terça-feira, 18 de agosto de 2020

Esperando na caminhada

     Ainda por Valbom, junto ao Douro.

     O momento da caminhada deu para captar uma imagem, tornada fotografia.

    Nas margens do Douro - Valbom (Foto VO)  

      ESPERANDO NA CAMINHADA

No curso do rio,
há um bote sem barqueiro
olhando a margem.

Flui o fluvial leito...
Dois cabos prendem 
o boiante lenho.
Não há motor que o leve.
Não está para breve
singrar na corrente.

O ramalhar da árvore,
o áspero tronco lá estão...
Pedra, terra, arbustos secos,
alguém à espreita, mirando.

Nas cores da estação, 
há luz, calor, tons
para que o ânimo revigore.

Quando a partida acontecer, 
soltos os calabretes,
rumará a pequena barca
ao sabor de ondas e ventos.

Saiba o catraeiro navegar,
escolhendo os combadouros,
a evitar águas e sopros agitados
- sem espinhos nem louros,
mas com céu de sol e de luar.

        No curso da vida, há tempo para as palavras e há de vir o tempo salinado do mar. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

As cores da correção

      Preferível o remendo à exposição ao erro.

      Assim o entendeu quem colocou, em plena casa de banho pública de uma cadeia de supermercados reconhecida, um alerta:

Um alerta bem acentuado à espera da vírgula do vocativo (Foto VO)

      Ver, ao fundo, aquele quadradinho do 'à', a cor distinta, até chama a atenção para a forma correta da escrita (nem quero imaginar o que, antes, estaria por baixo). De tão vulgar a má escrita, ver um conserto a cor diferente é sempre uma ocorrência mais feliz, mais pedagógica que certas legendas ou títulos televisivos.

      Virtuosos o reparo e a mudança de cor (falta a vírgula, depois de 'Estimado(a) cliente,...', mas a correção do erro detetado é sinal de que ainda há quem saiba acentuar).

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Coisas do oral (ou de homofonias nos discursos)

      Porque nem sempre o que se diz é o imediatamente entendido.

     Aquele momento em que o enfermeiro pergunta quando aconteceu a última refeição e, com a minha resposta, ele põe aquele ar de quem começa a fazer contas.
    O momento do diálogo aconteceu cerca das 9 horas da manhã. Respondi que tinha bebido o último copo de água à hora e meia da manhã. O olhar e o ato de registo parados eram a razão do cálculo a processar-se: "Ora... seis, sete horas, certo? Foi quando bebeu."
   Nego, mas insisto: "À hora e meia, mesmo. A partir daí não ingeri mais nada".
    Veio, então, o "Ah! Ótimo. Foi à hora e meia do relógio".
    Confirmei. Agora, sim, o tempo certo! Não tinha bebido água há hora e meia, mas sim à hora e meia
   Entre a expressão de duração / intervalo de tempo e a da hora precisa do relógio, a diferença é substancial. Que o digam o enfermeiro e a anestesista, mais o paciente; na oralidade, a distinção não se faz. 

     Valha a ortografia para marcar diferenças semânticas e sentidos pragmáticos que viabilizem uma intervenção cirúrgica. Um dia para a história (não da linguística, mas da pessoa operada).

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Ainda a polissemia de 'quadros'

     Entre as mais de quinze aceções dicionarizadas, 'quadro' tem sentido polissémico.

     É com esse jogo lexical que se constrói o cartoon seguinte:

Cartoon - Condições de empregabilidade pouco sustentadas

     Há o quadro do grupo de trabalhadores de uma empresa; há o da pintura, imagem que se exibe no museu. Ambos decorrem de uma só entrada no dicionário; de uma só origem etimológica.

     Não se augura grande futuro no quadro empresarial, a julgar pela Teresinha de "pernas para o ar".

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Gramido: a casa branca

       Junto ao Douro, no concelho de Gondomar (Valbom), há uma casa histórica.

     É a Casa Branca de Gramido, edifício solarengo do século XVIII (1789) com características de um neoclássico rural. Nela ocorreu, em 29 de junho de 1847, a assinatura da Convenção de Gramido, que assinalou o final de uma época de conflitos entre liberais e absolutistas, nomeadamente os que se sucederam às sublevações populares e burguesas conhecidas, respetivamente, como Maria da Fonte e Patuleia. 

Casa Branca de Gramido I, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

Casa Branca de Gramido II, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

     Ainda durante o século XIX, o espaço foi armazém de cereais, comercializados pelos proprietários «Cazas Brancas» para a atividade da panificação (de Valongo e Avintes, essencialmente). Os grãos de trigo trazidos rio abaixo pelos barcos rabões (de aspeto mais claro do que aqueles que transportavam carvão) eram desembarcados nesse armazém. Por extensão da designação da família proprietária e pela imagem clara dos barcos, popularmente chegou-se à denominação de "Casa Branca".

Convenção de Gramido (1847)

  A projeção e imponência visuais do solar duriense, progressivamente ampliado ao longo do século XIX e restaurado quase século e meio depois, revestem-se da importância histórica de que o local é exemplo, com a afirmação da paz após a Guerra Civil da Patuleia. A Convenção, assinada entre comandantes dos exércitos espanhol e britânico (entrados em Portugal ao abrigo da Quádrupla Aliança), mais os representantes da Junta do Porto e as forças do governo mais conservador, selou a derrota dos setembristas (revoltosos) frente aos cartistas (apoiados pela rainha) numa guerra civil que vinha a assolar o país desde a década de vinte e, mais particularmente, nos anos de 1846-1847. Menos de cinco anos depois, a concórdia viria a sofrer algum revés, com a força governamental apoiada por D. Maria II a retirar aos revoltosos poderes e influências em prol de um maior conservadorismo.

   A recuperação da casa, depois de uma fase de crescente degradação e de um incêndio que praticamente a abandonou a um estado de desleixo e decadência inevitáveis no século XX, ocorre no período 2005-2006, sendo a inauguração da sua requalificação datada de 31 de maio de 2008.

Marginal do Douro, em Gondomar (Foto VO)

      Enquadrada num espaço reabilitado, a Casa Branca de Gramido faz relembrar o romance Uma Família Inglesa ([1867] 1868), de Júlio Dinis, quando Manoel Quintino, guarda-livros da família Whitestone, se refere à zona da marginal como não havendo "outro passeio assim nos arredores do Porto". Desse passeio, em manhã mais soalheira, se faz aqui registo, em tempos mais contemporâneos.

       Na marginal do Douro, a Casa Branca de Gramido vigia o curso do rio.    

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Geologia literária ou literatura geológica

      Quando a natureza se revela inspiradora para as narrativas.

     Pela zona de Lavadores, com o olhar na direção do mar, há uma composição rochosa chamada de "Pedra Moura": um bloco granítico sobre outro afim, com fratura visível provocada pela erosão.

"Pedra Moura" e os pedregulhos de Lavadores (Foto VO)

      Para quem ache ser explicação ou descrição demasiado científica, pode sempre recorrer à lenda - mais uma entre as muitas que povoam o imaginário nacional, com a típica temática da moura castigada (ou não fosse a terra lusa dominantemente cristã).

      Ora, conta a lenda (maneira sempre eficaz de se apagar o narrador e os efeitos que este pudesse introduzir na narrativa) que uma bela e formosa moura (são-no sempre, apesar de punidas, demoníacas e tentadoras) recebeu um grande castigo (lá está - depois dizem que hoje é que somos preconceituosos): trazer pedras das profundezas marítimas até às proximidades do areal (coitada)! Porém, o mar (soberbo) retomava tudo o que lhe pertencia e, com as marés, fazia voltar essas pedras ao fundo marinho (mais fazendo da moura a versão feminina de Sísifo). O esforço persistente da mourisca (afinal, tem alguma virtude) fez que, um dia, de lá trouxesse um penedo, penosa e colossalmente colocado em cima de um outro (uma moura muito hercúlea, portanto). Vencido o mar, lá estão os pedregulhos, desafiando o oceano. É a Pedra Moura de leva...dores ou que lava... dores pelo castigo cumprido (ao que chega o sentido toponímico da história).

     Quem quiser saber dos motivos do castigo, talvez tenha que investigar sobre os tempos do rei Ramiro e do filho, D. Ordonho, mais o rei mouro Alboazer Alboçadam que detinha as terras de Gaia. Há de lá encontrar uma moura formosa (mais vítima do que merecedora de castigo).


quinta-feira, 23 de julho de 2020

Café com tempo(s) e Pessoa(s)

        Eles sabem quem são e como fica(ra)m no coração.

           Fechou-se um ciclo; um outro estará prestes a abrir. 
        Tem sido insólito este tempo: impede aquilo a que se tem direito depois de tanta entrega e trabalho conjuntos. Fica o agridoce dos afetos, que não puderam ser expressos pelo que de mais natural têm: a proximidade do abraço, do beijo na face, do toque da mão (tudo merecido e, por segurança, negado). Ainda assim, chega  o momento do convite, da presença.
        Ficou o olhar. O sorriso, incompleto (porque vedado pela máscara), viu-se ainda no brilho  dos olhos. Ficou o (re)encontro num local tão familiar quanto diferente de tudo o que antes foi vivido e agora (re)lembrado. Não foi dentro da sala; foi fora, à porta da escola que nos aproximou.
          Ficaram as palavras também tornadas atos, no que estes puderam ser.

Uma lembrança em palavras, pessoal e pessoana, com um "cotovelo gigante" (Foto VO)

      Chegou uma lembrança para recordar outras tantas de uma "bagagem invisível" (cito as palavras gentis de um postal tão manual quanto feito de entrega) que todos levamos deste encontro de três anos. Na minha, há uma jornada conjunta, remando contra adversidades; construindo compromissos, cumplicidades, identidades. Conquistas comuns.
       Foi muito bom o ciclo cumprido. Melhor ainda o reconhecimento recebido, ao ler "Todos nós sentimos que, através da sua paixão pela nossa língua, pela literatura, pelo ensino, aprendemos e crescemos enquanto alunos e, principalmente, enquanto pessoas. Consigo descobrimos que a escrita, partindo de nós, apenas vive connosco temporariamente, sendo o propósito último a partilha". Os meus olhos retêm o pensamento, tão oportuno! Como lhes ensinei isto, não sei bem. Sei que não foi com nenhuma planificação, nenhuma grelha ou nenhum plano prévio. Ou talvez com isso tudo e muito mais (bem mais importante): foi a cada dia, com a vontade de estar e o desejo de que me dessem o que de melhor tinham. E todos tinham um melhor, diferenciado que fosse! Uns mais, outros menos; uns dias mais felizes, outros nem tanto; com mais ou menos dúvidas; entre respostas fantásticas e outras que davam oportunidade para ensinar e aprender. No meio da postura séria, da responsabilização, do "puxar de orelhas", do riso e da gargalhada comuns aos cúmplices, assim se compuseram dias, semanas, meses e anos, dando tempo e atenção a todos.
        Lê-se, no pires, "o perfeito é o desumano". Espero ter conseguido ser deveras imperfeito! 
      (Ai aquele PS - «Nunca esqueceremos o lema 'Trabalho, trabalho e mais trabalho!'» - faz-me lembrar qualquer coisa...!). 

      Tempo de encher a chávena e beber um café, sem açúcar, mas com a doçura e o cheirinho já das saudades. Obrigado pelo tempo dos saberes, dos sabores e dos afetos. O nosso tempo.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Peguem lá um guardanapo

     Anunciado o reencontro ao final de um ciclo de três anos, vou devolver, amanhã, o que me deram.

     Talvez já não se lembrem, mas há três anos (corria 2018; recordemo-lo em 2020) quiseram celebrar a centésima aula. É daqueles momentos que se impõe, para quebrar a rotina dos dias e festejar o que também nos uniu. Não sei se foi bem a matéria, mas deve ter havido algum outro bem; algo que ficou no coração; que se agradece, na união de beber, comer e conviver.
    Desafiei-os a comemorar o momento, produzindo um poema, na modalidade escrita criativa do "cadavre exquis": sem saberem o que estaria redigido antes, tinham de contribuir com um verso que terminasse com a palavra "bem", "coração", "comer" ou "beber" (ou outras que com estas rimassem). E tinham de o fazer num guardanapo, aludindo ao convívio que nos juntava.
       Eram 20. Comigo 21. Com um verso de cada um, chega-se à criação coletiva.
     Assim surgiu o "Poema do Guardanapo", depois de alguma organização e coerência que não foram impostas à hora da inspiração:

Uma produção coletiva para registo de uma memória de celebração (montagem VO)

      Fica a memória, ou recordação (para rimar com coração). Viveu-se o bem (não fosse a lição cem). A comer e a beber, houve todo o tempo para conviver (com gente boa, daquela que, na vida, vale a pena ter).

        POEMA DO GUARDANAPO

Para que os alunos comecem 
A celebração que vai ficar no coração...
Com tanto comer e beber, vamos ter de correr,
Mas todos, sem exceção, agradecem,
Por tanta interação e animação.
Esta é uma motivação para fazer os resultados florescer!

Nunca numa aula nos sentimos tão bem!
É a dos ansiados cem! Tempo de festejo e recordação.
O problema, agora, vai ser emagrecer.

Em momentos destes, todos aparecem.
Pudera! Com tanto alimento, para falta não há razão.
Juntam-se todos à mesa, para conviver.

É para aproveitar a festa, e bem;
Nela nenhuma comida vai restar; bebida, também não!
Protestos?! Nem pensar! Ai daquele que os fizer!

Resmungos?! De onde vêm?! E de quem?
Este momento é de emoção.
Tudo vai do começar, também no comer e no beber.
Todas as aulas deviam ser lição cem:
Uma memória a perdurar... em comunhão.
Gente boa é esta! A valer!

    Num separador de livro, vão levar a prova do que tiveram de trabalhar (mesmo em hora que não foi propriamente para estudar).

sábado, 11 de julho de 2020

O "Arcus" do céu

    Ao final do dia, a imagem do céu era estranha.

  Mais propriamente via-se nele uma nuvem tão diferente do comum! Era uma espécie de rolo entrelaçado, vindo das profundezas do mar, subindo ao ar e esticando-se no sobrevoo da terra.

O 'Arcus' nos céus de Espinho (Foto VO)

    Tempos houve em que se podia falar de um monstro ou de uma serpente marinha, pronto(a) a tragar marinheiro, pescador ou humano que desafiasse domínio que não é naturalmente seu.
    Hoje diz-se que é um fenómeno atmosférico geralmente associado a uma nuvem baixa e horizontal, tipicamente surgindo como “frente de rajada” à saída de uma tempestade. Só que não havia tempestade. Apenas um dia quente, com alguns sinais aqui e ali de uma trovoada seca.

    Era tempo de final de dia, com uma brisa de mar agradável e as marcas de que um belo dia de praia não está livre dos sinais das intempéries.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Um dueto com "olhos de Deus"

        Uma versão musical que, em dueto, resulta numa peça singular.

        A letra de Pedro Abrunhosa e o canto de Ana Moura são combinação perfeita para um fado-canção que ganha também com a interpretação do compositor. Assim se apresentou televisivamente (na TVI, primeiro, na RTP-1, hoje, em "A Casa d'Amália") esta composição tão genuína nas sonoridades e no texto:

Versão em dueto de "Tens os olhos de Deus" 
(emissão televisiva da TVI)

TENS OS OLHOS DE DEUS

Tens os olhos de Deus
E os teus lábios nos meus
São duas pétalas vivas
E os abraços que dás
Rasgos de luz e de paz
Num céu de asas feridas
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Dos teus olhos de Deus

Num perpétuo adeus
Azuis de sol e de lágrimas
Dizes: fica comigo
És o meu porto de abrigo
E a despedida uma lâmina
Não preciso de mais
Não preciso de mais

Embarca em mim

Que o tempo é curto
Lá vem a noite
Faz-te mais perto
Amarra assim
O vento ao corpo
Embarca em mim
Que o tempo é curto
Embarca em mim

Tens os olhos de Deus

E cada qual com os seus
Vê a lonjura que quer
E quando me tocas por dentro
De ti recolho o alento
Que cada beijo trouxer
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Nos teus olhos de Deus

Habitam astros e céus
Foguetes rosa e carmim
Rodas na festa da aldeia
Palpitam sinos na veia
Cantam ao longe que sim
Não preciso de mais
Não preciso de mais

Vídeo oficial do original (no álbum "Moura", de 2015)

         O cruzamento com a boa música portuguesa tem acontecido a diferentes tempos, mas com zonas comuns de reconhecimento. A voz de Ana Moura tem sido uma das constantes.

          Do álbum "Moura" (o sexto, da fadista - 2015) vem o original. Cinco anos depois, está aí umas das composições, com novas interpretações.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

(Ainda) Vale a pena corrigir

   Há cerca de um mês denunciava um erro.

   Via uma placa de proibição de estacionamento com um erro ortográfico, fotografava-a e revelava a minha insatisfação por ver um sinal proibitivo linguisticamente com muito a desejar - quase a justificar a infração pela falta de legitimidade na força de autoridade (em virtude da fragilidade de quem não se parecia responsabilizar pela má escrita).
    Agora, sim, "bate a cara com a careta": proibição bem escrita, sem o acento gráfico indesejado (no primeiro 'i' de proibido):

Um sinal renovado, com a ordem (ortográfica) reposta (Foto VO)

    Ou seja, nova placa, em local certo e com escrita correta (a multa já não dá direito a reclamação, por ter mau uso da língua).
     Reposta a ordem (ortográfica), é favor respeitar / cumprir a proibição anunciada.

     Hoje aplaudo a correção feita. Do melhor exemplo que se possa a dar (claro está)!

segunda-feira, 6 de julho de 2020

(Mais) Um romano para o mundo, com " O Amor a Portugal"

          Começou o dia com o anúncio da morte de Ennio Morricone.

      Não se pode dizer que seja inesperado, para quem já tinha 91 anos, mas a juventude e a força reveladas um ano antes, no concerto do Altice Arena (Portugal), faziam prever que ainda havia resistência suficiente para construir novas melodias ou conduzir outros espetáculos.
     Falar de Ennio Morricone é sinónimo, entre outras coisas, de música no cinema. O compositor e maestro italiano, nascido e falecido na sua cidade natal (Roma), é uma figura mundialmente conhecida, pela projeção que teve, e ainda tem, com as bandas sonoras de filmes como Era uma vez na América (1984), A Missão (1986) ou Cinema Paraíso (1989), só para citar alguns dos títulos mais sonantes.
       Dizer que ele deixou música para a vida é afirmação demasiado simplista, porque foram / são várias as melodias que estão gravadas na mente: das mais de quatrocentas partituras que compôs para cinema e televisão, há ainda a acrescentar mais de uma centena de obras clássicas. 
      As cinematográficas são, efetivamente, as de maior projeção. São mais do que reconhecíveis sonoridades como...

Banda sonora de "Era uma vez na América" (1984)

          ... ou...

Interpretação de uma das músicas de Ennio Morricone, 
no filme Cinema Paraíso (1989)

      A sua primeira indicação para Óscar ocorreu em 1979, pela banda sonora de Days of Heaven (Terrence Malick, 1978); a segunda, por A Missão (Rolland Joffé, 1986); outras se seguiram, até que, em 2007, recebe, a título honorífico e pelos contributos na música da Sétima Arte, o Óscar Honorário. Em fevereiro de 2016, finalmente, acaba por ganhar seu primeiro Óscar competitivo, por The Hateful Eight (Quentin Tarantino).
        A ligação do compositor a Portugal, para além dos espetáculos cá conduzidos, faz-se também com a voz de Dulce Pontes. Com o álbum Focus (2003), materializou-se uma colaboração da cantora portuguesa com o maestro italiano: ela a cantar alguns dos clássicos dele, que se tornou seu admirador na voz.
         E entre os clássicos, apareciam alguns originais - um deles intitulado "O Amor a Portugal":

Versão orquestral de "O Amor a Portugal", de Ennio Morricone

O AMOR A PORTUGAL 

O dia há de nascer
Rasgar a escuridão
Fazer o sonho amanhecer
Ao som da canção e então

O amor há de vencer
E a alma libertar
Mil fogos ardem sem se ver
Na luz do nosso olhar
Na luz do nosso olhar

Um dia há de se ouvir
O cântico final
Porque afinal falta cumprir
O amor a Portugal
O amor a Portugal

        Se a música é símbolo de harmonia, Ennio Morricone muito contribuiu para ela(s). RIP.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Função sintática do 'que'

         E na base do estudo vem a dúvida: o 'que' tem função sintática!!! Como chegar a ela?

       São necessárias algumas dicas, para garantir alguma eficácia de resposta. "Gostava de acertar", dizem alguns. Outros dizem que não acertam mesmo, já na desistência. Há mesmo quem diga "Não percebo!"

      Q: Não percebo muito bem como é que um 'que' pode ter função de sujeito. A de complemento direto ainda entendo, mas a de sujeito...!!!

       R: Primeiro de tudo, interessa saber o seguinte: o 'que' tem função sintática enquanto pronome relativo, não como conjunção. Esta última pode fazer parte de uma oração subordinada que, toda ela, assume uma determinada função (não o "que" conjuncional):

         i) Penso que esta matéria é fácil
           ('que': conjunção subordinativa completiva > 'que esta matéria é fácil': função de complemento direto)

    Quando se está perante o pronome relativo (a retomar um antecedente), ele sozinho desempenha uma função na oração subordinada.
    Para chegar a tal função, interessa fazer o seguinte percurso: (i) assinalar a subordinada, (ii) verificar o elemento retomado pelo 'que', (iii) reconstruir a oração subordinada com princípio-meio-fim, mais o elemento retomado, (iv) identificar a função do elemento retomado pelo 'que' nessa reconstrução (é essa a função sintática do 'que').
       Veja-se o raciocínio para um primeiro caso:

     (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O miúdo aproximou-se do cão que ladrou.'
      (ii) 'que' retoma 'o cão'
      (iii) A oração subordinada, com o elemento retomado, ficaria 'O cão ladrou'
      (iv) Como 'O cão' é o sujeito da oração subordinada, então o 'que' desempenha a função de sujeito (dessa oração subordinada; ou seja, um sujeito sintático de segundo nível de análise).

      Repare-se, agora, noutro exemplo:

      (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O exame que os alunos vão resolver pode ser fácil.'
       (ii) 'que' retoma 'O exame'
      (iii) A subordinada com o elemento retomado, ficaria 'Os alunos vão resolver o exame'
      (iv) Como 'o exame' é o complemento direto da oração subordinada' o 'que' tem essa mesma função (na subordinada, sublinho).

     Deve, portanto, considerar-se que, neste tipo de questão, está em jogo um segundo nível de análise das funções - não ao nível da oração subordinante, mas, sim, da subordinada. Por sua vez, e porque o 'que' é um pronome (relativo), este desempenha uma função nessa subordinada (que deve ser objeto de reconstrução com o elemento retomado da subordinante).

      Ler a instrução do que vai ser resolvido é demasiado importante, para todas as situações e neste caso em particular. Não se trata de classificar a oração subordinada (toda), mas apenas de uma palavra nela incluída: o "que". Caso para dizer que um 'que' (pronome relativo) pode fazer a diferença.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Um céu redemoinhado

    Entre flocos e redemoinho...

    Caminhando junto ao mar, hoje o olhar dirigiu-se ao céu. A saturação começa a apertar e é preciso algum conforto buscar. O céu é uma espécie de amparo para os ânimos.

Um azul à espera da dissipação das nuvens

    Há flocos, que não são de neve; há um fosso, um poço levado ao alto na forma de um coração, feito de luz; há um concentrado de sombras, que se alarga e dispersa querendo impedir o azul que, por cima, anuncia tranquilidade, serenidade e harmonia (para esquecer a frieza, monotonia e depressão). Melhor lembrar a água, o céu e o infinito e esquecer o dia que se foi.
    Dizem que é cor favorecedora do exercício intelectual. Estou cansado dele! 
    Prefiro o efeito calmante que esse colorido sugere. Associa-se-lhe os aquarianos. Seja!
   As nuvens têm de ser dissipadas e, assim, o azul celeste me possa envolver e trazer algum do prazer que começo a perder.

     ... assim se faz o céu à saída de um dia de trabalho.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Vir ou ver?

       Com 'intervir', não há confusão!... Ou melhor, parece que sim!

      Se não é uma questão de ver (viu), mas sim de vir (veio), por que razão os meios de comunicação social não conseguem ver mais longe?
     Tudo por causa de uma breve da SIC-Notícias, que mais parece o uso de pessoas pouco instruídas:

Maltratados o centro de apoio mais a língua portuguesa (SIC Notícias)

    É erro morfológico comum, a julgar por apontamentos anteriores nesta "carruagem". Num canal de comunicação social, mais crítico é, por ser órgão que deve primar pelo bom uso da língua.

    Quando se ler ou ouvir falar da qualidade excecional do canal, é bom que se relativize a pretensão. InterVEIO, senhores, interVEIO! (Isto para não focar o espaço, que é mais evacuado do que despejado).

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Em 'Desafios'

       Formulado o convite, não podia dizer que não. A consideração por quem convida é mais forte.

      Solicitado um texto para fazer parte de uma publicação-conjunta online de vários autores (dirigida pela Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa - Porto), resultou o processo de escrita numa extensão considerada mais válida para uma publicação autónoma.    
      Honrado o compromisso, maior foi a honra por ter sido conduzida a publicitação do artigo para um caderno intitulado Desafios - Cadernos de Trans_Formação (número 29). O mote era: como se tece a ação pedagógica em tempos de COVID 19; eu glosei os "(Des)encontros e (re)aprendizagens (à distância de um clique, com toque humano)".

Um artigo disponível para leitura em

      Melhor ainda foi ver o meu contributo antecedido de um editorial com as palavras generosas do Professor Matias Alves, contextualizando, destacando pontos fulcrais da minha reflexão, citando algumas das minhas palavras, reconhecendo-lhes qualidade(s).
   Entre muitas respostas, surgiram algumas perguntas; e, no fundo, procurei reafirmar o sentido nevralgicamente pedagógico de uma situação, preferindo ver nas dificuldades oportunidades; procurando manter jovens na "rede" do trabalho, do estudo, do compromisso para que a vida apela.
     Contei ainda com a solidariedade e colaboração de alguns dos meus alunos, que se podem rever na(s) ação(ões) em que participa(ra)m. Pela cumplicidade e pela aceitação do trabalho (trabalho e mais trabalho), também muito lhes agradeço.

       Pela consideração mútua, pelo trabalho que desenvolvemos juntos e pelas identidades que fomos e vamos construindo, restam-me a gratidão e o reconhecimento pela aposta feita. Obrigado, Matias Alves.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Proibição crítica

    E o erro prolifera! Até nos placas de sinalização de (não) estacionamento!

    Depois da televisão, vem a proibição num sinal recentemente colocado numa zona em que se quer ver o estacionamento automóvel condicionado a certos dias e a determinadas horas:

Um mau exemplo de placa / sinal de (não) estacionamento - (Foto VO)

    Um sinal defeituoso na proibição. Quem o produziu não deve marcar bem as sílabas fortes das palavras, a ponto de intensificar uma ao lado. O certo é que a palavra (por ser de sílaba tónica grave, em [bi]) nem acento gráfico deve ter.

    Enfim, sinais que convidam ao desrespeito ou, no mínimo, à desconsideração da sua orientação (pelo defeito que apresentam).

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Tudo muda... "todo cambia"


    O registo é o resultado da mudança de cores numa paisagem que, passado um dia, se mostra versátil na volatilidade do tempo e na volubilidade das cores.

Paisagem a preto e branco e muitos cinzas (Foto VO)

   Numa só localidade, vinte e quatro horas fazem a diferença; ainda assim, há beleza nessa inconstância, toda ela feita de preto e branco, com muitos cinzas. Do mais escuro ao mais claro, tanto lá cabe do mundo.

     Novo retrato: mais cinzento e cinzelado por um tempo que nos faz sentir pequenos, "fracos humanos" à mercê de forças que nos suplantam.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Depois de trabalhar e antes de trabalhar

      Eis um intervalo, no retrato de um fim de tarde...

      Qual tela que não precisa de tintas ou pincel, a paisagem dá-se a ver colorida e inspiradora.

Retrato pintado pela Natureza (Foto VO)

      Há camadas de cor
      Há barcos no horizonte
      À espera de entrada no porto

      Há tons de céu e de rocha
      Há olhos de sono e de sonho
      À espera de um café tónico

      Há um empregado a vir e a ir
      Há regresso e, de novo, partir 
      À imagem da ondulação do mar

      Quero a cor, o horizonte
      o porto, o céu, o sonho, o café

      Há um novo dia a preparar
      Há tempo para descansar
      À hora do dia a findar

     Tomado o café, tira-se a foto, tão feita de cores novas e revigorantes, e há que regressar a casa para, de novo e ainda, trabalhar.

     Um momento para apreciar e deixar-me levar pelo retrato, partilhando-o com quem não o possa ter.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Sombras no "mamarracho"

       O horário de verão tem das suas maravilhas.

       Pelas 20:30 ainda há sol (a pôr-se), fazendo jogos de sombras.
     Umas mostram-se minúsculas no cinzentão do betão do novo edifício para concertos (de futuro incerto) ao ar livre:

"Mamarracho" - I (Foto VO)

       Outras fazem deste último um teatro de sombras, trazendo alguma beleza à tela de cimento:

"Mamarracho" - II (Foto VO)

       Assim, nalguns dias, a variedade surge, com a natureza a embelezar parte de um "mamarracho" tão cinza e tão murado qual "bunker" à superfície.

       Mais um motivo para suspirar por dias de sol. Os milhares empregues para se conseguir (por vezes) a beleza de umas sombras!