quinta-feira, 21 de maio de 2026

Açúcar com retórica

     Nem de propósito: o exemplo do pacote de açúcar.

    Um aluno perguntava, a determinada altura da aula, se as palavras antónimas tinham alguma coisa a ver com antítese. Têm sim, enquanto mecanismo linguístico ao serviço de efeito retórico presente em discursos de natureza diversa.
    Quando se diz que importa fazer da fraqueza força, as palavras antónimas finais configuram um jogo antitético, tal como o enunciado publicitário de um pacote de açúcar que me veio parar às mãos:

Um jogo antonímico ou antitético - leve / forte (Foto VO)

    Não precisa de se enquadrar a questão das figuras de estilo ou figuras de expressão exclusivamente na lógica da produção literária. Poderá ser na comunicação do quotidiano, na linguagem argumentativa e persuasiva da publicidade, da política, da oratória, de textos poéticos ou literários.

       A retórica não se prende apenas a questões de estilo; cumpre-se no(s) uso(s) da língua e no que se evidencia nas figuras de palavras. Mais um caso de evidência da inseparabilidade da língua e da literatura.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Um 'me' que se distingue pelo recurso à terceira pessoa... e não só!

        Chega o tempo de preparar para provas / exames / testes.

     Por vezes, o confronto com respostas indevidas leva a incertezas que, definitivamente, importa eliminar (seja qual for a fonte destas).
       
       Q: Bom dia, Vítor. 
         Preciso da tua ajuda: na imagem que envio, os pronomes "me" desempenham as funções sintáticas de CD e CI, respetivamente, ou são ambos CI?

Testes / técnicas para a distinção do 'me' são precisos(as). E não só!

          R: Olá.
       Na primeira frase destacada, o 'me' assume a função sintática de CD (complemento direto), dado que, no paradigma das diferentes pessoas gramaticais, esse pronome seria substituível por 'te' / 'o' / 'nos' / 'vos' / 'os'. A pronominalização, na terceira pessoa, por 'o(s)' é a prova da função sintática de CD. Analisando a particularidade da primeira realização frásica, é de verificar que se está perante a base nuclear verbal 'ENSINAR+ALGUÉM+A FAZER'; portanto, 'Ensiná-lo a isso' (de novo, a marca de CD na pronominalização acusativa sublinhada) e não '*Ensinar-lhe a fazer / a ler / a isso'. Trata-se de uma construção ou realização análoga a 'OBRIGAR+ALGUÉM+A FAZER' ou 'LEVAR+ALGUÉM+A FAZER' (obrigá-lo a fazer / levá-lo a fazer), também com CD.
        Não há, assim, como confundir esta realização sintática com uma outra mais próxima da estrutura argumental típica do verbo 'ensinar': ENSINAR+ALGO+A ALGUÉM. Nesta última é que seria possível a pronominalização (dativa) do CI (complemento indireto): 'ensinar-me / te / lhe / nos / vos / lhes algo.
       Na segunda frase, o 'me' funciona como CI (complemento indireto), já que a substituição, na terceira pessoa, corresponderia a 'lhe(s)' - a marca de dativo, associada a CI, com o segmento 'de tudo um pouco' (inversão de 'um pouco de tudo') a funcionar como CD.

        O teste de substituição / pronominalização é uma técnica eficaz na consciencialização do que só, aparentemente, parece igual. Contudo, nem tudo o que parece é (inclusive na gramática da língua).

terça-feira, 19 de maio de 2026

Um prémio nacional!

      Assim foi várias vezes repetido. Com orgulho.

    No passado dia dezasseis de março, enquanto diretor do AEML, tive a oportunidade de endereçar palavras de agradecimento na sessão solene realizada perante a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários de Lisboa, no âmbito da Semana de Formação Financeira. Anunciava-se aí a atribuição do Prémio Nacional de Ensino Secundário ao Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), na 14.ª edição do "Concurso Todos Contam". Não estive presente fisicamente, mas de modo remoto; à distância de um clique.
   Hoje, cessadas as funções de então, mas em compresença mais real e autêntica (no tempo e no espaço), sublinho e reitero o reconhecimento e o agradecimento devidos, pelo envolvimento no projeto "Desafios de Literacia Financeira - joga e aprende", avaliado como o melhor projeto nacional de ensino secundário. Um orgulho feito de dinâmicas de professores, de alunos, de encarregados de educação, galvanizados para uma educação de excelência, focada numa prioridade do projeto educativo do AEML, da educação para a cidadania, da formação de muitos jovens (desde o pré-escolar ao 12º ano) e, inclusivamente, de alguns professores.
      Destaco o trabalho de coordenação do Departamento de Ciências Sociais e Humanas, particularmente do grupo disciplinar de Economia e Contabilidade, que chamou a si e ao AEML múltiplas iniciativas envolvendo docentes, discentes e encarregados de educação; agentes locais, regionais, nacionais - todos contribuindo para o que hoje se materializa no reconhecimento público do que foi levado a cabo nesta escola pública, solidária, inclusiva, multiculturalmente diversa, apostada no trabalho de competências múltiplas e de formações diversas.

A hora de receber o cheque do prémio "Todos Contam", na presença de muitos, mas não todos. (Foto GIC)

         Se, inspirados pelo patrono Manuel Laranjeira, é de reconhecer a importância de "abarcar num mesmo olhar o céu e a terra", acrescentaria, em localidade piscatória, a energia do mar. Com esta, entrou-se na onda do tecnológico, do digital e da inteligência artificial; aproveitámos as marés de oportunidades, onde a educação financeira também foi levada a bom porto; aproveitaram-se ventos favoráveis à aprendizagem que nos une enquanto cidadãos ativos e participativos (nos orçamentos, na cidadania, na dinâmica de atividades e projetos). Na integração e articulação construídas (com língua, pensamento matemático, domínio das expressões, literacia financeira), cumpriu-se um projeto digno de consagração, cujo mérito muito enaltece o compromisso com a promoção de competências essenciais junto de jovens. Tem sido este o barco em que navegamos.
        Segundo o Administrador da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, o Dr. Diogo Alarcão, o AEML tem razões para se congratular e orgulhar: recebeu um prémio nacional, por um projeto construído no seu seio. Por isso foi reconhecido, galardoado, incentivado a prosseguir um trabalho que já havia merecido uma menção honrosa, em ano anterior, e que, este ano, evoluiu para a distinção: a melhor escola nacional no concurso "Todos Contam".

Celebração da entrega de um prémio nacional: 14ª edição do concurso "Todos Contam". (Foto GIC)

     Concretizou-se um programa de acolhimento para a receção do prémio. E na presença de todos (representante regional do Banco de Portugal, representantes da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, Presidente da Câmara Municipal de Espinho, Presidente da Junta de Anta, Diretor cessante, Diretora e Presidente do Conselho Geral do AEML, Coordenadora do Departamento de Ciências Sociais e Humanas), os docentes do grupo de Economia e Contabilidade, bem como alunos do agrupamento demonstraram o envolvimento e entusiasmo que caracteriza(ra)m os vencedores.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dar voz às mulheres

       Hoje e sempre, mesmo com uma voz masculina a abrir. 

    Um final de tarde, pelas 17:30, foi tempo de participar na palestra "Dar Voz às Mulheres", no Auditório Maria Ricardo. Em espaço com nome de mulher, foram recebidas seis ex-alunas e/ou professoras do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), numa oportunidade para recordar a passagem delas pela escola e para falar do percurso profissional que assumiram / têm assumido até hoje. Assim culminou o projeto de Cidadania da turma do 11ºF/F1 (Artes e Humanidades), intitulado "Mulheres que transformam o Mundo: Arte, Voz e Cidadania". No mural da cantina, uma exposição sublinhava o contributo feminino para o mundo; no caso português, havia lugar para as figuras singulares de Maria de Lurdes Pintassilgo (até hoje, a única mulher a desempenhar o cargo de primeiro-ministro), de Paula Rego e de Joana Vasconcelos (artistas contemporâneas de renome internacional).
     Convidaram-me para abrir o evento na qualidade de ex-diretor do agrupamento - uma presença masculina que não deixou de agradecer o convite, a iniciativa, um projeto que protagoniza mulheres nas áreas em que se destaca(ra)m: Carolina Marques (ex-aluna e deputada), Margarida Quaresma (professora aposentada e voluntária), Margarida Fonseca (jornalismo), Maria Resende (ex-aluna e jurista da APAV / Assembleia da República), Patrícia Carvalho (ex-aluna e enfermeira) e Ana Pais Oliveira (ex-aluna e artista / professora de dança).
      No âmbito das comemorações dos "50 anos: do Liceu ao Agrupamento", o evento não deixou de ser tributo aos conceitos de democracia, de cidadania e de república (femininas na língua, com a última a ser simbolicamente representada pela alegoria da Marianne portuguesa); cruzou-se com temas de referência como os dos Direitos Humanos e da Igualdade de Género; da Democracia e Participação Política das Mulheres; do Desenvolvimento Sustentável e Empoderamento Feminino; da Literacia Financeira e do Empreendedorismo Feminino; do Pluralismo e da Diversidade Cultural.
      A atualidade da sessão foi notória e notável, com a questão do género a manter-se premente enquanto tópico de discussão num mundo ainda pautado pelo domínio / poder masculino. Mesmo assim, a afirmação do foco feminino não deixou de ser uma constante, remontando aos tempos da antiguidade. O tema é transversal na cultura e na literatura - assim se pense na poetisa Safo de Lesbos (c.630-570 a. C.), na helénica Corina (quinto século a. C.), na ascensão de Cleópatra, nas figuras das proféticas sibilas, na romana Sulpícia (primeiro século a.C.), na mártir cristã Perpétua (c.182-203 d. C.); assim se leiam cantigas de amigo, obras de Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge ou se representem personagens ficticiamente inspiradoras como Matilde de Melo, Blimunda ou Lídia (clássica e moderna).
     É um facto que, no seio dos grandes feitos e heroísmos masculinos, grandes homens tiveram sempre o apoio e o amparo de não menores figuras femininas: num tempo como o reinado quinhentista de D. Manuel (o Venturoso), teve de existir uma infanta D. Maria na afirmação e expansão da cultura nacional; o século XVIII vincou o papel da poetisa e pedagoga Marquesa de Alorna, ainda com muito por divulgar e reconhecer na sua obra; a democracia e a liberdade do século XX muito devem ao pensamento ousado e feminino / feminista das três Marias (Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno), com as suas Novas Cartas Portuguesas, de 1972.
      E na geografia nortenha que nos radica, entre o Minho e o Douro, não é de esquecer o sentido da raiz, da origem, de um matriarcado que se firma nos valores fundacionais, da terra, da resistência e da tradição - simbologia de um género que sublima a mítica Geia ou Gaia.

As convidadas no Auditório Maria Ricardo do AEML, numa lição de testemunhos, vivências e conselhos 
(Foto VO)

      A par de tudo isto, três jovens estudantes conduziram uma palestra que (entre o registo da entrevista, a curiosidade juvenil perante vidas experientes, a partilha de conselhos) resultou numa oportunidade feliz de aprendizagens, de expressão de emoções, de uma lição e afirmação expectante numa mundividência outra para gerações futuras. Só para me manter no feminino.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Nem sei que pense

     Fizeram-me chegar um "tesourinho". Ou melhor, dois!

     Convenhamos que é necessário muita imaginação, só para pensar nos produtos anunciados:

Nem com "glúteos" nem com sintaxe se faz boa composição de produtos 
(com agradecimento à MPM)

         Que estes tenham o publicitado, soa-me a tendências canibais. No mínimo!
        Acrescente-se a não concordância sintática ("todos os produtos"[plural] e "contém" [singular]).
     É composição explosiva para um cartaz publicitário que deixa muito a desejar. Caso claro de intolerância (e não é alimentar).

     Isto de confundir glúten com glúteos nem com paronímia lá vai. É mais comédia, mesmo!

quarta-feira, 18 de março de 2026

A diferença televisiva entre haver e ouvir

      A relação não é só num sentido.

      É biunívoca mesmo. Confunde-se ouvir com haver e haver com ouvir:

Imagina se houvesse! Talvez se ouvisse mais. Que desgraça! (agradecimento à recolha atenta da ARS)

       A julgar pelas legendas, a presente e outras já detetadas neste blogue, parece não haver diferença, no uso ora de um ora de outro termo.
     No meio disto tudo, já não se trata de uma questão de surdez (por não se ouvir o que há) nem de visão (por não se distinguir graficamente 'houve' de 'ouve'). 
       Homofonias à parte, é preciso não saber do que se fala nem do que se escreve, mesmo!

    É ignorância assumida quanto ao conhecimento e ao uso da língua - assim é num meio de comunicação social e de difusão do que pior existe (do que houve e não se ouve; do que se ouve e não houve).

segunda-feira, 16 de março de 2026

Presença distanciada, muito comprometida

      Há que explorar as possibilidades que a tecnologia permite.

     É a presença sem estar no espaço; é o agora sem o aqui, com tempo(s), instante(s) em paralelo. Foi desta forma que, posso afirmar, estive com o Sr. Ministro da Educação Ciência e Cultura; com o Sr. Diretor do Banco de Portugal e com as altas individualidades da Conselho Nacional de Supervisão Financeira. Impossibilidades de exercício de funções e limitações na distância geográfica não podem comprometer a participação e a representação do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) num momento de orgulho singular: a atribuição do primeiro prémio nacional do ensino secundário na 14.ª edição do Concurso "Todos Contam".
     A sessão solene de anúncio dos vencedores desta edição do concurso ocorreu pelas 14h00, na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, em Lisboa, e o convite feito tanto pela Comissão de Coordenação do Plano Nacional de Formação Financeira como pelo Departamento de Ciências Sociais e Humanas do AEML tinham de dar lugar a resposta positiva.

Evidência da presença distanciada, com orgulho no AEML (Foto cedida pela CMVM)

    Num discurso de reconhecimento a quem mais diretamente levou a cabo o projeto vencedor (grupo docente de Economia e Contabilidade), a par de todos os que deram o seu contributo implicado e empenhado (e foram muitos), fica a nota audiovisual do dito:

A prova do dito: do prémio atribuído e do discurso pronunciado (excerto do vídeo público da CMVM)

     "Desafio de Literacia Financeira - joga e aprende" é o exemplo do envolvimento de muitos e de variadas competências. Articular e integrar é possível, numa conjugação de propósitos afins, levados a cabo em várias iniciativas dinamizadas no âmbito da educação e da escola públicas, implicando professores e alunos desde o pré-escolar ao ensino secundário, nas múltiplas inteligências e competências que confluíram nas áreas linguísticas, matemáticas e das expressões.

    Um momento feliz para o agrupamento e para quem faz dele entidade de referência nacional. A gratidão é o valor de ordem e a representação do AEML é um dever a cumprir, como sinal natural do orgulho e do agradecimento por (me) colocarem (com) Laranjeira, enquanto marca institucional, na senda da excelência educativa.

domingo, 15 de março de 2026

Por terras de Viriato

      Foi dia de os professores passearem, soltarem risos e conviverem.

     Apesar de alguns pingos de chuva, foi um dia bem vivido e bem "regado", com pequeno-almoço em Vouzela; visita ao Museu do Quartzo, idealizado pelo prestigiado geólogo Galopim de Carvalho e instalado num antigo local de extração de quartzo (Monte de Santa Luzia, na zona de Viseu-Dão-Lafões); almoço no familiar restaurante Zé Pataco (onde não faltaram as encomendas das morcelas, dos queijos e chouriços, mais os tupperwares das migas de entrada); prova e degustação de vinhos na Quinta de Santa Maria; passagem pelo exterior do palácio-museu Aristides Sousa Mendes.

Cartaz de divulgação da atividade promovida

As evidências do vivido: de Vouzela, Viseu, Cabanas de Viriato (Fotomontagem VO)

    Foi um roteiro diferente do traçado no ano passado, ainda que em espaços comuns, numa consolidação e expansão de aprendizagens, com focos em biologia, física, geologia, química, história. No âmbito da plantação, produção e degustação vinícola - com champanhe, branco ou tinto -, ficou o apontamento do "Ribeiro Santo" da região do Dão, com aromas de fruta e rusticidade, mais o apuramento do paladar. A apologia vinícola do norte foi mais do que sublinhada pelo guia, em detrimento daqueles outros que continuam a afirmar que o Alentejo tem mais do que se lhe diga. Um ou outro, o certo é que o nacional (é que) é bom.
    Com muita foto a evidenciar os momentos vivenciados, concretizou-se mais um convívio para criar laços, aproximar nos risos e viver aprendizagens / experiências a recordar.

    Entre referências a famílias brasonadas, percursos a recuperar traços entre o medieval e o barroco, aromas e sabores báquicos da ancestralidade à contemporaneidade, ficou um sábado bem passado, na intenção de prosseguir com viagens e (re)encontros de grupo inter e transdisciplinar para lá dos tempos de escola.

segunda-feira, 9 de março de 2026

A liberdade no (uso do) acento gráfico

     A observação surgiu perante a estranheza do uso.

     É verdade que é mais comum ler-se a palavra sem acento gráfico. Por isso, a mensagem surgiu:

     A: Olá, Vítor!
         De quem me lembrarei, sempre que me deparar com algo como o que está abaixo?
       Guia Geral de Exames 2026: «(...) obrigatoriamente, de atestado médico de incapacidade multiúso (...)»
          É por isso que, por muitos olhos que passem no que escrevemos, nunca são demasiados.

     Tive de responder a desfazer um pouco a certeza nessa estranheza de um 'multiúso', que faz todo o sentido existir, atendendo às convenções ortográficas e de acentuação gráfica contemporâneas.

     B: Bom dia.
         As convenções ortográficas, por vezes, são complicadas. Este é um dos casos.
      Ainda que o uso comum permita a utilização consensualizada da grafia 'multiuso' (com o elemento latino 'multi' e a palavra 'uso' aglutinados), o certo é que, na escrita, há uma regra de acentuação gráfica a determinar que duas vogais juntas em situação de hiato (lidas não como ditongo, numa só emissão de som, mas como vogais diferenciadas foneticamente) fazem com que 'u' ou 'i' sejam graficamente acentuados. É o que acontece, por exemplo, com 'reúne', 'saúde', 'suíça', 'país', 'baú' entre outras palavras.
       Assim, convivem as escritas 'multiuso' e 'multiúso' na língua portuguesa: a primeira, na consciência morfológica e etimológica da (re)composição de um elemento latino com uma palavra atual; a segunda, na ativação das convenções de ortografia e acentuação gráfica. 
     Importa, portanto, que a escrita de uma ou de outra formas surjam coerente e consistentemente nos textos.

Muito uso com ou sem acento - um caso de liberdade na acentuação gráfica (montagem VO)

     Pronto: lá terão que se lembrar de mim na complexidade das relações fonético-grafológicas da nossa língua em combinação com a perspetiva morfológica e algum toque de história da língua e etimologia em deriva.

domingo, 1 de março de 2026

Nova edição de 'As Fadas do Bosque das Cores e das Estórias'

      É a segunda. E aconteceu ontem à tarde.

      Foi a reapresentação, pela segunda edição, de um livro já aqui tratado.
   Li-o há alguns anos, ainda nos tempos da pandemia. Continuo a achá-lo maravilhoso, no texto da Dolores Garrido e nas ilustrações da Cristina Pinto.
     Não tendo estado, desta feita, presente no evento, lembrei-me do encontro de há cerca de quatro anos e voltei a pegar na edição original, achando que lhe podia dar outro fôlego, num projeto de leitura a dinamizar na escola e em associação à fluência de leitura, junto de alunos do 1º Ciclo.
   Fica um apontamento audiovisual, para o projeto a desenvolver: facultar o texto, propor um modelo de leitura expressiva, promover a leitura silenciosa, avançar com dinâmicas de oralização do texto (em segmentos distribuídos por vários alunos).

Montagem de fotos e áudio, para um projeto de fluência leitora 

     Quanto à mensagem transmitida, mantenho a ideia de que se trata de uma publicação para miúdos com mensagens também para graúdos. Portanto, há que explorar oportunidades merecidas de (maior) partilha.

      Porque há temas que importa educar sempre junto de todos. No meu caso, há umas pequenas fadas que circundam cá pela casa (deve ser por isso que o encantamento do livro por cá paira).

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre a desgraça e a desgraceira

      Assim correm estes tempos. Tão mal!

     Primeiro, acorda-se com notícias de mais um conflito, outro ataque ou nova agressão a um país - o que começa a parecer banal, como se de um jogo estratégico se tratasse. Estratégia até pode ser (a favor de quem se sabe); porém, de jogo nada tem, pela desgraça que resulta para todos.
   Depois, não fosse isto suficiente, lá vem mais uma nota de rodapé / legenda televisiva para a desgraceira dos erros que invadem os olhos dos espectadores / leitores:

Citação de palavras, no mínimo, explosivas... pela construção errada na conjugação do verbo 'haver' 
(com agradecimento pela foto à GR)

    Triste é o desconhecimento de que o verbo 'haver' , enquanto principal, não admite conjugação no plural, inclusivamente com os verbos auxiliares que o acompanham (como é o caso de 'estar', no caso concreto do que se lê no rodapé). 
      Não menos desagradável é a expressão "estar a haver explosões". Sem 'haver', a opção 'acontecer', 'ocorrer' resultaria melhor e já sem problemas no plural de 'estão'.
      Como uma amiga o diz, e bem, "É a loucura!"

     A da guerra, a da língua e a de muitas outras situações que haverá (no singular, sim!) a considerar nos dias de hoje, para desgraça da humanidade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Marés de oportunidades (IV) a abrir

      Chegados à quarta versão, fecha-se um ciclo.

    Entre ventos alísios e contra-alísios, foram quatro anos de boas marés no Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), com as quatro unidades orgânicas sempre a remarem para bom porto.
    Na escola-sede, este ano (tal como em anteriores), iniciou-se o programa de atividades com a colaboração de professores(as) e alunos(as) da Escola Profissional de Música de Espinho (EPME), numa demonstração variada de composições, feita de ritmos e intensidades diversas; de produções individuais e coletivas; de harmonias conjugadas em instrumentos de percussão e de sopro.

Cinco dos instrumentistas da EPME que honraram o AEML com a sua presença e colaboração 
(Foto APV)

    Em périplo por diferentes espaços, deu para constatar a participação e a adesão de muitos jovens às dinâmicas propostas por docentes que programaram e animaram atividades motivadoras, de imersão plena em ação, em movimento(s) e sentido(s) tão múltiplos e integradores quanto entusiasmantes: com palestras, pinturas, escrita, jogos, teatro, sussurros poéticos "entubados", desafios e raciocínios práticos, confeção de alimentos, projetos eTwinning, línguas e multiculturalidade, experiências laboratoriais, exposições, plantas e plantações, argumentação, inclusão, entre tanta outra oferta mais. Os assistentes estavam também por todo o sítio, atentos a tanta vivacidade e tanto bulício. Entre a preocupação e a satisfação, ora sorriam com o "tudo à solta" ora sentiam que há dias bem mais exigentes e fatigantes. Alguns prenunciavam que amanhã também correrá bem, confidenciando haver salas por abrir que estão um espetáculo. Para além das que já vi, fica a gestão da expectativa e da novidade.
    Hoje fechou-se o programa com a divulgação de um projeto de cidadania do 10º ano, à semelhança de outro realizado com várias turmas do 12º. O Auditório Maria Ricardo esteve bem composto, com professores(as), alunos(as) e Encarregados(as) de Educação. Pode dizer-se que os temas "Literacia Financeira" e "Cidadãos de Futuro" foram uma forma de ocupação da manhã e fecho do primeiro dia em consciencialização (refletida e crítica) e em beleza.

Apresentação de projetos de Cidadania e Desenvolvimento: 12º (cima) e 10º (baixo) anos
Montagem fotográfica (VO)

     No fim, entre biscoitos e bolhachinhas, mais pipocas, houve breve porto de honra para adultos (ou a variedade sumo, não menos honrado ou honroso), com um pequeno brinde e simpático convívio. À hora dos arrumos, um delgado copo cintilante deixou-se atrair pelo chão e, sonorosamente, multiplicou-se em pedaços. Resumiu uma assistente: "Deixe lá, é festa!"

      Amanhã será outro dia. Com festa ou não, promete ser novo tempo e espaço de aprendizagens em (recre)ação com a comunidade escolar e a educativa.
     

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Nada convicto, mas seguro

      Com tantas depressões, anseio por outras estações.

     A primavera e o verão são sempre as preferidas. E quando mudar a hora, deixando para trás a de outono e a de inverno, melhor será.
     Instalada a vontade de mudança, fico-me, para já, com o sentido da esperança. 
   Tal como o diria Pessoa, "Não sei o que o amanhã trará"; ou, então, repito Régio, no final do seu "Cântico Negro": "(...) Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / - Sei que não vou por aí!"
     Há já algum tempo que tenho vindo a expressar uma preferência. Hoje é dia de decisão. 

Cumpra-se o dever com a responsabilidade que se impõe: a de escolher por causa do que não se quer.

     A ideia tem sido a mesma: nada convencido ou convicto da cruz a colocar em ato eletivo; apenas certo da que não vou assinalar. Fico-me pelo seguro (a figura retórica da antonomásia nunca fez tanto sentido), por não querer a desventura (a negação é certa, por ser verdadeira) nem por quem se mostra atacado pela síndrome Calimero.

     O tempo ditará se a escolha foi a devida. Por ora, foi a possível, por não haver outra.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Uma questão de torres

       Conheço a de Pisa, a de Londres, a dos Clérigos...

    ... mais as de alguns monumentos e igrejas nacionais e não só. Não figuram nesta ilustração, encontrada no Facebook:

As torres que nos fascinam (sendo que a primeira e a última são as mais belas, para meu espanto)

     Por isso, são análogas ao que Caeiro escreve quando se refere ao Tejo: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia."
     Assim sendo, devo assumir que as torres conhecidas são, para mim, as mais belas, porque as vi(vejo) e estive(estou) junto delas. As outras podem fazer pensar; podem ser grandiosas e fenomenais, mas... só me fazem pensar, pelo que possa (não) saber delas e porque as não vi.
    Das que constam no gráfico, a primeira e a última são-me familiares: a Torre Eiffel é linda! Já teve várias cores, subi ao topo dela (ora a pé ora por elevador) e até vi o "escritório" do engenheiro, mais a panorâmica de Paris.

A Torre Eiffel e a panorâmica de Paris a partir do escritório do engenheiro (montagem de fotos - VO)

       A dos livros que não li e quero ler é, por sua vez, também a maior de todas e a que conheço melhor. E está a aumentar, a julgar pelos que estão espalhados pela casa, à espera que pegue neles, os folheie, neles sublinhe as frases / os pensamentos que me espantam,  neles anote o que me faz aprender.

        Venha o tempo para que possa dedicar-me a eles e vá diminuindo a torre mais bela do gráfico.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Regressaram as dores... sem sentido.

     Ainda há pouco entrou o ano e aí estão elas.

    Já havia comentado esta leitura que certo jogador ("joga com a dor") e treinador ("treina a dor") de futebol (aqui, sim, é 'foot' e 'ball') faz com algumas palavras, segmentando o que não é segmentável.
    A campanha da NOS recuperou o senhor (um pouco mais velho) com o mesmo jogo inconsistente (de palavras que não o são) - uma teoria em que só o "mister" Abel Xavier conhece, parece um "master", vende, expande (com os ganhos publicitários), sem ensinar ninguém.

Com anúncios destes pouco se aprende, linguisticamente falando (Foto VO)

     Não é dor no que joga nem no que treina ou vende.
     Para quem entender que se trata de criatividade, é, por certo, de fraca qualidade.
     Em suma, não se atende nem se entende as dores que possam estar a ser criadas.

  Em publicidade tudo vale, independentemente dos valores pedagógicos (que não são garantidamente considerados). Esta é a verdade. Quando um aluno assumir que um jogador é palavra composta, agradeçam à NOS.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Uma tarde cinéfila

       Duas horas de um espetáculo musical a lembrar muito da sétima arte.

      Num concerto de homenagem a Ennio Morricone e a 100 anos de cinema, o público foi brindado com algumas das bandas sonoras mais famosas de todos os tempos, desde "Casablanca", "E Tudo o Vento Levou", "África Minha", “Braveheart” até às mais recentes de "Star Wars", "Titanic", "Gladiador" ou "O Senhor dos Anéis".
     Com interpretação da Royal Film Concert Orchestra, um maestro "nuestro hermano", animador, bailarino e saltitão conduzia toda a orquestração, a revelar-se imensa, numa sincronia de instrumentos, de ritmos, de gestão de intensidades musicais - tudo a cativar os espectadores, a ponto de os colocar a "tocar" (cantando, por exemplo, "The Good, the Bad and the Ugly", de Morricone).

Montagem vídeo com vários apontamentos do espetáculo - Coliseu do Porto: 31/01/2026

     De Ennio Morricone (compositor e maestro italiano), conhecido como "Il Maestro" e autor de mais de quinhentas composições para filmes ou séries televisivas (com Óscar honorário em 2006 e Óscar de melhor banda sonora em 2016, pelo filme "Os Oito Odiados"), ouviram-se melodias marcantes: "Once upon a time in the West", "Cinema Paraíso", "The Ecstasy of Gold", "A Missão" (com a celestial composição "Gabriel's Oboé"), entre outras.

Ennio Morricone no concerto de Munique de 2004, conduzindo a orquestração da sua "A Missão"

     O aplauso final, repetido, de pé foi um sinal do bem-estar conseguido, das emoções vivenciadas, das cenas fílmicas que, de olhos fechados, se recordavam à medida que os acordes musicais iam sendo associados às fitas das "nossas vidas". 

     No tudo que de bom e divertido aconteceu, faltou apenas um enquadramento cénico de fundo, fosse o visionamento de algumas cenas dos filmes, fosse um fundo mais sugestivo. Ficou o foco na música e na orquestração.
 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Triálogos em família

     Conversações linguísticas a três.

     Pergunta o filho qual o contrário de mérito: se desmérito se demérito.
     A mãe está para o primeiro, o filho pretende o segundo. O pai aceita os dois.

Preferível o mérito ao de(s)mérito - a negação instaura a dúvida pela presença de um 's'

    Na verdade, se 'merecer' está para o antónimo 'desmerecer' (com o acrescento do prefixo 'des-'), o mesmo pode aplicar-se, morfologicamente, no par 'mérito/desmérito'.
    Numa perspetiva etimológica, recorrendo à história da língua, encontra-se a razão do 'demérito': no latim, usava-se o termo 'demeritus, -a, -um' (particípio passado de demereo, -ere, com o significado de 'ganhar, merecer, cativar').
   Ambos os termos estão registados em vários dicionários, encontrando-se 'demérito' atestado em textos portugueses desde o séc. XVI; 'desmérito' é mais evidente desde o século XIX. O primeiro está mais para o etimológico e a via erudita com o recurso ao latim (com a família de palavras a destacá-los, por exemplo, em 'demeritório'), enquanto o segundo assenta mais numa consciência morfológica da língua. 

   Se entre marido e mulher não metas a colher, bom é que entre mãe e filho não se crie sarilho. Linguisticamente, quanto a este tópico, reina a paz entre todos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O temporal que (por) aí anda!

    Ele é a Ingrid, o Joseph, a Kristin...

    É a vez de vir um(a) "L".
    Pode ser Língua. É tempestade declarada, a julgar pelo que se lê:

Temporal em Portugal e tempestade na língua - sem bonança! (foto VO)

    Até parece que a concordância se faz da direita para a esquerda (ao contrário do habitual no esquema de lateralidade de leitura europeu): o plural "vários dias" a combinar com "devem demorar"! Tudo do avesso, ao contrário, com o carro à frente dos bois.
    Isto de o singular ("trabalho de limpeza") concordar com o plural ("devem...") é tão tempestuoso que soa a raios e coriscos na sintaxe. Se ainda fosse o sujeito composto ("trabalho e limpeza"), vá que não vá! Só que limpeza dá trabalho e o trabalho de limpeza não fica atrás: DEVE demorar bastante, se for bem feito.

     O que não é bem feito é anunciar uma intempérie no país, esquecendo a sua língua, tão maltratada! Estas legendas televisivas são pérolas recorrentes na desgraça que por aí grassa (sem qualquer graça).

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

       Relembrando a passagem por locais emblemáticos.

       Há cerca de um ano foi assim, tal como há sete.
      A visita turística é cada vez mais isso: turismo. Espaço para memória, sim, mas tão bem organizado e restaurado que vai apagando a realidade dolorosa que foi. Às vezes, parece que só volta a ser por um exercício de imaginação, distantes que estamos desse vivido (será?!).
       Auschwitz é cada vez mais assim: arranjadinho, limpinho, com cara nova.

Eletrocussão, gás, fuzilamento, forca, fome, doença, trabalho forçado - indignidades (foto VO)

     Birkenau mantém-se mais fiel a um tempo que não podemos querer retomar, nos sinais mais pequenos que o induzem. A grandes passos e com alguns sinais de autocracia, despotismo, autoritarismo e ditaduras contemporâneos, permanecem hoje provas naturais desse horror que não pode ser esquecido.
    
A três quilómetros de Auschwitz, Birkenau impõe-se como boca infernal no trago da vida humana (foto VO)

    Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho da União Soviética libertou o campo nazi de concentração e extermínio Auschwitz-Birkenau (um dos muitos espalhados pela Europa), na Polónia. Encontrou poucos sobreviventes, câmaras de gás destruídas, corpos defuntos e cinzas dos assassinados. Milhões de judeus, ciganos sinti e roma, portadores de deficiência, dissidentes políticos, homossexuais, indivíduos arbitrariamente declarados "criminosos" ou "antissociais", trabalhadores forçados, prisioneiros de guerra, testemunhas de Jeová e vários outros grupos considerados menores.
    Tudo começou com ódio, preconceito e antissemitismo, acabando em genocídio. Holocausto: termo de origem grega para significar "totalmente incinerado". 

     Seja este o dia pela dignidade e pelos direitos humanos, combatendo o ódio, a intolerância, totalitarismos e todas as formas de discriminação; preservando a memória na defesa dos direitos fundamentais da vida humana.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Preferências...

       Hoje disse uma delas, por diversas vezes.

    Lembro-me  da virtude que existe no equilíbrio, no comedimento, na moderação. Há quem fale em demasia e, por isso, diz o povo, pouco acerta.
   Recorrendo ao sentido etimológico da palavra, pode dizer-se que, inclusivamente, 'moderação' (derivada do latim "moderationis") significa ação de regular ou governar.
      Assim, construo o pensamento:

Tomo o equilíbrio por seguro, 
para não cair na desventura.

      Tenho dito; ou melhor, escrito. 
    Evocando Alexandre O'Neill, diria que "há palavras que nos beijam"; outras são "sem cor". Se o poeta falava da construção poética, digo que também vale para simples pensamento.
     Pareço um clássico, é certo. Na vida, há momentos assim - particularmente quando se sente que há situações ou pessoas com as quais não se pode nem se deve contar nem no presente nem no futuro.

      Sinto-a como necessária nestes tempos, para não cair em excessos (que não trazem felicidade a ninguém).