segunda-feira, 2 de maio de 2011

Um dia... dois dias... uma só mãe.

     É o dia comercial da mãe, que também tem dia santo... e merece.

Quarteira (Foto: VO)
     
     Mãe é mãe, pai é pai (ouve-se), por maior tautologia de que o enunciado se revista - ou talvez, assim, se diga mais implicitamente do que o que pudesse ser feito explicitamente, sempre aquém do que se quisesse ou pretendesse dizer.
     Este é o mundo da mãe ou a mãe que é um mundo.
    Por muito que se diga que tem mãe todo o vinho com depósito na garrafa; que é mãe o lugar, a obra, a abelha, a água, o país (ou pátria), a galinha; que é filho sem dor e mãe sem amor; que a ociosidade é a mãe de todos os vícios; que levar as mãos às fogueiras é a mãe das frieiras, a presença da mãe não deixa de eternizar a possibilidade de nascer, de crescer, de suportar a dor.
     E porque hoje é mais um dia da mãe...


Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!


Almada Negreiros, in A Invenção do Dia Claro (1921)


     Na palavra cantada por tantos poetas, há três letras numa só sílaba.

     Há sangue, há carne, há amor para que o Homem sobreviva ao tempo.

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