quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Qual satisfação?!

     Isto de confundir nomes com formas verbais definitivamente não combina com educação.

    Ontem, num programa televisivo em que se discutia os motivos da greve de professores e se avançavam os argumentos mais diversificados, segundo as perspetivas em discussão, houve aquele momento sem qualquer hipótese de demonstrar "carinho" (para citar apenas quem se pronunciou em tais termos):

Uma imagem a fazer perder o sentido e a escrita de uma palavra (com agradecimento à AMT)

   Sem cara nem identificação, lá apareceu um rodapé confundindo o pretendido 'satisfaçam' (forma verbal no presente do conjuntivo) com a indesejada 'satisfação' (nome). No que toca ao domínio da língua portuguesa, não há comunidade educativa que veja as necessidades educativas satisfeitas, desconhecendo-se a ortografia (distintiva na terminação em 'am' e 'ão'), a fonética (tão marcadamente contrastiva entre sílabas tónicas e as que não o são) e a morfologia.
     É ou não é triste ler o que não se deve? Nem o programa conduzido por Carlos Daniel o merece nem Mariana Carvalho (citada) é respeitada no que diz quando se dá a ler tamanha incorreção. 
      Umas aulas de gramática impõem-se em qualquer curso de comunicação, na rádio ou na televisão.

     Uma desgraça nunca vem só, e logo num canal de televisão (RTP1) que se põe a jeito, perdendo a imagem e a razão (e assim prossegue a impunidade de quem escreve para a nação)!

domingo, 22 de janeiro de 2023

De um final de tarde em braseiro

      Depois da chuva contínua,...

     O sol brilhou hoje, fazendo por momentos esquecer o tempo inverniço (ou invernengo, tanto faz) que nos tem marcado os dias.
      Não fosse o frio sentido ao final, dir-se-ia que as cores do pôr do sol aqueciam o olhar

Entre a terra e o céu, uma estrela cai para a linha do horizonte (Foto VO)

   Espreitando por entre as copas das árvores, essa estrela branca irradiou luz e vestiu-se de um amarelo alaranjado quando caía na linha do horizonte, aqui e além distribuindo raios a rasgar a densidade sombria que da terra se ergue na direção do céu.
     Este parecia estar em braseiro, com as nuvens em tons de fogo e de cinza, entre lume e carvão. Só no alto se via o azul, mais subido, límpido.
     Esta foi mais uma perceção do meu olhar.

      ... regressaram as cores que aquecem o frio inverno e fazem ansiar pelo dourado verão.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Porque é hoje o dia

     Cem anos depois do nascimento.

     Talvez o desmereça, mas foi o que quis fazer, recuperando temas, títulos, versos, ideias. Trazê-lo à vida, ao hoje (porque do presente se fez, sem querer pensar muito no amanhã), com um sorriso.

FOSTE...

Disseste
que há palavras interditas;
palavras que nos tocam;
algumas, um cristal;
outras, um punhal.

Saíste da moldura,
foste com as aves
e viste na poesia
a música que sempre teve:
um acorde perfeito.

Rejeitaste a pureza.
Nas viagens que fizeste,
juraste ver a luz tornar-se pedra.
Nascido em inverno,
aspiraste às tardes de setembro.
Buscaste o campo e o silêncio.
Quiseste falar das oliveiras, 
de uma cerejeira em flor,
da figueira e do trigo maduro.
Preferiste as mãos e os frutos.

Afirmaste a urgência do amor,
de um barco no mar;
e quando perguntaste
"Que diremos ainda?",
mergulhaste na água;
escreveste na terra;
entregaste-te ao fogo;
levitaste no ar
e puseste no céu a lua.

Voltaste à fonte, ao rio, ao mar...
Molhado pelo orvalho,
deixaste-o escorrer no corpo.
Bebeste-o como lágrima,
quebrando a dor, a secura.
Suaste no trabalho da sílaba,
da palavra, dos versos.

Nas perdas, 
alimentaste o isolamento.
Entre brutalidade e ternura,
o rigor, o rumor, o corpo habitado,
sentiste o peso da sombra
e desejaste ser árvore.

À hora da despedida,
no tempo em que se morre,
um rio te esperou.
Ficaste na memória,
como a canção de Laga.

Tens um nome.
És lido aqui, neste país, agora.

Estarás em paz entre os anjos.
                                                  Espinho, VO

      Ao jeito de palimpsesto e de intertexto, fica uma combinação que soa a dedicatória a um grande da criação e da expressão poética lusa. Ao funcionário público que se tornou poeta. A um mestre que deu grande lição.

      Ao Eugénio que foi José e que do Fontinhas se fez Andrade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Já não é só no café...

       Isto porque me lembro de já me ter confrontado com esta situação noutro tempo e noutro local.

     Um empregado de café, um gerente desse local ou um não comunicador a cometer um erro do tipo até já dou como falha indesculpável. Imperdoável mesmo é que um canal público televisivo exponha esse mesmo erro aos espectadores que assistem a um dos programas com audiência significativa, com apresentador reconhecido e com propagado serviço público, culturalmente relevante:

Um território ultramarino à espera do adjetivo bem escrito (Foto VO)

      Num concurso em que alguém diz que já foi tramado por um "abacaxi" ou com um locutor a repetir insistentemente o termo "confiança", na abertura do programa hoje emitido, há um desafio que vai bem além da fruta e leva qualquer um a desconfiar de que algo vai mal nos meios de comunicação social.
      Que não se saiba a resposta certa para a questão formulada (Nova Caledónia) é mal menor. Bem pior é não saber escrever, particularmente alguém que trabalha na televisão pública e faz difundir o que não deve!

    Só faltava alguém dizer que a culpa é do professor que ensinou "français". (Vai um questionariozito para quem trabalha ou venha a ser contratado pela RTP?!)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Publicidade para limpeza

      Ao chegar a casa, recolho a publicidade da caixa de correio.

      Um pequeno folheto anuncia limpezas e, ao lê-lo,...

Publicidade "pouco limpinha" (Foto VO)

    ... reparei no asseio demonstrado nos "Escritórios", eliminando-se indevidamente a acentuação na palavra. 
     Lá diz a gramática da nossa língua que as "falsas esdrúxulas", isto é, palavras terminadas com encontros vocálicos habitualmente proferidos em ditongo crescente (casos de 'ébrio', 'lítio', 'rádio', 'água', 'égua', 'armário', condomínio, 'secundário' e 'secretário', por exemplo), são graficamente acentuadas na sílaba mais intensa.

      Limpeza, sim, mas nem tanto!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Inconformismos

     Dois apontamentos, pelo dia em que ambos desapareceram (os homens, não os apontamentos)

     Um primeiro, mais atual, é para recordar o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman (19 de novembro de 1925 – 9 de janeiro de 2017):

Bertrand a citar um pensamento (criticamente) muito válido

     Um segundo, mais recuado no tempo, é para retomar um texto de alguém já mencionado nesta "carruagem" por várias vezes (três, creio... quem sabe... quatro), mas agora numa outra voz: a de um outro Mário (Viegas). Entre inconformismos, a identidade de ambos vai além do nome, como se pode ver no seguinte registo vídeo:

Programa televisivo "Palavras Vivas" (Canal 1 da RTP), com declamação de Mário Viegas

      E depois da voz, a leitura silenciosa esboçando um sorriso, na paródia pressentida:

A Invenção da Água

Como muito bem se sabe, no princípio não havia água.
Só havia o verbo.
Depois apareceram o sujeito e o complemento direto.
Mas de água, nada.

Então todos começaram a beber vinho e deus achou que era bom.
E lá isso era!

No entanto, com o aparecimento das primeiras culturas
do tipo comercial, tornou-se evidente
a falta de qualquer coisa
que pudesse aumentar a produção do vinho
e torná-lo mais rentável.

Era a água, claro.

Mas não havia água, como já fizemos notar.
As primeiras pesquisas,
então ainda bastante primitivas,
levaram à descoberta da água-pé.

Embora curiosa, essa descoberta não resolveu,
de forma alguma, o fim pretendido.
Continuava a não haver água. As pesquisas prosseguiram.

Felizmente o homem é assim, nunca desiste.
É isso que faz o progresso.
E largos tempos passados chegou-se a nova descoberta:
a aguardente.

Era melhor, não duvidemos, mas realmente não era o desejado.
Faltava a água. Definitivamente.
As civilizações pastoris, no seu nomadismo constante,
descobriram, acidentalmente, a água-bórica que,
aliás, nunca serviu para nada. Coisas de nómades.

Foi então que no seio das culturas orientais
mais avançadas tecnologicamente,
surgiu a grande invenção:
um misterioso pó branco que,
deitado em mínima quantidade num litro de água,
o convertia,
quase milagrosamente,
num litro de água.
ESTAVA INVENTADA A ÁGUA

Inicialmente rara e só usada para fazer vinho,
tornou-se no entanto com o desenvolvimento industrial,
bastante acessível e abundante.

Ergueram-se os primeiros lagos,
deu-se início aos rios pequeninos e,
finalmente surgiram os rios maiores,
aqueles muito grandes,
que consta várias pessoas já terem visto por aí.

Este progressivo desenvolvimento líquido
teve como consequência
o aparecimento de poderosas civilizações marítimas,
que se desenvolveram de tal maneira que nos puseram
no brilhante estado em que nos encontramos.

É o que fazem as invenções.

No entanto, e mesmo com a atual abundância,
não devemos abusar, dada a tremenda
explosão demográfica que se está registando.

Parece-nos mais prudente beber gin. Sempre.


Mário-Henrique Leiria
in Obra Completa - A Poesia, vol. II (inclui poemas inéditos), 
org. Tania Martuscelli
2018 (póstumo)

     De Bauman, sublinho a verdade que procuro contrariar no meu dia-a-dia (por mais que haja quem me queira lembrar trabalho, quando dele saio); de Mário-Henrique Leiria, fica, por ora, a escuta, a leitura e o brinde, com gin (já que, de água,... nada!)

     Dois tempos, dois seres, dois apontamentos... à guarda de melhores ventos.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Um conselho com defeito

    No arranque de novo ano, podia ser conselho a ter em consideração.

    Lá poder podia, mas... falta-lhe a qualidade da correção:

Um momento sem sucesso, por conselho tão avesso (Foto VO)

   Formulado a partir de uma forma do verbo 'desfrutar', reflete a ortografia esse princípio morfológico do reconhecimento da base da palavra. Conselho, pedido, aviso, ordem que seja, escreve-se "Desfruta". 
    Faça-se, portanto, acompanhar o conselho defeituoso da virtude corretiva:

Um momento com revisão, para superar falha na confeção (Foto VO)

  Se, por acaso, alguém receber esta mensagem na forma de avental de cozinha, não o lave, para poder "desfrutar" do acrescento produzido na prenda recebida. É a prova do momento vivido na amizade, mas sempre como professor(a) de Português.
  
    O dever do ofício é uma obrigação, acompanhado do devido código de correção, para compensar o defeito de produção.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Há cem anos nascido

       Entre a prosa e o verso, ficaram os livros do gin.

     Homem das Belas Artes, rendeu-se à escrita (arte bela, pois sim). Em janeiro nascido, no mesmo mês desaparecido, foi escritor surrealista português.
  Mário Henrique Baptista Leiria viu-se politicamente perseguido, preso pela PIDE, até se instalar no Brasil, onde desenvolve uma vivência voltada para a expressão literária. Entre finais da década de 40 e os anos 70, apresentou obra, até que em 1980 morre. A escrita revela o seu espírito indomado, irónico, pouco ou nada obediente aos poderes da realidade político-social do tempo; subversivo o bastante para desafiar os códigos morais e estéticos do (bom) gosto, nomeadamente os da tendência surrealista em que o situaram.
   Cruzei-me com os seus Contos do Gin-Tonic (1973) e Novos Contos do Gin (1974), tão desconcertantes quanto fiéis a uma marginalidade própria de quem constrói um mundo às avessas, criativo e de libertação. Relembro, da segunda obra, uma pequena narrativa intitulada

ÚLTIMA TENTAÇÃO
 
    E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pera pequenina e pálida.
   Ficaram os dois numa desesperante frustração.
   Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
    
     Lá se foram a maçã e a serpente, mais a Eva e o Adão; também o Paraíso, dessacralizado na imagem e na palavra.

    Revolucionário, homem de contracultura(s), experimentou a escrita do inconformismo; inventou mundos e vidas coloridos de bizarria, paródia, humor negro. Tudo fora de um convencionalismo do tempo que (não) foi o seu.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Um ano perfeito?

       Vamos lá somar os algarismos!

       2023 dá sete! Aí está: 2+0+2+3. Se for 20+23 resulta em 43. Antigamente dizia-se "Noves fora sete".
       Já aqui se tratou da magia do sete. Preferia abordar o ano mágico que está para vir.
       Fica a expectativa. No final, confirma-se ou infirma-se. Faça-se, contudo, para que assim seja: ano de esperança, de perfeição, de magia.
    Segundo as cartas do arcano maior, no Tarot, o sete configura-se com dois cavalos ou dois corpos dianteiros a arrastarem uma espécie de carruagem, montada sobre duas rodas, coberta por um dossel. É como se estivessem fundidos num carro, mas cada um andando para o seu lado (lembrando que, entre o bem e o mal, há o livre arbítrio, a escolha). Vê-se, ainda, um homem coroado, com um cetro na mão direita e a esquerda junto a um cinto dourado, sugerindo um rei ou líder na condução do caminho, do percurso a fazer. Na parte da frente do carro, há um escudo com duas letras, a variar conforme as edições das cartas.
    Designada por "O carro" ou "A carruagem", a carta sete simboliza a contemplação ativa, o repouso, a vitória, o triunfo, a superioridade e a razão. É ainda interpretada como o êxito legítimo, o avanço merecido, talento, dons e capacidade, tato para governar, diplomacia e direção competente, confiança e caminho.
     Há quem se refira às maravilhas do mundo (antigo ou contemporâneo, tanto faz). Independentemente de quais sejam ou de que tempo, são sete - o número entendido como completo e perfeito; o que se define pela totalidade, pela consciência, pelo sagrado e pela espiritualidade. Fechado o ciclo, traz consigo o cenário da renovação. Ao fechar de um ano, abra-se outro, a descobrir, renovado.
      O uso do número sete na Bíblia, por exemplo, aponta para a ideia de plenitude ou a perfeição de algo ou alguém, como se lê: na criação do mundo e o dia de descanso, no Génesis; na persistência do perdão no sete e seus múltiplos, quando, no Novo Testamento (Mateus 18:22), Jesus menciona a Pedro a capacidade de perdoar "até setenta vezes sete”; na plenitude espiritual, representada no livro do Apocalipse (que, representativo do curso de um ciclo, se abre a novas descobertas, tal como o termo o sugere no grego antigo).

       Venha o 2023, mais a magia positiva do sete! Boas saídas, ótimas entradas e o melhor do ano para todos!

sábado, 24 de dezembro de 2022

Natal com alguma cor

     E veio mais um...

     Talvez seja o tempo de (re) nascer
     Talvez seja o tempo de lembrar o que é viver
     Talvez seja o tempo de renunciar ao imediato
     Talvez seja o tempo de dar tempo

Um Postal de Natal à espera do Verde

     Talvez seja o tempo de dar outra vez à vez
     Talvez seja o tempo de outra versão (de ver o que é são)
     Talvez seja o tempo
     Talvez

     Chegou a tal vez: boas festas a todos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

(Outros) Apontamentos natalícios na cidade

    De noite ou de dia, o Natal na cidade traz um pouco de alegria.

   Mesmo quando o cinzento no clima dos dias se impõe, parece haver sempre um apontamento a dar cor e animação:
    
Montagem de fotografias com sinais natalícios de Espinho (VO)

   A semelhança de outros apontamentos, chegou mais este para mostrar como foi decorar a festividade nas ruas e praças, com a magia natalícia. Não vi o Pai Natal, mas pode ser que ainda deixe qualquer coisinha na bota cá de casa.

    Só faltou a paz mundial que a época prenuncia, mas os homens renunciam.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Foi a vez do João Ratão...

      Diz o título que é "Uma história..."

     As autoras dizem que é uma peça de teatro "cheiinha de música e de cor". Eu digo que é um teatriiiiiinho bem sério, pelo que lembra, diverte e ensina.


Publicitação de Uma história do João Ratão, de Maria Clara Miguel e Maria Dolores Garrido

    Primeiro, porque protagoniza o João Ratão e secundariza a Carochinha (o preconceito do género dominante é de problematizar, mesmo quando se apresenta ao contrário); depois, mostra que nem tudo o que parece é (não é de esquecer que o aumentativo 'Ratão' está mais para a fraqueza, como o diminutivo do 'Quinzinho' está mais para o espertalhão, numa contradição de opostos); também procura mostrar o que faz o João Ratão cair no caldeirão, ou melhor, aponta a razão para este ser tão glutão na tradicional versão da história; por fim, recria, positivamente, um final que não era muito feliz e procura espreitar o "happy end" que a "História da Carochinha" não tem.
     Aprende-se que há sempre um motivo para o que se é (personagem ou pessoa); que temos de dar volta às coisas, para que não persista o "...Triste vida a minha!..."; que não tem de haver um final trágico na vida, desde que façamos por isso; que o passado pode ajudar a explicar o presente e evitar um futuro nefasto.
Breve dramatização de "Uma história do João Ratão" (Clube de Teatro da ESG)

     Há um rio e uma ponte a simbolizar passagem, o desvelamento do(s) mistério(s), um modo de ver as coisas que pode mudar - pois nem tudo é estável, imutável, definitivo. E não há como procurar ter outras perceções e perspetivas, para se poder ver o lado bom das coisas.
      Assim se dá a ler Uma história do João Ratão, que tem ainda um Burrico Tonico bem castiço e um Mocho Julião, um frade conviva e conciliador. Porque "quem canta seus males espanta", também há uns grilos cantantes que nos lembram melodias de infância com letras e ritmos muito contemporâneos, para encantamento do leitor e/ou do espectador.
      Ora, foi esta a receção deste pequeno grande livro, aquando da apresentação da obra nas Escolas Básicas de Anta e de Guetim, bem como na Escola Básica Integrada Sá Couto: momentos para almofadinha no chão, conversinha com a Maria Clara Miguel, um videozinho "fixe", um "ganda rap" e até uma leitura expressiva dramatizada, tal como o texto dramático o sugere / potencia.

     Um teatrinho para grandes e pequenos - já que isto de literatura infantil tem muito que se lhe diga!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Um quiasmo... no muro.

        A prova de que os recursos retóricos andam aí pelas ruas.

       Ou melhor, nos muros. Não se diga, portanto, que as figuras de retórica são para os textos literários, porque é bem redutor tal pensamento.
       Basta uma caminhada para nos cruzarmos com uma delas:

Quiasmo em paredão junto à praia - na Granja (Foto VO)

      Ao estilo vieirino (que tantas vezes recorreu ao quiasmo para expressar um pensamento moralizador nos seus sermões), veja-se uma repetição configurada numa construção reveladora de um paralelismo cruzado (se figurar em linhas prosaicas ou versos distintos) ou de uma ordenação contrária (do tipo AB - BA). Se o Homem come para viver, é bom que não viva para comer. Há como que um efeito de espelho, de reflexo, partindo a frase anterior em duas; um pensamento não deixa de ficar marcado: o da sobrevivência que não deve dar a lugar a excessos ou vícios.
     Há, portanto, uma simetria sintática a traduzir uma máxima ou moralidade significativa - prova de como a forma está de mão dada com o conteúdo para que tudo faça (algum) sentido.
     Com o exemplo fotografado, o primado da sensibilidade firma-se (só não sei se houve a mesma no ato de pintar a pedra de forma algo ousada). Talvez não resulte em vandalismo puro porque a verdade do escrito impõe-se face à frieza da racionalidade ou da pedra.

     Se são figuras retóricas, são da língua - falada ou escrita. Nem que seja no paredão de uma localidade próxima.

sábado, 10 de dezembro de 2022

A propósito de mensagens

     Hoje alguém me escrevia, lembrando-se de mim e da "Carruagem 23".

     Não sei bem por que razão, quando a fonte de tudo é a "Amarguinha". 
    Esta publicidade do conhecido licor tradicional algarvio é do melhor na denúncia de erros que podem comprometer uma relação:

Publicidade inteligente I (com agradecimento à AMT, pela lembrança)

        Ora cá está um bom critério para selecionar quem seja namoradeiro: que fale e escreva bem e não leve ninguém ao inferno (sim, porque o Hades é rio que não leva a mar paradisíaco). 'Hás de' (e sem hífen) leva a melhor caminho.

Publicidade inteligente II (ainda com agradecimento à AMT, pela lembrança)

      Cá está a prova de que a beleza não é tudo! Pelo menos, há que ser giro e escrever bem - e mais vale a beleza do saber, pensando que o final da mensagem é bem revelador de que mais vale ser feio, sólido (e não líquido, a ponto de se beber) e escrever 'bebeste'.

Publicidade inteligente III (desta feita sem agradecimento, porque selecionada por mim)

    Nada contra ser "poli", ou outra coisa qualquer, desde que "o sono" e "a preguiça" sejam acompanhados de "a vontade" (pela regularidade sintática conveniente na coordenação) e o "permanente" (adjetivo) dê lugar, por exemplo, a "permanentemente": 'estar de férias' (quem não quer!) é expressão verbal cuja modificação está mais para um advérbio (com valor de modo, de tempo ou de lugar). 
      Digamos que, neste caso, a estratégia publicitária não resultou em pleno, na sua construção, porque isto de ter vários amores não pode fazer esquecer que a ortografia, a morfologia e a construção sintática são áreas muito exigentes no uso da língua e todas requerem muito cuidado e muita atenção.
      Conclusão: terá sido a lembrança por me acharem amargo (já que, de "Amarguinha", nem vê-la nem cheirá-la)?! Por me pensarem homem com muitas relações (estou mais para as ralações)?!
      Vamos lá levar a "carruagem" no trilho, antes de a fazer parar a meio do percurso ou a imobilizar na estação!

     "Errare humanum est" (errar é humano) já diziam os clássicos latinos. Acrescentaria "Perseverare autem diabolicum" (perseverar no erro é diabólico). Se a "Amarguinha" ajudar, ... (conclua-se o que não vou sequer ajuizar).

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Descubra as diferenças

     Quando se celebra e se faz render uma vitória, tudo acontece.

     Depois do jogo Portugal - Suíça, com a vitória lusa por 6-1, defende-se que a partida irá ficará na história, na memória coletiva dos portugueses. Assim o dizem os comentaristas que falam, e falam, mais falam...
     Ora, por falar em memória, esta anda fraca no programa televisivo "Noites do Mundial" (na RTP3). No acompanhamento da entrevista ao treinador Fernando Santos, as legendas vão passando e repetindo informações, citações...
      Bastam segundos para os leitores descobrirem as diferenças:

Numa televisão segundos antes (com o agradecimento à TJ, que enviou foto)

Na minha televisão segundos depois, e fui eu a tirar a foto (Foto VO)

      Começou mal; acabou bem. Antes assim! 
    A diferença não está nos aparelhos televisivos nem na posição do entrevistado. O Fernando é o mesmo, mas não há santos que impeçam o mal de aparecer: a memória da escrita anda muito volátil, particularmente quando se esquece que o tempo passado, a duração temporal é escrita com "há" (o tempo que passou, que existiu, que deu ou dá lugar a um período com duração) e, de preferência, sem o "atrás", para não ser pleonástico.

      Vale a correção (do erro). A ela se dê a devida atenção (à correção, claro). E viva a seleção (de futebol)!

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Apontamentos da cidade

     Vão chegando os sinais natalícios.

    O brilho da noite faz-se de colorido luminoso, como se o maravilhoso do natal apagasse o tempo de guerra que se vive e a crise sentida dentro e fora de portas.

Montagem de fotografias com sinais natalícios de Espinho (VO)

    APONTAMENTOS DA CIDADE
 
   A cidade está aí, 
   com as estrelas que nos guiam; 
   as renas soltas, livres dos trenós; 
   um presépio em cascata; 
   árvores sobreviventes a brilhar,
   como se fossem pinheiros;
   um banco em jardim de luz,
   à espera de quem nele se sente;
   uma onda iluminada
   em rua que chega a praça;
   quadrados em desalinho
   à espera de quem neles alinhe.

   Está para vir o Pai Natal, 
   em qualquer cor,
   para que neles se vejam todos
   os que são feitos de amor.

   Virá o inverno, depois deste outono chuvoso e frio que se faz sentir nos últimos dias. O ciclo cumprir-se-á em primavera e verão. Veremos como o Homem lidará com o espaço e o tempo sem esquecer as pessoas que o fazem.

   Que a cidade saiba resplandecer no calor da humanidade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Falha nas previsões

     Futebol e política à parte,...

     Lá vem o desconhecimento do Acordo Ortográfico (AO), a vigorar desde 2009.
     O acento circunflexo aparecia na grafia do plural com duplo 'e', no acordo de 1945; após 2009, lê-se o seguinte na Base IX, intitulada "Da Acentuação Gráfica das Palavras Paroxítonas", no seu ponto 5:

     «c) As formas verbais têm e vêm, 3.ª­s pessoas do plural do presente do indicativo de ter e vir, que são foneticamente paroxítonas (respetivamente /tãjãj/, /vãjãj/ ou /têêj/, /vêêj/ ou ainda /têjêj/, /vêjêj/; cf. as antigas grafias preteridas, têem, vêem), a fim de se distinguirem de tem e vem, 3ªs pessoas do singular do presente do indicativo ou 2ªs pessoas do singular do imperativo; e também as correspondentes formas compostas, tais como: abstêm (cf. abstém), advêm (cf. advém), contêm (cf. contém), convêm (cf. convém), desconvêm (cf. desconvém), detêm (cf. detem), entretêm (cf. entretém), intervêm (cf. intervém), mantêm (cf. mantém), obtêm (cf. obtém), provêm (cf. provém), sobrevêm (cf. sobrevém).

          Obs.: Também neste caso são preteridas as antigas grafias detêem, intervêem, mantêem, provêem, etc.»

        Sendo "preteridas", diria que não são as preferidas. Ou seja, a distinção gráfica vem / vêm motiva a manutenção da acentuação com o circunflexo; o mesmo não se justifica em vê / veem (ou prevê / preveem e afins), dado que a dupla grafia de 'e', no plural, já constitui distintividade suficiente quanto à pessoa e número nas respetivas formas verbais.
        Portanto, o que se lê na legenda da SIC Notícias não acompanha a orientação que o AO prevê ou que as orientações preveem que se faça:

Um acento a mais a falhar na previsão (Foto VO)

        Corrija-se, portanto, a legenda e leia-se a forma "preveem" (sem confusão com qualquer outra), para que a previsão resulte mais correta.
       
          ... é necessário maior acordo com o... ACORDO!

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

E assim se falou dela...

     Terminou a semana com as palavras do patrono.

     Adjetivada de "outoniça", a semana culminou com as palavras do patrono (Manuel Laranjeira).
   Na obra Comigo (1912), entre vários poemas reveladores de uma atitude de ensimesmamento e introspeção, busca-se um incessante sentido da existência. Numa visão que busca a ilusão e se confronta com a consciência trágica e definitiva da existência, resta a jornada, o percurso, o caminho, a viagem - palavras que marcaram a mensagem transmitida, na qual se cruzaram conhecidos e alguns ainda por conhecer, todos unidos num momento e numa iniciativa singulares.
    No dialogismo das cartas, assistiu-se à encenação de um Laranjeira e de um Unamuno, numa prova de amizade (pessoal, intercultural e interlinguística). Foi uma oportunidade de encontro e um momento de partilha de leituras, de reflexões e de versos para a vida.
      Falou-se dela... dessa jornada...

Montagem com poema de Manuel Laranjeira e música de Debussy (Filme VO)

     Foi uma atividade para (re)lembrar, na Biblioteca Escolar, com trabalhos produzidos pelos alunos, uma exposição sobre o autor de Às Feras (1905), com e para lá dos textos.
    A vida é uma jornada, uma lição composta de bons e maus instantes, mas, acima de tudo, de caminho, de jornada.

     Em dia de nuvem, sombra, chuva e trovejo, não se deixou de falar de sol e de como neste há calor, há esperança (porque tudo é passagem) e deve ser dado tempo a que estes últimos se (nos) revelem.

domingo, 23 de outubro de 2022

Negócios da China?

      Uma coisa é certa: não traz lucro para ninguém.

    Não me refiro ao assunto noticiado, apesar de dizer respeito à China e a um comportamento, pelos vistos, inusitado. Aludo, em concreto, a essa confusão que, por um lado, parece existir entre a 'ESpera' e a 'EXpectativa' (ou não fosse esta última palavra oriunda do francês - "expectative"), mas que nunca deve dar lugar à desordem ortográfica que grassa pela televisão; por outro lado, entre tirar e colocar 'c' nalgumas sílabas com som vocálico aberto e que o Acordo Ortográfico (1990) acabou por motivar alguma deriva (legitimando que a representação gráfica se justificasse, nalguns casos, pela realização fonética):

Da China ou não, o negócio é muito dúbio na escrita do Jornal das 8, na TVI (Foto TJ)

      Estranho a escrita de 'EXpectativa' (além de mal escrita na primeira sílaba) sem 'c', porque o digo / o leio no som [k] (tanto em francês como nas 'EXpeCtations' do inglês), tal como em 'faCto' (muito bem escrito, por sinal). Não reconheço o 'c' de 'afecta', por não o ler nem o dizer; logo, não o escrevo.

     Fica a credibilidade televisiva afetada e não sei se tenho muita expectativa quanto ao futuro da escrita do português correto (também já sem 'c').

sábado, 22 de outubro de 2022

Pomba negra

         Pelo que não se alcança e tanto se deseja.

      Os tempos estão difíceis, por mais que se tematize o ano como sendo de paz e de harmonia globais (como, por exemplo, o faz a Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias [IFLA], organismo internacional que representa os interesses dos serviços de biblioteca e informação e dos seus utilizadores ou usuários). Tudo parece ficar pela intenção, pelas palavras, sem os atos.

POMBA NEGRA
À falta de pomba branca ou do que ela representa
Queria pintar-se da brancura que,
negada na cor, dá sempre espaço
a todas as outras - qual solitário braço
ansiando por abraço; por toque
feito de Amor, lembrando regaço.

Queria o voo azul, livre, solto,
sem a ameaça de opacas nuvens
ou sombria noite; sem as passagens
de ruidosos e bélicos aviões velozes
ou de impulsionados mísseis algozes.

Queria planar sem pressa, ao vento,
esperando pelo ritmado bater de asas
a cumprir distâncias, viagens rasas
às copas, aos telhados, à humanidade.
Seria esta a sua instintiva felicidade!

Passado o espaço, cumprido o tempo,
chegaria ao pouso, ao ninho sedento
de paz, conforto, cuidado, alimento.
Cega à nascença, teve a visão capaz
de que nem todo o Homem se vê sagaz.

Seria assim menor o negrume,
maior a tonalidade da esperança:
ter no céu pássaros em volante dança.
Porém, há dor, ferida, fogo, lume
a arder, a queimar quem, na terra,
brinca com o poder e deste faz guerra.

Espinho, 22-10-2022

         Estranha esta pomba, que mais parece humana, nos desejos e nas vontades, relativamente àqueles que, na terra, se dizem feitos de poder e de razão.

         Bom seria que a pomba (branca, negra ou de qualquer outra cor) em paz volteasse, de novo, os céus da humanidade.