sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Em tempo de "Folhas Caídas"

      É verdade que estamos em pleno outono...

    A polissemia da expressão "Folhas Caídas" pode ser explorada na evocação desta estação; na desorganização de registos em papéis dispersos (espalhados pelo chão); na metáfora e no anúncio do ciclo final de uma vida. De tudo isto se compõe o título da coletânea poética de Almeida Garrett, enquanto obra associada à expressão outoniça, serôdia do sentimento e vivência românticos.

Uma outra forma de ler Folhas Caídas, de Garrett, segundo a (cerc)ARTE

     Perante um "Ignoto Deo" (poema de abertura) a funcionar como prólogo de toda a compilação, prenuncia-se a temática de uma idealidade, de um misticismo e um pendor religioso a todo o tempo pautados pela referência a termos maiusculizados (Deus, Nada, Beleza, Verdade, Essência, Existência > Ignoto Deo), sugerindo a dimensão abstrata, ideal, perfeita. 
    Contrariamente a esta linha, há que considerar a menção à beleza, ao amor e ao prazer (minúsculos e com a adjetivação "real beleza", "puro amor"), a par da referência a um ser marcado por um "espírito agitado", que "Só vive do eterno ardor", a "olho nu", a enganar e a errar. Estes são conceitos-chave para traduzir uma experiência relacional do 'eu' com um 'tu', em tudo semelhante à vivência homem-mulher. Assim, a noção de um amor eterno, moral e idealmente equacionado dá lugar a uma realidade e experiência mais terrenas do que celestiais, naquilo que se resume como uma "combatida / Existência".
    Em síntese, encontra-se aqui a trajetória, o percurso do herói romântico: dramaticamente dilacerado pelos conflitos e pelas oposições entre o céu / a terra, a idealização / a realidade, o tu / o eu, o encontro / a despedida. Ao encontrar um amor, o sujeito romântico vivencia e alimenta a instabilidade, o desequilíbrio que colocam o sentimento na iminência de uma despedida ("Adeus"). Esta é a ironia romântica revista em poemas construídos com a narratividade própria de um "eu" que experiencia situações e sentimentos feitos de estados antitéticos (sonho / ausência de amor; realidade / presença do amor, acompanhados de dor). Leia-se "Quando eu sonhava", "Aquela noite" e "Anjo Caído" - três poemas feitos de uma narratividade que mostra o sujeito poético nessa condição conflituante.
    Surge, então, o ciclo dramático de toda uma sequência de outras composições líricas que sublinham a contínua inquietação do "eu", a mover-se no terreno da contradição, da tensão e da constante procura. E porque no percurso feito há perigo e sedução, fica essa nota com o poema e a canção:


     BARCA BELA

Pescador da barca bela, 
Onde vás pescar com ela? 
      Que é tão bela, 
      Ó pescador!

Não vês que a última estrela 
No céu nublado se vela? 
      Colhe a vela, 
      Ó pescador! 

Deita o lanço com cautela, 
Que a sereia canta bela... 
      Mas cautela, 
      Ó pescador! 

Não se enrede a rede nela, 
Que perdido é remo e vela, 
      Só de vê-la, 
      Ó pescador!

Pescador da barca bela, 
Inda é tempo, foge dela 
      Foge dela 
      Ó pescador!

      Depois da composição romântica, a evocação da memória e da experiência de leitura com as cantigas de amigo é inevitável, numa aproximação ao cenário das barcarolas ou marinhas, à estrutura de refrão e ao gosto romântico pelo imaginário medieval.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Confusão nos dentes... e ficar pelos cabelos.

        Já não basta haver quem confunda fio dental com fio dentário?!

    Ter o adjetivo 'dental' e 'dentário' na língua portuguesa já não é uma questão de moda: para não criar confusões, deixemos o primeiro para os fios que certas peças de roupa íntima sugerem (de tão finas que são, escondem-se entre algumas partes do corpo) e o segundo para tudo o que seja respeitante ao tratamento médico da dentição. Por mais que os dicionários ainda apontem 'dental' nos usos de 'higiene dental', a moda acabou por marcar a diferença, recuperando-se o étimo latino 'dentarius' para o contexto da medicina, do estudo ou do tratamento dos dentes. Daí a clínica dentária, a medicina dentária, a cárie dentária, a erupção dentária, a placa dentária. 
    Chegados ao fio dentário, resolvamos um problema na publicidade que grassa por aí nos supermercados da nossa praça, onde parece existir produtos muito originais e alternativos:


      Isto de criar um creme... pasta... dental!!! A não ser 'dentário' que seja 'dentífrico'. Melhor seria por certo, dado tratar-se ora do nome ora do adjetivo relativo aos produtos destinados à limpeza e ao tratamento dos dentes. Neste sentido, talvez também não fosse mau falar no 'fio dentífrico' ou na 'fita dentífrica' - mais sílabas, mas etimológico também.

       Todavia, isto de ter nos dentes uma proteção anticaspa será uma situação demasiado criativa (digo eu)! Talvez ainda venhamos a ter de tratar da cárie nos fios de cabelo. Santa paciência!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ontem foi dia "interestelar"

      Mais um filme para abordar a questão apocalíptica da terra...

      Este é o assunto de apresentação para "Interstellar", filme de Christopher Nolan, que encontrou no cenário da ficção científica e no contexto apocalíptico do planeta terra (dominada por pragas, nuvens de poeira, doenças, fugas de habitantes) mais um pretexto para ir em busca da esperança; construir a base de uma crença humana capaz de se afirmar além do material visível; compor um hino à vida e à(s) possibilidade(s) ilimitada(s) do(s) saber(es) e do(s) afeto(s).
     Numa história de amor, de família - onde os laços mais estáveis dos sentimentos permitem ir além do tempo e do espaço alcançados pela nossa consciência -, os limites, por mais que estes existam, nunca são um fim em si. Constroem-se pontes entre o perigo e a salvação; um planeta devastado e uma estação (Cooper), construída à imagem e semelhança do paraíso que ele podia ter sido; a distância e a proximidade; a crença e a realidade.


    Na força da crença e da potencialidade que pode evitar a extinção da Humanidade, bem como na busca de um mundo onde a vida possa ter continuidade, um engenheiro viúvo (Cooper, interpretado por Matthew McConaughey) vive o difícil dilema de participar numa viagem perigosa (de retorno mais do que duvidoso) ou de permanecer junto dos dois filhos.
   A inevitabilidade do fim é um desafio, com fortes motivações para que este último possa ser superado.
     Vai no mesmo sentido o poema do escritor galês Dylan Thomas: "Odeia, odeia a luz que começa a morrer". Citado pelo professor John Brand (interpretado por Michael Caine), um físico da NASA, fica o convite para se viver com intensidade, na crença que permite esgotar as possibilidades e encontrar respostas para o projeto de uma vida (no caso, a resolução do mistério último da gravidade, viabilizador dessa esperança de salvar a Humanidade de uma iminente ameaça).
    Os testemunhos que abrem o filme permitem, pela técnica de flashback, constatar os problemas que existiram; o final sugere a possibilidade de vida numa outra dimensão, mesmo que esta possa estar ao alcance do conhecimento de uma estante - a que separa um pai de uma filha, mas que pode resultar no elo de ligação que um relógio (também) pode criar: o do tempo feito de afetos.
   À medida que ia vendo o filme, ia-me lembrando de A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos, e dos diálogos entre a personagem Tomás de Noronha e o pai deste; ou das interações criadas com uma mulher iraniana. Em ambos havia explicações para as grandes teorias científicas do tempos contemporâneos - como a Teoria da Relatividade Restrita de Einstein, que assume uma ligação entre o espaço e o tempo encarados como relativos; a Teoria da Relatividade Geral, que resolve as questões da gravidade e estabelece o espaço como sendo curvado, encarando que a massa dos objetos distorce o espaço e o tempo; a Teoria do Tudo, unificadora de abordagens e entendimentos acerca das forças da natureza, inspirada também na Teoria Quântica, apostada na reconstrução dessas forças e dos movimentos associados a partículas invisíveis aos olhos comuns; a Teoria do Caos, enquanto modelo matemático evidenciador de como pequenas alterações nas condições iniciais podem provocar, numa espécie de progressiva onda, alterações substanciais nas condições finais - num efeito equiparado ao bater de asas da borboleta que provoca a imprevisibilidade num ponto mais distante.
       Muitos saberes, muita inteligência à espera de que a vida lhes dê oportunidade de vingar, para a construção de uma maior consciência de tudo. E na continuidade das gerações está a possibilidade de se progredir.

     Ver a vida não como um fim em si mesmo, mas como o meio para permitir aproximações, acessos a outras formas de desenvolvimento de inteligência e consciência é um sentido de leitura para uma existência que possa manter continuidade com a seguinte, numa espécie de cadeia ininterrupta que ganha maior sentido pela energia emotiva e afetiva que a una. Neste sentido, a vida é "interestelar".

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

E já que estamos na formação de palavras...

     Isto nem sempre é como as marés - há aquelas que dão para tratar sempre do mesmo assunto.

     Desta feita é uma questão de relevo, tanto no interesse como no assunto em causa.

     Q: No manual com que estou a trabalhar no oitavo ano, aparece 'montanha' como exemplo de palavra derivada por sufixação. Está certo? Existe o sufixo 'anha'?

    R: Cara colega, não aconselho que siga esse exemplo nem a resposta da autoria do manual. Basta consultar um dicionário para atestar esta minha posição.
    Na verdade, a palavra montanha já entrou no léxico português (à semelhança de 'alugar', 'beleza',  'encarnado', '(im)possibilidade', 'prematuro') formada na própria língua latina. tendo ocorrido apenas evolução fonética.
      Assim, 'montanha' vem da forma latina 'montanea' (feminino de 'montaneus'), que evoluiu para o português através de um processo comum de palatalização do [ni] em [η].

    Caso para dizer que 'quem muito alto sobe' muito corre o risco de, a todo o tempo, cair. Lamentável para quem ainda confia nessa ideia vendida por alguns de que manuais "certificados" contêm a "verdade da ciência". Enfim! Antes se caminhasse pela ou junto à montanha e a qualidade (de vida) seria bem melhor.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Gerúndio...forma não finita?

       A questão é levantada por um colega interessado em distinguir formas finitas de não finitas.

      Tudo por causa de formas verbais e sua implicação nas orações.

     Q: Não consigo perceber por que razão o infinitivo é uma forma não finita. Consigo conjugá-lo. O gerúndio tem mais razão de ser para uma forma não finita. Se puderes, esclarece-me. Obrigado.

    R: Ainda que, classicamente e na gramática tradicional, o infinitivo (a par do gerúndio e do particípio passado) seja considerado uma forma verbal sem conjugação, efetivamente há um infinitivo flexionado em termos da categoria pessoa (infinitivo pessoal - ex.: 'para eu fazer > tu fazeres > ele fazer > nós fazermos > vós fazerdes > eles fazerem). Esta flexão não se compagina, contudo, com a possibilidade de a forma verbal infinitiva ser exclusiva numa frase simples nem se projetar numa conjugação em termos de tempo  (contrariamente às formas finitas do indicativo, conjuntivo, condicional, imperativo).
       Em termos de realização padronizada da língua, é verdade que o gerúndio é mais limitativo neste aspeto (e, por isso, a maior aceitação enquanto forma não finita).  Contudo, também já se encontram estudadas algumas realizações de conjugação pessoal do gerúndio em variedades do português do Brasil e mesmo do europeu (no sul de Portugal). É o caso de enunciados como “Em querendos isso, trabalha” ou “Em comendem a sopa, podes pensar na sobremesa”, com uma espécie de flexão evidenciada na segunda pessoa do singular e na terceira do plural, numa aproximação a expressões gerundivas como "Em acabando o dinheiro, não se compra mais nada" (sinónima de "Quando acabar o dinheiro, não se compra mais nada") adaptadas à pessoa em causa ("Em tendos dinheiro..." ou "Quando tiveres…"; "Em tendem dinheiro..." ou "Quando tiverem...").

       Não sendo uma construção da norma padrão, estas realizações estão aí tanto na boca do falante comum quanto na de utilizadores instruídos e cultos, nem que seja numa adequação ou adaptação ao discurso de pares convivas, no dia-a-dia. Ainda assim, a projeção da flexão fica-se  pela pessoa; não pelo tempo. Daí o gerúndio ser uma forma não finita.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Formar palavras em português... e não só.

     Nem de propósito, a questão surge prematuramente face ao calendário.

    Diz-se que o dia dos prematuros celebra-se a 17 de novembro. Falta menos de uma semana, mas a dúvida instala-se e não é, por certo, por ocorrer antes do tempo.
   Em contexto de sala de aula, a palavra em estudo é 'prematuramente' e quer saber-se qual o processo de formação a ela associado. A orientação vai no sentido de ser uma derivada por sufixação, até que alguém insiste que também vê lá o prefixo 'pre' e, assim, quer ver o cenário da derivação por prefixação e sufixação.
  Não sendo incompreensível a situação e compreendendo o interesse do raciocínio revelado, não pode ser dada razão a quem não a tem e por vários motivos:
. primeiro, a palavra que dá origem a 'prematuramente' é 'prematuro' e não 'maturo', pelo que é o termo segundo a constituir a base derivacional, à qual se acrescenta o sufixo 'mente';
. segundo, a consideração do prefixo faria sentido quando se quisesse abordar a formação de 'prematuro' (a partir de 'maturo', base a que se acrescentaria o prefixo 'pre');
. terceiro, o reconhecimento da origem latina do termo 'prematuro' (praemātūrus, praemātūrum) permite afirmar que, a haver alguma formação prefixada, esta aconteceu no próprio latim, não no português.
. quarto, qualquer dicionário com informação etimológica e descrição morfológica dará conta da construção 'prematuro + mente'.
    Se 'prematuro' pode ser lido como o que não está maduro, é de registar ainda a própria presença do som [t] na palavra em estudo, uma pequena pista da origem de tudo (mais um dado comprovativo da origem latina do português), na qual já aparecia incorporado o prefixo (que, a sê-lo, só pode ser entendido na formação da palavra no próprio latim).

      Assim, fiquemo-nos pela derivação por sufixação recorrentemente presente no português para a  formação de advérbios a partir de adjetivos (deadjetivais).

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

No caso de alguém querer...

     Há quem circule pela cidade a oferecer abraços gratuitamente. Houve já quem oferecesse beijos.

      Aqui ficam uns em verso. São mais poéticos!


                               BEIJOS

«Beijar!» linda palavra!… Um verbo regular
Que é muito irregular
Nos tempos e nos modos…


Conheço tanto beijo e tão dif’rentes todos!…


Um beijo pode ser amor ou amizade
                        Ou mera cortesia.
E muita vez até, dizê-lo é crueldade,
                       É só hipocrisia.

O doce beijo de mãe
É o mais nobre dos beijos,
Não é beijo de desejos,
Valor maior ele tem:
É o beijo cuja fragrância
Nos faz secar na infância
Muita lágrima… feliz;
Na vida esse beijo puro
É o refúgio seguro
Onde é feliz o infeliz.

Entre as damas o beijo é praxe estab’lecida,
Cumprimento banal – ridículos da vida:


(Imitando o encontro de 2 senhoras na rua)


– Como passou, está bem? (Um beijo.) O seu marido?
(Mais beijos.) – De saúde. E o seu, Dona Mafalda?
– Agora menos mal. Faz um calor que escalda,
Não acha? – Ai Jesus! Que tempo aborrecido!…


Beijos dados assim, já um poeta o disse,
Beijos perdidos são.


(Perder beijos! que tolice!
Porque é que a mim os não dão?)


O osculum pacis dos cardeais
É outro beijo de civ’lidade;
Beijos paternos ou fraternais
São castos beijos, só amizade.
As flores também se beijam
Em beijos incandescidos,
Muito embora se não vejam
Os ternos beijos das flores.
Há outros beijos perdidos:
Aqui mesmo,
Há aqueles que os atores
Dão a esmo,
Dão a esmo e a granel…
Porque lhes marca o papel.


– Mas o beijo d’amor?


Sossegue o espectador,
Não fica no tinteiro;
Guardei-o para o fim por ser o «verdadeiro».
Com ele agora arremeto
E como é o principal,
Vai apanhar um soneto
Magistral:


Um beijo d’amor é delicioso instante
Que vale muito mais do que um milhão de vidas,
É bálsamo que sara as mais cruéis feridas,
É turbilhão de fogo, é espasmo delirante!


Não é um beijo puro. É beijo estonteante,
Pecado que abre o céu às almas doloridas.
Ah! Como é bom pecar co’as bocas confundidas
Num desejo brutal da carne palpitante!


Os lábios sensuais duma mulher amada
Dão vida e dão calor. É vida desgraçada
A do feliz que nunca um beijo neles deu;


É vida venturosa a vida de tortura
Daquele que co’a boca unida à boca impura
Da sua amante qu’rida, amou, penou, morreu.


(Pausa – Mudando de tom)

'O Beijo', de Gustav Klimt (1907-1908)
Desejava terminar
A beijar a minha amada,
Mas como não tenho amada,
(A uma espectadora)
Vossência é que vai pagar…
Não se zangue. A sua face
Consinta que eu vá beijar…

……………………. 

(atira-lhe um beijo)

Um beijo pede-se e dá-se,
Não vale a pena corar…


                                                       in Poesia - Mário de Sá-Carneiro
                                                            organização de Fernando Paixão,
                                                            São Paulo, Editora Iluminuras, 2001

      Por aqui me fico, não sem lembrar esse saber popular que diz que "À honra dos santos se beijam as pedras".

      E para os menos "santos", deixo a versão mais secular e profana: "À boca que se beijou nunca mal se desejou".

sábado, 8 de novembro de 2014

A passiva a fazer-me ativo...

      Depois de um apontamento a uma falsa passiva (sem hipótese de reconstituição da frase ativa), regresso à ação da escrita.

      Os passeios de "Carruagem" dão nisto - com a vantagem de não haver cobrança de bilhete.

      Q: Olá, Vítor,
       Estive a “passear” pela tua “Carruagem 23” e, quando li a tua explicação para aquela situação (absurda, na minha opinião) do complemento agente da passiva, em 'Estive apaixonado por ela […]', lembrei-me de algo que me aconteceu há uns dias. Quando resolvia uma atividade do vosso Com Textos, do 10º ano, aquando da análise de uns excertos de regulamentos (pp. 62-63), dei como exemplo de um enunciado marcado pela construção da voz passiva o seguinte: “O nome do visitante fica registado (…)”. Na verdade, o verbo auxiliar não é o ‘ser’; no entanto, creio que, neste caso, a realização é semelhante. Que te parece? Quando puderes, esclarece-me, por favor.
        Obrigada.

      R: Olá.
        A questão da diátese ou voz passiva apresenta, em português, diferentes formas configurativas, com orações de diferentes tipos.
      A mais comum ou típica é precisamente a que diz respeito a orações passivas verbais, que apresentam o verbo auxiliar 'ser' seguido de um particípio passado (correspondente ao verbo pleno da frase ativa), acompanhados ou não do complemento agente da passiva - daí o contraste de orações passivas longas e curtas, respetivamente.
       As orações passivas que recorrem ao verbo 'ficar' são as que descrevem uma situação consequente / resultante da mudança de estado, de lugar ou de posse (orações resultativas), como as abaixo escritas:

i) O correio entregou a encomenda > A encomenda foi entregue (pelo correio) > A encomenda ficou entregue.
ii) O meliante fere a vítima > A vítima é ferida (pelo meliante) > A vítima fica ferida.
iii) O autor escreverá o livro > O livro será escrito (pelo autor) > O livro ficará escrito.

    É no âmbito destas últimas (iii) que o enunciado "O nome do visitante fica registado" pode ser perspetivado como marcado pela construção da voz passiva (resultativa), geralmente sem a realização do complemento agente da passiva. Trata-se de uma versão oracional e aspetualmente convergente com as construções passívas típicas (as configuradas com o verbo auxiliar 'ser': 'O nome do visitante é registado' < 'O visitante regista o próprio nome' OU 'Alguém regista o nome do visitante'), sendo estas últimas recuperáveis em termos da aplicação geral das regras de transformação passiva / ativa. Abordaria cenários destes, por exemplo, quando focasse diferenciações aspetuais na construção de enunciados passivos.

                       Configurações da passiva em Português
  Ainda assim, e particularmente ao nível do ensino básico (o contexto que me motivou no apontamento citado), creio que devem ser tratados os casos mais típicos, generalizáveis no que aos exercícios de transformação ativa / passiva diz respeito. No ensino secundário, faz sentido que progressivamente se equacionem outras formas de construção, nomeadamente as passivas resultativas (com o auxiliar 'ficar') e as passivas pronominais (do tipo 'Discute-se o orçamento em todo o sítio' < 'O orçamento é discutido em todo o sítio).
                     
      E depois da ação, volto à condição de passivo (menos cansativo ou, por certo, permitindo despromover, colocar em segundo plano temático, ocultar os agentes da ação). Até porque hoje é domingo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Uma questão de 'ques'

      Com palavras tão elogiosas, como é possível não dar andamento à "Carruagem"?

      De regresso aos "que", com muito que se lhes diga.

      Q: Boa tarde, Vítor.
       Em primeiro lugar, começo por lhe pedir desculpa por, mais uma vez, o incomodar, mas a página Carruagem 23 é, de facto, um dos locais que prefiro para tirar dúvidas e aprender. 
         E as dúvidas de hoje são as seguintes:
       Gostaria que me confirmasse qual a classe de palavras a que pertence o "que" nas seguintes frases: "Se no tempo de Fernando Pessoa houvesse Facebook, então é que a arca nunca mais acabava." e "O especialista, se quiser, que continue a buscar as suas interpretações". Pronome relativo nas duas? Na segunda frase, parece-me, mas na primeira estou com muitas dúvidas.
       Já agora, e ainda em relação à última frase, como dividir e classificar as orações? Penso que "se quiser" é subordinada adverbial condicional e podemos considerar "O especialista que continue a buscar as suas interpretações" subordinante.
      Devemos ainda dividi-la em "O especialista que continue" subordinante e "a buscar as suas interpretações" substantiva completiva? " dado que a podemos substituir por "O especialista que continue isso". 
        Grata pela atenção, assim como pelo verdadeiro serviço público prestado à língua portuguesa.

     R: Boa tarde, colega.
        Primeiro de tudo, muito obrigado pelas suas palavras e pela confiança. Fico muito satisfeito por saber que esta "carruagem" tem público no seu andamento e que, pelos vistos, aprecia as "viagens" realizadas.
          Quanto à classificação dos 'que' indicados, registo o seguinte:

i) "Se no tempo de Fernando Pessoa houvesse Facebook, então é que a arca nunca mais acabava"
                                                                      Partícula de foco / operador de construção clivada

ii) "O especialista, se quiser, que continue a buscar as suas interpretações"
                                                                                     Conjunção completiva

      Em ii), a colocação dos elementos da frase na que seria a ordem canónica ( > que o especialista continue a buscar as suas interpretações, se quiser) permite verificar a presença de uma oração ('que o especialista continue a buscar as suas interpretações') com uma forma verbal no conjuntivo (continue), com valor seja diretivo seja optativo. Por sua vez, esta oração tem por base uma outra pressuposta / subentendida. Assim, é de admitir uma construção plena do tipo '[Peço / Permito / Espero / Desejo / Pretendo / Tenciono / Quero] que o especialista continue a buscar as suas interpretações'; daí o entendimento do 'que' enquanto conjunção subordinativa completiva ou integrante, introdutora de um argumento interno (complemento direto) ao núcleo verbal sugerido no sublinhado.


        Em i), 'que' integra uma expressão('é que') responsável pelo realce / destaque atribuído à oração consequente a uma condição inicialmente criada. A construção 'é que' (enquanto unidade) proporciona uma funcionalidade discursiva própria, tomando-se o 'que' como um operador do que os estudos linguísticos designam estruturas ou construções clivadas. Atendendo ao exemplo em concreto, 'é que' funciona como apresentador de uma oração (segunda), enfatizando o seu conteúdo na sequência da condição (contrafactual) pressuposta e na base de um raciocínio também pressuposto ( < [a coleção de documentos d]a arca nunca mais acaba). Em suma, a classificação deste 'que' situa-se mais no plano de análise discursivo-textual, da gramática de texto, do que no da tradicional gramática da frase. Tem, portanto, um sentido pragmático mais relacionado com atos de fala, nomeadamente o de uma reação ao que pudesse ser um ato anterior (implicado) como 'Esta arca nunca mais acaba!'
     Quanto à questão da divisão e classificação oracional do segundo exemplo, "se quiser" constitui uma subordinada adverbial condicional de uma frase matriz configurada por um núcleo verbal principal elidido (um dos acima propostos, no esquema, à esquerda). A este último sucede um complemento direto ('que o especialista continue a buscar as suas interpretações'); por sua vez, e a um outro nível de análise, na subordinada completiva terá de considerar-se (internamente) a existência de um sujeito subordinado (o especialista) para um predicado subordinado ('continue a buscar as suas interpretações') com um verbo ('continue') e uma oração não finita infinitiva a funcionar como complemento direto ('a buscar as suas interpretações').

       Na complexidade dos 'que' propostos e da análise oracional solicitada, fica o registo de que nem tudo o que parece é e, no que toca aos exemplos considerados, o ser tem razões muito além das frases que se podem ler.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Tanta paixão e tão pouca razão!

     A questão de hoje é tão preocupante como ser o cenário de uma resposta que nunca podia ser dado.

     Q: Professor, diga-me, por favor qual é a função sintática de "por ela" em "Estive apaixonado por ela durante vários anos". É complemento agente de passiva? Na correção do teste foi essa a resposta, mas não percebo porquê.

      R: Meu caro, por ingrata que seja a minha posição face a quem deu essa resposta, tenho que apontar que houve seguramente um engano. Os tempos são de cansaço, de desgaste e qualquer humano erra. Com mais tempo e maior reflexão, terá que ser revista e retificada essa mesma "correção".
          Primeiro de tudo, a frase apresentada não é passiva, para poder contemplar um complemento agente da passiva.
        Segundo, as passivas têm tipicamente o verbo auxiliar 'ser' - que não comparece no enunciado proposto -, e não 'estar' (que, no caso, nem auxiliar é).
         Terceiro, a recomposição da suposta ativa, a partir da (errada) passiva, não é possível, conforme se pode depreender pela colocação do suposto (e errado) complemento agente da passiva em sujeito (o que daria a impossível construção "????Ela apaixonou-se...."). Além disso, esta sequência não daria lugar à existência de um complemento direto (ativo) que pudesse ser transformado no sujeito da passiva.
          Para fechar o raciocínio, há que assumir, na frase indicada, um sujeito subentendido (Eu) para um predicado ("Estive apaixonado por ela durante vários anos"); dentro do predicado, existe um verbo copulativo ("Estive"), mais um predicativo do sujeito ("apaixonado por ela") e um modificador do grupo verbal ("durante vários anos"). Acontece que o predicativo do sujeito aparece configurado por um núcleo adjetival ("apaixonado") seguido de um complemento desse mesmo núcleo ("por ela"). Portanto, este último segmento é um complemento do adjetivo, função sintática interna (de nível dependente) ao próprio predicativo do sujeito.

        E por aqui ficamos, para que o sentimento não tolde a razão e impeça de ver o que uma reflexão mais atenta sobre a língua revelará. Há que ter muito cuidado com a seleção dos exemplos a fornecer aos estudantes, para que estes mesmos percebam (por reflexão) o que se lhes ensina. Impõe-se, portanto, a revisão da resposta facultada - é preferível isso a persistir no erro.

domingo, 2 de novembro de 2014

Primeiro estranha-se...

     ... depois entranha-se.

     O pensamento até pode ter sido pessoano para o anúncio publicitário da Coca-Cola em Portugal; a questão, contudo, é bem mais atual e tem a ver com a receção da canção "True Love" dos Coldplay.
    Ouvido o 'Ghost Stories' (o sexto álbum de estúdio do grupo, lançado no mês de maio deste ano) e os 'hits' que já daí saíram ('Magic' e 'A Sky Full of Stars'), sempre colhi o 'True Love' como grande música, à espera de sucesso. Reconheço que, às primeiras audições, havia algo de estranho no solo da guitarra; hoje, adoro-o. O mesmo para toda a canção, que sempre me soou verdadeiramente à Coldplay e com a intervenção crítica / pedagógica das grandes melodias do grupo:


        TRUE LOVE

For a second I was in control 
I had it once I lost it though 
And all along the fire below 
would rise

And I wish you could have let me know
What's really going on below 
I've lost you now, you let me go 
But one last time 

Tell me you love me 
If you don't then lie 
Oh lie to me 

Remember once upon a time 
When I was yours and you were blind 
A fire would sparkle in your eyes 
And mine 

So tell me you love me 
If you don't then lie 
Oh lie to me 

Just tell me you love me 
If you don't then lie 
Oh lie to me 

If you don't then lie 
Oh lie to me 

Call it true, call it true love 
Call it true, call it true love 

      De novo, uma mensagem de fundo, significativa: ser diferente não impede a felicidade, desde que se mantenha a esperança, o espírito do encontro, de quem se aceite e possa partilhar o que há ou tem de melhor. Há tanta ficção na realidade quanto o real poder ser possível (mesmo que entre o real e o possível tenha de se dar espaço a alguma ficção, também presente na mentira: "then lie / Oh lie to me").

       Na música o insólito, a aparente diferença resultam, como se no desarmónico e estridente grito não deixasse de haver a harmónica e melódica sintonia.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Verdades saramaguianas

     Contra factos não há argumentos - aqueles estão à vista de todos; estes não têm ponta por onde se pegue.

   Na segunda divisão (vulgarmente designada capítulo) de Memorial do Convento, de José Saramago, têm normalmente os alunos que comentar a importância de um pensamento para a história narrada:

Montagem de fotografia (de Sónia  Vieira) com texto / pensamento (de José Saramago) 

     Talvez a tarefa seja incompleta, se não for feita a transposição para a realidade, para a condição destes tempos tão semelhantes aos literariamente representados. Se então (o do passado narrativo) era a farsa, o ridículo, "o descaro e a impiedade", agora (o presente vivido) é a máscara, o escárnio, a falta de credibilidade nas palavras e nos atos. São os pequenos a pagar as loucuras e a desfaçatez dos mais poderosos. É o popular comum a não poder escapar (mesmo que tenha sempre cumprido bem o seu papel e tenha confiado no propagado cruzamento de informações) ao que os grandes sempre fogem (na forma mais estratégica, simulada e perversa que qualquer um vê e sente como injusto).
     Voltando ao pensamento do narrador saramaguiano, é a maioria governante a mexer no bolso de quem trabalha... a ser o olho e a mão, sem cara nem pulso; ainda assim, a dominar no pior exemplo político, necessariamente não cuidando da maioria governada.
    Triste condição a de um país onde certos homens se posicionam como Deus(es), a escrever(em) torto (tortíssimo) em linhas que também, estando longe de ser direitas, dificultam a construção de qualquer sentido de ação.

      Depois venham dizer-me que a literatura é ficção. Por vezes é tão parecida com a realidade que só um cego é que não vê. Coitados de nós, que não aprendemos com a(s) história(s)!

domingo, 26 de outubro de 2014

Porque há siglas que podem ser acrónimos

      Regressa-se aos acrónimos, desta feita na sua distinção face às siglas.

      Há conceitos que, por mais que se queiram diferenciar, têm zonas de contacto. Os próprios estudos assim o demonstram, por mais que haja razões para os querer em campos opostos.

     Q: Caro colega, como classificar, quanto ao processo de formação, as palavras OIM (Organização Internacional para as Migrações) e SOS? Ambas as palavras se podem pronunciar como uma palavra só. 
         De acordo com o dicionário terminológico, e com os exemplos apresentados, surgiu-me a dúvida.
        "Acrónimo: Palavra formada através da junção de letras ou sílabas iniciais de um grupo de palavras, que se pronuncia como uma palavra só, respeitando, na generalidade, a estrutura silábica da língua."
      "Sigla: Palavra formada através da redução de um grupo de palavras às suas iniciais, as quais são pronunciadas de acordo com a designação de cada letra.".
        Aproveito a oportunidade para lhe dar os parabéns pelo Blog e agradecer os esclarecimentos, sempre tão claros.

         R: Caríssima colega, é com prazer que lhe respondo à dúvida, além de, desta forma, também poder agradecer as palavras simpáticas dirigidas à CARRUAGEM 23.
          Começando por citar Margarita Correia e Lúcia San Payo de Lemos (em Inovação Lexical em Português, ed. Colibri, APP, 2005, p. 46), é de sublinhar que "aquilo que distingue uma sigla de um acrónimo é apenas a sua concordância/não-concordância com a estrutura silábica da língua em causa. Uma unidade como ONU é uma sigla (porque é formada pela primeira letra de cada uma das palavras que constituem a designação — Organização das Nações Unidas), mas é também um acrónimo (porque a sua estrutura silábica é conforme à estrutura do português). Por seu turno, unidades como CGTP ou UGT (União Geral de Trabalhadores) apenas podem ser consideradas siglas."
            Neste alinhamento, é possível afirmar que a grande distinção prende-se com o seguinte: ´
. sempre que a palavra é formada apenas pelas iniciais de uma expressão, encontra-se a diferença entre sigla e acrónimo pela realização fónica, com o último a admitir uma realização silabada - o caso de TAP, NATO ou UNESCO, cuja leitura se faz na base de uma estrutura silábica e não por indicação letra a letra (cf. [TAP], [NA][TO] e [U][NES][CO]);
. é necessariamente um acrónimo toda a palavra que, já na sua formação, integra, total ou parcialmente, sílabas da expressão que lhe serve de base (exemplo de REFER, termo construído a partir das sílabas de 'REde FERroviária' Nacional).
        Atendendo aos casos concretos que solicita, assumo que, comummente, os falantes soletram cada uma das letras do 'SOS' (para se referirem ao sinal de emergência / perigo ou a situações críticas que requeiram intervenção urgente), nunca as lendo como se de uma sílaba se tratasse. Daí ser uma sigla. O mesmo sucede com OIM.

         Em síntese: entre a soletração da sigla e a silabificação do acrónimo fica a distinção de dois processos de formação irregular de palavras -  tão irregular quanto poderem coexistir os dois, atendendo à forma como os falantes pronunciam o termo em causa.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Higiene a quanto obrigas...!

     Contactado por uma dúvida que, não sendo nova, ainda levanta questões por se considerar (talvez) da mesma fase o que sucede, morfologicamente, em momentos distintos.

   Q: Colega, diga-me, por favor, como classificaria a palavra 'anti-higiénico' quanto à sua formação. Obrigado.

      R: Caríssimo colega, trata-se de uma palavra que é formada a partir de 'higiénico' (base), a que se acrescenta um prefixo (anti). Daí tratar-se de uma palavra derivada por prefixação.
       Esta será a última etapa de formação.


    Uma outra questão é a que se prende com a formação de 'higiénico' (derivada por sufixação, a partir de 'higiene', com o sufixo adjetival 'ico'), anterior à palavra entretanto solicitada.

   Mais um caso, portanto, de processualidade morfológica sequencial, construída em fases diferentes.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Tempo deles...

       ... dos dióspiros, pois então.

O fruto da discórdia linguística (foto VO), com agradecimento à VS.
    E, antes que digam que é erro, convém alertar para o facto de a palavra estar bem escrita. DIÓSPIROS, sim senhor, com acento gráfico no primeiro 'o', é verdade.
   Verdade, verdadinha é que ninguém o diz tal como deve ser - que é como quem diz, tal como se escreve: a palavra é esdrúxula (assim o dita o dicionário), mas toda a gente a pronuncia como se fosse grave (com a sílaba tónica no 'pi'). Não é de admirar, portanto, que, por influência da fala (incorreta), também quase todos escrevam (erradamente) o termo, sem o acento gráfico que se impõe.
     Ainda hoje falei do caso aos meus alunos, até para que ganhem a noção de como a língua se encontra em mudança no estádio sincrónico em que nos encontramos, a ponto de atualmente já ninguém ter consciência de que deve escrever-se 'dióspiro' e não 'diospiro'; de que deve dizer-se a palavra como proparoxítona (acento fónico esdrúxulo) e não paroxítona (grave).
       
       Ofertaram-me seis dióspiros. Um (dióspiro) já foi! Quando acabarem (os dióspiros), posso comprar mais (dióspiros), mas vou preparar-me para falar de forma errada (não vá a vendedora pensar 'Olha, olha... Professor de Português e a falar tão mal). Ironias da evolução da língua (viva).

sábado, 18 de outubro de 2014

Uma divindade mística de felinidade

    É o que se pode dizer e escrever quando os gatos têm mais de sete vidas (para não falar de experiências e convívios muito recentes com outros "gatos").

     Não era meia-noite nem as ruas da cidade estavam vazias (ao contrário do que diz a famosa canção da gata Grizabella). Havia, contudo, o luar: o da noite e o do palco que recebiam o público, a chegar desde as 20:30. Pouco depois de uma hora de espera, anunciava-se o começo: apareciam figuras esculturais e felinas junto a uma lixeira, num musical de canto e dança só interrompido por um curto intervalo.
   Desde a estreia em 1981, no New London Theater (onde permaneceu em palco até 2002), muitos foram os países que assistiram a este espetáculo de Andrew Lloyd Webber com versos de T. S. Elliot, (na maioria, do Old Possum's Book of Practical Cats, da década de 30 do século XX; alguns outros mais que, não sendo de conhecimento público, foram integrados graças à cedência de vários textos pela viúva do escritor); milhões de espectadores se emocionaram com a magia da celebração da raça dos gatos Jellicle, bem como a escolha daquele que teria a hipótese de "renascer" para uma nova vida.
    Sugerido pelo poema "Rhapsody on a Windy Night", alguns dos versos de T. S. Elliot podem ser revistos na cantiga "Memory", cantada pela gata Grizabella:


     Também na memória fica este espetáculo, de luz, cor e muita gataria. No final, fechado o baile dos Jellicle, o velho gato da tribo (Old Deutoronomy) indica como os espectadores devem lidar com os seus companheiros (afinal, aqueles que também circularam pela plateia e assustaram os mais desprevenidos): eles são muito parecidos com os humanos, feitos de beldades (como a gata branca Victoria), de vilãos (como Macavity), de perfecionistas (como Skimbleshanks, o gato dos comboios), de nostálgicos (como Gus, o gato do Teatro), de artistas mágicos (como Mistoffelees), de preguiçosos (Jennyanydots, a gata Gumbie), de poderosos (gato Rumpus), de engatatões narcisistas (Rum Tum Tugger), de líderes sábios (Old Deutoronomy) e também dos que se afastam para mais tarde regressar (Grizabella).

      No meio de tanto gato - com cumplicidades, batalhas, bailes, alegrias e desapontamentos -, há vidas que se multiplicam numa lixeira que, podendo ser um tipo de mundo, sempre pode dar lugar a uma viagem com destino a um novo e universo; a uma nova oportunidade (Heaviside Layer). Nisso também os gatos ensinam os humanos, apelando para a dimensão da memória ("Memory").

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

És mulher...

     O dia foi intenso, na alegria que se cruza com a dor.

    É difícil aceitar o que a injustiça impõe. Mais uma razão para viver com a vontade de imaginar, ultrapassando os limites que nos prendem à condição de sofrer.


ÉS MULHER...

Disseram que não eras mais bebé,
com o amor de quem te vê mulher...
Tudo mudou. Ficou a mesma fé,
devoção de um grato pai que te quer

presente; de dois irmãos que te mimam;
de uma mãe que, chorando, te tem viva.
Estiveram os amigos que te estimam,
os familiares que te querem... Diga

o tempo o que disser, "Já és mulher!"
Estejas como estiveres, onde puder
ser, haverá anos a celebrar:

'Parabéns a você' há de soar,
contido - mas sentido -, por haver
mágoa pelo que te fizeram perder.


    Pessoa escreveu "quem dera / Volver a sê-lo!", pensando no que pudera ter sido. Noutros casos, diria que era bom volver ao que (já) se foi. Na impossibilidade, que se seja! Além de tudo, há sempre os que se acham de si partidos e que podem (re)descobrir a existência dos que são ou estão pelo que muitos querem. 

     Eis a prova da esperança do querer, misturado com a força do crer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Um filme deliciosamente português

      Depois de uma experiência fílmica dececionante, chegou o (inesperado) inverso.

    Assumo que, à partida, não entrei na sala de cinema com grandes expectativas. A companhia era excelente, mas o filme não me dizia muito, a julgar pelo trailer e pelo que se anunciava em termos temáticos: a angustiante perda (na e da vida) e o peso estagnante da solidão superados pelo encontro de uma idosa de 73 anos com um jovem de 18, com tudo o que de mais insólito se previa na relação.


     "Os Gatos Não Têm Vertigens", realizado por António-Pedro de Vasconcelos, aborda a força de uma amizade que salva vidas: a de um jovem com dificuldades, e desamparado na vida, mais a de uma triste viúva, que bruscamente perdeu a sua fonte de energia. Ambos enfrentam o dia-a-dia numa sociedade onde parece não haver tempo para nada e onde o dinheiro se tornou regra de ouro ou condição básica de sobrevivência. Uma nota de esperança surge quando, um pouco à semelhança de David Copperfield (de Charles Dickens), o espectador depara com um jovem que não se resigna e, depois de uma infância e adolescência difíceis, acaba por vencer na vida pela escrita, graças à ajuda recebida de um outro alguém que lhe deu de comer, o acolheu, o "leu", num encontro improvável e inesperado.
     Com argumento de Tiago Santos, as personagens Jó (João Jesus) e Rosa (Maria do Céu Guerra) precisam apenas de um terraço para construir um universo de afetos, capaz de ultrapassar o desencanto do rapaz e a história triste de quem acabou de perder subitamente o companheiro (Joaquim, interpretado por Nicolau Breyner) de uma vida, de uma existência pautada de lutas e resistências várias. Nas diferenças de cada personagem, há uma base comum: a clandestinidade do amor, que vai ser conjuntamente descoberta e cimentada pelos comportamentos, pelas confidências, pelos compromissos, pela linguagem e pela cumplicidade cómica (tantas vezes reproduzida num "És tão disparatado!"). Dela, também, Ana Moura dará conta, musicalmente, enquanto voz do tema principal da banda sonora:

Fado-canção "Clandestinos do Amor", da banda sonora do filme 
(interpretado por Ana Moura e escrito por António-Pedro de Vasconcelos)

CLANDESTINOS DO AMOR

Vivemos sempre sem pedir licença
cantávamos cantigas proibidas
Vencemos os apelos da descrença
que não deixaram mágoas nem feridas

Clandestinos do Amor, sábios e loucos
vivemos de promessas ao luar
Das noites que souberam sempre a pouco
sem saber o que havia para jantar

Mas enquanto olhares para mim eu sou eterna
estou viva enquanto ouvir a tua voz
Contigo não há frio nem inverno
e a música que ouvimos vem de nós

Vivemos sem saber o que era o perigo
de beijos e de cravos encarnados
Do calor do vinho e dos amigos
daquilo que para os outros é pecado

Tu sabias que eu vinha ter contigo
pegaste-me na mão para dançar
Como se acordasse um sonho antigo
nem a morte nos pode separar

Nós somos um instante no infinito
fragmento à deriva no Universo
O que somos não é para ser dito
o que sente não cabe num só verso

Enquanto olhares para mim eu sou eterna
estou viva enquanto ouvir a tua voz
Contigo não há frio nem inverno
e a música que ouvimos vem de nós


     Trata-se de uma bela película, a dar conta do desprendimento que uma idosa divertida (no espírito e na vida vivida) pode assumir, para se revelar e se sentir útil junto de um jovem marginalizado. Curiosamente, num filme com interpretações de grandes atores (Maria do Céu Guerra, Nicolau Breyner, Fernanda Serrano, Ricardo Carriço), há a revelação de um jovem ator (João Jesus) que se impõe entre os veteranos com a qualidade da continuidade. Todos jogam para uma história em que os jovens (gatos) arriscam, desafiam, "não têm vertigens"; também alguns idosos não as sentem, ora porque dão de comer "aos gatos" (no terraço) ora porque também procuram ter tempo, ter projetos, ser úteis ao mundo - depois do tanto por que lutaram e viveram.
     No cómico de situações e de linguagens apresentado, o espectador sai do filme com o bem-estar e a sensação de que o mundo pode ser melhor, porque feito de humanidade, de afetos e de possibilidades decorrentes de encontros felizes.

    Porque os bons são premiados e os maus da fita denunciados; porque pode haver justiça (nem que seja apenas na ficção); porque pode haver felicidade independentemente da idade e dos caminhos que nos fazem cruzar com tristezas e/ou com aparentes alegrias..., há filmes que, na seriedade do enredo, não perdem a leveza que nos faz sentir bem. Este é um deles.

domingo, 5 de outubro de 2014

Historinha para um dia grande

   Em dia de celebração republicana, falta o feriado, roubado pelo fim de semana (e não só!).

   "Eu nasci na República"... e não sei se sou mais feliz (mas reconheço que "assim penso tudo aquilo que sempre quis"). É que o povo anda muito desesperançado.
    Esta é a minha reação ao filme de animação de Emília Mimi (Primeiro episódio Mix República), datado de 2010 e exibido no "Monstra" - Festival de Animação de Lisboa. Fica a história para lembrar como a vida faz frequentemente esquecer o passado, nem sempre melhor do que o presente (por pior que este último seja):


   Implantada a República e erguida a nova bandeira, faz hoje 104 anos que nos despedimos da Monarquia enquanto regime político oficial nacional. Talvez tenhamos substituído alguns problemas por outros tantos (às vezes parecendo os mesmos), mas sempre fica a possibilidade de podermos chamar a nós o poder de escolha, de voto naqueles que vão ter a legitimidade de os (vir a) resolver.

     Vou apanhar sol e acreditar que "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena" (só para citar o poeta).

sábado, 4 de outubro de 2014

Não é só a má qualidade de imagem...

       Demasiado mau para ser verdade.

     E assim o canal RTP nos vai habituando ao mau uso da língua, aquele que supostamente devia dar o exemplo até pelo "Bom Português" (também por vezes duvidoso) que vai divulgando ao telespectador logo pelas manhãs.
       Distorcida a imagem, deve esta ser reflexo tanto da dificuldade em ver o aumento (sUbida) do salário mínimo como do conhecimento distorcido da própria língua:

Sobe, sobe... salário, sobe, ... se ainda não SUbiu! (Foto VO)

       O pretérito perfeito mantém a regularidade gráfica da base verbal no infinitivo: 'sUbir'; daí 'sUbiu'. E, já agora, talvez não seja mau lembrar que, a partir do tema (radical e vogal temática) do pretérito, se formam o mais-que-perfeito simples do indicativo (sUbira, sUbiras, sUbira, sUbíramos, sUbíreis, sUbiram), o imperfeito mais o futuro do conjuntivo (respetivamente, sUbisse, sUbisses, sUbisse, sUbíssemos, sUbísseis, sUbissem e sUbir, sUbires, sUbir, sUbirmos, sUbirdes, sUbirem).

       Regularidades dos paradigmas flexionais (morfológicos) e ortográficos que a língua tem, mas que alguns responsáveis da comunicação desconhecem (devem ser influências a mais do "SObe, sObe, balão sObe" ou, então, a projeção de alguém que, falando à moda do 'Nuorte, só biu' uns parcos euros na carteira). Haja paciência!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Um filme para esquecer; um livro a rever.

         Os Maias é para ler. Sem mais.

        Há livros que não desmerecem os filmes que neles se inspiraram (lembro-me, por exemplo, de O Carteiro de Pablo Neruda, de Antonio Skármeta, e que Michael Radford dirigiu cinematograficamente). Por poucos que estes sejam, às vezes o sentido estético e artístico da tela chega a ser uma mais-valia para as páginas corridas pelas mãos e pelos olhos dos leitores.
       Outros - a maioria dos que conheço - não têm comparação possível. Os Maias, de Eça de Queirós, pertence a este último grupo, atendendo ao que pude assistir na versão fílmica de João Botelho.

Trailer do filme inspirado na obra realista-naturalista queirosiana

    Não posso dizer que tenha alguma coisa a ver com o realizador, de quem já apreciei outros desafios cinéfilos. O certo é que, para mim, a obra é um dos maiores romances da literatura portuguesa, depois de O Ano da Morte de Ricardo Reis (de Saramago). Nisso fica logo marcada por uma elevada expectativa, para não dizer reserva face ao que a sétima arte possa trazer para uma narrativa ímpar. O próprio João Botelho entende o texto como "intocável" e, como tal, anunciou uma proximidade que qualquer leitor atento vê por vezes comprometida.
       Há aspetos muito bem conseguidos no filme: o episódio do Sarau da Trindade, o da revelação incestuosa (comicamente entrecortado pelo pormenor do chapéu de Vilaça que não aparece nem deixa que o sentido trágico do momento se adense), o da relação consciente do incesto  por parte de Carlos (ainda que numa cena demasiado prolongada, por comparação a momentos significativos da obra ora eliminados ora reduzidos); o jogo de ausência de cor (na estrutura da novela ou da concentrada analepse inicial), seguido do colorido que acompanha os dois anos de vida de Carlos em Lisboa; a caracterização e decoração de interiores; a construção de algumas personagens (nomeadamente, Ega e o avô Afonso da Maia).

Exemplo dos wallpapers disponibilizados na página oficial do filme (http://www.ardefilmes.org/osmaias/)

         Depois, há toda uma deceção: exteriores repetitivos em telões pintados por João Queiroz, sem grande apelo (particularmente os do Douro, sem a vitalidade refrescante e rejuvenescedora de Santa Olávia) nem a tonalidade de luz ou calor tão marcantes quanto desgastantes da capital; personagens que ficam muito aquém dos traços que Eça destacadamente individualizou (um Eusebiozinho tão indiferenciado, um Dâmaso tão apagado e quase sem "chique a valer", uma Maria Eduarda tão longe do retrato de "deusa", um Alencar mais tresloucado do que "catedral romântica", um Afonso da Maia jovem tão pouco convicto ou convincente, uma condessa de Gouvarinho sem sabor, nada arrebatadora ou insinuante); a ausência de momentos fulcrais do romance (como o primeiro encontro de olhares entre Carlos e Maria Eduarda, apenas mencionado no jantar do Hotel Central; o episódio de Sintra) ou a introdução de outros tão desajustados (como o de uma patética Maria Eduarda sofridamente caída numa rua de Lisboa, o de planos inusitados para as rodas das tipoias ou caleches); a presença de um narrador cuja voz monocórdica, séria e grave não deixa ecoar os sinais críticos (e, por vezes, também risíveis) que a lente de um monóculo observador e atento deixava ver / ler.

    Se as "Cenas da Vida Romântica" (próximas do subtítulo romanesco "Episódios da Vida Romântica") estão mais para o projeto queirosiano das "Cenas de Vida Portuguesa" do que para a fidelidade ao romance de 1888 (o terceiro, depois de  O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio). Procurar ter em tela o que possa ser um conjunto de pinturas tornadas cenários teatralmente ajustadas à ambiência e ao registo próprios de uma ópera até poderia revelar-se uma estratégia interartística relevante; peca por as "cenas" ficarem tão irreais e antinaturais quanto afastadas de um retrato queirosiano real(ista) e natural(ista) ainda atual aos olhos dos leitores contemporâneos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Céu... Esperança...

       Uma causa para abraçar.

       É um caso triste, mas que existe. Tão próximo!
     Para o divulgar, ficam as palavras de quem com ele conviveu nas alegrias e a quem dá a mão para o futuro e a esperança.

      Dizer o quê, escrever o quê?
      Esta é das histórias mais trágicas que já conheci.
    Sou professora da Maria há dois anos (10º e 11º ano). Conheci uma menina aplicada, lutadora, humilde e que sabia bem o que queria!
     De um dia para o outro, tudo mudou...
     Uma operação, à partida simples, pôs fim à Maria que todos conhecíamos...
     Hoje, a Maria está presa a uma cama... dependendo de tudo e de todos...
     Aqui entramos nós; podemos ajudar!
    A Maria precisa de tanta coisa... da nossa presença, do nosso carinho, mas também de uma cama articulada, de um colchão, de uma cadeira de rodas...
     Para tal criamos uma conta em nome dela para fazer frente aos dias que hão-de vir...
     Por favor divulguem e sejam solidários! Um pequeno contributo pode fazer toda a diferença!


     Professora Manuela Oliveira ...
     Mt obrg 
     Força Para a Maria Do Céu

    Um erro médico, uma falha nos procedimentos cirúrgicos, uma irresponsabilidade técnica - hipóteses sem resposta e sem remédio.

     Vamos a isto. Há muito trabalho a fazer para dar o conforto possível à Maria. Este vai ser o meu voluntariado.