sexta-feira, 23 de setembro de 2022

A fuga das... sílabas e dos sons (e outras coisas mais)

     Não se trata de um título de filme, mas foi um filme!

    Passada na televisão, uma nota da Presidência da República dava a ler uma fuga de informação de dados - nada que não possa a acontecer ao comum mortal que lida com dados sensíveis e os tenha armazenados numa base de dados que, inadvertida e inconscientemente, acabe "nas bocas do mundo" (lamentavelmente naquelas que mais berram aos quatro ventos).
      Pelos vistos, muito mais coisas há a fugir. Até sons e sílabas:

Uma nota de alguém que preside e, no caso, é o Presidente (foto VO)

    Verdade que o Presidente da República preside (verbo); presidente (nome), porém, tem mais sons graficamente representados (a nasalidade) e sílabas. Não é pelo tamanho que se define a qualidade do cargo, mas quem tem direito às sílabas e aos sons todos, assim seja. 
    Sei que muitas vezes já lemos o que não escrevemos; que a pressa é inimiga da perfeição. O imediato é tantas vezes vendido como fácil e eficaz que chega a assustar a facilidade que não resulta. Restam, portanto, a comunicação e a atenção como ingredientes necessários à correção. 
    E, já agora, além dos sons e das sílabas, repare-se a construção "devida a", mais a falta de uma vírgulazita aqui ou ali nos locais devidos (por ali depois do segundo travessão, por exemplo). Esta nota, por todas as razões, merecia outro(s) cuidado(s).

      No caso, talvez fosse suficiente a informação oral, para que a nota da presidência não fosse objeto de uma visibilidade pública com tanta confusão. São fugas, senhores!

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Acerca do outono

    Perguntavam há dias de onde vinha o outono.

    Não se trata do 'onde' locativo, mas da origem etimológica. O latino 'autumnus, -i' dita a formação do adjetivo 'autunal', também proveniente do 'autumnalis, -e', como tudo o que é relativo ao outono.
    E então: é autunal, outonal ou outoniço? 
    Valem os três. O primeiro mais próximo do étimo latino; o segundo com algumas evoluções fonéticas assimilativas em pontos articulatórios vocálicos [+altos]; o terceiro decorrente de um processo morfológico cuja base derivante nominal ('outono') é acrescida de um sufixo que, no português, tem a produtividade significativa de referir aquilo 'que nasce em' (outoniço < nasce no outono); aquilo que indica facilidade ou tendência para (fronteiriço < próximo ou tendente para a fronteira; esquecidiço < tendência para ser esquecido; inverniço < tendência para inverno; reboliço < facilidade para rebolar; gadiço < facilidade para ser domado como gado).

Colorido outoniço com o "intenso colorista"

  Em termos de significado, o outono é polivalente: refere-se à estação do ano, à transição / transitoriedade / mudança / viagem dos ciclos, à época das colheitas, ao tempo da gratidão, ao equilíbrio e descanso terrenos, à reflexão e introspeção, à despedida, à aproximação da velhice, à decadência.

    Viva-se o outono, cumpra-se o ciclo e enriqueça-se o tempo com a variedade dourada das cores outoniças.

sábado, 13 de agosto de 2022

Um dia depois...

      Porque é agosto, é dia de sol, ...

     Porque a seguir a um dia vem outro e há quem esteja já para lá do tempo (que passa sempre). É o caso de Miguel Torga.

               MÁGOA

Medas de trigo ao sol - Agosto,
Tudo o calor do Sonho amadurece;
Só a verdade amargura do meu rosto
Permanece!

Até me lembro que não sou da vida!
Que não pertence à terra esta tristeza…
Que sou qualquer desgraça acontecida
Fora do seio mãe da natureza.

E contudo não sei de criatura
Que mais deseje ter esta alegria
De um fruto azedo que arrancou doçura
Do céu, das pedras e da luz do dia.
.
Leiria, 11 de Agosto de 1940.
in Diário I

     Sem mágoa(s), sem medas de trigo, sem querer ser "desgraça acontecida", há a consciência do que possa fazer ensombrar e perigar esta vida; mas há também palavras a combinar e a criar alguma da magia que só os eleitos conseguem trazer à escrita poética, como que peneirando, do pó da terra, o ouro vital que a ela nos liga.
     Nos grãos de areia que caem no relógio, há tempo para que a poesia dos versos torguianos adoce o dia - o de hoje e o do futuro.

    Porque ontem foi mais um dia para o celebrar e hoje, e sempre, faz sentido (re)lembrar.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

"Uma aventura" junto à praia

      Chegando ou saindo da praia...

     Há uma barraquinha junto à entrada da Praia / Bar do 37, em Espinho, à espera que uma mãozinha abra a porta e escolha um livro. Para todos os gostos e vontades, o convite ao "mergulho" é feito:

Uma aventura pela leitura

      Em tempo de calor, qual gelado apetecido, abre-se a porta (que mais parece de uma arca frigorífica) para um "self service" de livro(s) à espera de ser(em) lido(s).
      Podia ser deixado no assento de um transporte público, num banco, no areal, numa mesada de esplanada... Fica a sugestão de uma barraca refrescante, mesmo à mão e aos olhos dos transeuntes. Um acesso facilitado para leitores potenciais que, no meio da parafernália que possam levar para a praia, se tenham esquecido desse bem que nos alimenta e refresca a mente.

      ... é tempo de leitura, quando as férias convidam à aventura.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Erros (muito) reais

       Seja porque eles existem seja porque se referem à realeza.

      Naquele momento em que se folheia daquelas revistas que nada trazem senão o alheamento desejado face ao mundo em que vivemos, e apetece mesmo desfolhá-las (agora, sim, termo intencionalmente usado no verdadeiro significado da palavra); ou quando os olhos passam por um monitor e apetece eliminar o registo de uma daquelas notícias que nada trazem de sério ao mundo (daí a designação da "silly season", que mais se ajusta aos "silly writers"):

Um vestido que não cumpre o estatuto da realeza, pela falta de "comprimento".

       Lá está: o vestido não cumpre o objetivo para que foi feito. Estaria aí o cumprimento irreverente (ou melhor, o incumprimento). No que toca a ser curto, a conversa é outra. É a que respeita a tamanhos, medidas. Centra-se na questão do comprimento (pois... com 'o').
     A paronímia (estudada como caso de relação lexical) devia andar de mãos dadas com o ensino dos casos críticos de ortografia, para que ninguém ousasse escrever o que foi publicado para milhares de olhos poderem ler.

     Isto de confundir 'comprimento' com 'cumprimento' não dá razão para saudação; motiva, sim, a aplicação de medidas de correção (bem necessárias a julgar pela frequência no erro cometido).

domingo, 7 de agosto de 2022

O elogio (que foi o) de ser filho da mãe

      As palavras têm muito que se lhe diga... e muito para contar.

    Nem tudo o que parece é, por certo. Se o que é tomado por insulto começou por ser elogio, razões houve para que o uso assim o determinasse.
    Conta-o e esclarece-o Sérgio Luís de Carvalho, na base do aconselhamento de um livro (Elogio da Palavra, de Lamberto Maffei) e na explicação que dá a propósito da expressão "filho da mãe":

História do Filho da Mãe (ou de como do elogio se faz insulto)

    Quem diria que, não obstante a condição de bastardia, estaríamos a referenciar relações em que realeza e espiritualidade se cruzaram. Longe desses universos (dos tempos de D. João V e das suas  frequentes paixões freiráticas), atualmente estamos mais para a expressão do insulto, do ofensivo (que uns focam no filho e outros na mãe, para não falar nos que se sentem ofendidos por ela e por si mesmos, alegando ainda assim a defesa apenas da primeira). Um outro claro caso de deriva, variação, evolução na língua, portanto.

      Prova de que as palavras, em particular, e a língua, em geral, são fruto da circunstância de quem a(s) usa, a quem a(s) dirige, quando e onde a(s) utiliza, com a intenção visada. Fale-se de pragmática e, inclusivamente, de pragmática histórica, marcando a variação temporal dos usos.

sábado, 6 de agosto de 2022

Triste dia, o de ontem, para a poesia

      À hora da morte, há quem diga que se vai para o céu. Que céu é este?!

    Não sei se sim ou se não. Sei que os olhos perdem quem para lá tenha ido (mesmo que, por vezes, ilusoriamente, haja uns laivos de reencontros impossíveis). A memória procura contrariar a perda, mesmo que a representação feita esteja mais para uma construção subjetiva do que para a realidade objetiva que (se) foi.
   Ana Luísa Amaral, reconhecido nome nacional da poesia contemporânea, revelou--se apaixonada pela expressão poética, pela língua, pela palavra, num trabalho que encarou como "amor, angústia e necessidade". Recebeu o Prémio Rainha Sofia, em 2021, que lhe foi atribuído pelo Património Nacional de Espanha e pela Universidade de Salamanca, com o qual fica notabilizada junto de nomes da língua portuguesa como João Cabral de Melo Neto (1994), Sophia de Mello Breyner Andresen (2003), Nuno Júdice (2013), a par de muitos outros grandes autores da tradição e cultura iberoamericanas.
        No seu percurso poético, iniciado com "Terra de Ninguém" (primeiro poema do seu primeiro livro - Minha Senhora de quê, publicado em 1990), há uma possível resposta para o entendimento do que é um "céu":

Um Céu e Nada Mais

Um céu e nada mais — que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
neram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

                                                              in Às vezes o Paraíso (1998)

      Eis um "céu" que nos mostra que não somos ninguém ou que somos (apenas) o que podemos ser; um "céu" de que, entre o nível do quotidiano e o cósmico, se compõe a afirmação do real mais a negação do que esteja / seja mais do que simples "amor". 
      Cruzada esta mensagem com "Soneto científico a fingir" (in E muitos os caminhos, de 1995), este é, afinal, um "céu" que dá mote ao amor, a esse tema que, desviado, não deixa de posicionar o ser humano na condição que verdadeiramente o dignifica. Ou seja, estamos perante "um céu e nada mais" que pode ser tudo, numa leitura subversiva da negação, instaurada nos versos, mas (a)firmada na posição das possibilidades, do poder ser.

Um breve roteiro pela obra poética de Ana Luísa Amaral (1956-2022)

      Cruzei-me com a professora nas salas da antiga Faculdade de Letras da Universidade do Porto e na expressão da poesia romântica em língua inglesa, por ela ensinada e convocada nas relações interartísticas e intertextuais que o mundo traduz; que aquele que a escreve faz representar; que o tempo (re)compõe e nela se atravessa, quando é grande.
     Aos 33 anos, viu publicada a sua primeira obra; aos 66 partiu, ontem, desta vida terrena, com muitas publicações e estudos que ficam para nós, numa comunhão / comunicação feitas de humanidade e genuinidade - no fundo, ensinamentos que dão sentido à existência, apartados de tudo o que se mostre impertinente ou ferino.
   Foi para o "céu"? Deixou-nos um "céu": o do pensamento; o das línguas, culturas, letras e humanidades, que serviu em todos os sentidos; o do respeito pela igualdade e solidariedade sociais, enquanto exemplo e testemunho de empenho cívico, num "amor" tão pessoal quanto coletivo.

      Da literatura inglesa (e de expressão inglesa) à portuguesa - um caminho que também se faz de um "céu" comum, livre de fronteiras, e com uma poeta que revelou O Olhar Diagonal das Coisas (conforme no lo dá hoje a conhecer a Assírio&Alvim, numa compilação significativa e atualizada da sua obra poética).

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Abate dos pulmões... e dos lares

      Quando se fala de ambiente e de preservação do planeta, ...

     É frequente ouvir-se que a Amazónia é o pulmão do mundo. Na importância vital deste amplo espaço para o planeta, regista-se, porém, que a maior parte do oxigénio aí produzido é, desde logo, consumido pela própria floresta amazónica na respiração e na decomposição de animais e plantas. Outros pulmões são essenciais, bem mais dominantes - como os oceanos -, para um planeta tão vasto.
      Diga-se que cada gota está para o mar como cada folha ou ramo germinam da terra. Ambos se complementam e a ameaça de qualquer um deles compromete um equilíbrio necessário.
      Por isso, quando os tempos são incendiários e destruidores do ambiente, faz todo o sentido lembrar, com imagens críticas, o relevo do que se perde:

Era(m) só (de) um mundo mais purificado... Era(m)!

     Cada árvore abatida é um lar destruído, um perigo planetário a aniquilar a sobrevivência dos seres vivos.

      ... fala-se do pulmão que nos ajuda a respirar, mas é bom que não nos esqueçamos do nosso grande lar.

domingo, 19 de junho de 2022

Fatiga, fadiga... que cansaço!

       Tempos de canseira.

      Perguntavam-me há dias se o nome associado a quem anda fatigado é fadiga ou fatiga. Respondo que são os dois (e para quem anda cansado é questão que já pouco interessa). Digam ou escrevam como quiserem.
        Claro que o mais habitual é falar ou ler sobre "FADIGA" (mesmo que o adjetivo esteja mais para 't' do que para 'd' - fatigado). Dizer-se 'fadigado' não é impossível, até pela derivação que decorre de 'fadiga' (nome) e 'fadigar' (verbo), isto é, causar ou sentir fadiga ou cansaço; logo, o 'fadigado' torna-se mais do que compreensível.
          Fatigado está mais para o sentido etimológico, que atesta o verbo latino 'fatigare' e o nome 'fatigo'.
     Entre 't' ou 'd' direi que o primeiro está mais para a origem; 'd' para a variação evolutiva, nomeadamente a sonorização que se evidencia na posição intervocálica de [t], com o som surdo lábiodental inicial a ganhar o traço sonoro por influência vocálica. Foi já o que analogamente sucedeu com totu(m) > todopotes > podes, na passagem do latim para o português, só para mencionar exemplos nos quais, também e pelo mesmo motivo, [t] evoluiu para [d]. 
         E, assim, 'fatiga' chega a 'fadiga'. Fica a primeira pela via erudita; vem a segunda por via popular. Reconhecida esta última, se ficarmos por aquela também não está mal. Explica-se, portanto, a possibilidade do apontamento lido nos destaques noticiosos da Microsoft Edge:

Colhido do Microsoft Edge, em "Notícias ao Minuto"

         Com ou sem Boris Johnson, é um dado que a guerra Rússia-Ucrânia já cansa. Bastariam Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky para nos atormentar a mente com o conflito que a todos aflige. Vem também o primeiro ministro britânico contribuir, com a citação feita, para o desalento, afadigando o espírito com sinais dos perigos que não dão esperança.

      Fadiga ou fatiga, o tempo é declaradamente, e por vários motivos, de cansaços (lembrando Campos e "Sobretudo cansaço").

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Rumo ao mar

      Comemorando o Dia da Escola Azul.

     Ficam uns versinhos para a ocasião, quando céu e mar se tornaram mais azuis, na humanidade de um cordão com olhos postos no horizonte:

      Saíram da escola e das salas de aula,
      animados com uma bandeira na mão.
      Desceram a cidade, foram até ao mar,
      com vontade de formar um cordão.
 
Apontamentos de um dia frente ao mar em cordão humano (montagem vídeo - VO)

     Assim se resume a celebração do Dia Escola Azul, levada a cabo pelo Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, em parceria com o programa Escola Azul (Ministério do Mar), a Estação Náutica de Espinho e a Câmara Municipal. 
     O propósito de formar um cordão humano pelo Oceano permitiu juntar alunos, professores, famílias, entidades parceiras da comunidade local - uma rede que se pretende coesa no ato de educar e no propósito de alertar para o que mais nos tem de aproximar para haver futuro
   Ver o mar e sensibilizar para a importância da preservação ambiental e dos ecossistemas marítimos, enquanto património da humanidade e do bem comum, foram objetivos conseguidos, num dia que, abrilhantado pelo sol e pelo calor, convidou a população a juntar-se, a dar mão a uma causa conjunta.

     Porque o mar é origem de vida, este foi dia vivo, tomado dessa energia que torna o espírito livre e  dedicado a movimentos de preservação e sustentabilidade ambiental.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Quando um ou outro são ambos

        Aquele momento em que te perguntam se é X ou Y e...

    ... a resposta correta compreende os dois termos - situação em que o 'ou' não pode ser, portanto, disjuntivo ou de exclusão dos mesmos.

        Q: É 'parquímetro' ou 'parcómetro'?

      R: Ambos. Caso para dizer que "Venha o Diabo e escolha", que é sempre expressão para admissão de duas hipóteses num cenário de difícil resolução. Reconheça-se, nas palavras questionadas, um processo de composição, no qual a vogal de ligação ('í' ou 'ó') pode ser indiciadora ora de algum motivo etimológico na formação da palavra ora de alguma deriva associada à própria mudança e à utilização dos falantes da língua.
     Tipicamente a vogal de ligação é, nestes casos, uma pista do marcador casual na composição de palavras com radicais latinos ou do grego antigo. Justifica-se, assim, o recurso a duas vogais de ligação: 'o' e 'i'. A última remete para um radical da direita com origem latina e representa uma estrutura de modificação (sem alteração da classe de palavras):

           [fratr] i [cid]a
                                                   [agr] i [cultor]

        Já a primeira escapa à descrição anterior:

                                                   [polític] o [económic]o
                                                   [lus] o [brasileir]o

      Estas tendências generalizantes são, porém, contraditas por exemplos em que 'o' antecede radical de origem latina (ex.: [gen] [cíd]io), em confronto com '[reg] i [cíd]io') ou 'i' é seguido de radical de origem grega (ex.: [veloc] í [metr]o, em contraste com [flux] ó [metr]o).
    Além disto, casos há na língua em que uma mesma palavra composta admite ambas as vogais de ligação, conforme verificável nos seguintes casos: 'organigrama' / 'organograma'; 'parquímetro' / 'parcómetro'; 'taxinomia' / 'taxionomia'. Estes últimos pares de exemplos propõem, por um lado, alguma relativização da consciência etimológica dos falantes; por outro, a consideração de outras lógicas fundadas mais na frequência e na analogia da composição, em particular, e da formação de palavras, em geral.

     Conclusão: há perguntas que apontam para respostas bem complexas, em termos de informação morfológica. Mais inclusão do que exclusão; mais conjunção do que disjunção.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Dia Internacional / Mundial da Dança

      Entre os muitos que a consideram como a 4ª arte, para outros é a 6ª.

    Para lá da sequenciação numérica, importa que a dança é uma das expressões da humanidade a conjugar movimentação do corpo com ritmo, num compasso motivado de tempo e espaço. Entre impulsos nervosos e musculares, expressam-se sentimentos; anima-se o espírito, através de passos e gestos, num casamento musical que chega muitas vezes à dimensão da arte.
       É neste âmbito, geral, que o Dia Internacional ou Mundial da Dança é celebrado, há quarenta anos, neste dia, numa data criada pelo Comité Internacional da Dança (CID) da UNESCO, a propósito do nascimento de Jean-Georges Noverre - um dos grandes nomes mundiais da dança nascido em 1727.
 apelando a uma configuração da dança onde também cabem as que dão a imagem cultural de um povo,      Com as suas marcas mais ou menos codificadas em géneros diversificados e recorrentemente combinados (rituais e religiosos, mundanos e populares, guerreiros e de paz, de espetáculo), há danças para cobrir uma grande diversidade de situações - das danças da chuva às da sedução, bem como às do festejo dos eventos humanos,  numa universalidade de causas a todo o tempo convocadas. Desde logo, as do espírito,  as da alma da da busca de poder(es) que, na origem, também evocam o espetáculo, a dimensão do apelo e do mistério sagrado (seja este mais natural seja ele mais associado a entidades mais abstratas). 
     Do sapateado, volteio, balanço, genuflexão, contorção de peito e de cabeça, há uma linguagem, uma gramática da dança que não é estranha à expressão da vida (mesmo quando esta se compõe, também, pelo fim de ciclos).
     Na consciência da passagem do tempo, figuram aqui algumas sonoridades e passos de dança que nos acompanha(ra)m nas últimas décadas:

Estilos de dança contemporâneos ao som de músicas deste e do passado século.

      O escritor e teórico da arte francês oitocentista Charles Baudelaire, afirmou que "A dança consegue revelar tudo o que a música esconde misteriosamente, tendo mais mérito de ser humana e palpável. A dança é poesia com braços e pernas, é a matéria, graciosa e terrível, animada, embelezada pelo movimento". Se a literatura, nas suas origens, tem a expressão poética combinada com a música, desta à dança pouco falta - que o digam as bailias ou bailadas das cantigas de amigo trovadorescas.
       Claro que interessa "Dançar conforme a música" e descobrir que / se "Bem dança a quem a fortuna canta / a quem a fortuna faz som". E se há quem acrescente "Quem pode toca, quem não pode dança" ou "Como se toca, assim se dança", é de constatar que se está perante expressões ou enunciados paremiológicos a traduzir bem esta nossa" dança da vida".

       Numa variação ao "Quem canta seus males espanta", hoje recrio o provérbio "Quem dança muitos bens alcança" - o da animação e o de uma libertação salutar que sejam. 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Ainda o 25 de abril

      Diz-se "Em Análise".

      Pensando bem, talvez não estivesse longe da verdade (não a histórica, por certo):

Reescrita da História ou uma sílaba para um entendimento novo da revolução? (Foto AMT)

      A sílaba faz a diferença. A revolução é a dos cravos.
      A liberdade anunciou-se depois de décadas de ditadura - sim, um regime que se impôs e representou uma forma de escravatura. Portanto, entre cravos e escravos, ficam o símbolo e a metáfora: o da flor da libertação e da revolução; a da condição das vítimas que, na perseguição e na luta por direitos, viviam presas à ideologia fascista de então.

     Uma legenda que até faz sentido, não obstante a reação da intérprete da língua gestual (que, no exercício da tradução, até parece apanhada pela surpresa da legenda).

terça-feira, 26 de abril de 2022

Gestos simples para grandes causas

       Assim se evocam e marcam os dias.

      Ontem celebrou-se o 25 de abril. O dia seguinte, o de hoje, começou com poesia à porta: Zeca Afonso, Jorge de Sena.

Da poesia ao canto, afixados à porta (Foto VO)

      Prosseguiu-se, à hora de almoço, com a voz: ouvir poesia dita a um público atento, partilhando os valores da liberdade que se vivenciam e testemunham na causa pública que (n)os une. Foi o momento de Sophia, de Torga e de quem fez do verso base de expressão para um ideal lutado, conquistado e reafirmado.
     No regresso ao trabalho, na minha secretária, dois cravos vermelhos e uma pequena nota, em caligrafia cuidada, fizeram-me sorrir, libertaram-me de algumas tensões do dia; fizeram acreditar que vale a pena acreditar, apostar e correr o caminho da esperança e pelo bem que se traz à vida.
   Impõe-se agradecer a quem fez do 26 de abril continuação da celebração: ao 11º E pela presença, pela poesia e pela voz; à Joana Rocha e à Leonor Oliveira, do 11º L, pela procura, pela oferta e pelas flores verdes rubras; às professoras que fizeram recordar a liberdade de ontem como herança de hoje (a todo o tempo retomado), pelo exemplo e pelo empenho testemunhados. 
    Assim se revê e se (re)vê História e histórias que importa ter presente(s).

       Abril é para todos os dias que o Homem queira ver celebrado com as cores da liberdade.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Espírito novo (apesar do cinza)

     Há dias para tudo, nomeadamente para recriar versos (que já tiveram reversos).

     Com maior ou menor esperança, as palavras espelham um estado de espírito que, ora fechado, ora aberto, nem sempre traduz o que é celebrado. Valha o dia de sol claro, limpo, a convidar à festa da liberdade, da vida e, de novo, com esperança.

            ACINZENTADA MEMÓRIA

Monumento ao 25 de abril, Espinho (Foto VO)
Do cravo em pedra,
sem a rubra cor,
apagou-se o sangue,
secou o vigor?

Da revolução,
a memória fica,
lembrando a canção...,
o povo que grita...,

a arma a dar flor...
Renovado o tempo,
nascida a manhã,
no sopro do vento,

a sã liberdade
vive-se na cidade.

Em dia cinzento,
vejo um monumento:
voam as gaivotas
só no pensamento.

No duro betão,
há ondas de mar
plantadas no chão,
subidas ao ar.

Qual fénix em cinzas,
Esperança, vinhas...
Fica. A vida alindas.

     Hoje, mais do que a liberdade do dia, importa a esperança de sempre.

     Chamo-a, porque a caixa de Pandora não pode manter-se fechada.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Em vésperas do dia da liberdade

      Hoje foi dia para todos se mostrarem mais bonitos.

     Entre os que hesitaram e os que assumiram a ação libertadora, ficou a nota de que, após deliberação governamental e homologação presidencial, a partir de hoje, já não é obrigatório o uso de máscara nos estabelecimentos de ensino (https://dre.pt/dre/detalhe/decreto-lei/30-e-2022-182432341), segundo o decreto-lei publicado ontem em Diário da República.
    Desta forma, ficaram atestadas condições para se dispensar o uso de máscara no interior dos espaços escolares, não obstante a atenção e os cuidados que ainda interessa garantir face à persistência de algumas condições de infeção (agora consideradas reguláveis, bem diferentes das que vitimizaram muitos daqueles que sofreram o que alguém chamou de "uma gripezinha", em tempos que não o era).
    Têm sido crescentes os sinais de libertação, felizmente! O de hoje foi mais um para a ansiada retoma de uma normalidade a todo o tempo sujeita a avaliação e com a concessão geral que deve pautar comportamentos. Dois anos saturantes, limitadores, em que só os olhos revelavam emoções, passaram a dar lugar a rostos descobertos, ao reconhecimento do que Camões outrora chamou 'gesto' (doce e humilde). Que, hoje, os gestos (temporal e semanticamente distintos) sejam comedidos, para que os rostos se mantenham literalmente "desmascarados".
       Assim se recriou Banksy, a partir do que hoje se vive:

Banksy recriado (do coração desejado à máscara mal-amada)

      Deixá-la voar, essa máscara que não trouxe cor à vida - garantiu-a, é certo, salvaguardando todos de situações bem mais críticas. Que não seja ela o coração original que a menina parece querer agarrar. Bom seria que não retrocedêssemos! Saibamos reconquistar o bem perdido, sem comprometer cuidados que ainda se impõem.

      Possa ser este o passo, o gesto que nos traga alguma sanidade, com liberdade aliada a responsabilidade. Assim o rosto se mostre livre.

domingo, 17 de abril de 2022

Um grande ovo de Páscoa cracoviano

       Sucedem-se as Páscoas, ano após ano, e os ovos.

      Entre as várias explicações para o ovo e para o coelhinho da Páscoa (que não "foi com o Pai Natal, no comboio ao circo"), a multiplicidade dá para todos os gostos - os mais religiosos, tradicionais, simbólicos, culturais, regionais e até os mais fantasiosos.
       Encontrei uns bem artísticos em Cracóvia, no conhecido Mercado de Páscoa, realizado anualmente na praça central da Cidade Velha, Rynek Główny (praça principal de Kraków). Em cerca de dez dias, as festividades da Semana Santa concretizam-se na exposição de ovos gigantes decorados e na confeção das tradicionais "palms" artesanais de flores e plantas secas, para serem abençoadas no Domingo de Ramos - informações colhidas e vividas em memórias de viagens bem passadas. O colorido da praça é festivo. Os ovos, dispostos em vários pontos da praça, são atração visual assegurada, numa composição e num enfeite de versatilidade cromática notáveis.

Um ovo cracoviano à altura de um ser humano (Foto VO)

      A presença do ovo, desde a Antiguidade persa, traz consigo a perceção do símbolo do renascimento. De regiões como a Ucrânia (muito antes da chegada do cristianismo) ou a China, vem a leitura do alimento e da origem da vida - e, por extensão, da criação do mundo - até à comemoração do fim do inverno. Daí o entendimento do "Páscoa" como "passagem".
       Dos ovos de galinha (cozidos) pintados à mão (que persistem) aos de chocolate (mais recentes e comerciais), muitos séculos aprimoraram o que pôde ter sido a celebração de uma passagem mais familiar e doméstica até se chegar aos requintes da doçaria e pastelaria francesas, sem esquecer que Eduardo I de Inglaterra banhava ovos em ouro para presentear os seus súbditos favoritos - uma espécie de inspiração para o que Peter Carl Fabergé viria a produzir com os valiosíssimos Ovos Fabergé.
      Numa perspetiva mais literária, sustentada no que o escrito e um trabalho humanista permite ver, dir-se-ia que a origem panteísta dos credos é aquela que se funda e remete para um passado quando podiam ser vistos, nos campos, em época primaveril, muitos coelhos e lebres. Um mito popular referenciado pelo alemão Georg Franck von Franckenau, no século XVII (cerca de 1670), na obra Disputatione Ordinaria Disquirens de Ovis Paschalibus, ganha dimensão criativa e literária ao ser traduzido, na escrita, pela figura de uma Lebre de Páscoa, a trazer prendas para os mais novos que melhor se comportaram. Da Alemanha para o Reino Unido e daqui para os Estados Unidos, dissemina-se um universo entendível à libertação das agruras do inverno, à passagem e aos ritos primaveris, numa acomodação ética e moral conjugada com a ressurreição da natureza. A isto mesmo o cristianismo se havia já ajustado, numa visão libertadora e configuradora de outras passagens (histórico-filosóficas, éticas e religiosas).

       E com mais esta curiosidade, passemos a um novo ciclo: o da primavera que chegou e prepara a vinda do verão. Pelo menos, com a mudança da hora, os dias parecem mais alegres e luminosos (ou luminosos e alegres). Por ora, uma boa Páscoa para todos.

sábado, 16 de abril de 2022

Outras cores no olhar

      A bem do que não se diz.

   Quando me disseram que o mar e o céu eram azuis acreditei. Acrescentavam, ainda, que era azul ora marinho oa celeste. Gostei da cor e do que ela inspira(va): tranquilidade, serenidade, harmonia, espiritualidade. 
     A vida, contudo, lembra-nos que o verso tem o seu reverso. E, nessa medida, o azul também se deu a ver na monotonia, depressão, frieza. Ficou tão próximo do mal, da doença, do fim e da morte que fui à procura de uma paleta e do que esta tinha para me dar em alternativa.
     Busquei, então, novas cores. Descobri-as no olhar e nos matizes que pude contemplar:

Um universo de ouro e prata onde mar e céu ficaram sem azul (Foto VO)

       Encontrei uma bola de luz bem intensa na claridade, um mar brilhante feito de prata e um céu que se firmou de amarelo, laranja e ouro. Na variedade colorida, reparei no que é marinho e celeste sem azul. No momento, nesse instante apreciável dado a ver, tive um mar nos tons da sabedoria divina, enquanto o ouro do amor divino se mostrava para lá, logo acima do horizonte. Um céu de fogo e um oceano de água - dois exatos opostos - complementam-se no quadro natural da vida, evocando sabedoria e amor.
       Pode ter sido este um momento, já familiar a outros também vividos. Fica, por isso, a nota de que há instantes em que os opostos têm sempre a possibilidade de se emparelhar, de se enquadrar - tal como a prata, na representação da lua e do princípio feminino (lunar, passivo e branco), se ajusta ao ouro (por sua vez solar, ativo e amarelo), do princípio masculino. Eis, em suma, a riqueza da diversidade complementar.

     A bem do que se viu e do que possa ser a possibilidade da esperança; o princípio da aproximação, do complemento e da conciliação dos opostos (porque há guerras que não trazem felicidade a ninguém, eventualmente só para aqueles que momentânea e egoisticamente se comprazem em lançar mísseis - sejam reais sejam metafóricos - para destruir o semelhante).

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Fechar do pano, aplauso eterno

      Nunca se espera o que nos está destinado.

     Acordar com a notícia da morte de Eunice Muñoz é sentir que mais uma referência da nossa cultura da palavra e do teatro parte.
     A versatilidade e a qualidade de papéis por ela representados granjearam-lhe o es-tatuto de "Senhora do Teatro Nacional"; fi-gura de proa reconhe-cida no talento, no trabalho e na gene-rosidade. Se aos dois primeiros se associa o profissionalismo, no último espelha-se o humanismo de que aquele(s) também precisa(m). Por isso, se tornou exemplo de sucesso e de excelên-cia, por ser completa na representação e no ser - duas dimensões que soube preencher de e com verdade. Acrescentaria com dignidade - para si e para os outros, que soube acompanhar no palco e na vida. Foram 93 anos de vida e 80 de carreira; cerca de duas centenas de peças, com presenças no cinema e na televisão; quase cem produções fílmicas, telenovelas e programas de comédia. Muita obra para uma enorme artista e não menor mulher. Afabilidade e sorriso marcaram-na; por isso, conquistou também o público que a aplaudiu na qualidade da representação dos pequenos e grandes papéis.
    Terminou como atriz no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, em 28 de novembro de 2021, representando "A margem do tempo" (de Franz Xaver Kroetz), no mesmo local onde se estreou em 1941 com a peça "Vendaval" (de Virgínia Vitorino), com a Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro. Mesmo quando a voz denunciava debilidade na projeção, a intensidade emotiva estava lá; a força da palavra persistia, resiliente.
     Vi-a por duas vezes ao vivo: Dúvida (2007), no Teatro Maria Matos, e O Ano do Pensamento Mágico (2009), no Teatro Nacional de São João. Na primeira, contou com a contracena fabulosa de Diogo Infante; na última, era uma mulher só num imenso palco e com um longo texto monologado. Em ambas as representações, fui pelo nome "Eunice Muñoz" e nessa concessão própria de quem quer dar uma oportunidade às personagens criadas; de ambas saí com a sensação de andar nas nuvens, como se o lugar da vida fosse o céu que acolhe nuvens e estrelas.

       Na enunciada eternidade do seu papel na vida e no teatro, Eunice Muñoz é identificada na e pela arte que viveu. Uma figura da cultura portuguesa, e que muitos souberam ver como valor sem fronteiras. Aplauso de pé. 

quinta-feira, 14 de abril de 2022

A propósito de "Trilhar o Futuro"

       "Trilhar o Futuro - 2022": na senda do que nos une.

    Assim foi composto um texto, na sequência de um conjunto de atividades dinamizado no Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, entre os dias 7 e 8 de abril:

Texto próprio, a título coletivo, para todos os que nele se revejam

       Publicado no Defesa de Espinho, no dia 14 do corrente, ficam a opinião e o agradecimento a todos os que, mais direta ou indiretamente, contribuíram para a iniciativa.

        E assim se fez, mais uma vez, escola num agrupamento.