sábado, 23 de junho de 2018

Rendimentos destes, dispenso-os...

     Uma foto de uma amiga apanhada bem a jeito (a foto, não a amiga... registe-se).

     Quando menos se espera, chega o Continente... que não rende:

Pormenor de uma foto tirada num estabelecimento da rede Continente

      Do publicitário ao diretor de imagem da empresa em causa (que, por mais de uma vez, já deu a ler o que não deve), entre os muitos outros que ajudaram a expor o erro, ninguém repara que perde(u) a razão para o que dá a ler. Fala-se de 'exemplo' e só pode ser o mau, definitivamente. É um péssimo exemplo mostrar às crianças (e aos adultos) a escrita de um 'ç' antes de 'e' (ou de 'i' que fosse). Torna-se mesmo indigesta a presunção, a ignorância, a pretensão de quem se acha com a autoridade de dar a saber algo e desconhece um conhecimento elementar da língua, que devia usar bem. Nem de interferência (interlingual) se trata. Lamentável!

     Pois é, meus senhores, as crianças não aprendem com o mau exemplo e a saúde da língua está comprometida: não há alimento que a salve, quando a escrita evidencia mais o erro do que o exemplo a seguir ou a dar. COMECEM a ler uma gramática.

sábado, 9 de junho de 2018

Seguro para a língua

     O assunto da notícia era o seguro de vida, mas bem que podia ser outro.

     Quando se leem as notas de rodapé dos programas televisivos, a desagradável surpresa não raras vezes surge. Ainda bem que a locutora está de olhos fechados! (Não se expõe ao erro.)


     Já escrevi que o acento agudo na contração do determinante com a preposição é erro grave. Mais ainda quando é recorrente e a própria televisão pública o expõe aos olhos dos espectadores com frequência. Devia ser o acento grave mesmo (não o agudo), como marca convencional e distintiva, na ortografia, da crase fónica verificada.

     Quem redige as legendas nas notas de rodapé não está seguro na língua. Está a precisar de um seguro, não sei se de vida; de língua, por certo (para que consiga poupar-se a erros desnecessários).

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Verbo 'tar' (só na oralidade com bastante informalidade)

     Lê-se (está escrito) no Expresso Curto, de hoje!

     Já escrevi sobre esta minha embirração: a do verbo 'tar'. Já também sobre ela falei a muitos alunos. E antes que me digam que têm razão, que podem escrever 'tou, tá(s), tamos, tais, tão' ou 'tive, tiveste, teve, tivemos, tivestes, tiveram' na conjugação do verbo 'estar', é bom que se lembrem que na oralidade informal, em casa ou com os amigos muita coisa pode acontecer; com o professor de Português é que não (só em jeito de brincadeira)! Como as aulas e os exames não são para brincar, faça-se a devida chamada de atenção, para que não haja surpresas na avaliação / classificação.
     Todo o excurso surge a propósito da imagem à esquerda e do título lido. Tudo ficaria mais simples se a jornalista em questão colocasse um apóstrofo no início da palavra ('tão), sugerindo que algo (uma sílaba) estaria elidido; ou, então, as aspas convenientes para dar conta de uma citação, de um verso transcrito de uma letra de canção. Não que, neste último caso, não seja de se escrever 'estão'; porém, no contexto de uma letra que sugere uma conversa com um "amigo", com vocabulário e expressões conjugadas com o destinatário e a situação (familiar, cúmplice), tudo se torna mais aceitável. Basta ouvir a canção e, em particular, a letra de Chico Buarque:

Chico Buarque, do álbum Meus Caros Amigos (1976)

         MEU CARO AMIGO

Meu caro amigo, me perdoe, por favor 
Se eu não lhe faço uma visita 
Mas como agora apareceu um portador 
Mando notícias nessa fita 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
Muita mutreta pra levar a situação 
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça 
E a gente vai tomando que também sem a cachaça 
Ninguém segura esse rojão 

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar 
Nem atiçar suas saudades 
Mas acontece que não posso me furtar 
A lhe contar as novidades 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
É pirueta pra cavar o ganha-pão 
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro 
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro 
Ninguém segura esse rojão 

Meu caro amigo, eu quis até telefonar 
Mas a tarifa não tem graça 
Eu ando aflito pra fazer você ficar 
A par de tudo que se passa 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
Muita careta pra engolir a transação 
Que a gente tá engolindo cada sapo no caminho 
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho 
Ninguém segura esse rojão 

Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever 
Mas o correio andou arisco 
Se me permitem, vou tentar lhe remeter 
Notícias frescas nesse disco 

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 
A Marieta manda um beijo para os seus 
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças 
O Francis aproveita pra também mandar lembranças 
A todo o pessoal 
Adeus!

    Com esta modinha brasileira 'tão' e 'tá' fazem todo o sentido, nas palavras (ousadas) dirigidas ao "meu caro amigo", aquele confidente com quem se desabafa, numa intimidade que se pauta pela amizade, pela cumplicidade e pela confiança (mas que não convém a uma ditadura militar brasileira, criticada e denunciada como "esse rojão", para não falar em qualquer outro contexto político brasileiro coincidentemente crítico e adverso). Fora dela, fiquemo-nos pela adequação de uma norma a situações mais regradas e formais - para que a coisa não fique "preta!" As variedades da língua devem ser consideradas no pluriformismo e na versatilidade que os falantes dela revelam, não esquecendo a avaliação, a adequação e o ajustamento que nelas se impõem.

     A bem de quem está em contexto de avaliação e de classificações (internas ou externas) que podem marcar uma vida. (Es)tá?

terça-feira, 5 de junho de 2018

Relações matemáticas

     Da importância da matemática na vida e na língua, já aqui se fez apontamento.

    Das relações mais práticas às mais simbólicas, de tudo se compõe a vida no jogo das letras e dos números. Acrescente-se a geometria, quando se lê o seguinte:


      Perante estas lições de vida, quase diria que se impõe uma 'volta de 360 graus', se não puder ser evitada qualquer uma das anunciadas "geometrias" (ainda que a volta pareça vir dar ao mesmo sítio). Mais vale mesmo 'dar a volta por cima', para ver se tudo 'fica às mil maravilhas' (quantificação com tanto de hiperbólico quanto não se poder fazer outra coisa a ter de se contar as ditas).
      Antes de fazer disto um quebra-cabeças (um verdadeiro "trinta e um") e de dar voltas à "tola" até 'ficar feito num oito', não vou mais longe. Não fecho o assunto 'a sete chaves', nem quero ficar tal qual 'um zero à esquerda'. Simplesmente, não vou fazer disto 'uma espiral de loucura ou de problemas'.

     Língua e matemática têm tanto de aproximação que as provas são já 'favas contadas'.   

domingo, 3 de junho de 2018

A velha casa e outros dias

    Gondomar, na Biblioteca Municipal. Com amizade.

    Um dia depois de uma amiga ver o seu livro publicado nas mãos de alguns dos leitores e de ter assistido a uma apresentação da obra por alguém que a lera (e muito bem), ficou-me a vontade de apreciar mais a narrativa matizada de oral e poesia, com boa literatura à mistura.
  Um registo diarístico ficcionado; uma personagem (Madalena) cheia de vida, dando à palavra 'reformada' o sentido de mulher (bem) formada e com oportunidade(s) de reformular, retomar e reformar percursos e projetos; marcas de espaço e de tempo que se (re)visitam para se lhes dar novas cores, sabores e vivências, sem esquecer os tons, as pessoas e as memórias que a novidade faz e traz na (re)criação afetiva do lugar, das estações ciclicamente retomadas e renovadas, do fluir e do fluxo de vida e de comunhão com os outros e consigo própria - de tudo isto o livro se compõe, num jogo de ficção e realidade em que qualquer semelhança (ou coincidência) sai motivada e inspirada por lembranças, pela condição de presente e pelo desejo de futuro.
       E porque este último se complementa com presente e com passado, na linha do tempo, os projetos também se compõem de vivências e de memórias, inclusivamente aquelas que se revisitam pela tradição oral numa literatura feita em verso familiar, popular, universal pelas lições e pelos exemplos de vida configurados:


Poema da D. Marieta (in A Velha Casa e Outros Dias)

"Os Velhos" (in A Velha Casa e Outros Dias)

      Porque o ser humano se faz de, no e com tempo; porque também ele ocupa um espaço mais ou menos difuso, real, virtual ou fictivo; porque ele se (re)vê num espelho em que a imagem observada fica aquém da que verdadeiramente se expõe ou reflete, busca-se, nas linhas da narrativa, os traços de que uma mulher é feita, num retrato e numa vivência com sinais de passado recordado, de presente em ação e de futuro projetado.
      Liberta das contingências de uma vida entregue aos vários papéis que plenamente desempenhou, Madalena é feita de dores (etimologicamente de 'dolores'), de perdas, de conquistas, de ganhos, mas sempre de afetos e de expectativas, na demanda dessa utopia de felicidade que, na vida, não pode ter fim.

     ... porque o outono da vida há de sempre dar em novas primaveras, não obstante as intensidades do inverno e do verão.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Só modificadores...!

    Há que ter atenção ao nível!

    E este pode ser encontrado em função do foco daquilo que é modificado.

    Q: Olá, Vítor! Desculpa estar a incomodar-te, mas concordas com a classificação de complemento do nome para o constituinte "graças ao degelo do Ártico", em "Fósseis encontrados na Gronelândia graças ao degelo do Ártico"?

      R: Olá. 
    Não posso concordar, mesmo que a sequência em análise fosse apenas o segmento 'degelo do Ártico'. Sendo 'degelo' uma forma nominal decorrente do verbo 'degelar' (verbo tipicamente intransitivo), não há lugar a complemento do nome; portanto, a função sintática de 'do Ártico' é a de modificador do nome (por se tratar de uma expansão do nome 'degelo') restritivo (limitando a referência de 'degelo' apenas ao contexto 'do Ártico'; não assinalado por vírgula).
   A sequência proposta é representativa de enunciados típicos dos títulos (oração não finita participial), numa redução do que deveria ser uma construção frásica passiva: "Fósseis (foram) encontrados na Gronelândia graças ao degelo do Ártico". Assim, "graças ao degelo do Ártico" (que eu faria anteceder de vírgula, já agora) funciona como modificador do grupo verbal (ou do predicado). Trata-se de uma sequência de lógica causal que faz parte do predicado ("[foram] encontrados na Gronelândia, graças ao degelo do Ártico"); portanto, um modificador do grupo verbal. 
       Se este último modificador se analisa ao nível superior da frase, relembro que o modificador do nome mencionado no primeiro parágrafo desta resposta é função sintática analisada a nível interno de um grupo nominal (que teria 'degelo' como núcleo) - ou seja, não ao nível da frase matriz, mas de um elemento que, a um segundo nível, teria na sua dependência uma expansão especificativa.


     Feito o esclarecimento, é caso para dizer que quem se mete com modificadores chama para si algumas "dores" (ara complicar ou "doer" mais, só faltava tratar também os modificadores da frase).

terça-feira, 15 de maio de 2018

Estratégias eficazes

      A propósito de um artigo que serve para reflexão na formação docente.

     Refiro-me a uma recensão sobre uma vasta literatura acerca do ensino da leitura, da escrita e do cálculo matemático: "Quelles sont les stratégies d'enseignement efficaces favorisant les apprentissages fondamentaux auprès des élèves en difficulté de niveau élémentaire? Résultats d'une méga-analyse". 
     Publicado em 2010, na Revue de Recherche Apliquée Sur l'Apprentissage, vol. 3, artigo 1 (páginas 1 a 35), é o resultado de uma pesquisa e investigação desenvolvidas com base em onze meta-análises editadas na década inicial do século XXI, sobre o tema. Steve Bissonnette, professor do Departamento de Psicoeducação e Psicologia da Universidade do Québec; Mario Richard, professor da Tele-universidade do Québec; Clermont Gauthier, titular da cadeira de investigação no Canadá sobre a formação no ensino, na Universidade de Laval; Carl Bouchard, doutorado em Psicologia  na Universidade de Montréal são nomes com obra sustentada no campo da psicologia, da educação, da psicologia orientados para o estudo da eficácia e acabaram por concentrar um variedade de dados relevante para a análise do contexto educativo do Canadá, em particular, e da América do Norte, em geral (dadas as similitudes atestadas e citadas por relatórios consultados), no encalço de estratégias eficazes para o ensino de matérias essenciais para um grupo-foco (alunos com dificuldades no nível primário).
      Entre as várias conclusões - centradas em métodos de ensino diferenciados (instrução direta, ensino de estratégias, combinação dos dois modelos anteriores, outros), em estratégias ou intervenções diversificadas (ensino explícito de conteúdos, conceitos / procedimentos; ensino recíproco, com estratégias de grupo ou entre pares; percurso de aprendizagem apoiado na autoquestionação, aprendizagem mediada orientada, ensino assistido por computador, comunicação de indicadores específicos de desempenho aos professores e aos alunos; comunicação de informações específicas aos pais sobre informações precisas associadas ao sucesso dos educandos) -, sublinham-se algumas das mais significativas e concordantes, independentemente das três competências visadas:

. o ensino direto e o centrado na autoquestionação são os que se revelam mais eficazes no contexto de ensino-aprendizagem em estudo, mais do que a aprendizagem mediada e guiada;
. o ensino apoiado pelo computador revela-se menos eficaz do que o de tipo presencial;
. as novas abordagens pedagógicas como a aprendizagem guiada não apontam para estratégias de ensino que melhorem o rendimento dos alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem;
. o ensino recíproco é moderadamente eficaz, no caso do cálculo matemático, quando se tem em vista a melhoria dos desempenhos dos alunos em dificuldade;
. o ensino explícito favorece a aprendizagem de diferentes componentes implicadas no processo de leitura (estratégias metacognitivas, consciência fonémica, reconhecimento lexical, compreensão de textos, decifração da mensagem), bem como as relacionadas com o processo de escrita (planificação, textualização, revisão e tipologia textual);
. as modalidades pedagógicas que mais influenciam o rendimento dos alunos são o ensino explícito e o ensino recíproco.

      Quando paradoxalmente muitas reformas educativas privilegiam ou apontam para abordagens pedagógicas bem distintas do concluído por estes investigadores, os mais de trezentos trabalhos de investigação levados a cabo num período de dez anos - num contexto de diferenciação e multiculturalidade evidentes -, cruzam-se convergentemente com cerca de quarenta anos de literatura a espelhar um estado de coisas com constâncias muito representativas.


     Retirar-se-ão daqui ilações para as práticas e os desempenhos profissionais docentes, por certo, nomeadamente quando um relatório canadiano publicado em 2001 se posiciona favoravelmente face à universalidade de conclusões: «Les pratiques employées dans les écoles efficaces canadiennes sont semblables à celles répertoriées dans la littérature internationale sur l’efficacité des écoles» (Henchey, N., Dunnigan, M., Gardner, A., Lessard, C., Muhtadi, N., Raham, H. et Violoto, C. (2001 - p. ii) - Schools that make a difference: Final report twelve canadian secondary schools in low-income settings. Kelowna, B.C.: Society for the Advancement of Excellence in Education, (SAee)).
         Sem excluir a posição de que, na educação, para situações excecionais uma resposta excecional pode conduzir para a solução de um problema, não nego que algumas constâncias, regularidades são necessárias, seja para um docente poder agir perante a diversidade com que se depara seja para os próprios alunos poderem integrar-se, socializar-se com conhecimentos e competências reconhecidos como fulcrais pela sociedade. Uma generalização, por certo, não pode resultar daqui: os alunos que não são contemplados pelo estudo focado podem já ter uma estruturação que não requeira modalidades pedagógicas tão diretivas e explícitas.

       Entre "Todos iguais, todos diferentes", cabe ao professor avaliar a situação que terá de ajustar às condições que lhe são facultadas para trabalhar. E estas últimas nem sempre se coadunam com os requisitos que os modelos pedagógicas, os métodos de ensino, as estratégias e as formas de intervenção preconizam.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Complementos...

       ... não! Sujeitos.

        Uma questão a dirimir, por certo, a bem de quem trabalha com funções sintáticas.

       Q: Olá, Vítor. Na frase "É bom que faças o que te mandam" o sublinhado é um exemplo de complemento do adjetivo? Quando puderes, dá-me a tua opinião. Obrigada.

         R: Viva. Perante frase com conteúdo tão "autoritário", vou começar por contrariar o pressuposto da interrogação.
          Não se trata de uma questão de opinião: o sublinha-do corresponde ao sujeito sintático da frase (um dos casos de sujeito invertido) para o predicado 'É bom'. As frases que iniciam com a construção 'Verbo Ser + Adjetivo' (ex.: É importante... / São fantásticas... / É horrível... / São discutíveis...) prosseguem habitualmente com o sujeito, conforme se evidencia tanto pela concordância sintática como pela reconstrução com 'algo' ou com pronominalização ('É horrível não ter que comer' > ALGO [não ter que comer] é horrível; 'São discutíveis as decisões tomadas por força' > ELAS [as decisões tomadas por força] são discutíveis).
        A utilização de um complemento do adjetivo ocorre nos casos em que este último - formado ou associado a um verbo transitivo (a requerer complemento) - adquire o mesmo comportamento desse verbo (ex.: inscrito/a > alguém inscreve alguma coisa em algum local; aborrecido/a > alguém se aborrece com algo; apaixonado/a > alguém se apaixona por alguém / por algo; interessado/a > alguém interessa-se em/por algo / alguém).
        No caso em concreto, nem 'bom' é um destes exemplos adjetivais nem a subordinada substantiva completiva ('que faças o que te mandam') é forma de complementação. Ambos são casos de configuração sintática ao nível da frase-matriz (contrariamente ao complemento do adjetivo, que é uma função sintática interna, de segundo nível, dependente do adjetivo e da função por este desempenhada).

      Há sujeitos que fecham as frases. Dizem-se invertidos por não obedeceram à ordem padronizada, direta, natural, canónica do português (SVO).

sábado, 12 de maio de 2018

Quem me dera...

    Não se trata da expressão de um desejo pessoal; antes o refrão de uma canção.

   De tanto nos habituar a qualidade, a surpresa não deixa de chegar sempre que a voz se faz ouvir - é o caso de Mariza, tanto na expressão de poetas (inclusive, a de Pessoa) como na de outros escritores de cantigas, tão ao jeito de um Português nacional quanto ao de um idioma variado que se projeta no mundo. É o nosso Fado!

Vídeo oficial do fado "Quem me dera", voz de Mariza e letra de Matias Damásio

       QUEM ME DERA

Que mais tem de acontecer no mundo
Para inverter o teu coração pra mim
Que quantidade de lágrimas devo deixar cair
Que flor tem que nascer
Para ganhar o teu amor

Por esse amor meu Deus
Eu faço tudo
Declamo os poemas mais lindos do universo
A ver se te convenço
Que a minha alma nasceu para ti

Será preciso um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro: não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para seguir

Quem me dera
Abraçar-te no outono, verão e primavera,
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração

Será preciso uma tempestade
Para perceberes que o meu amor é de verdade
Te procuro nos outdoors da cidade, nas luzes dos faróis
Nos meros mortais como nós
O meu amor é puro... é tão grande e resistente como embondeiro
Por ti eu vou onde nunca iria
Por ti eu sou o que nunca seria

Eu preciso de um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro: não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para viver

    À qualidade interpretativa juntam-se a letra, a composição musical, as imprevisíveis harmonias que tocam quem ouve. Matias Damásio escreveu, Mariza canta e nós escutamos, embalados entre sonhos, quimeras, utopias, esperanças face à vida e ao amor que alimentem / alimentam a nossa existência. 

     Não sei se estranha, porque, comigo, entranhou logo, assim que foi escutada.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

O Dia da Queima dos Livros

      Há cerca de um ano percorri um dos locais fatídicos na zona que foi Berlim comunista.

      Há oitenta e cinco anos desapareciam aí os livros que se revelavam opositores ao espírito alemão nazi. Corria o ano de 1933 e, em Berlim, acontecia a queima dos livros de autores ditos 'não-alemães' (ainda que alguns deles o fossem), levada a cabo pela Liga de Estudantes Alemães Nazis, em OpernPlatz (hoje BebelPlatz). 
     Tratou-se de uma campanha de propaganda, repetida em muitas cidades alemãs, contra os que se revelavam contra o espírito alemão (os chamados "Undeutsch"). Nomes como os de Sigmund Freud, Karl Marx, Albert Einstein, Franz Kafka, Bertolt Brecht, Walter Benjamin, Marcel Proust, Emile Zola, Máximo Gorki e Ernest Hemingway figuravam entre os que tinham obras queimadas. Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazi, assumiu que, a partir de então, nasceria o novo homem alemão, livre da influência e do intelectualismo judaicos. Por ironia, o país que tinha inventado a prensa tipográfica móvel há cerca de meio milénio assistia a uma tragédia cultural, provocada pelo nacionalismo irracional, destruidor de memórias, ideias, histórias. 

Imagem alusiva à queima de livros (Bücherverbrennung)

    Trinta e três anos depois (1966), o filme Grau de Destruição (no Brasil, Fahrenheit 451) recuperava o tópico, ao adaptar o romance homónimo de Ray Bradbury, sob a direção de François Truffaut, e ao mostrar como um regime totalitário proibia os livros e toda a forma de escrita, acusando-os de tornar as pessoas descontentes e não produtivas (a resistência ao regime era apenas feita na terra dos homens-livro, uma comunidade de pessoas que destruía os livros depois de os memorizar; a perseguição era inevitável para quem era apanhado na posse de um, mas o propósito de o decorar era o de o republicar quando não fossem mais proibidos).

Excerto fílmico de Grau de Destruição (ou Fahrenheit 41), de 1966

     Atualmente, frente ao prédio da Faculdade de Direito da Universidade de Humboldt fica o chamado Book Burning Memorial: uma abertura de vidro colocada no chão da praça, a permitir aos transeuntes a visão, no subsolo, de uma sala com uma grande estante de livros branca, vazia. Recorda-se, assim, o dia em que, durante a ocupação nazi, 20.000 livros foram queimados, num só dia, numa pira que consumiu obras de cientistas, filósofos, escritores e pensadores de renome. Por extensão, a ausência dos livros simboliza a falta dos milhões mortos pelo nazismo, para além dos perseguidos, torturados e humilhados por pensa-rem de modo distinto.
    Organizada pelas estruturas governamen-tais nazis e pelo Comité Geral dos Estudantes da União Nacional-Socialis-ta,  a "Queima dos Livros" foi acompanhada por reitores, professores universitários, líderes estudantis, mais os altos representantes de Hitler. Mais de trinta cidades universitárias alemãs colaboraram e fizeram estender a campanha a outros pontos do país, graças à divulgação feita pela rádio, pelas telas de várias salas de cinema e pela cobertura de imprensa. Os dias seguintes assistiram à criação de outras fogueiras, alimentadas pelos livros e documentos escritos que os soldados nazi retiraram, à força, de casas, livrarias e bibliotecas.

    Em tempos de fraca memória, interessa relembrar os perigos do fundamentalismo, dos nacionalismos exagerados, da miséria humana e dos horrores que a História deu a conhecer e que o presente teima em fazer persistir. Os livros também cumprem esse papel (que o diga Saramago, com o seu O Ano da Morte de Ricardo Reis).

terça-feira, 8 de maio de 2018

Voz, melodia e força... vencedoras?!

    Espetáculo internacional em Portugal. É a Eurovisão na canção. Em Lisboa.

    Depois da vitória de Salvador Sobral em 2017, a capital portuguesa recebe o certame musical de maior projeção musical no mundo. Realizada a primeira semifinal, diria que se trata de uma realização televisiva que não fica atrás de produções de anos anteriores - balanço de um show que bem podia ser o da final do festival. Um evento que abre o país ao mundo e a uma audiência à escala global.
     Fica o registo da que podia ser a canção vencedora:

A representação da Áustria na primeira semifinal da Eurovisão (RTP1)

      NOBODY BUT YOU

Lord I’m gonna get so high tonight
I’m gonna let the floodgates open wide
I’m in open water
This is what I need
And though I try to get you off my mind

And I get no sleep
I’m in too deep
I can’t let you leave

It wouldn’t be right letting you go running away from love
Ain’t nobody but you I can hold onto
So am I wrong giving my all making you stay tonight?
Ain’t nobody but you I can hold onto

Lord, I’m gonna bring you back tonight

Oh you’re running circles round my mind
After your words have been my bible
How could I search for someone new?
When I really want you by my side

And I get no sleep
I’m in too deep
I can’t let you leave

It wouldn’t be right letting you go running away from love
Ain’t nobody but you I can hold onto
So am I wrong giving my all making you stay tonight?
Ain’t nobody but you I can hold onto

Don’t make me tear my heart out
I’m shaking till I fall down
Don’t make me tear my heart out
Don’t make me tear my heart out
I’m shaking till I fall down
Don’t make me tear my heart out

It wouldn’t be right letting you go running away
Ain’t nobody but you I can hold onto
So am I wrong giving my all making you stay tonight?
Ain’t nobody but you I can hold onto
It wouldn’t be right letting you go running away from love
Ain’t nobody but you I can hold onto
Ain’t nobody but you


    Uma entrada musical suave (em piano) a deixar ouvir uma voz grave (a de Cesár Sampson) para uma melodia rythm & blues que cresce, faz vibrar, num enquadramento cénico e de efeito televisivos surpreendente. No apoio vocal, há uma voz portuguesa (a de Ricardo Soler) a marcar a sonoridade do gospel, do soul, junto de outras vocalistas femininas.
    O resultado é uma música de força negra, de refrão contagiante e de letra que, por mais comum no tema, sublinha a persistência no amor.

    Não pediria mais para ser espetáculo. Sem necessidade de excentricidades, revirar de olhos, cacarejos ou uma "chicken dance" para chamar a atenção, este é um exemplo digno de vencedor. Se não o for, será música que fica (como muitas outras que não chegaram a vencer e marcaram a diferença).

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A sílaba da diferença

      É (foi e esperemos que continue a ser) abril, tempo de mudanças.

      Em tempos de democracia (de cravo), interessa ver o que abril nos trouxe, por mais cinzentos e pardos que andem os dias. O que se conquistou não se pode perder. Importa da flor não perder a cor.

in https://br.pinterest.com/pin/260716265901034772/

      Certo é que ditadura rima com escravatura. Talvez tenhamos saído de uma e entrado noutra(s); talvez por isso algum tempo de amargura.

     Vivamos outras revoluções, que nos libertem e deem mais sentido ao cravo. Ou à vida, mais sabor. Este foi o dia, desde a madrugada.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Sempre...

    Do irlandês Gavin James, uma melodia para ficar.

   "Always" (do álbum Only Ticket Home, 2018) é uma cantiga sobre perda numa relação, marcada por arrependimento e a consciência de que não será possível voltar atrás.

Ao vivo, num programa de rádio (FM 104), sem arranjos técnicos

    ALWAYS

What am I supposed to do without you?
Is it too late to pick the pieces up?
Too soon to let them go?
Do you feel damaged just like I do?
Your face, it makes my body ache
It won't leave me alone


And this feels like drowning
Trouble sleeping
Restless dreaming

You're in my head
Always, always
I just got scared
Always, always
I'd rather choke on my bad decisions
Then just carry them to my grave
You're in my head
Always, always, always

Cracks won't fix and the scars won't fade away
I guess I should get used to this
The left side of my bed's an empty space
I remember we were strangers
So tell me what's the difference
Between then and now

And why does this feel like drowning?
Trouble sleeping
Restless dreaming
...


  Porque há muito tipo de relações, as que mantemos com a vida não deixam de cá estar representadas na letra de canção. Entre os passos que se dão e o balanço que deles se faz, pode muitas vezes o arrependimento surgir. Perante a incontornável passagem do tempo e a consciência de que nada mais há a fazer (senão ir em frente), resta a música.

    Se quem canta seus males espanta, pode a música suavizar a dor, o arrependimento; exorcizar o que não tem mais volta. Sempre (always)! 

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Maria Lionça na senda da ficção e da verdade

   A fronteira do fictício e do real é como a linha do horizonte: ilusão de ótica a todo o tempo renovada, procurando a terra da utopia.

   Tudo a propósito da poesia de Miguel Torga, ainda que Maria Lionça seja nome para uma personagem de um conto com título homónimo publicado em Contos da Montanha (1941). O próprio autor apresenta-a como criação, invenção, imaginação que se torna verdadeira. É como a obra do escritor: quanto mais ficcionada, criada ou mais imaginada, mais real.
   Como força materna, ela resulta numa espécie de caleidoscópio, nas múltiplas variações de luz que uma figura feminina é capaz de dar ao mundo. Neste sentido, Maria Lionça é universal(ista), fonte de energia, e (por isso) encontra-se na origem e nos ciclos renovados da vida. Fiando e tecendo, assim vai compondo a meia, com a linha ou o fio que, dedilhados, a mão já susteve entre a roca e o fuso, numa imagem de continuidade de vida.

Entrevista de Miguel Torga ("Viagem às Terras de Portugal" - Rede Manchete, 1987)

      Na vida literária, a obra também se compõe de energia, luta, força da palavra, da linguagem que traduz a própria criação e invenção. Assim a verdade interior do criador é partilhada com o seu leitor, tal como a mãe dá ao filho o que de melhor tem.
      No feminino da terra, na força telúrica que o poeta dá a ler, também se revela uma Maria Lionça. Mesmo o masculino a reflete, nomeadamente nesse negrilho plasmado em verso (não deixa de ser árvore de grande porte na expressão da criação poética). Qual Anteu, o poeta alimenta-se da força da terra e, dessa forma, dá voz à Poesia. Nesta apresentam-se marcadamente quatro linhas orientadoras: um desespero humanista, configurado no inconformismo, na luta e na revolta de um Orfeu Rebelde face ao(s) poder(es) que transcende(m) o Homem e o deixa(m) preso a uma realidade que não dá nem traz esperança, utopia ou felicidade; o telurismo como expressão da força e da energia que decorrem da vivência e da proximidade à terra; a problemática religiosa, na questionação de um Deus que, não sendo negado, é acusado de não ser humano nem próximo da racionalidade que o poeta quer sublinhada na vida humana;  o drama da criação poética, associado ao esforço, ao trabalho extenuante e contínuo dos que desejam a superação das limitações (nomeadamente os da escrita poética). 
      No cruzamento destas linhas temáticas cabe também falar de Pátria, de Nação, de Alma e Cultura de um povo - e aqui Maria Lionça também é traço de alma de um país e da sua cultura; de terra e de mar abertos ao mundo, na descoberta de caminhos que têm como destino último a Universalidade, esse princípio que nos aproxima de todos os outros, na busca infindável do que nos leva à felicidade, à utopia.
      No reconhecimento do poeta, sigam-se-lhe os trilhos da terra:

Documentário televisivo (Porto Canal) sobre o escritor Miguel Torga
      
     Nas quelhas da vida, também composta de múltiplas ruas, há caminhos a descobrir para lá da aparência e da superficialidade. É na busca do que há de mais profundo, e verdadeiro, que a aproximação ao ideal se constrói. Com esforço e com trabalho.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Agente ou não, faça-se a distinção

      Um perfeito exemplo de como a sintaxe requer a semântica para uma melhor classificação.

       Assim me chegou, sem mais, a questão:

     Q: Olá. Na frase ‘As tarefas foram distribuídas pelos alunos’, ‘pelos alunos’ é o complemento agente da passiva, certo?

      R: Talvez sim, talvez não. Na ausência de todo um contexto que permita enquadrar a produção da frase, antecipo dois cenários: um, com os alunos a serem os agentes e responsáveis pela distribuição; outro, com os alunos a serem beneficiários ou destinatários do ato de distribuição.
     Com o primeiro cenário, temos a frase proposta como a construção passiva obtida a partir de uma frase ativa de base (‘Os alunos distribuíram as tarefas’), na qual ‘os alunos’ seriam o sujeito-agente da ação de distribuir. Neste contexto, após as transformações típicas da frase ativa para passiva, o sujeito da ativa dá lugar, na voz passiva, ao complemento agente da passiva.
     O segundo cenário perspetiva a frase com significados e papéis semânticos distintos, mesmo que a frase não deixe de ser apresentada como uma construção passiva. Pode esta última ser a configuração final de uma frase ativa do tipo ‘O professor distribuiu as tarefas pelos alunos’, a qual, uma vez transformada na passiva, apresenta uma sequência com o complemento agente da passiva omisso (‘pelo professor’), apenas com o sujeito (‘As tarefas’) e o predicado (‘foram distribuídas pelos alunos’) – este último com o auxiliar ‘ser’ (da passiva), mais o particípio passado do verbo principal (‘distribuídas’) e o respetivo complemento oblíquo.
    Dependendo da interpretação do primeiro e do segundo cenários, temos naturalmente funções sintáticas distintas. O certo é que, para existir um complemento agente da passiva, a frase tem de se encontrar na voz passiva e o agente deve ser o que pratica a ação ou o processo configurada(o) no verbo principal (no caso, ‘distribuir’) daquela que seria a frase original da voz ativa.

      Um caso, portanto, em que sintaxe e semântica têm de estar de mãos dadas para desambiguizar sentidos e funções.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Religião (ou religiões) à parte...

       E voltamos à questão dos plurais de 'ão'.

       Deve ser a proximidade da Páscoa. Trouxe ao diálogo, entre dois professores, a questão do plural de 'sacristão'. Perguntavam-me, em jeito de reclamação, por que motivo tinha de ser 'sacristães', se a palavra estava relacionada com cristão, que forma o plural 'cristãos'.
       Há tempos vi, no 'Bom Português' (RTP1), que esta tinha sido a pergunta lançada aos transeuntes, muitos a tenderem precisamente para o 'sacristãos'. Eis que chegou a vez de entrevistar uma freirinha toda simpática, que, sorridente e como quem sabia do ofício, afirmava convictamente que o plural era 'sacristães'. Ora sem mais, a voz-off confirma o dado (na base da consultoria do programa) e falta saber quem o (vai) usa(r).
      Na verdade, consultando a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 182), de Lindley Cintra e Celso Cunha, podem aí ser encontrados os casos de um reduzido número de palavras que tem o plural formado em 'ães': alemão, bastião, cão, capelão, capitão (em dissemelhança com ‘capitanus’), catalão, charlatão, guardião (e muitos a preferir os ‘charlatões’ e os ‘guardiões’), escrivão, pão, sacristão, tabelião. Contudo, não deixa de ser um dado o cenário de palavras terminadas em 'ão' admitirem dois ou três plurais (um ora de natureza mais etimológica e outro ora de uma tradição mais popular: anãos, anões; corrimãos, corrimões; refrãos, refrães (que poucos dizem, preferindo os 'refrões'); verões, verãos; vilãos, vilões / aldeãos, aldeões, aldeães; anciãos, anciões, anciães; ermitãos, ermitões, ermitães; sultões, sultães, sultãos). Dicionários há, como o Houaiss, que admitem 'sacristães' e 'sacristãos'.
      Há dias, a propósito de uma reportagem, voltaram a palavra e o seu plural à baila:


    Assim sendo, pela gramática e também sustentado pela reportagem, lá respondi 'sacristães', tal como 'capelães' ou 'ermitães' (embora, neste último caso, as outras formas de plural também sejam válidas).
    Sem muita fé no que toca a palavras que não fazem parte de um uso frequente ou que não são ativadas tão regularmente,  diria que a consciência morfológica da questão está em deriva ou numa instabilidade que a sincronia procura regularizar, nos novos termos, para 'ões' (cf. camiões, aviões, corrimões, apagões e outros casos que tais).

     Não se trata de uma questão de religião nem de fé: na língua, fazem-se algumas conversões, concessões e alterações que uma gramática mais normativa entende como corrupções, mas que muitos estudiosos veem como variações, evoluções próprias de uma língua viva, sujeita a transformações. Algumas até demasiado presidenciais!

segunda-feira, 19 de março de 2018

Viajando... de comboio?

     Não é a propósito desta carruagem, nem tão pouco de nenhum comboio. Nela, contudo, fica sem que nele se viaje... porque de tempo (acima de tudo) se trata.

     Em torno de uma narrativa epónima (de um nome apenas para três personagens, feitas de uma só), compõe-se uma viagem no tempo.
    Assim se lê "George", esse conto de Maria Judite de Carvalho que configura as três idades de uma mulher, surgida como adulta aos olhos do leitor, no início e no final da narrativa. É este o ponto de partida (e será o de chegada) para alguém que, regressando à sua aldeia de infância, se reencontra com Gi (George na sua juventude, próxima dos vinte anos). Não se trata de relembrar ou recordar o bem passado; antes um tempo que George quer ver apagado, para que não se sinta presa / condicionada (tudo o que a quarentona de sucesso parece não querer).
      O passado esfumado, qual memória que se vai esgotando, é tempo recuado em mais de vinte anos; é rosto fixado num retrato de uma mala qualquer. É uma jovem que podia ser uma filha da protagonista; porém, surge como esboço, como figura de alguém com disposição para a partida - alguém que levará uma mala velha, de cabedal, para sair do "cu de Judas" (onde fica Carlos, que, ao contrário dela, se deixa prender). A reconstrução da memória é como uma pintura: inicialmente, apenas um rosto vago sem contornos, com o sorriso dos dezoito anos (bem distinto do de Georgina); depois, um reencontro, espelhando e  revendo o que não se quer presentificado.
      O presente é o instante do regresso à vila, para vender uma casa (para que nada prenda a um tempo ou a um espaço), pois George é mulher que não se quer ver agarrada a nada (a não ser, talvez, ao "último dos seus amores"). É o momento da consciência do duplo (ou do múltiplo) e de um percurso de errância, sempre na predisposição de partir, de viajar - até porque a vida é feita de constantes partidas / viagens / percursos. É ainda o tempo de despedida do passado e de uma viagem de comboio, qual metáfora da passagem do tempo. É o agora de uma vivência que se faz em Amesterdão, com um trabalho que agrada e faz da adulta George uma pintora bem sucedida, que adora viajar; que prefere os pensamentos agradáveis (feitos de um gosto materialista e de uma propensão para um controlo do tipo quem tudo pode e tudo quer - porque tudo tem).
       O futuro é encarado no momento em que vai o "comboio a fugir de dantes". Aparece, então, um novo esboço, o de Georgina, uma idosa que se sente só (por causa desse "crime" da velhice), com necessidade de retratos (o da menininha que foi Gi, saída da vila com uma foto no fundo da mala). Vê pior, as mãos enrugadas tremem (nada pior para quem foi uma conceituada pintora) e o "mundo já não lhe pertence", aos setenta anos.
     20, 45, 70 anos - a passagem do sorriso do dia para o da noite. O 'eu' no reencontro, na descentração, com o outro 'eu' (o de outros tempos, sejam passados sejam futuros). Nenhum deles George quer. Só o presente, o instante, o momento que controla, à mesma lógica das emoções que são contidas ("uma simples lágrima no olho direito, o outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar. É como se se negasse a compartilhar os seus problemas, não e não" / "Não tive desgosto nenhum, nenhum. Um encontro, um simples encontro...").

       A pretensa liberdade do 'eu'. A adulta que tudo julga controlar (inclusive o tempo). A pintora que expõe, que tem sucesso e acredita poder "fechar os olhos" a tudo o que lhe desagrada. Acredita que a mala cara, leve, de rodinhas não dará lugar a uma "carteira preta, cara, talvez italiana, italiana, sim". Porém, "tudo passa", por mais que a antecipação disso incomode George - título narrativo para um presente que dura (só até chegar o futuro).
      

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.

quarta-feira, 14 de março de 2018

"A vida seria trágica se não fosse engraçada"

     Pensamento tão certo para quem, melhor do que ninguém, sabia do que falava.

     Talvez tivesse razões para pensar ou dizer o contrário, mas optou por desfrutar do pouco que a vida lhe deu e do muito que conquistou. Aos dois ou três anos que resistiria juntou mais de cinquenta. Foi uma equação de conquista, na qual o poder da mente se impôs seja pela vontade de sobreviver seja pelos segredos que desvendou para a Humanidade, nos domínios da física, em particular, e da ciência, em geral.
    No mesmo dia em que Stephen Hawking morre, Albert Einstein celebraria 139 anos; na data em que nasceu (8 de janeiro de 1942) tinham passado 300 anos da morte de Galileu Galilei - coincidências ou intervalos de tempo que não deixam de juntar grandes nomes da ciência, para não falar de factos como os da celebração do dia do (3,141592653589793238462643383...).
     Reconhecido pelo trabalho desenvolvido e pela luta na sobrevivência, Stephen William Hawking procurou uma explicação para o Universo; também para a vida, quando lhe foi diagnosticada esclerose lateral amiotrófica (doença incurável e degenerativa motora que o aprisionou a um corpo que progressivamente deixou de controlar). 
     No filme "A Teoria de Tudo" (2014), com a excelente interpretação de Eddie Redmayne no papel do cientista britânico (o que lhe valeu o óscar de melhor ator em 2015), é possível contactar com esse surpreendente percurso, simultaneamente de degenerescência e de superação:

Trailer de 'A Teoria de Tudo', filme de James Marsh (2014)

      Em cerca de duas horas, o espectador, através do papel de uma personagem de ficção, encara o modo como uma personalidade real dos nossos tempos explorou o seu trabalho científico, focando o estudo daquilo que, cada vez mais, lhe restava menos: o tempo. Limitado no corpo, mas com a cabeça no universo, o nada e o tudo se conjugaram até hoje.


    Aos 76 anos, com a mesma idade de Einstein, Hawking deixa-nos com o seu contributo acerca da natureza da gravidade e da origem do universo; da teoria da singularidade do espaço-tempo, aplicando a lógica dos buracos negros a todo o universo; do seu best-seller Uma breve história do tempo (1988); do seu exemplo de vida, inspirador para todos aqueles que reclamam do que a vida lhes não dá ou lhes tira.

     Alguém que quis ser matemático e se tornou um génio da física. RIP.

terça-feira, 13 de março de 2018

Conjunções e outras coisas que tais...

   Nunca se deve negar um pedido de ajuda, mais ainda quando vem de quem nos merece consideração.

      Chegada a pergunta, preparo a resposta:

       Q: Venho por este meio pedir-lhe a seguinte ajuda para a seguinte questão:
             1.1. Identifica as frases em que a palavra sublinhada é uma conjunção.
            (A) Clio viu a confusão que tinha causado depois de ter adormecido.
          (B) Os automobilistas chegavam a Lisboa lentamente quando a confusão se instalou.
          (C) Ibn-el-Muftar alçou as mãos a Alá porque acreditava na proteção divina.
         (D) O português considerou a situação normal até chegarem os muçulmanos.
           Nos cenários de resposta, aparece como resposta as alíneas B e C. Será que a A também pode ser incluída ou é um pronome relativo?

      R: Efetivamente, em (A), 'que' é um pronome relativo, numa sequência frásica em que a palavra 'confusão' surge retomada. Tal retoma é feita ora na expansão do nome com uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva ora na articulação de duas orações: 'Clio viu a confusão' e 'Clio tinha causado confusão'. 
    Trata-se, portanto, de um 'que' anafórico, tendo como antecedente a palavra 'confusão'.
     Na medida em que esse 'que' introduz uma oração subordinada adjetiva, não poderá ser nunca considerado conjunção. Esta última, nos contextos de subordinação, é destinada, tipicamente, para introduzir orações subordinadas substantivas completivas ou subordinadas adverbiais.
        
        Na expectativa de que tenha sido esclarecedor, para o caso em concreto, fica o registo de que os cenários de resposta nem sempre erram; só não apresentam é o nível de consciência em que se deve fundar uma tomada de decisão (por mera escolha que seja).