deve o nome -, gera-se uma causa de dimensão nacional com sentidos e efeitos muito para além da fronteira grega; revê-se o próprio continente, aquele que da Grécia recebeu toda uma civilização (a qual esteve na origem de tudo), segundo rezam a História e os mitos.
"O rapto da Europa", de Peter Paul Rubens (1628-9)
   Nesses tempos dos primórdios, dos deuses da anti- guidade clássica, uma princesa fení- cia se impôs pela beleza, chamando a atenção e as paixões do poderoso deus grego: Zeus. Disso não gostou Hera, a ciumenta mulher do deus principal da mitologia grega. Daí este ter-se transformado num touro, para se apro- ximar da princesa, que, maravilhada, coroou o animal com uma grinalda de flores e acabou por saltar para o seu dorso. Ao senti-la nas suas costas, o taurino e supremo morador do Olimpo desatou a correr em direção ao mar, só parando quando chegou a uma pequena ilha: Creta. Aí, à sombra de um plátano, revelou-se na sua verdadeira forma. Acabaram ambos por dar vida a três crianças: Minos (futuro rei de Creta e um dos juízes do inferno, que ouvia as confissões dos mortos), Radamanto (rei das Cíclades, conhecido pela sabedoria e justiça) e Sarpedão (príncipe da Lícia).
      Hoje, em tempos de crescentes individualismos, fala-se na necessidade de um espírito gregário, de uma natureza associativa (pretendida e nem sempre alcançada) para ultrapassar problemas e crises comuns, numa inspiração apoiada no modelo das ágoras e das ligas que instituíam a união de esforços. Os tempos são efetivamente outros, à espera mais de Radamantos do que de grupos que não pugnam pela felicidade comum.
       Talvez aqui a Grécia ainda tenha uma palavra a dizer. Eu gostava que fosse SYRIZA, pelo que esta coligação possa representar de exemplo para uma saída humanizada e feliz para a austeridade; para a afirmação de uma nacionalidade mais interessada no seu povo do que nas prioridades especulativas de grupos mais focados nas próprias bolsas (e nos respetivos bolsos), em detrimento do bem social comum.

    Num país que tanto deu à Europa (cultural e linguisticamente), talvez ainda esteja a ser preparada (mais) uma lição. Que assim seja, a bem dos homens que nela moram e para que os mesmos, ou outros ainda, saibam que há uma forma diferente de fazer as coisas (sem ter de se cair em igualitarismos duvidosos nem em controlos ameaçadores, perversos e desumanos).

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Volta Descartes, que estás perdoado!

     Não propriamente pela filosofia, mas pela morfologia.

     A questão prende-se com a formação da palavra "cartesiano".

     Q: Como é que se forma a palavra "cartesiano"? Só derivação? Não há primeiro truncação?

     R: Admitindo a existência do sufixo 'iano' com alguma regularidade no português, o facto é que a base derivante que resta (Cartes) é algo estranha. Está aqui, portanto, uma razão para admitir, desde logo, a possibilidade de a palavra já ter entrado na língua portuguesa por intermédio de uma outra língua (eventualmente, o francês, com 'cartesien'), tendo-se procedido ao seu aportuguesamento.
   Pela consulta de um dicionário com informação etimológica, além do conhecimento que vulgarmente associa o adjetivo cartesiano a tudo o que tem Descartes como autor ou origem, lá aparece a entrada etimológica do termo no século XVII, a partir do francês e numa recuperação latina do radical 'Cartes' (de Cartesius, nome latino - numa vertente neoclássica e academicista - para Descartes).
       Portanto, a formação da palavra ocorre verdadeiramente no francês (cartes+ien). Em português, processa-se a adaptação do empréstimo. Na base deste raciocínio, tem cabimento falar num exemplo de processo irregular de formação de palavras, não pela truncação (dado o radical latino que preexiste), mas precisamente pelo processo de transferência ocorrido de uma língua (francês) para outra (português) já há alguns séculos.

        Esta moda neoclássica de recuperar a etimologia latina tem muito que se lhe diga, de novo convocando o interesse de uma plataforma entre a formação de palavras, a história da língua e a etimologia. Quanto ao empréstimo, é tão antigo que nem dele há já consciência no presente.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Vamos lá ao 'por isso'.

       A questão do contexto é fundamental; a do texto também.

       Na base de tudo, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen.

       Q: Vítor, aqui vai mais uma dúvida: no poema de Sophia, "A forma justa", o 'Por isso' que abre a última estrofe que valor lógico apresenta?

     R: Olá. A classificação do conector 'por isso' é muito variável e discutida na comunidade dos estudiosos da língua. A habitual inserção entre os conectores 'conclusivos', segundo a gramática tradicional e no contexto da análise frásica e interfrásica, não exclui dois cenários: um, o de os conectores linguísticos admitirem a expressão de vários valores juntivos (o caso da conjunção 'e' é clássico, quando admite a expressão de valores adversativos, consecutivos, temporais, além da sua natureza aditiva); outro, o de os conectores articularem sequências com distribuição ou ordenação informacional variável (daí a articulação geral da causa-consequência dar lugar a conectores distintos, conforme a ordem seja Causa > Conector > Consequência ou seja inversa) e com extensão muito além da frase complexa.
  Assim, numa perspetiva de construção textual, como a implicada no poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, há a considerar o facto de toda uma primeira estrofe funcionar como um antece- dente textual (mar- cado por uma lógica dominantemente condicional) para um consequente introduzido pelo conector 'por isso'. Na sequência desta progressão textual, há um raciocínio argumentativo que se dá a ler ao longo de treze versos e se conclui com um dístico (estrofe final) a introduzir o efeito ou a consequência lógica de um saber ("Sei") feito de mundos alternativos (daí o condicional contrafactual, lido em "seria possível", "poderiam ser", "proporia" ou mesmo no imperfeito do conjuntivo "atraiçoasse", "fosse").
  "Por isso", neste caso, é um conector de natureza pragmático-discursiva, relacionado com raciocínios de progressão do tipo causalidade ou condicionalidade (pressuposta ou antecedente) > consequência. Introduz, portanto, uma consequência (textual). É um conector consecutivo.

      Uma forma particular de consecutividade pode ser encontrada na conclusão conforme às regras da lógica, quando se utilizam os conectores 'por isso', 'por / em consequência' e 'consequentemente'. Com eles, o enunciador indica ao enunciatário que este deve considerar uma dada sequência como lógica e completa segundo um ponto de vista argumentativo. Nesta base também se entende a classificação de construções 'consecutivas conclusivas', na linha da proposta feita por Joaquim Fonseca (seguindo A. Zanone) aquando do estudo "Pragmática e Sintaxe-Semântica das Consecutivas" (1994).

domingo, 11 de janeiro de 2015

Fruto económico, com novas qualidades... até no nome.

      As novidades deste(s) tempo(s)!

    Ouvi há poucos dias alguém falar de umas bolachas que tinham "uvas pássaras" (devem ter sido uvas tão debicadas pelas ditas cujas que até lhes ganharam o nome). Pouco tempo depois, falou-se de outra comida mais substancial: os "rijões" (diga-se, pedaços de carne de porco que deviam ser tão duros, tão duros que não chegava dizer "rijos").
     Hoje, dá-se a ler novo produto, económico para não provocar nervosismo:

   
     O efeito deve ser de tal forma relaxante que se recomenda como sedativo, a julgar pelo nome atribuído: as clementinas que dão calma passam a ser as "calmantinas".
     Não bastava haver "ovelhas ranhosas" (deixaram de ser 'ronhosas' - por ter 'ronha' - e passaram a ter 'ranho' - salvo seja!) que até a fruta ganha novas qualidades! 

      O que faz uma oralidade tão pouco instruída ou cuidada? Evolui para uma escrita que fica à vista de todos. Calma, muita calma! Coma calmantina que é melhor do que tangerina!

sábado, 10 de janeiro de 2015

Fanatismo, desunião e violência

      Três dias depois, o pesadelo começa a receber a resposta que devia ter sempre existido.

     O atentado - terrorista no ato, se não o for na dimensão ideológico-político-religiosa (a ver vamos quem o reclamará) - ao jornal Charlie Hebdo é traumático pelas vítimas provocadas; lamentável e perturbador pelos princípios que o possam ter motivado; ofensivo e crítico pelo desrespeito dos ideais atacados, tão marcantes para a história e cultura francesas como para o ocidente europeu (e não só). Os proclamados defensores dos valores de cidadania, de inclusão e integração, aceitação e multiculturalidade, liberdade, igualdade e fraternidade sentiram-se violentados, vitimizados.

Estátua do ardina, na cidade do Porto,
junto à Praça da Liberdade.

      O "Je suis Charlie" surge em todo o local e com qualquer pessoa de bem, numa identidade emotiva e virtuosa não só com a liberdade de expressão mas também com os valores mais universais do ser humano. Falta saber quanto tempo durará esta marca, para não falar de todos os dirigentes políticos que vão embandeirar-se com tal identificação, mesmo sendo capazes de originar outras formas de terrorismo. Valha o facto de se deixarem também consciencializar pelo que possa representar este triste e trágico momento. Era bom que a causa fosse mais persistente, consistente, abrangente. 
   Para amanhã anuncia-se um grande movimento solidário em Paris. Lá estarão os governantes, os partidários dos valores que nos unem, encabeçando uma iniciativa que devia alargar-se ao combate de toda e qualquer forma de terrorismo, nomeadamente a que mais se faz sentir quase todos os dias, afetando a dignidade humana (por decisões excessivas, mais do que contestadas, nos planos político, económico e social).

      Não é livre quem é fanático; não é igual aquele que, na diferença e diversidade, não busca o que nos faça ou possa unir; não é fraterno quem responde a lápis, canetas, palavras e ilustrações humorísticas com armas letais, atos violentos e mortes injustas. Onde estais vós, liberdade, igualdade e fraternidade?

         

sábado, 3 de janeiro de 2015

Um filme com pouca história

     Por mais que ela não seja pequena nem pouco conhecida.

    Talvez por isso não se espere muito de novo, familiarizados que estamos à história do segundo livro do Velho Testamento (Bíblia): o "Êxodo". Aí se narra como os judeus abandonaram a escravidão, a que estavam votados pelos egípcios, e, liderados por Moisés, partiram rumo à Terra Prometida (Canãa).
   Nem sempre a fidelidade ao texto bíblico acontece (o episódio do cajado não acontece, por exemplo, ora no rio ora no mar), mas também não tinha de ser assim; e se Ramsés não foi propriamente o faraó-irmão, diga-se que estas "infidelidades" histórico-bíblicas não comprometem uma versão que tinha condições para brilhar. O certo é que não se trata do melhor produto em termos cinéfilos, não obstante o nome de o realizador Ridley Scott até o prometer (lembrando a grande produção de 'O Gladiador', há cerca de catorze anos) ou de as imagens do trailer também o sugerirem:


    Depois, na sala de cinema, assiste-se à intriga; o tempo passa, mas a sensação não é de arrebatamento, de grande feito épico ou de emoção intensa no confronto herói-vilão. Vê-se, mas não há vontade de repetir o visionamento. Custa-me a acreditar que o faça quando vier para o pequeno ecrã da televisão (curiosamente, já repeti o desenho animado "Príncipe do Egito" e não me cansa ouvir a música que o abrilhanta).
      A lógica das ações das personagens e os efeitos criados para os ambientes representados fazem algum sentido; a construção da imagem e das motivações que Moisés (Christian Baile) vai revelando como chefe de um exército, como homem que busca a sua identidade e o reconhecimento do que o seu povo vê nele, como líder de um grupo de resistentes revela-se pertinente. Tudo se compõe de uma forma que, de tão natural e plausivelmente real aos olhos ou ao entendimento contemporâneos, se perde a dimensão mítica, bíblica da história. Reveem-se teorias sociais, económicas e científicas que não são estranhas ao século XXI; aproximam-se os episódios bíblicos de uma naturalidade mais justificada pelas razões do Homem do que pela intervenção divina, não poupando sacerdotisas nem os desígnios castigadores de um Deus. A própria figura deste último - associada a uma criança prepotente, birrenta, perversa até - acaba por ajudar a humanizar Moisés, tornando-o menos escolhido ou "eleito"; menos crente e, ainda assim, mais líder de uma revolução que nem sempre é capaz de controlar.
      No confronto com o faraó (Joel Edgerton), Moisés mantém, apesar das diferenças, uma rivalidade mitigada que só as águas do Mar Vermelho irão definitivamente separar, fazendo apagar o par de espadas que os uniu e a fraternidade construída e assumida numa vivência conjunta com o poder palaciano - o mesmo que os viu "meninos que cresceram juntos".
       O tempo mais a posição de um (o deus faraó) e de outro (um rei, um líder de um povo que rumou à Terra Prometida) acabariam por mostrar a dificuldade em contrariar a disjunção e o inconciliável existentes desde o início.

      Pouca história, portanto, pelo que esta versão oferece. Esperava mais, para fazer esquecer o velhinho Cecil B. DeMille e "Os Dez Mandamentos" que, em 1956, resultaram numa imagem de marca e num clássico do cinema (tanto na intriga como na banda sonora).

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Cor, flor, vigor...

    ... e talvez pudesse ainda acrescentar amor, sabor, terror.

   É certo que a representação sonora dos termos é tão combinada quanto a rima que eles possam criar.
   Outras aproximações podem ser feitas, como a paronímia, que junta o pecador ao pescador ou mesmo ao pegador ou pregador. É nesta última relação que um outro caso pode resultar em exemplo: o de uma publicidade que espanta qualquer leitor, só de imaginar quem terá sido o autor ou o objetivo para tal anúncio compor:


    Não fosse a foto, diria que era brincadeira. Não o sendo, que fazer?
   Pego num papel e uns versinhos surgem. Nada de fantástico ou de grande valor; só uma reação a uma imagem com desacerto tão motivador: 


VIOLE(N)TA

É violenta a violeta? Não!
Nasal… só em ‘planta’;
na cor e na flor, razão
não tem quem anda
a escrever mal. É tão
inusitada a incorreção
que a mente manda,
com cuidado e atenção,
esquecer a força, se tanta
é a violência, a agressão!

Flor e cor rimam com vigor,
mas com pancada não!

    Fica a inspiração suscitada pelo erro: o de se acrescentar uma letra à flor, aproximando-a de qualquer forma de dor ou opressor.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Cumpre-se a tradição da quadra

     Nos últimos anos tem sido assim: com a saga do Hobbit.

     O Hobbit: a batalha dos cinco exércitos é a última (não só por ser a mais recente mas também por ser efetivamente a derradeira) aventura de Bilbo Baggins, na recuperação e reconquista do poder dos anões (anunciadas no primeiro filme). É o culminar épico da obra-prima O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.
    Numa espécie de epílogo a  Desolação de Smaug, o início do terceiro filme desta saga dá conta da destruição de Laketown e de como o dragão cuspidor de fogo é atingido por uma seta apontada por Bard (Luke Evans). No Reino Sob a Montanha (Erebor), a tentação do poder e a sedução pelo ouro chegam. Thorin Oakenshield (Richard Armitage), tal como o avô Thror, fraqueja: isola-se, cede ao que é entendido como a maldição do dragão, uma doença do espírito que mais não é do que o veneno da ambição desmedida, da obsessão pelo conquistado (tomado como fim em si mesmo). Ainda assim, quando os valores da amizade e da liderança, o reino, a honra estão para ser perdidos, o rei dos anões acorda e faz-se guiar pela razão, dando continuidade e sentido a tudo o que fizera nos dois filmes anteriores. Juntamente com os anões (os de Erebor e os da Montanha de Ferro), os elfos (de Mirkwood) e os homens (de Esgaroth), enfrenta as forças das trevas, particularmente a monstruosa figura do orc Azog (de Dol Guldur) - vilão coadjuvado por Bolg (de Gundabad).

Trailer legendado do filme

     Na luta contra o mal, o sacrifício torna-se palavra de ordem. O bem, por mais que impere, não permanece igual ao ponto de partida. No seu percurso de vitória, muito se aprende (como o verdadeiro valor da casa e da honra), mas também muito se perde. Tinha de ser assim, para que um novo herói (Aragon) pudesse surgir em O Senhor dos Anéis.
     Na banda sonora, uma música se destaca, em jeito de despedida: 'The last goodbye', de Billy Boyd.


I saw the light fade from the sky
On the wind I heard a sigh
As the snowflakes cover my fallen brothers
I will say this last goodbye

Night is now falling
So ends this day
The road is now calling
And I must away
Over hill and under trees
Through lands where never light has shone
By silver streams that run down to the Sea

Under clouds, beneath the stars
Over snow one winter’s morn
I turned at last to paths that lead home
And though where the road then takes me
I cannot tell
We came all this way
But now comes the day
To bid you farewell
Many places I have been
Many sorrows I have seen
But I don’t regret
Nor will I forget
All who took that road with me

Night is now falling
So ends this day
The road is now calling
And I must away
Over hill and under tree
Through lands where never light has shined
By silver streams that run down to the Sea

To these memories I will hold
With your blessing I will go
To turn at last to paths that lead home
And though where the road then takes me
I cannot tell
We came all this way
But now comes the day
To bid you farewell

I bid you all a very fond farewell.

    Entre perdas e ganhos, Bilbo regressa a Bag End. Quanto ao espectador, retoma também ao ponto de partida da obra de Tolkien - o da trilogia de 'O Senhor dos Anéis'. A vontade é a de seguir a história e rever A Irmandade do Anel.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

N, A, T, A, L

   Letra a letra se compõe a escrita da palavra.

     Cinco sons, duas sílabas, uma só palavra.
     Do muito ao essencial; do plural à comunhão, à união. O uno.
   Na procura do caminho a fazer, não interessa contar as várias pedras calcorreadas; só o sentido a atingir.


        A fantasia que ilumina o dia não apaga o conjunto de estrelas que, à noite, vela.
        Depois do escuro manto, uma outra e nova luz brilha.
        Quer-se a paz. 
        Nem sempre o mundo a dá. 
        O Homem procura-a e não raras vezes a desfaz.

      Que este seja o momento para nascer a esperança. Que seja esta a noite anunciadora de um novo tempo: o dia no qual se dê à luz a felicidade ansiada. O dia de Natal.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

De 'Feed the world' a 'Heal the world'

      É umas das canções do século XX já com várias versões. E na letra diz que é de Natal.

     Resultando da articulação do (espírito de) Natal com causas sociais, aí está uma melodia ajustada a várias gerações.
   A versão original é do grupo Band Aid, uma comunhão de músicos britânicos e irlandeses organizada em 1984 pelo irlandês Bob Geldof (vocalista dos Boomtown Rats) e pelo escocês Midge Ure (guitarrista dos Ultravox). O objetivo era a obtenção de fundos destinados à causa da fome que vitimava a Etiópia. Assim foi lançado "Do They Know It's Christmas?"


It's Christmas time, and there's no need to be afraid 
At Christmas time, we let in light and we banish shade 
And in our world of plenty, we can spread a smile of joy 
Throw your arms around the world at Christmas time 

But say a prayer to pray for the other ones 
At Christmas time, it's hard, but when you're having fun 
There's a world outside your window 
And it's a world of dread and fear 
Where the only water flowing is the bitter sting of tears 
And the Christmas bells that ring there 
Are the clanging chimes of doom 
Well, tonight, thank God it's them instead of you 

And there won't be snow in Africa this Christmas time 
The greatest gift they'll get this year is life 
Where nothing ever grows, no rain or rivers flow 
Do they know it's Christmas time at all? 

Here's to you, raise a glass for everyone 
Here's to them underneath that burning sun 
Do they know it's Christmas time at all? 

Feed the world 
Feed the world 

Feed the world, let them know it's Christmas time 
And feed the world 
let them know it's Christmas time 
And feed the world 
let them know it's Christmas time 
And feed the world 
let them know it's Christmas time...

    Cinco anos depois, surgiu nova versão com a designada 'Band Aid II', numa continuidade da ação solidária para combater nova onda de fome na Etiópia. Novas vozes deram-se a ouvir, tais como as Bananarama, Cathy Dennis, Jason Donovan, Kevin Godley, Glen Goldsmith, Kylie Minogue, The Pasadenas, Chris Rea, Cliff Richard, Lisa Stansfield, Technotronic e Wet Wet Wet, entre muitos outros:


      Mais quinze anos e aparece nova versão, com a 'Band Aid 20', intentando chamar a atenção para a região de Darfur. 2004 foi o ano para integrar músicos como Daniel Bedingfield, Justin Hawkins (The Darkness), Chris Martin (Coldplay), a par de veteranos como Bono (U2), George Michael e Paul McCartney.


      2014 tem a Band Aid 30:


[One Direction:]
It's Christmas time, there's no need to be afraid
[Ed Sheeran:]
At Christmas time, we let in light and we banish shade
[Rita Ora:]
And in our world of plenty we can spread a smile of joy
[Sam Smith:]
Throw your arms around the world at Christmas time
[Paloma Faith:]
But say a prayer and pray for the other ones
[Emeli Sandé:]
At Christmas time it's hard but while you’re having fun
[Guy Garvey:]
There’s a world outside your window and it’s a world of dread and fear
[Dan Smith:]
Where a kiss of love can kill you
[Angelique Kidjo:]
Where there’s death in every tear
[Chris Martin:]
And the Christmas bells that ring there are the clanging chimes of doom
[Bono:]
Well, tonight we’re reaching out and touching you

[Seal:]
Bring peace and joy this Christmas to West Africa
[Ellie Goulding:]
A song of hope where there’s no hope tonight
[Sinéad O'Connor:]
Why is comfort to be feared, why is to touch to be scared?
[Bono:]
How can they know it’s Christmas time at all?

[One Direction:]
Here’s to you
[Olly Murs:]
Raise a glass to everyone
[Bastille:]
Here’s to them
[Sam Smith:]
And all there is to come
[Rita Ora:]
Can they know it’s Christmas time at all?
[All:]
Heal the world
Let them know it’s Christmas time again

    Uma nova letra, com outra roupagem melodiosa para um velho êxito musical; com vozes que - ora vindas do passado (Bono participou já na primeira versão) ora afirmadas no presente (One Direction, Rita Ora, Ellie Goulding, Seal, Sinéad O'Connor, entre outros) - dão novo grito ao "Feed the world". São estes os "Band Aid 30", desta feita voltados para uma epidemia mais atual: a do Ébola.

     Boas razões haveria se não houvesse nova versão para esta canção. Assim seria mais Natal.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Se promover se escreve com 'o',...

     Uma aluna fez-me chegar uma fotografia do melhor que há no 'português errado'.

     Escreveu ela: "Professor Vítor Oliveira, veja como não sou só eu que dou erros. Promoção com 'u'. Sinceramente, professor, estão a precisar de ir para a escola aprender a escrever."
     Não posso concordar mais. Até ela fica espantada com o que lê:

Foto enviada por uma aluna espantada com tamanha 'criatividade' ortográfica
(com agradecimento à Soraia Miranda)

     A não ser que se trate de um mecanismo de publicidade (pela negativa), fica mais um registo de como a inconsciência ortográfica e morfológica grassa pelas montras deste país. Bastaria pensar um pouco na família de palavras para chegar à escrita correta.
      Há quem esteja deveras a necessitar de assistência técnica na escrita do anúncio publicitário deste ginásio. Com tal publicidade, até eu desconfio da mensalidade, para não falar do serviço e da sua qualidade. Se é verdadeiro o lema 'Mente sã em corpo são', então neste ginásio o corpo deve andar pelas ruas da amargura. Porque da mente e do saber ortográfico nada mais escrevo.

      É por estas e por outras que não vou comprar lá nada. Prefiro uma prOmOção que valha a pena ser lida.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Hipóteses da idiotice ou do ridículo

     Um antigo aluno envia-me uma mensagem e um vídeo. O convite é para me divertir.

      Há diversões que nem ao diabo lembram:

Excerto de programa televisivo da TVI ('Ora acerta'), pela madrugada.

     Não é que a rapariga acredita piamente que 'Amor' tem mais do que quatro letras!
    Escrevê-lo-á com 'h'? Ou será com 'e' final, para marcar bem o sentimento 'à puorto'?! Também pode ser francófona e acha que 'amour' é termo universal para as línguas; ou, então - quarta hipótese - ainda escreve à forma alatinada de 'mm' geminados.
    O adiantado das horas a que o programa é emitido deve ser razão menor, por certo, para tanta falta de tudo.
   E intitula-se o programa 'Ora acerta'! Era bom que acertasse (mais) na qualidade dos produtos e dos apresentadores.

     Pelo formato do programa, não se trata de grande coisa. Mas, enfim,... se processassem a estação pela evidência pública, podia ser que houvesse maior seleção nos apresentadores e nos programas. É o que se aprende na nossa televisão, asneira atrás de asneira, erros de palmatória, além provérbios trocados à conveniência de alguém (diferente dos concorrentes que acertam).

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Fala tão bem!

      Não basta o facto de o tema já ser repugnante, de tanto nele se centrar a televisão.

    Todo o tempo se fala de BES; daqueles que não sabiam nem quiseram saber (ainda que estivessem sempre prontos para receber); dos que usaram e abusaram da confiança, do dinheiro de muitos; dos que ainda puderam comprar a sua liberdade e andam a pavonear-se num país que lhes dá sustento.
      E, no meio de tudo, chegam as "pérolas":


    Começa bem o deputado José Magalhães, construindo adequadamente o verbo 'interVIR' no gerúndio (interVINDO); mal fica Manuel Fernando Espírito Santo, ao desconhecer - entre várias coisas relativas ao BES e ao grupo Rioforte a que presidia - a conjugação do mesmo verbo no pretérito perfeito. 
     'InterVIM' era o que se devia ouvir, quando o próprio fala na primeira pessoa; 'interVEIO' era o que se devia dizer a propósito da sociedade Escom.
     Caso para pensar que se alguém interVIESSE com correção na língua talvez recebesse maior crédito no dito (porque, com o mal já feito, as suspeitas estão mais do que instaladas).
    No meio de tanto erro, apetece dizer que os milhões "desaparecidos" teriam sido melhor empregues numas aulas de português.

       Há pessoas que não deviam sequer abrir a boca, porque desta só sai asneira e afeta os melhores dos ouvidos.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Cinco palavras a morrer

      No blogue 'Certas Palavras', lê-se que há palavras a morrer.

      Assim se fica a saber:

    Cinco palavras portuguesas 
    que estão a morrer


        Ósculo
   Provavelmente, esta palavra não está a morrer: já morreu. Muitas pessoas já nem saberão o que quer dizer - e não me parece que alguém chore por esta morte, pois é um pouco estranho misturar a ideia dum beijo com uma palavra que lembra algum tipo de bicho estranho.

        Deveras
    Será ainda uma sobrevivente em certos discursos mais inflamados ou em paródias dum estilo antigo. Mas na vida do dia-a-dia não há quem diga “deveras”. Pelo menos sem que outros torçam o nariz a esta palavra com ar de outros tempos.

       Cassete
       Não morreu, mas está muito velhinha: uma palavra que ainda há poucos anos andava nas bocas do mundo… É bem provável que, muito em breve, siglas como CD, DVD e outros que tais se juntem à cassete nesse lar da terceira idade das palavras.

       Obséquio
      Uma palavra galante, mas cada vez mais rara. Ainda soa bem e não deixa de ter a sua graça, mas ninguém a ouve por essas ruas fora. Mas tiremos-lhe o chapéu, que merece o nosso apreço.

       Cosmonauta
     Nestes tempos em que a Rússia está mais interessada nas Crimeias desta vida do que na conquista do espaço, já poucos se lembrarão que os astronautas, por aquelas bandas, são cosmonautas. Nunca se sabe se não será esta uma palavra a ressuscitar muito em breve. Por enquanto, talvez seja bom recordar que um astronauta chinês é um taikonauta.

       Conhecem mais palavras que estejam a morrer?

      Até que eu gostava de responder, para que não seja debalde formulada esta questão. Mas para que os cinco vocábulos apontados não caiam em desuso, registo o seguinte: não procrastinemos! Osculemo-nos para que não haja deveras o desaparecimento de tão insignes ou egrégias palavras nem o olvido de usança tão propícia a relações humanas salutares e edificantes.

      E para que não vades sem galanteria, por obséquio, sede felizes. Votos de um repousante fim de semana.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Uma nova estrela.

      Depois das estrelinhas recolhidas do mar, desta feita foi-me atribuída uma grande estrela.

   Prestes a terminar um período letivo, fui honradamente condecorado com uma estrela produzida à pressa (disseram-me), mas com a qualidade distintiva e merecida de uma mais que ponderada estrela Michelin. E como não há "chef" do ano que sobreviva a tudo sozinho, tinha ao lado a "funcionária do mês", com outro exemplar tão primorosamente concebido e tão provocador da boa disposição de quem nos via com a condição, espetada ao peito, de 'garçon' e 'garçonette', em pleno exercício de serviço de cafetaria.
      Claro que há que sublinhar as diferenças: eu, "do ano", ora pois então. Como alguém o apontou, e bem, tudo em conformidade com o sexismo que se impõe: o ano e a posição de 'chef' para o masculino; o mês e o estatuto de funcionária para o feminino.
    Com duas estrelas na copa, muitas outras ficaram por dourar: todas aquelas que ajudam num projeto tão caro à escola - o Bar Solidário - e que alguém, certo dia, teve a ideia de partilhar e testemunhar, dando corpo ao manifesto. Hoje, com uma simples maquinazinha da Buondi, cumpre-se plenamente o pedido de cafezinho, pingo, meia de leite, descafeinado, a que acrescentamos sempre o molete, papo seco ou vulgar pão, com queijo, manteiga, fiambre e/ou marmelada, conforme as combinações desejadas (sem esquecer o requintado pãozinho de nozes que, à sexta-feira, a nossa prestimosa "funcionária do mês" nos oferta).
    Todavia, além destas figuras, e desde o início, muitas outras há a merecer o estrelato, inclusivamente todas aquelas que reagiram muito galhofadamente à entrega destes 'galardões' e se assumiram logo como "gatas borralheiras". Que seria da história sem elas? Não existiria, por certo. 
    Há quem diga que o atendimento é 5 estrelas, de meter inveja a qualquer Clooney (que está para descobrir, saber o verdadeiro sabor do café da ESG, na sala de professores). Ainda assim, a constelação é bem mais real e visível no facto de, em cerca de três meses, todos estarmos prestes a atingir a quantia de dois mil euros, para auxiliar uma família que viu a sua estrelinha um pouco mais apagada no brilho que irradiava.


     Entre os muitos que ajudam e os outros tantos que consomem, contribuem e dão razão a tudo isto, há que agradecer o gesto. É fácil ser 'Chef' e ser 'Funcionária(o)', quando há uma causa grande (a da Maria do Céu) e muitos colegas espetaculares, solidarizados no espírito e nos atos para que tudo corra pelo melhor. Além disto, dá-se sempre utilidade a um espaço morto de uma escola "nova", restaurada e disfuncional, que se vai ajustando e procurando sentidos para manter a vida e a esperança.

      Na brincadeira em que tudo isto resultou, houve um dia de escola para lembrar.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Prenda de Natal, em poema declamado

    Pediram-me um filme. Dei-lhes poesia em vídeo.

    No final de um período de aulas, antes da última aula e porque estamos a trabalhar Alberto Caeiro, repeti a experiência da partilha do poema VIII de 'O Guardador de Rebanhos' - uma visão do Natal; para mim, do poema mais bonito de Natal:

Declamação do Poema VIII de 'O Guardador de Rebanhos' (Alberto Caeiro), pelo ator Pedro Lamares,
no 'Porto de Encontro', pelos 125 anos do nascimento de Pessoa 
(30 junho de 2013, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett)

    Ouviram a declamação, escolheram versos, justificaram-se na escola e disseram se gostaram ou não do poema (porque esta  possibilidade também existe e é bom que surja, desde que fundamentada).
    Foram tantos os versos escolhidos! Alguns comuns; outros singulares. Os motivos da seleção foram tão variados quanto a razão do insólito, da estranheza, da diferença, para uns; da desconstrução dos rituais e dos dogmas para outros; do choque e da falta de decoro, para outros alguns. Tal como se ouve no vídeo, há quem fique chocado; há quem ache lindo.

     A experiência aconteceu. Fico feliz por já não ser possível dizer que os meus alunos desconhecem a existência do "Poema do Menino Jesus" - numa fé e numa religião tão próximas de cada um de nós, tão dessacralizadas que fazem acreditar num menino Jesus de carne e osso, menos boneco, mais real e natural.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Generosidade de quem dá e para quem dá mais

   Voltando à causa da Maria, sem nunca a deixar de considerar.

    Depois de encontros, de serões, de atividades e momentos solidários, coloca-se em rede virtual mais uma iniciativa para uma causa mais do que justa e urgente, a bem do conforto possível que se possa facultar à Maria do Céu.
    Na sequência da generosíssima oferta do Sr. Fernando Neves, temos um quadro para leiloar - "Encontro de planetas - III" (óleo, com 70X50 cm):

Encontro de Planetas- III, de Fernando Neves (foto VO)

    Trata-se de uma obra que esteve exposta nos 25 anos de iniciativas com artesãos e artistas de Gondomar - ARGO (Festas do Concelho 2014) e figura no respetivo catálogo de divulgação, onde constam nomes como Albertino Valadares, Aurélio Mesquita, Aurora Rodrigues, Hélder Mau, João Ferreira, Linda Correia, Manuel Lima, Zulmiro de Carvalho, entre outros.
   Quem der mais receberá a tela. A generosidade concedida não se fez acompanhar de base de licitação. Começo eu: por cinquenta euros o óleo é meu e já tenho parede para o colocar. A todo o tempo será divulgada a oferta maior, a fazer até ao último dia de fevereiro.

Montagem: imagens do catálogo da Exposição da Associação de Artistas de Gondomar (2014).

    Que este seja o passo primeiro para uma quantia que se quer tão grande quanto a causa que nos move. À imagem de cada um de nós como planeta, fica o voto de que cumpramos o "encontro de planetas", no maior número possível para alimentar a esperança.

     À espera do futuro e dos que contribuírem para a causa, a última palavra só pode ser para o agradecimento mais do que reconhecido ao Sr. Fernando Neves e a firme vontade de que se consiga também valorizar um trabalho que em tudo merece também pelo gesto assumido. Muito obrigado.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Nas origens da nossa língua

     A propósito de pronúncia (e particularmente do Norte) muito há a dizer. Por isso, fica aqui mais um registo, em modo de "apuntamentu du Nuorte, carago"!

    Tudo começa pelo registo noticioso dado a ver e a ouvir pela TVI (e, já agora, apresentado por uma mulher do Norte que, por razões profissionais, se deixou naturalmente padronizar pela variedade centro-sul do português):

Reportagem da TVI no Jornal das 8

     O facto é que as provas estão à vista e são linguistas que o dizem (conforme o expõe o Professor João Veloso, do Centro de Linguística da Universidade do Porto). Poderíamos mesmo recorrer a um dos primeiros gramáticos da língua (João de Barros) que, no século XVI, na consciência da função social e pedagógica das línguas vernáculas, defende para o português o louvor atribuído ao latim como língua transmissora de conhecimento. Daí a construção de um projeto pedagógico-didático com uma gramática, uma cartilha para aprendizagem da leitura e da escrita, mais dois debates dialogados entre um pai e um filho, intitulados "Diálogo da Viciosa Vergonha" e "Diálogo em Louvor da Nossa Linguagem". É neste último que, em 1540, já se pode ler o seguinte, numa das réplicas do Pai:

Retrato de João de Barros, gramático quinhentista
  "A mim, muito me contentam os termos que se conformam com o latim, embora sejam antigos: cá destes devemo-nos muito prezar, quando acharmos não serem tão corruptos que sua menção lhes faça perder a autoridade. E não somente dos que achamos nas escrituras antigas, mas de muitos que se usam entre o Douro e o Minho, conservadores da semente portugue-sa, os quais alguns indoutos desprezam, por não saberem a raiz de onde provêm."

     Ainda que a extinção da escola literária galaico-portuguesa se conjugue com a deslocação do centro de domínio da língua para o eixo Coimbra-Lisboa (e a consequente distinção deste como núcleo de uma norma instituída por razões políticas e culturais - a que a fixação da Universidade ora em Lisboa ora em Coimbra não é estranha), é um facto que a variedade entre o Douro e Minho se reconhece como estando na origem do Português, que se estendeu para sul, por ação da reconquista cristã, e nesse domínio geográfico viria a encontrar o espaço de consolidação da sua norma padronizada. Da variedade original, assumidamente mais conservadora, há estudos que sublinham como alguns dos seus traços fonológicos e morfossintáticos podem ser revistos em variedades continentais europeias e não-europeias da língua (como, por exemplo, Rosa Virgínia Mattos e Silva o adianta em obras como O Português Arcaico - Fonologia ou ainda Estruturas Trecentistas: elementos para uma gramática do português arcaico).

    Reside aqui a importância e a autenticidade do(s) dialeto(s) nortenhos: no característico conservadorismo mais próximo da génese da língua portuguesa e na projeção desta pela península e pelo mundo com alguns desses traços originais - dados que a variedade padronizada não deve ignorar (por dele[s] também derivar) e os "indoutos" destes tempos não podem esquecer.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

No final de um feriado

     São tão poucos (os feriados) que têm de ser bem aproveitados.  Contudo, no final,...

   ... fica sempre aquela sensação de saber a pouco, tal como qualquer fim de semana a dar lugar a uma segunda-feira.
     Assim, a poucas horas de um sono (que dará lugar a mais uns dias de trabalho) e já cansado (por antecipação), recordo os versos de Pessoa:


      A par da poesia, a melodia.
   Já cantados por Zeca Afonso e Cristina Branco, os versos dão lugar a versões (musicais) - duas interpretações para tempos que o poeta da Geração de Orpheu não viveu, mas que, como qualquer ser humano, pôde espelhar nalguma da insatisfação progressiva (de qualquer era) que o poema traduz:
     Assim se ouviu o poema na voz de um cantor de intervenção:


     Na rememoriação de abril, fica a mesma letra com outra entoação e nova emoção - ainda com a repetição da primeira estrofe, fazendo lembrar, na canção, que sempre é possível mudar o cansaço e o "sono" com o espírito da revolução:


    Seja em tempos de ditadura seja nos da democracia, seja ainda no fim de um tempo ou instante feliz que um feriado representou, fica a forte consciência desta metafórica regressão da e na vida: não há bem que sempre dure. Se a viagem de comboio é sinónimo de passagem, sintomático é o processo de progressivo apagamento, cansaço e adormecimento, na descendente animação dos viajantes. Depois da euforia ruidosa (marcada nas sonoridades consonânticas, nos risos e no entusiasmo sugeridos na estrofe inicial), a contenção e a moderação surgem nos silêncios criados (na estrofe segunda) até que a ironia se impõe (na estrofe final e, particularmente, no verso "Mas que grande reinação!"), lembrando que o tudo também dá em nada. Assim se prossegue nesta metáfora da vida: euforia, moderação, disforia; força juvenil, moderação adulta e velhice tão próxima da infância.
     Mudanças no espírito (e também no físico); trajetos, percursos, viagens, numa viagem que se faz também com o tempo e em qualquer idade.

    O que podia ser uma simples viagem de comboio (o que ficaria sempre bem nesta "carruagem") resulta numa leitura outra - a de um viajante que, por ora, está "à janela" (a ver passar), "nem sim nem não", talvez à espera de chegar... Onde? Quem sabe, a Portimão ou ao período de férias que não cabe num feriado, não! 

sábado, 6 de dezembro de 2014

Estrelinhas que me guiem...

      É o que dá caminhar junto ao mar.

   Colhe-se, no areal, o que o oceano não quer, dá-se-lhe um retoque e a obra nasce (sem que propriamente o homem queira ou Deus tenha feito sonhar):

As estrelas da casa - foto VO

   Talvez sejam precisas todas estas estrelas para me guiarem num caminho que faço muitas vezes sem destino. Assim, nada como as trazer para casa, juntar umas conchas e pedras espalhadas na areia, numa tábua de madeira com alguma pintura feita de pôr-de-sol, de noite e de mar.

    Já que não dá para ter um Matisse, um Degas, um Van Gogh ou um Picasso, fica mais um Oliveira (muito "estrelado") pelas paredes da casa.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Um espaço... na capital do "reino"

      Na sequência de uma visita de estudo, entrei no que se diz ser o espaço do povo ou do cidadão.

     No circuito de visitantes ao Palácio de S. Bento - antigo convento da Ordem Beneditina para os monges negros de Tibães -, muitos foram os espaços dados a conhecer. O hemiciclo das sessões plenárias tem sempre a magia que um pequeno aparelho televisivo não dá (por mais que este último o mostre quase diariamente). A guia responsável pela visita insistia (e bem) no sentido simbólico de muitos dos sinais da História e da Cultura Política nele presentes.
      As curiosidades do espaço são muitas:             Salão Parlamentar da Assembleia da República (Foto VO)
. de mosteiro a prisão, foi ainda aqui mantido durante muito tempo o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, na sequência do Terramoto de 1755;
. a forma semicircular da sala de sessões plenárias resulta de uma reconstrução feita num espaço retangular anterior a um incêndio dos finais do século XIX (1895);
. a sala das sessões parlamentares atual apresenta uma luneta a encimar a estátua da República, com uma ilustração da primeira sessão das Cortes Constituintes (pintada por Veloso Salgado), tendo esta ocorrido não no Palácio de São Bento, mas no Convento das Necessidades, em 1821, de onde resultou o primeiro documento constitucional português: a Constituição de 1822;
. em torno da luneta, encontram-se escudos / brasões dos distritos e das antigas províncias ultramarinas, em lembrança das circunscrições eleitorais representadas pelos deputados da I República;
. a bancada do governo, inexistente no tempo do Estado Novo (por o governo ditatorial não comparecer no parlamento), foi colocada na sala em 1976 (estando localizada entre a tribuna dos oradores e a assembleia dos deputados);
. junto às galerias do público, encontram-se seis estátuas em gesso, representando a Constituição, a Diplomacia, a Lei, a Jurisprudência, a Justiça e a Eloquência;
. na antecâmara à sala das sessões - na Sala dos Passos Perdidos -, é possível ver telas pintadas por Columbano Bordalo Pinheiro, evocando grandes figuras estadistas nacionais; a encimar as portas deste espaço, encontram-se leões em gesso patinado, representando a Força.

Estátua da 'Eloquência' no Salão Parlamentar (de Júlio Vaz Júnior) - Foto VO

     A sala foi dos visitantes. Ainda bem, porque assim houve condições para apreciar o lugar e não ficar distraído por alguns "famosos" (por vezes de razão mais do que discutível). Deputados, nem sombra deles. Estavam a trabalhar noutros espaços, disse-se. Seja. Que trabalhem bem e muito, para contrariar a imagem pública que se vai tendo de muitos e que, nos últimos tempos, em nada é abonatória dos bons serviços prestados - particularmente, quando há cartas de jovens (tão coincidentes com outros registos de quem já se cruzou com representantes da nação) a denunciar como neste salão parlamentar também se faz muito do que não é devido nem esperado:

Excerto televisivo do Jornal das 8, do passado dia 1 de dezembro, na TVI

       Tantas situações... tanto bom exemplo em local errado! Depois venham dizer que somos pouco produtivos e que não podemos gozar tantos feriados (só para lembrar o que ontem foi absurdamente retirado do calendário)!
      A julgar pelos exemplos mencionados, até os que pretendem e tudo fazem para cumprir ficam sem chão.

    Na sequência da atividade (extra)letiva levada a cabo, fica o apontamento respeitoso e agradecido para os dinamizadores e participantes na visita; para quem tão simpática e eficientemente os guiou; para a dignidade de um espaço político de relevo - do espaço, sublinho, porque por certas pessoas (nomeadamente algumas que nele circulam e se mostram a representar - mal - o cidadão) nem sempre grassa a admiração nem o respeito dos representados. Como diria Padre António Vieira: "Não é isto verdade? Ainda mal."