sábado, 17 de fevereiro de 2024

Classificações... a quanto (n)os obrigam!

      Veio a pergunta e logo se ativaram os focos de análise.

      Por mais respostas que se queira dar, há vários pontos de vista analíticos a considerar, alguns dos quais conduziriam à que se revela mais aceitável / adequada / correta.

      Q: Olá, Vítor. Quando puderes, diz-me, por favor, como classificas as orações na frase: "Ouve o CD do Pedro Abrunhosa, que é muito bom." A professora de uma explicanda minha diz que é subordinada adjetiva relativa explicativa. Se não fosse adjetiva relativa, só poderia ser adverbial causal.

       R: Viva. Perante a minha divergência face às respostas citadas, direi o seguinte: 

       i) a hipótese de uma subordinada adjetiva relativa (explicativa), eu colocá-la-ia de parte, uma vez que o suposto pronome relativo "que" me levanta questões de forte ambiguidade quanto à construção sintática da complexidade na frase e quanto ao referente retomado (será "o CD do Pedro Abrunhosa", que não sei qual é apesar da determinação e que necessitaria de uma relativa restritiva para a sua identificação precisa, ou será "[d]o Pedro Abrunhosa", que não vou apreciar na forma e nos termos apontados no enunciado);

      ii) o cenário de a segunda oração ser uma adverbial causal levanta-me sérias reservas quanto ao facto de as subordinadas adverbiais tipicamente admitirem inversão dos termos da construção (*"Que é muito bom, ouve o CD do Pedro Abrunhosa" resultaria numa clara construção agramatical);

    iii) a expressão lógica da causalidade-explicação do enunciado é admissível, conforme se encontra introduzida na segunda oração, configuradora de uma explicação / justificação para o que se enuncia na primeira oração; porém, não tomaria esta última como subordinante nem aquela como subordinada;

    iv) o foco de análise pragmático a colocar no segmento "Ouve o CD do Pedro Abrunhosa" permite entender este último como um ato diretivo (conselho, sugestão) na interação produzida entre um 'eu' e um 'tu', conforme se depreende do modo verbal imperativo usado em 'ouve'; simultaneamente, a apreciação feita com a segunda oração resulta numa orientação justificativa (assente numa apreciação) / explicativa de um 'eu' para o ato de fala assumido na primeira oração.

Problemáticas de identidade (e classificação) do 'QUE'

   Assim, numa perspetiva de análise pragmático-sintática, assumo que a oração inicial é uma coordenada (que não admite troca na ordem sintática com a segunda oração), seguida de uma coordenada explicativa introduzida pelo conector 'que' (a iniciar a oração coordenada explicativa). 

  Desta forma, concluo o seguinte: um "que" sinónimo de "pois" aponta para construções coordenativas; um "que" sinónimo de "porque" nem sempre corresponde a uma subordinação, a qual, sintaticamente, apresenta propriedades típicas não confirmadas com o enunciado em análise.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Declarações de desamor...

    Depois do Dia dos Namorados, ...

    Não há bolo que resista!
    Sem vírgula antes de 'mas', sem as que encaixam a expressão "às vezes", a forma verbal de 'dar' sem acento e o já mencionado "às vezes" mal grafado (na acentuação) são ameaças muito significativas, a fazer certamente ter vontade de apertar o pescoço a alguém:

Um bolo azedo para desamor à língua

      (Também) não há amor que resista. O da língua já foi há muito.

      ... ficou um amor muito azedo e agressivo.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

No dia dos namorados, fui ao "Jardim dos Poetas"

       Acima de tudo, dia e tempo(s) que precisam de afetos.

    Na sequência de um projeto numa turma de 1º Ciclo, fui convidado para inaugurar o 'Jardim dos Poetas'. O dia é marcante, o projeto é artístico. Não há como recusar. Daí à ideia de trabalhar uma oficina poética com crianças do 3º ano (turma A da Escola Básica Integrada Sá Couto - EBISC) foi um pequeno passo.
     Um canteirinho com plantas para cuidar deixava ver alguns poemas entre o colorido natural. Assim se faz florescer o "namoro" com os poetas e a poesia. Entre os reconhecidos, inclusivamente o patrono da escola, havia outro que só o é por lidas bem distintas do labor poético.

O "Jardim dos Poetas" construído sobre livros e leituras do 3A da EBISC

      Inaugurado o "Jardim dos Poetas", houve partilha de poemas lidos a uma e duas vozes, com nomes que o tempo notabilizou: Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Rosa Lobato Faria, Luísa Ducla Soares, entre outros.
    Não podia deixar de corresponder. Pensada a construção de um poema para a ocasião, a produção de um separador para lhes ofertar, tudo começou com a distribuição aleatória de palavras (as finais de cada um dos versos produzidos) entre as crianças. Tiveram de explicar se elas mantinham ou não relação com o "espaço" inaugurado. Trabalhou-se vocabulário, exploraram-se universos de referência, desenvolveram-se raciocínios e procuraram-se afinidades entre as palavras: as que se aproximam, as que se distanciam, as que rimam, as que têm sentidos múltiplos, as que revelam combinatórias sugestivas.
     Foi a turma posicionada aos pares, na ordenação do texto, de modo a que todos os alunos lessem quadras - um para cada verso findado com a palavra detida na distribuição feita. Apresentaram-se, no total, cinco quadras do poema oferecido.
     Como são vinte as crianças, a sexta estrofe (quadra final que sobra) vai ser minha - com a minha leitura passar-lhes-ei o desafio de serem elas próprias poetas do e no jardim inaugurado.

Das palavras ao poema (no "Jardim dos Poetas" do 3º A da EBISC)

Separador com "toque poético" na combinação de palavras... e não só.

    Produzindo uma quadra, poderão plantá-la junto daqueles que, no canteirinho, aspira(ra)m a um mundo melhor, mágico, artístico, onde os afetos, as emoções jogam com razão, coração e imaginação.

     Com o agradecimento à S. F. que lançou a semente no "jardim". Assim passou a lição no meu melhor momento do dia: a de um namoro possível com o jogo poético, com a poesia.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Porque nem tudo é claro, coerente, evidente

    Quando tanto se fala da necessidade de coerência...

    Perceber que a vida tem contrastes é bem visível: mostram-no a noite e o dia, a tempestade e a bonança, o ódio e o amor, a inércia e a ação, o negro e o branco.
   Concluir que muitos deles se complementam é entender que, com antónimos, nem tudo se exclui definitivamente - é o que se pode inferir de expressões como "pôr o preto no branco", onde os termos antónimos convergem para uma noção, um sentido de clareza, explicitação e formalização de situações. 
    Não só a antonímia, enquanto processo de relação lexical, contribui para níveis de  coerência; também o conhecimento enciclopédico, apre(e)ndido e/ou vivido.
      Hoje, foi-me dado a ver que as pedras dão cor, flor, vida natural, ser vivo.

Pedras que dão vida no varandim de um hospital (Foto VO)

    Por estranho que pareça, não se trata de afirmação incoerente. Por literal que não seja, é possível ver o afirmado, pelos vistos mais e melhor do que alguns homens que, precisando de coração para viver, o negam para com os seus pares. Assim o ditam as guerras, os conflitos que por aí grassam no mundo e muitos teimam em não ver o mal que trazem e fazem à Humanidade. 

    ... e o mundo nos dá a ver que as contradições e os contrários não espelham necessariamente incompatibilidades.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Que dia! E diz-se 'oito'... de equilíbrio!

      Nem pelo clima nem pela História.

     A Karlota veio agravar o estado do tempo. Nem há vontade de sair de casa, com esta intempérie da chuva, do vento e do frio.
     Ainda que sujeito a confirmação, parece que a História aponta o dia como aquele em que Mary, Queen of Scots, foi executada, em 1587, sob suspeita de envolvimento na Conspiração de Babington (por pretender assassinar a prima, a rainha Isabel I). Diria mesmo que foi dia aziago para The Faerie Queen, já que, em 1601, Robert Devereux, Segundo Conde de Essex, se rebelou contra a mesma - ainda que de nada tenha adiantado, pois a revolta foi rapidamente esmagada.
       Houve também conflitos, guerras, atentados e até avalanches fatais no decorrer dos tempos, sempre ao mesmo dia.
       Estou aqui estou a citar Camões: "O dia em que nasci moura e pereça". 

Declamação do soneto camoniano "O dia em que eu nasci moura e pereça" (vídeo VO)

"Últimos momentos de Camões", 
de Columbano BordaloPinheiro (1857-1929)
O dia em que eu nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar,
Não torne mais ao mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o céu se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas, pasmadas de ignorantes,
As lágrimas no rostro, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desaventurada que se viu!

      Pode ter sido mais topus literário e criativo do que sentido factual e autobiográfico (a julgar pelo intertexto claro do soneto com o episódio bíblico das lamentações de Jó, demonstrativo de que Camões leu a Bíblia Sagrada), mas verdade é que, por vezes, a conjugação de fatores não ajuda a celebrações.

    Venham melhores dias e melhores anos - sem tempestades, execuções, rebeliões nem forças adversas. Ainda dizem que o número 8 (oito) é símbolo universal do equilíbrio cósmico!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

No mês mais pequen(in)o

     Depois de um janeiro que parecia não mais acabar...

     Chega o mês mais pequeno (ainda que este ano seja maior, por ser bissexto). 
    Com os dias a crescer (só falta sair do malfadado horário de inverno, que torna o fim de tarde mais rapidamente escuro), a primavera a aproximar, anuncia-se uma liberdade natural que um dia de sol faz mais apetecida.
     Olhando o mar, inspirando-se num sentido de liberdade que a imensidão marinha também traduz, Sophia faz-se evocada na sua familiar Granja:

Da purificação do mês à pureza poética - com Sophia de Mello Breyner Andresen

     Um sentido de libertação, concentrado em sete versos, convoca tempo mais quente, horas mais claras e vida mais luminosa.

        Fevereiro, traz o calor que nem janeiro nem o fogueiro dão. 
        

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Jornadas '24 de Inovação e Educação

     Dia para o Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) viver as Jornadas'24 de Inovação e Educação.

     Um grupo de profissionais (equipa do Plano de Ação de Desenvolvimento Digital da Escola - PADDE) preparou e concretizou um programa de sensibilização e de formação para docentes,  encarado como um espaço privilegiado de partilha e de reflexão no âmbito da utilização crítica das tecnologias em contexto educativo.
      Tendo como objetivos o fomento da integração das tecnologias digitais nas práticas pedagógicas, o conhecimento e a utilização de diferentes ferramentas digitais (segundo a função a que se destinam), a promoção e a integração do digital de forma pedagogicamente pertinente, a capacitação dos docentes para a implementação de atividades promotoras da aprendizagem e do desenvolvimento das competências digitais dos alunos, o dia resultou em pleno com um número de participações significativo, de comunicações inspiradoramente pertinentes e demonstrativamente reveladoras de práticas que podem fazer a diferença.

Publicitação e dinâmica das Jornadas'24 do AEML, em parceria com a Câmara Municipal de Espinho (CME) 
e o Centro de Formação Aurélio da Paz dos Reis (CFAPR).
     
    O programa contou, no Painel 1, com a presença da Sr.ª Inspetora Geral de Educação, Prof.ª Dr.ª Ariana Cosme; do Presidente do Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua, Prof. Dr. Rui Trindade; da Prof.ª Dr.ª Joana Rato, do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, investigadora integrada no Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde, onde dinamiza o grupo de trabalho Mente, Cérebro e Educação. Foi o espaço e o tempo das Neurociências à Sala de Aula, para reflexões acerca da aprendizagem e do ensino, da importância das mudanças, das reformas e da inovação na educação.
     Com o Painel 2, dedicado à Tecnologia e à Sala de Aula (como, quando e onde?), houve a oportunidade de receber contributos do Prof. Dr. Marco Bento (da Escola Superior de Educação de Coimbra), investigador em Tecnologia Educativa na Universidade do Minho, e do Prof. Dr. Luís Borges Gouveia (Professor Catedrático na Universidade Fernando Pessoa e Doutor em Ciências da Computação); do Dr. Carlos Pinheiro, professor bibliotecário do Agrupamento de Escolas Leal da Câmara, professor de História e coordenador interconcelhio da Rede de Bibliotecas Escolares (concelho de Cascais).
      Durante a tarde, entre as 14:30 e as 19:00, foram várias as intervenções (Dr.ª Liliana Costa, Manuela Simões, Cláudia Meirinhos, Alda Ferreira, Carla Alves, Ana Paula Rodrigues e Dr. Tiago Costa e Pedro Silva) a sublinhar as oportunidades que as tecnologias têm vindo a trazer para a ação educativa.
     Num espírito em que o instituído se comple(men)ta com o instituinte, o tema da inovação e das tecnologias anuncia-se presentemente fulcral para a dimensão da relação e da interação pedagógicas; para o exercício consciente e consistente profissional docente; para a implicação fundamentada de uma atitude crítica perante os grandes desafios éticos e tecnológicos que atualmente a Inteligência Artificial (IA) coloca na Educação; para a defesa de uma complementaridade de suportes de aprendizagem em que a abordagem híbrida se revela mais diversa, integradora, complementar e, por isto mesmo, mais rica.
    Aproveitado o momento para que as vantagens da IA não deixem de se compaginar com o que a inteligência humana tem para a enriquecer (sem que o feitiço anule o feiticeiro), não deixou de se evidenciar como, do acordar ao deitar da humanidade, são múltiplos os sinais de como aquela nos facilita a vida, mesmo naquelas circunstâncias em que esta se encontra mais frágil ou em perigo e a requerer dela intervenções menos agressivas, mais cómodas, eficientes e imediatas.
    Sem endemoninhar a IA pelo que possa provocar nos tempos mais ou menos próximos, reconheça-se e descubra-se o que esta propicia ao ser humano, construindo-se e explorando-se, de forma inteligente, humanista e humanizadora, o que ela possa contribuir para a dignificação da existência do último.

     Um dia trabalhoso e que, nas palavras do patrono Manuel Laranjeira, revelou bem como "As ideias têm tudo em lucrar em serem agitadas" (in Cartas, na endereçada a João de Barros a 15 de janeiro de 1909) ou como "No mundo não basta descobrir verdades: é preciso sobretudo semeá-las pelo espírito e pelo coração dos homens" (idem, na carta endereçada a António Carneiro, a 14 de setembro de 1908).

domingo, 24 de dezembro de 2023

Por mais este natal

      Chegada a noite, venha o dia.

      Nas assonâncias e dissonâncias da língua, nas lógicas analógicas do pensamento, nas afinidades e nos contrastes poéticos inspirados nas regularidades e irregularidades da vida, escrevo:

Votos natalícios (Foto e texto VO)

      Cumpra-se o que é preciso para lidar com os dias imprecisos e tenha-se a certeza do melhor que se faz para os tempos incertos.

      Um bom natal para todos.

sábado, 9 de dezembro de 2023

Nova falha... já antiga.


       E não foi, por certo, por causa da chuva - que não para.
      Hoje, logo ao acordar, depois do empate e da crise do Benfica, vem a guerra de Israel-Hamas e, para não variar, a desgraça da língua escrita (prioridades!):

       Sem equilíbrio na escrita e no mundo (Foto VO)

     A inconsciência ortográfica assenta numa outra: a morfológica. Trata-se de um caso clássico de erro ortográfico proveniente da inconsciência morfológica. Não sabendo a palavra base (equilibrada), por parte de quem escreve, o acrescento do prefixo 'des' deriva numa escrita fonética mais do que problemática.

       Efetivamente, o DESEQuilíbrio é evidente... na língua e nos líderes mundiais (chega a parecer que a guerra é preferível). Santo Deus!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

No Dia Internacional da Aviação Civil

       Chega o apontamento fotográfico do dia.

       Parece ironia, mas as aves decidiram celebrar o dia deste modo:

Voos suspensos (foto VO)

       O dia invernoso assim o ditou: à espera de melhor(es) tempo(s).

    Estes passarocos parecem ser do contra, mesmo (logo hoje que oficializa o último dia do presente governo).

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Dezembro começa mal (e não vai terminar melhor)!

      Valha o facto de ser feriado (que foi já confundido com outras histórias), para não ser pior.

    Tudo por causa das negociações governamentais (ainda que em tempos demissionários) na área da saúde; ou melhor e para ser mais correto, pela comunicação que delas se faz.
      Hoje, a legenda televisiva é a seguinte:

      Não há saúde para a língua! É o desgoverno assumido. (foto VO)

     Não sei se será por o ministro ter ficado com os cabelos em pé (!!) ou se é por querer ligar todos a uma só causa, pensando que isto é questão de várias entradas para uma só tomada elétrica (isto para não falar de outras extensões, que também não são para aqui chamadas). É o que faz ESTENDER em demasia. Lá diz o povo: "Não te estiques!" A SIC, pelos vistos, espalhou-se!
      No que ao mau uso da língua diz respeito, é o desgoverno generalizado nos canais televisivos. Impõe-se uma "conjura" contra o domínio incorreto do nosso idioma. Toca a pô-los da varanda abaixo, metaforicamente falando.

      Isto de confundir 'es' com 'ex' é silábica e ortograficamente problemático. Preferia a extinção destes erros a uma extensão (tão paronímicas!) que não é salutar para ninguém.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Estamos nisto! Ortografia do melhor...

      Quando estás preparado para ser informado sobre o que se passa no mundo, ...

       ... as notícias aparecem na sua pior escrita.
    Dúvidas houvesse acerca da influência da oralidade na escrita, os erros comuns na ortografia de palavras como 'feminino', 'ministro', 'príncipe' e afins demonstram-na. Daí que, no plano da correção escrita, seja de abordar estes casos críticos, para que resultem em domínio mais consciente e correto do ato de escrever.
    A televisão começa a dar sinais de como esta competência parece já não ser apanágio do bom exemplo do serviço público e da exposição ao bom uso da língua:

Eis a razão para, sem dúvida(s), preferir o favorecimento, bem escrito (com agradecimento à AC) 

    Claro que não é necessário dominar a etimologia e reconhecer a base latina "PRIvilegium" (embora ajudasse): a leitura de vocabulário frequente permite ver bem as sílabas de "PRIvilégio" (desde logo a primeira de todas); a família de palavras assinala recorrências evidentes em "PRIvilegiar", "PRIvilegiado", "PRIvilegiadamente", "desPRIvilegiado" (pela consciência repetitiva da base); a consulta de um dicionário, hoje, está à mão de qualquer telemóvel ou computador pessoal (com palavras bem grafadas).
      Tão bom seria ver / ler palavras, em primeiro plano, para uma comunicação feliz!

     Talvez por causa do mau exemplo, prefira o favorecimento ao outro termo que, em vez de 'pre', deveria ter 'pri' na sílaba inicial.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Dia Nacional da Cultura Científica

         Poucos minutos, mas para minha memória futura.

       Uma turma de 10º ano, uma lição de Físico-Química A e o motivo do Diretor na sala de aula: um cartaz assinado que havia motivado dois dedos de conversa sobre Rómulo de Carvalho e o Dia Nacional da Cultura Científica, mais uns poemas que importava partilhar. O convite "Queres vir à aula, amanhã?" foi imediatamente aceite.

Saberes que cruzam letras, planetas, forças e número em abraço

        Há 117 anos, nascia aquele que viria a ser professor de físico-química do ensino secundário no Liceu Pedro Nunes, Liceu D. João III (Coimbra) e no Liceu Camões; pedagogo, investigador da história da ciência em Portugal... e poeta, sob o pseudónimo de António Gedeão. Há 25 anos celebra-se o "Dia", inspirado neste professor e divulgador de ciência. Também escritor literário. Razões mais do que suficientes para o homenagear. "Pedra Filosofal", "Lição da Água", "Lágrima de Preta" são das mais reconhecidas produções poéticas.
         Li "Impressão digital".
      A propósito dos "olhos", lembrei Camões e "Se Helena apartar / do campo seus olhos / nascerão abrolhos" - os efeitos do olhar de Helena na natureza são transformadores (sejam olhos verdes da "cor do limão" sejam de outra cor, mas "olhos do meu coração"). Os olhos de Gedeão são outros. Mais próximos dos contemporâneos, por certo, com abordagem e orientação temática bem distintas, sublinhando e definindo o que nos singulariza, o que nos faz ser diferentes, tal como uma "impressão digital".
      O tema da relativização do que se vê, da perceção das coisas, do copo meio cheio / meio vazio, da visão otimista em confronto com a pessimista são lições para a vida, para o crescimento do entendimento do universo. É / são saber(es) que o texto / poema dá, vindo(s) de alguém que se fez Homem da Ciência e das Letras, mostrando que a fronteira entre conhecimentos não faz sentido.
António Gedeão, no Parque dos Poetas (Oeiras)
     Ficou o convite para se deslocarem a Oeiras, ao Parque dos Poetas, e verificarem como uma estátua em honra do poeta António Gedeão não desdiz o físico Rómulo de Carvalho, mais os seus tubos de ensaio. Com física ou química, há lugar para a poesia, nas palavras que se atraem, noutras que se afastam - forças que a física designa de atração e de repulsa. Também há flores e escolhos (que rimam com os camonianos abrolhos); pedras pisadas, gnomos e fadas; moinhos e gigantes.

        Um dia que se marcou pela diferença, nas ciências que se complementam, por cruzarem saberes e darem outro sabor - um halo diferente na vida. Obrigado, AMT.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

A propósito de escândalos (no plural)

     Não bastava um, tinha de aparecer outro.

    É o que dá não distinguir verbos principais de verbos auxiliares. No caso de 'haver', é a diferença, respetivamente, entre a forma exclusiva do singular e a que admite o contraste de número com plural.
     Por isso, quando o verbo é principal, como em...

Escândalo atrás de escândalo (com agradecimento à CF)

     ..., não há plural. Há um, há dois, há mil. No caso, havia (dois telemóveis que sejam).
     Entre o escândalo noticiado e a forma verbal escandalosa, não há telemóveis que escapem. Numa semana em que, numa só reunião de trabalho, os discursos oficiais permitiram ler e ouvir "*Alguns de vós não esteve presente" (credo!) e "*Ainda que não tenhemos dados..." (salvo seja!), já espero tudo, no mal em que a língua anda.

      Atrocidades à visão e à audição, para o comum dos mortais.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Pano-Pão-Planeta

      São três "Ps" para a vida.

    Na padaria e pastelaria 'Pão Pepim', em Espinho, foi experimentada uma receita de pão para a Semana Europeia dos Resíduos (18 a 26 de novembro).
     No decurso da semana, um pequeno gesto contribui para uma grande causa: um saco de pano faz a diferença.

Campanha da Pão Pepim e do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (foto VO)

      Hoje, depois de tomar um cafezinho, à hora do pagamento, os olhos pousam num "RollUp". Da grande mensagem ao pequeno pormenor, vê-se quem participa na causa.
    Lida a mensagem, levado o saco de pano, comprado o pão, fica o dever cumprido pela sustentabilidade do planeta.

      Leva-se o pano, compra-se o pão; alimenta-se o Homem, poupa-se (n)o planeta.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Conjugações pronominais (e outras coisas mais)... no seu pior.

        Pasmo com alguns documentos oficiais (pois quanto aos que não o são...)

     De erros e pontapés na gramática estão os media cheios, bem como alguns falantes da língua, mesmo o intitulado 'Bom Português', que, por vezes, deixa muito a desejar.
       Com documentos oficiais, a questão torna-se bem mais grave, assumo. Assim o penso sempre que me cruzo com pérolas (asneiras) deste tipo:

Da língua mal dirigida na educação, ainda por cima quando vem da Direção-Geral!

    E tenho eu que ler isto, quando ensinava que, na conjugação / construção pronominal, os verbos terminados em 's' perdiam esta consoante em contexto de sequência de pronome pessoal átono:

       Encontramos + nos > ENCONTRAMO-NOS
       Fizemos + o (trabalho) > FIZEMO-LO
       Deténs + o (juízo necessário) > DETÉM-LO
       Lavais + vos > LAVAI-VOS
       Convidamos + vos > CONVIDAMO-VOS

     E quando dizia que uma vírgula não separa o complemento do seu verbo, no predicado. Se ainda fosse com duas (uma depois de " a participar e a divulgar" mais aquela colocada antes de "o desafio"), tudo estaria bem, com o encaixe da sequência "..., junto de todos... Escola Não Agrupada,..." entre vírgulas (uma antes e outra depois, para haver encaixe e não ter uma vírgula a separar o núcleo verbal dos seus complementos). 
     E, como não há duas sem três, que dizer daquele apontamento final "Toda a informação e regulamento disponível"!!! A informação (disponível) e o regulamento (disponível) não estarão para uma coordenação nominal com concordância no plural ("Toda a informação e regulamento disponíveis...")?!

     Vai mal a língua ou o conhecimento dela (que tende para o desconhecimento). Como irá a educação que dela e nela se dá?!

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Gaivotas em terra

      Ei-las todas alinhadas ao sabor do vento (que não muda nem para).

    Assim as encontrei, ao sair de casa, plantadas na relva que ladeia o "mamarracho" cá do sítio.

Gaivotas em terra... de Espinho (Foto VO)

     Lá diz o povo: "Gaivotas em terra, tempestade no mar". Sim, este anda muito agitado, altivo, tal como o mundo. Até as aves marinhas procuram repouso à espera de melhores dias. Acrescente-se, contudo, que as expressões idiomáticas e os provérbios são frequentemente redutores e culturalmente relativos. Isto é evidente quando na terra a acalmia é só para alguns e a agitação também não é para todos.
    Não é ocasião para lembrar que "uma gaivota voava, voava" (lá chegará!). É momento para deixar a tempestade amainar. Há tempos assim. Deixá-los passar. Hão de mudar.
     Gostava de ser uma destas gaivotas, em sossego. Ter tempo para reler Gaivotas em Terra, obra que David Mourão-Ferreira produziu na estreia da sua ficção narrativa (1959) e com a qual foi galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa. Há nela uma novela intitulada "E aos costumes disse nada" (adaptada, em 1982, ao cinema como "Sem Sombra de Pecado", por José Fonseca e Costa), com um toque de escrita a lembrar prosa queirosiana, um retrato de época e de um país com muitas "tempestades":

       "E os tempos iam maus: quase toda a Europa estava em guerra, quase todo o mundo estava em guerra. Dos meus camaradas do COM, a maior parte tinha sido destacada para os Açores: alguns outros para lôbregas unidades fronteiriças. Eu - talvez graças a influências do meu pai - fora dos raros privilegiados a ficar numa guarnição de Lisboa." 
in "E aos costumes disse nada", de Gaivotas em Terra, Presença, [1959] 1998

     Neste segmento narrativo convergem várias metáforas: as da família, do quartel, da cidade, da guerra (e da sua linguagem), da terra a conviver com o grotesco, com a máscara, com uma formalidade aparente; a contrastar com a antítese e a duplicidade de comportamentos. Transparece uma sociedade que pouco tem de liberdade, na teia do "ser" e do "parecer", à espera de uma outra "tempestade", mais libertadora e geradora de condições de vida mais dignas.
     Pensamentos e reflexões feitos de uma atualidade que cansa (porque há quem teime em não aprender ou se renda ao que não é dever nem poder).
       
      Não sei se estas são as gaivotas que voam, que aspiram ao alto, à mudança; parece-me que não trazem "o céu de Lisboa". Andam mais perto, ameaçadoras. Talvez em qualquer lugar, a qualquer instante, espalhando excrementos corrosivos que importa limpar de imediato (como a "cegueira", as invejas e outros males do mundo). Com Zeca Afonso, o digo: "não há só gaivotas em terra quando um Homem se põe a pensar".

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Vai uma "ghost house"?

      Não se confunda com "guest house".

     O dia é de Halloween, mas não é feriado para ninguém (é de trabalho, trabalho,... e mais trabalho). Nem com feitiços isto lá vai! De bruxas, nada - já não as há como antigamente, que eram mais "descaradas", menos dissimuladas!
       Por isso, com "trick or treat", fiquemos pelo "treat" e uma "ghost house" (melhor, duas). Com a crise da habitação em Portugal, não há como explorar alternativas (que não prejudiquem).

"Ghost House": uma doçura de Halloween vinda diretamente da Pepim (Foto VO)

       Venha o chazinho (de limonete) e viva-se a "doçura" sem travessuras.
       Há quem veja neste dia o antípoda do seguinte:

Comparações falíveis, com dias sem luz, sem vida e sem o princípio da eternidade

       Antes fosse assim! A referencialidade histórica do dia de amanhã em nada se mostra positiva pelo que foi tragicamente vivido, corria o ano 1755 - um dia de má memória.

       Façamos nós os dias ou alguns momentos destes ao prazer de todos, porque, para tragédias, já basta as que existem no mundo e parecem não ter fim.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Dois anos depois

       Há quem lembre a obra feita.

       Uma grandiosa, outra inspirada e inspiradora, uma terceira que delas foi leitor.
       Correndo pelo Facebook, (re)encontro-me com o tempo e as lembranças:

Um apontamento do "Farol das Letras" no Facebook (com agradecimento ao MM)

       Passaram dois anos (quem diria!) de um dia feliz. Outros houve (os imediatamente anteriores) dedicados à leitura, à escrita e à amizade. Revejo o escrito, que resultou de um desafio enorme; que ousei aceitar e produzir, na senda de uma figura intelectual grandiosa, de uma profecia ansiada e da explicação de um império a realizar; que procurei fazer corresponder à confiança depositada e à consciência de uma responsabilidade assumida na força da fraterna amizade e identidade

       Na base, o pensamento e a obra de uma personalidade; no motivo, a ficção partilhada em espírito de fraternidade; na apresentação, um adjetivo exagerado (diria) para uma reconhecida e vivida realidade. Sem perdição.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Um pensador... com sangue português.

       Fecha-se a leitura de um romance de escrita nacional.

     Abre-se o conhecimento a uma personalidade seiscentista que os séculos teimam em não desvelar a larga escala. É ela a protagonista da narrativa, do início ao fim (da infância à morte).
      Assim termina o romance:

      "As ideias que deixara registadas em papel, as ideias que plantara no espírito de tantos e tantos homens, essas ideias ficariam, floresceriam, perdurariam e espalhar-se-iam por toda a humanidade. Ele morria, mas viveria nelas. Desaparecia como homem, é certo, mas o seu espírito eram as suas ideias, e se essas sobreviviam então ele de certo modo também sobreviveria, e o que era isso senão a verdadeira imortalidade?"

        Palavras para um denominador comum: Bento de Espinosa. 
    Criado na comunidade luso-judaica de Amesterdão, depois de a família ter abandonado Portugal pela ação da Inquisição, Espinosa veio a desenvolver ideias altamente controversas a respeito da autenticidade da Bíblia Hebraica e da natureza do Divino, podendo afirmar-se que foi uma racionalista muito além da dominante cartesiana da época, se não, no limite, um panteísta, ao tomar Deus pela natureza, não os diferenciando: "Se o mundo é regido por leis naturais e tudo o que ele contém é natural, então Deus é natural." (pág. 504)
       Eis um filósofo que José Rodrigues dos Santos nos dá a conhecer em O Segredo de Espinosa, obra ficcional narrativa, publicada neste ano de 2023 e inspirada em acontecimentos verídicos feitos de perseguição, de busca de verdade, de pensamento teológico, político e ético sustentado no racionalismo  do século XVII, com ingredientes que ultrapassaram o modelo de Descartes e cativaram todos os que estavam para lá do convencionalismo do tempo, ainda que de liberalismo conturbado.

        Há um tanto de Espinosa no heterónimo pessoano Caeiro, o "guardador de rebanhos" que joga com o conceito do pensador. Também o primeiro o foi, enquanto um dos grandes filósofos de todos os tempos para o autor e jornalista português. Na opinião deste, três povos podem reclamar Espinosa como um dos seus maiores: o neerlandês, o judeu e o português.

sábado, 21 de outubro de 2023

Qual é maior?

    É o que dá caminhar.

    Encontram-se pormenores que importa registar. No dizer de alguns chega a fazer-se do longe perto, nessa vontade que é a de estar mais próximo do mar.

Duas capelas sobre rochedos e areais (Foto VO)

    Aqui está o "Senhor da Pedra" tão à mão que os olhos dizem estar "muito perfeitinho, até no tamanho."
    É assim a ilusão no que se vê e no que se diz.
    Dita a razão que não há qualquer confusão: o que se ouve (dizer) outros olhos não se deixam enganar. Lá longe, mais próximo do mar, há areia, rocha, pedra bem mais real, com tamanhos que não cabem numa maquete exposta pelo município junto dos transeuntes.

    Continue-se a caminhada, enquanto o parco sol deixa e a iminente chuva não se faz sentir.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

(Inter)Pessoal, local e nacional

     Começou o dia com uma saudação.

    A caminho de uma reunião de trabalho, após um café, cruzo-me com uma pessoa conhecida que me saúda com o generoso "Bom dia!" e a questão retórica (já que o andamento é apressado, sem espaço para haver resposta prolongada) "Como vai?"
   Saiu um "Vamos andando, obrigado", por um lado, a corresponder literalmente à situação (já que ambos os dialogantes continuam efetivamente em movimento, a passo largo, criando distância face ao que as breves palavras momentaneamente quiseram encurtar, sem grande sucesso); por outro, a cumprir uma resposta cortês e tradutora de um estado de alma, no momento, sem angústias nem euforias.
   Uns passos adiante, o discurso pessoal comungado, partilhado com a conterrânea revê-se, entretanto, no espaço público da praça:

Toca a levar o barco, na rede que a vida tece - I (Foto VO)

      E o que se lê a nível local, numa perspetiva outra, acaba por se expandir para o espírito nacional:

Toca a levar o barco, na rede que a vida tece - II (Foto VO)

      Nem bem nem mal! Às vezes melhor, outras vezes nem por isso.
    Sobrevivamos a cada dia, afastados das guerras mortíferas que o mundo tem. De outras não nos livramos, mas destas saibamos doseá-las com as forças do entendimento e, se possível, com respostas efetivas à resolução dos problemas, para que todos passemos da retórica à [comunic]ação prática.

    Terminou o dia com uma reflexão, procurando razão para novo acordar. Toca a descansar, que amanhã há mais vida para quem desperte do sono e se queira alimentar de sonho.

domingo, 8 de outubro de 2023

Escuridão... que não deixa ver!

       Diz-se torta, apesar de parecer estar "direitinha".

      Num jogo das palavras, algo se apresenta como escuro; porém, ou talvez por isso, não se dá a ver, não pela escuridão, mas por uma outra razão: a visão "viu-se" comprometida na grafia e na sua correção.

Uma torta "viu-se" negra (com agradecimento à HV, pela imagem)

       De volta à grafia com 'ss' e sua confusão com '-se'. Também não é com doçuras que se resolve o problema.
      Bastava colocar o texto na negativa ("não SE viu") ou fazê-lo anteceder de 'que' (QUE não SE viu") para se verificar que o pronome '-se' não aglutina ortograficamente à base do verbo.

      Convenhamos que há tortas que se tornam indigestas. Mais do que queimadas, tostadas ou escuras, cheiram a esturro quando a escrita a propósito delas, esta sim, se revela mais do que "torta".

sábado, 7 de outubro de 2023

Impérios de Guerra (que não são o quinto, definitiva e infelizmente)

      Após o início declarado de mais um conflito na Humanidade.

      A Organização das Nações Unidas (ONU) aponta cerca de 9.700 civis mortos na Ucrânia desde a invasão russa há 21 meses. Hoje, dia 7 de outubro, dá-se mais um passo para repetir o apontamento numa outra guerra, já com muitas histórias e muita perda de vidas.
    A Guerra Israel - Hamas (re)iniciada tem contornos tão intensamente violentos que todos já deviam saber a História e ter aprendido a lição maior: poupar vidas, particularmente a do Homem comum (que somos todos)! Qualquer guerra, em qualquer tempo, ponto geográfico ou na base de qualquer credo (religioso ou outro), é o maior ladrão de vidas. E quem a promove, provoca, perpetra sabe-o, num altar de poder que não considera o sentido prático e comum do que é sofrer. Está(ão) aqui o(s) maior(es) ladrão(ões)

Império de Trevas (ou como o peixe grande e assombroso da guerra se alimenta dos mais pequenos)

      No capítulo V do Sermão do Bom Ladrão, proferido em 1655, na Misericórdia de Lisboa (quando o queria ter feito na Capela Real), Padre António Vieira lembra o seguinte:

    “Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: - Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. - Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes?”  

      Nem quatrocentos anos (e pelos vistos não são muitos!) para se continuar a ler tão atuais palavras, que referem cadeias de ladrões tão diferentes e constantes no crime maior à Humanidade. A evolução, se a houve, parece ter ficado na subtileza do furto... que deu frutos. Se Adão se fez ladrão recebeu o inferno; mas há ladrões maiores que, por não serem ou não se acharem Adões, conseguem chegar ou andar pelo(s)paraíso(s) - para além dos fiscais, os de uma Terra que não é de todos (ou que será mais de uns do que de outros).
     Continuo com o exemplo inspirado(r) do “Pai Grande” - ou Payassu, como os índios o designavam -, dos primeiros a reconhecer um sentido de justiça argumentativamente apurado, também o valor da diferença, da tolerância entre os homens e no que os define; e ainda a defesa da miscigenação dos idiomas, numa legitimação tanto do culto "pulcro" como dos registos comuns do "belo" ou do "bonito", para não falar das sonoridades escutadas em todas as cores da sua ação missionária. A aproximação fazia-se também, então, a um Quinto Império (com um Papa "angelicus" e um imperador cristão), abraçando judeus, cristãos, muçulmanos numa espécie de paraíso, a construir em vida entre os homens e não a doutrinar como prémio a alcançar depois da morte (atualidade tão inquestionável).

       É preciso focar a causa e não o efeito. Tem de ser um português a relembrar tal, desde há séculos até ao presente, numa voz que recorde o valor do "abraço"? A cultura da paz é construção de valor difícil, quando devia ser escolha maior de todos os humanos, aproximando-os na comunicação, na comunhão, na união contra o que o ameaça (e não da perdição). Afinal, citando Steinbeck, toda a guerra é um sintoma do fracasso do homem (melhor, de alguns deles) enquanto ser pensante.
 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Dia do Professor

     Em dia feriado, por razões republicanas, bem que o poderia (também) ser por outros motivos. 

     Somos país, língua e cultura a celebrar singularmente, com feriado, um poeta no calendário; lembrar (mais) um outro dia é o mínimo para quem está na base de formação de tantos profissionais importantes para o mundo e para a vida.
      São  muitas razões a celebrar:

Porque somos um entre muitos
Porque transportamos uma vida que comungamos
Porque nos aproximamos de quem (nos) procura
Porque exploramos possibilidades, oportunidades, modos de incluir
Porque repetimos, persistimos, insistimos
Porque (re)construímos e partilhamos conhecimentos tão diversos
Porque convocamos mundos para vários saberes do universo
Porque abrimos caminhos de (re)descoberta
Porque damos palavra a quem quer aprender
Porque testemunhamos empatia
Porque gerimos vontades
Porque inspiramos muitos, pelo saber e com o sabor dos afetos
Porque procuramos sorrisos em horas de angústia e desespero
Porque se faz da luta esperança, mesmo que não se instaure a mudança
Porque comunicamos o que nem sempre se quer ouvir
Porque vemos pontes a ligar margens e a superar obstáculos
Porque sonhamos e lidamos com os sonhos de tantos
Porque gostamos do que somos

Porque é o nosso dia

Porque somos professores

Um dia para lembrar e celebrar, por variadíssimas razões (imagem adaptada)

    Celebre-se a República (implantada), até o 25 de novembro (que alguém quer marcar como consolidação da democracia e da liberdade, na complementaridade do 25 de abril); brinde-se a quem faz anos em data tão relevante; lembre-se e festeje-se o Professor que, ao longo dos tempos e independentemente de regimes, tem feito, faz e fará a diferença na vida de todos. (Alguns o fizeram, e muito, em mim). Bom feriado.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Fatalidades: do filme ao erro

       No pouco tempo de que disponho, deixei-me levar por um filme...

      Já não me lembro do título nem do canal televisivo que o difundiu - por certo um dos TVCine. Era um daqueles que apelam à simpatia por um casal que tudo faz para salvar a filha de uma doença fatídica e que, à última hora, vê um milagre acontecer. Antes assim, para o final feliz do enredo e dos espectadores que se reveem nos sinais de esperança.
        Felicidade, contudo, não existe quando se lê, nas legendas, o seguinte:

Legenda fatídica em filme de esperança (quanto à língua...!)

       É fatídica a confusão da grafia '-se' e da sequência 'V[ogal]sse'. Caso para dizer que não há crença que resista já ao pretérito imperfeito do conjuntivo, escrito com esta última sequência e não com a primeira (hifenizada). A construção "se não cresse" (à semelhança de outras: "se não acreditasse, se não fizesse, se não tivesse, se não fosse...") não tem qualquer hífen a separar a forma verbal de base da sua terminação com a amálgama do modo-tempo-pessoa-número.

    A felicidade (ficcional) da personagem não tem associação possível ao mal-estar (factual) do espectador que vê a língua tão erradamente tratada na sua grafia.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Um tesourinho (com multiplicação de letras)

       Assim, mo foi apresentado: um tesourinho para a carruagem.

     Há leitores(as) atentos(as) e que vão partilhando, à semelhança do que aqui faço, os seus encontros com o mau exemplo da escrita televisiva.
       Este tem o seu requinte:

Um descanso nada repousante (com agradecimento à IP, pela partilha)

     Entre a escrita correta do duplo 's' na terminação verbal do imperfeito do conjuntivo e o erro do duplo 's' na palavra base, resta pensar que foi a preocupação na sílaba final que se estendeu, por antecipação, à penúltima. Nem 'cans(aç)o nem descanso admitem a grafia que a legenda televisiva dá a ler. A simples estratégia da família de palavras assim o dita (descansar, descanso, descansado, descansasse).

     Por mais que o cansaço seja sentido e experienciado, não é pela multiplicação de 's' que o descanso se torna a recuperação desejada. Na escrita da palavra não o é, garantidamente.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

A tripla faceta do plural numa só palavra

      Numa breve passagem pelo Facebook, relembrei o plural de 'ancião'.

      Numa imagem simples, lia-se:

Variação morfológica no contraste de número

      Uma palavra com três plurais possíveis - muita variação morfológica, diria. O mesmo acontece com 'alão', 'aldeão', 'ermitão', 'sultão', mesmo que, correntemente, a preferência dos falantes vá para a terminação em 'ões'.
     Algumas outras há que admitem apenas duas formas (em 'ães' e 'ões', como é o caso de 'alazão', 'deão', 'rufião', 'truão'; em 'ãos' e 'ões', como 'anão', 'castelão', 'corrimão', 'hortelão', 'verão' e 'vilão'; em 'ães' e 'ãos', como em 'refrão'), ainda que, a par da tese etimológica de formação destes plurais (recorrendo ao latim) ocorra uma outra que a consciência dos falantes assume como mais sincrónica e menos diacrónica, liberta da consciência etimológica que muitos perde(ra)m.

      Já de outros exemplos não vale a pena escrever, agora; já foram denunciados como o que não se deve ler nem ouvir

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Nem joker nem póquer

       Assistir a concursos televisivos nem sempre se revela um ato muito instrutivo ou esclarecedor.

   Assim o escrevo por, na emissão de hoje do Joker (na RTP1), não ter encontrado informação completamente correta nem título de obra adequado. Nada incomum!
     Sempre aprendi que, na escrita manual, os títulos de livros se sublinham (ou se colocam em itálico, na redação digital); aspas são para títulos de partes / segmentos dos mesmos (por exemplo, subtítulos, episódios, capítulos, entre outros). Consequentemente, Os Maias é um romance queirosiano onde se encontra o "Episódio do Hotel Central" ou, então, Amor de Perdição é uma novela camiliana composta por vinte capítulos, além da "Introdução" e da "Conclusão".
        Pior do que isto é errar o próprio título, conforme se lê na foto seguinte:

Estamos a precisar de ler melhor Os Lusíadas, certo? (Foto VO)

      Camões escreveu Os Lusíadas (com o determinante a integrar o título) e, portanto, não se pode referenciar a epopeia quinhentista como "Lusíadas", mas, sim, "Os Lusíadas", se com aspas se quer sinalizar o título.
     Quando se deveria ter escrito que, em "Os Lusíadas" (sem aglutinação da preposição 'em' e do determinante 'os'), há um deus que se opõe à navegação dos portugueses, já agora registe-se que este último não foi o único. Só o terá sido no universo dos quatro deuses mencionados na questão lançada ou no destaque que, no Canto I, no "Consílio dos Deuses do Olimpo" se dá à voz de um, apesar de o narrador explicitar a dissonância "Quando os Deuses, por ordem respondendo / Na sentença um do outro difiria" (I - 30, vv 2-3). Prova maior da falha do "único" está uns cantos mais adiante: acrescente-se a Baco (protagonista da oponência à causa lusa) o deus Neptuno, Éolo e outras divindades marinhas que, no episódio da "Tempestade" (canto VI), convergem na decisão de dificultar a vida aos nautas, antes de estes cumprirem o objetivo de chegar à Índia.

       Em suma, leia-se melhor a obra épica camoniana e daí decorra, no mínimo, a capacidade de identificar convenientemente o título e a de não tirar conclusões apressadas e inconsistentes.